“We All Have To Find Our Own Way Out”, por exemplo. São 4 minutos e 20 de piano e voz. Suaves. Mas em que se canta a solidão, o desespero, o suicídio. Tudo muito serenamente. Ou, logo na abertura, quando Mark Eitzel canta “she wrote I love you, but you’re dead”, numa canção que quase poderíamos considerar pop, pela escrita escorreita e pelos arranjos, do mais tradicional deste disco, baixo, guitarras, bateria. Sim, é de canções que aqui se fala. De canções muito bem construídas, de recorte tradicional, mas pela quais se vão infiltrando derivações inesperadas, encantatórias. Seja pelo que nelas se canta, reflexões de vida raramente luminosas, seja pelas texturas musicais que nos vão surpreendendo, sem nunca quebrar o frágil fio delicado que as tece. Porque, se é verdade que este disco marca o regresso de Eitzel ao traballho em banda, não é menos certo que por vezes nem se dá por ela, a banda, tal a subtileza dos tecidos que desenha. Há coisas de pura beleza, como “All My Love”, uma reinterpretação à volta do piano de um tema dos American Music Club (2008). Outras surpreendentes, como a barroca Break The Champagne (já ouviram um Marxophone? Procurem-no no Youtube...). Outras simplesmente grande canções, sem mais nada, como “Oh Mercy”. Este é, pois, um disco de canções, e também de uma banda. Mas é também o de uma voz. E muito se tem dito e escrito sobre a voz de Mark Eitzel, agora mais frágil, supostamente por causa do brutal ataque cardíaco de há dois anos. A verdade é que, seja qual for a razão, essa fragilidade vocal assenta que nem uma luva à melancolia temática e subtileza conceptual do disco. Enfim, um regresso em grande de um dos nomes marcantes das últimas décadas da indie, em nome próprio ou integrado nos intermitentes American Music Club.
Nick Nicotine’s Mystical Orchestra - Gypsicalia ****
Uma banda de ciganos brasileiros que pratica música americana numa oficina abandonada no Barreiro. Está bem visto, mas não é totalmente verdade. Os ciganos estão apenas no título do disco e talvez no ambiente de festa descontrolada que toma conta das canções. Já brasileiros, há-os. Marcelo Camelo, na voz de “Tropic of Capricorn”, um tema que vai sendo corroído por dentro pelo tropicalismo, para acabar em qualquer coisa que mistura o samba e a morna. Brasileiro, ainda, Alex Kassin, que empresta a pedal steel guitar a um dos temas mais alucinantes do disco, “Sunny Day”, uma divertida e muito sentimental valsa surfista. Mas o disco é essencialmente Nick Nicotine, uma voz soberba, uma fabulosa imaginação e um jeito muito especial para encenar canções, sempre agarradas a uma base blues (espantosa, “Breathless”, uma espécie de Elvis meets Beach Boys meets Springsteen meets etc), mas que voam em delírios, por vezes psicadélicos (“Bodhi and Utah”), que aos mais antigos recordarão a atitude e a sonoridade de Frank Zappa. “Hit Me Like The First Time”, rock’n’roll bem esgalhado, ainda remete para um Nick que conhecíamos de discos anteriores, mas o resto é bem mais solar, produzido, divertido. A merecer cada vez mais atenção.
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Nicotine's Orchestra
Mumford & Sons - Babel (Gentleman Of The Road Edition) ***
E ao segundo disco Marcus Mumford volta a pronunciar a palavra “fucked” numa canção. Provavelmente é um “cameo” musical, como aquela cena de o Hitchcock surgir em pequenas cenas em todos os seus filmes. Sendo assim, vamos ter “fucked” em barda nos próximos tempos, tal é a vontade da banda de manter em funcionamento a galinha dos ovos de ouro que lhes caiu nas mãos há uns anos. O sucesso dos M&S é um evidente exagero e resulta de um peculiar alinhamento de circunstâncias. Desde logo, é impossível ouvi-los sem nos virem à lembrança os muito bem sucedidos Arcade Fire, embora aqui num registo bem mais pobre. Depois, eles preenchem aquela necessidade permanente que temos de regressar às origens, às coisas simples, o que em música quer quase sempre dizer “folk”. Finalmente, e contradizendo o ponto anterior, a música deles funciona gloriosamente em grandes espaços, havendo por isso quem compare a sua atitude em palco com os U2. Mas, na verdade e em resumo, a música dos M&S é um tanto monótona – baseada quase integralmente em guitarras acústicas e banjos, harmonias vocais repetitivas, os mesmos esquemas rítmicos e os mesmos crescendos pensados para os palcos, o insistente cruzamento da temática religiosa com os assuntos do coração. E é indiferente que falemos do primeiro disco (Sigh No More, 2010) ou do segundo, tal é semelhança dos dois objectos. Voltamos a encontrar aqui as grandes canções de estádio (“Lover Of The Light” e “Hopeless Wanderer”), mas também as baladas para quebrar a festa (“Ghosts That We Knew”). A edição que agora chega às lojas é bem o espelho da grandiosidade em que rapazes navegam. O Babel original foi acrescentado de três extras (um deles, “Boxer”, de e com Paul Simon) e ainda de mais um CD e um DVD que recolhem a digressão em que o grupo mergulhou nos últimos anos e na qual foi experimentando algumas das canções do segundo disco. Uma edição para coleccionadores.
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Mumford and Sons
Rodrigo Leão - Songs (2004-2012) ****
O Álvaro, já se sabe, aposta no pastel de nata. O que, sabendo bem, sabe a pouco. Nada, pois, como diversificar. Rodrigo Leão pode ser uma alternativa, ou até uma via paralela. Falamos, claro está, de economia e da necessidade extrema que temos de fazer dinheiro, de preferência lá fora, onde ele existe. Este Songs 2004-2012 é claramente um objecto exportável, tanto mais que Rodrigo Leão não é propriamente um desconhecido em talvez mais países que o pastel de nata. O disco reúne canções cantadas em inglês dos discos Cinema (2004), A Mãe (2009) e A Montanha Mágica (2012), a que se juntam três originais, sendo que um deles, o instrumental “Lost Words”, é a excepção que valida a regra. Em resumo, estamos perante a faceta mais pop de Rodrigo Leão, sendo que, no seu caso, pop não significa necessariamente ligeireza. Apenas uma abordagem mais de acordo com os cânones vigentes, embora nunca dispensando a carga neoclássica e minimalista que é a sua marca de água. As boas companhias - outro argumento de exportação – contribuem fortemente para a fixação da identidade dramática de Rodrigo Leão, seja pela intensidade de Beth Gibbons (“Lonely Carrousel”), ou de Scott Matthew (que assina e canta um dos inéditos, “Incomplete”), ou pelos registos tão característicos de Neil Hannon ou Stuart Staples, ou ainda pelas presenças nacionais de Sónia Tavares e Ana Vieira. A Joan Wasser (Joan As a Police Woman) cabe o outro inédito (“The Long Run”), a canção (valsa) mais ligeira do disco. Nota negativa para o modo como tudo isto é apresentado: em lado algum do disco há nota para as datas de gravação dos temas, em que discos sairam, ou sequer quem canta o quê. Tratando-se de uma antologia (aparentemente, a primeira de uma série sobre a obra do artista), justificava-se algum empenho didáctico, já que, afinal de contas, este disco pode servir de porta de entrada para um dos valores mais seguros da música portuguesa contemporânea.
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Rodrigo Leão
Amy Winehouse - At The BBC ****
Assalto ao espólio, parte II. Com a mesma velocidade com que
Amy Winehouse (1983-2011) passou pela Terra, a indústria discográfica partiu em
busca das pérolas restantes do génio. Após vasculhar nas gravações de estúdio (Lionness: Hidden Treasures), num
trabalho no limite do razoável, chega agora a vez das actuações ao vivo, no
caso, as efectuadas pela BBC rádio e TV, entre 2004 e 2009. Amy foi um diamante
em bruto que por aqui passou, seja pela forma como transformou o seu conflito
com o amor em algumas das mais belas canções da década, seja pela forma
desamparada, nua, como expunha esse doce desconforto em público. Ao vivo –
Lisboa sabe-o – as coisas descambavam frequentemente, sob o peso das drogas e
do álcool. Mas, quando os deuses o permitiam, era sublime, como em “Just
Friends”, “Love Is A Loosing Game”, “Valerie”, ou “You Know I’m No Good”,
presentes neste CD. Das duas edições, com um ou três DVD, a segunda é
obviamente melhor – o contexto visual explica algumas performances.
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The Vaccines - Come Of Age ***
Temos banda, e agora? A questão, diga-se, está razoavelmente
mal respondida na segunda incursão discográfica dos Vaccines. Em 2011,
surpreenderam Londres e o mundo com uns ares de revivalismo punk e a ambição
disfarçada de porta-vozes de uma geração, que é o que todas as bandas punk
sonha(ra)m. Agora, mantêm essa sonoridade crua, já não querem ser bandeira de
coisa nenhuma e assobiam para o lado, disfarçando um certo desnorte conceptual.
O resultado é um disco com algumas canções acima de mediania, mas que acaba por
deixar todas as confirmações em aberto para a terceira rodada, afinal de contas
o drama de muitos segundos discos. Há coisas terríveis (em “Lonely World”
teme-se que sejam sinos de Natal o que se ouve em fundo), há punk a sério (“No
Hope”), experiências interessantes (“Weirdo”), singles evidentes (“Teenage
Icon”), mas, no final, o que pravalece é um “Está bem, e depois?”.
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The Vaccines
Áurea - Soul Notes **
Áurea soube aproveitar bem, muito bem mesmo, a sua primeira oportunidade para causar uma boa impressão. O disco com o seu nome, de 2010, vendeu que nem pãezinhos, algumas das suas canções estiveram na rádio durante meses, encheu salas por todo o lado e até teve direito a subsídio de Natal, com um inusitado disco ao vivo lançado fez agora um ano. O segundo disco, tradicionalmente um teste a qualquer artista pop, surge como natural extensão do primeiro e sem qualquer tipo de drama. Áurea e os autores só têm que fazer novas canções, de preferência que lembrem as primeiras, de forma a manter a máquina em funcionamento. Ninguém se lembrará de pedir inovação a um projecto que trabalha precisamente o conceito de pastiche. Ah, e as canções, como são? Pois... são quase iguais às primeiras. Com a diferença de que, agora, já não são surpresa e, na verdade, não há nenhuma com tanta graça como “Busy (For Me” e “Okay Alright”. Um pouco entediante, em suma.
Tori Amos - Gold Dust ****
Estava escrito nas estrelas e, por isso, o maior defeito deste disco acaba por ser a sua previsibilidade. A música de Tori Amos é de um classicismo evidente, seja pela própria criação, seja pela textura da interpretação vocal ou mesmo pela omnipresença do piano. Frutos de uma educação esmerada... Esta revisitação de canções de duas décadas de carreira acaba, pois, por não desarrumar excessivamente os originais, percorrendo caminhos de alguma segurança criativa. Não é por acaso que os arranjos foram entregues a John Philip Shenale, colaborador de longa data. O risco recai, pois, todo na selecção do repertório, que deixa de fora as canções mais conhecidas e opta por momentos de maior intimidade autobiográfica. Tudo somado, este disco acaba por constituir um catálogo demonstrativo das enormes capacidades criativas e interpretativas de Tori Amos. Canções como “Yes, Anastasia”, “Winter”, “Jackie’s Strenght”, ou a que dá nome ao disco, são disso exemplo.
Two Door Cinema Club - Beacon ***
Disco sound revisitado na era da música indie. Os norte irlandeses Two Door Cinema Club (TDCC) ultrapassam confortavelmente a maldição do segundo disco e atiram mais 11 peças para as pistas de dança. A receita, desvendada em Tourist History (2010), é simples: meia dose de electrónica, outro tanto de guitarras. Nem sempre com grande rigor – “Wake Up” soçobra às roupagens eléctricas, “Someday” respira guitarras por todo o lado. Ouvimos, por vezes, uns coros perfeitos a lembrar Fleet Foxes (!?), por exemplo, no início de “The World Is Watching” – uma grande canção, já agora –, outras vezes, a barreira de guitarras recorda os Strokes. Não vale a pena, porém, menosprezar a obra, remetendo-a às influências. Ou sequer limitá-lo ao evidente pastiche de alguma música dos anos 80/90. Este é material original. E, claro, bem mais profissional, elegante também, que o do primeiro disco.
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Two Door Cinema Club
Andrew Bird - Aula Magna
Ah, os encantos de Lisboa! Andrew Bird é apenas mais um dos
grandes nomes da cena musical contemporânea que se apaixonou pela cidade e que
viu tal amor correspondido. Já cá actuou muitas vezes, já cá passou uns dias,
deu conferências sobre escrita musical (!), já cá escreveu canções (“Tenousness”),
já cá se inspirou para canções “Lusitania” [buhhh... um erro que Bird rectifica na última edição do Ipsilon/Público]. E quando dizemos que se trata de um
dos grandes da música actual não estamos apenas a devolver a simpatia. Apesar
de não andar pelos tops, Andrew Bird é, de facto, um dos mais talentosos
compositores no activo, cruzando influências folk, pop, ciganas, clássicas...
Não se fica, porém, pela composição. É um intérprete de mão cheia, seja pela
voz melodiosa e bem colocada, seja pela faceta de multi-instrumentista, com o
seu quê de experimental, seja pelo famoso assobio, com que adorna muitas das
canções. Seja, finalmente, pelo empenho e criatividade que empresta às
actuações ao vivo. Assistir a um dos seus concertos é, desculpe-se a
redundância, um espectáculo. Porque Andrew Bird, irrequieto mas concentrado na
sua música, enche um palco, supreendendo o público e os músicos que o
acompanham com o modo como reinventa canções que originalmente já eram de grande
riqueza de composição e interpretação. Esta passagem pela Aula Magna centra-se
em Break It Yourself (2012) e no seu
complemento acabado de sair (Hands of
Glory), mas haverá certamente inúmeras viagens ao passado. Lisboa merece.
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The Walkmen - TMN Ao Vivo
É um caso de amor. Poderá ser até desconcertante, mas, como todos os
casos de amor, não tem grande explicação. Entre The Walkmen e os
portugueses há uma certa química, percebe-se que a corrente passa. E não
é nada evidente a razão para esse fascínio mútuo. Sentimo-nos, talvez,
atraídos por aquele lirismo de coração ao pé da boca de “The Rat”, o tema que melhor os identifica. E talvez eles revejam em nós os
românticos incorrigíveis que povoam as suas canções.
Delírios à parte, a verdade é que já são necessários os dedos das duas
mãos para contar o número de vezes que The Walkmen actuaram em Portugal,
desde que, em 2008, aqui puseram os pés (este ano, por exemplo, já
passaram pelo Porto, no Verão). E, claro, não há assim tantas bandas que
tenham traduzido a sua admiração por uma cidade no título de um disco
(Lisbon, 2010).
A digressão que agora os traz cá centra-se no mais recente CD, Heaven, que apresenta uma banda mais segura, mais cuidada na arquitectura das canções, mais atenta aos pormenores, com o que isso implica de perda daquela força radical dos primeiros tempos. Esperam-se, por isso, momentos de algum recolhimento – sendo que seria de bom tom não se cair no exagero de entoar “We Can’t Be Beat” de mãos no ar...
Não que o novo disco não tenha motivos para que Hamilton Leithauser rasgue a voz (“Heartbreaker”, por exemplo), mas deverão ser as velhas canções a puxar a locomotiva quando o Coliseu quiser explodir em movimento de celebração.
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The Walkmen
Calexico - Algiers ****
Algiers, esclareça-se, é um subúrbio de New Orleans e os
Calexico mantêm-se, portanto, no seu território habitual: o Sul dos Estados
Unidos, com os ouvidos e talvez a alma ainda mais a sul, México especialmente.
O sétimo disco desta banda do Arizona é o mais terreno de todos, com os pés na
terra. O som continua a perseguir caminhos de fusão, mas o experimentalismo e a
criação de ambientes têm vindo a dar lugar às canções. Só canções. “Epic”, por
exemplo, abre o disco com a mais perfeita marca de água dos Calexico – um poema
de amor arrebatado, melodia melodramática, encenação instrumental sempre
surpreendente. O resto é enamoramento das guitarras do norte com os trompetes
mariachis do sul, em “Vanishing Mind” ou “Puerto”, por exemplo. Ou as camadas
subterrâneas de latinidade em “Sinner In The Sea”, que vêm à superfície no belo
e doloroso “No Te Vayas”.
Poor Moon - Poor Moon ***
Impossível fugir à evidência – ouve-se Fleet Foxes a cada
esquina deste disco. Não apenas pelo facto de Christian Wargo (que assina todos
os temas) e Casey Wescott serem membros activos da banda de Seattle, mas
especialmente porque, tendo embarcado num projecto autónomo, não fazem o mínimo
esforço de distanciamento da banda mãe. O mesmo som etéreo, as mesmíssimas
harmonias vocais, o mesmo bucolismo. A grande diferença reside na intensidade -
à densidade gongórica dos Fleet Foxes respondem os Poor Moon com tecidos
sonoros de grande subtileza. Cada canção é tratada como uma pequena jóia, em
que instrumentos e vozes respiram com grande liberdade. “Bird”, uma quase
cantilena infantil, “Phantom Light”, que parece ter nascido num salão do
Renascimento, ou “Holiday” (já ouviram falar dos Belle and Sebastian?) são
apenas algumas das canções que, comparações à parte, valem bem uma audição.
Alanis Morissette - Havoc and Bright Lights *
Alanis, Alanis, isto era tão, mas tão, desnecessário. Quatro
anos sem disco novo – ou estavas a preparar alguma coisa em grande, ou estavas
simplesmente com falta de imaginação. Infelizmente, nada havia de grande para
mostrar. Grande, ou sequer pequeno. Não, apenas a repetição estafada dos mesmos
esquemas melódicos, a mesma lenga-lenga autobiográfica, um tanto masoquista.
Inventaste o duche escocês musical e não consegues sair disso – chegas de
mansinho, em jeito de balada para encantar incautos, e depois desatas ao berros
sobre um lençol de estridência neurótica, e depois ficas de novo mansinha, e
depois... Isto cansa, Alanis. Oito discos nisto! E há momentos particularmente
penosos, seja no registo balada (“‘Till You”), seja em coisas mais animadas,
mas insuportavelmente empasteladas (“Spiral”). Tão entediante... E o bónus de
um CD ao vivo em nada ajuda. Interpretação bera, som ainda pior. O que é isto,
Alanis?
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Band of Horses - Mirage Rock ****
Trabalho de sonho, este. Pegar numa banda, analisar-lhe as influências, depurar-lhe o som, reconfigurar tudo, de tal forma que o resultado seja a fórmula exacta de uma novidade que conhecemos há décadas. É o que faz Glyn Johns, o homem que produziu discos dos Beatles, Stones, Eagles, Ryan Adams... O trabalho, diga-se, era relativamente simples, já que os Band of Horses são uma banda bem ancorada na música americana. Glyn Johns retirou-lhe alguma da crueza dos discos anteriores (ainda assim audível em “Feud”, por exemplo) e reconduziu as canções às suas influências: “Dumpster World” (CSN, e depois Neil Young), “Sweet Cruel Hands of Time” (Eagles e America), “A Little Biblical” (Beach Boys)... O resultado é, obviamente, um som mais domesticado, mais comercial, apesar disso bem interessante, na medida em que se trata de um exercício claramente genuíno, nada forçado. Quarenta minutos de América, sem complexos.
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Minta & The Brook Trout - Olympia ****
Vitorino, o alentejano, passou há dias na televisão a dizer que “quando um português canta em inglês fica tristemente ridículo”. Vitorino, obviamente, nunca ouviu Francisca Cortesão, a voz que se esconde atrás do estranho Minta & The Brook Trout. Há razões culturais, mais que comerciais, ao contrário do que Vitorino pensa (!?) para que parte substancial de uma geração opte pelo inglês. Porque as canções que escrevem e cantam nada têm a ver com o local de génese, mas bebem antes directamente noutras tradições, no lado de lá do Atlântico. As canções dos Minta são devedoras do folk e da country e de toda música que daí deriva. E cuidam bem da herança. No activo desde 2008, este quarteto lança agora o segundo disco, muito mais seguro de si, com uma produção mais profissional, mas que deixa intacta a sonoridade caseira. A melancolia domina, mas a ironia surpreende e espreita amiúde. “Falcon”, “From The Ground” (belo dueto), “Future Me” são excelentes canções. Beautiful songs, Vitorino.
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Minta and The Brook Trout
David Fonseca - Seasons: Falling ***
A música pop nunca se deu muito bem com projectos conceptuais. A pop, rock se quiserem, vive de uma certa superficialidade, liberdade, fragmentação, que casa mal com as amarras de uma ideia estruturada. É claro que há excepções, que são isso mesmo – excepções. David Fonseca dedicou o ano de 2012 a uma ideia – dois discos, lançados na Primavera e no Outono, em que supostamente nos dá a ouvir o retrato dos seus dias durante um ano. O primeiro, Seasons: Rising, saiu em Março e era suposto conter o lado mais luminoso dos dias de David; este Seasons: Falling seria, então, o reverso, a melancolia, os dias curtos e cinzentos. Primeira constatação: o autor teve uma certa dificuldade em manter a coerência do projecto, não sendo evidentes as diferenças de tom entre os dois discos. De certa forma, tendo em conta a tal aversão da pop à organização em gavetas, é relativamente indiferente que a separação de águas não seja mais evidente. Aliás, só a elevada carga de marketing que acompanha cada lançamento de David Fonseca – atenção, isto é um elogio – nos leva ouvir ventos gélidos neste disco, em contraposição ao supostos raios de sol da primeira parte do projecto. Porque, se é verdade que o primeiro single All That I Wanted é uma balada serena e outonal, já o tema que o antecede (Monday, Tuesday, Wednesday, Thursday) transpira jovialidade por todos os poros, alegria apenas ensombrada pelo erro de casting do duo com a brasileira Mallu Magalhães (não se entenda o que canta, o tom não cola com o de David e da própria canção). Dito isto, assinale-se que o disco tem algumas boas canções e que o principal pecado seja o do perfeccionismo. Mas, conceito à parte, revela pouca ambição e David Fonseca parece ter dificuldade em libertar-se de esquemas melódicos e interpretativos demasiado batidos.
[versão não editada]
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Bob Dylan - Tempest ****
Dylan é a medida de Dylan e isso pode ser um problema. Falamos do homem que, há cinco décadas, estabeleceu cânones, não apenas na música, mas na cultura tal como a entendemos no sentido mais lato. O problema é que esse Dylan, sendo a medida de todas as coisas, não é repetível, ou sequer comparável, e não é suposto que do mesmo Dylan surjam novos cânones. Por isso, chega a ser desonesto o que muita imprensa anglo-saxónica tem feito por estes dias – sobrevalorizar Tempest e estabelecer comparações, por vezes canção a canção, com as obras-primas (não há que ter medo das palavras) dos anos sessenta. O Dylan de Tempest é o Dylan que muito cedo percebeu a armadilha de ser um mito vivo, recusou o altar, tropeçou uma e outra vez, naufragou em discos menores, para se reerguer encarnado de novo em trovador de amores urbanos, paisagens interiores devastadas e um certo desencanto com o mundo. Há uma década que assim é. O ciclo que musicalmente se poderá catalogar como de pré-rock, construído com sonoridades austeras de blues, rockabilly, country. O início de Tempest faz lembrar um velho programa de rádio em Onda Média e é assim que somos desafiados para uma viagem que nos levará a territórios maioritariamente obscuros. A tragédia do Titanic reinventada, ao ponto de colocar na acção original o Leonardo DiCaprio da versão cinematográfica. O amigo Lennon, mais que o músico, evocado através das suas próprias palavras. Uma “Pay in Blood” com riffs de guitarra roubados aos Stones. Uma “Narrow Way” encharcada de blues do Mississipi. Uma “Scarlet Town” feita valsa triste, desconjuntada. O violino, ou o acordeão, a acentuarem a toada melancólica. E depois os poemas, jogos de enganos, em que cada um ouve o que quer, nem sempre ouvindo o que ouvira antes. Mas em que nada se aproxima do sublime. Caso para dizer que Dylan está em forma. Sim, mas.
A voz triste da menina bonita - Norah Jones no Campo Pequeno
Norah Jones arrumou de vez o jazz e vai recriar no Campo
Pequeno a atmosfera delicada e contida dos dois últimos discos. Uma aventura
que apela à disponibilidade de quem a vai ver e ouvir
Aviso à navegação: esta Norah Jones é a nova Norah Jones, e
não a outra, aquela que tanto ouvimos no rádio e da qual (ah, sim, consultem os
arquivos) já andávamos todos um pouco enjoados, tal era a omnipresença sonora
de “Come Away With Me”, o megasucesso de estreia. Essa Norah Jones, talvez nem
fosse necessário recordá-lo, era uma miúda gira, de voz doce, exímia praticante
de um jazz ainda mais ligeiro que o de Diana Krall. Isso foi há uma década e a
rapariga – filha do sitarista Ravi Shankar, mandam as regras que se assinale –
arrecadou nessa altura uma data de grammys, isto para não falar dos dólares. O
encanto manteve-se e tivemos direito a nova dose dois anos depois, com o disco Feels Like Home e o novo megasucesso
“Sunrise”. “Sunrise, sunrise...”, lembram-se?
Pois, essa Norah Jones já não existe e convém que os mais
distraídos tomem disso boa nota, porque esse é um facto relevante para o que
aqui nos traz. A miúda tinha 23 anos quando ficou com o mundo a seus pés e – qualquer
terapeuta o comprovará –, muito aguentou ela, que o sucesso não é coisa de
fácil digestão. Mas, é a lei da vida, há idades tramadas e – desculparão a
incursão tablóide pela intimidade da artista – as miúdas giras apaixonam-se (as
outras também, mas isso não vem agora ao caso) e nem sempre as coisas correm
bem. São as dores do crescimento. Interior.
Chegamos assim a 2009. O jazz (já vos tinha dito que Norah
escrevia o que interpretava?) fica para trás e, coração perturbado, novos
trilhos musicais se apresentam. Eis-nos em pleno território pop, devedor,
embora, de alguma atmosfera indie. Dois discos – The Fall e Little Broken
Hearts, já deste ano – cunham uma nova Norah. As canções são mais íntimas,
mais sofridas, menos luminosas, autobiografias de males do coração. E vestem-se
de roupagens, digamos, menos simpáticas (há lá coisa mais agradável que o jazz
ligeirinho?). As guitarras, na primeira incursão, e a electrónica, na versão
deste ano pela mão de Danger Mouse, dominam as canções. É esta Norah Jones que
agora aparece por cá.
Miúda tímida – é verdade! – canções íntimas e atmosféricas. É
isto Norah Jones ao vivo nos dias que correm. Os sucessos dos primeiros anos, a
crer no alinhamento que já a acompanha desde América e a deverá levar ao resto
do mundo, ficam para os encores, o
que poderá ser uma autêntica chave de ouro para muitos dos que vão passar pelo
Campo Pequeno.
Os outros, espera-se que sejam a maioria, certamente irão à
procura da reinterpretação das texturas delicadas dos dois últimos discos. E é
nesse território que o concerto deve ser apreciado. Norah Jones canta, bem como
sempre, e acompanha-se ao piano e na guitarra, com o apoio de uma banda de
quatro músicos de estrutura pop clássica.
O sucesso de um concerto depende, por vezes, da empatia que
se gere entre quem está no palco e quem assiste. Já percebemos que Norah Jones
está numa fase particularmente sensível, de abertura a novas sonoridades,
experiências. Por uma vez, a dúvida está do lado de cá – é isso que esperam
muitos dos que a vão ver e ouvir?
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Norah Jones
Cat Power - Sun ****
Este disco é energia pura. Anuncia-se isso nas tonalidades eléctricas da capa, mas é a vitalidade das canções que o confirma. Há referências sombrias atribuíveis, talvez, à tristeza afectiva da autora (os amigos que se perdem e não voltam mais, em “Manhattan”), ou ao estado de desânimo global (estamos sentados em ruínas, canta ela em “Ruins”). É verdade. Mas este disco está mais para abrir uma nova fase que para lamuriar os amargos do passado. Certamente que não conseguimos quebrar as amarras da condição humana (“Real Life”, ou “Human Being”), mas ninguém nos pode proibir de aspirarmos ao estatuto de super-heróis (“Nothin’ But Time”). Este é, afinal, o disco de libertação e renascimento de Cat Power. Para trás fica a fase mais intimista e artesal do início e a neo-soul de que The Greatest (2006) foi o expoente máximo. Neste Sun, que já andaria a amadurecer há meia dúzia de anos, mas que levou um empurrão decisivo já em 2012, surge-nos uma Cat Power sozinha em estúdio, a compor tudo, a tocar (quase) todos os instrumentos, a cantar talvez da forma mais segura que já lhe ouvimos – embora sem perder aquele grão que encanta –, finalmente, a produzir. As guitarras ficam quase esquecidas (“Cherokee” é uma razoável excepção), o piano reduz-se praticamente à marcação do ritmo, e o palco fica para os sintetizadores, caixas de ritmos, e similares. Espantoso é que a intensidade com que é usada toda essa electrónica deixa espaço para uma arquitectura musical essencialmente subtil, em que tudo respira e toda a respiração nos é dada a ouvir. Exemplo supremo disso mesmo é “Nothin’ But Time”, uma peça de 11 minutos, com Iggy Pop no papel de convidado, e David Bowie da fase Low a pairar como referência explícita (“it’s up to you to be a superhero”).
VVAA - Just Tell Me That You Want Me (A Tribut to Fleetwood Mac) ****
Que é como quem diz, oiçam sem preconceito. Os mais novos,
os admiradores de MGMT, Antony, Lykke Li ou St. Vicent, provavelmente nem
sequer se lembram dos Fleetwood Mac (FM), ou, na pior das hipóteses, já lhes
passou pelos ouvidos uma música empastelada, razoavelmente aborrecida. Os
outros, os do tempo dos FM, talvez nunca se imaginassem a ouvir Karen Elson,
Washed Out, Best Coast. E é aí que está a graça de tudo isto, nesse festival de
equívocos que, por uma vez, tem um final feliz. Comecemos pelos FM. Poucos
grupos tiveram tantas e tão diversas encarnações, do blues feito em Inglaterra
à pop mais comercial de Los Angeles. Andaram pelo Olimpo, artístico e
comercial, na segunda metade dos anos 70, e depois cavalgaram essa glória muito
para lá dos limites do razoável e audível. Depois, este disco, homenagem
assumida de um cruzamento de gerações. Dos antigos, há dois momentos muito
altos: “Oh Well”, dos blues iniciais de Peter Green, numa versão arrastada de
Billy Gibbons (ZZ Top), e “Angel”, de que Marianne Faithfull se apropria de
forma soberba. Dos mais novos, o destaque vai para Likke Li e uma seguríssima
reinterpretação de “Silver Springs” que tem o grande mérito de nunca descolar
verdadeiramente do original, para o intimismo de Antony em “Landslide”, ou para
a forma como os Best Coast retiram “Rihannon” aos lençóis de penumbra a que
Stevie Nicks a submetera e a trazem para a luz da pop dançável. O resto não tem
muita história. Talvez assinalar o falhanço da versão de Karen Elson de “Gold
Dust Woman”, ou a irrelevância de “Sisters Of The The Moon” às mãos e vozes de Craig
Wadren e St. Vicent. Porém, ao contrário do que é habitual neste tipo de
tributos bem intencionados, o balanço resulta francamente positivo.
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Fleetwood Mac
Tiny Ruins - Some Were Meant for Sea ***
Por vezes é necessário regressar às coisas simples. Uma
guitarra acústica, um piano aqui ou ali, coros esparsos, umas cordas ainda mais
discretas e uma voz que encanta. Pelo timbre, uma espécie de Cat Power mais bem
comportada, mas especialmente pelas histórias que conta. Embrenhamo-nos em
aventuras náuticas, histórias de encantar, personagens inquietantes, coisas
indizíveis. Hollie Fullbrook, o nome que se esconde sob Tiny Ruins, nasceu em
Inglaterra, vive na Nova Zelândia e gravou o primeiro disco na Austrália (na
verdade, há dois anos já tinha gravado um EP, em... Barcelona). O sucesso, helas, tem vindo em ondas. Primeiro, nos
antípodas, depois na Velha Albion e agora na Europa. As canções devem quase
tudo às velhas tradições folk, mesmo que às vezes pudessem ser uma espécie de soul sem sal (“You’ve Got The Kind Of
Nerve I Like”). Mas, é claro, as baladas mais intimistas (“Pigeon Knows”)
imperam.
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Tiny Ruins
Antony and The Johnsons - Cut The World *****
Esqueçam tudo o que ouviram de Antony até agora. Os quatro discos de originais eram apenas esboços, ensaios para esta magistral celebração de génio musical e entrega dramática. É impossível voltar a ouvir essas “velhas” canções e não sentir que podiam ser melhores. Como aqui.
Neste CD, gravado ao vivo – embora não pareça, tal é o rigor da interpretação -, Antony revisita 11 das suas melhores canções, acompanhado pela Orquestra de Câmara Nacional da Dinamarca. Não é a primeira vez que se faz acompanhar por uma formação clássica e nos discos de estúdio há apontamentos frequentes de cordas, por exemplo. Mas aqui trata-se de outra coisa. Estamos perante uma abordagem radical, com orquestrações especialmente concebidas para cada canção e que nada devem às concepções de alguns dos maiores compositores da chamada música clássica dos dois últimos séculos (Manuel de Falla, por exemplo, em “Kiss My Name”). Verifica-se, pois, uma transfiguração de todas as canções, não havendo lugar para qualquer dos instrumentos típicos do pop. Mas essa abordagem, que outros já tentaram e que poderia resultar banal, cria momentos de extraordinária beleza, não apenas pela criatividade dos arranjos (“I Fell In Love With a Dead Boy”), mas especialmente pela forma como eles se cruzam com a voz de Antony, abrindo espaço a uma interpretação ainda mais virtuosa e dramática do que nos originais (“Rapture” ou “Epilespy is Dancing”.)
A canção que dá título ao disco é original e foi composta para a peça “The Life and Death of Marina Abramovic”, de Robert Wilson. E há ainda um longo monólogo, em que Antony se rebela contra o domínio masculino do mundo e faz votos para que o futuro seja feminimo, com algumas incursões bem humoradas pela religião. Um manifesto claramente político, mas que aborda com a mesma ternura que coloca nas canções e que o torna realmente único.
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Ry Cooder - Election Special ****
Os tempos, diria o saudoso Zeca, estão de vir para a rua
gritar. Foi isso que Ry Cooder decidiu fazer, de forma muito explícita, com Pull Up Some Dust and Sit Down (2011), manifesto
contra a ganância financeira, corrupção política e coisas conexas. Um ano
depois, nova colecção de temas bem esgalhados, com um mote óbvio: Election Special (EUA, Novembro). A
primeira canção (“Mutt Romney Blues”) declara a guerra - uma sátira sobre o
candidato conservador, baseada num famoso episódio de maus tratos ao cão da
família... O humor, sempre corrosivo, é uma constante; a base musical, a de
sempre – blues, folk, tex-mex. O blues arrastado da solidão da Sala Oval
(“Cold, Cold Feeling”), a memória involuntária de quando Cooder era músico de
estúdio dos Stones (“Guantanamo”), o recrutamento militar (!) nas escolas
secundárias (“The 90 and the 9”), a reinvenção do “This Land” de Guthrie (“Take
Your Hands Off It”).
The Tallest Man On Earth - There’s No Leaving Now ***
Por mais voltas que se dê, não há escapatória – tudo em
Kristian Matsson soa a Dylan. Deve acontecer a muitos suecos, presume-se, isto
de perseguirem doentiamente modelos anglo-saxónicos. Daí, talvez, o sucesso
sueco, ou talvez mesmo o resultado menos agradável, todos aqueles livros e
filmes negros. The Tallest Man On Earth,
assim modestamente se apresenta Kristian, não é pera doce de se roer. Tem a voz
nasalada, o dedilhar de guitarra e aquela urgência de Dylan, mas tem igualmente
uma escrita densa e sombria, plena de referências naturalistas, de sentido
frequentemente obscuro. Neste terceiro disco, damos graças quando chegamos a
meio e, na canção-título, o piano substitui a guitarra acústica obsessiva,
mesmo que, mais à frente, talvez a melhor canção do CD (“Little Brother”)
regresse ao modelo guitarra-Dylan/voz-Dylan. Em suma, está ligeiramente mais
redondo que as gravações anteriores, mas mantém o tom caseiro.
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The Tallest Man On Earth
Fiona Apple - The Idler Wheel... *****
Onde acaba o piano e começa a percussão? Onde acaba a raiva e começa a ternura? Esse é um jogo que Fiona Aplle não nos deixa jogar. Ela é a dona do jogo, joga como quer (são conhecidos os seus desencontros com produtores e editoras…). A nós resta-nos assistir – e “assistir” é a palavra certa quando se fala desta arte -, mesmo quando o ritmo parece chamar-nos, como em “Left Alone”, uma canção que deve tanto ao jazz, como à (bom, mais ou menos…) assumida loucura de Fiona. Estamos num território de pura liberdade, de criatividade sem barreiras. Poderíamos convocar Joni Mitchell, Regina Spektor ou Cat Power, ora como influências, ora descendências, ora aparências. Mas seria sempre menos que Fiona. “Valentine”, por exemplo, é uma dessas canções de amor/desamor em que os fantasmas andam à solta e fazem das suas. E o leve e quase imperceptível coro de “Periphery” está ali só para nos lembrar que há uma “normalidade” algures, mas não aqui.
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Fona Apple
Neil Young with Crazy Horse - Americana **
Passa-se tudo pelo liquidificador e já está. É assim o tão aguardado regresso de Neil Young com os Crazy Horse, após uma década de silêncio. Não é, portanto, um disco, mas antes uma lição de culinária cujos resultados deixam muito desejar, mais por incompetência do chef que por desatenção dos aprendizes. Os Crazy Horse, todos o sabemos, têm um som muito característico, basicamente guitarras amontoadas e distorcidas. Isto tem funcionado razoavelmente porque – e esse talvez seja o segredo! – a banda impõe-se a si própria longos silêncios, em que Neil Young (e nós…) aproveita para respirar. E a ideia deste CD até parece boa – aplicar essa sonoridade agreste a uma dúzia de tradicionais americanos. Mas, ouvidas as duas investidas iniciais (“Oh Susannah” e “Clementine”), percebemos o filme: há por aqui uma dose considerável de preguiça. Sensação que, apesar de ou outro pico, se mantém até à última versão. Vai, pois, para a coluna das curiosidades e bizarrias.
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Neil Young
Antony no Cascais Music Festival
A tese explica-se facilmente. Antony está convencido de que foi o domínio masculino que nos conduziu à estagnação e à desordem da sociedade actual. E que só um sistema de governo feminino poderá repor o equilíbrio. A tese é desenvolvida num longo monólogo de sete minutos (“Future Feminism”), a segunda faixa do seu novo disco, Cut The World, a editar em Agosto. Trata-se de uma gravação ao vivo, que revisita alguns temas dos quatro discos de Antony and The Johnsons, mas com acompanhamento de orquestra. É precisamente esse conceito que Antony Hegarty vai trazer a Cascais – aqui acompanhado pela Sinfonietta de Lisboa –, naquele que promete ser um dos concertos do ano, não apenas pelas capacidades vocais e dramáticas de Antony, por algumas das mais belas canções escritas nas últimas décadas, mas também pela supresa que são sempre os seus espectáculos. Antes de encerrar com a chave de ouro de Mariza – regressada em grande forma e a caminho de actuar nos Jogos Olímpicos – o Cascais Music Festival ainda cumpre o cerimonial obrigatório de nos apresentar os Pink Martini, aquela confusão de jazz, sons latinos e outras coisas superficialmente agradáveis, sem as quais o Verão teria menos charme.
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Concertos
The Walkmen - Heaven ****
A verdade é que estamos todos um pouco mais velhos, diria o inevitável La Palice. Apesar de tudo, uns mais velhos que outros, que isto da idade tem os seus segredos, especialmente na forma de a cortornar. A idade é precisamente o tema central na abordagem do novo disco dos Walkmen. Desde logo porque os rapazes decidiram encher a capa de criançada, em ambiente descaradamente familiar, no disco que marca o décimo aniversário da banda e que se chama Heaven, palavra demasiado celestial para a rebeldia que lhes colávamos. Um equívoco, na verdade. Porque do que gostamos mesmo nos Walkmen – e não é por acaso que a maioria dos seus seguidores em Portugal não são propriamente adolescentes... – é da rebeldia estudada, a pose da rebeldia. Uma rebeldia em nosso nome, os acomodados. Heaven é, apesar de tudo, um gesto de clarificação. Continuam lá as guitarras primárias, pouco mais que riffs ou um dedilhar encantatório, a voz entre o balbuciar e o desespero do grito, uma atitude que tanto remete para os anos rock’n’roll, como para o punk, o que é mais ou menos a mesma coisa. Mas agora os Walkmen estão felizes e não é suposto que os rebeldes o sejam. A tal contradição que sempre lá esteve, e que só agora se torna evidente. Teorias à parte, eis uma dúzia de canções vibrantes, das quais é difícil destacar uma. Talvez a abertura, “We Can’t Be Beat”, uma balada acústica, coros à maneira, que evolui para um cântico de recorte celebratório. Ou, quase ao calhas, “Heartbreaker” ou “The Love You Love”, duas composições que evidenciam todo o ADN da banda. Ou, na faceta mais adulta, a mais que sóbria “Southern Heart”, uma voz solitária que ecoa sobre um quase imperceptível fundo de guitarra acústica. Estão, de facto, mais crescidos.
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The Walkmen
Sigor Rós - Valtari ****
Este é um disco que se ouve bem no Youtube. Os Sigur Rós
convidaram uma série de cineastas para criarem vídeos a partir de cada uma das
canções deste Valtari e o resultado, como se adivinhava, é espantoso. Se cada
uma das canções já remete para territórios oníricos muito próprios, imagine-se
tudo isso fantasiado em imagens, que cobrem a música de mais algumas camadas de
imaginação. O caso mais espantoso talvez seja a recriação de Fjogur Píanó por Alma Har’el, de uma
muito particular e intensa beleza. Sem imagens, recomenda-se vivamente Varúõ, uma coisa quase religiosa, entre
várias camadas vocais, momentos de grande serenidade e um explosão a remeter
para os grandes espaços. O resto do disco é para sorver tranquilamente, quase
em melancolia. Após cinco anos de silêncio, os Sigur Rós regressam aos
primórdios das texturas e do paisagismo melódico. Obviamente que não é para
todos.
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