Adele - 21 ****

Então a Amy Winehouse nunca mais tem disco novo? Bom, isso agora não interessa nada, até porque não é dela que vamos falar. A Amy só vem à memória porque Adele – as coisas que os magos do marketing inventam – foi considerada a nova Amy, quando apareceu, vai para três anos. Na verdade, à semelhança de outras britânicas, como Duffy, também Adele é uma espécie de “filha” comercial de Amy, especialmente pela exploração do filão do revivalismo.
Mas a verdade é que – ah, ah – Amy não tem disco novo e Adele tem. O primeiro chamava-se 19 e recebeu uns Grammys. Este chama-se 21 (que original…) e, se não ganhar prémios, vai pelo menos engrossar violentamente a conta bancária da autora.  Adivinham-se sucessos atrás de sucessos com várias das canções aqui presentes.
Este disco consagra uma autora muito acima da média e uma intérprete peculiar. A voz de Adele é bonita, mas tem vulnerabilidades, que ela consegue valorizar, encaixando-as no fraseado, transformando nota falsas em estilo.
Há aqui revivalismo em doses consideráveis – o tema de abertura e primeiro single, “Rolling In The Deep” é uma explosão de disco e gospel – mas há, acima de tudo, um classicismo feito de doses equilibradas de elegância e emoção. O amor – melhor, o desamor, as separações – são a matéria-prima destas canções, com “Someone Like You” (piano e voz, apenas) a revelar-se desde já como um dos clássicos nessa matéria.
A produção, por onde anda Rick Rubin – há em todo o disco apontamentos americanos, que fazem antever uma aposta comercial forte no outro lado do Atlântico -, é toda conduzida para deixar fluir a voz, não se dispensando, no entanto, de uns coros pujantes e de alguns momentos de grande beleza, seja apenas no piano, seja em curtos trechos de cordas.

Feist - Look At What The Light Did Now ** (extras ****)

Está tudo ao contrário. Neste pacote, chamemos-lhe assim, deve-se começar pelo fim, pelo CD áudio. É, de longe, o pedaço mais interessante desta edição - metade preenchido com actuações de Feist ao vivo, metade com improvisos de Chilly Gonzales, ao piano, sobre os temas originais de The Reminder, o CD de 2007 que está na origem de tudo isto.
Apesar de ser apresentado com a peça central, o documentário Look At What The Light Did Now é uma peça relativamente desinteressante. São 80 minutos de filmagens de bastidores, de entrevistas e de excertos de espectáculos ao vivo, tudo filmado num registo assumidamente lo-fi. A ideia é encenar a criação, gravação e apresentação ao vivo de The Reminder, o maior sucesso da canadiana Feist até à data. Mas, na verdade, não há muito que contar para lá de umas banalidades que, em circunstâncias normais, poderiam ser o extra de um DVD, mas nunca o seu coração.
A grande valia desta edição está, especialmente, no CD áudio, em que Feist interpreta com uma particular delicadeza canções como “So Sorry” ou “Where Can I Go Without You?”, ou, num formato mais pop, “Secret Heart”. Em qualquer dos casos, versões bem mais quentes e íntimas que as de estúdio.
Os próprios extras do DVD acabam por ter mais pólos de interesse que a peça central. Incluem, por exemplo, duas curtas metragens construídas a partir de canções de Feist (“The Water” e “Departures”), em que há pelo menos a tentativa de construir uma narrativa.
E há ainda algumas actuações ao vivo, embora padeçam da mesma pobreza visual do documentário central, e os clipes de maior sucesso (“1234” e “My Moon My Man”, por exemplo) de The Reminder.
São, enfim, duas ou três horas literalmente bem embaladas, para alegria de fãs e coleccionadores.

Regina Spektor - Live in London ****

Há, é certo, muita tecnologia envolvida. Mas a essência está lá. E o que mais espanta é isso mesmo – como consegue alguém encher um palco, uma sala, com uma voz, com todas as vibrações e subtilezas de uma voz. A voz de Regina Spektor merece toda a tecnologia do mundo, tal é o cuidado posto na sua modulação, os trinados, os sussurros, as explosões, a alegria de cantar. A voz está para Regina como o corpo e os artifícios cénicos estão para as beyoncés e as gagás – é ela, a voz, que enche o palco, é dela que emana toda a espectacularidade. Percebe-se isso ouvindo o CD, mas tudo se torna muito mais evidente quando se assiste ao registo vídeo em DVD, todo ele construído à volta dos grandes planos dos lábios de Regina. Por mais que o corpo cresça e se balanceie ao piano, é na voz, nos lábios, que tudo se concentra. É aí que reside a coreografia essencial desta música.
O pacote inclui os dois suportes (CD e DVD) resultantes de uma actuação, em Dezembro de 2009, no Hammersmith Apollo, de Londres. As canções são mais ou menos as mesmas (especial incidência na última gravação em estúdio, Far, de 2009), embora o alinhamento não seja idêntico. No DVD, intercalaram as canções com cenas de bastidores e da digressão, uma opção discutível, na medida em que terá sido sacrificada a relação entre a artista e o público.
Os fãs de Regina encontram aqui canções raras, como “Love, You’re A Whore”, os simples mortais têm aqui um excelente “Regina para principiantes”, uma colectânea do melhor dos seus três discos, interpretado como se de uma gravação de estúdio se tratasse. E nunca será demais salientar que tudo isto é conseguido apenas com um piano (às vezes, uma guitarra), um quarteto de cordas e uma bateria. E, claro, a voz.

Norah Jone - Featuring ***

Quem quer cantar com a Norah que canta tão bem e é tão bonitinha? Todos. Até Ray Charles, que foi uma das últimas coisas que fez antes de morrer, em 2004.
Este disco reúne 18 canções, editadas entre 2001 e 2010, e acaba por ser uma colecção algo decepcionante. Esperar-se-ia que de um talento excepcional, como o de Norah, acompanhado de um leque de famosos ou nem tanto, saísse um disco de excepção. Não é o caso. A generalidade das canções viaja à boleia da voz quase encantatória de Norah Jones, no seu registo soft jazz, e abstém-se de arriscar. É muito agradável ouvir os Belle and Sabastian, até porque a canção é fabulosa, a reinterpretação de “Court & Spark” (Joni Mitchell) na companhia de Herbie Hancock é muito boa, e há ainda mais um punhado de coisas interessantes. Mas a maioria das versões fica-se pela mediania, ou pior ainda (Willie Nelson, Dolly Parton). Norah Jones merece e é capaz de melhor.

Divine Comedy


Um dos grandes encantos dos Divine Comedy é o casamento perfeito, ora dramático, ora simplesmente lírico, entre os arranjos de cordas e a voz bela e grave de Neil Hannon.
Ora não é nada disso que vamos ter nas próximas apresentações do senhor Divine Comedy em Portugal. Hannon viaja acompanhado apenas de piano e guitarra e é assim que vai subir ao palco. Perde-se a grandiosidade do som dos Divine Comedy, o seu traço barroco, e ficamos apenas com as canções.
E aqui entra outro dos grandes encantos dos Divine Comedy – as canções. Neil Hannon é um dos melhores autores da década de 90, propondo-nos um raro equilíbrio do humor com a ternura, das reflexões melancólicas com a crítica social.
Isso mesmo é audível no disco com que recentemente quebrou um silêncio de quatro anos, o qual já tinha sido antecedido de silêncio de igual magnitude. Isto tudo porque Hannon se tornou um homem de família e também porque, confessa, não tem muita paciência para as despesas da fama. Bang Goes The Knighthood é um disco com uma canção sobre a crise financeira internacional (“The Complete Banker”), mas também com temas tão reveladores como “When a Man Cries”.
Ao piano ou à guitarra, Hannon terá, obviamente, que regressar ao clássicos dos Divine Comedy, por exemplo, “The National Express”, ”Our Mutual Friend”, ou “Something For The Weekend”. E talvez cante, se lhe pedirem, uma canção de Brel, Brassens ou Gainsbourg, daquelas que gravou ao vivo para uma edição especial de “Bang Goes The Knighthood”.

Nicotine’s Orchestra - Ghosts and Spirits ****

Há muito que o Barreiro deixou de ser a cidade pós-industrial deprimida e passou a integrar uma América imprecisa, talvez no Sul, numa época também ela indefinida. Nomes como Nick Nicotine, músico, produtor, editor e organizador de festivais, colocaram a cidade num roteiro do rock nacional que vive à margem da rádio e de outros circuitos de divulgação.
Este disco, o segundo da Nicotine’s Orchestra, é uma boa oportunidade para a rádio se redimir. Muitas das canções que por aqui se ouvem poderiam ter sido escritas na tal América e até figurar em antologias do rock rude, herdeiro da soul e do blues (“Rosario”), tipo George Thorogood (“Love At First Sniff”), topam? Ou, se preferirem, filhas do cruzamento das bandas sonoras de Tarantino (“Help Me”) e David Lynch (“Mighty River”), que o psicadelismo também lhes assenta muito bem.
Um disco, já perceberam, cruzamento de muitos e bons imaginários.

Márcia - Dá ****

As frases feitas existem para serem usadas. Eis então: primeiro estranha-se, depois entranha-se. A canção inicial causa uma sensação esquisita: a voz cai para o sopinha de massa, as sílabas, ora se atropelam, ora, comidas, desaparecem. Uma contrariedade.
A cada canção, habituamo-nos à ideia. Percebemos que a voz frágil foi incorporada no estilo e o único (?) lamento é nem sempre percebermos o que canta Márcia. Até porque pressentimos poemas lindos.
O resto é muito bom. Especialmente, o trabalho de ourivesaria com que cada canção é vestida, longe da voz/guitarra do EP de estreia (2009). Ou não estivessem na produção e em colaborações diversas alguns dos nomes de relevo da novíssima música portuguesa (Real Combo, Walter Benjamin, B. Fachada…).
O resultado é um trabalho de grande sensibilidade, do qual, no entanto, é necessário aprender a gostar. Chamar-lhe a Carla Bruni portuguesa é redutor, mas ajuda a situar a ideia.

Chatham County Line - Wildwood ****

Há discos que pedem de nós mais do que lhes podemos dar. Este talvez seja um deles. Neste cantinho da Europa, há lá paciência para darmos atenção a quatro maduros da Carolina do Norte, tão taradinhos por bluegrass que só ao quinto disco juntaram uma tímida bateria e um discreto piano à plêiade de instrumentos acústicos de que se rodeiam?
Pois é. Mas fazemos mal. Sai por isso uma proposta: perca quatro minutos da sua vida e ouça com atenção uma destas canções. Pode ser, por exemplo, “Alone In New York”. Ouve o extraordinário trabalho instrumental? E as harmonias vocais? E a história, ela própria? E no género balada linda que se farta há ainda “Crop Comes In”, talvez a melhor canção do disco. Aos coleccionadores de canções peculiares sugere-se “Ringing In My Ears”, em que poderão ouvir, num ambiente a atirar para o blues, excertos de canções de Paul Simon, Elvis, George Harrison, Willie Nelson…

Esperanza Spalding - Chamber Music Society ****

Eis um caso sério. Esperanza Spalding atingiu uma tal notoriedade comercial e crítica com o registo em nome próprio (2008), que se temia o pior. Que não conseguisse fazer melhor.
É claro que menosprezamos muitas vezes as evidências – estamos perante um autêntico prodígio nos instrumentos (baixo), na voz, na composição, na produção. E isto aos 25 anos.
A base de trabalho é o jazz, de largos espaços, como convém ao baixo. A voz evolui por entre os instrumentos, ora de forma aveludada (“Little Fly”), ora nos limites do improviso em registo scat (“Chacarera”).
Merecem menção especial duas colaborações de peso. Milton Nascimento espraia-se no seu belíssimo “Apple Blossom”e Gretchen Parlato desenvolve um espantoso diálogo vocal com Esperanza, acompanhado apenas pelo baixo, em “Inútil Paisagem”, de Jobim.
Há ainda uma versão intensa de “Wild Is The Wind” e, no lado dos originais, “Winter Sun” é forte candidata à peça de jazz perfeita.

Hindi Zahra - Handmade ***

A Patti Smith do Norte de África. É assim que Hindi Zahra está a ser promovida em todo o mundo (vem a Sintra dia 17). Trata-se, obviamente, de um daqueles equívocos de se lhe tirar o chapéu. A ideia foi de um crítico do Guardian, que assistiu a um espectáculo há uns meses atrás. Agora, ouvido o primeiro disco, fica-se com uma certeza – um dos dois estava com uma pedrada monumental.
Hindi Zahra poderia ser uma daquelas miúdas dos Nouvelle Vague que enveredam por uma carreira a solo. Canções lânguidas, com um swing tipo lounge, neste caso ornamentadas de especiarias árabes. 
Nascida em Marrocos e criada entre Paris e Londres, Hindi explora ao máximo o filão: há traços de chanson (“Beautiful Tango”), de blues (“At The Same Time”), de música berbere (“Ousoul”) e até, porque não?, de flamenco ou até de bossa nova. E há canções como “Fascination” que podem fazer o seu caminho e vencer o desafio da intemporalidade.

Junip - Fields ***

Tudo resumido é assim: Junip é José González acompanhado de teclas e bateria. Sim, a criação sai ao criador, mas não é exactamente a mesma coisa. E, sim, este disco pode ser um tanto aborrecido para quem não estiver na onda - uma espécie de transgénico, resultante do cruzamento do folk com o psicadelismo, numa versão minimal repetitiva.
José González – e agora convém lembrar que o cavalheiro, embora não pareça, é sueco, derivando o nome dos progenitores argentinos – granjeou fama e proveito mundial a partir de 2003, quando lançou Veneer, uma colecção de canções acústicas, servidas por guitarra e uma voz encantatória e ligeiramente monocórdica. Por artes da indústria musical, as suas canções foram parar a séries de televisão americanas e José virou fenómeno de culto, estado em que se encontrava em 2007, quando lançou o segundo disco, In Our Nature.
Os Junip, que juntam González às teclas de Tobias Winterkorn e à bateria de Elias Araya, já existiam antes do sucesso de Veneer, mas foram sendo relegados para segundo plano. Este Fields é, pois, um disco de gestação lenta.
As canções que aqui podemos ouvir não são muito diferentes daquelas que González gravou a solo. E aqui as opiniões podem dividir-se: os ornamentos instrumentais favorecem, ou não, as composições originais? Se há casos em que claramente se fica a ganhar (“Howl”, uma bela canção, de ritmo suavemente afro-latino), noutros o psicadelismo insistente e repetitivo torna a audição uma experiência algo desinteressante (por exemplo em “Rope & Summit”, estranhamente escolhida para primeiro single promocional). Ou seja, os instrumentos oram entram de mansinho, ora se impõem a tudo e todos, havendo casos em que tudo isso se passa na mesma canção (“Tide”). Em suma, um disco que só convencerá os convencidos.

Lloyd Cole - Broken Record ****

Que fazer com um fulano que começa um disco com uma declaração destas: “Não que me reste alguma dignidade”? O melhor será fingir que o levamos a sério. Afinal de contas, há um quarto de século que lhe conhecemos a queda para fazer da melancolia uma espécie de euforia. Descodificando: poucos conseguem conjugar, com esta elegância, “pain” (dor) com “gain” (ganho).
Melhor que as palavras, Broken Record demonstra essa toada fatalista que dá vontade de cantarolar um sonoro “la-ra-la” (a sério, há disso por aqui). Depois de quase uma década em que lançou discos caseiros, gravados a solo, em tom menor, Lloyd Cole grava finalmente 11 canções que, pela vivacidade, ressuscitam as boas memórias dos Commotions.
Não foi fácil, esta gravação. Afastado da ribalta (Portugal é dos raros países em que alcança um razoável sucesso), Lloyd precisou de recorrer a mil fãs, que entraram com 35 euros cada, destinados a pagar os músicos, recebendo em troca uma edição especial do CD empacotada pelo próprio.
O naipe de músicos inclui Blair Cowan, dos Commotions, e Joan Wasser (Joan As Policewoman), e a produção, com recurso a pedal steel guitar, banjos e cordas, remete mais para a América do que para a british pop a que estávamos habituados (“Westchester County Jail” e “Rhinestones” são descaradamente country). Mas há uma “Oh Genevieve” tão afrancesada que até tem acordeão e canções belas e intemporais como “Writers Retreat” ou “If I Were a Song”.
Em Outubro, Lloyd fará uma pequena tournée em Portugal (Porto, Guimarães, Estarreja, Sintra e Coimbra), com o Small Ensemble, uma versão reduzida deste grupo de músicos, e cantará certamente: “Maybe I’m not made for these times”. Talvez, mas por cá não nos importamos.

Eels - Tomorrow Morning ****

O senhor Mark ‘E’ Oliver Everett, também conhecido por eels, não é pessoa dada a grandes alegrias. Mas, nos últimos tempos, em razão de uns problemas amorosos, andava um bocadinho macambúzio de mais. É, por isso, com algum alívio que se comunica às massas uma melhoria, ainda que ligeira, do ânimo do senhor Mark.
É verdade que aquela voz balbuciada não ajuda muito, mas graças a uma dose inesperadamente acentuada de electrónica, há canções quase alegres, quase dançantes (“Spectacular Girl”) e outras que parecem brincadeiras (“I Like The Way This Is Going”). Mercê dessa electrónica toda e do timbre que a voz de Everett por vezes assume, às vezes parece que estamos a ouvir Peter Gabriel (“I’m A Hummingbird”), mas isso depois passa.
O nível geral das canções, e permita-se destacar “Oh So Lovely”, é geralmente elevado, de tal forma que a alegria do senhor Mark Everett se recomenda. Até porque sabe-se lá se dura.

Philip Selway - Familial ****

Este é um daqueles discos a que se chega por engano. Philip Selway é baterista dos Radiohead e, nessa qualidade, até costuma figurar entre os melhores da actualidade. Mas neste disco não toca bateria e poucos serão os fãs da banda britânica que acharão o mínimo de graça a estas canções.
Este é um disco sobre as famílias, para ouvir sossegado em casa, em família ou a sós, de preferência numa alta fidelidade, que a delicadeza dos sons assim o exige.
Selway toca guitarra acústica (a pouca bateria que por aqui se ouve ficou a cargo de Glenn Kotche, dos Wilco) e canta. E essa é a primeira grande surpresa. É verdade que há outros baterias que cantam (Phil Collins até enriqueceu com a brincadeira), mas a voz de Selway revela-se muito agradável, seja em sussurro, seja em quase falsetto, seja num registo mais normal.
A outra grande surpresa são as canções, elas próprias. Todas escritas por Selway e todas muito interessantes e belas, uma conjugação mais rara do que se julga. Há memórias da mãe, falecida há poucos anos (“Broken Promisses”), diálogos com o(s) filho(s) (“The Ties That Bind US”) e canções sobre as escolhas que a vida nos põe pela frente (“A Simple Life”).
O registo deriva directamente do folk, parecendo por vezes que somos transportados para o final dos anos 60, ou década de 70. Com a “ligeira” diferença de que raramente as canções surgem na sua forma mais primitiva. Com toda a subtileza do mundo, surgem arranjos, que passam por coros muito serenos, alguma electrónica esparsa e até, aqui ou ali, elemento orquestrais mais clássicos. Mas sempre, sempre, com uma leveza e um bom gosto extremo, o que torna a audição do disco num exercício algures entre a (auto)contemplação e o puro prazer estético.
Resta dizer que alguns portugueses já terão tido contacto com estas canções, quando, em Maio, Philip Selway passou pelo CCB, na companhia de Lisa Germano, e do baixista Sebastian Steinberg, que colaboram neste Familial.

Isobel Campbell & Mark Lanegan - Hawk ****

Duas receitas que se cruzam. A mistura do açúcar (Isobel Campbell, ex-Belle & Sebastian) com o sal (Mark Lanegan, ex-grunge) e uma das correntes de maior sucesso na música actual, aquela mistura de country com blues, em registo indie, a que se convencionou chamar de americana.
A primeira receita vai no terceiro disco e recomenda-se. Agora com a parte feminina a assumir totalmente os comandos, por exemplo na produção, sendo que Lanegan nem se dá ao trabalho de escrever uma canção que seja.
Uma das particularidades deste disco é a inclusão de dois clássicos de Townes Van Zandt, uma velha glória do country, o que, de alguma forma, dá o tal tom americana, que perpassa por todas as canções. E é assim que oscilamos entre o blues agreste do tema-título (um instrumental) e o quase sussurro de, por exemplo, “Snake Song”. No fim, fica uma certa desilusão, porque, no fundo, nada de novo aqui se passa. Mas, que diabo, nem só de novidade vivem as almas.

Tired Pony - The Place We Ran From ***

Gary Lightbody, uma das almas dos escoceses Snow Patrol, tinha um sonho: fazer canções americanas, vagamente country, um tudo nada indie, ou aquilo a que agora se chama “americana”. Felizmente, esse é um género cuja cadeia genética não constitui segredo industrial de monta.
Lightbody acabou num estúdio de Portland rodeado de um punhado de amigos e, numa semana, engendraram isto que agora nos é dado ouvir. A outra alma do grupo é Peter Buck, guitarrista dos REM, mas o disco tem muita e variada gente a abrilhantá-lo. Tom Smith, dos Editors, dá gravidade a “The Good Book”, Zoey Deschanel (She & Him) suaviza “Get On The Road” e por aí fora.
O resultado é interessante e, diz quem já viu, funciona muito bem ao vivo, tal a quantidade e diversidade de gente em palco. Mas música desta há por aí a rodos e não parece que este disco tenha suficientes elementos distintivos para garantir a perenidade dos Tired Pony. A ver vamos.

Flaming Lips - The Dark Side Of The Moon **

“Loucura” sempre foi a palavra que melhor assenta aos Pink Floyd. Desde Syd Barrett ao estertor, o conceito esteve sempre presente, muitas vezes até de forma bem explícita.
Ora, o que fazem os Flaming Lips nesta releitura integral de uma das obras-primas da banda, quase quatro décadas após a edição original? Acrescentam loucura à loucura. Ou, se quiserem, retiram a fina camada de conveniência que civilizava o disco e deixam toda a sua profunda loucura à vista de toda a gente.
Na tarefa a que meteram ombros, os Flaming Lips tinha dois obstáculos à partida, para só falar nos mais evidentes:  a sua proximidade sónica aos PF, que os impediria de se libertarem do original; o valor intrínseco de “Dark Side”, que torna virtualmente impossível uma re-leitura de peso idêntico.
A opção tornou-se relativamente evidente: o osso das canções ficou quase intocado, enquanto à sua volta se desenvolveram malhas sonoras libertadoras. Não é brilhante.

Be Yourself - A Tribute to Graham Nash ****


“I Used To Be A King”, interpretada pelos Vetiver, poderia perfeitamente ser uma canção acabadinha de escrever, tal a modernidade da escrita e da interpretação, talvez a melhor deste disco. Mas essa e todas as outras canções têm quase 40 anos e integraram o primeiro disco a solo de Graham Nash, a alma dos britânicos Hollies e o N dos Crosby, Stills, Nash e (às vezes) Young.
Este CD reproduz fielmente o disco original, Songs For Begginers, uma espécie de homenagem organizada pela filha Nash.
Curioso é que as canções conhecidas, “Chicago” e “Military Madness”, parecem ser hoje as menos interessantes, e as verdadeiras jóias são aqueles em que ainda não tínhamos reparado com atenção, como é o caso de “Better Days”, ou “Be Yourself”.
Muito estimulante é o facto de as interpretações terem fugido à repetição do original, mas recusarem igualmente a diferença pela diferença. O resultado é uma serenidade e uma beleza que fazem justiça a Nash.

Tom Petty and The Heartbreakers - Mojo ***


Pronto, já todos percebemos: Tom Petty sabe escrever e interpretar blues. Podemos continuar a ouvir música interessante? Ah não? É preciso explicar? Então é assim…
Tom Petty anda perdido há umas três décadas, precisamente desde que decidiu gravar o primeiro disco. O homem começou por ser confundido com o punk, e depois compararam-no a Springsteen, e depois (enfim…) a Dylan, e por aí fora. E tudo isto porquê? Simples – Tom e os seus Heartbreakers nunca conseguiram encontrar uma voz própria e, acima de tudo, marcante. Fizeram, por isso, discos sofríveis, aceitáveis até, mas nunca brilhantes.
Este Mojo não foge à regra. É um tratado de blues. Há-os de todos os estilos – à la Clapton (“Running Man’s Bible”, psicadélicos “First Flash of Freedom”, talkin’, pesados, leves, quase-reaggae (“Don’t Pull Me Over”) e até (sim) dylanianos (“No Reason To Cry”). Tudo muito certinho. Excepto a emoção de que estas coisas são feitas e que por aqui não mora. Enfim, o costume.

Regina Spektor e Chris Isaak


O Cool Jazz Fest tem vindo a afirmar-se como um dos mais interessantes festivais de Verão em Portugal. Desdobrando-se por todo o mês de Julho, em vários e inesperados palcos de Cascais e Mafra, apresenta muito mais que o jazz e arredores indiciados no título. Este ano traz-nos , por exemplo, Elvis Costello e o grande Solomon Burke.
As honras de abertura vão, porém, para dois nomes pop que pouco ou nada têm comum.
Regina Spektor é uma russa que cresceu nos meios musicais de Nova Iorque. Da Moscovo natal nada lhe ficou, à excepção talvez do piano de que é inseparável. Faz uma música de autor, pouco comercial, sofisticada, apesar de nunca perder de vista os cânones da pop actual.
A sua primeira actuação em Portugal basear-se-á nos dois primeiros discos de originais: Begin To Hope (2006) e Far (2009), sendo que as potencialidades das canções e a versatilidade da artista prometem uma noite luminosa e de improvisos.
Chris Isaak é de outra colheita. Californiano, na casa dos 50, evoca os anos 50 e 60, na vertente melancólica, assumindo-se como herdeiro de Roy Orbison e das suas canções de sofredor apaixonado e abandonado.
Tem uma canção que já toda a gente ouviu, embora talvez não saiba nomear (“Wicked Game”), representativa da extrema sensualidade que marca a sua obra.
Após um jejum de sete anos, lançou um disco em 2009 (Mr. Lucky), que será a base da actuação em Portugal, naquela que promete ser a noite romântica do festival.

Karen Elson - The Ghost Who Walks ****


Karen Elson andou nas capas da Vogue e fez anúncios para Yves Saint Laurent, o que faz dela mais uma supermodelo reciclada em cantora. Dizer isto é de uma injustiça tremenda. Como tremenda seria a injustiça de a tratar, apenas, pela actual mulher de Jack White. Na verdade, Karen tem uma queda antiga pela música, que a levou a participar em alguns projectos sem história. E, mais importante, na estreia a solo mostra que tem unhas para esta guitarra: as canções, quase todas de sua exclusiva autoria, são boas, e a voz, não sendo nada do outro mundo, é muito agradável.
É claro que a presença, como produtor, de Jack White sente-se um pouco por todo o lado, especialmente nos pormenores que fazem a diferença.
Sendo a sua primeira gravação, Karen Elson parece ter querido mostrar que tanto se sente à vontade no country (“The Last Laugh”), como no folk do Inglaterra natal (“Lunasa”), como nas canções mais rock a lembrar, sim, os Whitestripes.