Calexico - Algiers ****


Algiers, esclareça-se, é um subúrbio de New Orleans e os Calexico mantêm-se, portanto, no seu território habitual: o Sul dos Estados Unidos, com os ouvidos e talvez a alma ainda mais a sul, México especialmente. O sétimo disco desta banda do Arizona é o mais terreno de todos, com os pés na terra. O som continua a perseguir caminhos de fusão, mas o experimentalismo e a criação de ambientes têm vindo a dar lugar às canções. Só canções. “Epic”, por exemplo, abre o disco com a mais perfeita marca de água dos Calexico – um poema de amor arrebatado, melodia melodramática, encenação instrumental sempre surpreendente. O resto é enamoramento das guitarras do norte com os trompetes mariachis do sul, em “Vanishing Mind” ou “Puerto”, por exemplo. Ou as camadas subterrâneas de latinidade em “Sinner In The Sea”, que vêm à superfície no belo e doloroso “No Te Vayas”.

Poor Moon - Poor Moon ***


Impossível fugir à evidência – ouve-se Fleet Foxes a cada esquina deste disco. Não apenas pelo facto de Christian Wargo (que assina todos os temas) e Casey Wescott serem membros activos da banda de Seattle, mas especialmente porque, tendo embarcado num projecto autónomo, não fazem o mínimo esforço de distanciamento da banda mãe. O mesmo som etéreo, as mesmíssimas harmonias vocais, o mesmo bucolismo. A grande diferença reside na intensidade - à densidade gongórica dos Fleet Foxes respondem os Poor Moon com tecidos sonoros de grande subtileza. Cada canção é tratada como uma pequena jóia, em que instrumentos e vozes respiram com grande liberdade. “Bird”, uma quase cantilena infantil, “Phantom Light”, que parece ter nascido num salão do Renascimento, ou “Holiday” (já ouviram falar dos Belle and Sebastian?) são apenas algumas das canções que, comparações à parte, valem bem uma audição.

Alanis Morissette - Havoc and Bright Lights *

Alanis, Alanis, isto era tão, mas tão, desnecessário. Quatro anos sem disco novo – ou estavas a preparar alguma coisa em grande, ou estavas simplesmente com falta de imaginação. Infelizmente, nada havia de grande para mostrar. Grande, ou sequer pequeno. Não, apenas a repetição estafada dos mesmos esquemas melódicos, a mesma lenga-lenga autobiográfica, um tanto masoquista. Inventaste o duche escocês musical e não consegues sair disso – chegas de mansinho, em jeito de balada para encantar incautos, e depois desatas ao berros sobre um lençol de estridência neurótica, e depois ficas de novo mansinha, e depois... Isto cansa, Alanis. Oito discos nisto! E há momentos particularmente penosos, seja no registo balada (“‘Till You”), seja em coisas mais animadas, mas insuportavelmente empasteladas (“Spiral”). Tão entediante... E o bónus de um CD ao vivo em nada ajuda. Interpretação bera, som ainda pior. O que é isto, Alanis?

Band of Horses - Mirage Rock ****

Trabalho de sonho, este. Pegar numa banda, analisar-lhe as influências, depurar-lhe o som, reconfigurar tudo, de tal forma que o resultado seja a fórmula exacta de uma novidade que conhecemos há décadas. É o que faz Glyn Johns, o homem que produziu discos dos Beatles, Stones, Eagles, Ryan Adams... O trabalho, diga-se, era relativamente simples, já que os Band of Horses são uma banda bem ancorada na música americana. Glyn Johns retirou-lhe alguma da crueza dos discos anteriores (ainda assim audível em “Feud”, por exemplo) e reconduziu as canções às suas influências: “Dumpster World” (CSN, e depois Neil Young), “Sweet Cruel Hands of Time” (Eagles e America), “A Little Biblical” (Beach Boys)... O resultado é, obviamente, um som mais domesticado, mais comercial, apesar disso bem interessante, na medida em que se trata de um exercício claramente genuíno, nada forçado. Quarenta minutos de América, sem complexos.

Minta & The Brook Trout - Olympia ****

Vitorino, o alentejano, passou há dias na televisão a dizer que “quando um português canta em inglês fica tristemente ridículo”. Vitorino, obviamente, nunca ouviu Francisca Cortesão, a voz que se esconde atrás do estranho Minta & The Brook Trout. Há razões culturais, mais que comerciais, ao contrário do que Vitorino pensa (!?) para que parte substancial de uma geração opte pelo inglês. Porque as canções que escrevem e cantam nada têm a ver com o local de génese, mas bebem antes directamente noutras tradições, no lado de lá do Atlântico. As canções dos Minta são devedoras do folk e da country e de toda música que daí deriva. E cuidam bem da herança. No activo desde 2008, este quarteto lança agora o segundo disco, muito mais seguro de si, com uma produção mais profissional, mas que deixa intacta a sonoridade caseira. A melancolia domina, mas a ironia surpreende e espreita amiúde. “Falcon”, “From The Ground” (belo dueto), “Future Me” são excelentes canções. Beautiful songs, Vitorino.

David Fonseca - Seasons: Falling ***

A música pop nunca se deu muito bem com projectos conceptuais. A pop, rock se quiserem, vive de uma certa superficialidade, liberdade, fragmentação, que casa mal com as amarras de uma ideia estruturada. É claro que há excepções, que são isso mesmo – excepções. David Fonseca dedicou o ano de 2012 a uma ideia – dois discos, lançados na Primavera e no Outono, em que supostamente nos dá a ouvir o retrato dos seus dias durante um ano. O primeiro, Seasons: Rising, saiu em Março e era suposto conter o lado mais luminoso dos dias de David; este Seasons: Falling seria, então, o reverso, a melancolia, os dias curtos e cinzentos. Primeira constatação: o autor teve uma certa dificuldade em manter a coerência do projecto, não sendo evidentes as diferenças de tom entre os dois discos. De certa forma, tendo em conta a tal aversão da pop à organização em gavetas, é relativamente indiferente que a separação de águas não seja mais evidente. Aliás, só a elevada carga de marketing que acompanha cada lançamento de David Fonseca – atenção, isto é um elogio – nos leva ouvir ventos gélidos neste disco, em contraposição ao supostos raios de sol da primeira parte do projecto. Porque, se é verdade que o primeiro single All That I Wanted é uma balada serena e outonal, já o tema que o antecede (Monday, Tuesday, Wednesday, Thursday) transpira jovialidade por todos os poros, alegria apenas ensombrada pelo erro de casting do duo com a brasileira Mallu Magalhães (não se entenda o que canta, o tom não cola com o de David e da própria canção). Dito isto, assinale-se que o disco tem algumas boas canções e que o principal pecado seja o do perfeccionismo. Mas, conceito à parte, revela pouca ambição e David Fonseca parece ter dificuldade em libertar-se de esquemas melódicos e interpretativos demasiado batidos.
[versão não editada]

Bob Dylan - Tempest ****

Dylan é a medida de Dylan e isso pode ser um problema. Falamos do homem que, há cinco décadas, estabeleceu cânones, não apenas na música, mas na cultura tal como a entendemos no sentido mais lato. O problema é que esse Dylan, sendo a medida de todas as coisas, não é repetível, ou sequer comparável, e não é suposto que do mesmo Dylan surjam novos cânones. Por isso, chega a ser desonesto o que muita imprensa anglo-saxónica tem feito por estes dias – sobrevalorizar Tempest e estabelecer comparações, por vezes canção a canção, com as obras-primas (não há que ter medo das palavras) dos anos sessenta. O Dylan de Tempest é o Dylan que muito cedo percebeu a armadilha de ser um mito vivo, recusou o altar, tropeçou uma e outra vez, naufragou em discos menores, para se reerguer encarnado de novo em trovador de amores urbanos, paisagens interiores devastadas e um certo desencanto com o mundo. Há uma década que assim é. O ciclo que musicalmente se poderá catalogar como de pré-rock, construído com sonoridades austeras de blues, rockabilly, country. O início de Tempest faz lembrar um velho programa de rádio em Onda Média e é assim que somos desafiados para uma viagem que nos levará a territórios maioritariamente obscuros. A tragédia do Titanic reinventada, ao ponto de colocar na acção original o Leonardo DiCaprio da versão cinematográfica. O amigo Lennon, mais que o músico, evocado através das suas próprias palavras. Uma “Pay in Blood” com riffs de guitarra roubados aos Stones. Uma “Narrow Way” encharcada de blues do Mississipi. Uma “Scarlet Town” feita valsa triste, desconjuntada. O violino, ou o acordeão, a acentuarem a toada melancólica. E depois os poemas, jogos de enganos, em que cada um ouve o que quer, nem sempre ouvindo o que ouvira antes. Mas em que nada se aproxima do sublime. Caso para dizer que Dylan está em forma. Sim, mas.

A voz triste da menina bonita - Norah Jones no Campo Pequeno

 
Norah Jones arrumou de vez o jazz e vai recriar no Campo Pequeno a atmosfera delicada e contida dos dois últimos discos. Uma aventura que apela à disponibilidade de quem a vai ver e ouvir

Aviso à navegação: esta Norah Jones é a nova Norah Jones, e não a outra, aquela que tanto ouvimos no rádio e da qual (ah, sim, consultem os arquivos) já andávamos todos um pouco enjoados, tal era a omnipresença sonora de “Come Away With Me”, o megasucesso de estreia. Essa Norah Jones, talvez nem fosse necessário recordá-lo, era uma miúda gira, de voz doce, exímia praticante de um jazz ainda mais ligeiro que o de Diana Krall. Isso foi há uma década e a rapariga – filha do sitarista Ravi Shankar, mandam as regras que se assinale – arrecadou nessa altura uma data de grammys, isto para não falar dos dólares. O encanto manteve-se e tivemos direito a nova dose dois anos depois, com o disco Feels Like Home e o novo megasucesso “Sunrise”. “Sunrise, sunrise...”, lembram-se?
Pois, essa Norah Jones já não existe e convém que os mais distraídos tomem disso boa nota, porque esse é um facto relevante para o que aqui nos traz. A miúda tinha 23 anos quando ficou com o mundo a seus pés e – qualquer terapeuta o comprovará –, muito aguentou ela, que o sucesso não é coisa de fácil digestão. Mas, é a lei da vida, há idades tramadas e – desculparão a incursão tablóide pela intimidade da artista – as miúdas giras apaixonam-se (as outras também, mas isso não vem agora ao caso) e nem sempre as coisas correm bem. São as dores do crescimento. Interior.
Chegamos assim a 2009. O jazz (já vos tinha dito que Norah escrevia o que interpretava?) fica para trás e, coração perturbado, novos trilhos musicais se apresentam. Eis-nos em pleno território pop, devedor, embora, de alguma atmosfera indie. Dois discos – The Fall e Little Broken Hearts, já deste ano – cunham uma nova Norah. As canções são mais íntimas, mais sofridas, menos luminosas, autobiografias de males do coração. E vestem-se de roupagens, digamos, menos simpáticas (há lá coisa mais agradável que o jazz ligeirinho?). As guitarras, na primeira incursão, e a electrónica, na versão deste ano pela mão de Danger Mouse, dominam as canções. É esta Norah Jones que agora aparece por cá.
Miúda tímida – é verdade! – canções íntimas e atmosféricas. É isto Norah Jones ao vivo nos dias que correm. Os sucessos dos primeiros anos, a crer no alinhamento que já a acompanha desde América e a deverá levar ao resto do mundo, ficam para os encores, o que poderá ser uma autêntica chave de ouro para muitos dos que vão passar pelo Campo Pequeno.
Os outros, espera-se que sejam a maioria, certamente irão à procura da reinterpretação das texturas delicadas dos dois últimos discos. E é nesse território que o concerto deve ser apreciado. Norah Jones canta, bem como sempre, e acompanha-se ao piano e na guitarra, com o apoio de uma banda de quatro músicos de estrutura pop clássica.
O sucesso de um concerto depende, por vezes, da empatia que se gere entre quem está no palco e quem assiste. Já percebemos que Norah Jones está numa fase particularmente sensível, de abertura a novas sonoridades, experiências. Por uma vez, a dúvida está do lado de cá – é isso que esperam muitos dos que a vão ver e ouvir?

Cat Power - Sun ****

Este disco é energia pura. Anuncia-se isso nas tonalidades eléctricas da capa, mas é a vitalidade das canções que o confirma. Há referências sombrias atribuíveis, talvez, à tristeza afectiva da autora (os amigos que se perdem e não voltam mais, em “Manhattan”), ou ao estado de desânimo global (estamos sentados em ruínas, canta ela em “Ruins”). É verdade. Mas este disco está mais para abrir uma nova fase que para lamuriar os amargos do passado. Certamente que não conseguimos quebrar as amarras da condição humana (“Real Life”, ou “Human Being”), mas ninguém nos pode proibir de aspirarmos ao estatuto de super-heróis (“Nothin’ But Time”). Este é, afinal, o disco de libertação e renascimento de Cat Power. Para trás fica a fase mais intimista e artesal do início e a neo-soul de que The Greatest (2006) foi o expoente máximo. Neste Sun, que já andaria a amadurecer há meia dúzia de anos, mas que levou um empurrão decisivo já em 2012, surge-nos uma Cat Power sozinha em estúdio, a compor tudo, a tocar (quase) todos os instrumentos, a cantar talvez da forma mais segura que já lhe ouvimos – embora sem perder aquele grão que encanta –, finalmente, a produzir. As guitarras ficam quase esquecidas (“Cherokee” é uma razoável excepção), o piano reduz-se praticamente à marcação do ritmo, e o palco fica para os sintetizadores, caixas de ritmos, e similares. Espantoso é que a intensidade com que é usada toda essa electrónica deixa espaço para uma arquitectura musical essencialmente subtil, em que tudo respira e toda a respiração nos é dada a ouvir. Exemplo supremo disso mesmo é “Nothin’ But Time”, uma peça de 11 minutos, com Iggy Pop no papel de convidado, e David Bowie da fase Low a pairar como referência explícita (“it’s up to you to be a superhero”).

VVAA - Just Tell Me That You Want Me (A Tribut to Fleetwood Mac) ****

Que é como quem diz, oiçam sem preconceito. Os mais novos, os admiradores de MGMT, Antony, Lykke Li ou St. Vicent, provavelmente nem sequer se lembram dos Fleetwood Mac (FM), ou, na pior das hipóteses, já lhes passou pelos ouvidos uma música empastelada, razoavelmente aborrecida. Os outros, os do tempo dos FM, talvez nunca se imaginassem a ouvir Karen Elson, Washed Out, Best Coast. E é aí que está a graça de tudo isto, nesse festival de equívocos que, por uma vez, tem um final feliz. Comecemos pelos FM. Poucos grupos tiveram tantas e tão diversas encarnações, do blues feito em Inglaterra à pop mais comercial de Los Angeles. Andaram pelo Olimpo, artístico e comercial, na segunda metade dos anos 70, e depois cavalgaram essa glória muito para lá dos limites do razoável e audível. Depois, este disco, homenagem assumida de um cruzamento de gerações. Dos antigos, há dois momentos muito altos: “Oh Well”, dos blues iniciais de Peter Green, numa versão arrastada de Billy Gibbons (ZZ Top), e “Angel”, de que Marianne Faithfull se apropria de forma soberba. Dos mais novos, o destaque vai para Likke Li e uma seguríssima reinterpretação de “Silver Springs” que tem o grande mérito de nunca descolar verdadeiramente do original, para o intimismo de Antony em “Landslide”, ou para a forma como os Best Coast retiram “Rihannon” aos lençóis de penumbra a que Stevie Nicks a submetera e a trazem para a luz da pop dançável. O resto não tem muita história. Talvez assinalar o falhanço da versão de Karen Elson de “Gold Dust Woman”, ou a irrelevância de “Sisters Of The The Moon” às mãos e vozes de Craig Wadren e St. Vicent. Porém, ao contrário do que é habitual neste tipo de tributos bem intencionados, o balanço resulta francamente positivo.

Tiny Ruins - Some Were Meant for Sea ***

Por vezes é necessário regressar às coisas simples. Uma guitarra acústica, um piano aqui ou ali, coros esparsos, umas cordas ainda mais discretas e uma voz que encanta. Pelo timbre, uma espécie de Cat Power mais bem comportada, mas especialmente pelas histórias que conta. Embrenhamo-nos em aventuras náuticas, histórias de encantar, personagens inquietantes, coisas indizíveis. Hollie Fullbrook, o nome que se esconde sob Tiny Ruins, nasceu em Inglaterra, vive na Nova Zelândia e gravou o primeiro disco na Austrália (na verdade, há dois anos já tinha gravado um EP, em... Barcelona). O sucesso, helas, tem vindo em ondas. Primeiro, nos antípodas, depois na Velha Albion e agora na Europa. As canções devem quase tudo às velhas tradições folk, mesmo que às vezes pudessem ser uma espécie de soul sem sal (“You’ve Got The Kind Of Nerve I Like”). Mas, é claro, as baladas mais intimistas (“Pigeon Knows”) imperam.

Antony and The Johnsons - Cut The World *****

Esqueçam tudo o que ouviram de Antony até agora. Os quatro discos de originais eram apenas esboços, ensaios para esta magistral celebração de génio musical e entrega dramática. É impossível voltar a ouvir essas “velhas” canções e não sentir que podiam ser melhores. Como aqui. Neste CD, gravado ao vivo – embora não pareça, tal é o rigor da interpretação -, Antony revisita 11 das suas melhores canções, acompanhado pela Orquestra de Câmara Nacional da Dinamarca. Não é a primeira vez que se faz acompanhar por uma formação clássica e nos discos de estúdio há apontamentos frequentes de cordas, por exemplo. Mas aqui trata-se de outra coisa. Estamos perante uma abordagem radical, com orquestrações especialmente concebidas para cada canção e que nada devem às concepções de alguns dos maiores compositores da chamada música clássica dos dois últimos séculos (Manuel de Falla, por exemplo, em “Kiss My Name”). Verifica-se, pois, uma transfiguração de todas as canções, não havendo lugar para qualquer dos instrumentos típicos do pop. Mas essa abordagem, que outros já tentaram e que poderia resultar banal, cria momentos de extraordinária beleza, não apenas pela criatividade dos arranjos (“I Fell In Love With a Dead Boy”), mas especialmente pela forma como eles se cruzam com a voz de Antony, abrindo espaço a uma interpretação ainda mais virtuosa e dramática do que nos originais (“Rapture” ou “Epilespy is Dancing”.) A canção que dá título ao disco é original e foi composta para a peça “The Life and Death of Marina Abramovic”, de Robert Wilson. E há ainda um longo monólogo, em que Antony se rebela contra o domínio masculino do mundo e faz votos para que o futuro seja feminimo, com algumas incursões bem humoradas pela religião. Um manifesto claramente político, mas que aborda com a mesma ternura que coloca nas canções e que o torna realmente único.

Ry Cooder - Election Special ****

Os tempos, diria o saudoso Zeca, estão de vir para a rua gritar. Foi isso que Ry Cooder decidiu fazer, de forma muito explícita, com Pull Up Some Dust and Sit Down (2011), manifesto contra a ganância financeira, corrupção política e coisas conexas. Um ano depois, nova colecção de temas bem esgalhados, com um mote óbvio: Election Special (EUA, Novembro). A primeira canção (“Mutt Romney Blues”) declara a guerra - uma sátira sobre o candidato conservador, baseada num famoso episódio de maus tratos ao cão da família... O humor, sempre corrosivo, é uma constante; a base musical, a de sempre – blues, folk, tex-mex. O blues arrastado da solidão da Sala Oval (“Cold, Cold Feeling”), a memória involuntária de quando Cooder era músico de estúdio dos Stones (“Guantanamo”), o recrutamento militar (!) nas escolas secundárias (“The 90 and the 9”), a reinvenção do “This Land” de Guthrie (“Take Your Hands Off It”).

The Tallest Man On Earth - There’s No Leaving Now ***

Por mais voltas que se dê, não há escapatória – tudo em Kristian Matsson soa a Dylan. Deve acontecer a muitos suecos, presume-se, isto de perseguirem doentiamente modelos anglo-saxónicos. Daí, talvez, o sucesso sueco, ou talvez mesmo o resultado menos agradável, todos aqueles livros e filmes negros.  The Tallest Man On Earth, assim modestamente se apresenta Kristian, não é pera doce de se roer. Tem a voz nasalada, o dedilhar de guitarra e aquela urgência de Dylan, mas tem igualmente uma escrita densa e sombria, plena de referências naturalistas, de sentido frequentemente obscuro. Neste terceiro disco, damos graças quando chegamos a meio e, na canção-título, o piano substitui a guitarra acústica obsessiva, mesmo que, mais à frente, talvez a melhor canção do CD (“Little Brother”) regresse ao modelo guitarra-Dylan/voz-Dylan. Em suma, está ligeiramente mais redondo que as gravações anteriores, mas mantém o tom caseiro.

Fiona Apple - The Idler Wheel... *****

Onde acaba o piano e começa a percussão? Onde acaba a raiva e começa a ternura? Esse é um jogo que Fiona Aplle não nos deixa jogar. Ela é a dona do jogo, joga como quer (são conhecidos os seus desencontros com produtores e editoras…). A nós resta-nos assistir – e “assistir” é a palavra certa quando se fala desta arte -, mesmo quando o ritmo parece chamar-nos, como em “Left Alone”, uma canção que deve tanto ao jazz, como à (bom, mais ou menos…) assumida loucura de Fiona. Estamos num território de pura liberdade, de criatividade sem barreiras. Poderíamos convocar Joni Mitchell, Regina Spektor ou Cat Power, ora como influências, ora descendências, ora aparências. Mas seria sempre menos que Fiona. “Valentine”, por exemplo, é uma dessas canções de amor/desamor em que os fantasmas andam à solta e fazem das suas. E o leve e quase imperceptível coro de “Periphery” está ali só para nos lembrar que há uma “normalidade” algures, mas não aqui.

Neil Young with Crazy Horse - Americana **

Passa-se tudo pelo liquidificador e já está. É assim o tão aguardado regresso de Neil Young com os Crazy Horse, após uma década de silêncio. Não é, portanto, um disco, mas antes uma lição de culinária cujos resultados deixam muito desejar, mais por incompetência do chef que por desatenção dos aprendizes. Os Crazy Horse, todos o sabemos, têm um som muito característico, basicamente guitarras amontoadas e distorcidas. Isto tem funcionado razoavelmente porque – e esse talvez seja o segredo! – a banda impõe-se a si própria longos silêncios, em que Neil Young (e nós…) aproveita para respirar. E a ideia deste CD até parece boa – aplicar essa sonoridade agreste a uma dúzia de tradicionais americanos. Mas, ouvidas as duas investidas iniciais (“Oh Susannah” e “Clementine”), percebemos o filme: há por aqui uma dose considerável de preguiça. Sensação que, apesar de ou outro pico, se mantém até à última versão. Vai, pois, para a coluna das curiosidades e bizarrias.

Antony no Cascais Music Festival

A tese explica-se facilmente. Antony está convencido de que foi o domínio masculino que nos conduziu à estagnação e à desordem da sociedade actual. E que só um sistema de governo feminino poderá repor o equilíbrio. A tese é desenvolvida num longo monólogo de sete minutos (“Future Feminism”), a segunda faixa do seu novo disco, Cut The World, a editar em Agosto. Trata-se de uma gravação ao vivo, que revisita alguns temas dos quatro discos de Antony and The Johnsons, mas com acompanhamento de orquestra. É precisamente esse conceito que Antony Hegarty vai trazer a Cascais – aqui acompanhado pela Sinfonietta de Lisboa –, naquele que promete ser um dos concertos do ano, não apenas pelas capacidades vocais e dramáticas de Antony, por algumas das mais belas canções escritas nas últimas décadas, mas também pela supresa que são sempre os seus espectáculos. Antes de encerrar com a chave de ouro de Mariza – regressada em grande forma e a caminho de actuar nos Jogos Olímpicos – o Cascais Music Festival ainda cumpre o cerimonial obrigatório de nos apresentar os Pink Martini, aquela confusão de jazz, sons latinos e outras coisas superficialmente agradáveis, sem as quais o Verão teria menos charme.

The Walkmen - Heaven ****

A verdade é que estamos todos um pouco mais velhos, diria o inevitável La Palice. Apesar de tudo, uns mais velhos que outros, que isto da idade tem os seus segredos, especialmente na forma de a cortornar. A idade é precisamente o tema central na abordagem do novo disco dos Walkmen. Desde logo porque os rapazes decidiram encher a capa de criançada, em ambiente descaradamente familiar, no disco que marca o décimo aniversário da banda e que se chama Heaven, palavra demasiado celestial para a rebeldia que lhes colávamos. Um equívoco, na verdade. Porque do que gostamos mesmo nos Walkmen – e não é por acaso que a maioria dos seus seguidores em Portugal não são propriamente adolescentes... – é da rebeldia estudada, a pose da rebeldia. Uma rebeldia em nosso nome, os acomodados. Heaven é, apesar de tudo, um gesto de clarificação. Continuam lá as guitarras primárias, pouco mais que riffs ou um dedilhar encantatório, a voz entre o balbuciar e o desespero do grito, uma atitude que tanto remete para os anos rock’n’roll, como para o punk, o que é mais ou menos a mesma coisa. Mas agora os Walkmen estão felizes e não é suposto que os rebeldes o sejam. A tal contradição que sempre lá esteve, e que só agora se torna evidente. Teorias à parte, eis uma dúzia de canções vibrantes, das quais é difícil destacar uma. Talvez a abertura, “We Can’t Be Beat”, uma balada acústica, coros à maneira, que evolui para um cântico de recorte celebratório. Ou, quase ao calhas, “Heartbreaker” ou “The Love You Love”, duas composições que evidenciam todo o ADN da banda. Ou, na faceta mais adulta, a mais que sóbria “Southern Heart”, uma voz solitária que ecoa sobre um quase imperceptível fundo de guitarra acústica. Estão, de facto, mais crescidos.

Sigor Rós - Valtari ****

Este é um disco que se ouve bem no Youtube. Os Sigur Rós convidaram uma série de cineastas para criarem vídeos a partir de cada uma das canções deste Valtari e o resultado, como se adivinhava, é espantoso. Se cada uma das canções já remete para territórios oníricos muito próprios, imagine-se tudo isso fantasiado em imagens, que cobrem a música de mais algumas camadas de imaginação. O caso mais espantoso talvez seja a recriação de Fjogur Píanó por Alma Har’el, de uma muito particular e intensa beleza. Sem imagens, recomenda-se vivamente Varúõ, uma coisa quase religiosa, entre várias camadas vocais, momentos de grande serenidade e um explosão a remeter para os grandes espaços. O resto do disco é para sorver tranquilamente, quase em melancolia. Após cinco anos de silêncio, os Sigur Rós regressam aos primórdios das texturas e do paisagismo melódico. Obviamente que não é para todos.

Patrick Watson - Adventures In Your Own Backyard **

Nem sempre um boa colecção de pérolas faz um belo colar. É o que acontece com este disco, o quarto de Patrick Watson. Cada canção é uma pequena obra de arte, especialmente nas orquestrações. Pormenores de piano, de metais, coros ou guitarra fazem de cada canção uma aventura sonora, sempre melodiosa, sempre na busca de um conceito de beleza óbvia. Estamos claramente no território da intimidade, da melancolia, embora os tons pastel nunca resvalem para a zona de escuridão. E talvez seja esse um dos problemas, talvez que seja tudo demasiado bonitinho, muito certinho, e falte por aqui garra, uma voz que rasgue. Patrick Watson, entretido em tecelagens de falsetos, torna este exercício ainda mais fastidioso. O que torna o CD mais recomendável para experiências de levitação zen do que propriamente de fruição musical. E, no entanto, o potencial está lá todo... Talvez para a próxima.

Santana - Shape Shifter **

Comecemos pelo mais importante. Pedir desculpa a alentejanos e algarvios pela brutal invasão de que foram alvo por alturas da Fundação. Respeite-se, pois, o pedido de Carlos Santana na capa do novo disco – que todos os povos invasores do mundo sigam os exemplos da Austrália e dos EUA e peçam desculpa aos nativos que oprimiram. Satisfeito este preceito, informe-se o senhor Carlos Santana que, sim, a prova de vida está superada e pode prosseguir para bingo e editar o próximo disco, o 37.º da sua carreira. Este, o 36.º, é excelente porque põe fim ao ciclo altamente foleiro, em que resmas de cantores de duvidosa craveira eram convidados para garantir lugar nos tops, e marca o regresso aos velhos instrumentais bem esgalhados do início de carreira. Sendo excelente por isso, não deixa de ser a enésima versão dessas baladas e guitarradas de antanho. A que nem falta a citação (três notas apenas...) do famoso “Samba Pa Ti”...

Janis Joplin - The Pearl Sessions *****

Coisa de alquimista. Janis Joplin transformava em ouro cada canção em que a sua voz tocava. E estabelecia um padrão difícil de alcançar a cada nova versão. Veja-se o caso de “Summertime”, em Cheap Thrills (1969), ainda com os Big Brother & The Holding Company. Ou “Me and Bobby McGee”, neste Pearl, gravado no Verão de 1970, mas lançado apenas em Janeiro do ano seguinte, quatro meses após a morte da cantora. Pearl é um disco absolutamente admirável, histórico. Claro que pela voz de Janis, por cada sílaba colocada em sítios inimagináveis, pelo fraseado blues tantas vezes copiado mas nunca imitado, pela naturalidade de quem canta como quem respira. Mas também por um rigor e uma criatividade musicais raras, no caso às ordens de Paul Rothchild, o produtor de, por exemplo, grande parte dos discos dos Doors. E se “Move Over” casa admiravelmente a guitarra, o baixo e a voz, já o a capella de “Mercedes Benz” é simplesmente genial e irrepetível. Esta edição de Pearl, não sendo a primeira especial em CD, pode funcionar como introdução a quem ainda não conhece Janis, mas agradará também aos fãs, pelos extras que contém. O primeiro CD tem os dez temas originais, remasterizados em estéreo, mais seis versões mono destinadas à rádio e, à vez, é possível apreender a excelência instrumental e a potência da voz. No segundo CD, surgem, além de dois temas ao vivo, uma série de versões alternativas de estúdio. Que fique muito claro: nenhuma destas versões é superior às que foram seleccionadas para o disco original. Funcionam, antes, como uma pequena amostra do modo como as canções foram construídas, do ambiente criativo e de boa disposição no estúdio. Mais do que alternativas, são versões intermédias das pérolas finais.

Patti Smith - Banga *****

Este é o melhor disco de Patti Smith desde Horses, ou simplesmente o melhor disco de Patti Smith? A dúvida é, de certa forma, irrelevante e apenas prova que estamos, isso sim, perante uma obra maior da música pop-rock. É claro que nada substitui a força do disco inaugural (1975), uma pedrada no charco, pai e mãe de todo o punk. Mas a verdade é que 37 anos depois (!?), Patti não apenas emana a mesma energia como a canaliza com maior intensidade intelectual, poética e mesmo física. Sim, porque é de uma artista no auge da carreira que falamos. Nos últimos três anos, recebeu todas as honras e prémios literários pela publicação de Just Kids (Apenas Miúdos, Quetzal), o livro de memórias da coabitação com Robert Mapplethorpe, viu publicada a obra fotográfica, dedicou-se às artes plásticas, editou uma celebrada revisão da obra musical. Enfim, aquilo a que se chama de “consagração”, o momento mágico em que o sistema absorve os malditos e os glorifica em santos. Não é fácil, porém, sobreviver a tanta honraria e muitos soçobraram, ora ao peso do ouro, ora da responsabilidade. Ao invés, Patti Smith parece ter ido aí buscar ainda mais inspiração para aquele que é, de facto, o seu melhor disco. Pelo modo como trabalha a mitologia do Novo Continente (“Amerigo”), a cruza com a Europa renascentista e a mística católica (“Constantine’s Dream”), como celebra amigos presentes e idos (“Nine”, “This Is The Girl”, “Maria”), como se embrenha pela literatura e artes russas (“Tarkovsky”, “Banga”), pela melhor canção pop que já escreveu (“April Fool”). E porque – e isso nem seria o mais importante – nunca sua voz foi tão aveludada e definida como agora. Nota para burgueses: comprem a edição especial, livro mais CD. Vale a pena!

Norah Jones - Little Broken Hearts ****

Velho estratagema: o artista tenta expiar uma separação emocional através de um disco em que, inevitavelmente, os farrapos desse mesmo passado teimam em deixar marcas por todo o lado. Norah Jones, porém, fá-lo em grande estilo, depois de, em 2009, com The Fall, ter mostrado ao mundo que, apesar do seu ar doce e frágil, não pretendia manter-se por muito mais tempo como a menina bonita do jazz ligeirinho. Passados três anos, a menina continua bonita, mas agora um pouco ácida. Para esse exercício de acidez contribui Brian Burton, também conhecido por Danger Mouse, um rapaz da electrónica que co-assina todos os temas e produz o disco (conheceram-se no projecto dele Rome). É um encontro estranho, entre uma voz melodiosa, clássica, e a vanguarda sintética. Mas funciona, porque Danger Mouse deixa respirar as texturas da voz de Norah respirarem (“Say Goodbye” é um excelente exemplo) e até sabe retirar-se nas alturas certas (“She’s 22”).

M. Ward - A Wasteland Campanion *****

Um destes dias, alguém escrevia que M. Ward é assim uma espécie de Leonard Cohen um pouco menos acutilante. As pessoas escrevem com cada coisa… Heresias à parte, M. Ward é um trovador tipicamente americano, muito marcado pelo sol da costa oeste, estirpe bem diversa das penumbras do poeta canadiano. A comparação apenas se entende pela dificuldade de catalogação de Ward e em especial deste disco. E talvez por alguns temas que mergulham em coisas da alma tão caras a Cohen, em especial as canções da segunda parte do disco. A primeira, digamos que os cinco primeiros temas, são todos eles cheios de sol, em alguns casos raiando o pop adolescente, caso da releitura de “Sweetheart”, do peculiaríssimo Daniel Johnston, em dueto com Zooey Deschanel (ah, ainda não tinha alertado: M. Ward é o “him” do duo She & Him, precisamente com Zooey, uma cara linda de Hollywood). E é nesta primeira parte que encontramos “Primitive Girl”, pop de escrita própria, “I Get Ideias”, versão rock’n’roll de um velho tema celebrizado por Louis Armstrong e Peggy Lee. Ou ainda a perturbante e psicadélica “Me And My Shadow”. Na segunda parte, os temas viram-se para dentro, melancólicos, intimistas, por vezes sussurrados (mas, atenção, Cohen é mesmo outra coisa…). Dessa toada em tom menor (“There’s A Key” é um bom exemplo), sobressai “Crawl After You”, na sua simplicidade seguramente uma das canções mais bonitas da colheita de 2012. O conjunto revela um compositor em grande forma, um intérprete que nunca será mais que mediano mas que contorna razoavelmente as limitações, e um produtor irrequieto, que tem muitos mundos na cabeça e muito gozo em mostrá-los.

Rufus Wainwright


Há uns anos que Rufus Wainwright não escrevia canções de recorte clássico. O novo disco, como nos conta Manuel Morgado, criou a oportunidade perfeita para o regresso de um dos mais completos artistas da actualidade.

Desta vez, as velas vão estar no palco. E se o Coliseu quiser agradar (e surpreender) a Rufus apenas terá que o imitar, dar ao dedo, alumiar isqueiros e telemóveis. Velas, quem sabe? É pois com velas (“Candles”) que o espectáculo começa, em memória de Kate McGarrigle, a mãe falecida há dois anos. Uma memória cara a Rufus e, por isso, a música de Kate propriamente dita ouvir-se-á mais à frente, num tributo preparatório de uma homenagem maior, daqui a uma semana, em Toronto. Como mais à frente se ouvirá uma canção de Loudon Wainwright III, o pai, e outra dedicada à filha (Viva, neta de Leonard Cohen), e ainda mais uma dedicada à mãe... É assim este Rufus que agora se apresenta em palco, ainda com mais referências à família, num movimento de permanente reverência às raízes da sua música.
Esta digressão  mundial (Europa, América, Austrália) destina-se a celebrar o regresso em disco às canções, puras canções, depois das experiências operáticas e pianísticas dos últimos anos. Out Of Of The Game é, pois, a continuação dos dois volumes de Want (2003, 2004), Release The Stars (2007) e mesmo de Poses (2001). Um exercício que teve aos comandos Mark Ronson, a vedeta do retro-soul (Amy Winhouse), o qual injecta nas composições características de Rufus meia dose de electrónica e outra de nostalgia, desta feita, à anos 70. Há, por isso, quem insista em ouvir por aqui Bowie, Fleetwood Mac, Elton John e até os Eagles – a toada ligeira do tema “Out Of The Game” legitima todas essas aproximações –, sendo que a verdade é que nunca deixa de se ouvir Cole Porter, talvez a influência mais marcante do fraseado daquele é certamente um dos mais interessantes compositores deste início de século.
Para o palco, saltará algo de Ronson - “Bitter Tears” e “Perfect Man” são indissociáveis da batida funk - mas salta especialmente o bom e velho Rufus, um artista com um apuradíssimo sentido do espectáculo. Out Of The Game está, de resto, recheado de temas de grande resultado dramático, a pedirem encenações grandiosos, não lhe falhem instrumentos e coros. É o caso, por exemplo, da canção que dá nome ao disco, ou de “Jericho” e  “Rashida”, propícias à exuberância de cabaret de que Rufus é um perito. E depois há os momentos mais intimistas, como “Montauk”, “Respectable Dive” ou “Sometimes You Need”, em relação aos quais se levanta a dúvida de saber se a abordagem ao vivo comporta os suaves adornos de Ronson, ou se, pelo contrário, opta por uma uma derivação mais singela.
Entre homenagens e o disco novo, pouco tempo sobrará para revisitar a carreira já recheada de sucesso e belíssimas canções. A ácida “Going to a Town”, ou “Poses” serão algumas das poucas excepções e quem quiser mais talvez seja de insistir nos encores...
Uma coisa é certa – pelo que se conhece do artista (e esta é a quarta vez que actua em Lisboa), a noite está garantida. Poucos reunem hoje em dia tão distintas qualidades de composição, interpretação vocal e dramatização em palco.

Stacey Kent


“Já lá vem o meu comboio...”. Talvez o sentido de humor de Stacey Kent a leve a começar assim o concerto do CCB. Assim, num português tropical, inseguro e, talvez por isso mesmo, sensual. Só para surpreender os incautos... A canção, com letra do poeta português António Ladeira, integra o último disco da cantora, Deamer In Concert, gravado em 2010, no parisiense La Cigale, e que será a base para esta terceira apresentação numa sala de Lisboa de que já conhece os cantos. “O comboio”, assim se chama a canção, é bem o retrato da mais recente paixão desta norte-americana, a língua portuguesa, obviamente com sotaque. A bem da verdade, só a língua é mesmo paixão recente, já que a música de Stacey sempre teve aquele toque tropical, ligeiro, que tanto arrelia os puristas do jazz. De qualquer forma, embora articule correctamente o fraseado do género, afro-americano, Stacey Kent está muito longe de ser uma cantora de jazz pura, ou lá perto. E isso reflecte-se no repertório, que inclui os habituais standards americanos, mas também muitas coisas brasileiras (Jobim, especialmente) e outras franceses (e até célebres temas brasileiros cantados em francês, como o “Samba Saravah”, de Vinicius) a par dos originais de Jim Tomlinson, marido, saxofoniste chefe de (pequena) orquestra. Garantidamente, uma noite elegante, suave, sem emoções muito fortes.

Sinéad O’Connor - How About I Be Me? ****

Religião, sexo, tentativas de suicídio, casamentos feitos, desfeitos e refeitos. A vida de Sinéad O’Connor tem enchido as páginas dos tablóides ingleses. E tem agora uma edição em disco, da qual só se pode dizer bem. Mais que autobiográfico, este CD é devedor da personalidade perturbada de Sinéad, reflectindo, por exemplo, as suas preocupações com os abusos sexuais a crianças na igreja católica irlandesa (“Take Off Your Shoes” e “V.I.P.” – um longo sussurro, que deixa as orelhas a arder a Bono...). Mas há também a mãe que se redescobre (“I Had a Baby”) e as alegrias breves do amor (a solar “4th and Vine”). E momentos de enorme beleza poética (“Reason With Me”) e uma versão avassaladora de John Grant (“Queen of Denmark”). Uma colecção que oscila entre coisas muito íntimas, dúvidas da alma, e canções de intervenção política. Espantoso é o equilíbrio disto tudo, o que transforma este disco no melhor de Sinéad em muitos anos.

Florence + The Machine - MTV Unplugged **

Esta mulher cansa. A sério, este começa a ser um comentário relativamente frequente entre os não fiéis. Isso notou-se nas apreciações ao segundo disco (Cerimonials), após a surpresa de Lungs (2009), e confirma-se neste Unplugged. O grande dom de Florence Welch é aquela voz potente, que projecta com inusitada estridência. O problema é que o esquema repete-se canção atrás de canção –desunha-se a gritar e tudo à sua volta são bombos e outros intrumentos pouco meigos. Coisa para se ouvir num estádio, e dos grandes, pelo que a ideia de testar o formato acústico comportava sérios riscos. E não é que não funciona... Não surpreende e essa é a ideia desta série – despir as canções, mostrá-las por dentro. Se a orquestração serena um pouco, à custa de harpas e pianos, a voz, essa continua a vibrar por todo lado. As versões, de Otis Redding e Johnny Cash, são submetidas ao mesmo tratamento e o resultado é decepcionante.

The Magnetic Fields - Love At The Bottom Of The Sea ***

69+15=84? Bom, na verdade, não é bem assim, porque falta fazer ali uma ligeira operação de substração. Descodificando: Love At The Bottom Of The Sea é, não apenas o melhor disco dos Magnetic Fields desde 69 Love Songs (1999), mas é quase a sua continuação. Voltamos à omnipresença dos computadores – ausentes das três últimas gravações, centradas nas guitarras – e às canções curtíssimas (a maior tem 2’39’’). O tema é, adivinharam, o amor, sempre o amor, agarrado daquela forma que só Stephin Merritt parece conseguir – as coisas nem sempre correm bem, mas é preciso encarar isso com uma dose razoável de humor (“God Wants Us To Wait”). “Andrew In Drag” e “I Go Anywhere With Hugh”, por exemplo, poderiam estar no disco de 69, perdão, 99. É claro que, na comparação, este disco perde, precisamente porque não consegue crescer a partir da continuidade. Mas, enfim, a ideia de voltarmos aos lugares onde já fomos felizes é desafiante quanto baste.