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Josh Ritter - Fever Breaks ***

Josh Ritter anda nisto há 20 anos e 10 discos. Num mundo – o da música pop e arredores – em que a novidade é o combustível, inventou uma fórmula discreta de sobrevivência, que consiste em inovar apenas o suficiente para prosseguir caminho numa estrada de trilhos conhecidos e seguros. Herdeiro das grandes sonoridades americanas, que podem ir de Dylan a Neil Young, de Tom Petty a Springsteen, faz-se rodear neste disco de Jason Isbell (produtor) e da sua banda de apoio, os Unit 400. O resultado é um som mais consistente e cuidado, sobre o qual Ritter tece o mais tradicional cancioneiro americano, sejam as canções de amor e separação (“On The Water”), sejam as de maior envolvimento político (“The Torch Committee” e “All Some Kind of Dream”, pela qual passa o drama o dos refugiados). “Old Black Magic” e “Losing Battles” são dois hinos de guitarras vibrantes, “Blazing Highway Home”, o reverso acústico.

Kyle Craft - Full Circle Nightmare **

Kyle Craft é um tipo engraçado e não tomem isso como um elogio. Dylan, diz ele, será uma das suas influências, especialmente na vertente lírica. Na verdade, apanhamo-lo muitas vezes a debitar versos em catadupa, tal como o Nobel faz, mas, como na anedota, Kyle apenas terá apreendido a música do poema e não propriamente o poema. Noutras palavras, a cantilena. As canções deste disco são, na prática, dez variações sobre um mesmo tema: quão diabólicas conseguem ser as mulheres quando não gosta, ou pior, deixam de gostar de um homem. E tudo isto martelado em sucessivas e pouco inspiradas metáforas. É pena. Porque há na postura de Kyle, no seu revivalismo e energia à anos setenta, terreno fértil para outros voos. Talvez um pouco menos acelerado, como em “Bridge City Rose”, ou especialmente “Slick & Delta Queen”. Este é o primeiro disco a sério (o anterior, de 2016, apesar de oficial é demasiado caseiro...) e talvez dê para afinar o conceito. Caso contrário...

Lizz Wright - Grace ****

Lizz Wright é uma daquelas vozes capazes de transformar a mais banal das canções numa oração, um exercício com tanto de religioso como de carnal. Não é o caso, no que respeita às canções, entenda-se. Joe Henry, o produtor, um homem de tradições, terá sugerido 70 canções, das quais Lizz escolheu nove, juntando-lhes mais uma, que assina em co-autoria. São temas que atravessam um século de música americana, do gospel aos blues, ao country e ao R&B. Dylan, Ray Charles, k. d. lang, Rose Cousins são alguns dos autores que por aqui passam. Lizz e Joe apropriam-se de cada canção e encenam pequenos momentos de magia. “Grace”, por exemplo, começa da forma mais subtil possível, com a voz no centro do palco, para mais tarde receber um coro que entra de mansinho e evolui para um sonante, embora contido, gospel. Ao sexto disco, Lizz Wright continua sem um minuto, um segundo, de deslize. De uma elegância intransigente.

Dan Auerbach - Waiting on a Song *****

Gene Chrisman tocou bateria em “Natural Woman”, de Aretha Franklin, e em “Son of a Preacher Man”, de Dusty Springfield. Bobby Wood, que aparece em “Sweet Caroline”, de Neil Diamond, e “Suspicious Mind”, do grande Elvis, exibe aqui teclas variadas por todo o disco. E depois há Duane Eddy, que tocou em centenas de discos e cuja guitarra abrilhanta por exemplo, “Cherrybomb”. E mais uma data de músicos de estúdio deste calibre, e compositores e produtores batidos de Nashville. E Mark Knopfler que dá um ar da sua graça a fazer o que sabe.
A lista e o peso das participações neste projecto rivalizam com os nomes sonantes cujos discos foram produzidos, nos últimos anos, por Dan Auerbach: Lana del Rey, Dr. John, Ray LaMontagne... Mas a lista também diz muito sobre o tipo de música que se ouve nesta segunda aventura a solo da alma mater dos Black Keys (a anterior, “Keep It Hid”, data de 2009). Soul, country, folk, funk, pop... isso tudo, mas embrulhado de uma forma brilhante e divertida. Beach Boys, Burt Bacharach, Beatles, Neil Young são os nomes que poderíamos acrescentar aos já mencionados, nem tanto como influências, mais como presenças involuntárias, tal a proximidade que por vezes é alcançada. Mas se quisermos encontrar mesmo algo de semelhante, na abordagem (música de estúdio instantânea, divertimento notório) e nos estilos percorridos, então é obrigatório lembrar os Traveling Wilburys, que no final dos anos 80 juntaram gente como Dylan, Harrison, Roy Orbison. São canções, 10 no total, quase todas com menos de três minutos, que apelam ao assobio, ao cantarolar, ao pé de dança.
Guitarras de vária sonoridade, palmas, coros afinadinhos e umas cordas, raras mas belas e certeiras. Nada a ver com os Black Keys. Será, talvez, demasiado fácil, talvez mesmo pouco exigente. E porque há-de toda a música ser complicada ou armada ao pingarelho?

Dead Man Winter - Furnace ****

Poderia chamar-se Clube dos Músicos Solitários. Involuntariamente solitários, desesperadamente solitários, temporariamente solitários. Músicos que sublimam a dor da separação em discos inteiros de ir às lágrimas e, às vezes, de redenção. Dave Simonett, o mais recente membro do clube, explica a razão: ou deitava tudo cá para fora agora, ou andaria o resto da vida a cantar isto (já quase todos sabemos que não é bem assim...). Desiludam-se, porém, se vêm aqui à procura de lamúria em baladas arrastadas. As letras são amargas (“I’m full of shit”), mas a música é da boa e, de certa maneira, animadora (“Red Wing Blue Wing”, da qual consta o verso citado). Há mais de uma década que Simonett liderava a banda de bluegrass Trampled by Turtles, mas esta é a segunda aventura sob a asa dos Dead Man Winter. Byrds, Band e Dylan são as influências mais evidentes. Musicalmente, a separação fez-lhe bem. O resto sara mais depressa do que parece.

Jorge Palma e Sérgio Godinho - Juntos ao Vivo no Theatro Circo ****

Poderiam ter cantado uma canção de um dos ídolos comuns (Dylan, Brel, Zeca). Poderiam ter composto um novo tema a quatro mãos. Poderiam ter tomado conta de uma ou duas canções, fundi-las, reiventá-las... o diabo a sete. Mas não. A opção foi deliderada e completamente celebratória. Agora cantas tu uma minha e eu canto uma tua, mas entramos sempre os dois. Nove de Sérgio, oito de Jorge, que o respeitinho, apesar da amizade, é uma coisa muito bonita. O resultado é uma espécie de karaoke geracional, com a malta dos "entas" a cantarolar e, quiçá, a gingar ligeiramente na poltrona. Sim, com a pedalada que estavam poderiam ter arriscado mais, surpreender um bocadinho. Na opção conservadora sobressaem dois intérpretes em grande forma, a cantar, sobre arranjos de recorte também ele clássico, algumas das canções mais ouvidas em Portugal nas últimas quatro décadas. Quem pode fazer isto, se calhar não precisa de fazer mais.

Mark Knopfler - EDP Cool Jazz, Parque dos Poetas


Mark Knopfler é um resistente e, a avaliar pela legião de fãs que o acompanha nos discos e concertos, tem razões para isso. É um resistente porque não há-de ser nada fácil, para quem inventou um estilo tão característico, manter-se fiel, fazendo orelhas moucas às muitas reviravoltas da cena musical. E o que é o estilo Knopfler? A guitarra, sim, aquele dedilhar característico herdado dos blues, mas também o ambiente de folk atmosférico, som cristalino, a enquadrar uma voz que nada deve a Dylan no timbre anasalado e pastoso. Eram assim os Dire Straits, em meados dos anos 70 quando irromperam num mundo rendido ao punk, eram assim, uma década depois, faz agora 30 anos, quando lançaram o mega sucesso global "Brothers in Arms", e é ainda assim Mark Knopfler, ao oitavo disco da sua carreia a solo, "Tracker", a base do concerto que o traz a Portugal, no âmbito de uma longa digressão europeia, a anteceder mais uma ronda americana. Em "Tracker", como já antes, no duplo "Privateer" (2012), recupera muita da sonoridade, mas especialmente, do espírito da banda que lhe deu fama. São discos de histórias feitas canções, escritas por um verdadeiro escritor de canções, interpretadas pelos velhos amigos de estrada (sete em palco), no tal registo que começa no folk de raiz celta e acaba em sonoridades jazzísticas, com pop, country e blues pelo meio. Claro que estes discos, especialmente o de 2015, dominam a apresentação, com "Broken Bones" a abrir e a dar o tom, mas haverá certamente lugar para uma romagem ao passado, com o inevitável "Sultans of Swing", "Romeo and Juliet", ou "So Far Away". É uma música que não fascina pela surpresa, mas antes pela segurança própria dos experientes. Se calhar, a música é capaz de ser uma boa âncora para enfrentar um mundo em tão grande agitação.

Charlotte Gainsbourg - Stage Whisper **

Charlotte Gainsbourg tem uma voz banal e é uma intérprete meramente sofrível. Os seus dois discos a solo (5:55 e IRM) foram, apesar disso, bem recebidos. Charlotte sabe escolher as companhias (Jarvis Cocker, Air e Beck assinam a quase totalidade dos temas desses discos) e assume uma atitude blasée, uma sensualidade distante, que o mundo gosta de associar a França e às francesas em particular. O gesto de editar um disco em que metade das canções são sobras (de IRM) e a outra metade uma actuação ao vivo parece não ter sido boa ideia, principalmente porque ficam excessivamente expostas todas as fragilidades. Um exemplo: a versão de Just Like a Woman, de Dylan, é tão insípida que não apetece repetir a audição. O trabalho de estúdio tem algumas canções razoáveis de Beck embrulhadas em electrónica dançável e, percebe-se agora melhor, muito trabalho à volta da voz de Charlotte. Decepcionante.

Adele - Live At The Royal Albert Hall ****

Bem vindos, então, ao Royal Albert “Fuckin” Hall. É assim que Adele cumprimenta os milhares que, apenas em meia hora, esgotaram a mítica sala de Londres, obviamente o palco mais desejado por esta filha da cidade que, aos 23, tem o mundo a seus pés. Ao longo de hora e meia de concerto, raramente Adele perde a oportunidade de verbalizar as mais variadas declinações da palavra “fuck”. A coisa não passou despercebida a alguma imprensa americana – logo no ano em que a inglesa bateu recordes históricos de vendas no outro lado do Atlântico – e a editora acabou por colocar na caixa do DVD o famoso autocolante a alertar para a linguagem explícita, uma aberração, se tivermos em conta, as densas mas bem comportadas letras das canções de Adele. Mas esta é apenas uma das grandes contradições de uma artista que cultiva um “look” mais familiar aos fãs de Susan Boyle que aos milhões que compraram os seus dois primeiros discos, 19 (2008) e 21 (2011). Neste concerto, por exemplo, a exuberância, alegria e até estridência do seu relacionamento com o público – que ocupa quase tanto tempo como as canções, tal é a conversa... – contrasta flagrantemente com um repertório assumidamente autobiográfico todo ele construído à volta de separações dolorosas. Interlúdios à parte, estamos perante um fabuloso concerto, a que o som e a imagem de altíssima qualidade transformam numa experiência excepcionalmente gratificante. Sem nunca ultrapassar o protagonismo da artista, a orquestra faz o que a tem a fazer de forma competentíssima. E Adele não lhes fica atrás. Ouça-se, por exemplo, a interpretação de “Make You Feel My Love”, de Dylan e dedicada a Amy Winehouse, ou o empenho emprestado a “Take It All”, para se perceber como Adele está uns furos acima da classe de raparigas canoras que ultimamente tem atacado os tops. A edição em DVD é completada com CD, que reproduz o mesmo alinhamento, mas sem as longas e “fucking” interacções com o público. Há ainda um documentário de bastidores (9 min.), mais ou menos irrelevante. Como quem diz, com um espectáculo daqueles ainda estavam à espera de extras?

Tom Petty and The Heartbreakers - Mojo ***


Pronto, já todos percebemos: Tom Petty sabe escrever e interpretar blues. Podemos continuar a ouvir música interessante? Ah não? É preciso explicar? Então é assim…
Tom Petty anda perdido há umas três décadas, precisamente desde que decidiu gravar o primeiro disco. O homem começou por ser confundido com o punk, e depois compararam-no a Springsteen, e depois (enfim…) a Dylan, e por aí fora. E tudo isto porquê? Simples – Tom e os seus Heartbreakers nunca conseguiram encontrar uma voz própria e, acima de tudo, marcante. Fizeram, por isso, discos sofríveis, aceitáveis até, mas nunca brilhantes.
Este Mojo não foge à regra. É um tratado de blues. Há-os de todos os estilos – à la Clapton (“Running Man’s Bible”, psicadélicos “First Flash of Freedom”, talkin’, pesados, leves, quase-reaggae (“Don’t Pull Me Over”) e até (sim) dylanianos (“No Reason To Cry”). Tudo muito certinho. Excepto a emoção de que estas coisas são feitas e que por aqui não mora. Enfim, o costume.

Roky Erickson w/ Okkervil River - True Love Castout All Evil ****


Aviso: esta música pode causar loucura.  Foi o que aconteceu com quem a compôs e agora a reinterpreta. Roky Erickson foi um dos génios loucos dos anos 60, com aquela que é considerada uma das primeiras bandas psicadélicas, os 13th Floor Elevators. Nas décadas que se seguiram, foi mais louco que génio, com passagens registadas por hospícios e prisões dos EUA.
Agora, aos 63, apoiado pelas guitarras, vozes e produção dos Okkervil River, expoentes indie do seu Texas natal, ressuscita para nos mostrar 12 das canções, quase autobiográficas, que foram ficando espalhadas e perdidas pela sua discografia.
É um disco belo e sufocante. Há peças dolorosas (“Goodbye Sweet Dreams”), agrestes a fazer lembrar o registo que mais o caracterizou (“John Lawman”), mas igualmente canções de grande beleza e intensidade lírica (“Forever”), que os mais distraídos poderiam julgar fazerem parte de alguma das últimas gravações de Dylan. O lado menos sombrio do génio.

Pretenders - Break Up The Concrete ****

Este é o melhor disco dos Pretenders em muitos anos. E, se rivaliza com os primeiros da banda (anos 80) nesse estatuto, ele é em tudo diferente, mantendo apenas a voz a garra de Chrissie Hynde como fio condutor. Porque este é um disco americano, como americana é Chrissie. Embora os Pretenders sejam ingleses, como inglês é o seu som. A verdade é que o regresso da alma do grupo ao Oiho natal mudou tudo. Os Pretenders continuam a ser uma das melhores bandas de rock adulto com rebeldia qb, mas agora navegam em águas quase exclusivamente americanas, basicamente rockabilly e country. E o resultado é altamente audível. Seja na abertura, com “Boots of Chinese Plastic”a lembrar Dylan, seja na divertida “Break Up The Concrete”, ou na suave “One Thing Never Changed”. Curiosamente, a editora não acreditou no disco e a edição que agora nos chega tem como bónus um Best Of. Nunca é demais.

Jason Collett - Here’s To Being Here ****

Eis um daqueles discos destinados a sobrar para os saldos da próxima estação. Jason Collett é um nome que pouco ou nada dirá mesmo aos mais atentos consumidores de música, apesar de já andar nestas coisas há mais de uma década. E, no entanto, este é um disco que merece uma oportunidade.
Jason, sim, é mais um desses autores profundamente inspirados por uns certos anos 70. Os anos de ouro dos cantautores, um estilo muito próprio de cantar a vida embalada por pianos, guitarras e uns amigos nos coros. Para quem gosta de colocar as coisas em termos geográficos, diríamos que Jason fica assim um pouco a sul de Rufus Wainwright, mas a norte de Jack Johnson, recebe uns arzinhos de Dylan e diverte-se imenso com o que faz. Ouviu os Stones e decidiu copiar o coro de “Sympathy For The Devil” (em “Out Of Time”) e ouviu George Harrison e achou que ficaria bem aquela guitarra em “Sorry Lori”.
Bom, o parágrafo anterior era mesmo só para situar o objecto musical não identificado. Jason Collett é canadiano, de Toronto, passou por vários grupos (incluindo o relativamente conhecido Broken Social Scene) e este é o seu quarto esforço a solo. Há mais de uma década que só come comida orgânica, mas isso não se nota muito no disco, como não se nota o seu activo envolvimento político.
O disco foi gravado em apenas duas sessões, as canções são quase todas de bom recorte (digamos que não ficariam mal na maioria das estações de rádio…), com histórias de amor e outras banalidades, vestidas de cores quase sempre alegres, com a guitarra, nas suas mais variadas sonoridades, como adorno central.
Não estaremos perante um artista incontornável, mas este é um nome a reter. E a ouvir por quem gosta de coisas boas e está farto dos mesmos nomes.

Joan Baez - Day After Tomorrow ****

Joan Baez tem 67 anos, a sua voz ressente-se e isso… nem é mau de todo. Já no disco de regresso, após meia dúzia de anos de silêncio (Dark Chords on a Big Guitar, de 2003), isso se notara. Baez perdeu aquele tom ligeiramente estridente que lhe conhecíamos desde os anos 60, tem a voz mais débil, menos elástica, mas igualmente mais serena e, em certa medida, mais audível.
Este disco assinala o 50.º aniversário de carreira e tudo nele revela um grande esforço de perfeição. Ou seja, de regresso à pureza das raízes, como se fosse possível suspender o tempo para as comemorações.
A produção, a cargo de Steve Earle, que também assina três das canções e acompanha Baez numa delas, pôs a velha activista a cantar temas assinados por grandes autores contemporâneos, como ela fez nos na anos 60, e envolveu tudo numa sonoridade acústica de grande simplicidade, tal e qual como Baez fizera nos anos 60. Para que tudo fosse perfeito, bastaria o impossível – que ainda houvesse causas à volta das quais cantora e ouvintes se reunissem em coro.
O resultado, não sendo surpreendente – a ideia não era seguramente essa –, não deixa de ser agradável. Por exemplo, na canção que dá título ao CD, uma evocação da guerra do Iraque por Tom Waits, temos Baez de viola em punho, quase como reza a lenda. Registo ainda para o tema de Costello e T. Bone Burnett («Scartet Tide»), escrito para o filme Cold Moutain e que aqui tão bem ilustra a veia folk da ex-amiga de Dylan.
«God is God» (quem diria?) e «I Am A Wanderer», escritas de propósito por Earl para este disco, são outros dois excelentes exemplos dessa Baez vintage que se tenta atingir.
Um disco que, enfim, não ressuscita os anos 60, nem dá nada de muito novo ao mundo. Mas que se ouve sem aborrecer. Nada mau, nos dias que correm.

Beth Rowley - Little Dreamer ***

Talvez seja a decadência definitiva do Império… A Inglaterra destes dias está cheia de loiras e morenas que cantam como se fossem negras americanas de há umas décadas atrás. O filão Winehouse parece inesgotável. Convenhamos que, moda por moda, esta até nem é má de todo.
Beth Rowley é mais uma dessas raparigas que parece ter ouvido na adolescência (já tem 26, uma sénior, portanto…) toda a colecção de velhos discos de vinil que havia lá por casa. Os pais, rezam as crónicas, eram missionários, ela nasceu no Peru, mas cresceu em terras de Sua Majestade. Os pais, presume-se, eram dados à música americana de raiz religiosa.
Por isso, Beth não se fica pelo R&B das outras e vai mais atrás, ao gospel e aos espirituais. É com uma bem conhecida canção tradicional que abre o disco (“Nobody’s Fault But Mine”) e a que se segue (“Sweet Hours”), co-assinada pela própria, como que pretende desmonstrar que a lição foi bem aprendida e que, no século XXI, se podem escrever canções idênticas às que se ouviam nos campos de algodão.
O resto do disco desenvolve-se a partir dessa toada, mas com derivações interessantes pelos terrenos do blues, do jazz sofisticado (“Almost Persuaded”), do reggae e, claro, do mais puro pop. “Oh My Life”, o primeiro sucesso de um CD que anda pelos tops de Londres, arrancando com um secção de sopros quase soul, evolui para uma cançãozinha que bem podia ter concorrido à Eurovisão. “I Shall Be Released”, de Dylan, surge num alegre reggae, quase a pedir para entrar numa qualquer festa de Verão.
É claro que Beth Rowley, além da razoável técnica para escrever canções, patenteia uma voz à altura destas aventuras. Talvez demasiado certinha, com um certo défice de paixão que as circunstâncias exigiriam.

Carla Bruni - Comme Si Rien N’Etait *****

Comecemos pelo que importa: este é o melhor dos três discos de Carla Bruni. E tem isso alguma coisa a ver com Sarkozy? Sim e não. Sim, porque um disco é também a sua circunstância e a verdade é que o casamento com o Presidente francês confere às canções de Carla Bruni uma outra leitura, entre o contraste e a insinuação, que transformam a sua audição numa experiência mais rica. Que ela assuma, em “Je Suis Un Enfant”, que continua criança, apesar dos seus 40 anos e 30 amantes, será apenas o mais evidente dos exemplos.
De nada vale – antes pelo contrário… - fingir a ex-modelo e agora cantora não é também Primeira Dama, ainda para mais por via do polémico Sarkozy. Todos temos a ganhar com esse reconhecimento, a começar por ela, obviamente…
Mas este disco também é o melhor de Carla Bruni por motivos que nada têm a ver com esse seu novo estatuto. Estamos perante um trabalho que confirma uma compositora madura, para o que muito contribui o facto de, ao contrário das gravações anteriores, as canções estarem agora mais vestidas de roupagens. Normalizadas, embora maioritariamente através de arranjos de enorme subtileza, as canções sobressaem mais que no anterior registo excessivamente intimista. E fica patente para os menos crédulos que a raiz fundamental de Bruni é, nada mais nada menos, que a tradicional “chanson”. Os mais ortodoxos clamarão “heresia”, mas vale a pena, por exemplo, perceber Brassens por detrás de “La Tienne”. É claro que Carla é deste tempo e, por isso, nada é assim tão simples e as influências continuam a passar pelo blues (“Tu Es Ma Came”, outra canção escandalosa…), assim como os temas são eles próprios de outras origens (“You Belong To Me”, canção americana dos anos 50 que Dylan também cantou).

Neil Diamond - Home Before Dark *****

Provavelmente, a maioria daqueles a quem este disco se destina estarão ainda traumatizados por essa incrível xaropada musical e cinematográfica a que chamaram Fernão Capelo Gaivota (1973). Gente que já viveu meio século. Mas essa náusea de gaivotas românticas é relativamente injusta.
Neil Diamond escreveu para a voz de outros alguns dos maiores sucessos dos anos 60. Manteve-se activo. E agora renasceu em vida, pela mão de Rick Rubin, o mago da última fase de Johnny Cash, para uma encarnação de simplicidade radical.
Foi em 2005 que, com 12 Songs, começou a colaboração com Rubin e que a carreira estagnada de Diamond conheceu um sobressalto. O trabalho de produção despiu-lhe as fanfarras e as orquestras melosas e deixou-lhe apenas guitarras, pianos e um ou outro discreto arranjo de cordas. Sobressaía, assim, a enorme força de uma voz amadurecida a servir canções de grande recorte clássico.
A receita repete-se integralmente com este Home Before Dark. Diamond surge simultaneamente poderoso, pela composição rigorosa e pela lírica profunda, e frágil, sem grandes artefactos de produção que lhe escondam as fragilidades da idade.
Continua um romântico incorrigível, mas os anos deram-lhe a sabedoria da sobrevivência perante os desaires do coração. Nada de muito grave, apenas canções sem consequências de maior. Grandes canções, como “Pretty Amazing Grace”, “The Power Of Two”, ou “If I Don’t See You Again”. Ou o sentido de humor de citar um dos seus maiores sucessos, “Song Sung Blue”, na fracção de segundo inicial de “Act Like a Man”.
Rubin leva-o ainda a cantar Dylan ou Simon and Garfunkel, acentuando assim o paralelismo com Cash. Sabe-a toda, este Rick.