Charlotte Gainsbourg tem uma voz banal e é uma intérprete meramente sofrível. Os seus dois discos a solo (5:55 e IRM) foram, apesar disso, bem recebidos. Charlotte sabe escolher as companhias (Jarvis Cocker, Air e Beck assinam a quase totalidade dos temas desses discos) e assume uma atitude blasée, uma sensualidade distante, que o mundo gosta de associar a França e às francesas em particular. O gesto de editar um disco em que metade das canções são sobras (de IRM) e a outra metade uma actuação ao vivo parece não ter sido boa ideia, principalmente porque ficam excessivamente expostas todas as fragilidades. Um exemplo: a versão de Just Like a Woman, de Dylan, é tão insípida que não apetece repetir a audição. O trabalho de estúdio tem algumas canções razoáveis de Beck embrulhadas em electrónica dançável e, percebe-se agora melhor, muito trabalho à volta da voz de Charlotte. Decepcionante.
The Unthanks - The Songs Of Robert Wyatt and Antony & The Johnsons ****
Os discos de versões tendem a expandir o universo original, através da oferta de novos mundos às canções. Sendo um disco de versões, este faz o trabalho inverso. Digamos que se trata de uma gravação para fãs, como se os admiradores de Antony Hegarty (Antony & The Johnsons) e Robert Wyatt se tivessem reunido num teatro de Londres para venerar os seus ídolos e tivessem encarregado os Unthanks de os guiar. Não há aqui um trabalho de verdadeira apropriação ou transfiguração dos originais, mas antes de veneração. Quer isto dizer que se trata de versões menores? De todo. Ouça-se, por exemplo, “Bird Gerhl”, “Sea Song” ou a espantosa “Free Will and Testament” para se perceber o carinho colocado em cada interpretação. São canções de grande beleza e intensidade e essas características são preservadas e até intensificadas, em orquestrações baseadas no piano e enriquecidas com cordas e alguns toques vibrantes de metais. Ah, e as manas cantam tão bem!
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Tiago Bettencourt - Tiago na Toca dos Poetas ***
A música é a grande libertadora da poesia e, por isso, nada melhor que uma grande canção para retirar dos livros e gavetas um grande poema. Quem diria que, em 1971, em plena censura, se cantarolava nas ruas de Lisboa um poema de sexualidade quase explícita, a que não faltam referências homossexuais? Sim, “Cavalo À Solta”, de Ary dos Santos, que Fernando Tordo levou ao Festival da Canção e que agora reinterpreta neste disco com Tiago Bettencourt. E esta versão de “Cavalo À Solta” dá o tom ao disco – gravação caseira, intencionalmente artesanal. Mas, acima de tudo, o registo: a canção do Festival, um grito libertador, é aqui submetida a um trabalho de inversão, obrigada a serenar, num quase anti-clímax. Neste projeto, mais do que libertar poemas, através de canções que os tragam para a rua, Tiago Bettencourt prefere oferecer-lhes música que lhes faça companhia na intimidade. Exemplo disso são os dois poemas de Sofia, em que a melodia cede lugar ao acompanhamento instrumental para pouco mais que declamações. Ou o poema de Ramos Rosa, simplesmente sussurrado por Dalila Carmo. Já “Poema de Desamor” (de O’Neill), ou o de Pessoa são objecto de uma intervenção mais explicitamente musical. Não é, então, um disco para trazer a poesia à rua, antes para momentos de intimidade. Os temas foram gravados em casa e outros locais inusitados, em 2008, e estão agora a ser apresentados numa pequena digressão. O disco vem dentro de um livro com os poemas e notas do autor. Um belo objecto.
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Tiago Bettencourt
The Maccabees - Given To The Wild *
Há um vírus na música inglesa. Chama-se Coldplay e ataca bandas pouco inspiradas, compelidas pela indústria a explorar cada galinha dos ovos de ouro que sobe aos top. O raciocínio até está correcto – se os maçadores Coldplay conseguem, não conseguirá qualquer um? Os tops, a História está aí para o provar, são de uma generosidade sem fim. The Maccabees são, pois, os novos Coldplay, como já o são, por exemplo, os Snow Patrol. Given To The Wild é um disco penoso de ouvir, tal é a banalidade e a repetição dos recursos utilizados, que vão das fases mais desinspiradas do prog-rock (Genesis, etc) aos supergrupos de estádio das últimas duas décadas. É tudo épico: as baterias-metralhadora, as camadas de sintetizadores, as descargas das guitarras, as vozes em falsetos irritantes. Uma ou outra canção parecem tentar fugir do naufrágio (“Ayla” ou “Pelican”, por exemplo), mas o esforço resulta inglório.
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Adele - Live At The Royal Albert Hall ****
Bem vindos, então, ao Royal Albert “Fuckin” Hall. É assim que Adele cumprimenta os milhares que, apenas em meia hora, esgotaram a mítica sala de Londres, obviamente o palco mais desejado por esta filha da cidade que, aos 23, tem o mundo a seus pés. Ao longo de hora e meia de concerto, raramente Adele perde a oportunidade de verbalizar as mais variadas declinações da palavra “fuck”. A coisa não passou despercebida a alguma imprensa americana – logo no ano em que a inglesa bateu recordes históricos de vendas no outro lado do Atlântico – e a editora acabou por colocar na caixa do DVD o famoso autocolante a alertar para a linguagem explícita, uma aberração, se tivermos em conta, as densas mas bem comportadas letras das canções de Adele. Mas esta é apenas uma das grandes contradições de uma artista que cultiva um “look” mais familiar aos fãs de Susan Boyle que aos milhões que compraram os seus dois primeiros discos, 19 (2008) e 21 (2011). Neste concerto, por exemplo, a exuberância, alegria e até estridência do seu relacionamento com o público – que ocupa quase tanto tempo como as canções, tal é a conversa... – contrasta flagrantemente com um repertório assumidamente autobiográfico todo ele construído à volta de separações dolorosas. Interlúdios à parte, estamos perante um fabuloso concerto, a que o som e a imagem de altíssima qualidade transformam numa experiência excepcionalmente gratificante. Sem nunca ultrapassar o protagonismo da artista, a orquestra faz o que a tem a fazer de forma competentíssima. E Adele não lhes fica atrás. Ouça-se, por exemplo, a interpretação de “Make You Feel My Love”, de Dylan e dedicada a Amy Winehouse, ou o empenho emprestado a “Take It All”, para se perceber como Adele está uns furos acima da classe de raparigas canoras que ultimamente tem atacado os tops. A edição em DVD é completada com CD, que reproduz o mesmo alinhamento, mas sem as longas e “fucking” interacções com o público. Há ainda um documentário de bastidores (9 min.), mais ou menos irrelevante. Como quem diz, com um espectáculo daqueles ainda estavam à espera de extras?
Áurea - Ao Vivo no Coliseu dos Recreios ***
Ponto prévio: o DVD e o CD, quase gémeos, não são maus de todo. Em absoluto. Mas na vida tudo é relativo. E este segundo disco de Áurea é relativamente pior que o primeiro disco de Áurea, sendo que o segundo disco é igual ao primeiro. Expliquemo-nos. O primeiro disco de Áurea, lançado em finais de 2010, chamava-se Áurea e foi um sucesso estrondoso. Uma boa voz, boas canções originais, tudo made in Portugal. O segundo disco de Áurea também se chama Áurea e tem mais ou menos as mesmas canções. Só que foi gravado um ano depois e ao vivo. Provavelmente, a cantora, os autores, a editora não resistiram ao exercício auto-celebratório – a vida corria-lhes bem, muito bem, e quiseram partilhar isso mesmo com o respeitável público e, já agora, esticar o sucesso económico da façanha inicial. Entendidos. O resultado é, porém, sofrível. O cerne do problema parece estar na orquestra e no conceito que ela enquadra. Do registo contido da excelente produção do primeiro disco passa-se para uma sonoridade mais própria de um Festival da Canção, os daqueles talk shows da RTP. O jet set que se acomodou na plateia do Coliseu aplaudiu muito e, seguramente, a aposta está ganha do ponto de vista comercial. Provavelmente, é o preço a pagar para fazer música daquela e ter sucesso em Portugal. Mas soa mal. Acresce que a captação de som não é brilhante e, por vezes, o que nos chega é uma massa sonora e não os naipes de instrumentos propriamente ditos. A cantora, por seu lado, revela uma menor plasticidade vocal do que se adivinhava no disco original. Nada de grave, porém. O que interessa saber é se Áurea e o autores/compositores vão conseguir fazer um verdadeiro segundo disco capaz de ombrear com o primeiro. Em caso afirmativo, este CD/DVD relegar-se-á ao seu papel no baú de memórias dos intervenientes. Apenas.
Calexico - Selections From Road Atlas ****
Durante mais de uma década, os Calexico construíram uma vida dupla. À vista de toda a gente, mas que só agora ganha consistência enquanto conjunto. Em cada digressão, gravavam um disco, vendido apenas nos concertos, com temas originais, à margem da discografia original. Agora, esses CD foram editados numa caixa com oito discos de vinil. Este CD é uma selecção dessa discografia paralela do grupo que explora e actualiza as sonoridades do sul dos Estados Unidos e da fronteira com o México. E o surpreendente nesta colecção é a qualidade artística e sonora das canções. Exímia. Nada aqui é amador, como se poderia supor. E cá temos coisas a fazer lembrar Ry Cooder (“Waitomo” e “El Morro”), uma balada de beleza cativante (“All The Pretty Horses” e ”Griptape” ), ou a quase psicadélica “Man Made Lake”. A fazer a ponte para os discos oficiais, surge aquela que é apelidada de versão original de “Crystal Frontier”, uma cóboiada spaghetti.
Stacey Kent - Dreamer In Concert ****
Stacey Kent é uma nova iorquina, de voz charmosa e delicada, que – imaginem! – se apaixonou pelo jazz numa viagem a Paris e pelo marido, produtor, saxofonista e compositor Jim Tomlinson numa visita a Oxford. Estamos, portanto, no território da elegância. A que só falta acrescentar a mais recente paixão de Stacey – a língua portuguesa, à qual chegou através das canções brasileiras. Neste disco ao vivo, gravado em Paris, cruzam-se, num registo jazz bossa nova, três línguas (inglês, francês e português tropical), numa demonstração do potencial universalizante da música. Há Gainsbourg (“Ces Petits Riens”) e Benjamin Biolay (“Jardin d’Hiver”), há clássicos (“The Best Is Yet To Come”), e há muitas canções de raiz brasileira cantadas, ora em versões inglesas (“Corcovado” e “Waters of March”), ora em francês (o célebre “Samba Saravah”), ora em português (“O Comboio”, um poema do poeta português António Ladeira, musicado em registo bossa nova por Tomlinson).
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Laura Veirs - Tumble Bee ****
Se o melhor do mundo são as crianças, o que dizer das canções para crianças? Obviamente, que são as melhores canções do mundo. E quando as melhores canções do mundo encontram alguém que as trata com o carinho merecido, o resultado só pode ser um disco a que apetece dar colo. A voz de Laura Veirs, isso já sabíamos, é cristalina, linda de morrer. E as orquestrações de Tucker Martine conjugam de forma rara a simplicidade com a riqueza. Juntos, à boleia do nascimento de um filho, decidiram dar nova vida a uma dúzia de canções de roda e de embalar, mas também a cantos tradicionais de trabalho (“Jump Down Spin Around”) e até da guerra (“Soldiers’ Joy”), para gravarem um disco que, como os filmes da Pixar, agrada aos miúdos, mas diverte mesmo é os pais. O divertimento, aqui, vem das fabulosas interpretações, mas também das próprias canções. Como “Why or Why”, de Guthrie. Afinal de contas, “porque não pode o pássaro comer o elefante?”.
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Laura Veirs
Snow Patrol - Fallen Empires **
Bem-vindos, então, à banda que gostava de ser U2 e Coldplay numa só. Isto é capaz de ser de uma enorme injustiça, mas ouçam “The Symphony” e digam lá se conseguem ouvir outra coisa que não as duas bandas. E a verdade é que, após seis discos, mais de uma década de estrada e um ou dois grandes sucessos, estes irlandeses, escoceses por adopção, não conseguem livrar-se dos fantasmas. Provavelmente, nem estão interessados. O resultado, como nos discos anteriores, é relativamente mediano, e a única novidade é a junção de umas camadas de electrónica às guitarras do costume. A especialidade da banda são as baladas de pendor épico com piano ao fundo. Como, por exemplo, “This Isn’t Everything You Are” ou “New York”, claramente pensadas para as coreografias dramáticas das actuações ao vivo. O mesmo destino, afinal, dos temas mais comerciais, como o típico “Called Out In The Dark”, um dos tais em que a electrónica dá um arzinho da sua graça.
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Amy Winehouse - Lioness: Hidden Treasures ***
E são estes os restos mortais de Amy Winehouse. Restos é a palavra certa – a avaliar pela amostra, a cantora britânica não deixou propriamente um espólio à mercê dos arqueólogos da indústria musical. Basta dizer que, para conseguirem juntar 12 canções, tiveram que percorrer quase uma década, desde as gravações contemporâneas de Frank (2003), como “The Girl From Ipanema”, aqui numa versão vocalmente menor, até temas que estavam a ser trabalhados para o sempre adiado terceiro álbum, como “Between The Cheats”, uma boa tentativa de reeditar a sonoridade doo-woop que se adivinhava nas canções de maior sucesso, ou mesmo a incipiente “Like Smoke”. Há aqui de tudo, portanto. Versões que pouco ou nada adiantam, como “Valerie” (outra vez?), orquestrações densas e espalhafatosas imaginadas para esconder o mero balbuciar de uma versão (bolas, não se arranjou um original?), como em “A Song For You” (de Leon Russel), ou – imagine-se! – uns arranjos de 2011, construídos para embrulhar a voz de uma outra versão que Amy tinha gravado em 2004 do clássico “Will You Still Love Me Tomorrow”. Ou seja, estamos no terreno do vale-tudo. E até a versão artificial de “Body And Soul”, com Tony Bennett, acaba por parecer ajuizada, face a tanto desespero e algum disparate. E, no entanto, apesar disso, este não é um mau disco. A voz de Amy, quando lá está em pleno, é poderosa e tem a indiscutível magia de se apropriar das canções, como só acontece com os grandes cantores. O que falta aqui – e há nessa constatação toda a mágoa pela injustiça da vida – é a concretização da promessa de uma enorme autora que Back To Black tão claramente apontava. Infelizmente, até o sótão está vazio – Amy foi um cometa sem rasto.
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Fionn Regan - 100 Acres of Sycamore ***
Os primeiros cinco minutos deste disco são fatais. O piano, os pizzicatos dos violinos, as camadas de cordas, a intensidade contemplativa de “100 Acres of Sycamore” colocam a fasquia tão alta que muito dificilmente as restantes 11 canções estariam à altura. E até, por exemplo, a bela “The Horses Are Asleep” parece relativamente banal. Bom, banal talvez não seja o termo. Digamos que este disco se torna um tanto repetitivo, quiçá maçador. O piano, as cordas, a voz, o tom, entre o melancólico e o grandioso, a fazer lembrar Rufus Wainwright, tudo muito certinho, muito bonito, mas... igual. E não deixa de ser curioso que tudo isto surja ao terceiro disco. O primeiro (The End Of History, 2006) era quase completamente acústico. O segundo, mais eléctrico. A este, deu-lhe para as cordas. É verdade que acaba por ser o registo certo para alguém que demonstra umas raízes folk tão evidentes. Merece uma quarta oportunidade.
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Fionn Regan
Ryan Adams - Ashes & Fire ****
Aviso à navegação: este não é apenas mais um disco de Ryan Adams. O alerta, parecendo banal, tem a sua razão de ser – na última década, irrequieto, Ryan Adams lançou mais discos do que o bom senso recomendaria. À razão de um por ano, a solo ou com os Cardinals, espalhou de tal forma o seu talento que às tantas seria legítimo questionar se haveria assim tanto talento e se não seria apenas espalhanço. Este Ashes & Fire é talvez o melhor disco desde a dupla de estreia a solo – Heartbreaker (2000) e Gold (2001) – e isso é seguramente o melhor elogia que se poderia fazer, visto que aqueles foram dois discos marcantes e, de alguma forma, ainda subavaliados na história da música pop-rock. Ryan Adams tem as suas raízes na country alternativa e esse é o tom que mais sobressai nesta nova gravação. Na prática, estamos perante uma dúzia de baladas, num registo quase unplugged, ornamentado por um omnipresente e característico órgão Hammond, uma secção de cordas e… o piano de Norah Jones. A voz está melhor que nunca, naquele tom sofrido, quase frágil, apaixonado. E por falar em paixão… É disso que trata o disco, em canções com títulos tão bonitos como “I Love You But I Don’t Know What To Say”, ou tão explícitos como “Chain Of Love”. Deixemo-nos de rodeios – este é um disco para ouvir a dois, descaradamente, para namorar (nota: merecem estudo urgente os efeitos práticos da música na vida sentimental dos terráqueos…), tanto mais que estamos longe, muito longe, de qualquer versão lamechas da coisa. Temas como “Come Home”, ou “Invisible Riverside” poderão, de resto, integrar uma qualquer enciclopédia da arte de bem escrever canções. Em suma, este é um disco que (re)lança uma nova luz sobre um nome em que já descríamos e isso não é pouco.
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Ryan Adams
David Lynch - Crazy Clown Time **
Não, caro David, isto não resultou. A ideia de transpor para a música a estética negra e maníaca dos seus filmes era interessante, tinha (e tem) potencial. Mas, admita, era projecto para um profissional. Ou então para um desses jovens que parecem ter absorvido toda a história da música pop-rock nos biberons da infância. O falhanço explica-se de forma muito linear: o David escreveu, produziu e interpretou (instrumentos e voz) todas as canções deste disco. Repare: as canções não são nada de especial. Ouça, por exemplo, “Noah’s Ark” – isto é um esboço, bolas, não uma canção. Na generalidade, as letras são pobres e a composição anda, no mínimo perdida. E depois há o embrulho. E aí, sinceramente, parece que tentou esconder a falta de criatividade num amadorismo demasiado explícito. Os vários cobertores electrónicos que envolvem as canções são totalmente dejà vu e, creia, aborrecidos. Como a sua voz, David. Você não canta – uma opção, é certo – mas a sua declamação persistentemente distorcida pelo vocoder causa um certo formigueiro nos pés, vontade de fugir (seria essa a ideia?). Safa-se no meio de tudo isto a abertura (“Pinky’s Dream”), com a convidada Karen O (dos Yeah Yeah Yeahs), os quatro minutos do disco mais parecidos com uma canção – há melodia, há intensidade, sem que nos afastemos do universo lynchiano. E há , por exemplo, “Football Game”, ou “The Night Bell With Lightning” (um instrumental…), com uma base blues e uma sonoridade de guitarra com potencial para exploração em possíveis novas aventuras no campo da música. Pois é, David, essa ideia de criar uma marca Lynch transversal (parece que até vende café no seu site…) precisa de mais qualquer coisa na música. Pode continuar a tentar, é claro.
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Florence + The Machine - Ceremonials ****
O segundo disco de Florence é mais do mesmo. E “mais” é uma palavra que aqui se aplica em todo o seu esplendor. Embalada pela boa receptividade à estreia (Lungs, 2009), a britânica dá-nos agora ainda mais intensidade, mais pormenores deprimentes da sua intimidade e mais… instrumentos. É impressionante a amplitude instrumental e a massa sonora criadas em cada uma das canções, com elementos célticos, soul, tribais, corais, sinfónicos. No centro de tudo, está a voz dramática, avassaladora, de Florence Welsh, a cantar coisas tão pesadas como ser atirada à água com os bolsos cheios de pedras (“What The Water Gave Me”), uma canção em que o registo vocal faz lembrar outra britânica menos sombria, mas igualmente intensa – Kate Bush. Este é um disco, que por todas essas razões, se torna de difícil digestão. As canções são exigentes, na temática e na exposição, e, é verdade, um tanto repetitivas. Mas o teste do segundo disco foi ganho.
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Patrick Wolf
Ouvimos “The City” e imaginamos dezenas de dançarinos sincronizados como nos velhos filmes de Hollywood, ao som de uma fanfarra grandiosa. Ouvimos “Time Of My Life” e até vemos os dançarinos a marcarem o passo com palmas, levitando sobre violinos. A dúvida para este concerto de Lisboa é perceber como vai Patrick Wolf encher o palco, se com dançarinos (pouco provável), fanfarras e violinos (talvez, talvez) ou, garantidamente, com aquela voz de barítono, que nunca como neste último Lupercalia ganhara tanto espaço para se projectar. Lupercalia era a designação dada a uma festa pré-romana de celebração da Primavera, no caso presente aplicada a uma fase literalmente apaixonada de Patrick Wolf. Daí a luminosidade que emana de todas as canções, a descarada e exuberante felicidade de tudo isto. Estamos perante alguém que dá tudo em palco – os portugueses conhecem-no, por exemplo, de uma relativamente curta passagem pelo último Optimus Alive – e não é, por isso, difícil de adivinhar uma prestação empenhada, em que cada canção merecerá uma encenação própria, um investimento total. Seja com o autor ao piano, na harpa, no violino… E, já agora, outra dúvida para resolver neste concerto: será que Patrick Wolf arriscará cruzar estas alegres canções de 2011 com outras, digamos, mais sombrias, de fases menos apaixonadas da sua vida, perdão, da sua carreira? Deixarmo-nos surpreender poderá ser o papel que nos está reservado, afinal.
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Seasick Steve - You Can’t Teach An Old Dog New Tricks ***
Há discos que avisam logo na capa que contêm “conteúdo explícito” e só os ouve quem quer ou pode. Este diz logo no título que não se podem ensinar novas habilidades a um velho cão. Deste cão velho já conhecemos todas as habilidades, especialmente a sua colecção de guitarras mais ou menos estapafúrdias, que utiliza com mestria num blues rude, sem grandes rodeios. Ora acontece que este é o quarto disco deste antigo frequentador de estúdios e, passado o “ah” de espanto das primeiras impressões, o que nós queríamos mesmo era novas habilidade. Ao invés, Seasick Steve dá-nos mais do mesmo - canções medianas. Não chega a ser mau, obviamente. Mas também não é nada de especial. Ouvem-se com agrado coisas eléctricas, como “Back In The Doghouse”, e ainda mais algumas acústicas (“Treasures”, ou “It’s A Long Way”), mas não se vai muito longe. O que só prova a falta que fazem escolas para cães adultos, uma espécie de Novas Oportunidades caninas.
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Seasick Steve
Patti Smith - Outside Society *****
Aos 65, Patti Smith, a anti-heroína, salvo seja, atinge a glória. E que glória mais perfeita. Não grava há quatro anos e o último disco com material próprio data de 2004. A glória chega pela via literária, glória maior para quem sempre cultivou um estatuto de intelectual e contaminou o rock mais primário, de estruturas simples e descarnadas, com a veia poética dos clássicos franceses e americanos. A história recente de Patti Smith gira em torno de Just Kids (Apenas Miúdos, na versão portuguesa lançada este ano), o livro de memórias em que relata os momentos seminais na Nova Iorque dos anos 70, na companhia do fotógrafo, entretanto falecido, Robert Mapplethorpe. Foi com esse livro que ganhou o prestigiado National Book Award e foi na senda desse prémio que a distinguiram, na Suécia, com o Polar Music Prize (há quem lhe chame o Nobel da música contemporânea). E é Just Kids que motiva a edição desta primeira colectânea da obra de Patti Smith num único CD, o qual funciona, pelo menos parcialmente, como banda sonora do livro. A colectânea anterior (Land, 2002) baseava-se num conceito menos representativo e continha um segundo CD com raridades. Desta vez, a abordagem é sistemática e ecléctica: estão representados todos os dez discos da sua carreira, começando no obrigatório Horses (1975) e acabando no de versões (Twelve, 2008). É claro que estão aqui as canções mais conhecidas, desde a alucinada versão de “Gloria”, ao seu maior sucesso comercial, “Because The Night”, escrita com Springsteen, passando pelo energético “People Have The Power”. Mas também uma versão arrebatadora, como todas as suas canções, de “Smells Like Teen Spirit” (Nirvana), paradigma do tráfico geracional que sempre envolveu Patti Smith, artista que como poucos soube enraizar-se no passado para se manter na vanguarda.
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Liam Finn - FOMO ****
Liam Finn ainda não matou o pai, para grande tristeza do doutor Freud e alegria do pai e de todos nós. Porque matar o pai talvez significasse, no caso de Liam, deixar de escrever canções pop na melhor tradição das excelentes canções pop do pai, Neil Finn, líder das bandas australianas Crowded House e Split Enz. Este é o segundo disco com assinatura própria (depois de I’ll Be Lightining, de 2007) e a matriz mantém-se: pop pura vestida de electrónica, num disco que remete frequentemente para aquele que Pete Yorn escreveu para a voz de Scarlett Joahnsson (exemplo disso é a canção de abertura “Neurotic World”, mas também a sonoridade suja de “The Struggle”). Pop mais nu é, por exemplo, “Cold Feet”, o primeiro single, ou “Reckless”, uma canção alegre que poderia ter sido escrita na Inglaterra dos anos 90. Motivos mais que suficientes para superar com distinção a prova do segundo disco.
Pactrick Wolf - Lupercalia ***
Não é fácil cantar o amor e, talvez por isso, as melhores canções de amor falam da falta dele. Pactrick Wolf tinha cantado a falta de amor no seu último disco (The Bachelor), uma obra sombria. Passados dois anos, parece que está apaixonado e dá-lhe para fazer um disco exuberantemente optimista. “Exuberância” é aqui a palavra-chave. Não apenas na temática (as excelências e alegrias do amor em 11 variações), mas especialmente na abordagem. Este é um disco que vai buscar a batida ao “disco” e a fanfarra aos metais e tambores sinfónicos para, num registo a roçar o kitsch, proclamar as tais graças do amor. A voz projectada de Pactrick Wolf assenta que nem uma luva a tais intentos. As canções parecem ter sido pensadas para grandes coreografias (“House”) ou pistas de dança (“Time Of My Life”), mas é tal a densidade, um tanto monótona, da maioria, que chega a ser reconfortante ouvir qualquer coisa mais simples (“Armistice”).
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Patrick Wolf
Okkervil River - I Am Very Far ****
Vocês nunca ouviram nada assim. Bom, há os Arcade Fire e os Decemberists e tal. Mas isto é outra coisa. Mesmo os Okkervil River nunca tinham feito nada assim, eram uma banda de country alternativo relativamente bem comportado. Mas Will Sheff, alma dos Okkervil, arregaçou as mangas, escreveu as canções, cantou, tocou uma dezena de instrumentos e produziu o disco. E que produção! Continuam a ouvir-se guitarras, mas os 50 minutos do disco são de uma rara densidade e complexidade instrumentais, a que não faltam secções de metais e cordas e um dos mais vibrantes exercícios de percussão da história do rock. E não é tudo isso demasiado pomposo, gongórico? Não, e é aí que está a beleza da coisa. Sheff conjuga toda essa tensão sonora com um lirismo poético e melódico, que dá origem a momentos de grande beleza, como “Hanging From a Hit”, “Your Past Life As a Blast”, “White Shadow Waltz”… e por aí fora.
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Okkervil River
A década Sinatra *****
São mais de 200 canções, gravadas há quase 60 anos e lançadas agora a preço reduzido. Manuel Morgado ouviu-as todas e ficou convencido de que a perfeição existe
Lá fora são os anos 50 do pós-guerra, do baby boom, da América próspera. Tudo
parece possível, até a felicidade, e há uns miúdos e alguns graúdos que
inventam uma nova música a que chamam rock’n’roll.
Sinatra, o dono da Voz que explodira na década anterior, é o contraste perfeito
desse glamour: está fora de moda, é
despedido pela editora (Columbia), cambaleia entre o divórcio de Ava Gardner e
tentativas de suicídio. Como tantas vezes na História, está criado o clima para
uma enorme explosão de talento, que marcará uma época, mas, acima de tudo,
estabelecerá um paradigma.
Os discos que Frank Sinatra lançou na Capitol (1953-61) são
absolutamente históricos. Desde logo pela abordagem que faz a cada canção,
tratando-as como se fossem, todas e cada uma, um caso muito pessoal. Sinatra
não avia canções, vive-as e isso ouve-se. Históricos também porque,
aproveitando o advento do LP, Sinatra inventa os discos conceptuais: as canções
são escolhidas à volta de um conceito, seja o amor, as viagens, a dança, ou o
amor, outra e mais uma vez. E, enfim, são discos históricos porque tudo neles é
perfeição: a voz, os arranjos e a condução de orquestra (além de Billy May e
Gordon Jenkins, começa a colaboração com Nelson Riddle, que marca toda esta
época), e as próprias composições, constituindo este repertório um autêntico
cancioneiro americano, a que não faltam Gershwin, Porter, Mercer, Arlen,
Rodgers &Hart…
A colecção que agora chega a Portugal beneficia da cessação
dos direitos autor, passados que foram 50 anos sobre as edições originais. Uma
editora de Barcelona juntou em 12 discos as gravações remasterizadas de 12 LP e
alguns singles, a que não faltam as capas originais, numa operação low cost com matéria-prima de luxo.
Por ordem cronológica, Songs
For Young Lovers/Swing Easy! (1954) condensa a ideia que presidiu às
gravações da Capitol: discos de canções de amor, alternados com outros de
dança, aqui juntos num mesmo CD. E é aqui que podemos ouvir gravações
“definitivas” de “My Funny Valentine”, “I Get A Kick Out Of You”, ou “Just One
of Those Things”.
O ano seguinte foi inteiramente dedicado ao amor, ou melhor,
à falta dele. In The Wee Small Hours
cria uma atmosfera íntima, propícia a exorcizar amores que se rompem e que se
tentam preservar com inviáveis promessas de amizade. “What Is This Thing Called Love”, pergunta Cole
Porter.
Songs For Swingin’ Lovers (56) é todo ele alegria (“You Make
Me Feel So Young”) e chega a garantir que, sim, o amor existe (“Love Is Here To
Stay” e “I’ve Got You Under My Skin”). A orquestra brilha a grande
altura. E o ano não acaba sem que seja lançada a primeira colectânea de singles
(This Is Sinatra), até porque A Voz
tinha voltado novamente aos tops (em 1958, surgirá o segundo volume).
No disco de 57, Sinatra surge na capa de olhos de fechados,
a dar o mote para aquele que talvez seja o momento mais intimista da sua
carreira, Close To You. São 12
canções, delicadamente orquestradas, reflexivas, contra a corrente (estávamos
no auge do rock’n’roll). E mais uma vez Sinatra canta, com um jeito quase
coloquial, como quem respira, as agruras do coração. Mas – esperem! – o ano
fecha com A Swingin’ Affair, ao qual
bastaria ter “Night And Day” a abrir, mas tem muito mais.
Where Are You (amor), Come
Fly With Me (viagens) no mesmo CD de Come
Dance With Me! (dança) e ainda Only
The Lonely, Look To Your Heart e No
One Cares (o amor, a falta dele) são os discos que se seguem e que revelam
as tão variadas facetas de um artista em fase inspirada.
A Capitol editaria ainda mais três discos e Sinatra tem pela
frente uma carreira de sucesso na sua própria editora (Reprise), mas os anos 50
ficarão como a sua década de ouro.
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Frank Sinatra
Eddie Vedder - Ukelele Songs **
Sim, Eddie Vedder também tem sentimentos, e família e coisas
assim, mortais. Não é apena aquela “estrela, sobre-humana, que se apresenta em
palco à frente dos Pearl Jam. E nada melhor para o demonstrar, pensou ele, que
pegar no ukelele e, sem nada na manga, cantar 16 canções de enfiada. Pensou
mal. O ukelele, descendente do nosso cavaquinho, tem a sua graça, mas é muito
limitado. Mesmo num disco que totaliza apenas 34 minutos, ao fim de um certo
tempo já se sente uma espécie de… enjoo. E isto ressalvando que Eddie Vedder
até utiliza bem a sua voz de barítono para contrapor à monotonia do
instrumento. Passam por aqui canções próprias (até dos Pearl Jam – “Can’t
Keep”) e alheias, dois convidados especiais (Glen Hansard e Chan Marsall/Cat
Power), e uma certa dose nostalgia, seja do surf, da natureza, dos espaços
abertos. Ficam duas ou três canções na memória (“Sleelping By Myself” e
“Without You”) e pouco mais.
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Eddie Vedder
Jay-Jay Johanson - Spellbound ****
Alegrai-vos, românticos depressivos. Jay-Jay Johanson está
de regresso e traz com ele mais uma mão cheia de canções belas e tristes,
melodiosas que até doem. Há uns cinco anos que este sueco não dava sinais de
vida e, pelos vistos, fez-lhe bem o descanso. Nesta nova gravação, as
electrónicas foram remetidas para o subtexto, raramente rompendo o papel de
quase decoração de fundo, dando todo o palco à voz, ao piano e às cordas. O tom
mantém-se. Johanson bebe imenso no jazz (“An Eternity”), mas também nos filmes
de Hollywood (“Blind”), enfim, nos grandes cantores (“Dilemma”, o primeiro
single, tem a batida do histórico “Fever”…), sendo as quatro primeiras canções
do disco um autêntico tratado de bem compor e bem interpretar. Mas não há que
ter ilusões, que ninguém venha aqui à procura de salvação. A morte é o lema que
atravessa o disco e a audição, exigente, ressente-se disso. Podem comprová-lo
ao vivo, em Outubro, em Sintra.
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Jay-Jay Johanson
Willie Nelson & Wynton Marsalis - Here We Go Again **
Algumas almas sensíveis já nem podem com o nome de Norah
Jones. Pois em verdade vos digo que, não fosse a moça, e este
mega-acontecimento teria ido pelo cano abaixo. Porque, na realidade, é a voz de
Norah que, pontuando a maioria dos temas, acaba por lhes conferir um mínimo de
homogeneidade. E isto por um motivo muito simples: temos de um lado um oleado
quinteto de jazz, ao qual se junta a guitarra e o acompanhante de harmonia de
Willie, e temos do outro lado uma voz que nunca foi grande coisa, mas que está
pura e simplesmente estafada. Acontece que o repertório de Ray Charles exige
uma voz potente e isso é coisa que por aqui não há. O conjunto fica de tal
forma desequilibrado que até os solos orquestrados por Wynton chegam a maçar.
Norah Jones, não tendo um vozeirão, confere aos momentos em que intervém aquela
doçura que lhe conhecemos… e as canções acabam por fazer sentido. Ouça-se, por
exemplo, “Cryin’ Time”, e, no pólo oposto, “I Love You So Much”.
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Robbie Robertson - How To Become Clairvoyant ***
Ia começar por uma referência à capa, do género “eis uma
candidata à pior capa do ano”, mas depois reparei que a foto é de Anton
Corbijn, o grande Corbijn. Arrepiei caminho – que percebo eu, afinal, de
fotografia? Vamos, então, à música.
Robbie Robertson, para os mais esquecidos - o homem não
gravava há uma década e meia e, por isso, deve haver pelo menos uma geração que
nunca o ouviu –, integrou uma banda mais ou menos mítica estranhamente chamada
The Band, que gravou umas coisas com Dylan e outras sem Dylan, e que se tornou
mundialmente famosa com o espectáculo de despedida, em formato de filme: “A
Última Valsa” (Martin Scorcese).
A propósito, este disco tem, não uma valsa, mas um tango, “Tango
for Django”, algo experimental, não tanto quanto “Madame X”, de e por Eric
Clapton, com “texturas sonoras” de Trent Reznor. O resto do disco é,
essencialmente, blues. E muito Clapton (assina ou interpreta sete dos 12
temas).
Robbie Robertson empreende uma viagem autobiográfica, aos
anos 60, aos tempos da banda, aos seus guitarristas preferidos (“Axman”), mas
também introspectiva (daí o título do CD), que torna o disco num exercício com
o seu quê de romântico. As guitarras, é claro, são o fio condutor das histórias
e há-as, as guitarras, de todas as sonoridades possíveis, felizmente em doses
aceitáveis. As canções são encenadas, há aqui algo de cinematográfico (a
actividade de Robbie nos últimos anos), o que lhes confere alguma diversidade,
mas igualmente uma modernidade que chega a surpreender. Apesar disso, e tendo
em conta os nomes envolvidos (já falei de Steve Winwood?) e a prolongada
ausência, seria de esperar uma maior densidade. Cumpre, mas…
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k.d. lang - Sing It Loud ****
E eis-nos, então, perante Sing It Loud, o disco com que k.d. lang parece querer abrir uma
nova frente. Trata-se da primeira gravação, em muitos anos, em que surge
acompanhada por uma banda própria, apelidada para o caso de Siss Boom Bang,
nome fantástico. E isto é importante porque se trata, de facto, de um disco de
banda, em que se ouve o conjunto e em que o conjunto tenta fazer sentido. É
claro que o centro de tudo continua a ser a voz única e sensacional de k.d.
lang. Ouça-se a sensualidade de “I Confess”, ou a elasticidade de “A Sleep With
No Dreaming” e fica tudo dito ao fim das duas primeiras canções. Mas, já agora,
a terceira (“The Water’s Edge”) também é muito boa e um excelente exemplo das
guitarras e do órgão que dominam todo o disco.
As canções são todas (co)assinadas pela cantora e até há uma
outra menos razoável (“Inglewood”, por exemplo), havendo apenas uma versão
(“Heaven”, dos Talking Heads), que, sendo interessante, não é nada do outro
mundo. Para primeiro disco de uma nova fase, é prometedor. Falta perceber como
continua.
Emmylou Harris - Hard Bargain ***
Ah, essa tentação de regressar aos lugares onde fomos
felizes! Doce ilusão. Passam agora 38 anos que Gram Parsons, alquimista do
country-rock, se passou deste para outro mundo, deixando a jovem Emmylou
afogada em desespero por um amor que tão pouco durou. Quatro décadas depois,
esta “Lonely Girl”, como se define numa das canções, regressa a esse ano que a
deu a conhecer ao mundo da música e dedica a Gram uma segunda canção (a
primeira fora “Boulder to Birmingham”, em 1975). “The Road”, que abre o disco, é
mais que uma canção de amor, é uma prova da devoção que perpassa um pouco por
toda a obra de Emmylou Harris, muito especialmente pela fase pós-Wrecking Ball (1995), o disco que marca
a sua ruptura com Nashville, a opção pela country alternativa e também a
assumpção enquanto autora.
Aqui chegados, é necessário fazer uma ou duas advertências.
Emmylou Harris ficará para a história como uma das mais belas vozes da country,
sendo a sua verdadeira especialidade a gravação de versões. Enquanto autora, se
é verdade que esta fase mais recente comporta uma ou outra canção mais bem
conseguida, o balanço global não é famoso.
Acontece que, neste disco, a voz de Emmylou, embora ainda
encantatória, dá sinais de fragilidade, e acontece ainda que, só ou
acompanhada, ela escreve 11 das 13 canções. E acontece ainda que a produção
pouco mais consegue que criar alguns ambientes atmosféricos para embrulhar a
voz.
Sendo um disco agradável, em que tudo parece estar no sítio,
não deixa de ser uma peça um tanto monótona, sem chama. É disso exemplo a
evocação da amiga Kate McGarrigle (“Darlin’ Kate”), que certamente será
autêntica, sentida, mas que é também confrangedoramente banal. O melhorzinho
ainda acaba por ser o tema que dá título ao disco, mas esse é assinado por… Ron
Sexsmith. Lá está, as versões!
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Lisa Ekdahl - At the Olympia ***
Esqueçam o Olympia. Nos dias que correm, qualquer um lá
chega. Nesta edição, a parte mais valiosa é o DVD, todo filmado a preto e
branco, em que há, é verdade, Paris, mas acima de tudo os ensaios, os encontros,
as canções, no conforto da casa de Lisa, entre amigos, algures na Suécia natal.
É claro – não sejamos ingénuos – nada disto é espontâneo. Afinal de contas,
meteram lá em casa uma equipa de televisão. Mesmo assim, há um doce aroma a
improviso, ou, se quiserem, a reinvenção, em canções como “The World Keeps
Turning” ou “Sing” que suplanta o tal espectáculo do Olympia. Mas, já que o
disco se chama “At The Olympia”, convém referir que, além de algumas canções no
DVD, temos direito a um CD áudio todo ele made in Paris. Nada que não
conheçamos – Lisa já passou mais que uma vez por cá -, ou seja, aquele jazz
muito ligeiro, bossa à mistura, e aquele fio de voz que limpa as canções de
Cole Porter de qualquer traço de Sinatra.
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The Unthanks - Last ****
A melancolia como forma de arte. Êxtase para os adeptos das
coisas tântricas, um desespero para o resto dos mortais. Há oito anos e quatro
discos que as manas Unthanks se dedicam à obsessiva tarefa de espalhar a
tristeza pela face da Terra. As canções, muitas delas tradicionais, outras de
autores mais ou menos famosos, e ainda outra originais, são submetidas a um
eficaz processo de desaceleração rítmica, embrulhadas em esparsas orquestrações
e depois passadas pelas vozes encantatórias de Rachel e Becky, quais sereias da
folk britânica, atraindo-nos para abismos imensos.
Neste Last, o
trabalho de orquestração é particularmente meticuloso, por exemplo
transfigurando “Starless” (dos King Crimson) numa canção de beleza sufocante.
Já “No One Knows I’m Gone” (de Tom Waits) resulta relativamente banal. “Close
the Coalhouse Door” entra por caminhos complicados, tornando talvez demasiado próximo o drama dos
mineiros. Não é para todos.
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