Deixaram o miúdo à solta e é o que se ouve. Na verdade, Cullum já não é tão miúdo assim e este disco, se estilhaça a imagem do bem comportadinho com piano à frente, é mais sinal de maturidade que de infantilidade. O piano continua presente por todo o lado, mas agora claramente ofuscado por uma sonoridade que cruza batidas soul de há umas décadas com uma electrónica esparsa e pragmática apontada aos tops (quem verdadeiramente fica a perder são os violinos...). "Edge of Something" e "Everything You Didn't Do" são apenas duas desenvoltas amostras desse novo espírito. "Love For Sale", a versão que confirma a regra, e "Pure Imagination", a excepção orquestrada que nos liga aos cinco discos anteriores. Um disco, enfim, que se arrisca a não agradar a ninguém, nem às fãs apaixonadas de sempre, nem aos críticos desconfiados com meninos prodígio. Mas só esse desconforto do risco é já uma confortável vitória.
Maria Rita
Há um ano atrás, quando Maria Rita aceitou o desafio de homenagear a mãe, por ocasião dos 30 anos do seu desaparecimento, pode fazê-lo de consciência tranquila - tinha atrás de si uma década e quatro discos que a confirmavam como cantora por direito próprio. Porque Maria Rita teve que resolver, talvez até perante si própria, essa bênção que era também a sua maior maldição, aquele timbre que faz recordar a cada respiração a enorme voz da mãe Elis Regina. Dessa homenagem, nasceu um disco duplo ("Redescobrir") e uma digressão, que passa agora por Portugal. Timbre à parte, basta ouvir, por exemplo, a versão ao vivo de "Como Nossos Pais" para perceber que Elis não é imitável. Trata-se, pois, de uma homenagem, não de uma (impossível) recriação, mesmo que o tal timbre traia amiúde a cantora e quem a ouve. Uma boa oportunidade para recordar clássicos como "Águas de Março" ou "Arrastão".
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Alicia Keys
Quando Alicia Keys canta sobre uma "Girl on Fire", fá-lo na terceira pessoa. E isso faz toda a diferença. Fossem Beyoncé ou Rihanna a cantar e a tal rapariga em chamas (ardente) estaria na primeira pessoa, como, aliás, no vídeo da segunda com Eminem ("Love the Way You Lie"). Com essas duas divas da neo-soul, estamos no território do explícito - elas mostram tudo, sejam os sentimentos, sejam as pernas. Em palco, são máquinas programadas para continuar esse jogo de hiper-exibição. Alicia Keys é diferente, muito diferente. A zona mais erógena do seu corpo nem sequer está à vista, já que é com as cordas vocais que mais nos seduz. Por isso, nada que enganar - espectáculo com pirotecnia carnal, só no regresso da Rhianna ou da Beyoncé. Não que Alicia não dance, só que a sua dança faz-se mais de insinuação que de transpiração. Os seus gestos limitam-se muitas vezes a leves esboços e, ao vivo, deixa o fitness para os dançarinos convidados. Os concertos de Alicia Keys - e Lisboa já assistiu a quatro, tendo deixado boas recordações de todos eles - vivem de uma ambivalência que poderia conduzir ao desastre, não estivéssemos perante alguém cada vez mais seguro de si, quer como compositora, quer especialmente enquanto intérprete. São espectáculos que não podem escapar às grandes encenações de pendor tecnológico, mas que também guardam um espaço generoso para a demonstração do virtuosismo da artista, seja no papel de pianista (os ecrãs projectam frequentemente grandes planos das suas mãos), de intérprete (e Alicia é, seguramente, uma das mais surpreendentes vozes femininas da actualidade), ou de compositora, e aí será fundamental deixar respirar as texturas, delicadas ou vibrantes, de um R&B de primeira água. Ou seja, haverá espaço para alguma pirotecnia, mas também para o intimismo possível de um grande espaço. E não será difícil adivinhar que será precisamente neste segundo registo que o concerto atingirá os seus melhores momentos. A base da digressão mundial em curso é, obviamente, o seu quinto disco, "Girl on Fire", de 2012, com o qual quebrou um silêncio de quase três anos. Um disco que reflecte o amadurecimento pessoal pós-maternidade, expresso, por exemplo, em "Brand New Me" ou em "New Day", mas pelo qual passa também uma poderosa corrente erotizante ("Fire We Make"), ou baladas do mais puro classicismo de partir o coração "Tears Always Win". É claro que haverá tempo para revisitar um carreira iniciada em 2001 (se descontarmos as aulas de piano, aos sete anos), com Songs In A Minor, e cristalizada em 14 prémios Grammy, mais de 30 milhões de discos vendidos. Uma viagem ao passado por terrenos nem sempre óbvios, e que incluem, por exemplo, "Fallin'", ou "Like You'll Never See Me Again", num registo de enorme contenção. E, claro, o imprescindível "New York State of Mind", com um J-Zay enlatado e projectado em ecrã gigante. Algures entre duas canções, Alicia talvez lhe peça que ligue a luz do telemóvel em nome de qualquer coisa (ou será causa?). O melhor é alinhar. As grandes divas, dizem, não gostam de ser contrariadas.
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John Grant - Pale Green Ghosts ****
"Queen of Denmark", do disco homónimo de estreia (2010), estabeleceu um paradigma de cinismo na forma de canção dificilmente igualável. E, no entanto... No entanto, neste segundo registo, John Grant esforça-se por bater esse recorde pessoal. Não é comum encontrarmos - num disco, quanto mais numa mesma canção - tais doses de ironia, auto-ironia, crítica, sofrimento e redenção, como acontece em mais que um dos temas deste CD. As canções de Grant giram invariavelmente em torno da dor, seja a repressão da homossexualidade, o consumo descontrolado de álcool e droga, o diagnóstico de HIV, ou simplesmente os banais desencontros da vida. Banal seria, porém, reduzir esta poesia aos seus motivos próximos. É verdade que o "agente laranja" do tema "Vietnam" é assumidamente um ex-namorado, que de resto povoa todo o disco, mas será redutor ouvir "This pain / It is a glacier moving through you / And carving out deep valleys / And creating spectacular landscapes" colado a uma qualquer situação concreta. Este segundo disco confirma Grant como um extraordinário escritor de canções, com um apurado sentido lírico e dramático, que a voz encorpada serve na perfeição. "I Hate This Town", por exemplo, lembra "Going to a Town" (Rufus Wainwright), até pelas similitudes da construção sinfónica. Esse classicismo tem, neste disco, um tratamento inesperado, mercê da colaboração com Biggi Veira, dos electrónicos islandeses GusGus. O som pastoral dos Midlake do primeiro disco cede lugar à electrónica versátil, numa sonoridade a remeter amiúde para os anos 80. A frieza dos sintetizadores é, porém, temperada pela calidez das harmonias, marca de água de Grant. A par do cinismo, por questões de sobrevivência.
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She & Him - Volume 3 ***
Um dia, ainda vamos descobrir que Zooey Deschanel e M. Ward, na versão She & Him, nunca existiram. Foi tudo feito em computador, daí a forma mecânica de nomear os discos: Vol.1 , Vol. 2, Vol. 3... A sério: já devem existir apps que juntam pedacinhos de canções e fazem outras canções, completamente novas, mas que já ouvimos em algum lado. Uma memória ao contrário. Zooey, na escrita, e M., no embrulho da coisa, são, além do mais, perfeccionistas. Por isso, é quase irresistível bater o pezinho ou deixar cair a cabeça sonhadora sobre o ombro ao ouvir estas evocações de uns anos 50 ou 60 que não vivemos. O único problema é que a fórmula, parasita por definição, tende a esgotar-se. É bonito, e depois?, já conhecemos. Há, porém, momentos de rara beleza ("Turn To White"), em que a fragilidade das vozes lembra que estamos perante simples humanos ("Baby" - uma versão), ou até de partir o coração ("Together"), que (os) salvam.
Ciclo Preparatório - As Viúvas Não Temem A Morte ****
Num assomo de modéstia e síntese, autodefinem-se como Grupo Coral Pop Especial Rural-Chique Delicodoce. Definição alternativa? Mais uma banda de queques urbanos fascinados por uma ruralidade que nem da TV conhecem e... também pelos anos 80. O resultado não é apenas agradável, talvez venha a ser um dos discos do ano, quiçá até mesmo de um Verão tão efémero como efémera é a pop divertida e certeira que praticam. Aos mais velhos – e a pose nostálgica assenta-lhes tão bem – isto soará a uma revisitação dos Heróis do Mar com a Lena d’Água ao microfone. Soa e soa bem, que a Lena entra numa das canções, título e voz. Outra Lena, esta Del Rey, é protagonista (calma, que é só em sonhos...) numa dos muitos exercícios de estilo que povoam o disco. As letras bem esgalhadas, cheias de coisas divertidas e filosóficas (!), encaixam perfeitamente em canções ágeis, apelativas (comerciais!) e muito bem interpretadas. Prometem.
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Carla Bruni - Little French Songs ***
A língua francesa está a morrer e só os franceses ainda não o perceberam. Por isso, deveriam estar agradecidos a Carla, uma italiana no BI, pelo meritório trabalho que tem feito, não apenas de divulgação da língua, nas especialmente pela recuperação e reformulação de uma das marcas gaulesas por excelência – a chanson. Esse exercício tem neste disco o seu zénite provisório. É de longe aquele em que a reconstrução da chanson vai mais longe, com o aproveitamento de estruturas e referências históricas desse estilo musical e a sua projecção numa elegante modernidade, que obviamente desemboca no... inglês. ‘Darling’ é disso mesmo um excelente exemplo, mas a canção que dá o título ao disco explicita-o de uma forma muito evidente. A ironia – humor, mesmo – que imprime a quase todos os temas é outros dos avanços deste quarto disco. A voz, essa continua sensualmente imperfeita, para irritação dos puristas.
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JP Simoes - Roma ****
Valter Hugo Mãe escreveu um texto para este disco em que trata JP Simões por “Eduardo Lourenço da música popular portuguesa”. Faz sentido. Como sentido faria que Alexandre O’Neill fosse o autor de “Gosto De Me Drogar”, um retrato auto-irónico, vagabundo e terno do português comum, o portuguesinho, como diria o poeta, confrontado e confortado com o seu fado, num fado a descambar para o vaudeville, coro de revista de outros tempos. A graça, ponhamos as coisas assim até porque elas bastas vezes têm mesmo graça, das canções de JP Simões reside precisamente naquele jeito de agarrar a alma lusitana, na circunstância do seu tempo, como agora, perseguidos que somos por esses “talibãs da Goldman Sachs”, no retrato gaspariano (de Vítor) de “Rio-me de Janeiro”. Por falar nisso... o que este disco é mesmo é um antídoto para estes tempos deprimentes que vivemos. Som claramente solar, com apelos à dança (“O Fardo do Amor”) e até mesmo coisas a arranhar o pop ligeirito (“A Million Songs of Yesterday”). Um disco ecléctico – talvez o mais ecléctico de JP nas suas várias configurações –, uma autêntica vitrine de estilos e línguas, com o samba e o fraseado brasileiro a saírem claramente por cima, conhecida que é a queda e o jeito do cantor. É assim em “Valsa Rancho”, de Chico e Hime, mas também em “Samba Radioactivo”, novamente entre a ternura e a ironia e que transpira Vinícius por uns poros e Chico da fase teatral por outros. Do catálogo fazem ainda parte o italiano e o francês, no caso a interpretação de um poema de Boris Vian. Roma acaba por evocar a grandeza do império, mas também a sua decadência real e moral, nada que não estejamos a viver. Chateados, mas de sorriso na voz. “Vai para a tumba que te pariu”!
Devendra Banhart - Mala ****
O Devendra andou desaparecido quatro anos, mas, descansem os fãs, não se curou. Está o mesmo maluco de sempre. Aliás, poucos malucos haverá na música actual com tal consistência, mas também com tal liberdade, provavelmente porque não a souberam conquistar. Este disco tem tudo o que já lhe conhecíamos – psicadelismo folk, digamos –, mas acrescenta movimentações no campo da electrónica, que só não desconcertam porque acertam, encaixam no espírito de vale tudo que é a marca de água de Devendra. ‘Your Fine Petting Duck’, um dueto em inglês e alemão com a namorada/designer sérvia Ana Kras, é a prova acabada disso mesmo, uma canção, afinal duas, dual também na ironia com que trabalha o tema do amor (I’ll take you back/cause I don’t really love him), que, de resto, está presente ao longo de todo o disco. Só isso, a ironia, o humor, torna a audição deste disco num exercício que faz bem à saúde. Mental.
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Márcia - Casulo ***
Pode uma canção crescer, crescer e... entrar num beco sem saída e nunca ser verdadeiramente canção? Pode, claro. Este disco abre com uma dessas, e tem outras. Há por aqui um assumido desejo de contenção, que acaba por se transformar na armadilha que corta as asas à segunda aventura de Márcia em disco grande. É pena, porque, pelo que já fez, podia, devia e merecia fazer melhor. Sintomática é a escolha de “Deixa-me Ir” para primeiro single, canção mortiça, que só ganha força no clip de Miguel Gonçalves Mendes (José e Pilar), melancólica panorâmica sobre um “país que definha” às mãos da troika. Márcia, convém lembrar, chega a este disco com dois trunfos de peso: o êxito de “A Pele Que Há em Mim”, com JP Simões, e a autoria de “Até ao Verão”, o single de promoção do mais recente Ana Moura. Daí a expectativa, depois de uma estreia muito promissora (Dá, 2010). Deste novo capítulo esperar-se-ia mais que canções bonitas, ambientes de grande beleza e sofisticação (“Desmazelo”), poemas consistentes. Tudo competente, muito certinho, sim, mas mediano, sem a vontade de voar mais alto, sem que isso significasse sair do registo. “Delicado”, na mesma linha de “Até ao Verão”, vai por aí, mas pouco acompanhado.
Luísa Sobral - There's a Flower in My Bedroom ****
E no fim foram tristes para sempre. Tristes mas felizes. É
assim este disco: histórias de amor que acabam sempre mal, mas que nos são
contadas com alegria. Por exemplo, ‘As The Night Comes Alone’ fala-nos de uma
rapariga que imagina coisas, namorados mais precisamente, mas que na realidade vive
na mais absoluta solidão. Acham que isto nos é contado com choraminguices? Qual
quê!? Swing e mais swing e um tralala final que até abana.
E (quase) todo o disco é assim. Triste por dentro, alegre por fora. Porque – nota-se
– estas 17 (!) canções devem ter dado um gozo do caraças a compor e a gravar. E
só isso bastaria para ganhar o desafio do segundo disco. Depois do sucesso
(mesmo internacional, helas) da
estreia com There’s a Cherry On My Cake (2011),
Luísa Sobral resolveu dar um passo atrás e as canções estão agora mais expostas
na sua estrutura: há jazz mais jazz (‘The Letter I Won’t Send’) e pop só pop
(‘Mom Says’). E mesmo coisas que parecem saídas de um Brasil pré-bossa (‘Inês’,
com António Zambujo, ou “Quando Te Vi”). Há convidados estratégicos (Jamie
Cullum) e outros que alargam horizontes (Mário Laginha) e a estranha pronúncia
de Luísa, seja em português ou inglês. Ligeirinho? Sim, e qual é o problema?
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Luísa Sobral
Mazgani - Common Ground ****
Música telúrica e orgânica. Porque parece brotar
directamente das entranhas da terra, porque nela se torna impossível perceber
onde acaba o corpo e começa o som que ele emite. O terceiro disco de Mazgani,
EP à parte, apresenta-nos um artista maduro, finalmente envolto na sonoridade adequada
às canções densas e subtis que escreve. É um disco dominado pela voz, que
domina as canções. Ou, se quiserem, exactamente o contrário. E um disco de
guitarras, que estando sempre presentes, nunca se impõem à voz e às canções. Ouça-se,
por exemplo, ‘Common Ground’, a canção que encerra o disco. São cinco minutos
de voz ininterrupta, voz e respiração, no tal jogo orgânico de investimento
total do corpo. Atente-se na tensão daquela voz, daquele corpo, que se entrega
todo ao “fogo que incendeia os lençóis brancos da lua” e que percorre uma
espiral encantatória, a que uma guitarra quase distraidamente dedilhada e uma
tuba quase silenciosa se limitam a emprestar o terreno de progressão. São,
seguramente, dos mais belos cinco minutos dos últimos tempos. Ouça-se agora
“Blow Wind”, a face mais telúrica do disco. Uma cantilena encantatória, com o
trémulo das guitarras a soprar visualmente sobre um deserto quente e seco. A
dança do vento. E ouça-se, claro, “Dog at your Door”, apenas para que se
entenda a raiz de tudo isto: os blues duros e crus, as inconstâncias do
coração. E as baladas, líricas, comoventes: “Into the River”, ou “Hold me a
While”, com os metais a invadirem declaradamente a placidez das guitarras. Artesãos
por detrás de tudo isto? Mazgani, o iraniano de Setúbal e do mundo. John Parish
(PJ Harvey) e Mick Harvey (Nick Cave), na produção e instrumentos. Gravado em
Bristol, para ouvir em todo o lado.
Mumford & Sons
O sucesso dos Mumford & Sons construiu-se na estrada. Em
sete anos de carreira, lançaram apenas dois discos – Sigh No More (2009) e Babel
(2012) –, mas deram milhares de pequenos e grandes concertos, em casa e depois
na América, e foi aí, ao vivo, que a fama singrou. Porque esta música funciona
bem é em pubs, onde há muito tempo
nasceu, ou em grandes e pequenas arenas, que a banda enche de banjos vibrantes
e coros gritados. Uma festa, portanto, como Lisboa já comprovou, no Verão
passado, no Optimus Alive. 2013 foi, de resto, o ano de ouro dos Mumford &
Sons (M&S), com uma digressão de sucesso avassalador nos EUA, culminando no
Outono, com o segundo disco a entrar directamente para os primeiros lugares dos
tops e a vender que nem pãezinhos quentes, na América e no resto do mundo. Já
no início deste ano, surgiria a consagração e os M&S a receberiam o
galardão de melhor disco para Babel
na cerimónia dos Grammys. Há que se lhe tirar o chapéu – poucos se atreveriam a
prever tal sucesso, quando, nos primeiros anos, faziam o circuito da música
alternativa no Reino Unido, com um som um tanto inusitado: a recuperação do folk acústico, sustentado quase integralmente
em guitarras, banjos e harmonias vocais, que contavam (e contam) histórias de
amor com frequentes referências religiosas. Terá sido, pois, a persistência e o
tal ambiente de festa quase encantatória que criam em palco que lhes garantiu o
lugar de destaque que agora ocupam. É claro que se trata de um estilo com as
suas limitações e o grande desafio dos M&S será manter a máquina em
funcionamento por muitos e bons anos. Para já, nada mais se lhes pede que repitam
em Lisboa o apelo ao coro do público, talvez ao isqueiro (iphone?) nas baladas
e, seguramente, uns saltos em alguns dos temas mais conhecidos. É dia de festa
e não a vamos estragar com ideias sombrias sobre o futuro, pois não?
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Patrick Watson + Perry Blake
Uma noite de construção de paisagens sonoras na Avenida.
Patrick Watson, já conhecemos, com aquela cacofonia organizada que se tornou
imagem de marca. Perry Blake a
surpreender, com um projecto radicalmente diferente daquilo a que nos habituou.
Deixemos as surpresas para o fim. Patrick Watson traz a Lisboa um concerto
vastamente rodado na América, construído em torno do último disco, Adventures in Your Own Backyard.
Acontece que, nesse CD de prolongada maturação doméstica, o canadiano
experimentou um novo conceito: tentar captar em estúdio a criatividade
exuberante dos espectáculos ao vivo. Uma inversão de processos, que tornará
menos surpreendente o exercício de palco, apesar disso muito recomendável,
tendo em conta o rasto de imaginação que o portugueses tão bem conhecem. Perry
Blake, outro habitué destas paragens,
traz agora o seu novo projecto, Electro Sensitive Behaviour, do qual pouco se
conhece – o disco só sai daqui a umas semanas -, apenas que se trata de
electrónica pura e dura. Resta saber se o projecto abarca apenas as novas
canções, ou se irá reciclar aquelas coisas melodiosas com que o irlandês se
estabeleceu nas margens menos comerciais da pop.
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El Perro del Mar - Pale Fire***
A amor, como sabem, é uma treta. Dancemos, por isso. Ou a
isso. Tivessem ainda os discos mensagem e esta seria a de Pale Fire, quinto exercício da sueca Sarah Assbring, El Perro del
Mar por vontade própria. Há uns anos que ela canta esse tal amor, uma espécie
de miragem que sempre se desvanece na hora em que a alcançamos. Um fogo pálido.
Este disco aprofunda o movimento iniciado com Love Is Not Pop (2009), com a rendição à electrónica, mas inflecte
decididamente para territórios de dança. Uma espécie de revisitação da década
de 1990, a que não faltam todas as expressões que a partir daí se enraizaram:
dub, house, hip-hop... Destaque para os três temas que ocupam o zona central do
CD (Walk On By, Love In Vain, To The Beat
Of a Dying Heart), três temas bem conseguidos, em que a amargura do tal
maldito amor é filtrada por caixas de ritmo, teclas estranhas e coros
obsessivos. Coisa quase a merecer um novo movimento – urbano-melancólicos?
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El Perro del Mar
Vitorino Voador - Vitorioso Voo **
Primeiro estranha-se. E depois também. Mesmo que pelo meio alguma coisa se entranhe, como a batida, a história, o refrão de – tinha que ser – “Carta de Amor Foleira”, o tema que antes de aqui estar já se ouvia, mercê da compilação de Novos Talentos da FNAC. É difícil perceber o que soa mais estranho neste disco. A voz monótona, sem espessura, multiplicada e distorcida em estúdio? As letras directas, por vezes sem poesia, por vezes de métrica desajustada? A composição, minimal, monótona também? Os instrumentos, a lembrar um elefante em loja de brinquedos? Tudo, na verdade, muito estranho, desconcertante, e por vezes desconfortável, até desagradável – por exemplo, o contraste entre os sintetizadores martelados e a voz monocórdica em “Que Sítio É Este”. João Gil, músico de vários projectos (Diabo na Cruz, Feromona, You Can’t Win Charlie Brown...), num primeiro disco montra de experiências sonoras peculiares.
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Vitorino Voador
Pedro Cardoso - Mirrors ***
Os espelhos apenas mostram a parte mais triste de ti. Há uma
melancolia, talvez até mais que isso, que atravessa estas canções e que as
afasta de qualquer comparação mais apressada com o Jack Johnson do surf, ou mesmo com John Mayor, o ídolo
confesso de Pedro Cardoso. A postura vocal parece remeter para esses terrenos
pós-adolescentes, mas as canções estão demasiado cheias de “pain” e “rain” para
se conterem em tal território. A estas canções falta-lhes talvez um pouco mais
de produção, que lhes não retirasse a textura quase doméstica e confessional, mas
que lhes conferisse uma entidade mais marcada, que desenvolvesse um contraponto
mais luminoso a essa voz que, apesar de bela, tende para a monocórdico. Assim,
como estão, soam todas excessivamente ao mesmo. Ou seja, talvez que, após dois
EP em menos de um ano, Pedro Cardoso merecesse um disco de maior fôlego. De
consagração, mas, acima de tudo, de teste.
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Pedro Cardoso
Mark Eitzel - Dont’t Be A Stranger ****
“We All Have To Find Our Own Way Out”, por exemplo. São 4 minutos e 20 de piano e voz. Suaves. Mas em que se canta a solidão, o desespero, o suicídio. Tudo muito serenamente. Ou, logo na abertura, quando Mark Eitzel canta “she wrote I love you, but you’re dead”, numa canção que quase poderíamos considerar pop, pela escrita escorreita e pelos arranjos, do mais tradicional deste disco, baixo, guitarras, bateria. Sim, é de canções que aqui se fala. De canções muito bem construídas, de recorte tradicional, mas pela quais se vão infiltrando derivações inesperadas, encantatórias. Seja pelo que nelas se canta, reflexões de vida raramente luminosas, seja pelas texturas musicais que nos vão surpreendendo, sem nunca quebrar o frágil fio delicado que as tece. Porque, se é verdade que este disco marca o regresso de Eitzel ao traballho em banda, não é menos certo que por vezes nem se dá por ela, a banda, tal a subtileza dos tecidos que desenha. Há coisas de pura beleza, como “All My Love”, uma reinterpretação à volta do piano de um tema dos American Music Club (2008). Outras surpreendentes, como a barroca Break The Champagne (já ouviram um Marxophone? Procurem-no no Youtube...). Outras simplesmente grande canções, sem mais nada, como “Oh Mercy”. Este é, pois, um disco de canções, e também de uma banda. Mas é também o de uma voz. E muito se tem dito e escrito sobre a voz de Mark Eitzel, agora mais frágil, supostamente por causa do brutal ataque cardíaco de há dois anos. A verdade é que, seja qual for a razão, essa fragilidade vocal assenta que nem uma luva à melancolia temática e subtileza conceptual do disco. Enfim, um regresso em grande de um dos nomes marcantes das últimas décadas da indie, em nome próprio ou integrado nos intermitentes American Music Club.
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Nick Nicotine’s Mystical Orchestra - Gypsicalia ****
Uma banda de ciganos brasileiros que pratica música americana numa oficina abandonada no Barreiro. Está bem visto, mas não é totalmente verdade. Os ciganos estão apenas no título do disco e talvez no ambiente de festa descontrolada que toma conta das canções. Já brasileiros, há-os. Marcelo Camelo, na voz de “Tropic of Capricorn”, um tema que vai sendo corroído por dentro pelo tropicalismo, para acabar em qualquer coisa que mistura o samba e a morna. Brasileiro, ainda, Alex Kassin, que empresta a pedal steel guitar a um dos temas mais alucinantes do disco, “Sunny Day”, uma divertida e muito sentimental valsa surfista. Mas o disco é essencialmente Nick Nicotine, uma voz soberba, uma fabulosa imaginação e um jeito muito especial para encenar canções, sempre agarradas a uma base blues (espantosa, “Breathless”, uma espécie de Elvis meets Beach Boys meets Springsteen meets etc), mas que voam em delírios, por vezes psicadélicos (“Bodhi and Utah”), que aos mais antigos recordarão a atitude e a sonoridade de Frank Zappa. “Hit Me Like The First Time”, rock’n’roll bem esgalhado, ainda remete para um Nick que conhecíamos de discos anteriores, mas o resto é bem mais solar, produzido, divertido. A merecer cada vez mais atenção.
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Mumford & Sons - Babel (Gentleman Of The Road Edition) ***
E ao segundo disco Marcus Mumford volta a pronunciar a palavra “fucked” numa canção. Provavelmente é um “cameo” musical, como aquela cena de o Hitchcock surgir em pequenas cenas em todos os seus filmes. Sendo assim, vamos ter “fucked” em barda nos próximos tempos, tal é a vontade da banda de manter em funcionamento a galinha dos ovos de ouro que lhes caiu nas mãos há uns anos. O sucesso dos M&S é um evidente exagero e resulta de um peculiar alinhamento de circunstâncias. Desde logo, é impossível ouvi-los sem nos virem à lembrança os muito bem sucedidos Arcade Fire, embora aqui num registo bem mais pobre. Depois, eles preenchem aquela necessidade permanente que temos de regressar às origens, às coisas simples, o que em música quer quase sempre dizer “folk”. Finalmente, e contradizendo o ponto anterior, a música deles funciona gloriosamente em grandes espaços, havendo por isso quem compare a sua atitude em palco com os U2. Mas, na verdade e em resumo, a música dos M&S é um tanto monótona – baseada quase integralmente em guitarras acústicas e banjos, harmonias vocais repetitivas, os mesmos esquemas rítmicos e os mesmos crescendos pensados para os palcos, o insistente cruzamento da temática religiosa com os assuntos do coração. E é indiferente que falemos do primeiro disco (Sigh No More, 2010) ou do segundo, tal é semelhança dos dois objectos. Voltamos a encontrar aqui as grandes canções de estádio (“Lover Of The Light” e “Hopeless Wanderer”), mas também as baladas para quebrar a festa (“Ghosts That We Knew”). A edição que agora chega às lojas é bem o espelho da grandiosidade em que rapazes navegam. O Babel original foi acrescentado de três extras (um deles, “Boxer”, de e com Paul Simon) e ainda de mais um CD e um DVD que recolhem a digressão em que o grupo mergulhou nos últimos anos e na qual foi experimentando algumas das canções do segundo disco. Uma edição para coleccionadores.
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Rodrigo Leão - Songs (2004-2012) ****
O Álvaro, já se sabe, aposta no pastel de nata. O que, sabendo bem, sabe a pouco. Nada, pois, como diversificar. Rodrigo Leão pode ser uma alternativa, ou até uma via paralela. Falamos, claro está, de economia e da necessidade extrema que temos de fazer dinheiro, de preferência lá fora, onde ele existe. Este Songs 2004-2012 é claramente um objecto exportável, tanto mais que Rodrigo Leão não é propriamente um desconhecido em talvez mais países que o pastel de nata. O disco reúne canções cantadas em inglês dos discos Cinema (2004), A Mãe (2009) e A Montanha Mágica (2012), a que se juntam três originais, sendo que um deles, o instrumental “Lost Words”, é a excepção que valida a regra. Em resumo, estamos perante a faceta mais pop de Rodrigo Leão, sendo que, no seu caso, pop não significa necessariamente ligeireza. Apenas uma abordagem mais de acordo com os cânones vigentes, embora nunca dispensando a carga neoclássica e minimalista que é a sua marca de água. As boas companhias - outro argumento de exportação – contribuem fortemente para a fixação da identidade dramática de Rodrigo Leão, seja pela intensidade de Beth Gibbons (“Lonely Carrousel”), ou de Scott Matthew (que assina e canta um dos inéditos, “Incomplete”), ou pelos registos tão característicos de Neil Hannon ou Stuart Staples, ou ainda pelas presenças nacionais de Sónia Tavares e Ana Vieira. A Joan Wasser (Joan As a Police Woman) cabe o outro inédito (“The Long Run”), a canção (valsa) mais ligeira do disco. Nota negativa para o modo como tudo isto é apresentado: em lado algum do disco há nota para as datas de gravação dos temas, em que discos sairam, ou sequer quem canta o quê. Tratando-se de uma antologia (aparentemente, a primeira de uma série sobre a obra do artista), justificava-se algum empenho didáctico, já que, afinal de contas, este disco pode servir de porta de entrada para um dos valores mais seguros da música portuguesa contemporânea.
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Rodrigo Leão
Amy Winehouse - At The BBC ****
Assalto ao espólio, parte II. Com a mesma velocidade com que
Amy Winehouse (1983-2011) passou pela Terra, a indústria discográfica partiu em
busca das pérolas restantes do génio. Após vasculhar nas gravações de estúdio (Lionness: Hidden Treasures), num
trabalho no limite do razoável, chega agora a vez das actuações ao vivo, no
caso, as efectuadas pela BBC rádio e TV, entre 2004 e 2009. Amy foi um diamante
em bruto que por aqui passou, seja pela forma como transformou o seu conflito
com o amor em algumas das mais belas canções da década, seja pela forma
desamparada, nua, como expunha esse doce desconforto em público. Ao vivo –
Lisboa sabe-o – as coisas descambavam frequentemente, sob o peso das drogas e
do álcool. Mas, quando os deuses o permitiam, era sublime, como em “Just
Friends”, “Love Is A Loosing Game”, “Valerie”, ou “You Know I’m No Good”,
presentes neste CD. Das duas edições, com um ou três DVD, a segunda é
obviamente melhor – o contexto visual explica algumas performances.
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The Vaccines - Come Of Age ***
Temos banda, e agora? A questão, diga-se, está razoavelmente
mal respondida na segunda incursão discográfica dos Vaccines. Em 2011,
surpreenderam Londres e o mundo com uns ares de revivalismo punk e a ambição
disfarçada de porta-vozes de uma geração, que é o que todas as bandas punk
sonha(ra)m. Agora, mantêm essa sonoridade crua, já não querem ser bandeira de
coisa nenhuma e assobiam para o lado, disfarçando um certo desnorte conceptual.
O resultado é um disco com algumas canções acima de mediania, mas que acaba por
deixar todas as confirmações em aberto para a terceira rodada, afinal de contas
o drama de muitos segundos discos. Há coisas terríveis (em “Lonely World”
teme-se que sejam sinos de Natal o que se ouve em fundo), há punk a sério (“No
Hope”), experiências interessantes (“Weirdo”), singles evidentes (“Teenage
Icon”), mas, no final, o que pravalece é um “Está bem, e depois?”.
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Áurea - Soul Notes **
Áurea soube aproveitar bem, muito bem mesmo, a sua primeira oportunidade para causar uma boa impressão. O disco com o seu nome, de 2010, vendeu que nem pãezinhos, algumas das suas canções estiveram na rádio durante meses, encheu salas por todo o lado e até teve direito a subsídio de Natal, com um inusitado disco ao vivo lançado fez agora um ano. O segundo disco, tradicionalmente um teste a qualquer artista pop, surge como natural extensão do primeiro e sem qualquer tipo de drama. Áurea e os autores só têm que fazer novas canções, de preferência que lembrem as primeiras, de forma a manter a máquina em funcionamento. Ninguém se lembrará de pedir inovação a um projecto que trabalha precisamente o conceito de pastiche. Ah, e as canções, como são? Pois... são quase iguais às primeiras. Com a diferença de que, agora, já não são surpresa e, na verdade, não há nenhuma com tanta graça como “Busy (For Me” e “Okay Alright”. Um pouco entediante, em suma.
Tori Amos - Gold Dust ****
Estava escrito nas estrelas e, por isso, o maior defeito deste disco acaba por ser a sua previsibilidade. A música de Tori Amos é de um classicismo evidente, seja pela própria criação, seja pela textura da interpretação vocal ou mesmo pela omnipresença do piano. Frutos de uma educação esmerada... Esta revisitação de canções de duas décadas de carreira acaba, pois, por não desarrumar excessivamente os originais, percorrendo caminhos de alguma segurança criativa. Não é por acaso que os arranjos foram entregues a John Philip Shenale, colaborador de longa data. O risco recai, pois, todo na selecção do repertório, que deixa de fora as canções mais conhecidas e opta por momentos de maior intimidade autobiográfica. Tudo somado, este disco acaba por constituir um catálogo demonstrativo das enormes capacidades criativas e interpretativas de Tori Amos. Canções como “Yes, Anastasia”, “Winter”, “Jackie’s Strenght”, ou a que dá nome ao disco, são disso exemplo.
Two Door Cinema Club - Beacon ***
Disco sound revisitado na era da música indie. Os norte irlandeses Two Door Cinema Club (TDCC) ultrapassam confortavelmente a maldição do segundo disco e atiram mais 11 peças para as pistas de dança. A receita, desvendada em Tourist History (2010), é simples: meia dose de electrónica, outro tanto de guitarras. Nem sempre com grande rigor – “Wake Up” soçobra às roupagens eléctricas, “Someday” respira guitarras por todo o lado. Ouvimos, por vezes, uns coros perfeitos a lembrar Fleet Foxes (!?), por exemplo, no início de “The World Is Watching” – uma grande canção, já agora –, outras vezes, a barreira de guitarras recorda os Strokes. Não vale a pena, porém, menosprezar a obra, remetendo-a às influências. Ou sequer limitá-lo ao evidente pastiche de alguma música dos anos 80/90. Este é material original. E, claro, bem mais profissional, elegante também, que o do primeiro disco.
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Andrew Bird - Aula Magna
Ah, os encantos de Lisboa! Andrew Bird é apenas mais um dos
grandes nomes da cena musical contemporânea que se apaixonou pela cidade e que
viu tal amor correspondido. Já cá actuou muitas vezes, já cá passou uns dias,
deu conferências sobre escrita musical (!), já cá escreveu canções (“Tenousness”),
já cá se inspirou para canções “Lusitania” [buhhh... um erro que Bird rectifica na última edição do Ipsilon/Público]. E quando dizemos que se trata de um
dos grandes da música actual não estamos apenas a devolver a simpatia. Apesar
de não andar pelos tops, Andrew Bird é, de facto, um dos mais talentosos
compositores no activo, cruzando influências folk, pop, ciganas, clássicas...
Não se fica, porém, pela composição. É um intérprete de mão cheia, seja pela
voz melodiosa e bem colocada, seja pela faceta de multi-instrumentista, com o
seu quê de experimental, seja pelo famoso assobio, com que adorna muitas das
canções. Seja, finalmente, pelo empenho e criatividade que empresta às
actuações ao vivo. Assistir a um dos seus concertos é, desculpe-se a
redundância, um espectáculo. Porque Andrew Bird, irrequieto mas concentrado na
sua música, enche um palco, supreendendo o público e os músicos que o
acompanham com o modo como reinventa canções que originalmente já eram de grande
riqueza de composição e interpretação. Esta passagem pela Aula Magna centra-se
em Break It Yourself (2012) e no seu
complemento acabado de sair (Hands of
Glory), mas haverá certamente inúmeras viagens ao passado. Lisboa merece.
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The Walkmen - TMN Ao Vivo
É um caso de amor. Poderá ser até desconcertante, mas, como todos os
casos de amor, não tem grande explicação. Entre The Walkmen e os
portugueses há uma certa química, percebe-se que a corrente passa. E não
é nada evidente a razão para esse fascínio mútuo. Sentimo-nos, talvez,
atraídos por aquele lirismo de coração ao pé da boca de “The Rat”, o tema que melhor os identifica. E talvez eles revejam em nós os
românticos incorrigíveis que povoam as suas canções.
Delírios à parte, a verdade é que já são necessários os dedos das duas
mãos para contar o número de vezes que The Walkmen actuaram em Portugal,
desde que, em 2008, aqui puseram os pés (este ano, por exemplo, já
passaram pelo Porto, no Verão). E, claro, não há assim tantas bandas que
tenham traduzido a sua admiração por uma cidade no título de um disco
(Lisbon, 2010).
A digressão que agora os traz cá centra-se no mais recente CD, Heaven, que apresenta uma banda mais segura, mais cuidada na arquitectura das canções, mais atenta aos pormenores, com o que isso implica de perda daquela força radical dos primeiros tempos. Esperam-se, por isso, momentos de algum recolhimento – sendo que seria de bom tom não se cair no exagero de entoar “We Can’t Be Beat” de mãos no ar...
Não que o novo disco não tenha motivos para que Hamilton Leithauser rasgue a voz (“Heartbreaker”, por exemplo), mas deverão ser as velhas canções a puxar a locomotiva quando o Coliseu quiser explodir em movimento de celebração.
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The Walkmen
Calexico - Algiers ****
Algiers, esclareça-se, é um subúrbio de New Orleans e os
Calexico mantêm-se, portanto, no seu território habitual: o Sul dos Estados
Unidos, com os ouvidos e talvez a alma ainda mais a sul, México especialmente.
O sétimo disco desta banda do Arizona é o mais terreno de todos, com os pés na
terra. O som continua a perseguir caminhos de fusão, mas o experimentalismo e a
criação de ambientes têm vindo a dar lugar às canções. Só canções. “Epic”, por
exemplo, abre o disco com a mais perfeita marca de água dos Calexico – um poema
de amor arrebatado, melodia melodramática, encenação instrumental sempre
surpreendente. O resto é enamoramento das guitarras do norte com os trompetes
mariachis do sul, em “Vanishing Mind” ou “Puerto”, por exemplo. Ou as camadas
subterrâneas de latinidade em “Sinner In The Sea”, que vêm à superfície no belo
e doloroso “No Te Vayas”.
Poor Moon - Poor Moon ***
Impossível fugir à evidência – ouve-se Fleet Foxes a cada
esquina deste disco. Não apenas pelo facto de Christian Wargo (que assina todos
os temas) e Casey Wescott serem membros activos da banda de Seattle, mas
especialmente porque, tendo embarcado num projecto autónomo, não fazem o mínimo
esforço de distanciamento da banda mãe. O mesmo som etéreo, as mesmíssimas
harmonias vocais, o mesmo bucolismo. A grande diferença reside na intensidade -
à densidade gongórica dos Fleet Foxes respondem os Poor Moon com tecidos
sonoros de grande subtileza. Cada canção é tratada como uma pequena jóia, em
que instrumentos e vozes respiram com grande liberdade. “Bird”, uma quase
cantilena infantil, “Phantom Light”, que parece ter nascido num salão do
Renascimento, ou “Holiday” (já ouviram falar dos Belle and Sebastian?) são
apenas algumas das canções que, comparações à parte, valem bem uma audição.
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