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Iggy Pop - Free ****

A fúria celebratória do ano de 1969, obviamente, passou ao lado do primeiro disco (homónimo) dos Stooges, que cunhou aquilo que conhecemos por punk rock. Iggy Pop, que na altura tinha por hábito sair do palco ensanguentado, é hoje um rebelde sereno e também ele se esqueceu da efeméride. A marca mais notória deste seu 18.º disco a solo é a total imersão no ambiente do jazz, seja nos temas mais vibrantes (“James Bond”, “Loves Missing”), seja especialmente nos mais atmosféricos, em que se destacam a abertura, com a declaração de princípios “I wanna be free” (quero ser livre) e as três declamações finais, que incluem um poema de Lou Reed (“We Are The People) e “Do Not Go Gently”, de Dylan Thomas. O trompetista Leron Thomas e a guitarrista Noveller são os grandes artifíces do som que por aqui se ouve, surfando basicamente sobre ritmos e sintetizadores. Apesar da evidente bipolaridade, este é já um dos melhores discos de Iggy Pop, correndo embora o risco de desagradar a gregos e troianos, precisamente devido a essa aposta de corrida em duas pistas.

Josh Ritter - Fever Breaks ***

Josh Ritter anda nisto há 20 anos e 10 discos. Num mundo – o da música pop e arredores – em que a novidade é o combustível, inventou uma fórmula discreta de sobrevivência, que consiste em inovar apenas o suficiente para prosseguir caminho numa estrada de trilhos conhecidos e seguros. Herdeiro das grandes sonoridades americanas, que podem ir de Dylan a Neil Young, de Tom Petty a Springsteen, faz-se rodear neste disco de Jason Isbell (produtor) e da sua banda de apoio, os Unit 400. O resultado é um som mais consistente e cuidado, sobre o qual Ritter tece o mais tradicional cancioneiro americano, sejam as canções de amor e separação (“On The Water”), sejam as de maior envolvimento político (“The Torch Committee” e “All Some Kind of Dream”, pela qual passa o drama o dos refugiados). “Old Black Magic” e “Losing Battles” são dois hinos de guitarras vibrantes, “Blazing Highway Home”, o reverso acústico.

Kyle Craft - Full Circle Nightmare **

Kyle Craft é um tipo engraçado e não tomem isso como um elogio. Dylan, diz ele, será uma das suas influências, especialmente na vertente lírica. Na verdade, apanhamo-lo muitas vezes a debitar versos em catadupa, tal como o Nobel faz, mas, como na anedota, Kyle apenas terá apreendido a música do poema e não propriamente o poema. Noutras palavras, a cantilena. As canções deste disco são, na prática, dez variações sobre um mesmo tema: quão diabólicas conseguem ser as mulheres quando não gosta, ou pior, deixam de gostar de um homem. E tudo isto martelado em sucessivas e pouco inspiradas metáforas. É pena. Porque há na postura de Kyle, no seu revivalismo e energia à anos setenta, terreno fértil para outros voos. Talvez um pouco menos acelerado, como em “Bridge City Rose”, ou especialmente “Slick & Delta Queen”. Este é o primeiro disco a sério (o anterior, de 2016, apesar de oficial é demasiado caseiro...) e talvez dê para afinar o conceito. Caso contrário...

Lizz Wright - Grace ****

Lizz Wright é uma daquelas vozes capazes de transformar a mais banal das canções numa oração, um exercício com tanto de religioso como de carnal. Não é o caso, no que respeita às canções, entenda-se. Joe Henry, o produtor, um homem de tradições, terá sugerido 70 canções, das quais Lizz escolheu nove, juntando-lhes mais uma, que assina em co-autoria. São temas que atravessam um século de música americana, do gospel aos blues, ao country e ao R&B. Dylan, Ray Charles, k. d. lang, Rose Cousins são alguns dos autores que por aqui passam. Lizz e Joe apropriam-se de cada canção e encenam pequenos momentos de magia. “Grace”, por exemplo, começa da forma mais subtil possível, com a voz no centro do palco, para mais tarde receber um coro que entra de mansinho e evolui para um sonante, embora contido, gospel. Ao sexto disco, Lizz Wright continua sem um minuto, um segundo, de deslize. De uma elegância intransigente.

Dan Auerbach - Waiting on a Song *****

Gene Chrisman tocou bateria em “Natural Woman”, de Aretha Franklin, e em “Son of a Preacher Man”, de Dusty Springfield. Bobby Wood, que aparece em “Sweet Caroline”, de Neil Diamond, e “Suspicious Mind”, do grande Elvis, exibe aqui teclas variadas por todo o disco. E depois há Duane Eddy, que tocou em centenas de discos e cuja guitarra abrilhanta por exemplo, “Cherrybomb”. E mais uma data de músicos de estúdio deste calibre, e compositores e produtores batidos de Nashville. E Mark Knopfler que dá um ar da sua graça a fazer o que sabe.
A lista e o peso das participações neste projecto rivalizam com os nomes sonantes cujos discos foram produzidos, nos últimos anos, por Dan Auerbach: Lana del Rey, Dr. John, Ray LaMontagne... Mas a lista também diz muito sobre o tipo de música que se ouve nesta segunda aventura a solo da alma mater dos Black Keys (a anterior, “Keep It Hid”, data de 2009). Soul, country, folk, funk, pop... isso tudo, mas embrulhado de uma forma brilhante e divertida. Beach Boys, Burt Bacharach, Beatles, Neil Young são os nomes que poderíamos acrescentar aos já mencionados, nem tanto como influências, mais como presenças involuntárias, tal a proximidade que por vezes é alcançada. Mas se quisermos encontrar mesmo algo de semelhante, na abordagem (música de estúdio instantânea, divertimento notório) e nos estilos percorridos, então é obrigatório lembrar os Traveling Wilburys, que no final dos anos 80 juntaram gente como Dylan, Harrison, Roy Orbison. São canções, 10 no total, quase todas com menos de três minutos, que apelam ao assobio, ao cantarolar, ao pé de dança.
Guitarras de vária sonoridade, palmas, coros afinadinhos e umas cordas, raras mas belas e certeiras. Nada a ver com os Black Keys. Será, talvez, demasiado fácil, talvez mesmo pouco exigente. E porque há-de toda a música ser complicada ou armada ao pingarelho?

Lloyd Cole - In New York, Collected Recordings 1988-1996 ****

“Deveria ter percebido que a minha carreira estava em declínio. Não percebi, porque as coisas ainda corriam bem na Escandinávia, França, Portugal...”. O segundo volume da obra completa de Lloyd Cole – o primeiro saiu em 2015 e reunia a discografia com os Commotions (1983-88) – é admirável a vários níveis, a começar pela sinceridade com que confessa os seus falhanços. Mesmo que esse falhanço seja, afinal, muito relativo, pelo menos do ponto de vista artístico. Citando Dylan, um dos seus ídolos assumidos: “there's no success like failure and failure's no success at all”... 
Esta caixa conta a história da aventura nova-iorquina, logo a seguir ao fim dos Commotions. Fá-lo através dos quatro discos oficiais desse período: “Lloyd Cole” (1990), “Don’t Get Weird on Me” (1991), “Bad Vibes” (1993) e “Love Story” (1995). Mas também com um disco rejeitado pela editora, em 1996, e um outro que reúne versões alternativas e canções nunca editadas desse mesmo período. Precioso para entender essa aventura americana é o pequeno livro que integra a edição e no qual Lloyd Cole e os músicos que o acompanharam nos contam a história desses anos. Um músico desorientado, numa década áspera. Na Inglaterra natal, dominava a Britpop, mas, na sua “circunstância americana”, ele tentava encontrar um lugar entre Dylan, Lou Reed, Van Morrison, Burt Bacharach. Com as editoras a exigirem-lhe êxitos, que não chegavam, músicas de dança e outras concessões, que ele não fazia, para finalmente lhe fecharem a porta. 
Resumidamente, disco a disco: Cole tenta dar continuidade e densificar os Commotions (90), faz um disco meio eléctrico, meio orquestral, numa tentativa de perceber o que queria (91), deita tudo a perder num disco denso e desfocado (93) e renasce das cinzas através de uma via mais acústica e folk (95), que prosseguirá na fase posterior. 
Esta série de colectâneas tem a virtude de (re)colocar Lloyd Cole no lugar que merece, como um dos compositores mais interessantes da sua época. Canções como “No Blue Skies”, “Downtown”, “Undressed”, “Margo’s Waltz” ou “Like Lovers Do” não o deixam mentir.

Bob Dylan - Triplicate *****

Os títulos destas 30 canções estão impressos em cada um dos três discos que compõem a colecção. E ainda mais duas vezes: num sucinto desdobrável e no interior da capa. Em nenhum desses locais Dylan arranjou espaço para identificar os seus autores. E, no entanto, estamos perante canções de monstros sagrados do cancioneiro americano: Irving Berlin, Jerome Kern, Hoagy Carmichael, Richard Rodgers, Oscar Hammerstein... É certo que algumas serão tão conhecidas que nem precisam de apresentação – boa desculpa... – mas outras não passam de obscuras baladas. Conforme escreve Tom Piazza, no tal desdobrável – e já tínhamos percebido pelos dois discos anteriores de Dylan no mesmo registo (“Shadows in the Night”, de 2015, e “Fallen Angels”, de 2016) -, estamos perante um exercício de apropriação radical das canções. Dylan não pretende cantá-las melhor que ninguém, nem sequer descobrir e mostrar um ângulo novo sobre cada uma delas, mas apenas interpretá-las como se fosse possível nesse gesto revelar-lhes uma qualquer essência. Essa apropriação, pelos vistos, inclui a anulação de qualquer traço de autoria, algo que o próprio músico abomina, logo ele que tão cioso é dos seus direitos de autor... Enfim, mais uma das idiossincrasias do velho Bob. 
E, já agora, o crime compensa, ou seja, essa apropriação resulta? Estranhamente, sim. Estranhamente porque, à terceira ronda, a ideia de Dylan a imitar Sinatra (sim, é novamente o repertório da Voz que está na baila...) permanece uma contradição nos seus próprios termos. E compensa porque ouvir, por exemplo, “September of my Years” ou “These Foolish Things” nesta voz, com um quinteto em que apenas sobressai a guitarra, é uma experiência quase mística. Perto, talvez, do propósito disto tudo.

Dead Man Winter - Furnace ****

Poderia chamar-se Clube dos Músicos Solitários. Involuntariamente solitários, desesperadamente solitários, temporariamente solitários. Músicos que sublimam a dor da separação em discos inteiros de ir às lágrimas e, às vezes, de redenção. Dave Simonett, o mais recente membro do clube, explica a razão: ou deitava tudo cá para fora agora, ou andaria o resto da vida a cantar isto (já quase todos sabemos que não é bem assim...). Desiludam-se, porém, se vêm aqui à procura de lamúria em baladas arrastadas. As letras são amargas (“I’m full of shit”), mas a música é da boa e, de certa maneira, animadora (“Red Wing Blue Wing”, da qual consta o verso citado). Há mais de uma década que Simonett liderava a banda de bluegrass Trampled by Turtles, mas esta é a segunda aventura sob a asa dos Dead Man Winter. Byrds, Band e Dylan são as influências mais evidentes. Musicalmente, a separação fez-lhe bem. O resto sara mais depressa do que parece.

The Molochs - America’s Velvet Glory ***

Na contracapa, à antiga, recomenda-se: para fãs dos Violent Femmes, Bob Dylan, The Modern Lovers, Mac DeMarco, Real Estate, Lou Reed & The Velvet Underground. A enumeração dá pistas, mas baralha bastante. Dos VU há uma citação evidente em “New York”, dos Modern Lovers há a atmosfera de garagem, mas para Dylan nem uma vénia sobra. Este é um disco de assumidas influências, mas elas andam muito mais perto dos Stones (“No More Cryin’” parece saído de Aftermath), ou até dos Pink Floyd de Barrett (“Charlie’s Lips”). O disco, na realidade, poderia ter sido gravado em 1965, tal é o descaramento com que assume a sonoridade daqueles dias de beat, garagem e psicadelismo. Lucas Fitzsimons, com uma biografia à maneira (nascimento em Buenos Aires, juventude em LA com guitarra encontrada aos 12, viagem à Índia a coroar a adolescência) é a alma de tudo. Vamos ter que esperar por uma segunda aventura para perceber se o ano de 65 é ponto de partida, ou se não sai disso mesmo.

Bob Dylan - Fallen Angels ****

Há o carteiro que toca sempre duas vezes. E há Dylan, que toca sempre duas ou três vezes. Ao longo de cinco décadas de carreira, não há disco de Dylan que sofra de solidão. No início, no auge da década de 60, na fase católica, no renascimento dos anos 2000, o que Dylan queria dizer ou demonstrar prolongou-se sempre por dois ou três discos. Volta a ser assim, com esta fase dos grandes standards da música americana centrados em Sinatra. Por isso, em 2016, temos o segundo capítulo da saga iniciada com "Shadows in the Night" (2015). A grande diferença está no tom: à melancolia e ao coração partido de "Shadows", sucede a exuberância dos amores e paixões. A voz de Dylan adapta-se quanto baste, embora a  sua debilidade característica funcione melhor no tom menor do primeiro disco. A grande melhoria está nas orquestrações, brilhantes em alguns casos ("Maybe You'll Be There", ou "Melancholy Mood"), mas sempre muito interessantes. A dúvida: haverá terceiro disco, ou irá Dylan reinventar-se novamente?

Jorge Palma e Sérgio Godinho - Juntos ao Vivo no Theatro Circo ****

Poderiam ter cantado uma canção de um dos ídolos comuns (Dylan, Brel, Zeca). Poderiam ter composto um novo tema a quatro mãos. Poderiam ter tomado conta de uma ou duas canções, fundi-las, reiventá-las... o diabo a sete. Mas não. A opção foi deliderada e completamente celebratória. Agora cantas tu uma minha e eu canto uma tua, mas entramos sempre os dois. Nove de Sérgio, oito de Jorge, que o respeitinho, apesar da amizade, é uma coisa muito bonita. O resultado é uma espécie de karaoke geracional, com a malta dos "entas" a cantarolar e, quiçá, a gingar ligeiramente na poltrona. Sim, com a pedalada que estavam poderiam ter arriscado mais, surpreender um bocadinho. Na opção conservadora sobressaem dois intérpretes em grande forma, a cantar, sobre arranjos de recorte também ele clássico, algumas das canções mais ouvidas em Portugal nas últimas quatro décadas. Quem pode fazer isto, se calhar não precisa de fazer mais.

Bob Dylan - The Best Of The Cutting Edge *****


As primeiras teses universitárias sobre Dylan versavam a sua poesia. E ainda há muito boa gente para quem o seu nome ecoa, especialmente, uma espécie de líder geracional, coisa que nunca foi, porque não quis. Ambas as apreciações são relativamente insuficientes para o definir, não apenas porque ficam aquém da sua complexidade enquanto artista, mas simplesmente porque o ignoram enquanto músico. Se há coisa que a Bootleg Series, iniciada em 1992, veio clarificar é precisamente o carácter vanguardista da sua expressão musical, ao revelar o processo criativo de cada fase da sua carreira. Esse aspecto é particularmente audível na avassaladora edição das Basement Tapes (2014) e, agora, nesta ainda mais espantosa The Cutting Edge, que recolhe os ensaios de estúdio e as várias versões preliminares dos seus três discos fundamentais: Bringing It All Back Home, Highway 61 Revisited e Blonde on Blonde, gravados ao longo de 14 meses (1965/66). O projecto é um tanto megalómano: uma versão de 18 discos, com todas as gravações realizadas; uma de seis discos, em que um deles contém 20 (!) versões de "Like A Rolling Stone"; e esta, que sintetiza esse período em 36 temas. Há de tudo um pouco: começos em falso, versões de demonstração só com piano, ensaios e versões verdadeiramente alternativas. Sim, muita das versões que aqui estão mostram-nos quase outras canções, seja porque o ritmo é diferente do que conhecemos, seja porque a letra não é exactamente a mesma, seja principalmente porque Dylan e os músicos ensaiavam, de facto, versões muito diversas das que conhecemos. Às vezes chegavam mesmo a abandonar alguma canção, como inexplicavelmente acontece com "She's Your Lover Now", apenas porque não atinavam com a versão correcta. Um flashback muito esclarecedor sobre o período mais criativo de um maiores criadores musicais do nosso tempo.

Mark Knopfler - EDP Cool Jazz, Parque dos Poetas


Mark Knopfler é um resistente e, a avaliar pela legião de fãs que o acompanha nos discos e concertos, tem razões para isso. É um resistente porque não há-de ser nada fácil, para quem inventou um estilo tão característico, manter-se fiel, fazendo orelhas moucas às muitas reviravoltas da cena musical. E o que é o estilo Knopfler? A guitarra, sim, aquele dedilhar característico herdado dos blues, mas também o ambiente de folk atmosférico, som cristalino, a enquadrar uma voz que nada deve a Dylan no timbre anasalado e pastoso. Eram assim os Dire Straits, em meados dos anos 70 quando irromperam num mundo rendido ao punk, eram assim, uma década depois, faz agora 30 anos, quando lançaram o mega sucesso global "Brothers in Arms", e é ainda assim Mark Knopfler, ao oitavo disco da sua carreia a solo, "Tracker", a base do concerto que o traz a Portugal, no âmbito de uma longa digressão europeia, a anteceder mais uma ronda americana. Em "Tracker", como já antes, no duplo "Privateer" (2012), recupera muita da sonoridade, mas especialmente, do espírito da banda que lhe deu fama. São discos de histórias feitas canções, escritas por um verdadeiro escritor de canções, interpretadas pelos velhos amigos de estrada (sete em palco), no tal registo que começa no folk de raiz celta e acaba em sonoridades jazzísticas, com pop, country e blues pelo meio. Claro que estes discos, especialmente o de 2015, dominam a apresentação, com "Broken Bones" a abrir e a dar o tom, mas haverá certamente lugar para uma romagem ao passado, com o inevitável "Sultans of Swing", "Romeo and Juliet", ou "So Far Away". É uma música que não fascina pela surpresa, mas antes pela segurança própria dos experientes. Se calhar, a música é capaz de ser uma boa âncora para enfrentar um mundo em tão grande agitação.

Bob Dylan - Shadows In The Night ****

Na única entrevista que deu a propósito deste disco, Dylan afirma que o seu propósito era manifestar respeito por canções que, ao longo dos anos, foram sendo desrespeitadas. Dito de outra forma, não tinha pretendido fazer "covers" (expressão inglesa utilizada para "versões", mas que também significa "cobrir", ou "tapar"), mas sim um trabalho de "uncover" (descobrir), ou seja, regressar à essência das canções. E é disso que se trata, num exercício que não pode deixar de lembrar as "Basement Tapes" (de 1967, mas reeditadas em pleno em 2014), em que o mesmo exercício foi realizado sobre temas folk. Agora, o repertório assenta em standards de duas fases da carreira de Frank Sinatra: o início, nos anos 40, e a década deslumbrante, mas profundamente melancólica, do "regresso" nos anos 50. Estamos, pois, perante um corpo de canções que versam as vicissitudes do amor e que deixa de fora o lado mais luxuriante e conhecido da Voz. E é, de facto, com respeito, mesmo com solenidade, que Dylan ataca estes dez temas. Na voz pausada, obviamente nada a ver com Sinatra, mas também nada a ver com o Dylan mais entaramelado de outras épocas, em que cada sílaba é audível e fica frequentemente suspensa, confundindo-se com os discretos traços de metais (trompete e trompa) ou do choro da pedal steel guitar. Aqui não há pequenas ou grandes orquestras, nem sequer piano, e a bateria é usada com extrema discrição. Toda a carga emotiva é colocada na letra das canções, de certa forma reafirmando a importância que a palavra sempre teve em toda a sua obra. Mas, reconheçamos, apesar de Dylan dizer o contrário, estas são canções que já foram muito bem interpretadas, restando agora saber se este exercício principalmente simbólico será compreendido pelo comum dos mortais.

Bob Dylan & The Band - Tte Bootleg Series, Vol. 11 - The Basement Tapes *****

Em 1967, Dylan tinha gravado sete discos, pelo menos quatro dos quais absolutamente históricos, tinha dado duas enormes pedradas no charco (a estreia e a electrificação) e, last but not the least, tinha recusado liminarmente ser o líder da geração que o tinha por líder. E foi aí que caiu da mota... O famoso acidente, ainda hoje envolto em mistério, afastou-o dos estúdios e dos palcos. Nesse Verão de 67, numa casa de campo, juntou os músicos que viriam a chamar-se The Band para semanas de gravação, em que, mais uma vez, voltou a fazer história. E, mais uma vez, à sua maneira: as gravações, artesanais, não foram publicadas. Apenas em 1975, após várias edições pirata, viram a luz oficial do dia, numa versão muito adulterada, a que nem faltam regravações posteriores e temas da Band que nem sequer faziam parte do acervo inicial. A verdade histórica só agora é reposta, meio século depois... Há duas edições: uma, de seis discos (138 temas), que reproduz cronologicamente todas as sessões; e outra, de dois CD (38 temas), com o essencial do que se passou em 67. Há de tudo um pouco: versões restauradas (sem os embelezamentos de 75), gravações alternativas e até alguns coisas completamente inéditas. Interessa é que, pela primeira vez, se percebe em profundidade o que se passou naquele Verão e se tornou audível no discografia imediatamente posterior. Dylan reinventava, mais uma vez, não apenas a sua música, mas também a de toda uma geração e das que se lhe seguiram. Beatles, Stones e a grande maioria abandonaram o psicadelismo e outras aventuras sónicas e, a partir de 67/68, regressaram à pureza e simplicidade das raízes. A chamada 'americana' e o 'alt-country', como ainda hoje se pratica, nasceram nessa revolução secreta de 67. Dylan ainda haveria de fazer outras.

The Art of McCartney ***

De certa forma, isto é um CD de karaoke e não, ao contrário do que se imaginaria, um disco de versões, de homenagem, etc. Isto porque a base instrumental da quase totalidade das canções é interpretada pela banda que costuma acompanhar McCartney ao vivo e, portanto, os artistas convidados limitam-se a colocar a voz sobre versões que, no fundo, não são muito diferentes das que já conhecemos. Tudo impecável e até um pouco divertido, se tivermos em conta o peso próprio das três dezenas que se juntaram à volta das canções dos Beatles, dos Wings e de McCartney a solo (Billy Joel, Roger Daltrey, Cat Stevens, Chrissie Hynde, Smokey Robinson...). As versões mais interessantes, como se imagina, são as que mais se libertam do original: "Yesterday" (Willie Nelson), "Wanderlust" (Brian Wilson) e "Bluebird" ( Corinne Bailey Rae), por exemplo. E há ainda a graça de Dylan a cantar "Things We Said Today"... só porque é Dylan.

Jake Bugg - Shangri-La **

Quatro em cada cinco críticas a Jake Bugg nos media anglo-saxónicos fazem referência a Dylan, uma prova mais, afinal, de que vivemos tempos verdadeiramente estranhos. O puto não tem voz que se apresente (conferir em "A Song About Love"), é certo, e entre o primeiro disco e este há um jogo deliberado de apelos nostálgicos, centrado entre o folk americano da primeira metade dos anos sessenta (Dylan, lá está) e a vaga brit pop dos anos 90 (os Oasis são uma influência clara em 'Kitchen Table' e, especialmente, 'Simple Pleasures'). Dylan e Jake são, porém, como as rectas paralelas, nunca se encontram. O mesmo acontece, aliás, com Rick Rubin, esse mito da produção, cuja marca neste disco é tão difícil de descortinar, descontado, talvez, o facto de ter apresentado a Jake a Chad Smith, o baterista dos Red Hot Chilli Peppers, mais que audível em 'What Doesn't Kill You', por exemplo. Digamos que, aos 20 anos e com dois discos no bolso, tem pela frente uma bela curva de aprendizagem.

LLoyd Cole - Standards ***

LLoyd Cole é um tipo honesto, pacato até. Devemos, por isso, encarar as demasiado óbvias citações de Dylan presentes neste disco como uma espécie de veneração, um tributo que qualquer um de nós poderia manifestar ao Todo Poderoso. Porque, fossemos induzidos pelo marketing associado, estaríamos agora aqui a zurzir no pobre do Lloyd, que, após ouvir Tempest, o mais recente do Mestre, teria visto a luz e sido finalmente conduzido para os caminhos resplandecentes da Grande Arte. Ora o que podemos ouvir em Standards é apenas uma citação de fraseado musical, mais verdadeiramente pela via dos Byrds, em "Period Piece", e um mais descarado pastiche em "Diminished Ex". E é o que há de Dylan por aqui, e não é muito nem especialmente brilhante. O que há, e isso é mesmo bom, é Lloyd Cole do mais clássico, a remeter directamente para os Commotions da década de 80. Ou seja, música mais luminosa do que a recente discografia a solo, toda ela muito caseira e sombria. Aqui imperam as guitarras em vários formatos, sublinhadas pelos característicos coros, e uma vaga inspiração country nas baladas, como é o caso de "Myrtle and Rose", que Johnny Cash não desdenharia incluir nos famosos últimos discos (nem lhe faltam as referências bíblicas...). Imutável, na música de Lloyd Cole, independentemente da roupagem mais ou menos profissional, é aquela aura de uma melancolia que sabe bem. A despedida de "Silver Lake", a nostalgia de "Women's Studies", ou a ambivalência de "Kids Today" são apenas alguns exemplos. Essa doce tristeza é, afinal, a marca de água que suplanta qualquer citação, mais ou menos estudada, de Dylan.

Bob Dylan - Tempest ****

Dylan é a medida de Dylan e isso pode ser um problema. Falamos do homem que, há cinco décadas, estabeleceu cânones, não apenas na música, mas na cultura tal como a entendemos no sentido mais lato. O problema é que esse Dylan, sendo a medida de todas as coisas, não é repetível, ou sequer comparável, e não é suposto que do mesmo Dylan surjam novos cânones. Por isso, chega a ser desonesto o que muita imprensa anglo-saxónica tem feito por estes dias – sobrevalorizar Tempest e estabelecer comparações, por vezes canção a canção, com as obras-primas (não há que ter medo das palavras) dos anos sessenta. O Dylan de Tempest é o Dylan que muito cedo percebeu a armadilha de ser um mito vivo, recusou o altar, tropeçou uma e outra vez, naufragou em discos menores, para se reerguer encarnado de novo em trovador de amores urbanos, paisagens interiores devastadas e um certo desencanto com o mundo. Há uma década que assim é. O ciclo que musicalmente se poderá catalogar como de pré-rock, construído com sonoridades austeras de blues, rockabilly, country. O início de Tempest faz lembrar um velho programa de rádio em Onda Média e é assim que somos desafiados para uma viagem que nos levará a territórios maioritariamente obscuros. A tragédia do Titanic reinventada, ao ponto de colocar na acção original o Leonardo DiCaprio da versão cinematográfica. O amigo Lennon, mais que o músico, evocado através das suas próprias palavras. Uma “Pay in Blood” com riffs de guitarra roubados aos Stones. Uma “Narrow Way” encharcada de blues do Mississipi. Uma “Scarlet Town” feita valsa triste, desconjuntada. O violino, ou o acordeão, a acentuarem a toada melancólica. E depois os poemas, jogos de enganos, em que cada um ouve o que quer, nem sempre ouvindo o que ouvira antes. Mas em que nada se aproxima do sublime. Caso para dizer que Dylan está em forma. Sim, mas.

The Tallest Man On Earth - There’s No Leaving Now ***

Por mais voltas que se dê, não há escapatória – tudo em Kristian Matsson soa a Dylan. Deve acontecer a muitos suecos, presume-se, isto de perseguirem doentiamente modelos anglo-saxónicos. Daí, talvez, o sucesso sueco, ou talvez mesmo o resultado menos agradável, todos aqueles livros e filmes negros.  The Tallest Man On Earth, assim modestamente se apresenta Kristian, não é pera doce de se roer. Tem a voz nasalada, o dedilhar de guitarra e aquela urgência de Dylan, mas tem igualmente uma escrita densa e sombria, plena de referências naturalistas, de sentido frequentemente obscuro. Neste terceiro disco, damos graças quando chegamos a meio e, na canção-título, o piano substitui a guitarra acústica obsessiva, mesmo que, mais à frente, talvez a melhor canção do CD (“Little Brother”) regresse ao modelo guitarra-Dylan/voz-Dylan. Em suma, está ligeiramente mais redondo que as gravações anteriores, mas mantém o tom caseiro.