Seasick Steve - You Can’t Teach An Old Dog New Tricks ***

Há discos que avisam logo na capa que contêm “conteúdo explícito” e só os ouve quem quer ou pode. Este diz logo no título que não se podem ensinar novas habilidades a um velho cão. Deste cão velho já conhecemos todas as habilidades, especialmente a sua colecção de guitarras mais ou menos estapafúrdias, que utiliza com mestria num blues rude, sem grandes rodeios. Ora acontece que este é o quarto disco deste antigo frequentador de estúdios e, passado o “ah” de espanto das primeiras impressões, o que nós queríamos mesmo era novas habilidade. Ao invés, Seasick Steve dá-nos mais do mesmo - canções medianas. Não chega a ser mau, obviamente. Mas também não é nada de especial. Ouvem-se com agrado coisas eléctricas, como “Back In The Doghouse”, e ainda mais algumas acústicas (“Treasures”, ou “It’s A Long Way”), mas não se vai muito longe. O que só prova a falta que fazem escolas para cães adultos, uma espécie de Novas Oportunidades caninas.

Patti Smith - Outside Society *****

Aos 65, Patti Smith, a anti-heroína, salvo seja, atinge a glória. E que glória mais perfeita. Não grava há quatro anos e o último disco com material próprio data de 2004. A glória chega pela via literária, glória maior para quem sempre cultivou um estatuto de intelectual e contaminou o rock mais primário, de estruturas simples e descarnadas, com a veia poética dos clássicos franceses e americanos. A história recente de Patti Smith gira em torno de Just Kids (Apenas Miúdos, na versão portuguesa lançada este ano), o livro de memórias em que relata os momentos seminais na Nova Iorque dos anos 70, na companhia do fotógrafo, entretanto falecido, Robert Mapplethorpe. Foi com esse livro que ganhou o prestigiado National Book Award e foi na senda desse prémio que a distinguiram, na Suécia, com o Polar Music Prize (há quem lhe chame o Nobel da música contemporânea). E é Just Kids que motiva a edição desta primeira colectânea da obra de Patti Smith num único CD, o qual funciona, pelo menos parcialmente, como banda sonora do livro. A colectânea anterior (Land, 2002) baseava-se num conceito menos representativo e continha um segundo CD com raridades. Desta vez, a abordagem é sistemática e ecléctica: estão representados todos os dez discos da sua carreira, começando no obrigatório Horses (1975) e acabando no de versões (Twelve, 2008). É claro que estão aqui as canções mais conhecidas, desde a alucinada versão de “Gloria”, ao seu maior sucesso comercial, “Because The Night”, escrita com Springsteen, passando pelo energético “People Have The Power”. Mas também uma versão arrebatadora, como todas as suas canções, de “Smells Like Teen Spirit” (Nirvana), paradigma do tráfico geracional que sempre envolveu Patti Smith, artista que como poucos soube enraizar-se no passado para se manter na vanguarda.

Liam Finn - FOMO ****

Liam Finn ainda não matou o pai, para grande tristeza do doutor Freud e alegria do pai e de todos nós. Porque matar o pai talvez significasse, no caso de Liam, deixar de escrever canções pop na melhor tradição das excelentes canções pop do pai, Neil Finn, líder das bandas australianas Crowded House e Split Enz. Este é o segundo disco com assinatura própria (depois de I’ll Be Lightining, de 2007) e a matriz mantém-se: pop pura vestida de electrónica, num disco que remete frequentemente para aquele que Pete Yorn escreveu para a voz de Scarlett Joahnsson (exemplo disso é a canção de abertura “Neurotic World”, mas também a sonoridade suja de “The Struggle”). Pop mais nu é, por exemplo, “Cold Feet”, o primeiro single, ou “Reckless”, uma canção alegre que poderia ter sido escrita na Inglaterra dos anos 90. Motivos mais que suficientes para superar com distinção a prova do segundo disco.

Pactrick Wolf - Lupercalia ***

Não é fácil cantar o amor e, talvez por isso, as melhores canções de amor falam da falta dele. Pactrick Wolf tinha cantado a falta de amor no seu último disco (The Bachelor), uma obra sombria. Passados dois anos, parece que está apaixonado e dá-lhe para fazer um disco exuberantemente optimista. “Exuberância” é aqui a palavra-chave. Não apenas na temática (as excelências e alegrias do amor em 11 variações), mas especialmente na abordagem. Este é um disco que vai buscar a batida ao “disco” e a fanfarra aos metais e tambores sinfónicos para, num registo a roçar o kitsch, proclamar as tais graças do amor. A voz projectada de Pactrick Wolf assenta que nem uma luva a tais intentos. As canções parecem ter sido pensadas para grandes coreografias (“House”) ou pistas de dança (“Time Of My Life”), mas é tal a densidade, um tanto monótona, da maioria, que chega a ser reconfortante ouvir qualquer coisa mais simples (“Armistice”).

Okkervil River - I Am Very Far ****

Vocês nunca ouviram nada assim. Bom, há os Arcade Fire e os Decemberists e tal. Mas isto é outra coisa. Mesmo os Okkervil River nunca tinham feito nada assim, eram uma banda de country alternativo relativamente bem comportado. Mas Will Sheff, alma dos Okkervil, arregaçou as mangas, escreveu as canções, cantou, tocou uma dezena de instrumentos e produziu o disco. E que produção! Continuam a ouvir-se guitarras, mas os 50 minutos do disco são de uma rara densidade e complexidade instrumentais, a que não faltam secções de metais e cordas e um dos mais vibrantes exercícios de percussão da história do rock. E não é tudo isso demasiado pomposo, gongórico? Não, e é aí que está a beleza da coisa. Sheff conjuga toda essa tensão sonora com um lirismo poético e melódico, que dá origem a momentos de grande beleza, como “Hanging From a Hit”, “Your Past Life As a Blast”, “White Shadow Waltz”… e por aí fora.

A década Sinatra *****



São mais de 200 canções, gravadas há quase 60 anos e lançadas agora a preço reduzido. Manuel Morgado ouviu-as todas e ficou convencido de que a perfeição existe

Lá fora são os anos 50 do pós-guerra, do baby boom, da América próspera. Tudo parece possível, até a felicidade, e há uns miúdos e alguns graúdos que inventam uma nova música a que chamam rock’n’roll. Sinatra, o dono da Voz que explodira na década anterior, é o contraste perfeito desse glamour: está fora de moda, é despedido pela editora (Columbia), cambaleia entre o divórcio de Ava Gardner e tentativas de suicídio. Como tantas vezes na História, está criado o clima para uma enorme explosão de talento, que marcará uma época, mas, acima de tudo, estabelecerá um paradigma.
Os discos que Frank Sinatra lançou na Capitol (1953-61) são absolutamente históricos. Desde logo pela abordagem que faz a cada canção, tratando-as como se fossem, todas e cada uma, um caso muito pessoal. Sinatra não avia canções, vive-as e isso ouve-se. Históricos também porque, aproveitando o advento do LP, Sinatra inventa os discos conceptuais: as canções são escolhidas à volta de um conceito, seja o amor, as viagens, a dança, ou o amor, outra e mais uma vez. E, enfim, são discos históricos porque tudo neles é perfeição: a voz, os arranjos e a condução de orquestra (além de Billy May e Gordon Jenkins, começa a colaboração com Nelson Riddle, que marca toda esta época), e as próprias composições, constituindo este repertório um autêntico cancioneiro americano, a que não faltam Gershwin, Porter, Mercer, Arlen, Rodgers &Hart…
A colecção que agora chega a Portugal beneficia da cessação dos direitos autor, passados que foram 50 anos sobre as edições originais. Uma editora de Barcelona juntou em 12 discos as gravações remasterizadas de 12 LP e alguns singles, a que não faltam as capas originais, numa operação low cost com matéria-prima de luxo.
Por ordem cronológica, Songs For Young Lovers/Swing Easy! (1954) condensa a ideia que presidiu às gravações da Capitol: discos de canções de amor, alternados com outros de dança, aqui juntos num mesmo CD. E é aqui que podemos ouvir gravações “definitivas” de “My Funny Valentine”, “I Get A Kick Out Of You”, ou “Just One of Those Things”.
O ano seguinte foi inteiramente dedicado ao amor, ou melhor, à falta dele. In The Wee Small Hours cria uma atmosfera íntima, propícia a exorcizar amores que se rompem e que se tentam preservar com inviáveis promessas de amizade. “What Is This Thing Called Love”, pergunta Cole Porter.
Songs For Swingin’ Lovers (56) é todo ele alegria (“You Make Me Feel So Young”) e chega a garantir que, sim, o amor existe (“Love Is Here To Stay” e “I’ve Got You Under My Skin”). A orquestra brilha a grande altura. E o ano não acaba sem que seja lançada a primeira colectânea de singles (This Is Sinatra), até porque A Voz tinha voltado novamente aos tops (em 1958, surgirá o segundo volume).
No disco de 57, Sinatra surge na capa de olhos de fechados, a dar o mote para aquele que talvez seja o momento mais intimista da sua carreira, Close To You. São 12 canções, delicadamente orquestradas, reflexivas, contra a corrente (estávamos no auge do rock’n’roll). E mais uma vez Sinatra canta, com um jeito quase coloquial, como quem respira, as agruras do coração. Mas – esperem! – o ano fecha com A Swingin’ Affair, ao qual bastaria ter “Night And Day” a abrir, mas tem muito mais.
Where Are You (amor), Come Fly With Me (viagens) no mesmo CD de Come Dance With Me! (dança) e ainda Only The Lonely, Look To Your Heart e No One Cares (o amor, a falta dele) são os discos que se seguem e que revelam as tão variadas facetas de um artista em fase inspirada.
A Capitol editaria ainda mais três discos e Sinatra tem pela frente uma carreira de sucesso na sua própria editora (Reprise), mas os anos 50 ficarão como a sua década de ouro.

Eddie Vedder - Ukelele Songs **

Sim, Eddie Vedder também tem sentimentos, e família e coisas assim, mortais. Não é apena aquela “estrela, sobre-humana, que se apresenta em palco à frente dos Pearl Jam. E nada melhor para o demonstrar, pensou ele, que pegar no ukelele e, sem nada na manga, cantar 16 canções de enfiada. Pensou mal. O ukelele, descendente do nosso cavaquinho, tem a sua graça, mas é muito limitado. Mesmo num disco que totaliza apenas 34 minutos, ao fim de um certo tempo já se sente uma espécie de… enjoo. E isto ressalvando que Eddie Vedder até utiliza bem a sua voz de barítono para contrapor à monotonia do instrumento. Passam por aqui canções próprias (até dos Pearl Jam – “Can’t Keep”) e alheias, dois convidados especiais (Glen Hansard e Chan Marsall/Cat Power), e uma certa dose nostalgia, seja do surf, da natureza, dos espaços abertos. Ficam duas ou três canções na memória (“Sleelping By Myself” e “Without You”) e pouco mais.

Jay-Jay Johanson - Spellbound ****

Alegrai-vos, românticos depressivos. Jay-Jay Johanson está de regresso e traz com ele mais uma mão cheia de canções belas e tristes, melodiosas que até doem. Há uns cinco anos que este sueco não dava sinais de vida e, pelos vistos, fez-lhe bem o descanso. Nesta nova gravação, as electrónicas foram remetidas para o subtexto, raramente rompendo o papel de quase decoração de fundo, dando todo o palco à voz, ao piano e às cordas. O tom mantém-se. Johanson bebe imenso no jazz (“An Eternity”), mas também nos filmes de Hollywood (“Blind”), enfim, nos grandes cantores (“Dilemma”, o primeiro single, tem a batida do histórico “Fever”…), sendo as quatro primeiras canções do disco um autêntico tratado de bem compor e bem interpretar. Mas não há que ter ilusões, que ninguém venha aqui à procura de salvação. A morte é o lema que atravessa o disco e a audição, exigente, ressente-se disso. Podem comprová-lo ao vivo, em Outubro, em Sintra.

Willie Nelson & Wynton Marsalis - Here We Go Again **

Algumas almas sensíveis já nem podem com o nome de Norah Jones. Pois em verdade vos digo que, não fosse a moça, e este mega-acontecimento teria ido pelo cano abaixo. Porque, na realidade, é a voz de Norah que, pontuando a maioria dos temas, acaba por lhes conferir um mínimo de homogeneidade. E isto por um motivo muito simples: temos de um lado um oleado quinteto de jazz, ao qual se junta a guitarra e o acompanhante de harmonia de Willie, e temos do outro lado uma voz que nunca foi grande coisa, mas que está pura e simplesmente estafada. Acontece que o repertório de Ray Charles exige uma voz potente e isso é coisa que por aqui não há. O conjunto fica de tal forma desequilibrado que até os solos orquestrados por Wynton chegam a maçar. Norah Jones, não tendo um vozeirão, confere aos momentos em que intervém aquela doçura que lhe conhecemos… e as canções acabam por fazer sentido. Ouça-se, por exemplo, “Cryin’ Time”, e, no pólo oposto, “I Love You So Much”.

Robbie Robertson - How To Become Clairvoyant ***

Ia começar por uma referência à capa, do género “eis uma candidata à pior capa do ano”, mas depois reparei que a foto é de Anton Corbijn, o grande Corbijn. Arrepiei caminho – que percebo eu, afinal, de fotografia? Vamos, então, à música.
Robbie Robertson, para os mais esquecidos - o homem não gravava há uma década e meia e, por isso, deve haver pelo menos uma geração que nunca o ouviu –, integrou uma banda mais ou menos mítica estranhamente chamada The Band, que gravou umas coisas com Dylan e outras sem Dylan, e que se tornou mundialmente famosa com o espectáculo de despedida, em formato de filme: “A Última Valsa” (Martin Scorcese).
A propósito, este disco tem, não uma valsa, mas um tango, “Tango for Django”, algo experimental, não tanto quanto “Madame X”, de e por Eric Clapton, com “texturas sonoras” de Trent Reznor. O resto do disco é, essencialmente, blues. E muito Clapton (assina ou interpreta sete dos 12 temas).
Robbie Robertson empreende uma viagem autobiográfica, aos anos 60, aos tempos da banda, aos seus guitarristas preferidos (“Axman”), mas também introspectiva (daí o título do CD), que torna o disco num exercício com o seu quê de romântico. As guitarras, é claro, são o fio condutor das histórias e há-as, as guitarras, de todas as sonoridades possíveis, felizmente em doses aceitáveis. As canções são encenadas, há aqui algo de cinematográfico (a actividade de Robbie nos últimos anos), o que lhes confere alguma diversidade, mas igualmente uma modernidade que chega a surpreender. Apesar disso, e tendo em conta os nomes envolvidos (já falei de Steve Winwood?) e a prolongada ausência, seria de esperar uma maior densidade. Cumpre, mas…

k.d. lang - Sing It Loud ****

Há um fio condutor na obra de k.d. lang que este novo disco vem novamente evidenciar. E esse fio condutor é, precisamente, a ausência de um fio condutor. Explicando melhor: ao fim de quase três décadas, é difícil, ou mesmo impossível, detectar uma trajectória, preferencialmente de crescimento, na carreira desta canadiana americanizada. Ao country genuíno inicial, seguiram-se aventuras pelo country alternativo e pelos campos mais amplos da pop. Essa diversidade, digamos, não é o problema, já que a exploração de territórios nunca fez mal a ninguém. Problema, se quisermos mesmo problematizar, é a ausência de um corpo, a dificuldade em encontrar um sentido na dezena e meia de discos que já gravou.
E eis-nos, então, perante Sing It Loud, o disco com que k.d. lang parece querer abrir uma nova frente. Trata-se da primeira gravação, em muitos anos, em que surge acompanhada por uma banda própria, apelidada para o caso de Siss Boom Bang, nome fantástico. E isto é importante porque se trata, de facto, de um disco de banda, em que se ouve o conjunto e em que o conjunto tenta fazer sentido. É claro que o centro de tudo continua a ser a voz única e sensacional de k.d. lang. Ouça-se a sensualidade de “I Confess”, ou a elasticidade de “A Sleep With No Dreaming” e fica tudo dito ao fim das duas primeiras canções. Mas, já agora, a terceira (“The Water’s Edge”) também é muito boa e um excelente exemplo das guitarras e do órgão que dominam todo o disco.
As canções são todas (co)assinadas pela cantora e até há uma outra menos razoável (“Inglewood”, por exemplo), havendo apenas uma versão (“Heaven”, dos Talking Heads), que, sendo interessante, não é nada do outro mundo. Para primeiro disco de uma nova fase, é prometedor. Falta perceber como continua.

Emmylou Harris - Hard Bargain ***

Ah, essa tentação de regressar aos lugares onde fomos felizes! Doce ilusão. Passam agora 38 anos que Gram Parsons, alquimista do country-rock, se passou deste para outro mundo, deixando a jovem Emmylou afogada em desespero por um amor que tão pouco durou. Quatro décadas depois, esta “Lonely Girl”, como se define numa das canções, regressa a esse ano que a deu a conhecer ao mundo da música e dedica a Gram uma segunda canção (a primeira fora “Boulder to Birmingham”, em 1975). “The Road”, que abre o disco, é mais que uma canção de amor, é uma prova da devoção que perpassa um pouco por toda a obra de Emmylou Harris, muito especialmente pela fase pós-Wrecking Ball (1995), o disco que marca a sua ruptura com Nashville, a opção pela country alternativa e também a assumpção enquanto autora.
Aqui chegados, é necessário fazer uma ou duas advertências. Emmylou Harris ficará para a história como uma das mais belas vozes da country, sendo a sua verdadeira especialidade a gravação de versões. Enquanto autora, se é verdade que esta fase mais recente comporta uma ou outra canção mais bem conseguida, o balanço global não é famoso.
Acontece que, neste disco, a voz de Emmylou, embora ainda encantatória, dá sinais de fragilidade, e acontece ainda que, só ou acompanhada, ela escreve 11 das 13 canções. E acontece ainda que a produção pouco mais consegue que criar alguns ambientes atmosféricos para embrulhar a voz.
Sendo um disco agradável, em que tudo parece estar no sítio, não deixa de ser uma peça um tanto monótona, sem chama. É disso exemplo a evocação da amiga Kate McGarrigle (“Darlin’ Kate”), que certamente será autêntica, sentida, mas que é também confrangedoramente banal. O melhorzinho ainda acaba por ser o tema que dá título ao disco, mas esse é assinado por… Ron Sexsmith. Lá está, as versões!

Lisa Ekdahl - At the Olympia ***

Esqueçam o Olympia. Nos dias que correm, qualquer um lá chega. Nesta edição, a parte mais valiosa é o DVD, todo filmado a preto e branco, em que há, é verdade, Paris, mas acima de tudo os ensaios, os encontros, as canções, no conforto da casa de Lisa, entre amigos, algures na Suécia natal. É claro – não sejamos ingénuos – nada disto é espontâneo. Afinal de contas, meteram lá em casa uma equipa de televisão. Mesmo assim, há um doce aroma a improviso, ou, se quiserem, a reinvenção, em canções como “The World Keeps Turning” ou “Sing” que suplanta o tal espectáculo do Olympia. Mas, já que o disco se chama “At The Olympia”, convém referir que, além de algumas canções no DVD, temos direito a um CD áudio todo ele made in Paris. Nada que não conheçamos – Lisa já passou mais que uma vez por cá -, ou seja, aquele jazz muito ligeiro, bossa à mistura, e aquele fio de voz que limpa as canções de Cole Porter de qualquer traço de Sinatra.

The Unthanks - Last ****

A melancolia como forma de arte. Êxtase para os adeptos das coisas tântricas, um desespero para o resto dos mortais. Há oito anos e quatro discos que as manas Unthanks se dedicam à obsessiva tarefa de espalhar a tristeza pela face da Terra. As canções, muitas delas tradicionais, outras de autores mais ou menos famosos, e ainda outra originais, são submetidas a um eficaz processo de desaceleração rítmica, embrulhadas em esparsas orquestrações e depois passadas pelas vozes encantatórias de Rachel e Becky, quais sereias da folk britânica, atraindo-nos para abismos imensos.
Neste Last, o trabalho de orquestração é particularmente meticuloso, por exemplo transfigurando “Starless” (dos King Crimson) numa canção de beleza sufocante. Já “No One Knows I’m Gone” (de Tom Waits) resulta relativamente banal. “Close the Coalhouse Door” entra por caminhos complicados,  tornando talvez demasiado próximo o drama dos mineiros. Não é para todos.

Jessica Lea Mayfield - Tell Me ****

Um disco complexo. Talvez assuste. Mas muito sedutor, e isso muda tudo. Aos 21 anos e ao segundo disco, Jessica Lea Mayfield revela uma poética experiente, capaz de lidar com os mais tortuosos sentimentos. Embalados pela fragilidade preguiçosa da voz, somos amiúde atraídos para autênticas armadilhas de sedução, às quais, sim, nem falta alguma evidente carnalidade. E é preciso frisar esse primado do texto, para que não sejamos (dis)traídos  pelo autêntico caleidoscópio em que o produtor Dan Auerbach (dos Black Keys) transformou este exercício, surpreendentemente, sem pôr em perigo o conjunto. E é assim que viajamos pelo mais puro pop (“Blue Skies Again”), a electrónica pouco sofisticada (“Grown Man”), ou momentos de grande intensidade, como “Run Myself Into The Ground”, passando pela revisitação da country (“Sometimes At Night”). As guitarras, um tanto desgrenhadas, a par da voz, claro, acabam por ser a corrente que dá coerência ao conjunto.

Lucinda Williams - Blessed ****

Canções de entrega e abandono, de preferência em registo de balada. Com voz quase balbuciada, lânguida, ora sofrida, ora insinuante. E há uns anos que Lucinda não ia tão fundo, na entrega absoluta, ou da dor da ausência. Neste disco, há dois amigos que partem, talvez para a órbita da terra, talvez a caminho do sol, como ela canta em “Copenhagen”, ou em “Seeing Black”, dedicada a Vic Chestnutt e com Elvis Costello na guitarra. E há o outro lado da vida, o amor incondicional (“Born To Be Loved”), encantatório (“Kiss Like Your Kiss”), e incondicional outra vez (“I Don’t Know How You’re Livin’”). Talvez devido à produção, extremamente cuidada, mas seguramente também graças à composição, este é um dos melhores discos de Lucinda Williams e marca um certo regresso às origens, do blues e do country sofisticados, onde nunca falta pelo menos uma guitarra, de preferência eléctrica e agreste.

Luísa Sobral - The Cherry On My Cake ****

Norah Jones e Regina Spektor. Pronto, já está. Mandam as regras que cada cantor(a) novo(a) deve ser rotulado(a) com as suas influências. Diz que facilita a orientação do consumidor… Luísa Sobral tem, de facto, um estilo que faz lembrar o pop-jazz da primeira e a criatividade da segunda. Mas – que Diabo! - das 13 canções deste disco só não escreveu uma (“Saiu Para a Rua”, de Rui Veloso, em versão peculiar) e, se há coisa que a estreia demonstra, é uma compositora e cantora com asas para ir bem mais longe. Aos 16, foi aos Ídolos, depois viajou para os EUA, onde aprendeu música a nível universitário e actuou, entre Boston e Nova Iorque. No regresso à pátria, aos 23, lança um disco, entre o pop e o jazz, em inglês e português (menos deste, mas mesmo assim com uma das melhores canções, “O Engraxador”). E o disco está a ser acompanhado por uma boa campanha de promoção. Tudo muito profissional, raro por cá. Tem pernas para andar.

Drive-By Truckers - Go-Go Boots ***

Os Drive-By Truckers produzem que se fartam. No ano passado, foram para estúdio e gravaram tanto, que acabaram por fazer dois discos (para já…). The Big To-Do (2010) ficou com os temas mais ao estilo da banda: três guitarras, sempre a abrir, nada do outro mundo. Este Go-Go Boots é mais temperado. Mantém-se, obviamente, o pano de fundo sulista, agreste, mas as guitarras eléctricas cedem a vez a uma ou outra acústica e o ritmo desacelera claramente. Aqui, pisamos o solo das baladas, de raiz soul, blues, country… Duas belas canções de Eddie Hinton (um pequeno mito dos estúdios, já falecido) – “Everybody Needs Love” e “Where’s Eddie” dão o tom, mas todo o disco decorre numa toada calma, deixando respirar as histórias de gente comum que são outra das marcas do grupo. Do lado dos originais, ressaltam “Dancin’ Ricky” e “Ray’s Automatic Weapon”, mais dois personagens bem construídos. Um disco que merece, no mínimo, uma espreitadela.

Katie Melua


Katie Melua é uma rapariga confiável. E cabe a cada um fazer o julgamento, ou gosta assim mesmo, ou sabe-lhe a pouco. Os portugueses parecem filiar-se no primeiro grupo, se tivermos em conta que Katie é relativamente popular cá pelo burgo. Confiável porque, não sendo propriamente uma autora e intérprete de primeira grandeza, cumpre mais que os mínimos e não costuma desiludir.
São assim os seus discos: agradáveis, nunca demasiado surpreendentes, mas também nunca abaixo da linha de água. Por cá, o sucesso deu-se ao segundo e terceiro disco, Piece by Piece (2005) e Pictures (2007), sendo que o mais recente, Horses (2010), talvez só agora, com os concertos de Lisboa e do Porto, saia do armário.
Apoiada pelo produtor William Orbit (o mago da fase mais electrónica de Madonna), Katie tenta, em Horses, alargar horizontes para lá da imagem folk e jazzy que marcou os primeiros anos de carreira. Está agora mais atmosférica, nuns casos, mais opulenta, noutros.
Obviamente, são coisas que casam, o jazz e o folk, com a electrónica e não virá mal ao mundo se, na passagem por Portugal, alguns dos clássicos (“The Closest Thing To Crazy” ou “Nine Million Bicycles” surgirem com roupagens diferentes. Até porque, ao vivo, Katie costuma imprimir uma grande carga dramática, por vezes quase operática, a cada interpretação, fazendo normalmente esquecer o original. É isso que torna cada espectáculo de Katie Melua apetecível, não apenas para os fãs, mas igualmente para um público mais vasto. Aquele a quem bastam artistas confiáveis, é claro.

Pearl Jam - Live On Ten Legs ****

Na última década, os Pearl Jam lançaram 72 discos duplos com cada uma das suas actuações ao vivo. Uma batalha contra a pirataria, que proporcionou a cada fã uma espécie de souvenir personalizado. Esse gesto resulta, porém, de uma constatação óbvia – é ao vivo que a banda dá o seu melhor e as versões de concerto são normalmente mais interessantes que as de estúdio.
Este On Ten Legs é uma espécie de Best Of desses 72 discos, já que reúne 18 gravações efectuadas em vários espectáculos, entre 2003 e 2010. E é também demonstrativo da enorme energia colocada em cada canção, seja nos permanentes riffs das guitarras, seja na voz (es)forçada de Eddie Vedder. Banda poderosa, esta.
Estas 18 canções abarcam toda a carreira dos Pearl Jam, com especial incidência no primeiro e marcante Ten (“Jeremy”, “Alive”, “Porch”), mas chegam até ao recente Backspacer (2009). À laia de bónus, surgem ainda “Public Image” (dos PIL) e “Arms Aloft” (de Joe Strummer).

Adele - 21 ****

Então a Amy Winehouse nunca mais tem disco novo? Bom, isso agora não interessa nada, até porque não é dela que vamos falar. A Amy só vem à memória porque Adele – as coisas que os magos do marketing inventam – foi considerada a nova Amy, quando apareceu, vai para três anos. Na verdade, à semelhança de outras britânicas, como Duffy, também Adele é uma espécie de “filha” comercial de Amy, especialmente pela exploração do filão do revivalismo.
Mas a verdade é que – ah, ah – Amy não tem disco novo e Adele tem. O primeiro chamava-se 19 e recebeu uns Grammys. Este chama-se 21 (que original…) e, se não ganhar prémios, vai pelo menos engrossar violentamente a conta bancária da autora.  Adivinham-se sucessos atrás de sucessos com várias das canções aqui presentes.
Este disco consagra uma autora muito acima da média e uma intérprete peculiar. A voz de Adele é bonita, mas tem vulnerabilidades, que ela consegue valorizar, encaixando-as no fraseado, transformando nota falsas em estilo.
Há aqui revivalismo em doses consideráveis – o tema de abertura e primeiro single, “Rolling In The Deep” é uma explosão de disco e gospel – mas há, acima de tudo, um classicismo feito de doses equilibradas de elegância e emoção. O amor – melhor, o desamor, as separações – são a matéria-prima destas canções, com “Someone Like You” (piano e voz, apenas) a revelar-se desde já como um dos clássicos nessa matéria.
A produção, por onde anda Rick Rubin – há em todo o disco apontamentos americanos, que fazem antever uma aposta comercial forte no outro lado do Atlântico -, é toda conduzida para deixar fluir a voz, não se dispensando, no entanto, de uns coros pujantes e de alguns momentos de grande beleza, seja apenas no piano, seja em curtos trechos de cordas.

Feist - Look At What The Light Did Now ** (extras ****)

Está tudo ao contrário. Neste pacote, chamemos-lhe assim, deve-se começar pelo fim, pelo CD áudio. É, de longe, o pedaço mais interessante desta edição - metade preenchido com actuações de Feist ao vivo, metade com improvisos de Chilly Gonzales, ao piano, sobre os temas originais de The Reminder, o CD de 2007 que está na origem de tudo isto.
Apesar de ser apresentado com a peça central, o documentário Look At What The Light Did Now é uma peça relativamente desinteressante. São 80 minutos de filmagens de bastidores, de entrevistas e de excertos de espectáculos ao vivo, tudo filmado num registo assumidamente lo-fi. A ideia é encenar a criação, gravação e apresentação ao vivo de The Reminder, o maior sucesso da canadiana Feist até à data. Mas, na verdade, não há muito que contar para lá de umas banalidades que, em circunstâncias normais, poderiam ser o extra de um DVD, mas nunca o seu coração.
A grande valia desta edição está, especialmente, no CD áudio, em que Feist interpreta com uma particular delicadeza canções como “So Sorry” ou “Where Can I Go Without You?”, ou, num formato mais pop, “Secret Heart”. Em qualquer dos casos, versões bem mais quentes e íntimas que as de estúdio.
Os próprios extras do DVD acabam por ter mais pólos de interesse que a peça central. Incluem, por exemplo, duas curtas metragens construídas a partir de canções de Feist (“The Water” e “Departures”), em que há pelo menos a tentativa de construir uma narrativa.
E há ainda algumas actuações ao vivo, embora padeçam da mesma pobreza visual do documentário central, e os clipes de maior sucesso (“1234” e “My Moon My Man”, por exemplo) de The Reminder.
São, enfim, duas ou três horas literalmente bem embaladas, para alegria de fãs e coleccionadores.

Regina Spektor - Live in London ****

Há, é certo, muita tecnologia envolvida. Mas a essência está lá. E o que mais espanta é isso mesmo – como consegue alguém encher um palco, uma sala, com uma voz, com todas as vibrações e subtilezas de uma voz. A voz de Regina Spektor merece toda a tecnologia do mundo, tal é o cuidado posto na sua modulação, os trinados, os sussurros, as explosões, a alegria de cantar. A voz está para Regina como o corpo e os artifícios cénicos estão para as beyoncés e as gagás – é ela, a voz, que enche o palco, é dela que emana toda a espectacularidade. Percebe-se isso ouvindo o CD, mas tudo se torna muito mais evidente quando se assiste ao registo vídeo em DVD, todo ele construído à volta dos grandes planos dos lábios de Regina. Por mais que o corpo cresça e se balanceie ao piano, é na voz, nos lábios, que tudo se concentra. É aí que reside a coreografia essencial desta música.
O pacote inclui os dois suportes (CD e DVD) resultantes de uma actuação, em Dezembro de 2009, no Hammersmith Apollo, de Londres. As canções são mais ou menos as mesmas (especial incidência na última gravação em estúdio, Far, de 2009), embora o alinhamento não seja idêntico. No DVD, intercalaram as canções com cenas de bastidores e da digressão, uma opção discutível, na medida em que terá sido sacrificada a relação entre a artista e o público.
Os fãs de Regina encontram aqui canções raras, como “Love, You’re A Whore”, os simples mortais têm aqui um excelente “Regina para principiantes”, uma colectânea do melhor dos seus três discos, interpretado como se de uma gravação de estúdio se tratasse. E nunca será demais salientar que tudo isto é conseguido apenas com um piano (às vezes, uma guitarra), um quarteto de cordas e uma bateria. E, claro, a voz.

Norah Jone - Featuring ***

Quem quer cantar com a Norah que canta tão bem e é tão bonitinha? Todos. Até Ray Charles, que foi uma das últimas coisas que fez antes de morrer, em 2004.
Este disco reúne 18 canções, editadas entre 2001 e 2010, e acaba por ser uma colecção algo decepcionante. Esperar-se-ia que de um talento excepcional, como o de Norah, acompanhado de um leque de famosos ou nem tanto, saísse um disco de excepção. Não é o caso. A generalidade das canções viaja à boleia da voz quase encantatória de Norah Jones, no seu registo soft jazz, e abstém-se de arriscar. É muito agradável ouvir os Belle and Sabastian, até porque a canção é fabulosa, a reinterpretação de “Court & Spark” (Joni Mitchell) na companhia de Herbie Hancock é muito boa, e há ainda mais um punhado de coisas interessantes. Mas a maioria das versões fica-se pela mediania, ou pior ainda (Willie Nelson, Dolly Parton). Norah Jones merece e é capaz de melhor.

Divine Comedy


Um dos grandes encantos dos Divine Comedy é o casamento perfeito, ora dramático, ora simplesmente lírico, entre os arranjos de cordas e a voz bela e grave de Neil Hannon.
Ora não é nada disso que vamos ter nas próximas apresentações do senhor Divine Comedy em Portugal. Hannon viaja acompanhado apenas de piano e guitarra e é assim que vai subir ao palco. Perde-se a grandiosidade do som dos Divine Comedy, o seu traço barroco, e ficamos apenas com as canções.
E aqui entra outro dos grandes encantos dos Divine Comedy – as canções. Neil Hannon é um dos melhores autores da década de 90, propondo-nos um raro equilíbrio do humor com a ternura, das reflexões melancólicas com a crítica social.
Isso mesmo é audível no disco com que recentemente quebrou um silêncio de quatro anos, o qual já tinha sido antecedido de silêncio de igual magnitude. Isto tudo porque Hannon se tornou um homem de família e também porque, confessa, não tem muita paciência para as despesas da fama. Bang Goes The Knighthood é um disco com uma canção sobre a crise financeira internacional (“The Complete Banker”), mas também com temas tão reveladores como “When a Man Cries”.
Ao piano ou à guitarra, Hannon terá, obviamente, que regressar ao clássicos dos Divine Comedy, por exemplo, “The National Express”, ”Our Mutual Friend”, ou “Something For The Weekend”. E talvez cante, se lhe pedirem, uma canção de Brel, Brassens ou Gainsbourg, daquelas que gravou ao vivo para uma edição especial de “Bang Goes The Knighthood”.

Nicotine’s Orchestra - Ghosts and Spirits ****

Há muito que o Barreiro deixou de ser a cidade pós-industrial deprimida e passou a integrar uma América imprecisa, talvez no Sul, numa época também ela indefinida. Nomes como Nick Nicotine, músico, produtor, editor e organizador de festivais, colocaram a cidade num roteiro do rock nacional que vive à margem da rádio e de outros circuitos de divulgação.
Este disco, o segundo da Nicotine’s Orchestra, é uma boa oportunidade para a rádio se redimir. Muitas das canções que por aqui se ouvem poderiam ter sido escritas na tal América e até figurar em antologias do rock rude, herdeiro da soul e do blues (“Rosario”), tipo George Thorogood (“Love At First Sniff”), topam? Ou, se preferirem, filhas do cruzamento das bandas sonoras de Tarantino (“Help Me”) e David Lynch (“Mighty River”), que o psicadelismo também lhes assenta muito bem.
Um disco, já perceberam, cruzamento de muitos e bons imaginários.

Márcia - Dá ****

As frases feitas existem para serem usadas. Eis então: primeiro estranha-se, depois entranha-se. A canção inicial causa uma sensação esquisita: a voz cai para o sopinha de massa, as sílabas, ora se atropelam, ora, comidas, desaparecem. Uma contrariedade.
A cada canção, habituamo-nos à ideia. Percebemos que a voz frágil foi incorporada no estilo e o único (?) lamento é nem sempre percebermos o que canta Márcia. Até porque pressentimos poemas lindos.
O resto é muito bom. Especialmente, o trabalho de ourivesaria com que cada canção é vestida, longe da voz/guitarra do EP de estreia (2009). Ou não estivessem na produção e em colaborações diversas alguns dos nomes de relevo da novíssima música portuguesa (Real Combo, Walter Benjamin, B. Fachada…).
O resultado é um trabalho de grande sensibilidade, do qual, no entanto, é necessário aprender a gostar. Chamar-lhe a Carla Bruni portuguesa é redutor, mas ajuda a situar a ideia.

Chatham County Line - Wildwood ****

Há discos que pedem de nós mais do que lhes podemos dar. Este talvez seja um deles. Neste cantinho da Europa, há lá paciência para darmos atenção a quatro maduros da Carolina do Norte, tão taradinhos por bluegrass que só ao quinto disco juntaram uma tímida bateria e um discreto piano à plêiade de instrumentos acústicos de que se rodeiam?
Pois é. Mas fazemos mal. Sai por isso uma proposta: perca quatro minutos da sua vida e ouça com atenção uma destas canções. Pode ser, por exemplo, “Alone In New York”. Ouve o extraordinário trabalho instrumental? E as harmonias vocais? E a história, ela própria? E no género balada linda que se farta há ainda “Crop Comes In”, talvez a melhor canção do disco. Aos coleccionadores de canções peculiares sugere-se “Ringing In My Ears”, em que poderão ouvir, num ambiente a atirar para o blues, excertos de canções de Paul Simon, Elvis, George Harrison, Willie Nelson…

Esperanza Spalding - Chamber Music Society ****

Eis um caso sério. Esperanza Spalding atingiu uma tal notoriedade comercial e crítica com o registo em nome próprio (2008), que se temia o pior. Que não conseguisse fazer melhor.
É claro que menosprezamos muitas vezes as evidências – estamos perante um autêntico prodígio nos instrumentos (baixo), na voz, na composição, na produção. E isto aos 25 anos.
A base de trabalho é o jazz, de largos espaços, como convém ao baixo. A voz evolui por entre os instrumentos, ora de forma aveludada (“Little Fly”), ora nos limites do improviso em registo scat (“Chacarera”).
Merecem menção especial duas colaborações de peso. Milton Nascimento espraia-se no seu belíssimo “Apple Blossom”e Gretchen Parlato desenvolve um espantoso diálogo vocal com Esperanza, acompanhado apenas pelo baixo, em “Inútil Paisagem”, de Jobim.
Há ainda uma versão intensa de “Wild Is The Wind” e, no lado dos originais, “Winter Sun” é forte candidata à peça de jazz perfeita.

Hindi Zahra - Handmade ***

A Patti Smith do Norte de África. É assim que Hindi Zahra está a ser promovida em todo o mundo (vem a Sintra dia 17). Trata-se, obviamente, de um daqueles equívocos de se lhe tirar o chapéu. A ideia foi de um crítico do Guardian, que assistiu a um espectáculo há uns meses atrás. Agora, ouvido o primeiro disco, fica-se com uma certeza – um dos dois estava com uma pedrada monumental.
Hindi Zahra poderia ser uma daquelas miúdas dos Nouvelle Vague que enveredam por uma carreira a solo. Canções lânguidas, com um swing tipo lounge, neste caso ornamentadas de especiarias árabes. 
Nascida em Marrocos e criada entre Paris e Londres, Hindi explora ao máximo o filão: há traços de chanson (“Beautiful Tango”), de blues (“At The Same Time”), de música berbere (“Ousoul”) e até, porque não?, de flamenco ou até de bossa nova. E há canções como “Fascination” que podem fazer o seu caminho e vencer o desafio da intemporalidade.