Coisa de alquimista. Janis Joplin transformava em ouro cada canção em que a sua voz tocava. E estabelecia um padrão difícil de alcançar a cada nova versão. Veja-se o caso de “Summertime”, em Cheap Thrills (1969), ainda com os Big Brother & The Holding Company. Ou “Me and Bobby McGee”, neste Pearl, gravado no Verão de 1970, mas lançado apenas em Janeiro do ano seguinte, quatro meses após a morte da cantora. Pearl é um disco absolutamente admirável, histórico. Claro que pela voz de Janis, por cada sílaba colocada em sítios inimagináveis, pelo fraseado blues tantas vezes copiado mas nunca imitado, pela naturalidade de quem canta como quem respira. Mas também por um rigor e uma criatividade musicais raras, no caso às ordens de Paul Rothchild, o produtor de, por exemplo, grande parte dos discos dos Doors. E se “Move Over” casa admiravelmente a guitarra, o baixo e a voz, já o a capella de “Mercedes Benz” é simplesmente genial e irrepetível. Esta edição de Pearl, não sendo a primeira especial em CD, pode funcionar como introdução a quem ainda não conhece Janis, mas agradará também aos fãs, pelos extras que contém. O primeiro CD tem os dez temas originais, remasterizados em estéreo, mais seis versões mono destinadas à rádio e, à vez, é possível apreender a excelência instrumental e a potência da voz. No segundo CD, surgem, além de dois temas ao vivo, uma série de versões alternativas de estúdio. Que fique muito claro: nenhuma destas versões é superior às que foram seleccionadas para o disco original. Funcionam, antes, como uma pequena amostra do modo como as canções foram construídas, do ambiente criativo e de boa disposição no estúdio. Mais do que alternativas, são versões intermédias das pérolas finais.
Patti Smith - Banga *****
Este é o melhor disco de Patti Smith desde Horses, ou simplesmente o melhor disco de Patti Smith? A dúvida é, de certa forma, irrelevante e apenas prova que estamos, isso sim, perante uma obra maior da música pop-rock. É claro que nada substitui a força do disco inaugural (1975), uma pedrada no charco, pai e mãe de todo o punk. Mas a verdade é que 37 anos depois (!?), Patti não apenas emana a mesma energia como a canaliza com maior intensidade intelectual, poética e mesmo física. Sim, porque é de uma artista no auge da carreira que falamos. Nos últimos três anos, recebeu todas as honras e prémios literários pela publicação de Just Kids (Apenas Miúdos, Quetzal), o livro de memórias da coabitação com Robert Mapplethorpe, viu publicada a obra fotográfica, dedicou-se às artes plásticas, editou uma celebrada revisão da obra musical. Enfim, aquilo a que se chama de “consagração”, o momento mágico em que o sistema absorve os malditos e os glorifica em santos. Não é fácil, porém, sobreviver a tanta honraria e muitos soçobraram, ora ao peso do ouro, ora da responsabilidade. Ao invés, Patti Smith parece ter ido aí buscar ainda mais inspiração para aquele que é, de facto, o seu melhor disco. Pelo modo como trabalha a mitologia do Novo Continente (“Amerigo”), a cruza com a Europa renascentista e a mística católica (“Constantine’s Dream”), como celebra amigos presentes e idos (“Nine”, “This Is The Girl”, “Maria”), como se embrenha pela literatura e artes russas (“Tarkovsky”, “Banga”), pela melhor canção pop que já escreveu (“April Fool”). E porque – e isso nem seria o mais importante – nunca sua voz foi tão aveludada e definida como agora. Nota para burgueses: comprem a edição especial, livro mais CD. Vale a pena!
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Norah Jones - Little Broken Hearts ****
Velho estratagema: o artista tenta expiar uma separação emocional através de um disco em que, inevitavelmente, os farrapos desse mesmo passado teimam em deixar marcas por todo o lado. Norah Jones, porém, fá-lo em grande estilo, depois de, em 2009, com The Fall, ter mostrado ao mundo que, apesar do seu ar doce e frágil, não pretendia manter-se por muito mais tempo como a menina bonita do jazz ligeirinho. Passados três anos, a menina continua bonita, mas agora um pouco ácida. Para esse exercício de acidez contribui Brian Burton, também conhecido por Danger Mouse, um rapaz da electrónica que co-assina todos os temas e produz o disco (conheceram-se no projecto dele Rome). É um encontro estranho, entre uma voz melodiosa, clássica, e a vanguarda sintética. Mas funciona, porque Danger Mouse deixa respirar as texturas da voz de Norah respirarem (“Say Goodbye” é um excelente exemplo) e até sabe retirar-se nas alturas certas (“She’s 22”).
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Norah Jones
M. Ward - A Wasteland Campanion *****
Um destes dias, alguém escrevia que M. Ward é assim uma espécie de Leonard Cohen um pouco menos acutilante. As pessoas escrevem com cada coisa… Heresias à parte, M. Ward é um trovador tipicamente americano, muito marcado pelo sol da costa oeste, estirpe bem diversa das penumbras do poeta canadiano. A comparação apenas se entende pela dificuldade de catalogação de Ward e em especial deste disco. E talvez por alguns temas que mergulham em coisas da alma tão caras a Cohen, em especial as canções da segunda parte do disco. A primeira, digamos que os cinco primeiros temas, são todos eles cheios de sol, em alguns casos raiando o pop adolescente, caso da releitura de “Sweetheart”, do peculiaríssimo Daniel Johnston, em dueto com Zooey Deschanel (ah, ainda não tinha alertado: M. Ward é o “him” do duo She & Him, precisamente com Zooey, uma cara linda de Hollywood). E é nesta primeira parte que encontramos “Primitive Girl”, pop de escrita própria, “I Get Ideias”, versão rock’n’roll de um velho tema celebrizado por Louis Armstrong e Peggy Lee. Ou ainda a perturbante e psicadélica “Me And My Shadow”. Na segunda parte, os temas viram-se para dentro, melancólicos, intimistas, por vezes sussurrados (mas, atenção, Cohen é mesmo outra coisa…). Dessa toada em tom menor (“There’s A Key” é um bom exemplo), sobressai “Crawl After You”, na sua simplicidade seguramente uma das canções mais bonitas da colheita de 2012. O conjunto revela um compositor em grande forma, um intérprete que nunca será mais que mediano mas que contorna razoavelmente as limitações, e um produtor irrequieto, que tem muitos mundos na cabeça e muito gozo em mostrá-los.
Rufus Wainwright
Há uns anos que Rufus Wainwright não escrevia canções de recorte clássico. O novo disco, como nos conta Manuel Morgado, criou a oportunidade perfeita para o regresso de um dos mais completos artistas da actualidade.
Desta vez, as velas vão estar no palco. E se o Coliseu
quiser agradar (e surpreender) a Rufus apenas terá que o imitar, dar ao dedo,
alumiar isqueiros e telemóveis. Velas, quem sabe? É pois com velas (“Candles”)
que o espectáculo começa, em memória de Kate McGarrigle, a mãe falecida há dois
anos. Uma memória cara a Rufus e, por isso, a música de Kate propriamente dita
ouvir-se-á mais à frente, num tributo preparatório de uma homenagem maior,
daqui a uma semana, em Toronto. Como mais à frente se ouvirá uma canção de
Loudon Wainwright III, o pai, e outra dedicada à filha (Viva, neta de Leonard
Cohen), e ainda mais uma dedicada à mãe... É assim este Rufus que agora se
apresenta em palco, ainda com mais referências à família, num movimento de
permanente reverência às raízes da sua música.
Esta digressão
mundial (Europa, América, Austrália) destina-se a celebrar o regresso em
disco às canções, puras canções, depois das experiências operáticas e
pianísticas dos últimos anos. Out Of Of
The Game é, pois, a continuação dos dois volumes de Want (2003, 2004), Release
The Stars (2007) e mesmo de Poses
(2001). Um exercício que teve aos comandos Mark Ronson, a vedeta do retro-soul
(Amy Winhouse), o qual injecta nas composições características de Rufus meia
dose de electrónica e outra de nostalgia, desta feita, à anos 70. Há, por isso,
quem insista em ouvir por aqui Bowie, Fleetwood Mac, Elton John e até os Eagles
– a toada ligeira do tema “Out Of The Game” legitima todas essas aproximações –,
sendo que a verdade é que nunca deixa de se ouvir Cole Porter, talvez a
influência mais marcante do fraseado daquele é certamente um dos mais interessantes
compositores deste início de século.
Para o palco, saltará algo de Ronson - “Bitter Tears” e
“Perfect Man” são indissociáveis da batida funk
- mas salta especialmente o bom e velho Rufus, um artista com um apuradíssimo
sentido do espectáculo. Out Of The Game
está, de resto, recheado de temas de grande resultado dramático, a pedirem
encenações grandiosos, não lhe falhem instrumentos e coros. É o caso, por
exemplo, da canção que dá nome ao disco, ou de “Jericho” e “Rashida”, propícias à exuberância de cabaret
de que Rufus é um perito. E depois há os momentos mais intimistas, como
“Montauk”, “Respectable Dive” ou “Sometimes You Need”, em relação aos quais se levanta
a dúvida de saber se a abordagem ao vivo comporta os suaves adornos de Ronson,
ou se, pelo contrário, opta por uma uma derivação mais singela.
Entre homenagens e o disco novo, pouco tempo sobrará para
revisitar a carreira já recheada de sucesso e belíssimas canções. A ácida “Going
to a Town”, ou “Poses” serão algumas das poucas excepções e quem quiser mais
talvez seja de insistir nos encores...
Uma coisa é certa – pelo que se conhece do artista (e esta é
a quarta vez que actua em Lisboa), a noite está garantida. Poucos reunem hoje
em dia tão distintas qualidades de composição, interpretação vocal e
dramatização em palco.
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Stacey Kent
“Já lá vem o meu comboio...”. Talvez o sentido de humor de Stacey Kent a leve a começar assim o concerto do CCB. Assim, num português tropical, inseguro e, talvez por isso mesmo, sensual. Só para surpreender os incautos... A canção, com letra do poeta português António Ladeira, integra o último disco da cantora, Deamer In Concert, gravado em 2010, no parisiense La Cigale, e que será a base para esta terceira apresentação numa sala de Lisboa de que já conhece os cantos. “O comboio”, assim se chama a canção, é bem o retrato da mais recente paixão desta norte-americana, a língua portuguesa, obviamente com sotaque. A bem da verdade, só a língua é mesmo paixão recente, já que a música de Stacey sempre teve aquele toque tropical, ligeiro, que tanto arrelia os puristas do jazz. De qualquer forma, embora articule correctamente o fraseado do género, afro-americano, Stacey Kent está muito longe de ser uma cantora de jazz pura, ou lá perto. E isso reflecte-se no repertório, que inclui os habituais standards americanos, mas também muitas coisas brasileiras (Jobim, especialmente) e outras franceses (e até célebres temas brasileiros cantados em francês, como o “Samba Saravah”, de Vinicius) a par dos originais de Jim Tomlinson, marido, saxofoniste chefe de (pequena) orquestra. Garantidamente, uma noite elegante, suave, sem emoções muito fortes.
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Stacey Kent
Sinéad O’Connor - How About I Be Me? ****
Religião, sexo, tentativas de suicídio, casamentos feitos, desfeitos e refeitos. A vida de Sinéad O’Connor tem enchido as páginas dos tablóides ingleses. E tem agora uma edição em disco, da qual só se pode dizer bem. Mais que autobiográfico, este CD é devedor da personalidade perturbada de Sinéad, reflectindo, por exemplo, as suas preocupações com os abusos sexuais a crianças na igreja católica irlandesa (“Take Off Your Shoes” e “V.I.P.” – um longo sussurro, que deixa as orelhas a arder a Bono...). Mas há também a mãe que se redescobre (“I Had a Baby”) e as alegrias breves do amor (a solar “4th and Vine”). E momentos de enorme beleza poética (“Reason With Me”) e uma versão avassaladora de John Grant (“Queen of Denmark”). Uma colecção que oscila entre coisas muito íntimas, dúvidas da alma, e canções de intervenção política. Espantoso é o equilíbrio disto tudo, o que transforma este disco no melhor de Sinéad em muitos anos.
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Florence + The Machine - MTV Unplugged **
Esta mulher cansa. A sério, este começa a ser um comentário relativamente frequente entre os não fiéis. Isso notou-se nas apreciações ao segundo disco (Cerimonials), após a surpresa de Lungs (2009), e confirma-se neste Unplugged. O grande dom de Florence Welch é aquela voz potente, que projecta com inusitada estridência. O problema é que o esquema repete-se canção atrás de canção –desunha-se a gritar e tudo à sua volta são bombos e outros intrumentos pouco meigos. Coisa para se ouvir num estádio, e dos grandes, pelo que a ideia de testar o formato acústico comportava sérios riscos. E não é que não funciona... Não surpreende e essa é a ideia desta série – despir as canções, mostrá-las por dentro. Se a orquestração serena um pouco, à custa de harpas e pianos, a voz, essa continua a vibrar por todo lado. As versões, de Otis Redding e Johnny Cash, são submetidas ao mesmo tratamento e o resultado é decepcionante.
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Florence + The Machine
The Magnetic Fields - Love At The Bottom Of The Sea ***
69+15=84? Bom, na verdade, não é bem assim, porque falta fazer ali uma ligeira operação de substração. Descodificando: Love At The Bottom Of The Sea é, não apenas o melhor disco dos Magnetic Fields desde 69 Love Songs (1999), mas é quase a sua continuação. Voltamos à omnipresença dos computadores – ausentes das três últimas gravações, centradas nas guitarras – e às canções curtíssimas (a maior tem 2’39’’). O tema é, adivinharam, o amor, sempre o amor, agarrado daquela forma que só Stephin Merritt parece conseguir – as coisas nem sempre correm bem, mas é preciso encarar isso com uma dose razoável de humor (“God Wants Us To Wait”). “Andrew In Drag” e “I Go Anywhere With Hugh”, por exemplo, poderiam estar no disco de 69, perdão, 99. É claro que, na comparação, este disco perde, precisamente porque não consegue crescer a partir da continuidade. Mas, enfim, a ideia de voltarmos aos lugares onde já fomos felizes é desafiante quanto baste.
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Rufus Wainwright - Out Of The Game ***
Um mau disco. Obviamente, isso é algo de que Rufus Wainwright seria incapaz, ou que lhe exigiria um certo esforço. E, no entanto, no entanto... este é um disco que se ouve com algum desencanto. Após alguns anos de aventuras mais ou menos operáticas, homenagens a divas e exercícios similares, Rufus ensaia um regresso ao pop, às grandes canções pop, que, não sendo totalmente decepcionante, deixa um certo amargo de boca, no caso, de ouvido. Talvez que o erro central tenha sido a escolha do produtor – Mark Ronson, o britânico que, entre outras façanhas, é o quase co-autor de Back To Black, de Amy Winehouse, tanta força tem a sua marca digital. Mas aqui, com Rufus, a presença de Ronson, contratado para recriar o ambiente dos anos 70, é excessiva (como sempre, aliás) e as canções de um dos melhores escritores deste início de milénio ressentem-se. Talvez que elas, as canções, pelo menos a maioria, estejam uns furos abaixo do melhor que Rufus consegue, mas a hiper-produção, dos coros à electrónica, tudo algo gongórico, encarrega-se do resto. Sente-se, igualmente, que Rufus parece estar demasiado preocupado em homenagear toda a gente, seja o companheiro, seja a filha, a mãe (Kate McGarrigle, recentemente falecida, a quem é dedicada uma das melhores baladas, “Candles”), seja até mesmo a manager... Talvez que de uma próxima vez, mais liberto do ponto de vista criativo, volte a mostrar-nos daquelas grandes e belas canções que dele esperamos. Por enquanto, ficamo-nos com a canção que dá título ao disco, Rufus vintage, “Jericho” e mais uma outra, motivos mais que suficientes para celebrar o “regresso”.
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Joan As Police Woman
A polícia volta sempre ao local do crime. Joan esteve no Lux em Outubro de 2009, acompanhada do multifacetado Timo Ellis e de um gravador de cassetes, para interpretar basicamente temas de um EP de circulação limitada, Cover, disco de versões, pois claro. E uma das curiosidades deste regresso ao local do crime é saber se agora, completamente a solo (o gravador não avisou se vinha), teremos direito a alguma revisitação de Bowie, Public Enemy, Hendrix ou... Britney Spears. Interessante, na medida em que seria uma espécie de re-revisitação, em registo piano e voz, tal como anunciado. Certo, certo é que esta apresentação a solo basear-se-á essencialmente no último disco, The Deep Field (2011), por sinal aquele em que houve maior preocupação de vestir as canções. É um disco bem mais luminoso que os dois iniciais de Joan As A Police Woman (Real Life, de 2006, e To Survive, de 2008), ambos marcados por sombras de tragédias familiares. Para a luz da obra mais recente muito contribui o trabalho colectivo dos músicos, acompanhando uma radical assunção da veia soul de Joan Wasser (ouça-se, por exemplo, “Chemmie”.) Se é fácil imaginar a encenação a solo de uma balada clássica como “Forever And A Year”, já a passagem a piano e voz do funk de “Run For Love” pode ser uma manobra surpreendente. O mais certo é que, mesmo só com piano, os corpos se deixem electrizar pela descaradamente pop “The Magic”, afinal o lado mais comercial de Joan.
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Joan As Police Woman
Elvis Costello & The Imposters - The Return Of The Spectacular Spinning Songbook!!! ****
Este disco é obra do puro acaso. Literalmente. O seu conteúdo e alinhamento resultam do modo como uma roda da sorte rodou nas noites de 11 e 12 de Maio de 2011, no teatro Wiltern, em Los Angeles. Elvis Costello, aliás Napoleon Dynamite, como prefere ser chamado durante o espectáculo, apresenta-se em palco com os Imposters, uma bailarina, uma hospedeira e uma roda da sorte gigante, que, accionada por membros da assistência, determina as canções que a banda executa. O resultado é um best of completamente aleatório, que deixa de fora canções como “Oliver’s Army”, ou “Accidents Will Happen”, duas das mais emblemáticas do início da carreira de Declan MacManus, ou Elvis Costello, como também gosta de ser conhecido. E tais ausências só são relevantes porque esta actuação remete precisamente para o espírito pós-punk dos primeiros discos. Aliás, os Imposters (teclas, baixo e guitarra) mais não são que os iniciais Attractions com outro baixista. E o tom é também o desses dias explosivos - música sem grandes artifícios, directa, puro divertimento. A versão bem esgalhada de “I Hope You’re Happy Now”, que abre o disco, é disso o exemplo perfeito. Ou a leitura levemente psicadélica de “Watching The Detectives”. Os caprichos da roda da sorte determinam que tais momentos de pura alegria sejam intercalados por outros mais intimistas (“I Want You”), ou até por versões, por exemplo, dos Stones (“Out Of Time”). A edição que agora aqui chega (há outra, luxuosa, recheada de souvenirs, a 250 dólares a unidade...) tem um registo em CD e outro em DVD, com alinhamentos e canções diferentes. O DVD acaba por ser mais interessante, na medida em que nos permite entrar no verdadeiro espírito de festa e encantamento da roda da sorte. Tudo somado, três horas em grande estilo.
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Luísa Sobral
O cartaz promete surpresas para os concertos do CCB e da Casa da Música. Não esperávamos outra coisa, mas não lhe pedíamos tanto. Luísa Sobral foi uma das surpresas mais refrescantes de 2011 e, passado um ano sobre o lançamento do primeiro disco, o bolo e a cereja ainda estão no prazo de validade. Estes concertos de consagração poderiam, por isso, ser o mero corolário de um ciclo, o ciclo inaugural. E já seria bom. Mas prometem-se surpresas e não se perde nada em apostar que, sobre convidados e orquestrações, surja a cereja de alguns inéditos. A escolha dos palcos para esta consagração não será obra do acaso, como nada é na obra de Luísa Sobral. São palcos contemporâneos, até elitistas, mas também palcos onde tudo já se cruzou, o rock e o fado, Mozart e os blues. Não será tão ecléctica a música de Luísa, mas estão lá os traços do jazz de que quis gostar, do pop que ouviu desde cedo, do classicismo que terá absorvido nos estudos americanos. O que se promete para Lisboa e Porto é uma versão talvez ainda mais refinada, elegante, daquilo a que várias cidades portuguesas assistiram nos últimos meses. E que há semanas a revista francesa Les Inrockuptibles classificou como algo a que vale a pena estar atento nos anos que aí vêm. Atentemos, pois.
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Luísa Sobral
Seasick Steve - Walkin' Man ****
Este disco faz sentido (sim, nem todos os Best Of fazem sentido). Este disco permite uma leitura da obra de Seasick Steve sem os aspectos folclóricos que podemos ver no Youtube – guitarras feitas de lata, com duas ou quatro cordas, caixas de ritmo artesanais, que funcionam ao pontapé. Talvez tudo tenha começado por aí, pela piada da coisa: “Olha o velho maluco que está na BBC!”. Mas era evidente, logo ao primeiro disco, há sete anos, tinha Steve 65, que o blues que por ali corre é autêntico. São histórias, com ou sem grande moral, embrulhadas numa sonoridade agreste, suja, do tal delta do Mississipi. Há coisas mais suaves, acústicas até (“Treasures”), mas a matriz é, de facto, elétrica. À média de um disco por ano, imaginem a avalanche de blues serôdio. Que sabe bem revisitar e reavaliar, com duplo sentido.
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Seasick Steve
Tindersticks - The Something Rain ****
De certa forma, este é um exercício de virtuosismo. Um disco que começa com uma tema declamado de nove minutos, que encerra com um instrumental e que, pelo meio, tem noturnos lânguidos a sério, música quase de feira, R&B e coros roubados a Leonard Cohen. Uma salgalhada? Nada disso, e aí reside o segredo e outra face do virtuosismo deste exercício – estamos perante a pura elegância de sempre dos Tindersticks e fica claro que a amplitude conceptual do disco radica numa liberdade estética que só a maturidade confere. “Come Inside” espraia-se sem fim à vista, enquanto “Slippin’ Shoes” ataca a noite por outro ângulo, o dos cabarets, e “This Fire Of Autumn” ou “Medicine” quase mereciam os tops.
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Tindersticks
Tindersticks
Sim, preparem-se para uma declamação de dez minutos, acompanhada por teclas e guitarras, essencialmente. É o tema de abertura do novo disco dos Tindersticks e, apesar de os mais antigos acharem que soa a “Atlantis”, do Donovan, a história contada por David Boutler lembra mais a comédia de equívocos sexuais de “Lola”, dos Kinks. Uma história bem humorada, coisa rara na banda de Nottingham. O resto, já sabem, fica entregue a Stuart Staples e à sua característica voz de barítono com um ligeiro (às vezes, mais que ligeiro...) trémulo. Esta nova passagem dos Tindersticks pelo burgo destina-se, essencialmente, a apresentar “The Something Rain”, uma edição já deste ano, em que a banda se espraia por latitudes musicais muito diversas. Claro que a toada dominante é a nocturna, com temas de uma marcada placidez (“A Night So Still”), mas os corpos talvez não resistam ao apelo R&B de “This Fire Of Autumn” e muito menos à batida mais evidente de “Frozen”. Muito provavelmente, faltarão em Lisboa os deliciosos coros femininos à la Cohen que pontuam o disco, ou mesmo alguns deliciosos apontamentos de cordas e metais. Fica, pois, uma banda de teclas e guitarras, afinal de contas a marca desta segunda encarnação da banda.
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Birdy - Birdy ***
E vocês ainda não ouviram nada. Este disco bem poderia ter um autocolante com esta frase. Porque tudo aqui soa a uma espécie de aperitivo a algo que se adivinha, ou que se promete, muito maior. Vejamos: a menina Jasmine Van den Bogaerde vai fazer 16 anos em Maio e decidiu debutar com uma colecção de versões de uns temas densos de bandas indie (The National, XX, Fleet Foxes...). A história começou, aliás, há um ano, com o enorme nos tops de Londres da versão de “Skinny Love” (Bon Iver). Grande trabalho de piano, algumas cordas e uma voz de grande projecção. Só que, rezam as crónicas, a moça escreve canções desde os 12 e neste CD até mostra uma mais que razoável (“Without a Word”). Como quem diz: isto é o que eu sou capaz de fazer com as canções dos outros, agora imaginem quando vos mostrar as minhas... Pena que, com um nome tão elegante, a menina Jasmine Van den Bogaerde tenha escolhido adoptar o tão banal Birdy.
Rita Redshoes
Diz-me o que ouves, dir-te-ei quem és. Se cantares, oh oh, então dir-te-ei, não apenas quem és, mas quem gostarias de ser. Rita Redshoes gostaria de ser Tori Amos, mas isso já sabíamos dos discos. E gostaria de ser ainda PJ Harvey, Amélia Muge, Loretta Lynn, Lhasa de Sela, Joan Jett, Nina Simone, Dolly Parton, Joni Mitchell, Patti Smith, Sheryl Crow... Uff, tantas. E, claro, Rita gostaria de ser David Fonseca, mas isso também já sabíamos dos discos (e o nome estragava a série...). Gostar de ser tanta gente não tem mal nenhum, antes pelo contrário. “Gostar de ser” pode ser “apropriar-se de” e é isso que Rita Redshoes vai fazer numa série de espectáculos que vão correr o País e que começam em Lisboa, a 8 de Março, Dia Internacional da Mulher. Não por caso. O universo de Rita é assumidamente feminino e nestes concertos ela pretende homenagear aquelas mulheres que, de alguma forma, a influenciaram e fizeram despertar para a música. Pelo palco e pela voz de Rita vão passar canções como “Bad Reputation”, “Save Me”, “Ring Of Fire”, ou “Man Size”, em versões que, esperamos, juntem pelo menos um pouco de Rita a cada uma delas. Até porque há a promessa de uma “releitura dinâmica e surpreendente”. Isso, surpreende-nos Rita, que nós gostamos.
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Charlotte Gainsbourg - Stage Whisper **
Charlotte Gainsbourg tem uma voz banal e é uma intérprete meramente sofrível. Os seus dois discos a solo (5:55 e IRM) foram, apesar disso, bem recebidos. Charlotte sabe escolher as companhias (Jarvis Cocker, Air e Beck assinam a quase totalidade dos temas desses discos) e assume uma atitude blasée, uma sensualidade distante, que o mundo gosta de associar a França e às francesas em particular. O gesto de editar um disco em que metade das canções são sobras (de IRM) e a outra metade uma actuação ao vivo parece não ter sido boa ideia, principalmente porque ficam excessivamente expostas todas as fragilidades. Um exemplo: a versão de Just Like a Woman, de Dylan, é tão insípida que não apetece repetir a audição. O trabalho de estúdio tem algumas canções razoáveis de Beck embrulhadas em electrónica dançável e, percebe-se agora melhor, muito trabalho à volta da voz de Charlotte. Decepcionante.
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The Unthanks - The Songs Of Robert Wyatt and Antony & The Johnsons ****
Os discos de versões tendem a expandir o universo original, através da oferta de novos mundos às canções. Sendo um disco de versões, este faz o trabalho inverso. Digamos que se trata de uma gravação para fãs, como se os admiradores de Antony Hegarty (Antony & The Johnsons) e Robert Wyatt se tivessem reunido num teatro de Londres para venerar os seus ídolos e tivessem encarregado os Unthanks de os guiar. Não há aqui um trabalho de verdadeira apropriação ou transfiguração dos originais, mas antes de veneração. Quer isto dizer que se trata de versões menores? De todo. Ouça-se, por exemplo, “Bird Gerhl”, “Sea Song” ou a espantosa “Free Will and Testament” para se perceber o carinho colocado em cada interpretação. São canções de grande beleza e intensidade e essas características são preservadas e até intensificadas, em orquestrações baseadas no piano e enriquecidas com cordas e alguns toques vibrantes de metais. Ah, e as manas cantam tão bem!
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Tiago Bettencourt - Tiago na Toca dos Poetas ***
A música é a grande libertadora da poesia e, por isso, nada melhor que uma grande canção para retirar dos livros e gavetas um grande poema. Quem diria que, em 1971, em plena censura, se cantarolava nas ruas de Lisboa um poema de sexualidade quase explícita, a que não faltam referências homossexuais? Sim, “Cavalo À Solta”, de Ary dos Santos, que Fernando Tordo levou ao Festival da Canção e que agora reinterpreta neste disco com Tiago Bettencourt. E esta versão de “Cavalo À Solta” dá o tom ao disco – gravação caseira, intencionalmente artesanal. Mas, acima de tudo, o registo: a canção do Festival, um grito libertador, é aqui submetida a um trabalho de inversão, obrigada a serenar, num quase anti-clímax. Neste projeto, mais do que libertar poemas, através de canções que os tragam para a rua, Tiago Bettencourt prefere oferecer-lhes música que lhes faça companhia na intimidade. Exemplo disso são os dois poemas de Sofia, em que a melodia cede lugar ao acompanhamento instrumental para pouco mais que declamações. Ou o poema de Ramos Rosa, simplesmente sussurrado por Dalila Carmo. Já “Poema de Desamor” (de O’Neill), ou o de Pessoa são objecto de uma intervenção mais explicitamente musical. Não é, então, um disco para trazer a poesia à rua, antes para momentos de intimidade. Os temas foram gravados em casa e outros locais inusitados, em 2008, e estão agora a ser apresentados numa pequena digressão. O disco vem dentro de um livro com os poemas e notas do autor. Um belo objecto.
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Tiago Bettencourt
The Maccabees - Given To The Wild *
Há um vírus na música inglesa. Chama-se Coldplay e ataca bandas pouco inspiradas, compelidas pela indústria a explorar cada galinha dos ovos de ouro que sobe aos top. O raciocínio até está correcto – se os maçadores Coldplay conseguem, não conseguirá qualquer um? Os tops, a História está aí para o provar, são de uma generosidade sem fim. The Maccabees são, pois, os novos Coldplay, como já o são, por exemplo, os Snow Patrol. Given To The Wild é um disco penoso de ouvir, tal é a banalidade e a repetição dos recursos utilizados, que vão das fases mais desinspiradas do prog-rock (Genesis, etc) aos supergrupos de estádio das últimas duas décadas. É tudo épico: as baterias-metralhadora, as camadas de sintetizadores, as descargas das guitarras, as vozes em falsetos irritantes. Uma ou outra canção parecem tentar fugir do naufrágio (“Ayla” ou “Pelican”, por exemplo), mas o esforço resulta inglório.
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The Maccabees
Adele - Live At The Royal Albert Hall ****
Bem vindos, então, ao Royal Albert “Fuckin” Hall. É assim que Adele cumprimenta os milhares que, apenas em meia hora, esgotaram a mítica sala de Londres, obviamente o palco mais desejado por esta filha da cidade que, aos 23, tem o mundo a seus pés. Ao longo de hora e meia de concerto, raramente Adele perde a oportunidade de verbalizar as mais variadas declinações da palavra “fuck”. A coisa não passou despercebida a alguma imprensa americana – logo no ano em que a inglesa bateu recordes históricos de vendas no outro lado do Atlântico – e a editora acabou por colocar na caixa do DVD o famoso autocolante a alertar para a linguagem explícita, uma aberração, se tivermos em conta, as densas mas bem comportadas letras das canções de Adele. Mas esta é apenas uma das grandes contradições de uma artista que cultiva um “look” mais familiar aos fãs de Susan Boyle que aos milhões que compraram os seus dois primeiros discos, 19 (2008) e 21 (2011). Neste concerto, por exemplo, a exuberância, alegria e até estridência do seu relacionamento com o público – que ocupa quase tanto tempo como as canções, tal é a conversa... – contrasta flagrantemente com um repertório assumidamente autobiográfico todo ele construído à volta de separações dolorosas. Interlúdios à parte, estamos perante um fabuloso concerto, a que o som e a imagem de altíssima qualidade transformam numa experiência excepcionalmente gratificante. Sem nunca ultrapassar o protagonismo da artista, a orquestra faz o que a tem a fazer de forma competentíssima. E Adele não lhes fica atrás. Ouça-se, por exemplo, a interpretação de “Make You Feel My Love”, de Dylan e dedicada a Amy Winehouse, ou o empenho emprestado a “Take It All”, para se perceber como Adele está uns furos acima da classe de raparigas canoras que ultimamente tem atacado os tops. A edição em DVD é completada com CD, que reproduz o mesmo alinhamento, mas sem as longas e “fucking” interacções com o público. Há ainda um documentário de bastidores (9 min.), mais ou menos irrelevante. Como quem diz, com um espectáculo daqueles ainda estavam à espera de extras?
Áurea - Ao Vivo no Coliseu dos Recreios ***
Ponto prévio: o DVD e o CD, quase gémeos, não são maus de todo. Em absoluto. Mas na vida tudo é relativo. E este segundo disco de Áurea é relativamente pior que o primeiro disco de Áurea, sendo que o segundo disco é igual ao primeiro. Expliquemo-nos. O primeiro disco de Áurea, lançado em finais de 2010, chamava-se Áurea e foi um sucesso estrondoso. Uma boa voz, boas canções originais, tudo made in Portugal. O segundo disco de Áurea também se chama Áurea e tem mais ou menos as mesmas canções. Só que foi gravado um ano depois e ao vivo. Provavelmente, a cantora, os autores, a editora não resistiram ao exercício auto-celebratório – a vida corria-lhes bem, muito bem, e quiseram partilhar isso mesmo com o respeitável público e, já agora, esticar o sucesso económico da façanha inicial. Entendidos. O resultado é, porém, sofrível. O cerne do problema parece estar na orquestra e no conceito que ela enquadra. Do registo contido da excelente produção do primeiro disco passa-se para uma sonoridade mais própria de um Festival da Canção, os daqueles talk shows da RTP. O jet set que se acomodou na plateia do Coliseu aplaudiu muito e, seguramente, a aposta está ganha do ponto de vista comercial. Provavelmente, é o preço a pagar para fazer música daquela e ter sucesso em Portugal. Mas soa mal. Acresce que a captação de som não é brilhante e, por vezes, o que nos chega é uma massa sonora e não os naipes de instrumentos propriamente ditos. A cantora, por seu lado, revela uma menor plasticidade vocal do que se adivinhava no disco original. Nada de grave, porém. O que interessa saber é se Áurea e o autores/compositores vão conseguir fazer um verdadeiro segundo disco capaz de ombrear com o primeiro. Em caso afirmativo, este CD/DVD relegar-se-á ao seu papel no baú de memórias dos intervenientes. Apenas.
Calexico - Selections From Road Atlas ****
Durante mais de uma década, os Calexico construíram uma vida dupla. À vista de toda a gente, mas que só agora ganha consistência enquanto conjunto. Em cada digressão, gravavam um disco, vendido apenas nos concertos, com temas originais, à margem da discografia original. Agora, esses CD foram editados numa caixa com oito discos de vinil. Este CD é uma selecção dessa discografia paralela do grupo que explora e actualiza as sonoridades do sul dos Estados Unidos e da fronteira com o México. E o surpreendente nesta colecção é a qualidade artística e sonora das canções. Exímia. Nada aqui é amador, como se poderia supor. E cá temos coisas a fazer lembrar Ry Cooder (“Waitomo” e “El Morro”), uma balada de beleza cativante (“All The Pretty Horses” e ”Griptape” ), ou a quase psicadélica “Man Made Lake”. A fazer a ponte para os discos oficiais, surge aquela que é apelidada de versão original de “Crystal Frontier”, uma cóboiada spaghetti.
Stacey Kent - Dreamer In Concert ****
Stacey Kent é uma nova iorquina, de voz charmosa e delicada, que – imaginem! – se apaixonou pelo jazz numa viagem a Paris e pelo marido, produtor, saxofonista e compositor Jim Tomlinson numa visita a Oxford. Estamos, portanto, no território da elegância. A que só falta acrescentar a mais recente paixão de Stacey – a língua portuguesa, à qual chegou através das canções brasileiras. Neste disco ao vivo, gravado em Paris, cruzam-se, num registo jazz bossa nova, três línguas (inglês, francês e português tropical), numa demonstração do potencial universalizante da música. Há Gainsbourg (“Ces Petits Riens”) e Benjamin Biolay (“Jardin d’Hiver”), há clássicos (“The Best Is Yet To Come”), e há muitas canções de raiz brasileira cantadas, ora em versões inglesas (“Corcovado” e “Waters of March”), ora em francês (o célebre “Samba Saravah”), ora em português (“O Comboio”, um poema do poeta português António Ladeira, musicado em registo bossa nova por Tomlinson).
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Laura Veirs - Tumble Bee ****
Se o melhor do mundo são as crianças, o que dizer das canções para crianças? Obviamente, que são as melhores canções do mundo. E quando as melhores canções do mundo encontram alguém que as trata com o carinho merecido, o resultado só pode ser um disco a que apetece dar colo. A voz de Laura Veirs, isso já sabíamos, é cristalina, linda de morrer. E as orquestrações de Tucker Martine conjugam de forma rara a simplicidade com a riqueza. Juntos, à boleia do nascimento de um filho, decidiram dar nova vida a uma dúzia de canções de roda e de embalar, mas também a cantos tradicionais de trabalho (“Jump Down Spin Around”) e até da guerra (“Soldiers’ Joy”), para gravarem um disco que, como os filmes da Pixar, agrada aos miúdos, mas diverte mesmo é os pais. O divertimento, aqui, vem das fabulosas interpretações, mas também das próprias canções. Como “Why or Why”, de Guthrie. Afinal de contas, “porque não pode o pássaro comer o elefante?”.
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Snow Patrol - Fallen Empires **
Bem-vindos, então, à banda que gostava de ser U2 e Coldplay numa só. Isto é capaz de ser de uma enorme injustiça, mas ouçam “The Symphony” e digam lá se conseguem ouvir outra coisa que não as duas bandas. E a verdade é que, após seis discos, mais de uma década de estrada e um ou dois grandes sucessos, estes irlandeses, escoceses por adopção, não conseguem livrar-se dos fantasmas. Provavelmente, nem estão interessados. O resultado, como nos discos anteriores, é relativamente mediano, e a única novidade é a junção de umas camadas de electrónica às guitarras do costume. A especialidade da banda são as baladas de pendor épico com piano ao fundo. Como, por exemplo, “This Isn’t Everything You Are” ou “New York”, claramente pensadas para as coreografias dramáticas das actuações ao vivo. O mesmo destino, afinal, dos temas mais comerciais, como o típico “Called Out In The Dark”, um dos tais em que a electrónica dá um arzinho da sua graça.
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Amy Winehouse - Lioness: Hidden Treasures ***
E são estes os restos mortais de Amy Winehouse. Restos é a palavra certa – a avaliar pela amostra, a cantora britânica não deixou propriamente um espólio à mercê dos arqueólogos da indústria musical. Basta dizer que, para conseguirem juntar 12 canções, tiveram que percorrer quase uma década, desde as gravações contemporâneas de Frank (2003), como “The Girl From Ipanema”, aqui numa versão vocalmente menor, até temas que estavam a ser trabalhados para o sempre adiado terceiro álbum, como “Between The Cheats”, uma boa tentativa de reeditar a sonoridade doo-woop que se adivinhava nas canções de maior sucesso, ou mesmo a incipiente “Like Smoke”. Há aqui de tudo, portanto. Versões que pouco ou nada adiantam, como “Valerie” (outra vez?), orquestrações densas e espalhafatosas imaginadas para esconder o mero balbuciar de uma versão (bolas, não se arranjou um original?), como em “A Song For You” (de Leon Russel), ou – imagine-se! – uns arranjos de 2011, construídos para embrulhar a voz de uma outra versão que Amy tinha gravado em 2004 do clássico “Will You Still Love Me Tomorrow”. Ou seja, estamos no terreno do vale-tudo. E até a versão artificial de “Body And Soul”, com Tony Bennett, acaba por parecer ajuizada, face a tanto desespero e algum disparate. E, no entanto, apesar disso, este não é um mau disco. A voz de Amy, quando lá está em pleno, é poderosa e tem a indiscutível magia de se apropriar das canções, como só acontece com os grandes cantores. O que falta aqui – e há nessa constatação toda a mágoa pela injustiça da vida – é a concretização da promessa de uma enorme autora que Back To Black tão claramente apontava. Infelizmente, até o sótão está vazio – Amy foi um cometa sem rasto.
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Fionn Regan - 100 Acres of Sycamore ***
Os primeiros cinco minutos deste disco são fatais. O piano, os pizzicatos dos violinos, as camadas de cordas, a intensidade contemplativa de “100 Acres of Sycamore” colocam a fasquia tão alta que muito dificilmente as restantes 11 canções estariam à altura. E até, por exemplo, a bela “The Horses Are Asleep” parece relativamente banal. Bom, banal talvez não seja o termo. Digamos que este disco se torna um tanto repetitivo, quiçá maçador. O piano, as cordas, a voz, o tom, entre o melancólico e o grandioso, a fazer lembrar Rufus Wainwright, tudo muito certinho, muito bonito, mas... igual. E não deixa de ser curioso que tudo isto surja ao terceiro disco. O primeiro (The End Of History, 2006) era quase completamente acústico. O segundo, mais eléctrico. A este, deu-lhe para as cordas. É verdade que acaba por ser o registo certo para alguém que demonstra umas raízes folk tão evidentes. Merece uma quarta oportunidade.
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