Minta & The Brook Trout - Slow ****

Se o blues tivesse nascido nas margens do Mediterrâneo, provavelmente seria assim, ainda mais indolente, da calma que vem do calor, do céu azul, e das noites abafadas e brisas imaginadas. Se a folk americana tivesse nascido nas margens do Mediterrâneo, etc., etc.. As influências de Francisca Cortesão, autora destes onze temas, cantora, multi-instrumentista, com especial predilecção pelas guitarras, produtora e alma dos Minta & The Brook Trout (designação inspirada em Virginia Woolf e Sufjan Stevens), são clara e assumidamente anglo-saxónicas, especialmente americanas, mais concretamente os blues e o folk. Este é terceiro disco de longa duração da banda (homónino, em 2009, e Olympia, em 2012) e assinala algumas mudanças no elenco - a Francisca, Mariana Ricardo e Nuno Pessoa, juntam-se agora Bruno Pernadas (guitarra) e Margarida Campelo (teclas). O título deste CD, Slow, dizem eles, resulta do longo tempo que levou a fazer, mas aplica-se na perfeição ao tipo de música que desde sempre praticam. Uma música serena, sem pressas, extremamente contida, mesmo quando - como acontece mais que uma vez neste disco - o apelo à dança seja por demais evidente (por exemplo, em "Bangles", ou "Sand"). Trata-se, muitas vezes, de uma lentidão apenas aparente, que deriva mais da indolência da voz principal e da contenção instrumental, que do próprio ritmo interno das canções (por exemplo, "I Can't Handle The Summer" seria toda outra canção se a banda quisesse, digamos, soltar a franga...). Falta, talvez, uma ou outra ocasião em que banda solte o ritmo e o deixe fazer a festa. Porque temas lindos de morrer já por aqui há muitos, como "Old Habits", recuperado do projecto paralelo They're Heading West, mas aqui numa versão etérea e particularmente feliz.

Patti Smith - M Train ****



"Do que perdi e não consigo encontrar, lembro-me. O que não posso ver, procuro que venha ter comigo. Trabalhando dentro de uma sucessiva corrente de impulsos, tentando aproximar-me de alguma iluminação" (do último capítulo, A hora do meio-dia), É assim o mais recente livro de Patti Smith, uma viagem no tempo pela sua paisagem íntima. Um laborioso trabalho de construção da memória. O relato do naufrágio que é a vida, com a sua incessante peregrinação de perdas, como se esse reconhecimento fosse essencial para que tudo faça sentido. 

É um livro bem diferente do anterior, Apenas Miúdos, com o qual a sua escrita ganhou notoriedade e, à semelhança deste, recebeu prémios literários e outras distinções. Nesse, havia um fio condutor, a sua relação com o fotógrafo Robert Mapplethorpe, e era à volta dessa relação que tudo acontecia, especialmente a explosão cultural alternativa na Nova Iorque do dealbar dos anos setenta. Nesse sentido, esse livro, sendo de memórias - um requiem, como a autora se refere a estes seus exercícios memorialisticos -, aproxima-se mais do romance, de uma narrativa. Agora, é simplesmente a memória a trabalhar em roda viva. Daí a letra M do título. Como quando pensamos em algo, que nos traz à memória outra memória e assim sucessivamente.

O livro começa num café de Greenwich Village - e há muitos mais cafés no livro, locais privilegiados de libertação do pensamento -, que evoca à autora o sonho de ter um café próprio, e depois uma viagem à Guiana Francesa, com o marido Fred Sonic Smith, entretanto falecido e que é outro traço de união destas histórias, em busca de pedras e terra para oferecer a Jean Genet - os escritores franceses, outra da suas predilecções. Depois deste capítulo, outras duas dezenas de "árias" se lhe seguem no mesmo registo. Este não é um livro em que música surja em primeiro plano, ou sequer em segundo, como no anterior. E Patti Smith nem gosta muito de se apresentar como música, preferindo a escrita como inclinação dominante. Mas a sua escrita, inserindo-se embora numa corrente muito americana da literatura, que cruza o descritivo seco, imagético, com o onírico e o lírico, deve à sua actividade mais conhecida uma muito evidente musicalidade. Como se estes livros pudessem ser declamados, a par do que frequentemente faz nos discos e, especialmente, nos concertos. E talvez seja essa musicalidade um dos segredos do seu sucesso editorial, a par da capacidade de nos mostrar e fazer transportar para locais e histórias.

Sean Riley and The Slowriders ****

Aquela simulação electrónica de cravo - sim, cravo - é talvez demasiado evidente, em "Swimming Pool Blues". A banda de Coimbra, mas de raízes musicais assentes em solo americano, assume agora uma sonoridade grandiloquente, quase barroca, a pedir palco grande. Este é o quarto disco do grupo liderado por Afonso Rodrigues, após um longo silêncio (a última gravação é de 2011 - "It's Been a Long Night"). E se as tais raízes estão sempre presentes, já que a base de tudo continua a ser um blues evoluído e a guitarra o seu intérprete, os quatro músicos soltam-se agora mais no acabamento das canções, gerando, apesar disso, um disco extremamente homogéneo. O elo de ligação mais evidente é a tensão criada pela cadência rítmica, mas também pela interpretação vocal. Essa tensão sonora não prejudica, porém, o lirismo que continua a ser uma das suas marcas de água, como fica bem evidente em "Díli", o single de lançamento do CD. 

Adele, Meo Arena, 21-22 Maio


Num dos primeiros concertos desta digressão, ainda em Londres, Adele falou à audiência de uns desarranjos intestinais que a tinham apoquentado durante o dia. Sim, Adele talvez chegue a soar inconveniente a alguns dos seus fãs, gente maioritariamente de uma classe média urbana que, à falta de melhor, não se importa de aplaudir os múltiplos émulos que pululam naqueles programas televisivos de talentos imitadores de estrelas. Essa simplicidade desarmante - as cenas da vida doméstica são outro dos seus tópicos preferidos - tornou-se já uma imagem de marca. Ela é a rapariga comum, com jeito (e que jeito...) para escrever canções e com uma voz de ouro que, no intervalo de afazeres certamente importantes, nos dá a honra de cantar para nós, sem paredes de vídeos, luzes que cegam, gesticulações e outras ginásticas. Não, Adele só canta mesmo. E conta histórias, é verdade. Sem menosprezo para as outras miúdas - ela até é fã de Beyoncé... - esta apenas quer dar-nos música ("dar", enfim, será uma força de expressão). A simplicidade com que se apresenta, como se imagina, dá imenso trabalho e o espectáculo é meticulosamente encenado, desde o momento em que Adele surge no palco numa plataforma elevatória, até que a mesma geringonça a engole, uma hora e meia depois. Todo um rigor de cena para fazer realçar o que realmente importa: a voz, as canções. Ao terceiro disco - recordemos: "19", "21", "25" - ela é já uma das maiores estrelas mundiais, quebra recordes de vendas atrás de recordes de vendas, faz bandas sonoras para o 007 e pode embarcar em digressões mundiais, como esta, em que, de Fevereiro a Novembro, avia mais de uma centena de concertos. Em Lisboa, onde actua pela primeira vez ao vivo, são dois. Esgotadíssimos.

The Loafing Heroes - The Baron and The Trees ****

O título do disco foi é do escritor italiano Italo Calvino. Todas as canções são escritas pelo irlandês Bartholomew Ryan. A banda tem base em Lisboa, com uns tiradas a Berlim. Há músicos americanos, alemães, italianos e portugueses. Poderiam fazer algum tipo de world music e a tentação para esse marketing rodeia a banda. Mas não. Fazem da mais pura música folk anglo-saxónica, mais precisamente irlandesa. Este é o quinto disco do projecto e, seguramente, o melhor. É difícil destacar uma ou outra canção, tal o equilíbrio de composição e cuidado colocado na encenação final. Veja-se, por exemplo, a belíssima "God's Spy" e o extraordinário casamento entre as vozes e os muitos instrumentos que por ali passeiam. "God's Spy" que, de resto, é uma espécie de desenvolvimento de uma das mais belas canções do disco, "Collapsing Star". Ou, no extremo bucólico, "Javali". Uma música para ouvir com tempo, uma espécie de "slow music". 

Emmy The Great - Second Love ****

"Second Love", título deste disco, é também um site de encontros para gente casada. Em "Hyperlink", Emma declama que "o amor é a resposta", mas declara logo de seguida que ela própria não passa de uma "confortável mentirosa". Em que ficamos, afinal? Na dúvida, claro. Esse sentimento, de duplicidade (on-off /real-virtual) e mesmo de falsidade, das redes sociais, omnipresentes em quase todas as canções. Mas de duplicidade também nas coisas mais sérias (serão?) da vida, como o amor e a falta dele. Este é, portanto, o disco perfeito para estes dias de encantamento, pelos e através dos ecrãs, seja de computador ou de telemóvel. As canções continuam a dever à folk, como no primeiro disco ("First Love", 2009), mas a abraçar, sem rodeios, a electrónica ou a simples electricidade, para criar cenários musicais de grande economia, mas de grande beleza, quase divertidos na sua diversidade. Como uma criança que brinca aos sons. 

Música para soar e suar
Florence + The Machine [Meo Arena, 17 ABR]


Poucos meses depois de terem enchido e incendiado o Meo Arena, Florence + The Machine regressam com a mesma receita. Como escreve Manuel Morgado, estas canções assombradas acabam por fazer bem à alma 

A última vez que Florence esteve em Portugal foi também no Meo Arena e o concerto acabou com ela de soutien a incitar a plateia a tirar também uma peça de roupa, ao som de "Dog Days Are Over". A ideia é vermo-nos livres do que não precisamos... É certo que estávamos em Junho, num Super Bock Super Rock de pavilhão esgotado, e a temperatura convidava até a tirar mais que uma peça de roupa... Mas também é verdade que os espectáculos dos Florence + The Machine costumam atingir uma tal intensidade, mesmo no sentido físico, que ninguém deverá queixar-se de eventuais baixas temperaturas neste regresso noutra estação. 
A música de Florence, a forma como é orquestrada e especialmente o modo como é cantada - há quem diga "gritada" -, é feita precisamente a pensar nos concertos de grandes espaços, de preferência em plateias que permitam alguma comunhão com a assistência. Porque se aqui não há qualquer espaço para a intimidade, tal é a intensidade dos décibeis, a cantora faz questão de manter uma grande interactividade com o público, ora contando as histórias, quase sempre autobiográficas, por detrás das canções, ora de uma forma ainda mais próxima, por exemplo, oferecendo flores. 
 Embora tenha estabelecido um estilo muito próprio e rapidamente identificável, nota-se que Florence Welch ouviu muito (e viu...) Kate Bush, mas que também interiorizou um sentido de espectáculo a que nos habituou, por exemplo, Madonna (na entrega e na plasticidade do espectáculo), e até mesmo os Led Zeppelin, sendo que as piruetas e a forma como se desloca com rapidez e àvontade pelo palco fazem lembrar os melhores dias de Robert Plant. A digressão mundial que agora está a realizar insere-se na promoção do seu último disco, "How Big, How Blue, How Beautiful" (2015), um tudo nada menos histriónico que os anteriores. Mas estes são também concertos em que a banda aproveita para revisitar os temas das edições anteriores: "Lung" (2009) e "Cerimonials" (2011). É, por isso, expectável que pelo Meo Arena desfilem todos os temas que já tornaram os Florence + The Machine num poderoso fenómeno de vendas (o disco mais recente subiu ao primeiro lugar dos tops do Reino Unido e dos EUA). Em Lisboa vão, por isso, ecoar de novo versões aditivadas de "Shake It Out", "Ship to Wreck", "What Kind of Man" ou "You've Got The Love". 
Os portugueses já o sabem (além da passagem pelo SBSR, a banda visitou-nos, em 2010, logo após o lançamento do primeiro disco): a um concerto dos Florence + The Machine não se vai para ficar sentado, ou sequer quieto. Seja por identificação com a irrequietude de Florence em palco, seja pelo próprio apelo da música (uma mistura de raízes folk, que no terceiro disco ganhou contornos soul mais acentuados), é tempo de dançar e saltar. No fundo, deitar cá para fora todos os fantasmas, amores e desamores e outras dores, que povoam e assombram esta música. A ideia é mesmo essa: exorcizar, pela exposição e pela intensidade, tudo o que nos corre menos bem. E assim, de forma um tanto paradoxal, esta acaba por ser música que faz bem. Ao corpo e à alma.

Elliott Smith - Heaven Adores You ****

Elliott Smith morreu aos 34. Neste disco, há um longo e complexo tema escrito e gravado aos 13. Discos oficiais, há apenas cinco, a que se juntam um póstumo e uma grande colectânea. Mas essa é a história oficial. Ao longo dessas duas décadas, de forma quase obcecada, foi escrevendo e reescrevendo canções, gravando versões atrás de versões. Muitas dessas gravações andam por aí, na selva digital. Este CD recolhe uma boa mão-cheia, a pretexto da banda sonora de um documentário sobre o músico de Portland lançado em 2015. "True Love" é, de longe, o tema mais surpreendente, uma canção de leve inspiração beatleana (Lennon), com uma letra que oscila entre a luz e as cinzas e instrumentos que se desenvolvem em intermináveis camadas. Muito interessantes são igualmente os excertos instrumentais, dominados pelas guitarras, precisamente porque se percebe que poderiam ter sido muito mais que apenas isso. Um disco para descobrir um alma inquieta.

Old Jerusalem - A Rose Is A Rose Is A Rose *****

Não há propriamente uma ruptura - as cordas, por exemplo, já conhecem os cantos à casa - mas nunca os Old Jerusalem tinham permitido uma tão avassaladora invasão orquestral. E o resultado não deixa de ser surpreendente, na medida em que a delicadeza que conhecíamos nesta música em nada é afectada, antes pelo contrário, ganha ainda mais espaço de respiração, como bem se ouve em "Airs Of Probity". Para quem agora chega a este som, um breve esclarecimento: Old Jerusalem é um projecto de geometria variável, alimentado, há década e meia, por Francisco Silva, a partir do Porto. Este é o seu sexto trabalho de longa duração, sendo que o disco anterior, de título homónimo, data de 2011 e, precisamente, é completamente dominado pela guitarra acústica sem muitos artifícios, numa assumpção plena do folk. Agora, mercê de uma intensa colaboração com Filpe Melo (piano e orquestrações), as canções enchem-se de sonoridades várias, que sublinham as linhas melódicas de grande elegância e dão ainda mais destaque a uma bela e ainda mais versátil voz. O tema que dá título ao disco é, talvez, o melhor exemplo desse novimento: começa com uns compassos dolentes de jazz, adorna-se de acordes marcantes de guitarra acústica, recebe o piano e outras teclas, só lhe ficando a faltar as cordas, que surgem logo a seguir, em "All The While". É muito difícil destacar um ou outro tema, já que se trata de uma colecção extremamente homogénea, com a temática da passagem do tempo como elo de ligação, e cada canção é meticulosamente acarinhada na vertente orquestral. É natural que se ouça por aqui Kings of Convenience, Iron & Wine ou Lambchop. Não se trata de influências, antes de identidade. Com a mesma naturalidade com que se cita Kris Kristofferson em "Twenties".

M. Ward - More Rain *****

Talvez se perceba melhor ouvindo o que M. Ward escreve e produz para a colaboração que mantém com Zooey Deschanel nos She & Him - são canções que vivem noutro tempo (anos 50, 60), mas que se salvam do puro kitsch através de uma intangível aura de intemporalidade. Assim é, também, a solo. No caso, o material de referência é da mesma época, mas, em vez de Burt Bacharach, temos o rockabilly ("Time Won't Wait Up") e o doo-wop ("Little Baby"). Este oitavo exercício a solo, depois do belo e melancólico "The Wasteland Companion" (2012), é assumidamente retro, cortando de alguma forma as amarras da country, mas é igualmente muito mais luminoso que o seu antecedente. Há ainda baladas intimistas ("I'm Listening", que até poderia ser gravado com Deschanel), mas são as canções mais expansivas que marcam o disco, seja "Confession", ou "Girl From Conejo Valley". Algures, o autor resumiu bem a ideia: num mundo tão cinzento, a música pode ser a salvação.

Lucinda Williams - The Ghosts of Highway 20 ****

Para quê cantar naufrágios, se não para afirmarmos a nossa condição de sobreviventes? Lucinda Williams é, desse ponto de vista, uma sobrevivente persistente. De naufrágios de alma, principalmente. Fá-lo há quatro décadas, com uma voz em que, por vezes, a dor se confunde com sensualidade; uma intensidade poética muito pouco comum; e um cruzamento de country e blues que, bastas vezes, evoca Springsteen (de quem, aliás, interpreta aqui "Factory"). A atestar a fase particularmente criativa em que se encontra, o facto de este ser o seu segundo duplo em dois anos e de estarmos perante algumas das suas melhores canções. Temas como a morte ("Death Came" e "Doors of Heaven"), ou as memórias que queremos esquecer ("Bitter Memory" ou "Close the Door on Love"), atravessam todo o disco, que, apesar disso - a tal sobrevivência... -, não resulta tão negro como se esperaria. Registo ainda para o fabuloso trabalho de guitarras (Bill Frisell e Greg Leisz), em diálogo omnipresente com a voz.

Golden Slumbers - The New Messiah****

O som das cigarras a marcar o ritmo no tema de abertura ("Foreigner") é relativamente enganador. Porque a música de Cat e Magarida Falcão tem tanto desse bucolismo, a evocar o folk intemporal, como de um cosmopolitismo de traços levemente jazzísticos ("The Hunt"). O canto que praticam, especialmente quando o rigor vocal se desenvolve sobre o rendilhado das guitarras, remete tanto para Joni Mitchell como para os exercícios modernistas sobre base celta e eslava (ouçam-se os requebros vocais de "Woke Up", por exemplo). A interpretação em duo é um esquema raro na música pop, talvez porque as omnipresentes harmonias vocais acabam por ser demasiado impositivas, deixando pouco espaço de respiração a tudo o que as rodeia (as cordas de "Love" não mereceriam outro destaque, pelo menos que as guitarras as deixassem ouvir?). Interessa, porém, o essencial: a matéria-prima é mais que suficiente para outros voos.

Adriana Calcanhotto - Loucura *****

"A vida não quer saber de mau gosto, de bom gosto", comenta Adriana Calcanhotto, num dos extras do DVD que acompanha esta edição, quando a conversa aborda o ostracismo a que Lupicínio Rodrigues foi votado (1914-1974) nos alvores da bossa nova. Mas a verdade é que, apesar das acusações de mau gosto, o "rei da dor de cotovelo" foi vastamente cantado pela geração que então eclodia (Gal, Caetano, Elis, Simone, Arnaldo Antunes). Este CD recolhe o espectáculo único que Calcanhotto dedicou a Lupicínio, em Dezembro de 2014. As valsinhas, no fundo é disso que se trata, evoluem de uma base violão/contraixo, para ganharem asas com o acordeão e especialmente com o trompete. A cantora mantém-se num registo contido, sentindo/expressando cada sílaba, como logo no início, em "Homenagem", ou mesmo na famosa "Felicidade", já em ambiente de quase festa. Tudo, afinal, com o bom gosto que a "dor de cotovelo" merece.

Aline Frazão - Insular ****

Em "Império Perdido", Aline Frazão canta "Procurei por ti, nos filmes de Bergman, nos discos do Chico" e essa poderá ser a melhor síntese do caminho que percorre neste terceiro disco. Gravado na ilha escocesa de Jura, cruza a sonoridade nórdica e plana de Giles Perring com a sensualidade da matriz africana da cantora. A omnipresente guitarra eléctrica de Pedro Geraldes (Linda Martini) é o elemento dissonante e realista, que trava qualquer veleidade de cristalização numa world music globalista, passe a redundância. É claramente um disco que quer ser também manifesto político - nem tanto pelas referências mais ou menos explícitas à situação de Angola, como em "A Prosa da Situação" ou "Langidila" - mas especialmente por constituir um radical exercício de liberdade criativa, de que "O Homem Que Queria um Barco" (a partir do Conto da Ilha Desconhecida, de Saramago), talvez seja o melhor exemplo. Um disco de descobertas.

Neil Young and Bluenote Café ***

Eis um excelente disco para filosofia de café. Do estilo: Neil Young tem, de facto, algumas canções bem desinteressantes, ou são essas canções meras vítimas das recorrentes aventuras estilísticas do autor? Contextualizemos. Em 1988, Young quis juntar uma big band aos gemidos da guitarra e lançou "This Note's For You". Nesse ano e no anterior, andou em digressão com a tal big band, a que chamou de Bluenote. A gravação que agora chega até nós é o 11.º capítulo na recuperação dos arquivos de Young e junta vários excertos dessa digressão. O resultado, como já se vira no disco de estúdio, não é particularmente brilhante, restando a tal dúvida inicial: culpa das canções, ou do estilo? A dúvida é tanto mais legítima quanto a fórmula big band não é sequer testada de forma extensiva no restante reportório. Excepção, particularmente bem conseguida, para "On The Way Home", a velhinha dos Buffalo Springfield que a Motown não desdenharia nesta artilhada versão.

They're Heading West ****

Samuel Úria, Peixe, Ana Bacalhau, Ana Moura, JP Simões, Bruno Pernadas, Capicua... e mais meia dúzia. Este disco é uma espécie de catálogo de alguma da melhor música que se tem feito em Portugal nos últimos anos. Uma música sem fronteiras, que vai do quase fado a sonoridades do universo anglo-saxónico. Reza a lenda que os quatro membros da banda apenas queriam juntar umas massas para viajar pelos states (daí o nome), mas verdade verdade é que foram juntando convidados, ao longo dos anos, para cantar canções próprias ou alheias. O disco recupera em estúdio algumas dessas aventuras de palco, funcionando os quatro como uma banda de suporte que define a matriz sonora, basicamente acústica, além de assinar algumas das composições. O resultado é espantosamente homogéneo, não padecendo dos desequilíbrios habituais neste tipo de colaborações. Uma das boas surpresas de 2015.

Jorge Palma e Sérgio Godinho - Juntos ao Vivo no Theatro Circo ****

Poderiam ter cantado uma canção de um dos ídolos comuns (Dylan, Brel, Zeca). Poderiam ter composto um novo tema a quatro mãos. Poderiam ter tomado conta de uma ou duas canções, fundi-las, reiventá-las... o diabo a sete. Mas não. A opção foi deliderada e completamente celebratória. Agora cantas tu uma minha e eu canto uma tua, mas entramos sempre os dois. Nove de Sérgio, oito de Jorge, que o respeitinho, apesar da amizade, é uma coisa muito bonita. O resultado é uma espécie de karaoke geracional, com a malta dos "entas" a cantarolar e, quiçá, a gingar ligeiramente na poltrona. Sim, com a pedalada que estavam poderiam ter arriscado mais, surpreender um bocadinho. Na opção conservadora sobressaem dois intérpretes em grande forma, a cantar, sobre arranjos de recorte também ele clássico, algumas das canções mais ouvidas em Portugal nas últimas quatro décadas. Quem pode fazer isto, se calhar não precisa de fazer mais.

Bob Dylan - The Best Of The Cutting Edge *****


As primeiras teses universitárias sobre Dylan versavam a sua poesia. E ainda há muito boa gente para quem o seu nome ecoa, especialmente, uma espécie de líder geracional, coisa que nunca foi, porque não quis. Ambas as apreciações são relativamente insuficientes para o definir, não apenas porque ficam aquém da sua complexidade enquanto artista, mas simplesmente porque o ignoram enquanto músico. Se há coisa que a Bootleg Series, iniciada em 1992, veio clarificar é precisamente o carácter vanguardista da sua expressão musical, ao revelar o processo criativo de cada fase da sua carreira. Esse aspecto é particularmente audível na avassaladora edição das Basement Tapes (2014) e, agora, nesta ainda mais espantosa The Cutting Edge, que recolhe os ensaios de estúdio e as várias versões preliminares dos seus três discos fundamentais: Bringing It All Back Home, Highway 61 Revisited e Blonde on Blonde, gravados ao longo de 14 meses (1965/66). O projecto é um tanto megalómano: uma versão de 18 discos, com todas as gravações realizadas; uma de seis discos, em que um deles contém 20 (!) versões de "Like A Rolling Stone"; e esta, que sintetiza esse período em 36 temas. Há de tudo um pouco: começos em falso, versões de demonstração só com piano, ensaios e versões verdadeiramente alternativas. Sim, muita das versões que aqui estão mostram-nos quase outras canções, seja porque o ritmo é diferente do que conhecemos, seja porque a letra não é exactamente a mesma, seja principalmente porque Dylan e os músicos ensaiavam, de facto, versões muito diversas das que conhecemos. Às vezes chegavam mesmo a abandonar alguma canção, como inexplicavelmente acontece com "She's Your Lover Now", apenas porque não atinavam com a versão correcta. Um flashback muito esclarecedor sobre o período mais criativo de um maiores criadores musicais do nosso tempo.

Lizz Wright - Freedom and Surrender ****

Lizz Wright nunca foi uma purista. O jazz, já na sua forma ligeira, sempre foi um ponto de partida, quer para aventuras nas zonas gospel, blues ou mesmo folk, quer quase sempre para jogos de sedução com a pop. Pop e sedução, eis as duas palavas-chave desta nova aventura. As canções mais ritmadas inscrevem-se claramente na linhagem da pop clássica robusta ("New Game", por exemplo), mas é no outro terreno, o da sedução, que quase todo o disco se desenvolve. Lizz Wright decidiu colocar a sua voz possante, mas aveludada, ao serviço de uma mão cheia de canções em que a sedução não é palavra vã, antes se materializa numa toada insinuante, lânguida mesmo. "Right Where You Are", em dueto com Gregory Parker, ou especialmente "Here and Now", são disso o melhor exemplo. O investimento vocal é enorme (é mais difícil segurar elegantemente estes notas, do que soltá-las em correria) e exige do ouvinte mais disponibilidade do que é habitual. Mas vale a pena.

Buddy Guy - Born To Play Guitar ****

Rei morto, rei posto? Não precisamente, apesar da homenagem que Buddy Guy, em dueto com Van Morrison, presta ao rei em "Flesh and Bone", estranhamente o menos bluesy dos 14 temas deste disco. A memória de B. B. King, recentemente falecido, é recordada numa canção mais influenciada pelo estilo do irlandês do que pelo blues genuíno que povoa o resto do disco. Aos 79, Buddy Guy não é propriamente um herdeiro de King, antes um quase irmão, talvez o último dos grandes bluesmen. É o próprio Buddy que se encarrega de sublinhar o facto, na outra evocação explícita deste disco, "Come Back Muddy", aqui num registo mais consentâneo com a velha linhagem que se espraiou do Mississipi a Chicago. O resto corre, igualmente sem surpresa de maior, numa deambulação quase enciclopédica pelas várias abordagens possíveis a essa música negra sem a qual a generalidade da música de hoje seria carente de ritmo e alma.

Stereophonics - Keep The Village Alive**

Provavelmente, os grandes culpados são os U2, ou melhor, o grande sucesso que os U2 tiveram. Mas a verdade é que o rock britânico das últimas duas décadas está saturado (e, sim, a palavra tem leitura dúplice) de bandas especialistas em grandes manobras de palco, suportadas por uma música muito ritmada, um tanto gritada e - que coisa irritante... - com um forte pendor pró-sinfónico. Os Stereophonics são apenas mais um desses grupos. E, como todas as outras, é fácil colocá-lo numa rede de influências mútuas, em que os mesmos U2 são uma espécie de distribuidor central, com todos os outros a fazerem-se notar pelas pequenas variações que repetem à exaustão. Ao nono disco, estes gauleses já pouco de novo têm para mostrar e limitam-se a baralhar e dar de novo em canções rigorosamente escritas para palco. E a cada a canção, a grande surpresa é: mas onde é que eu já ouvi isto?

Beach House - Depression Cherry ****

Numa das canções, Victoria Legrand canta "Terna é a noite para um coração partido". E está feita a declaração de princípios dos Beach House. A exaltação da melancolia. O elogio da tristeza. A doçura do amargo. O fogo que arde e que se vê. E que dói e a gente gosta. É uma música que trai os menos avisados: aquela voz onírica, as teclas planantes, as guitarras encantatórias, as caixas de ritmos dançantes, tudo nos apela a entrar num universo de aparente luz, mas no qual, afinal, há territórios devastados, corações abandonados, um nó na garganta. E é também uma música de enorme intimidade, quase gravada num acolhedor quarto de dormir, "lo-fi" em "low cost", mas que, simultaneamente, ecoa em espaços abertos, na vastidão árida dos grandes desertos, ou nas noites de neon das avenidas. Este disco acentua, aliás, esse sentimento de objecto doméstico, gravado a dois, para ser ouvido nos auscultadores ou, na pior das hipóteses, num espaço acolhedor. É como um movimento de regressão face aos dois últimos discos, 'Teen Dream' (2010) e "Bloom" (2012), em que algumas canções ("Norway", "Zebra" ou "Myth") indiciavam um pré-pop à beira da luz. Agora, "Space Song" e, menos, "PPP" ainda prolongam esse gesto, mas todos os outros temas são um novo fechar na concha, como que num exercício de depuração da matriz da banda. Isso, porém, não corresponde a qualquer fechamento estilístico, antes pelo contrário. Nessa matriz cabem momentos de grande sensualidade rítmica (imagina-se uma dança do ventre ao som de "10:37"), e outros de planura melódica, em que é difícil perceber onde acabam as harmonias herdadas dos Beach Boys e começa o lirismo absoluto a fazer lembrar Virgina Astley ("Days of Candy"). Beach House vintage? É esperar uns anos para confirmar.

Benjamim - Auto Rádio ****

E se no meio de uma declaração de amor, ela disser que só quer sobreviver ao Tarrafal? Essa é apenas uma das perplexidades do primeiro disco de Benjamim, anteriormente conhecido por Walter, mas que na realidade é Luís Nunes, ex-londrino e actual habitante de Alvito. Perplexidade pelas vastas referências ao tempo e contexto do colonialismo ("O Quinito Foi Para a Guiné"), num projecto que muito claramente se destina a gerações que desse tempo não têm qualquer memória. Esta é uma música que cruza a pop muito bem disposta (a tal "Tarrafal", ou "Os Teus Passos"), com a electrónica ("Sintoniza" e os omnipresentes sintetizadores), ou mesmo o canto de intervenção ("Sangue" respira José Afonso por todos os poros) e algum afro-tropicalismo (a recuperação de "Rosie", de Fausto). Estamos perante uma aposta estética e conceptual arriscada, obviamente de elogiar, tanto mais que se ouve muito bem. A dúvida está no mercado.

Fred Abbott - Serious Poke***

"It's 4 AM in a parking lot / the city sleeps but we do not". Começa assim e, pronto. Estamos lançados para pouco mais de meia hora de puro rock de estilo americano. Guitarras, baixo, guitarras, bateria e guitarras. Os grandes espaços da América, as motas e os carros, a noite feita para amar, os amores desfeitos. A mitologia em canções descomplexadas, directas, curtas. Quem gosta de Tom Petty ou do Springsteen inicial nem vai sentir a diferença. Mesmo esses talvez sussurrem: eh pá, então não há mais? Não, não há. O primeiro disco de Fred Abbott é mesmo assim, o que compras é o que levas. Muito deste material já tinha circulado nos bastidores de Noah and The Whale e, agora que a banda parece ter implodido, Fred foi o primeiro a emergir a solo, numa aventura a que os ex-companheiros dão uma mãozinha. Claro que vai ser preciso esperar pela sequela para percebermos se a falta de ambição resulta da urgência ou se é mesmo um modo de vida.

Florence + The Machine - How Big, How Blue, How Beautiful ***

E, no entanto, move-se. A metáfora telúrica assenta que nem uma luva a Florence e à evidente inflexão que este seu terceiro disco representa. O pendor gótico e tribal dá agora lugar a uma espécie de soul acelerada, em que as guitarras, e por vezes os metais substituem os gongos e, parcialmente, as teclas em registo gongórico. Por via dessa descompressão instrumental, a própria voz de Florence parece ter encontrado um registo um tudo-nada mais sereno, o que, no caso, é altamente relevante, tendo em conta todo um passado de gritaria intensa. Particularmente representativo desta mutação é o tema que dá título ao disco e que, ao contrário do que seria habitual, não evolui para a explosão, mas, antes, evolui sempre dentro de uma extraordinária contenção. O mesmo com as baladas, em que Florence resiste à tentação do exagero vocal. A temática, essa, continua enredada em fantasmas e naufrágios no feminino.

LLoyd Cole and The Commotions - Collected Recordings 1983-1989 ****

Retrato de LLoyd enquanto jovem artista

A história, oficial e de bastidores, da curta vida dos Commotions, em 5 discos e um DVD. Manuel Morgado ouviu a caixa que consagra o início da carreira de Lloyd Cole

1984, além de ser o título de um famoso livro mais ou menos apocalíptico, foi um ano de boa colheita para a música pop-rock. O mundo, ao contrário do que previa George Orwell na tal obra, não caminhava para qualquer totalitarismo - visto de 2015, estava até em rumo bem recomendável -, e a indústria musical rejubilava com um novo formato: nos EUA, Springsteen lançava "Born in the USA", o seu primeiro disco a sair originalmente em CD. Na Grã-Bretanha, os Smiths lançavam o seu primeiro LP. Começar um texto sobre Lloyd Cole mencionando George Orwell, eis algo que o próprio Lloyd não desdenharia. No disco de estreia - sim, em 1984 - há referências a Simone de Beauvoir, Eve Marie Saint, Norman Mailer, etc, etc. O estudante de filosofia, acabado de chegar de Glasgow, exibia-se com toda a sua cultura, de forma um tanto petulante, apenas suportável porque a doseava com aquela fina ironia que apenas os britânicos cultos conseguem praticar. Nos seus 36 minutos, distribuídos por 10 canções, "Rattlesnakes" revelava uma banda com uma abordagem muito profissional e plena de energia e um autor e compositor de primeira água. "Perfect Skin" foi o primeiro single, mas "Forest Fire" e "Are You Ready to Be Heartbroken" não a deixariam sozinha nas preferência da crítica e do público. Sobre uma base musical pop, ancorada nas tradições folk/country e R&B, Lloyd Cole cantava - e ainda hoje o faz... - os triviais amores e desamores, filtrados pela tal intelectualidade irónica e um tanto cínica. A vitalidade desse primeiro disco seria adocicada nas gravações seguintes: "Easy Pieces" (86) e , especialmente, "Mainstream" (87). Entregues a produtores mais centrados no mercado, acabaram sem a espontaneidade da primeira obra. Mesmo assim, há neles canções perfeitamente incontornáveis, como "Brand New Friend", "From the Hip", ou "Jennifer She Said". Após uma digressão europeia, a banda acabaria por se separar (1989) e o líder prosseguiu uma carreira a solo, que tem alternado momentos discretos com outros mais exuberantes. A caixa que agora recupera a obra da banda contempla a versão integral dos três discos originais, sujeitos a uma suave remasterização, e junta-lhe outros dois, nos quais podemos ouvir lados B dos singles, gravações caseiras e alguns inéditos. Nada de muito surpreendente, porém. Confirma-se, por exemplo, o acerto da decisão de não ter feito da primeira versão de "Down at the Mission" o primeiro single, visto que se trata de um tema mais alinhado com a típica música dos anos oitenta e, logo, menos surpreendente e interessante. A caixa tem ainda uma colecção de fotos, um pequeno livro com um ensaio/reportagem sobre a história da banda, e um DVD com os clips originais e as passagens pela BBC. Muito interessante, não apenas porque este material tem estado fora do Youtube, mas também pela referência estética àqueles anos e pela oportunidade de vermos como os Commotions eram, de facto, bons músicos. Tudo combinado, é uma nova luz sobre a importância de alguém que nem sempre se tem dado bem com os tops, nem é propriamente influente, mas que pratica uma música confiável e com alguns momentos de grande criatividade. E que tem em Portugal uma das principais bases de fãs.

Márcia - Quarto Crescente ****

"A Insatisfação" é certamente uma das canções mais bonitas dos últimos anos da música portuguesa. Com todo o peso que a palavra "bonita" transporta, ou seja, o lado ligeiro do belo. Na verdade, pop do bom: música alegre, quase dançante, instrumentos cristalinos (belíssimos, os sublinhados de guitarra ou de percussão), um coro sublime. E, no entanto, não deixa de ser uma canção triste, que a letra não a deixa mentir. E todo o disco é um pouco assim, um paradoxo de música luminosa cruzada com reflexões e sentimentos melancólicos, marca de água da autora. A produção de Dadi Carvalho (Marisa Monte, Caetano) será a principal responsável por puxar a música para o lado solar, embora passando sempre ao largo de tentações tropicalistas, nem mesmo no dueto com Criolo, em "Linha de Ferro". Com um extrema, mas certeira, delicadeza, a base hip-hop da generalidade das canções é sublinhada por apontamentos de coros, guitarras, teclas, percussões. Um disco belo e seguro.

Of Monsters and Men - Beneath The Sun **

Claro que a culpa é dos Arcade Fire. Um sucesso daqueles só poderia dar nisto: uma cópia. Islandesa para não abusar muito da boa vontade dos canadianos. O problema é que a música dos Arcade Fire não é apenas aquela marca, aquele estilo. Pelo contrário, como mostrou o seu último disco, parece estar em permanente expansão. Ora estes rapazes e raparigas (sim, a cópia chega aí...) fazem exactamente o contrário. Ao segundo disco, já todos percebemos que a sua música anda em círculos, incapaz de se reinventar. Todas as canções, sem excepção, assentam na mesma estrutura rítmica, evoluem da mesma forma, aspiram a uma espécie de ópera para as massas dos festivais. A tendência da vocalista para imitar a estridência de Florence + The Machine também não ajuda muito. Mesmo os temas que começam mais calmos, como "Thousand Eyes", acabam por se desenvolver da mesma forma, o que torna a audição particularmente desinteressante.

Jason Isbell - Something More Than Free ****

O quinto disco de estúdio de Jason Isbell é ainda, obviamente, um exercício essencialmente country, mas todo ele respira também já um muito evidente ar pop. Não será por acaso: a pop assenta bem a canções bem mais luminosas que as de "Southeastern" (2013), ainda dominado pela recuperação do alcoolismo por que passou o autor, ex-membro dos Drive-By Truckers. Aqui, a exuberância da banda marca o ritmo, com muito pouco espaço para a melancolia ("To a Band That I Loved") ou mesmo para as naturais referências ao som do sul dos EUA ("Palmetto Rose"). As canções, mais que histórias, mostram-nos quadros, instantâneos, a partir dos quais se retiram conclusões, mais filosóficas que moralistas. É assim com a solidão a dois no balcão de um bar ("Flagship"), ou com o caso da mãe adolescente ("Children of Children"). "How To Forget" é o hit instantâneo, "24 Frames" é, talvez, o tema mais conseguido do disco.

Tape Junk - Tape Junk ****

Ainda um dia se há-de fazer justiça à enorme influência dos Kinks em gerações e gerações de músicos dos dois lados do Atlântico. "Substance", que abre este segundo disco dos Tape Junk, é disso um exemplo. Pela sonoridade, mas também pela atitude, que volta a sentir-se, por exemplo, em "All My Money Ran Out", de uma indisfarçável alegria, mesmo que por vezes ácida. Há, é claro, influências em cadeia, que viajam por Beck e Jack White, por exemplo, como se pode ouvir em "Scratch and Bite". Adivinhar as influências ajuda a perceber o DNA de uma música gravada no Alentejo, serve talvez para perceber o que andaram a ouvir os músicos. Apenas isso. Porque a música dos Tape Junk é surpreendentemente coerente e, de certa forma, original e descomplexada na forma como articula e integra as inevitáveis inspirações. Os Tape Junk são um projecto de João Correia (Julie & The Carjackers), em que participa Frankie Chavez. Este disco foi produzido por Luís Nunes (ex-Walter Benjamin).