Devendra Banhart - Mala ****

O Devendra andou desaparecido quatro anos, mas, descansem os fãs, não se curou. Está o mesmo maluco de sempre. Aliás, poucos malucos haverá na música actual com tal consistência, mas também com tal liberdade, provavelmente porque não a souberam conquistar. Este disco tem tudo o que já lhe conhecíamos – psicadelismo folk, digamos –, mas acrescenta movimentações no campo da electrónica, que só não desconcertam porque acertam, encaixam no espírito de vale tudo que é a marca de água de Devendra. ‘Your Fine Petting Duck’, um dueto em inglês e alemão com a namorada/designer sérvia Ana Kras, é a prova acabada disso mesmo, uma canção, afinal duas, dual também na ironia com que trabalha o tema do amor (I’ll take you back/cause I don’t really love him), que, de resto, está presente ao longo de todo o disco. Só isso, a ironia, o humor, torna a audição deste disco num exercício que faz bem à saúde. Mental.

Márcia - Casulo ***

Pode uma canção crescer, crescer e... entrar num beco sem saída e nunca ser verdadeiramente canção? Pode, claro. Este disco abre com uma dessas, e tem outras. Há por aqui um assumido desejo de contenção, que acaba por se transformar na armadilha que corta as asas à segunda aventura de Márcia em disco grande. É pena, porque, pelo que já fez, podia, devia e merecia fazer melhor. Sintomática é a escolha de “Deixa-me Ir” para primeiro single, canção mortiça, que só ganha força no clip de Miguel Gonçalves Mendes (José e Pilar), melancólica panorâmica sobre um “país que definha” às mãos da troika. Márcia, convém lembrar, chega a este disco com dois trunfos de peso: o êxito de “A Pele Que Há em Mim”, com JP Simões, e a autoria de “Até ao Verão”, o single de promoção do mais recente Ana Moura. Daí a expectativa, depois de uma estreia muito promissora (Dá, 2010). Deste novo capítulo esperar-se-ia mais que canções bonitas, ambientes de grande beleza e sofisticação (“Desmazelo”), poemas consistentes. Tudo competente, muito certinho, sim, mas mediano, sem a vontade de voar mais alto, sem que isso significasse sair do registo. “Delicado”, na mesma linha de “Até ao Verão”, vai por aí, mas pouco acompanhado.

Luísa Sobral - There's a Flower in My Bedroom ****


E no fim foram tristes para sempre. Tristes mas felizes. É assim este disco: histórias de amor que acabam sempre mal, mas que nos são contadas com alegria. Por exemplo, ‘As The Night Comes Alone’ fala-nos de uma rapariga que imagina coisas, namorados mais precisamente, mas que na realidade vive na mais absoluta solidão. Acham que isto nos é contado com choraminguices? Qual quê!? Swing e mais swing e um tralala final que até abana. E (quase) todo o disco é assim. Triste por dentro, alegre por fora. Porque – nota-se – estas 17 (!) canções devem ter dado um gozo do caraças a compor e a gravar. E só isso bastaria para ganhar o desafio do segundo disco. Depois do sucesso (mesmo internacional, helas) da estreia com There’s a Cherry On My Cake (2011), Luísa Sobral resolveu dar um passo atrás e as canções estão agora mais expostas na sua estrutura: há jazz mais jazz (‘The Letter I Won’t Send’) e pop só pop (‘Mom Says’). E mesmo coisas que parecem saídas de um Brasil pré-bossa (‘Inês’, com António Zambujo, ou “Quando Te Vi”). Há convidados estratégicos (Jamie Cullum) e outros que alargam horizontes (Mário Laginha) e a estranha pronúncia de Luísa, seja em português ou inglês. Ligeirinho? Sim, e qual é o problema?

Mazgani - Common Ground ****


Música telúrica e orgânica. Porque parece brotar directamente das entranhas da terra, porque nela se torna impossível perceber onde acaba o corpo e começa o som que ele emite. O terceiro disco de Mazgani, EP à parte, apresenta-nos um artista maduro, finalmente envolto na sonoridade adequada às canções densas e subtis que escreve. É um disco dominado pela voz, que domina as canções. Ou, se quiserem, exactamente o contrário. E um disco de guitarras, que estando sempre presentes, nunca se impõem à voz e às canções. Ouça-se, por exemplo, ‘Common Ground’, a canção que encerra o disco. São cinco minutos de voz ininterrupta, voz e respiração, no tal jogo orgânico de investimento total do corpo. Atente-se na tensão daquela voz, daquele corpo, que se entrega todo ao “fogo que incendeia os lençóis brancos da lua” e que percorre uma espiral encantatória, a que uma guitarra quase distraidamente dedilhada e uma tuba quase silenciosa se limitam a emprestar o terreno de progressão. São, seguramente, dos mais belos cinco minutos dos últimos tempos. Ouça-se agora “Blow Wind”, a face mais telúrica do disco. Uma cantilena encantatória, com o trémulo das guitarras a soprar visualmente sobre um deserto quente e seco. A dança do vento. E ouça-se, claro, “Dog at your Door”, apenas para que se entenda a raiz de tudo isto: os blues duros e crus, as inconstâncias do coração. E as baladas, líricas, comoventes: “Into the River”, ou “Hold me a While”, com os metais a invadirem declaradamente a placidez das guitarras. Artesãos por detrás de tudo isto? Mazgani, o iraniano de Setúbal e do mundo. John Parish (PJ Harvey) e Mick Harvey (Nick Cave), na produção e instrumentos. Gravado em Bristol, para ouvir em todo o lado.

Mumford & Sons


O sucesso dos Mumford & Sons construiu-se na estrada. Em sete anos de carreira, lançaram apenas dois discos – Sigh No More (2009) e Babel (2012) –, mas deram milhares de pequenos e grandes concertos, em casa e depois na América, e foi aí, ao vivo, que a fama singrou. Porque esta música funciona bem é em pubs, onde há muito tempo nasceu, ou em grandes e pequenas arenas, que a banda enche de banjos vibrantes e coros gritados. Uma festa, portanto, como Lisboa já comprovou, no Verão passado, no Optimus Alive. 2013 foi, de resto, o ano de ouro dos Mumford & Sons (M&S), com uma digressão de sucesso avassalador nos EUA, culminando no Outono, com o segundo disco a entrar directamente para os primeiros lugares dos tops e a vender que nem pãezinhos quentes, na América e no resto do mundo. Já no início deste ano, surgiria a consagração e os M&S a receberiam o galardão de melhor disco para Babel na cerimónia dos Grammys. Há que se lhe tirar o chapéu – poucos se atreveriam a prever tal sucesso, quando, nos primeiros anos, faziam o circuito da música alternativa no Reino Unido, com um som um tanto inusitado: a recuperação do folk acústico, sustentado quase integralmente em guitarras, banjos e harmonias vocais, que contavam (e contam) histórias de amor com frequentes referências religiosas. Terá sido, pois, a persistência e o tal ambiente de festa quase encantatória que criam em palco que lhes garantiu o lugar de destaque que agora ocupam. É claro que se trata de um estilo com as suas limitações e o grande desafio dos M&S será manter a máquina em funcionamento por muitos e bons anos. Para já, nada mais se lhes pede que repitam em Lisboa o apelo ao coro do público, talvez ao isqueiro (iphone?) nas baladas e, seguramente, uns saltos em alguns dos temas mais conhecidos. É dia de festa e não a vamos estragar com ideias sombrias sobre o futuro, pois não?

Patrick Watson + Perry Blake


Uma noite de construção de paisagens sonoras na Avenida. Patrick Watson, já conhecemos, com aquela cacofonia organizada que se tornou imagem de marca. Perry  Blake a surpreender, com um projecto radicalmente diferente daquilo a que nos habituou. Deixemos as surpresas para o fim. Patrick Watson traz a Lisboa um concerto vastamente rodado na América, construído em torno do último disco, Adventures in Your Own Backyard. Acontece que, nesse CD de prolongada maturação doméstica, o canadiano experimentou um novo conceito: tentar captar em estúdio a criatividade exuberante dos espectáculos ao vivo. Uma inversão de processos, que tornará menos surpreendente o exercício de palco, apesar disso muito recomendável, tendo em conta o rasto de imaginação que o portugueses tão bem conhecem. Perry Blake, outro habitué destas paragens, traz agora o seu novo projecto, Electro Sensitive Behaviour, do qual pouco se conhece – o disco só sai daqui a umas semanas -, apenas que se trata de electrónica pura e dura. Resta saber se o projecto abarca apenas as novas canções, ou se irá reciclar aquelas coisas melodiosas com que o irlandês se estabeleceu nas margens menos comerciais da pop.

El Perro del Mar - Pale Fire***

A amor, como sabem, é uma treta. Dancemos, por isso. Ou a isso. Tivessem ainda os discos mensagem e esta seria a de Pale Fire, quinto exercício da sueca Sarah Assbring, El Perro del Mar por vontade própria. Há uns anos que ela canta esse tal amor, uma espécie de miragem que sempre se desvanece na hora em que a alcançamos. Um fogo pálido. Este disco aprofunda o movimento iniciado com Love Is Not Pop (2009), com a rendição à electrónica, mas inflecte decididamente para territórios de dança. Uma espécie de revisitação da década de 1990, a que não faltam todas as expressões que a partir daí se enraizaram: dub, house, hip-hop... Destaque para os três temas que ocupam o zona central do CD (Walk On By, Love In Vain, To The Beat Of a Dying Heart), três temas bem conseguidos, em que a amargura do tal maldito amor é filtrada por caixas de ritmo, teclas estranhas e coros obsessivos. Coisa quase a merecer um novo movimento – urbano-melancólicos?

Vitorino Voador - Vitorioso Voo **

Primeiro estranha-se. E depois também. Mesmo que pelo meio alguma coisa se entranhe, como a batida, a história, o refrão de – tinha que ser – “Carta de Amor Foleira”, o tema que antes de aqui estar já se ouvia, mercê da compilação de Novos Talentos da FNAC. É difícil perceber o que soa mais estranho neste disco. A voz monótona, sem espessura, multiplicada e distorcida em estúdio? As letras directas, por vezes sem poesia, por vezes de métrica desajustada? A composição, minimal, monótona também? Os instrumentos, a lembrar um elefante em loja de brinquedos? Tudo, na verdade, muito estranho, desconcertante, e por vezes desconfortável, até desagradável – por exemplo, o contraste entre os sintetizadores martelados e a voz monocórdica em “Que Sítio É Este”. João Gil, músico de vários projectos (Diabo na Cruz, Feromona, You Can’t Win Charlie Brown...), num primeiro disco montra de experiências sonoras peculiares.

Pedro Cardoso - Mirrors ***


Os espelhos apenas mostram a parte mais triste de ti. Há uma melancolia, talvez até mais que isso, que atravessa estas canções e que as afasta de qualquer comparação mais apressada com o Jack Johnson do surf, ou mesmo com John Mayor, o ídolo confesso de Pedro Cardoso. A postura vocal parece remeter para esses terrenos pós-adolescentes, mas as canções estão demasiado cheias de “pain” e “rain” para se conterem em tal território. A estas canções falta-lhes talvez um pouco mais de produção, que lhes não retirasse a textura quase doméstica e confessional, mas que lhes conferisse uma entidade mais marcada, que desenvolvesse um contraponto mais luminoso a essa voz que, apesar de bela, tende para a monocórdico. Assim, como estão, soam todas excessivamente ao mesmo. Ou seja, talvez que, após dois EP em menos de um ano, Pedro Cardoso merecesse um disco de maior fôlego. De consagração, mas, acima de tudo, de teste.

Mark Eitzel - Dont’t Be A Stranger ****

“We All Have To Find Our Own Way Out”, por exemplo. São 4 minutos e 20 de piano e voz. Suaves. Mas em que se canta a solidão, o desespero, o suicídio. Tudo muito serenamente. Ou, logo na abertura, quando Mark Eitzel canta “she wrote I love you, but you’re dead”, numa canção que quase poderíamos considerar pop, pela escrita escorreita e pelos arranjos, do mais tradicional deste disco, baixo, guitarras, bateria. Sim, é de canções que aqui se fala. De canções muito bem construídas, de recorte tradicional, mas pela quais se vão infiltrando derivações inesperadas, encantatórias. Seja pelo que nelas se canta, reflexões de vida raramente luminosas, seja pelas texturas musicais que nos vão surpreendendo, sem nunca quebrar o frágil fio delicado que as tece. Porque, se é verdade que este disco marca o regresso de Eitzel ao traballho em banda, não é menos certo que por vezes nem se dá por ela, a banda, tal a subtileza dos tecidos que desenha. Há coisas de pura beleza, como “All My Love”, uma reinterpretação à volta do piano de um tema dos American Music Club (2008). Outras surpreendentes, como a barroca Break The Champagne (já ouviram um Marxophone? Procurem-no no Youtube...). Outras simplesmente grande canções, sem mais nada, como “Oh Mercy”. Este é, pois, um disco de canções, e também de uma banda. Mas é também o de uma voz. E muito se tem dito e escrito sobre a voz de Mark Eitzel, agora mais frágil, supostamente por causa do brutal ataque cardíaco de há dois anos. A verdade é que, seja qual for a razão, essa fragilidade vocal assenta que nem uma luva à melancolia temática e subtileza conceptual do disco. Enfim, um regresso em grande de um dos nomes marcantes das últimas décadas da indie, em nome próprio ou integrado nos intermitentes American Music Club.

Nick Nicotine’s Mystical Orchestra - Gypsicalia ****

Uma banda de ciganos brasileiros que pratica música americana numa oficina abandonada no Barreiro. Está bem visto, mas não é totalmente verdade. Os ciganos estão apenas no título do disco e talvez no ambiente de festa descontrolada que toma conta das canções. Já brasileiros, há-os. Marcelo Camelo, na voz de “Tropic of Capricorn”, um tema que vai sendo corroído por dentro pelo tropicalismo, para acabar em qualquer coisa que mistura o samba e a morna. Brasileiro, ainda, Alex Kassin, que empresta a pedal steel guitar a um dos temas mais alucinantes do disco, “Sunny Day”, uma divertida e muito sentimental valsa surfista. Mas o disco é essencialmente Nick Nicotine, uma voz soberba, uma fabulosa imaginação e um jeito muito especial para encenar canções, sempre agarradas a uma base blues (espantosa, “Breathless”, uma espécie de Elvis meets Beach Boys meets Springsteen meets etc), mas que voam em delírios, por vezes psicadélicos (“Bodhi and Utah”), que aos mais antigos recordarão a atitude e a sonoridade de Frank Zappa. “Hit Me Like The First Time”, rock’n’roll bem esgalhado, ainda remete para um Nick que conhecíamos de discos anteriores, mas o resto é bem mais solar, produzido, divertido. A merecer cada vez mais atenção.

Mumford & Sons - Babel (Gentleman Of The Road Edition) ***

E ao segundo disco Marcus Mumford volta a pronunciar a palavra “fucked” numa canção. Provavelmente é um “cameo” musical, como aquela cena de o Hitchcock surgir em pequenas cenas em todos os seus filmes. Sendo assim, vamos ter “fucked” em barda nos próximos tempos, tal é a vontade da banda de manter em funcionamento a galinha dos ovos de ouro que lhes caiu nas mãos há uns anos. O sucesso dos M&S é um evidente exagero e resulta de um peculiar alinhamento de circunstâncias. Desde logo, é impossível ouvi-los sem nos virem à lembrança os muito bem sucedidos Arcade Fire, embora aqui num registo bem mais pobre. Depois, eles preenchem aquela necessidade permanente que temos de regressar às origens, às coisas simples, o que em música quer quase sempre dizer “folk”. Finalmente, e contradizendo o ponto anterior, a música deles funciona gloriosamente em grandes espaços, havendo por isso quem compare a sua atitude em palco com os U2. Mas, na verdade e em resumo, a música dos M&S é um tanto monótona – baseada quase integralmente em guitarras acústicas e banjos, harmonias vocais repetitivas, os mesmos esquemas rítmicos e os mesmos crescendos pensados para os palcos, o insistente cruzamento da temática religiosa com os assuntos do coração. E é indiferente que falemos do primeiro disco (Sigh No More, 2010) ou do segundo, tal é semelhança dos dois objectos. Voltamos a encontrar aqui as grandes canções de estádio (“Lover Of The Light” e “Hopeless Wanderer”), mas também as baladas para quebrar a festa (“Ghosts That We Knew”). A edição que agora chega às lojas é bem o espelho da grandiosidade em que rapazes navegam. O Babel original foi acrescentado de três extras (um deles, “Boxer”, de e com Paul Simon) e ainda de mais um CD e um DVD que recolhem a digressão em que o grupo mergulhou nos últimos anos e na qual foi experimentando algumas das canções do segundo disco. Uma edição para coleccionadores.

Rodrigo Leão - Songs (2004-2012) ****

O Álvaro, já se sabe, aposta no pastel de nata. O que, sabendo bem, sabe a pouco. Nada, pois, como diversificar. Rodrigo Leão pode ser uma alternativa, ou até uma via paralela. Falamos, claro está, de economia e da necessidade extrema que temos de fazer dinheiro, de preferência lá fora, onde ele existe. Este Songs 2004-2012 é claramente um objecto exportável, tanto mais que Rodrigo Leão não é propriamente um desconhecido em talvez mais países que o pastel de nata. O disco reúne canções cantadas em inglês dos discos Cinema (2004), A Mãe (2009) e A Montanha Mágica (2012), a que se juntam três originais, sendo que um deles, o instrumental “Lost Words”, é a excepção que valida a regra. Em resumo, estamos perante a faceta mais pop de Rodrigo Leão, sendo que, no seu caso, pop não significa necessariamente ligeireza. Apenas uma abordagem mais de acordo com os cânones vigentes, embora nunca dispensando a carga neoclássica e minimalista que é a sua marca de água. As boas companhias - outro argumento de exportação – contribuem fortemente para a fixação da identidade dramática de Rodrigo Leão, seja pela intensidade de Beth Gibbons (“Lonely Carrousel”), ou de Scott Matthew (que assina e canta um dos inéditos, “Incomplete”), ou pelos registos tão característicos de Neil Hannon ou Stuart Staples, ou ainda pelas presenças nacionais de Sónia Tavares e Ana Vieira. A Joan Wasser (Joan As a Police Woman) cabe o outro inédito (“The Long Run”), a canção (valsa) mais ligeira do disco. Nota negativa para o modo como tudo isto é apresentado: em lado algum do disco há nota para as datas de gravação dos temas, em que discos sairam, ou sequer quem canta o quê. Tratando-se de uma antologia (aparentemente, a primeira de uma série sobre a obra do artista), justificava-se algum empenho didáctico, já que, afinal de contas, este disco pode servir de porta de entrada para um dos valores mais seguros da música portuguesa contemporânea.

Amy Winehouse - At The BBC ****


Assalto ao espólio, parte II. Com a mesma velocidade com que Amy Winehouse (1983-2011) passou pela Terra, a indústria discográfica partiu em busca das pérolas restantes do génio. Após vasculhar nas gravações de estúdio (Lionness: Hidden Treasures), num trabalho no limite do razoável, chega agora a vez das actuações ao vivo, no caso, as efectuadas pela BBC rádio e TV, entre 2004 e 2009. Amy foi um diamante em bruto que por aqui passou, seja pela forma como transformou o seu conflito com o amor em algumas das mais belas canções da década, seja pela forma desamparada, nua, como expunha esse doce desconforto em público. Ao vivo – Lisboa sabe-o – as coisas descambavam frequentemente, sob o peso das drogas e do álcool. Mas, quando os deuses o permitiam, era sublime, como em “Just Friends”, “Love Is A Loosing Game”, “Valerie”, ou “You Know I’m No Good”, presentes neste CD. Das duas edições, com um ou três DVD, a segunda é obviamente melhor – o contexto visual explica algumas performances.

The Vaccines - Come Of Age ***


Temos banda, e agora? A questão, diga-se, está razoavelmente mal respondida na segunda incursão discográfica dos Vaccines. Em 2011, surpreenderam Londres e o mundo com uns ares de revivalismo punk e a ambição disfarçada de porta-vozes de uma geração, que é o que todas as bandas punk sonha(ra)m. Agora, mantêm essa sonoridade crua, já não querem ser bandeira de coisa nenhuma e assobiam para o lado, disfarçando um certo desnorte conceptual. O resultado é um disco com algumas canções acima de mediania, mas que acaba por deixar todas as confirmações em aberto para a terceira rodada, afinal de contas o drama de muitos segundos discos. Há coisas terríveis (em “Lonely World” teme-se que sejam sinos de Natal o que se ouve em fundo), há punk a sério (“No Hope”), experiências interessantes (“Weirdo”), singles evidentes (“Teenage Icon”), mas, no final, o que pravalece é um “Está bem, e depois?”.

Áurea - Soul Notes **

Áurea soube aproveitar bem, muito bem mesmo, a sua primeira oportunidade para causar uma boa impressão. O disco com o seu nome, de 2010, vendeu que nem pãezinhos, algumas das suas canções estiveram na rádio durante meses, encheu salas por todo o lado e até teve direito a subsídio de Natal, com um inusitado disco ao vivo lançado fez agora um ano. O segundo disco, tradicionalmente um teste a qualquer artista pop, surge como natural extensão do primeiro e sem qualquer tipo de drama. Áurea e os autores só têm que fazer novas canções, de preferência que lembrem as primeiras, de forma a manter a máquina em funcionamento. Ninguém se lembrará de pedir inovação a um projecto que trabalha precisamente o conceito de pastiche. Ah, e as canções, como são? Pois... são quase iguais às primeiras. Com a diferença de que, agora, já não são surpresa e, na verdade, não há nenhuma com tanta graça como “Busy (For Me” e “Okay Alright”. Um pouco entediante, em suma.

Tori Amos - Gold Dust ****

Estava escrito nas estrelas e, por isso, o maior defeito deste disco acaba por ser a sua previsibilidade. A música de Tori Amos é de um classicismo evidente, seja pela própria criação, seja pela textura da interpretação vocal ou mesmo pela omnipresença do piano. Frutos de uma educação esmerada... Esta revisitação de canções de duas décadas de carreira acaba, pois, por não desarrumar excessivamente os originais, percorrendo caminhos de alguma segurança criativa. Não é por acaso que os arranjos foram entregues a John Philip Shenale, colaborador de longa data. O risco recai, pois, todo na selecção do repertório, que deixa de fora as canções mais conhecidas e opta por momentos de maior intimidade autobiográfica. Tudo somado, este disco acaba por constituir um catálogo demonstrativo das enormes capacidades criativas e interpretativas de Tori Amos. Canções como “Yes, Anastasia”, “Winter”, “Jackie’s Strenght”, ou a que dá nome ao disco, são disso exemplo.

Two Door Cinema Club - Beacon ***

Disco sound revisitado na era da música indie. Os norte irlandeses Two Door Cinema Club (TDCC) ultrapassam confortavelmente a maldição do segundo disco e atiram mais 11 peças para as pistas de dança. A receita, desvendada em Tourist History (2010), é simples: meia dose de electrónica, outro tanto de guitarras. Nem sempre com grande rigor – “Wake Up” soçobra às roupagens eléctricas, “Someday” respira guitarras por todo o lado. Ouvimos, por vezes, uns coros perfeitos a lembrar Fleet Foxes (!?), por exemplo, no início de “The World Is Watching” – uma grande canção, já agora –, outras vezes, a barreira de guitarras recorda os Strokes. Não vale a pena, porém, menosprezar a obra, remetendo-a às influências. Ou sequer limitá-lo ao evidente pastiche de alguma música dos anos 80/90. Este é material original. E, claro, bem mais profissional, elegante também, que o do primeiro disco.

Andrew Bird - Aula Magna

Ah, os encantos de Lisboa! Andrew Bird é apenas mais um dos grandes nomes da cena musical contemporânea que se apaixonou pela cidade e que viu tal amor correspondido. Já cá actuou muitas vezes, já cá passou uns dias, deu conferências sobre escrita musical (!), já cá escreveu canções (“Tenousness”), já cá se inspirou para canções “Lusitania” [buhhh... um erro que Bird rectifica na última edição do Ipsilon/Público]. E quando dizemos que se trata de um dos grandes da música actual não estamos apenas a devolver a simpatia. Apesar de não andar pelos tops, Andrew Bird é, de facto, um dos mais talentosos compositores no activo, cruzando influências folk, pop, ciganas, clássicas... Não se fica, porém, pela composição. É um intérprete de mão cheia, seja pela voz melodiosa e bem colocada, seja pela faceta de multi-instrumentista, com o seu quê de experimental, seja pelo famoso assobio, com que adorna muitas das canções. Seja, finalmente, pelo empenho e criatividade que empresta às actuações ao vivo. Assistir a um dos seus concertos é, desculpe-se a redundância, um espectáculo. Porque Andrew Bird, irrequieto mas concentrado na sua música, enche um palco, supreendendo o público e os músicos que o acompanham com o modo como reinventa canções que originalmente já eram de grande riqueza de composição e interpretação. Esta passagem pela Aula Magna centra-se em Break It Yourself (2012) e no seu complemento acabado de sair (Hands of Glory), mas haverá certamente inúmeras viagens ao passado. Lisboa merece.


The Walkmen - TMN Ao Vivo

 
É um caso de amor. Poderá ser até desconcertante, mas, como todos os casos de amor, não tem grande explicação. Entre The Walkmen e os portugueses há uma certa química, percebe-se que a corrente passa. E não é nada evidente a razão para esse fascínio mútuo. Sentimo-nos, talvez, atraídos por aquele lirismo de coração ao pé da boca de “The Rat”, o tema que melhor os identifica. E talvez eles revejam em nós os românticos incorrigíveis que povoam as suas canções.
 
Delírios à parte, a verdade é que já são necessários os dedos das duas mãos para contar o número de vezes que The Walkmen actuaram em Portugal, desde que, em 2008, aqui puseram os pés (este ano, por exemplo, já passaram pelo Porto, no Verão). E, claro, não há assim tantas bandas que tenham traduzido a sua admiração por uma cidade no título de um disco (Lisbon, 2010).

A digressão que agora os traz cá centra-se no mais recente CD, Heaven, que apresenta uma banda mais segura, mais cuidada na arquitectura das canções, mais atenta aos pormenores, com o que isso implica de perda daquela força radical dos primeiros tempos. Esperam-se, por isso, momentos de algum recolhimento – sendo que seria de bom tom não se cair no exagero de entoar “We Can’t Be Beat” de mãos no ar...

Não que o novo disco não tenha motivos para que Hamilton Leithauser rasgue a voz (“Heartbreaker”, por exemplo), mas deverão ser as velhas canções a puxar a locomotiva quando o Coliseu quiser explodir em movimento de celebração.

Calexico - Algiers ****


Algiers, esclareça-se, é um subúrbio de New Orleans e os Calexico mantêm-se, portanto, no seu território habitual: o Sul dos Estados Unidos, com os ouvidos e talvez a alma ainda mais a sul, México especialmente. O sétimo disco desta banda do Arizona é o mais terreno de todos, com os pés na terra. O som continua a perseguir caminhos de fusão, mas o experimentalismo e a criação de ambientes têm vindo a dar lugar às canções. Só canções. “Epic”, por exemplo, abre o disco com a mais perfeita marca de água dos Calexico – um poema de amor arrebatado, melodia melodramática, encenação instrumental sempre surpreendente. O resto é enamoramento das guitarras do norte com os trompetes mariachis do sul, em “Vanishing Mind” ou “Puerto”, por exemplo. Ou as camadas subterrâneas de latinidade em “Sinner In The Sea”, que vêm à superfície no belo e doloroso “No Te Vayas”.

Poor Moon - Poor Moon ***


Impossível fugir à evidência – ouve-se Fleet Foxes a cada esquina deste disco. Não apenas pelo facto de Christian Wargo (que assina todos os temas) e Casey Wescott serem membros activos da banda de Seattle, mas especialmente porque, tendo embarcado num projecto autónomo, não fazem o mínimo esforço de distanciamento da banda mãe. O mesmo som etéreo, as mesmíssimas harmonias vocais, o mesmo bucolismo. A grande diferença reside na intensidade - à densidade gongórica dos Fleet Foxes respondem os Poor Moon com tecidos sonoros de grande subtileza. Cada canção é tratada como uma pequena jóia, em que instrumentos e vozes respiram com grande liberdade. “Bird”, uma quase cantilena infantil, “Phantom Light”, que parece ter nascido num salão do Renascimento, ou “Holiday” (já ouviram falar dos Belle and Sebastian?) são apenas algumas das canções que, comparações à parte, valem bem uma audição.

Alanis Morissette - Havoc and Bright Lights *

Alanis, Alanis, isto era tão, mas tão, desnecessário. Quatro anos sem disco novo – ou estavas a preparar alguma coisa em grande, ou estavas simplesmente com falta de imaginação. Infelizmente, nada havia de grande para mostrar. Grande, ou sequer pequeno. Não, apenas a repetição estafada dos mesmos esquemas melódicos, a mesma lenga-lenga autobiográfica, um tanto masoquista. Inventaste o duche escocês musical e não consegues sair disso – chegas de mansinho, em jeito de balada para encantar incautos, e depois desatas ao berros sobre um lençol de estridência neurótica, e depois ficas de novo mansinha, e depois... Isto cansa, Alanis. Oito discos nisto! E há momentos particularmente penosos, seja no registo balada (“‘Till You”), seja em coisas mais animadas, mas insuportavelmente empasteladas (“Spiral”). Tão entediante... E o bónus de um CD ao vivo em nada ajuda. Interpretação bera, som ainda pior. O que é isto, Alanis?

Band of Horses - Mirage Rock ****

Trabalho de sonho, este. Pegar numa banda, analisar-lhe as influências, depurar-lhe o som, reconfigurar tudo, de tal forma que o resultado seja a fórmula exacta de uma novidade que conhecemos há décadas. É o que faz Glyn Johns, o homem que produziu discos dos Beatles, Stones, Eagles, Ryan Adams... O trabalho, diga-se, era relativamente simples, já que os Band of Horses são uma banda bem ancorada na música americana. Glyn Johns retirou-lhe alguma da crueza dos discos anteriores (ainda assim audível em “Feud”, por exemplo) e reconduziu as canções às suas influências: “Dumpster World” (CSN, e depois Neil Young), “Sweet Cruel Hands of Time” (Eagles e America), “A Little Biblical” (Beach Boys)... O resultado é, obviamente, um som mais domesticado, mais comercial, apesar disso bem interessante, na medida em que se trata de um exercício claramente genuíno, nada forçado. Quarenta minutos de América, sem complexos.

Minta & The Brook Trout - Olympia ****

Vitorino, o alentejano, passou há dias na televisão a dizer que “quando um português canta em inglês fica tristemente ridículo”. Vitorino, obviamente, nunca ouviu Francisca Cortesão, a voz que se esconde atrás do estranho Minta & The Brook Trout. Há razões culturais, mais que comerciais, ao contrário do que Vitorino pensa (!?) para que parte substancial de uma geração opte pelo inglês. Porque as canções que escrevem e cantam nada têm a ver com o local de génese, mas bebem antes directamente noutras tradições, no lado de lá do Atlântico. As canções dos Minta são devedoras do folk e da country e de toda música que daí deriva. E cuidam bem da herança. No activo desde 2008, este quarteto lança agora o segundo disco, muito mais seguro de si, com uma produção mais profissional, mas que deixa intacta a sonoridade caseira. A melancolia domina, mas a ironia surpreende e espreita amiúde. “Falcon”, “From The Ground” (belo dueto), “Future Me” são excelentes canções. Beautiful songs, Vitorino.

David Fonseca - Seasons: Falling ***

A música pop nunca se deu muito bem com projectos conceptuais. A pop, rock se quiserem, vive de uma certa superficialidade, liberdade, fragmentação, que casa mal com as amarras de uma ideia estruturada. É claro que há excepções, que são isso mesmo – excepções. David Fonseca dedicou o ano de 2012 a uma ideia – dois discos, lançados na Primavera e no Outono, em que supostamente nos dá a ouvir o retrato dos seus dias durante um ano. O primeiro, Seasons: Rising, saiu em Março e era suposto conter o lado mais luminoso dos dias de David; este Seasons: Falling seria, então, o reverso, a melancolia, os dias curtos e cinzentos. Primeira constatação: o autor teve uma certa dificuldade em manter a coerência do projecto, não sendo evidentes as diferenças de tom entre os dois discos. De certa forma, tendo em conta a tal aversão da pop à organização em gavetas, é relativamente indiferente que a separação de águas não seja mais evidente. Aliás, só a elevada carga de marketing que acompanha cada lançamento de David Fonseca – atenção, isto é um elogio – nos leva ouvir ventos gélidos neste disco, em contraposição ao supostos raios de sol da primeira parte do projecto. Porque, se é verdade que o primeiro single All That I Wanted é uma balada serena e outonal, já o tema que o antecede (Monday, Tuesday, Wednesday, Thursday) transpira jovialidade por todos os poros, alegria apenas ensombrada pelo erro de casting do duo com a brasileira Mallu Magalhães (não se entenda o que canta, o tom não cola com o de David e da própria canção). Dito isto, assinale-se que o disco tem algumas boas canções e que o principal pecado seja o do perfeccionismo. Mas, conceito à parte, revela pouca ambição e David Fonseca parece ter dificuldade em libertar-se de esquemas melódicos e interpretativos demasiado batidos.
[versão não editada]

Bob Dylan - Tempest ****

Dylan é a medida de Dylan e isso pode ser um problema. Falamos do homem que, há cinco décadas, estabeleceu cânones, não apenas na música, mas na cultura tal como a entendemos no sentido mais lato. O problema é que esse Dylan, sendo a medida de todas as coisas, não é repetível, ou sequer comparável, e não é suposto que do mesmo Dylan surjam novos cânones. Por isso, chega a ser desonesto o que muita imprensa anglo-saxónica tem feito por estes dias – sobrevalorizar Tempest e estabelecer comparações, por vezes canção a canção, com as obras-primas (não há que ter medo das palavras) dos anos sessenta. O Dylan de Tempest é o Dylan que muito cedo percebeu a armadilha de ser um mito vivo, recusou o altar, tropeçou uma e outra vez, naufragou em discos menores, para se reerguer encarnado de novo em trovador de amores urbanos, paisagens interiores devastadas e um certo desencanto com o mundo. Há uma década que assim é. O ciclo que musicalmente se poderá catalogar como de pré-rock, construído com sonoridades austeras de blues, rockabilly, country. O início de Tempest faz lembrar um velho programa de rádio em Onda Média e é assim que somos desafiados para uma viagem que nos levará a territórios maioritariamente obscuros. A tragédia do Titanic reinventada, ao ponto de colocar na acção original o Leonardo DiCaprio da versão cinematográfica. O amigo Lennon, mais que o músico, evocado através das suas próprias palavras. Uma “Pay in Blood” com riffs de guitarra roubados aos Stones. Uma “Narrow Way” encharcada de blues do Mississipi. Uma “Scarlet Town” feita valsa triste, desconjuntada. O violino, ou o acordeão, a acentuarem a toada melancólica. E depois os poemas, jogos de enganos, em que cada um ouve o que quer, nem sempre ouvindo o que ouvira antes. Mas em que nada se aproxima do sublime. Caso para dizer que Dylan está em forma. Sim, mas.

A voz triste da menina bonita - Norah Jones no Campo Pequeno

 
Norah Jones arrumou de vez o jazz e vai recriar no Campo Pequeno a atmosfera delicada e contida dos dois últimos discos. Uma aventura que apela à disponibilidade de quem a vai ver e ouvir

Aviso à navegação: esta Norah Jones é a nova Norah Jones, e não a outra, aquela que tanto ouvimos no rádio e da qual (ah, sim, consultem os arquivos) já andávamos todos um pouco enjoados, tal era a omnipresença sonora de “Come Away With Me”, o megasucesso de estreia. Essa Norah Jones, talvez nem fosse necessário recordá-lo, era uma miúda gira, de voz doce, exímia praticante de um jazz ainda mais ligeiro que o de Diana Krall. Isso foi há uma década e a rapariga – filha do sitarista Ravi Shankar, mandam as regras que se assinale – arrecadou nessa altura uma data de grammys, isto para não falar dos dólares. O encanto manteve-se e tivemos direito a nova dose dois anos depois, com o disco Feels Like Home e o novo megasucesso “Sunrise”. “Sunrise, sunrise...”, lembram-se?
Pois, essa Norah Jones já não existe e convém que os mais distraídos tomem disso boa nota, porque esse é um facto relevante para o que aqui nos traz. A miúda tinha 23 anos quando ficou com o mundo a seus pés e – qualquer terapeuta o comprovará –, muito aguentou ela, que o sucesso não é coisa de fácil digestão. Mas, é a lei da vida, há idades tramadas e – desculparão a incursão tablóide pela intimidade da artista – as miúdas giras apaixonam-se (as outras também, mas isso não vem agora ao caso) e nem sempre as coisas correm bem. São as dores do crescimento. Interior.
Chegamos assim a 2009. O jazz (já vos tinha dito que Norah escrevia o que interpretava?) fica para trás e, coração perturbado, novos trilhos musicais se apresentam. Eis-nos em pleno território pop, devedor, embora, de alguma atmosfera indie. Dois discos – The Fall e Little Broken Hearts, já deste ano – cunham uma nova Norah. As canções são mais íntimas, mais sofridas, menos luminosas, autobiografias de males do coração. E vestem-se de roupagens, digamos, menos simpáticas (há lá coisa mais agradável que o jazz ligeirinho?). As guitarras, na primeira incursão, e a electrónica, na versão deste ano pela mão de Danger Mouse, dominam as canções. É esta Norah Jones que agora aparece por cá.
Miúda tímida – é verdade! – canções íntimas e atmosféricas. É isto Norah Jones ao vivo nos dias que correm. Os sucessos dos primeiros anos, a crer no alinhamento que já a acompanha desde América e a deverá levar ao resto do mundo, ficam para os encores, o que poderá ser uma autêntica chave de ouro para muitos dos que vão passar pelo Campo Pequeno.
Os outros, espera-se que sejam a maioria, certamente irão à procura da reinterpretação das texturas delicadas dos dois últimos discos. E é nesse território que o concerto deve ser apreciado. Norah Jones canta, bem como sempre, e acompanha-se ao piano e na guitarra, com o apoio de uma banda de quatro músicos de estrutura pop clássica.
O sucesso de um concerto depende, por vezes, da empatia que se gere entre quem está no palco e quem assiste. Já percebemos que Norah Jones está numa fase particularmente sensível, de abertura a novas sonoridades, experiências. Por uma vez, a dúvida está do lado de cá – é isso que esperam muitos dos que a vão ver e ouvir?

Cat Power - Sun ****

Este disco é energia pura. Anuncia-se isso nas tonalidades eléctricas da capa, mas é a vitalidade das canções que o confirma. Há referências sombrias atribuíveis, talvez, à tristeza afectiva da autora (os amigos que se perdem e não voltam mais, em “Manhattan”), ou ao estado de desânimo global (estamos sentados em ruínas, canta ela em “Ruins”). É verdade. Mas este disco está mais para abrir uma nova fase que para lamuriar os amargos do passado. Certamente que não conseguimos quebrar as amarras da condição humana (“Real Life”, ou “Human Being”), mas ninguém nos pode proibir de aspirarmos ao estatuto de super-heróis (“Nothin’ But Time”). Este é, afinal, o disco de libertação e renascimento de Cat Power. Para trás fica a fase mais intimista e artesal do início e a neo-soul de que The Greatest (2006) foi o expoente máximo. Neste Sun, que já andaria a amadurecer há meia dúzia de anos, mas que levou um empurrão decisivo já em 2012, surge-nos uma Cat Power sozinha em estúdio, a compor tudo, a tocar (quase) todos os instrumentos, a cantar talvez da forma mais segura que já lhe ouvimos – embora sem perder aquele grão que encanta –, finalmente, a produzir. As guitarras ficam quase esquecidas (“Cherokee” é uma razoável excepção), o piano reduz-se praticamente à marcação do ritmo, e o palco fica para os sintetizadores, caixas de ritmos, e similares. Espantoso é que a intensidade com que é usada toda essa electrónica deixa espaço para uma arquitectura musical essencialmente subtil, em que tudo respira e toda a respiração nos é dada a ouvir. Exemplo supremo disso mesmo é “Nothin’ But Time”, uma peça de 11 minutos, com Iggy Pop no papel de convidado, e David Bowie da fase Low a pairar como referência explícita (“it’s up to you to be a superhero”).

VVAA - Just Tell Me That You Want Me (A Tribut to Fleetwood Mac) ****

Que é como quem diz, oiçam sem preconceito. Os mais novos, os admiradores de MGMT, Antony, Lykke Li ou St. Vicent, provavelmente nem sequer se lembram dos Fleetwood Mac (FM), ou, na pior das hipóteses, já lhes passou pelos ouvidos uma música empastelada, razoavelmente aborrecida. Os outros, os do tempo dos FM, talvez nunca se imaginassem a ouvir Karen Elson, Washed Out, Best Coast. E é aí que está a graça de tudo isto, nesse festival de equívocos que, por uma vez, tem um final feliz. Comecemos pelos FM. Poucos grupos tiveram tantas e tão diversas encarnações, do blues feito em Inglaterra à pop mais comercial de Los Angeles. Andaram pelo Olimpo, artístico e comercial, na segunda metade dos anos 70, e depois cavalgaram essa glória muito para lá dos limites do razoável e audível. Depois, este disco, homenagem assumida de um cruzamento de gerações. Dos antigos, há dois momentos muito altos: “Oh Well”, dos blues iniciais de Peter Green, numa versão arrastada de Billy Gibbons (ZZ Top), e “Angel”, de que Marianne Faithfull se apropria de forma soberba. Dos mais novos, o destaque vai para Likke Li e uma seguríssima reinterpretação de “Silver Springs” que tem o grande mérito de nunca descolar verdadeiramente do original, para o intimismo de Antony em “Landslide”, ou para a forma como os Best Coast retiram “Rihannon” aos lençóis de penumbra a que Stevie Nicks a submetera e a trazem para a luz da pop dançável. O resto não tem muita história. Talvez assinalar o falhanço da versão de Karen Elson de “Gold Dust Woman”, ou a irrelevância de “Sisters Of The The Moon” às mãos e vozes de Craig Wadren e St. Vicent. Porém, ao contrário do que é habitual neste tipo de tributos bem intencionados, o balanço resulta francamente positivo.