Calexico - Selections From Road Atlas ****

Durante mais de uma década, os Calexico construíram uma vida dupla. À vista de toda a gente, mas que só agora ganha consistência enquanto conjunto. Em cada digressão, gravavam um disco, vendido apenas nos concertos, com temas originais, à margem da discografia original. Agora, esses CD foram editados numa caixa com oito discos de vinil. Este CD é uma selecção dessa discografia paralela do grupo que explora e actualiza as sonoridades do sul dos Estados Unidos e da fronteira com o México. E o surpreendente nesta colecção é a qualidade artística e sonora das canções. Exímia. Nada aqui é amador, como se poderia supor. E cá temos coisas a fazer lembrar Ry Cooder (“Waitomo” e “El Morro”), uma balada de beleza cativante (“All The Pretty Horses” e ”Griptape” ), ou a quase psicadélica “Man Made Lake”. A fazer a ponte para os discos oficiais, surge aquela que é apelidada de versão original de “Crystal Frontier”, uma cóboiada spaghetti.

Stacey Kent - Dreamer In Concert ****


Stacey Kent é uma nova iorquina, de voz charmosa e delicada, que – imaginem! – se apaixonou pelo jazz numa viagem a Paris e pelo marido, produtor, saxofonista e compositor Jim Tomlinson numa visita a Oxford. Estamos, portanto, no território da elegância. A que só falta acrescentar a mais recente paixão de Stacey – a língua portuguesa, à qual chegou através das canções brasileiras. Neste disco ao vivo, gravado em Paris, cruzam-se, num registo jazz bossa nova, três línguas (inglês, francês e português tropical), numa demonstração do potencial universalizante da música. Há Gainsbourg (“Ces Petits Riens”) e Benjamin Biolay (“Jardin d’Hiver”), há clássicos (“The Best Is Yet To Come”), e há muitas canções de raiz brasileira cantadas, ora em versões inglesas (“Corcovado” e “Waters of March”), ora em francês (o célebre “Samba Saravah”), ora em português (“O Comboio”, um poema do poeta português António Ladeira, musicado em registo bossa nova por Tomlinson).

Laura Veirs - Tumble Bee ****

Se o melhor do mundo são as crianças, o que dizer das canções para crianças? Obviamente, que são as melhores canções do mundo. E quando as melhores canções do mundo encontram alguém que as trata com o carinho merecido, o resultado só pode ser um disco a que apetece dar colo. A voz de Laura Veirs, isso já sabíamos, é cristalina, linda de morrer. E as orquestrações de Tucker Martine conjugam de forma rara a simplicidade com a riqueza. Juntos, à boleia do nascimento de um filho, decidiram dar nova vida a uma dúzia de canções de roda e de embalar, mas também a cantos tradicionais de trabalho (“Jump Down Spin Around”) e até da guerra (“Soldiers’ Joy”), para gravarem um disco que, como os filmes da Pixar, agrada aos miúdos, mas diverte mesmo é os pais. O divertimento, aqui, vem das fabulosas interpretações, mas também das próprias canções. Como “Why or Why”, de Guthrie. Afinal de contas, “porque não pode o pássaro comer o elefante?”.

Snow Patrol - Fallen Empires **

Bem-vindos, então, à banda que gostava de ser U2 e Coldplay numa só. Isto é capaz de ser de uma enorme injustiça, mas ouçam “The Symphony” e digam lá se conseguem ouvir outra coisa que não as duas bandas. E a verdade é que, após seis discos, mais de uma década de estrada e um ou dois grandes sucessos, estes irlandeses, escoceses por adopção, não conseguem livrar-se dos fantasmas. Provavelmente, nem estão interessados. O resultado, como nos discos anteriores, é relativamente mediano, e a única novidade é a junção de umas camadas de electrónica às guitarras do costume. A especialidade da banda são as baladas de pendor épico com piano ao fundo. Como, por exemplo, “This Isn’t Everything You Are” ou “New York”, claramente pensadas para as coreografias dramáticas das actuações ao vivo. O mesmo destino, afinal, dos temas mais comerciais, como o típico “Called Out In The Dark”, um dos tais em que a electrónica dá um arzinho da sua graça.

Amy Winehouse - Lioness: Hidden Treasures ***

E são estes os restos mortais de Amy Winehouse. Restos é a palavra certa – a avaliar pela amostra, a cantora britânica não deixou propriamente um espólio à mercê dos arqueólogos da indústria musical. Basta dizer que, para conseguirem juntar 12 canções, tiveram que percorrer quase uma década, desde as gravações contemporâneas de Frank (2003), como “The Girl From Ipanema”, aqui numa versão vocalmente menor, até temas que estavam a ser trabalhados para o sempre adiado terceiro álbum, como “Between The Cheats”, uma boa tentativa de reeditar a sonoridade doo-woop que se adivinhava nas canções de maior sucesso, ou mesmo a incipiente “Like Smoke”. Há aqui de tudo, portanto. Versões que pouco ou nada adiantam, como “Valerie” (outra vez?), orquestrações densas e espalhafatosas imaginadas para esconder o mero balbuciar de uma versão (bolas, não se arranjou um original?), como em “A Song For You” (de Leon Russel), ou – imagine-se! – uns arranjos de 2011, construídos para embrulhar a voz de uma outra versão que Amy tinha gravado em 2004 do clássico “Will You Still Love Me Tomorrow”. Ou seja, estamos no terreno do vale-tudo. E até a versão artificial de “Body And Soul”, com Tony Bennett, acaba por parecer ajuizada, face a tanto desespero e algum disparate. E, no entanto, apesar disso, este não é um mau disco. A voz de Amy, quando lá está em pleno, é poderosa e tem a indiscutível magia de se apropriar das canções, como só acontece com os grandes cantores. O que falta aqui – e há nessa constatação toda a mágoa pela injustiça da vida – é a concretização da promessa de uma enorme autora que Back To Black tão claramente apontava. Infelizmente, até o sótão está vazio – Amy foi um cometa sem rasto.

Fionn Regan - 100 Acres of Sycamore ***

Os primeiros cinco minutos deste disco são fatais. O piano, os pizzicatos dos violinos, as camadas de cordas, a intensidade contemplativa de “100 Acres of Sycamore” colocam a fasquia tão alta que muito dificilmente as restantes 11 canções estariam à altura. E até, por exemplo, a bela “The Horses Are Asleep” parece relativamente banal. Bom, banal talvez não seja o termo. Digamos que este disco se torna um tanto repetitivo, quiçá maçador. O piano, as cordas, a voz, o tom, entre o melancólico e o grandioso, a fazer lembrar Rufus Wainwright, tudo muito certinho, muito bonito, mas... igual. E não deixa de ser curioso que tudo isto surja ao terceiro disco. O primeiro (The End Of History, 2006) era quase completamente acústico. O segundo, mais eléctrico. A este, deu-lhe para as cordas. É verdade que acaba por ser o registo certo para alguém que demonstra umas raízes folk tão evidentes. Merece uma quarta oportunidade.

Ryan Adams - Ashes & Fire ****

Aviso à navegação: este não é apenas mais um disco de Ryan Adams. O alerta, parecendo banal, tem a sua razão de ser – na última década, irrequieto, Ryan Adams lançou mais discos do que o bom senso recomendaria. À razão de um por ano, a solo ou com os Cardinals, espalhou de tal forma o seu talento que às tantas seria legítimo questionar se haveria assim tanto talento e se não seria apenas espalhanço. Este Ashes & Fire é talvez o melhor disco desde a dupla de estreia a solo – Heartbreaker (2000) e Gold (2001) – e isso é seguramente o melhor elogia que se poderia fazer, visto que aqueles foram dois discos marcantes e, de alguma forma, ainda subavaliados na história da música pop-rock. Ryan Adams tem as suas raízes na country alternativa e esse é o tom que mais sobressai nesta nova gravação. Na prática, estamos perante uma dúzia de baladas, num registo quase unplugged, ornamentado por um omnipresente e característico órgão Hammond, uma secção de cordas e… o piano de Norah Jones. A voz está melhor que nunca, naquele tom sofrido, quase frágil, apaixonado. E por falar em paixão… É disso que trata o disco, em canções com títulos tão bonitos como “I Love You But I Don’t Know What To Say”, ou tão explícitos como “Chain Of Love”. Deixemo-nos de rodeios – este é um disco para ouvir a dois, descaradamente, para namorar (nota: merecem estudo urgente os efeitos práticos da música na vida sentimental dos terráqueos…), tanto mais que estamos longe, muito longe, de qualquer versão lamechas da coisa. Temas como “Come Home”, ou “Invisible Riverside” poderão, de resto, integrar uma qualquer enciclopédia da arte de bem escrever canções. Em suma, este é um disco que (re)lança uma nova luz sobre um nome em que já descríamos e isso não é pouco.

David Lynch - Crazy Clown Time **

Não, caro David, isto não resultou. A ideia de transpor para a música a estética negra e maníaca dos seus filmes era interessante, tinha (e tem) potencial. Mas, admita, era projecto para um profissional. Ou então para um desses jovens que parecem ter absorvido toda a história da música pop-rock nos biberons da infância. O falhanço explica-se de forma muito linear: o David escreveu, produziu e interpretou (instrumentos e voz) todas as canções deste disco. Repare: as canções não são nada de especial. Ouça, por exemplo, “Noah’s Ark” – isto é um esboço, bolas, não uma canção. Na generalidade, as letras são pobres e a composição anda, no mínimo perdida. E depois há o embrulho. E aí, sinceramente, parece que tentou esconder a falta de criatividade num amadorismo demasiado explícito. Os vários cobertores electrónicos que envolvem as canções são totalmente dejà vu e, creia, aborrecidos. Como a sua voz, David. Você não canta – uma opção, é certo – mas a sua declamação persistentemente distorcida pelo vocoder causa um certo formigueiro nos pés, vontade de fugir (seria essa a ideia?). Safa-se no meio de tudo isto a abertura (“Pinky’s Dream”), com a convidada Karen O (dos Yeah Yeah Yeahs), os quatro minutos do disco mais parecidos com uma canção – há melodia, há intensidade, sem que nos afastemos do universo lynchiano. E há , por exemplo, “Football Game”, ou “The Night Bell With Lightning” (um instrumental…), com uma base blues e uma sonoridade de guitarra com potencial para exploração em possíveis novas aventuras no campo da música. Pois é, David, essa ideia de criar uma marca Lynch transversal (parece que até vende café no seu site…) precisa de mais qualquer coisa na música. Pode continuar a tentar, é claro.

Florence + The Machine - Ceremonials ****

O segundo disco de Florence é mais do mesmo. E “mais” é uma palavra que aqui se aplica em todo o seu esplendor. Embalada pela boa receptividade à estreia (Lungs, 2009), a britânica dá-nos agora ainda mais intensidade, mais pormenores deprimentes da sua intimidade e mais… instrumentos. É impressionante a amplitude instrumental e a massa sonora criadas em cada uma das canções, com elementos célticos, soul, tribais, corais, sinfónicos. No centro de tudo, está a voz dramática, avassaladora, de Florence Welsh, a cantar coisas tão pesadas como ser atirada à água com os bolsos cheios de pedras (“What The Water Gave Me”), uma canção em que o registo vocal faz lembrar outra britânica menos sombria, mas igualmente intensa – Kate Bush. Este é um disco, que por todas essas razões, se torna de difícil digestão. As canções são exigentes, na temática e na exposição, e, é verdade, um tanto repetitivas. Mas o teste do segundo disco foi ganho.

Patrick Wolf


Ouvimos “The City” e imaginamos dezenas de dançarinos sincronizados como nos velhos filmes de Hollywood, ao som de uma fanfarra grandiosa. Ouvimos “Time Of My Life” e até vemos os dançarinos a marcarem o passo com palmas, levitando sobre violinos. A dúvida para este concerto de Lisboa é perceber como vai Patrick Wolf encher o palco, se com dançarinos (pouco provável), fanfarras e violinos (talvez, talvez) ou, garantidamente, com aquela voz de barítono, que nunca como neste último Lupercalia ganhara tanto espaço para se projectar. Lupercalia era a designação dada a uma festa pré-romana de celebração da Primavera, no caso presente aplicada a uma fase literalmente apaixonada de Patrick Wolf. Daí a luminosidade que emana de todas as canções, a descarada e exuberante felicidade de tudo isto. Estamos perante alguém que dá tudo em palco – os portugueses conhecem-no, por exemplo, de uma relativamente curta passagem pelo último Optimus Alive – e não é, por isso, difícil de adivinhar uma prestação empenhada, em que cada canção merecerá uma encenação própria, um investimento total. Seja com o autor ao piano, na harpa, no violino… E, já agora, outra dúvida para resolver neste concerto: será que Patrick Wolf arriscará cruzar estas alegres canções de 2011 com outras, digamos, mais sombrias, de fases menos apaixonadas da sua vida, perdão, da sua carreira? Deixarmo-nos surpreender poderá ser o papel que nos está reservado, afinal.

Seasick Steve - You Can’t Teach An Old Dog New Tricks ***

Há discos que avisam logo na capa que contêm “conteúdo explícito” e só os ouve quem quer ou pode. Este diz logo no título que não se podem ensinar novas habilidades a um velho cão. Deste cão velho já conhecemos todas as habilidades, especialmente a sua colecção de guitarras mais ou menos estapafúrdias, que utiliza com mestria num blues rude, sem grandes rodeios. Ora acontece que este é o quarto disco deste antigo frequentador de estúdios e, passado o “ah” de espanto das primeiras impressões, o que nós queríamos mesmo era novas habilidade. Ao invés, Seasick Steve dá-nos mais do mesmo - canções medianas. Não chega a ser mau, obviamente. Mas também não é nada de especial. Ouvem-se com agrado coisas eléctricas, como “Back In The Doghouse”, e ainda mais algumas acústicas (“Treasures”, ou “It’s A Long Way”), mas não se vai muito longe. O que só prova a falta que fazem escolas para cães adultos, uma espécie de Novas Oportunidades caninas.

Patti Smith - Outside Society *****

Aos 65, Patti Smith, a anti-heroína, salvo seja, atinge a glória. E que glória mais perfeita. Não grava há quatro anos e o último disco com material próprio data de 2004. A glória chega pela via literária, glória maior para quem sempre cultivou um estatuto de intelectual e contaminou o rock mais primário, de estruturas simples e descarnadas, com a veia poética dos clássicos franceses e americanos. A história recente de Patti Smith gira em torno de Just Kids (Apenas Miúdos, na versão portuguesa lançada este ano), o livro de memórias em que relata os momentos seminais na Nova Iorque dos anos 70, na companhia do fotógrafo, entretanto falecido, Robert Mapplethorpe. Foi com esse livro que ganhou o prestigiado National Book Award e foi na senda desse prémio que a distinguiram, na Suécia, com o Polar Music Prize (há quem lhe chame o Nobel da música contemporânea). E é Just Kids que motiva a edição desta primeira colectânea da obra de Patti Smith num único CD, o qual funciona, pelo menos parcialmente, como banda sonora do livro. A colectânea anterior (Land, 2002) baseava-se num conceito menos representativo e continha um segundo CD com raridades. Desta vez, a abordagem é sistemática e ecléctica: estão representados todos os dez discos da sua carreira, começando no obrigatório Horses (1975) e acabando no de versões (Twelve, 2008). É claro que estão aqui as canções mais conhecidas, desde a alucinada versão de “Gloria”, ao seu maior sucesso comercial, “Because The Night”, escrita com Springsteen, passando pelo energético “People Have The Power”. Mas também uma versão arrebatadora, como todas as suas canções, de “Smells Like Teen Spirit” (Nirvana), paradigma do tráfico geracional que sempre envolveu Patti Smith, artista que como poucos soube enraizar-se no passado para se manter na vanguarda.

Liam Finn - FOMO ****

Liam Finn ainda não matou o pai, para grande tristeza do doutor Freud e alegria do pai e de todos nós. Porque matar o pai talvez significasse, no caso de Liam, deixar de escrever canções pop na melhor tradição das excelentes canções pop do pai, Neil Finn, líder das bandas australianas Crowded House e Split Enz. Este é o segundo disco com assinatura própria (depois de I’ll Be Lightining, de 2007) e a matriz mantém-se: pop pura vestida de electrónica, num disco que remete frequentemente para aquele que Pete Yorn escreveu para a voz de Scarlett Joahnsson (exemplo disso é a canção de abertura “Neurotic World”, mas também a sonoridade suja de “The Struggle”). Pop mais nu é, por exemplo, “Cold Feet”, o primeiro single, ou “Reckless”, uma canção alegre que poderia ter sido escrita na Inglaterra dos anos 90. Motivos mais que suficientes para superar com distinção a prova do segundo disco.

Pactrick Wolf - Lupercalia ***

Não é fácil cantar o amor e, talvez por isso, as melhores canções de amor falam da falta dele. Pactrick Wolf tinha cantado a falta de amor no seu último disco (The Bachelor), uma obra sombria. Passados dois anos, parece que está apaixonado e dá-lhe para fazer um disco exuberantemente optimista. “Exuberância” é aqui a palavra-chave. Não apenas na temática (as excelências e alegrias do amor em 11 variações), mas especialmente na abordagem. Este é um disco que vai buscar a batida ao “disco” e a fanfarra aos metais e tambores sinfónicos para, num registo a roçar o kitsch, proclamar as tais graças do amor. A voz projectada de Pactrick Wolf assenta que nem uma luva a tais intentos. As canções parecem ter sido pensadas para grandes coreografias (“House”) ou pistas de dança (“Time Of My Life”), mas é tal a densidade, um tanto monótona, da maioria, que chega a ser reconfortante ouvir qualquer coisa mais simples (“Armistice”).

Okkervil River - I Am Very Far ****

Vocês nunca ouviram nada assim. Bom, há os Arcade Fire e os Decemberists e tal. Mas isto é outra coisa. Mesmo os Okkervil River nunca tinham feito nada assim, eram uma banda de country alternativo relativamente bem comportado. Mas Will Sheff, alma dos Okkervil, arregaçou as mangas, escreveu as canções, cantou, tocou uma dezena de instrumentos e produziu o disco. E que produção! Continuam a ouvir-se guitarras, mas os 50 minutos do disco são de uma rara densidade e complexidade instrumentais, a que não faltam secções de metais e cordas e um dos mais vibrantes exercícios de percussão da história do rock. E não é tudo isso demasiado pomposo, gongórico? Não, e é aí que está a beleza da coisa. Sheff conjuga toda essa tensão sonora com um lirismo poético e melódico, que dá origem a momentos de grande beleza, como “Hanging From a Hit”, “Your Past Life As a Blast”, “White Shadow Waltz”… e por aí fora.

A década Sinatra *****



São mais de 200 canções, gravadas há quase 60 anos e lançadas agora a preço reduzido. Manuel Morgado ouviu-as todas e ficou convencido de que a perfeição existe

Lá fora são os anos 50 do pós-guerra, do baby boom, da América próspera. Tudo parece possível, até a felicidade, e há uns miúdos e alguns graúdos que inventam uma nova música a que chamam rock’n’roll. Sinatra, o dono da Voz que explodira na década anterior, é o contraste perfeito desse glamour: está fora de moda, é despedido pela editora (Columbia), cambaleia entre o divórcio de Ava Gardner e tentativas de suicídio. Como tantas vezes na História, está criado o clima para uma enorme explosão de talento, que marcará uma época, mas, acima de tudo, estabelecerá um paradigma.
Os discos que Frank Sinatra lançou na Capitol (1953-61) são absolutamente históricos. Desde logo pela abordagem que faz a cada canção, tratando-as como se fossem, todas e cada uma, um caso muito pessoal. Sinatra não avia canções, vive-as e isso ouve-se. Históricos também porque, aproveitando o advento do LP, Sinatra inventa os discos conceptuais: as canções são escolhidas à volta de um conceito, seja o amor, as viagens, a dança, ou o amor, outra e mais uma vez. E, enfim, são discos históricos porque tudo neles é perfeição: a voz, os arranjos e a condução de orquestra (além de Billy May e Gordon Jenkins, começa a colaboração com Nelson Riddle, que marca toda esta época), e as próprias composições, constituindo este repertório um autêntico cancioneiro americano, a que não faltam Gershwin, Porter, Mercer, Arlen, Rodgers &Hart…
A colecção que agora chega a Portugal beneficia da cessação dos direitos autor, passados que foram 50 anos sobre as edições originais. Uma editora de Barcelona juntou em 12 discos as gravações remasterizadas de 12 LP e alguns singles, a que não faltam as capas originais, numa operação low cost com matéria-prima de luxo.
Por ordem cronológica, Songs For Young Lovers/Swing Easy! (1954) condensa a ideia que presidiu às gravações da Capitol: discos de canções de amor, alternados com outros de dança, aqui juntos num mesmo CD. E é aqui que podemos ouvir gravações “definitivas” de “My Funny Valentine”, “I Get A Kick Out Of You”, ou “Just One of Those Things”.
O ano seguinte foi inteiramente dedicado ao amor, ou melhor, à falta dele. In The Wee Small Hours cria uma atmosfera íntima, propícia a exorcizar amores que se rompem e que se tentam preservar com inviáveis promessas de amizade. “What Is This Thing Called Love”, pergunta Cole Porter.
Songs For Swingin’ Lovers (56) é todo ele alegria (“You Make Me Feel So Young”) e chega a garantir que, sim, o amor existe (“Love Is Here To Stay” e “I’ve Got You Under My Skin”). A orquestra brilha a grande altura. E o ano não acaba sem que seja lançada a primeira colectânea de singles (This Is Sinatra), até porque A Voz tinha voltado novamente aos tops (em 1958, surgirá o segundo volume).
No disco de 57, Sinatra surge na capa de olhos de fechados, a dar o mote para aquele que talvez seja o momento mais intimista da sua carreira, Close To You. São 12 canções, delicadamente orquestradas, reflexivas, contra a corrente (estávamos no auge do rock’n’roll). E mais uma vez Sinatra canta, com um jeito quase coloquial, como quem respira, as agruras do coração. Mas – esperem! – o ano fecha com A Swingin’ Affair, ao qual bastaria ter “Night And Day” a abrir, mas tem muito mais.
Where Are You (amor), Come Fly With Me (viagens) no mesmo CD de Come Dance With Me! (dança) e ainda Only The Lonely, Look To Your Heart e No One Cares (o amor, a falta dele) são os discos que se seguem e que revelam as tão variadas facetas de um artista em fase inspirada.
A Capitol editaria ainda mais três discos e Sinatra tem pela frente uma carreira de sucesso na sua própria editora (Reprise), mas os anos 50 ficarão como a sua década de ouro.

Eddie Vedder - Ukelele Songs **

Sim, Eddie Vedder também tem sentimentos, e família e coisas assim, mortais. Não é apena aquela “estrela, sobre-humana, que se apresenta em palco à frente dos Pearl Jam. E nada melhor para o demonstrar, pensou ele, que pegar no ukelele e, sem nada na manga, cantar 16 canções de enfiada. Pensou mal. O ukelele, descendente do nosso cavaquinho, tem a sua graça, mas é muito limitado. Mesmo num disco que totaliza apenas 34 minutos, ao fim de um certo tempo já se sente uma espécie de… enjoo. E isto ressalvando que Eddie Vedder até utiliza bem a sua voz de barítono para contrapor à monotonia do instrumento. Passam por aqui canções próprias (até dos Pearl Jam – “Can’t Keep”) e alheias, dois convidados especiais (Glen Hansard e Chan Marsall/Cat Power), e uma certa dose nostalgia, seja do surf, da natureza, dos espaços abertos. Ficam duas ou três canções na memória (“Sleelping By Myself” e “Without You”) e pouco mais.

Jay-Jay Johanson - Spellbound ****

Alegrai-vos, românticos depressivos. Jay-Jay Johanson está de regresso e traz com ele mais uma mão cheia de canções belas e tristes, melodiosas que até doem. Há uns cinco anos que este sueco não dava sinais de vida e, pelos vistos, fez-lhe bem o descanso. Nesta nova gravação, as electrónicas foram remetidas para o subtexto, raramente rompendo o papel de quase decoração de fundo, dando todo o palco à voz, ao piano e às cordas. O tom mantém-se. Johanson bebe imenso no jazz (“An Eternity”), mas também nos filmes de Hollywood (“Blind”), enfim, nos grandes cantores (“Dilemma”, o primeiro single, tem a batida do histórico “Fever”…), sendo as quatro primeiras canções do disco um autêntico tratado de bem compor e bem interpretar. Mas não há que ter ilusões, que ninguém venha aqui à procura de salvação. A morte é o lema que atravessa o disco e a audição, exigente, ressente-se disso. Podem comprová-lo ao vivo, em Outubro, em Sintra.

Willie Nelson & Wynton Marsalis - Here We Go Again **

Algumas almas sensíveis já nem podem com o nome de Norah Jones. Pois em verdade vos digo que, não fosse a moça, e este mega-acontecimento teria ido pelo cano abaixo. Porque, na realidade, é a voz de Norah que, pontuando a maioria dos temas, acaba por lhes conferir um mínimo de homogeneidade. E isto por um motivo muito simples: temos de um lado um oleado quinteto de jazz, ao qual se junta a guitarra e o acompanhante de harmonia de Willie, e temos do outro lado uma voz que nunca foi grande coisa, mas que está pura e simplesmente estafada. Acontece que o repertório de Ray Charles exige uma voz potente e isso é coisa que por aqui não há. O conjunto fica de tal forma desequilibrado que até os solos orquestrados por Wynton chegam a maçar. Norah Jones, não tendo um vozeirão, confere aos momentos em que intervém aquela doçura que lhe conhecemos… e as canções acabam por fazer sentido. Ouça-se, por exemplo, “Cryin’ Time”, e, no pólo oposto, “I Love You So Much”.

Robbie Robertson - How To Become Clairvoyant ***

Ia começar por uma referência à capa, do género “eis uma candidata à pior capa do ano”, mas depois reparei que a foto é de Anton Corbijn, o grande Corbijn. Arrepiei caminho – que percebo eu, afinal, de fotografia? Vamos, então, à música.
Robbie Robertson, para os mais esquecidos - o homem não gravava há uma década e meia e, por isso, deve haver pelo menos uma geração que nunca o ouviu –, integrou uma banda mais ou menos mítica estranhamente chamada The Band, que gravou umas coisas com Dylan e outras sem Dylan, e que se tornou mundialmente famosa com o espectáculo de despedida, em formato de filme: “A Última Valsa” (Martin Scorcese).
A propósito, este disco tem, não uma valsa, mas um tango, “Tango for Django”, algo experimental, não tanto quanto “Madame X”, de e por Eric Clapton, com “texturas sonoras” de Trent Reznor. O resto do disco é, essencialmente, blues. E muito Clapton (assina ou interpreta sete dos 12 temas).
Robbie Robertson empreende uma viagem autobiográfica, aos anos 60, aos tempos da banda, aos seus guitarristas preferidos (“Axman”), mas também introspectiva (daí o título do CD), que torna o disco num exercício com o seu quê de romântico. As guitarras, é claro, são o fio condutor das histórias e há-as, as guitarras, de todas as sonoridades possíveis, felizmente em doses aceitáveis. As canções são encenadas, há aqui algo de cinematográfico (a actividade de Robbie nos últimos anos), o que lhes confere alguma diversidade, mas igualmente uma modernidade que chega a surpreender. Apesar disso, e tendo em conta os nomes envolvidos (já falei de Steve Winwood?) e a prolongada ausência, seria de esperar uma maior densidade. Cumpre, mas…

k.d. lang - Sing It Loud ****

Há um fio condutor na obra de k.d. lang que este novo disco vem novamente evidenciar. E esse fio condutor é, precisamente, a ausência de um fio condutor. Explicando melhor: ao fim de quase três décadas, é difícil, ou mesmo impossível, detectar uma trajectória, preferencialmente de crescimento, na carreira desta canadiana americanizada. Ao country genuíno inicial, seguiram-se aventuras pelo country alternativo e pelos campos mais amplos da pop. Essa diversidade, digamos, não é o problema, já que a exploração de territórios nunca fez mal a ninguém. Problema, se quisermos mesmo problematizar, é a ausência de um corpo, a dificuldade em encontrar um sentido na dezena e meia de discos que já gravou.
E eis-nos, então, perante Sing It Loud, o disco com que k.d. lang parece querer abrir uma nova frente. Trata-se da primeira gravação, em muitos anos, em que surge acompanhada por uma banda própria, apelidada para o caso de Siss Boom Bang, nome fantástico. E isto é importante porque se trata, de facto, de um disco de banda, em que se ouve o conjunto e em que o conjunto tenta fazer sentido. É claro que o centro de tudo continua a ser a voz única e sensacional de k.d. lang. Ouça-se a sensualidade de “I Confess”, ou a elasticidade de “A Sleep With No Dreaming” e fica tudo dito ao fim das duas primeiras canções. Mas, já agora, a terceira (“The Water’s Edge”) também é muito boa e um excelente exemplo das guitarras e do órgão que dominam todo o disco.
As canções são todas (co)assinadas pela cantora e até há uma outra menos razoável (“Inglewood”, por exemplo), havendo apenas uma versão (“Heaven”, dos Talking Heads), que, sendo interessante, não é nada do outro mundo. Para primeiro disco de uma nova fase, é prometedor. Falta perceber como continua.

Emmylou Harris - Hard Bargain ***

Ah, essa tentação de regressar aos lugares onde fomos felizes! Doce ilusão. Passam agora 38 anos que Gram Parsons, alquimista do country-rock, se passou deste para outro mundo, deixando a jovem Emmylou afogada em desespero por um amor que tão pouco durou. Quatro décadas depois, esta “Lonely Girl”, como se define numa das canções, regressa a esse ano que a deu a conhecer ao mundo da música e dedica a Gram uma segunda canção (a primeira fora “Boulder to Birmingham”, em 1975). “The Road”, que abre o disco, é mais que uma canção de amor, é uma prova da devoção que perpassa um pouco por toda a obra de Emmylou Harris, muito especialmente pela fase pós-Wrecking Ball (1995), o disco que marca a sua ruptura com Nashville, a opção pela country alternativa e também a assumpção enquanto autora.
Aqui chegados, é necessário fazer uma ou duas advertências. Emmylou Harris ficará para a história como uma das mais belas vozes da country, sendo a sua verdadeira especialidade a gravação de versões. Enquanto autora, se é verdade que esta fase mais recente comporta uma ou outra canção mais bem conseguida, o balanço global não é famoso.
Acontece que, neste disco, a voz de Emmylou, embora ainda encantatória, dá sinais de fragilidade, e acontece ainda que, só ou acompanhada, ela escreve 11 das 13 canções. E acontece ainda que a produção pouco mais consegue que criar alguns ambientes atmosféricos para embrulhar a voz.
Sendo um disco agradável, em que tudo parece estar no sítio, não deixa de ser uma peça um tanto monótona, sem chama. É disso exemplo a evocação da amiga Kate McGarrigle (“Darlin’ Kate”), que certamente será autêntica, sentida, mas que é também confrangedoramente banal. O melhorzinho ainda acaba por ser o tema que dá título ao disco, mas esse é assinado por… Ron Sexsmith. Lá está, as versões!

Lisa Ekdahl - At the Olympia ***

Esqueçam o Olympia. Nos dias que correm, qualquer um lá chega. Nesta edição, a parte mais valiosa é o DVD, todo filmado a preto e branco, em que há, é verdade, Paris, mas acima de tudo os ensaios, os encontros, as canções, no conforto da casa de Lisa, entre amigos, algures na Suécia natal. É claro – não sejamos ingénuos – nada disto é espontâneo. Afinal de contas, meteram lá em casa uma equipa de televisão. Mesmo assim, há um doce aroma a improviso, ou, se quiserem, a reinvenção, em canções como “The World Keeps Turning” ou “Sing” que suplanta o tal espectáculo do Olympia. Mas, já que o disco se chama “At The Olympia”, convém referir que, além de algumas canções no DVD, temos direito a um CD áudio todo ele made in Paris. Nada que não conheçamos – Lisa já passou mais que uma vez por cá -, ou seja, aquele jazz muito ligeiro, bossa à mistura, e aquele fio de voz que limpa as canções de Cole Porter de qualquer traço de Sinatra.

The Unthanks - Last ****

A melancolia como forma de arte. Êxtase para os adeptos das coisas tântricas, um desespero para o resto dos mortais. Há oito anos e quatro discos que as manas Unthanks se dedicam à obsessiva tarefa de espalhar a tristeza pela face da Terra. As canções, muitas delas tradicionais, outras de autores mais ou menos famosos, e ainda outra originais, são submetidas a um eficaz processo de desaceleração rítmica, embrulhadas em esparsas orquestrações e depois passadas pelas vozes encantatórias de Rachel e Becky, quais sereias da folk britânica, atraindo-nos para abismos imensos.
Neste Last, o trabalho de orquestração é particularmente meticuloso, por exemplo transfigurando “Starless” (dos King Crimson) numa canção de beleza sufocante. Já “No One Knows I’m Gone” (de Tom Waits) resulta relativamente banal. “Close the Coalhouse Door” entra por caminhos complicados,  tornando talvez demasiado próximo o drama dos mineiros. Não é para todos.

Jessica Lea Mayfield - Tell Me ****

Um disco complexo. Talvez assuste. Mas muito sedutor, e isso muda tudo. Aos 21 anos e ao segundo disco, Jessica Lea Mayfield revela uma poética experiente, capaz de lidar com os mais tortuosos sentimentos. Embalados pela fragilidade preguiçosa da voz, somos amiúde atraídos para autênticas armadilhas de sedução, às quais, sim, nem falta alguma evidente carnalidade. E é preciso frisar esse primado do texto, para que não sejamos (dis)traídos  pelo autêntico caleidoscópio em que o produtor Dan Auerbach (dos Black Keys) transformou este exercício, surpreendentemente, sem pôr em perigo o conjunto. E é assim que viajamos pelo mais puro pop (“Blue Skies Again”), a electrónica pouco sofisticada (“Grown Man”), ou momentos de grande intensidade, como “Run Myself Into The Ground”, passando pela revisitação da country (“Sometimes At Night”). As guitarras, um tanto desgrenhadas, a par da voz, claro, acabam por ser a corrente que dá coerência ao conjunto.

Lucinda Williams - Blessed ****

Canções de entrega e abandono, de preferência em registo de balada. Com voz quase balbuciada, lânguida, ora sofrida, ora insinuante. E há uns anos que Lucinda não ia tão fundo, na entrega absoluta, ou da dor da ausência. Neste disco, há dois amigos que partem, talvez para a órbita da terra, talvez a caminho do sol, como ela canta em “Copenhagen”, ou em “Seeing Black”, dedicada a Vic Chestnutt e com Elvis Costello na guitarra. E há o outro lado da vida, o amor incondicional (“Born To Be Loved”), encantatório (“Kiss Like Your Kiss”), e incondicional outra vez (“I Don’t Know How You’re Livin’”). Talvez devido à produção, extremamente cuidada, mas seguramente também graças à composição, este é um dos melhores discos de Lucinda Williams e marca um certo regresso às origens, do blues e do country sofisticados, onde nunca falta pelo menos uma guitarra, de preferência eléctrica e agreste.

Luísa Sobral - The Cherry On My Cake ****

Norah Jones e Regina Spektor. Pronto, já está. Mandam as regras que cada cantor(a) novo(a) deve ser rotulado(a) com as suas influências. Diz que facilita a orientação do consumidor… Luísa Sobral tem, de facto, um estilo que faz lembrar o pop-jazz da primeira e a criatividade da segunda. Mas – que Diabo! - das 13 canções deste disco só não escreveu uma (“Saiu Para a Rua”, de Rui Veloso, em versão peculiar) e, se há coisa que a estreia demonstra, é uma compositora e cantora com asas para ir bem mais longe. Aos 16, foi aos Ídolos, depois viajou para os EUA, onde aprendeu música a nível universitário e actuou, entre Boston e Nova Iorque. No regresso à pátria, aos 23, lança um disco, entre o pop e o jazz, em inglês e português (menos deste, mas mesmo assim com uma das melhores canções, “O Engraxador”). E o disco está a ser acompanhado por uma boa campanha de promoção. Tudo muito profissional, raro por cá. Tem pernas para andar.

Drive-By Truckers - Go-Go Boots ***

Os Drive-By Truckers produzem que se fartam. No ano passado, foram para estúdio e gravaram tanto, que acabaram por fazer dois discos (para já…). The Big To-Do (2010) ficou com os temas mais ao estilo da banda: três guitarras, sempre a abrir, nada do outro mundo. Este Go-Go Boots é mais temperado. Mantém-se, obviamente, o pano de fundo sulista, agreste, mas as guitarras eléctricas cedem a vez a uma ou outra acústica e o ritmo desacelera claramente. Aqui, pisamos o solo das baladas, de raiz soul, blues, country… Duas belas canções de Eddie Hinton (um pequeno mito dos estúdios, já falecido) – “Everybody Needs Love” e “Where’s Eddie” dão o tom, mas todo o disco decorre numa toada calma, deixando respirar as histórias de gente comum que são outra das marcas do grupo. Do lado dos originais, ressaltam “Dancin’ Ricky” e “Ray’s Automatic Weapon”, mais dois personagens bem construídos. Um disco que merece, no mínimo, uma espreitadela.

Katie Melua


Katie Melua é uma rapariga confiável. E cabe a cada um fazer o julgamento, ou gosta assim mesmo, ou sabe-lhe a pouco. Os portugueses parecem filiar-se no primeiro grupo, se tivermos em conta que Katie é relativamente popular cá pelo burgo. Confiável porque, não sendo propriamente uma autora e intérprete de primeira grandeza, cumpre mais que os mínimos e não costuma desiludir.
São assim os seus discos: agradáveis, nunca demasiado surpreendentes, mas também nunca abaixo da linha de água. Por cá, o sucesso deu-se ao segundo e terceiro disco, Piece by Piece (2005) e Pictures (2007), sendo que o mais recente, Horses (2010), talvez só agora, com os concertos de Lisboa e do Porto, saia do armário.
Apoiada pelo produtor William Orbit (o mago da fase mais electrónica de Madonna), Katie tenta, em Horses, alargar horizontes para lá da imagem folk e jazzy que marcou os primeiros anos de carreira. Está agora mais atmosférica, nuns casos, mais opulenta, noutros.
Obviamente, são coisas que casam, o jazz e o folk, com a electrónica e não virá mal ao mundo se, na passagem por Portugal, alguns dos clássicos (“The Closest Thing To Crazy” ou “Nine Million Bicycles” surgirem com roupagens diferentes. Até porque, ao vivo, Katie costuma imprimir uma grande carga dramática, por vezes quase operática, a cada interpretação, fazendo normalmente esquecer o original. É isso que torna cada espectáculo de Katie Melua apetecível, não apenas para os fãs, mas igualmente para um público mais vasto. Aquele a quem bastam artistas confiáveis, é claro.

Pearl Jam - Live On Ten Legs ****

Na última década, os Pearl Jam lançaram 72 discos duplos com cada uma das suas actuações ao vivo. Uma batalha contra a pirataria, que proporcionou a cada fã uma espécie de souvenir personalizado. Esse gesto resulta, porém, de uma constatação óbvia – é ao vivo que a banda dá o seu melhor e as versões de concerto são normalmente mais interessantes que as de estúdio.
Este On Ten Legs é uma espécie de Best Of desses 72 discos, já que reúne 18 gravações efectuadas em vários espectáculos, entre 2003 e 2010. E é também demonstrativo da enorme energia colocada em cada canção, seja nos permanentes riffs das guitarras, seja na voz (es)forçada de Eddie Vedder. Banda poderosa, esta.
Estas 18 canções abarcam toda a carreira dos Pearl Jam, com especial incidência no primeiro e marcante Ten (“Jeremy”, “Alive”, “Porch”), mas chegam até ao recente Backspacer (2009). À laia de bónus, surgem ainda “Public Image” (dos PIL) e “Arms Aloft” (de Joe Strummer).