Sigur Rós - Kveikur***

Os Sigur Rós deixaram-se de contemplações, literalmente ou quase, e o resultado, sendo surpreendente, não espanta nem encanta por aí além. O sétimo disco da banda islandesa, agora reduzida a três elementos, assume uma certa influência do mundo do metal e das suas correntes mais industriais e sombrias. O resultado não poderia ser mais óbvio, logo a partir da abertura, com "Brennisteinn", ou mais à frente com o tema que dá título ao CD - o ambiente é claramente pesado, à beira da opressão audio-respiratória, e alguns ouvidos menos habituados poderão mesmo confundir esta música com alguma instalação fabril fora de controlo. Os outros Sigur Rós, mais lineares e contemplativos, também marcam presença, por exemplo, em "Var", e noutros momentos ("Stormur") parecem quase soçobrar à pop. Poder-se-ia, então, imaginar que a diversidade de soluções é sinal de vitalidade. Paradoxo: estes 50 minutos (será a batida) resultam um tanto entediantes.

LLoyd Cole - Standards ***

LLoyd Cole é um tipo honesto, pacato até. Devemos, por isso, encarar as demasiado óbvias citações de Dylan presentes neste disco como uma espécie de veneração, um tributo que qualquer um de nós poderia manifestar ao Todo Poderoso. Porque, fossemos induzidos pelo marketing associado, estaríamos agora aqui a zurzir no pobre do Lloyd, que, após ouvir Tempest, o mais recente do Mestre, teria visto a luz e sido finalmente conduzido para os caminhos resplandecentes da Grande Arte. Ora o que podemos ouvir em Standards é apenas uma citação de fraseado musical, mais verdadeiramente pela via dos Byrds, em "Period Piece", e um mais descarado pastiche em "Diminished Ex". E é o que há de Dylan por aqui, e não é muito nem especialmente brilhante. O que há, e isso é mesmo bom, é Lloyd Cole do mais clássico, a remeter directamente para os Commotions da década de 80. Ou seja, música mais luminosa do que a recente discografia a solo, toda ela muito caseira e sombria. Aqui imperam as guitarras em vários formatos, sublinhadas pelos característicos coros, e uma vaga inspiração country nas baladas, como é o caso de "Myrtle and Rose", que Johnny Cash não desdenharia incluir nos famosos últimos discos (nem lhe faltam as referências bíblicas...). Imutável, na música de Lloyd Cole, independentemente da roupagem mais ou menos profissional, é aquela aura de uma melancolia que sabe bem. A despedida de "Silver Lake", a nostalgia de "Women's Studies", ou a ambivalência de "Kids Today" são apenas alguns exemplos. Essa doce tristeza é, afinal, a marca de água que suplanta qualquer citação, mais ou menos estudada, de Dylan.

The National - Trouble Will Find Me ****

No seu trabalho mais recente (Heaven), os Walkmen fizeram-se fotografar na contracapa com uma data de filhos. Agora são os National que ocupam uma página do booklet de Trouble Will Find Me com uma dedicatória à múltipla descendência. Estarão as bandas fetiche dos jovens adultos ilustrados a calçar as pantufas? Depois da saída do armário, da indie e do culto, que representou o assinalável sucesso de High Violet (2010), os National tinham tudo para deitar tudo a perder, especialmente se optassem pela auto-contemplação da repetição. O perigo tinha pernas para andar - a banda sempre jogou na exploração de sonoridades intensas, mas minimais e repetitivas. Aliás, muita da intensidade da sua música deriva do trabalho da percussão, por natureza repetitiva. Neste disco, o perigo espreita, nem tanto o da repetição, antes o de alguma banalidade. Por exemplo, "Humiliation" anda ali nas margens do aborrecimento, perdida algures entre os U2 e os Coldplay. Mas é, felizmente, a excepção. O resto disco é todo ele um trabalho de maturada depuração das tensões e catarses, lirismo e ironia, corações partidos e charadas metafóricas que fazem, a que voz de Matt Berninger dá uma espessura e uma gravidade únicas. A grande canção do disco é seguramente "Pink Rabbits", um daqueles temas de amor radical, impossível e maravilhoso que a banda conduz a um clímax que nunca mais chega, mas que vai sabendo bem enquanto demora. "Fireproof" é outra pequena pérola: guitarras e percussão, paralelas e desencontradas, até no ritmo, salvas pelas cordas. Os cultores dos clássicos terão sempre "Demons", uma coisa tão National que até chateia. Ah, e aquela coisa das pantufas, sempre é verdade? Mas que raio de pergunta. Parece um verso do Berninger.

A tradição é para reinventar - Cool Jazz 2013


Se há coisa de que estes quatro não podem ser acusados é de terem parado no tempo. Manuel Morgado apresenta os nomes que encerram o EDP Cool Jazz

Diana Krall conquistou já um daqueles lugares a partir dos quais todos os outros se definem. Uma artista de referência, portanto. Há quem a imite, quem apenas se deixe influenciar, quem procure diferenciar-se. Ninguém, no mundo do jazz pop, lhe fica indiferente. Foi logo assim quando, em 1993, começou por irritar os puristas do jazz, simplesmente porque era branca, gira e cantava bem. Ainda faz tudo isso, até melhor, levando agora mais longe o luxo de fazer o que bem lhe apetece. O último disco, Glad Rag Doll (2012) é uma colecção de temas dos anos 20 e 30, produzidos pelo mago do R&B e soul T-Bone Burnett. Guitarras, em vez de cordas, piano rock'&'roll, em vez de piano jazz. Outros standards.

Rufus [Wainwright] em palco é sempre uma experiência surpreendente. Tanto mais quanto, desta vez, volta a solo, ao piano, o que certamente beneficiará sobremaneira aqueles diálogos com o público que marcam os seus concertos. O último disco (Out Of The Game, 2012) não é propriamente dos mais entusiasmantes da sua carreira, revelando mesmo algum cansaço, especialmente na composição, que nem a produção omnipresente de Mark Ronson consegue esconder. Os últimos anos foram, de resto, entregues a algum experimentalismo, como se Rufus quisesse demonstrar que é ainda algo mais do que um dos mais talentosos e seguros da sua geração. Revisitar uma tal carreira em registo intimista é coisa para resultar mais que bem.

Que Jamie [Cullum] virá desta vez? O Jamie dos clássicos em registo clássico, muito piano, cordas e voz serena? Ou o Jamie do último disco, todo ele irrequieto, a piscar o olho à electrónica, até às pistas de dança? Momentum (2013) é, de facto, uma obra de ruptura, como se o ídolo dos adolescentes tivesse chegado à conclusão de que as canções com que se tornou conhecido estavam a ficar demasiado limitadas. Ao vivo, é natural que acabe por vencer a versão tradicional, de mais fácil execução, e - talvez - a que dá mais garantias de agradar à audiência. De qualquer forma, Jamie, apesar das aparências, é já um intérprete com créditos firmados e, logo, com legitimidade para mandar dançar a seu bel prazer.

Herdeiro da tradição soul com empenhamento político, John Legend tem vindo a registar sucessos assinaláveis, depois de, em 2004, ter gravado o primeiro disco à sombra da constelação Kanye West. Pratica uma música eléctrica e electrizante, talvez apelo explícito à dança em noites de Verão. Essa característica é especialmente audível no último disco, Wake Up (2010), com os Roots, um exercício que deve quase tudo ao funk. O disco é, de resto, o mais politizado de toda a carreira, na qual são privilegiadas as canções de soul clássico, servidas por uma voz possante e arranjos dignos dos grandes dessa corrente musical. Estreia de palco em Portugal e uma boa oportunidade para ouvir um músico pouco rodado por cá.

Jamie Cullum- Momentum ***

Deixaram o miúdo à solta e é o que se ouve. Na verdade, Cullum já não é tão miúdo assim e este disco, se estilhaça a imagem do bem comportadinho com piano à frente, é mais sinal de maturidade que de infantilidade. O piano continua presente por todo o lado, mas agora claramente ofuscado por uma sonoridade que cruza batidas soul de há umas décadas com uma electrónica esparsa e pragmática apontada aos tops (quem verdadeiramente fica a perder são os violinos...). "Edge of Something" e "Everything You Didn't Do" são apenas duas desenvoltas amostras desse novo espírito. "Love For Sale", a versão que confirma a regra, e "Pure Imagination", a excepção orquestrada que nos liga aos cinco discos anteriores. Um disco, enfim, que se arrisca a não agradar a ninguém, nem às fãs apaixonadas de sempre, nem aos críticos desconfiados com meninos prodígio. Mas só esse desconforto do risco é já uma confortável vitória.

Maria Rita


Há um ano atrás, quando Maria Rita aceitou o desafio de homenagear a mãe, por ocasião dos 30 anos do seu desaparecimento, pode fazê-lo de consciência tranquila - tinha atrás de si uma década e quatro discos que a confirmavam como cantora por direito próprio. Porque Maria Rita teve que resolver, talvez até perante si própria, essa bênção que era também a sua maior maldição, aquele timbre que faz recordar a cada respiração a enorme voz da mãe Elis Regina. Dessa homenagem, nasceu um disco duplo ("Redescobrir") e uma digressão, que passa agora por Portugal. Timbre à parte, basta ouvir, por exemplo, a versão ao vivo de "Como Nossos Pais" para perceber que Elis não é imitável. Trata-se, pois, de uma homenagem, não de uma (impossível) recriação, mesmo que o tal timbre traia amiúde a cantora e quem a ouve. Uma boa oportunidade para recordar clássicos como "Águas de Março" ou "Arrastão".

Alicia Keys


Quando Alicia Keys canta sobre uma "Girl on Fire", fá-lo na terceira pessoa. E isso faz toda a diferença. Fossem Beyoncé ou Rihanna a cantar e a tal rapariga em chamas (ardente) estaria na primeira pessoa, como, aliás, no vídeo da segunda com Eminem ("Love the Way You Lie"). Com essas duas divas da neo-soul, estamos no território do explícito - elas mostram tudo, sejam os sentimentos, sejam as pernas. Em palco, são máquinas programadas para continuar esse jogo de hiper-exibição. Alicia Keys é diferente, muito diferente. A zona mais erógena do seu corpo nem sequer está à vista, já que é com as cordas vocais que mais nos seduz. Por isso, nada que enganar - espectáculo com pirotecnia carnal, só no regresso da Rhianna ou da Beyoncé. Não que Alicia não dance, só que a sua dança faz-se mais de insinuação que de transpiração. Os seus gestos limitam-se muitas vezes a leves esboços e, ao vivo, deixa o fitness para os dançarinos convidados. Os concertos de Alicia Keys - e Lisboa já assistiu a quatro, tendo deixado boas recordações de todos eles - vivem de uma ambivalência que poderia conduzir ao desastre, não estivéssemos perante alguém cada vez mais seguro de si, quer como compositora, quer especialmente enquanto intérprete. São espectáculos que não podem escapar às grandes encenações de pendor tecnológico, mas que também guardam um espaço generoso para a demonstração do virtuosismo da artista, seja no papel de pianista (os ecrãs projectam frequentemente grandes planos das suas mãos), de intérprete (e Alicia é, seguramente, uma das mais surpreendentes vozes femininas da actualidade), ou de compositora, e aí será fundamental deixar respirar as texturas, delicadas ou vibrantes, de um R&B de primeira água. Ou seja, haverá espaço para alguma pirotecnia, mas também para o intimismo possível de um grande espaço. E não será difícil adivinhar que será precisamente neste segundo registo que o concerto atingirá os seus melhores momentos. A base da digressão mundial em curso é, obviamente, o seu quinto disco, "Girl on Fire", de 2012, com o qual quebrou um silêncio de quase três anos. Um disco que reflecte o amadurecimento pessoal pós-maternidade, expresso, por exemplo, em "Brand New Me" ou em "New Day", mas pelo qual passa também uma poderosa corrente erotizante ("Fire We Make"), ou baladas do mais puro classicismo de partir o coração "Tears Always Win". É claro que haverá tempo para revisitar um carreira iniciada em 2001 (se descontarmos as aulas de piano, aos sete anos), com Songs In A Minor, e cristalizada em 14 prémios Grammy, mais de 30 milhões de discos vendidos. Uma viagem ao passado por terrenos nem sempre óbvios, e que incluem, por exemplo, "Fallin'", ou "Like You'll Never See Me Again", num registo de enorme contenção. E, claro, o imprescindível "New York State of Mind", com um J-Zay enlatado e projectado em ecrã gigante. Algures entre duas canções, Alicia talvez lhe peça que ligue a luz do telemóvel em nome de qualquer coisa (ou será causa?). O melhor é alinhar. As grandes divas, dizem, não gostam de ser contrariadas.

John Grant - Pale Green Ghosts ****

"Queen of Denmark", do disco homónimo de estreia (2010), estabeleceu um paradigma de cinismo na forma de canção dificilmente igualável. E, no entanto... No entanto, neste segundo registo, John Grant esforça-se por bater esse recorde pessoal. Não é comum encontrarmos - num disco, quanto mais numa mesma canção - tais doses de ironia, auto-ironia, crítica, sofrimento e redenção, como acontece em mais que um dos temas deste CD. As canções de Grant giram invariavelmente em torno da dor, seja a repressão da homossexualidade, o consumo descontrolado de álcool e droga, o diagnóstico de HIV, ou simplesmente os banais desencontros da vida. Banal seria, porém, reduzir esta poesia aos seus motivos próximos. É verdade que o "agente laranja" do tema "Vietnam" é assumidamente um ex-namorado, que de resto povoa todo o disco, mas será redutor ouvir "This pain / It is a glacier moving through you / And carving out deep valleys / And creating spectacular landscapes" colado a uma qualquer situação concreta. Este segundo disco confirma Grant como um extraordinário escritor de canções, com um apurado sentido lírico e dramático, que a voz encorpada serve na perfeição. "I Hate This Town", por exemplo, lembra "Going to a Town" (Rufus Wainwright), até pelas similitudes da construção sinfónica. Esse classicismo tem, neste disco, um tratamento inesperado, mercê da colaboração com Biggi Veira, dos electrónicos islandeses GusGus. O som pastoral dos Midlake do primeiro disco cede lugar à electrónica versátil, numa sonoridade a remeter amiúde para os anos 80. A frieza dos sintetizadores é, porém, temperada pela calidez das harmonias, marca de água de Grant. A par do cinismo, por questões de sobrevivência.

She & Him - Volume 3 ***

Um dia, ainda vamos descobrir que Zooey Deschanel e M. Ward, na versão She & Him, nunca existiram. Foi tudo feito em computador, daí a forma mecânica de nomear os discos: Vol.1 , Vol. 2, Vol. 3... A sério: já devem existir apps que juntam pedacinhos de canções e fazem outras canções, completamente novas, mas que já ouvimos em algum lado. Uma memória ao contrário. Zooey, na escrita, e M., no embrulho da coisa, são, além do mais, perfeccionistas. Por isso, é quase irresistível bater o pezinho ou deixar cair a cabeça sonhadora sobre o ombro ao ouvir estas evocações de uns anos 50 ou 60 que não vivemos. O único problema é que a fórmula, parasita por definição, tende a esgotar-se. É bonito, e depois?, já conhecemos. Há, porém, momentos de rara beleza ("Turn To White"), em que a fragilidade das vozes lembra que estamos perante simples humanos ("Baby" - uma versão), ou até de partir o coração ("Together"), que (os) salvam.

Ciclo Preparatório - As Viúvas Não Temem A Morte ****

Num assomo de modéstia e síntese, autodefinem-se como Grupo Coral Pop Especial Rural-Chique Delicodoce. Definição alternativa? Mais uma banda de queques urbanos fascinados por uma ruralidade que nem da TV conhecem e... também pelos anos 80. O resultado não é apenas agradável, talvez venha a ser um dos discos do ano, quiçá até mesmo de um Verão tão efémero como efémera é a pop divertida e certeira que praticam. Aos mais velhos – e a pose nostálgica assenta-lhes tão bem – isto soará a uma revisitação dos Heróis do Mar com a Lena d’Água ao microfone. Soa e soa bem, que a Lena entra numa das canções, título e voz. Outra Lena, esta Del Rey, é protagonista (calma, que é só em sonhos...) numa dos muitos exercícios de estilo que povoam o disco. As letras bem esgalhadas, cheias de coisas divertidas e filosóficas (!), encaixam perfeitamente em canções ágeis, apelativas (comerciais!) e muito bem interpretadas. Prometem.

Carla Bruni - Little French Songs ***

A língua francesa está a morrer e só os franceses ainda não o perceberam. Por isso, deveriam estar agradecidos a Carla, uma italiana no BI, pelo meritório trabalho que tem feito, não apenas de divulgação da língua, nas especialmente pela recuperação e reformulação de uma das marcas gaulesas por excelência – a chanson. Esse exercício tem neste disco o seu zénite provisório. É de longe aquele em que a reconstrução da chanson vai mais longe, com o aproveitamento de estruturas e referências históricas desse estilo musical e a sua projecção numa elegante modernidade, que obviamente desemboca no... inglês. ‘Darling’ é disso mesmo um excelente exemplo, mas a canção que dá o título ao disco explicita-o de uma forma muito evidente. A ironia – humor, mesmo – que imprime a quase todos os temas é outros dos avanços deste quarto disco. A voz, essa continua sensualmente imperfeita, para irritação dos puristas.

JP Simoes - Roma ****

Valter Hugo Mãe escreveu um texto para este disco em que trata JP Simões por “Eduardo Lourenço da música popular portuguesa”. Faz sentido. Como sentido faria que Alexandre O’Neill fosse o autor de “Gosto De Me Drogar”, um retrato auto-irónico, vagabundo e terno do português comum, o portuguesinho, como diria o poeta, confrontado e confortado com o seu fado, num fado a descambar para o vaudeville, coro de revista de outros tempos. A graça, ponhamos as coisas assim até porque elas bastas vezes têm mesmo graça, das canções de JP Simões reside precisamente naquele jeito de agarrar a alma lusitana, na circunstância do seu tempo, como agora, perseguidos que somos por esses “talibãs da Goldman Sachs”, no retrato gaspariano (de Vítor) de “Rio-me de Janeiro”. Por falar nisso... o que este disco é mesmo é um antídoto para estes tempos deprimentes que vivemos. Som claramente solar, com apelos à dança (“O Fardo do Amor”) e até mesmo coisas a arranhar o pop ligeirito (“A Million Songs of Yesterday”). Um disco ecléctico – talvez o mais ecléctico de JP nas suas várias configurações –, uma autêntica vitrine de estilos e línguas, com o samba e o fraseado brasileiro a saírem claramente por cima, conhecida que é a queda e o jeito do cantor. É assim em “Valsa Rancho”, de Chico e Hime, mas também em “Samba Radioactivo”, novamente entre a ternura e a ironia e que transpira Vinícius por uns poros e Chico da fase teatral por outros. Do catálogo fazem ainda parte o italiano e o francês, no caso a interpretação de um poema de Boris Vian. Roma acaba por evocar a grandeza do império, mas também a sua decadência real e moral, nada que não estejamos a viver. Chateados, mas de sorriso na voz. “Vai para a tumba que te pariu”!

Devendra Banhart - Mala ****

O Devendra andou desaparecido quatro anos, mas, descansem os fãs, não se curou. Está o mesmo maluco de sempre. Aliás, poucos malucos haverá na música actual com tal consistência, mas também com tal liberdade, provavelmente porque não a souberam conquistar. Este disco tem tudo o que já lhe conhecíamos – psicadelismo folk, digamos –, mas acrescenta movimentações no campo da electrónica, que só não desconcertam porque acertam, encaixam no espírito de vale tudo que é a marca de água de Devendra. ‘Your Fine Petting Duck’, um dueto em inglês e alemão com a namorada/designer sérvia Ana Kras, é a prova acabada disso mesmo, uma canção, afinal duas, dual também na ironia com que trabalha o tema do amor (I’ll take you back/cause I don’t really love him), que, de resto, está presente ao longo de todo o disco. Só isso, a ironia, o humor, torna a audição deste disco num exercício que faz bem à saúde. Mental.

Márcia - Casulo ***

Pode uma canção crescer, crescer e... entrar num beco sem saída e nunca ser verdadeiramente canção? Pode, claro. Este disco abre com uma dessas, e tem outras. Há por aqui um assumido desejo de contenção, que acaba por se transformar na armadilha que corta as asas à segunda aventura de Márcia em disco grande. É pena, porque, pelo que já fez, podia, devia e merecia fazer melhor. Sintomática é a escolha de “Deixa-me Ir” para primeiro single, canção mortiça, que só ganha força no clip de Miguel Gonçalves Mendes (José e Pilar), melancólica panorâmica sobre um “país que definha” às mãos da troika. Márcia, convém lembrar, chega a este disco com dois trunfos de peso: o êxito de “A Pele Que Há em Mim”, com JP Simões, e a autoria de “Até ao Verão”, o single de promoção do mais recente Ana Moura. Daí a expectativa, depois de uma estreia muito promissora (Dá, 2010). Deste novo capítulo esperar-se-ia mais que canções bonitas, ambientes de grande beleza e sofisticação (“Desmazelo”), poemas consistentes. Tudo competente, muito certinho, sim, mas mediano, sem a vontade de voar mais alto, sem que isso significasse sair do registo. “Delicado”, na mesma linha de “Até ao Verão”, vai por aí, mas pouco acompanhado.

Luísa Sobral - There's a Flower in My Bedroom ****


E no fim foram tristes para sempre. Tristes mas felizes. É assim este disco: histórias de amor que acabam sempre mal, mas que nos são contadas com alegria. Por exemplo, ‘As The Night Comes Alone’ fala-nos de uma rapariga que imagina coisas, namorados mais precisamente, mas que na realidade vive na mais absoluta solidão. Acham que isto nos é contado com choraminguices? Qual quê!? Swing e mais swing e um tralala final que até abana. E (quase) todo o disco é assim. Triste por dentro, alegre por fora. Porque – nota-se – estas 17 (!) canções devem ter dado um gozo do caraças a compor e a gravar. E só isso bastaria para ganhar o desafio do segundo disco. Depois do sucesso (mesmo internacional, helas) da estreia com There’s a Cherry On My Cake (2011), Luísa Sobral resolveu dar um passo atrás e as canções estão agora mais expostas na sua estrutura: há jazz mais jazz (‘The Letter I Won’t Send’) e pop só pop (‘Mom Says’). E mesmo coisas que parecem saídas de um Brasil pré-bossa (‘Inês’, com António Zambujo, ou “Quando Te Vi”). Há convidados estratégicos (Jamie Cullum) e outros que alargam horizontes (Mário Laginha) e a estranha pronúncia de Luísa, seja em português ou inglês. Ligeirinho? Sim, e qual é o problema?

Mazgani - Common Ground ****


Música telúrica e orgânica. Porque parece brotar directamente das entranhas da terra, porque nela se torna impossível perceber onde acaba o corpo e começa o som que ele emite. O terceiro disco de Mazgani, EP à parte, apresenta-nos um artista maduro, finalmente envolto na sonoridade adequada às canções densas e subtis que escreve. É um disco dominado pela voz, que domina as canções. Ou, se quiserem, exactamente o contrário. E um disco de guitarras, que estando sempre presentes, nunca se impõem à voz e às canções. Ouça-se, por exemplo, ‘Common Ground’, a canção que encerra o disco. São cinco minutos de voz ininterrupta, voz e respiração, no tal jogo orgânico de investimento total do corpo. Atente-se na tensão daquela voz, daquele corpo, que se entrega todo ao “fogo que incendeia os lençóis brancos da lua” e que percorre uma espiral encantatória, a que uma guitarra quase distraidamente dedilhada e uma tuba quase silenciosa se limitam a emprestar o terreno de progressão. São, seguramente, dos mais belos cinco minutos dos últimos tempos. Ouça-se agora “Blow Wind”, a face mais telúrica do disco. Uma cantilena encantatória, com o trémulo das guitarras a soprar visualmente sobre um deserto quente e seco. A dança do vento. E ouça-se, claro, “Dog at your Door”, apenas para que se entenda a raiz de tudo isto: os blues duros e crus, as inconstâncias do coração. E as baladas, líricas, comoventes: “Into the River”, ou “Hold me a While”, com os metais a invadirem declaradamente a placidez das guitarras. Artesãos por detrás de tudo isto? Mazgani, o iraniano de Setúbal e do mundo. John Parish (PJ Harvey) e Mick Harvey (Nick Cave), na produção e instrumentos. Gravado em Bristol, para ouvir em todo o lado.

Mumford & Sons


O sucesso dos Mumford & Sons construiu-se na estrada. Em sete anos de carreira, lançaram apenas dois discos – Sigh No More (2009) e Babel (2012) –, mas deram milhares de pequenos e grandes concertos, em casa e depois na América, e foi aí, ao vivo, que a fama singrou. Porque esta música funciona bem é em pubs, onde há muito tempo nasceu, ou em grandes e pequenas arenas, que a banda enche de banjos vibrantes e coros gritados. Uma festa, portanto, como Lisboa já comprovou, no Verão passado, no Optimus Alive. 2013 foi, de resto, o ano de ouro dos Mumford & Sons (M&S), com uma digressão de sucesso avassalador nos EUA, culminando no Outono, com o segundo disco a entrar directamente para os primeiros lugares dos tops e a vender que nem pãezinhos quentes, na América e no resto do mundo. Já no início deste ano, surgiria a consagração e os M&S a receberiam o galardão de melhor disco para Babel na cerimónia dos Grammys. Há que se lhe tirar o chapéu – poucos se atreveriam a prever tal sucesso, quando, nos primeiros anos, faziam o circuito da música alternativa no Reino Unido, com um som um tanto inusitado: a recuperação do folk acústico, sustentado quase integralmente em guitarras, banjos e harmonias vocais, que contavam (e contam) histórias de amor com frequentes referências religiosas. Terá sido, pois, a persistência e o tal ambiente de festa quase encantatória que criam em palco que lhes garantiu o lugar de destaque que agora ocupam. É claro que se trata de um estilo com as suas limitações e o grande desafio dos M&S será manter a máquina em funcionamento por muitos e bons anos. Para já, nada mais se lhes pede que repitam em Lisboa o apelo ao coro do público, talvez ao isqueiro (iphone?) nas baladas e, seguramente, uns saltos em alguns dos temas mais conhecidos. É dia de festa e não a vamos estragar com ideias sombrias sobre o futuro, pois não?

Patrick Watson + Perry Blake


Uma noite de construção de paisagens sonoras na Avenida. Patrick Watson, já conhecemos, com aquela cacofonia organizada que se tornou imagem de marca. Perry  Blake a surpreender, com um projecto radicalmente diferente daquilo a que nos habituou. Deixemos as surpresas para o fim. Patrick Watson traz a Lisboa um concerto vastamente rodado na América, construído em torno do último disco, Adventures in Your Own Backyard. Acontece que, nesse CD de prolongada maturação doméstica, o canadiano experimentou um novo conceito: tentar captar em estúdio a criatividade exuberante dos espectáculos ao vivo. Uma inversão de processos, que tornará menos surpreendente o exercício de palco, apesar disso muito recomendável, tendo em conta o rasto de imaginação que o portugueses tão bem conhecem. Perry Blake, outro habitué destas paragens, traz agora o seu novo projecto, Electro Sensitive Behaviour, do qual pouco se conhece – o disco só sai daqui a umas semanas -, apenas que se trata de electrónica pura e dura. Resta saber se o projecto abarca apenas as novas canções, ou se irá reciclar aquelas coisas melodiosas com que o irlandês se estabeleceu nas margens menos comerciais da pop.

El Perro del Mar - Pale Fire***

A amor, como sabem, é uma treta. Dancemos, por isso. Ou a isso. Tivessem ainda os discos mensagem e esta seria a de Pale Fire, quinto exercício da sueca Sarah Assbring, El Perro del Mar por vontade própria. Há uns anos que ela canta esse tal amor, uma espécie de miragem que sempre se desvanece na hora em que a alcançamos. Um fogo pálido. Este disco aprofunda o movimento iniciado com Love Is Not Pop (2009), com a rendição à electrónica, mas inflecte decididamente para territórios de dança. Uma espécie de revisitação da década de 1990, a que não faltam todas as expressões que a partir daí se enraizaram: dub, house, hip-hop... Destaque para os três temas que ocupam o zona central do CD (Walk On By, Love In Vain, To The Beat Of a Dying Heart), três temas bem conseguidos, em que a amargura do tal maldito amor é filtrada por caixas de ritmo, teclas estranhas e coros obsessivos. Coisa quase a merecer um novo movimento – urbano-melancólicos?

Vitorino Voador - Vitorioso Voo **

Primeiro estranha-se. E depois também. Mesmo que pelo meio alguma coisa se entranhe, como a batida, a história, o refrão de – tinha que ser – “Carta de Amor Foleira”, o tema que antes de aqui estar já se ouvia, mercê da compilação de Novos Talentos da FNAC. É difícil perceber o que soa mais estranho neste disco. A voz monótona, sem espessura, multiplicada e distorcida em estúdio? As letras directas, por vezes sem poesia, por vezes de métrica desajustada? A composição, minimal, monótona também? Os instrumentos, a lembrar um elefante em loja de brinquedos? Tudo, na verdade, muito estranho, desconcertante, e por vezes desconfortável, até desagradável – por exemplo, o contraste entre os sintetizadores martelados e a voz monocórdica em “Que Sítio É Este”. João Gil, músico de vários projectos (Diabo na Cruz, Feromona, You Can’t Win Charlie Brown...), num primeiro disco montra de experiências sonoras peculiares.

Pedro Cardoso - Mirrors ***


Os espelhos apenas mostram a parte mais triste de ti. Há uma melancolia, talvez até mais que isso, que atravessa estas canções e que as afasta de qualquer comparação mais apressada com o Jack Johnson do surf, ou mesmo com John Mayor, o ídolo confesso de Pedro Cardoso. A postura vocal parece remeter para esses terrenos pós-adolescentes, mas as canções estão demasiado cheias de “pain” e “rain” para se conterem em tal território. A estas canções falta-lhes talvez um pouco mais de produção, que lhes não retirasse a textura quase doméstica e confessional, mas que lhes conferisse uma entidade mais marcada, que desenvolvesse um contraponto mais luminoso a essa voz que, apesar de bela, tende para a monocórdico. Assim, como estão, soam todas excessivamente ao mesmo. Ou seja, talvez que, após dois EP em menos de um ano, Pedro Cardoso merecesse um disco de maior fôlego. De consagração, mas, acima de tudo, de teste.

Mark Eitzel - Dont’t Be A Stranger ****

“We All Have To Find Our Own Way Out”, por exemplo. São 4 minutos e 20 de piano e voz. Suaves. Mas em que se canta a solidão, o desespero, o suicídio. Tudo muito serenamente. Ou, logo na abertura, quando Mark Eitzel canta “she wrote I love you, but you’re dead”, numa canção que quase poderíamos considerar pop, pela escrita escorreita e pelos arranjos, do mais tradicional deste disco, baixo, guitarras, bateria. Sim, é de canções que aqui se fala. De canções muito bem construídas, de recorte tradicional, mas pela quais se vão infiltrando derivações inesperadas, encantatórias. Seja pelo que nelas se canta, reflexões de vida raramente luminosas, seja pelas texturas musicais que nos vão surpreendendo, sem nunca quebrar o frágil fio delicado que as tece. Porque, se é verdade que este disco marca o regresso de Eitzel ao traballho em banda, não é menos certo que por vezes nem se dá por ela, a banda, tal a subtileza dos tecidos que desenha. Há coisas de pura beleza, como “All My Love”, uma reinterpretação à volta do piano de um tema dos American Music Club (2008). Outras surpreendentes, como a barroca Break The Champagne (já ouviram um Marxophone? Procurem-no no Youtube...). Outras simplesmente grande canções, sem mais nada, como “Oh Mercy”. Este é, pois, um disco de canções, e também de uma banda. Mas é também o de uma voz. E muito se tem dito e escrito sobre a voz de Mark Eitzel, agora mais frágil, supostamente por causa do brutal ataque cardíaco de há dois anos. A verdade é que, seja qual for a razão, essa fragilidade vocal assenta que nem uma luva à melancolia temática e subtileza conceptual do disco. Enfim, um regresso em grande de um dos nomes marcantes das últimas décadas da indie, em nome próprio ou integrado nos intermitentes American Music Club.

Nick Nicotine’s Mystical Orchestra - Gypsicalia ****

Uma banda de ciganos brasileiros que pratica música americana numa oficina abandonada no Barreiro. Está bem visto, mas não é totalmente verdade. Os ciganos estão apenas no título do disco e talvez no ambiente de festa descontrolada que toma conta das canções. Já brasileiros, há-os. Marcelo Camelo, na voz de “Tropic of Capricorn”, um tema que vai sendo corroído por dentro pelo tropicalismo, para acabar em qualquer coisa que mistura o samba e a morna. Brasileiro, ainda, Alex Kassin, que empresta a pedal steel guitar a um dos temas mais alucinantes do disco, “Sunny Day”, uma divertida e muito sentimental valsa surfista. Mas o disco é essencialmente Nick Nicotine, uma voz soberba, uma fabulosa imaginação e um jeito muito especial para encenar canções, sempre agarradas a uma base blues (espantosa, “Breathless”, uma espécie de Elvis meets Beach Boys meets Springsteen meets etc), mas que voam em delírios, por vezes psicadélicos (“Bodhi and Utah”), que aos mais antigos recordarão a atitude e a sonoridade de Frank Zappa. “Hit Me Like The First Time”, rock’n’roll bem esgalhado, ainda remete para um Nick que conhecíamos de discos anteriores, mas o resto é bem mais solar, produzido, divertido. A merecer cada vez mais atenção.

Mumford & Sons - Babel (Gentleman Of The Road Edition) ***

E ao segundo disco Marcus Mumford volta a pronunciar a palavra “fucked” numa canção. Provavelmente é um “cameo” musical, como aquela cena de o Hitchcock surgir em pequenas cenas em todos os seus filmes. Sendo assim, vamos ter “fucked” em barda nos próximos tempos, tal é a vontade da banda de manter em funcionamento a galinha dos ovos de ouro que lhes caiu nas mãos há uns anos. O sucesso dos M&S é um evidente exagero e resulta de um peculiar alinhamento de circunstâncias. Desde logo, é impossível ouvi-los sem nos virem à lembrança os muito bem sucedidos Arcade Fire, embora aqui num registo bem mais pobre. Depois, eles preenchem aquela necessidade permanente que temos de regressar às origens, às coisas simples, o que em música quer quase sempre dizer “folk”. Finalmente, e contradizendo o ponto anterior, a música deles funciona gloriosamente em grandes espaços, havendo por isso quem compare a sua atitude em palco com os U2. Mas, na verdade e em resumo, a música dos M&S é um tanto monótona – baseada quase integralmente em guitarras acústicas e banjos, harmonias vocais repetitivas, os mesmos esquemas rítmicos e os mesmos crescendos pensados para os palcos, o insistente cruzamento da temática religiosa com os assuntos do coração. E é indiferente que falemos do primeiro disco (Sigh No More, 2010) ou do segundo, tal é semelhança dos dois objectos. Voltamos a encontrar aqui as grandes canções de estádio (“Lover Of The Light” e “Hopeless Wanderer”), mas também as baladas para quebrar a festa (“Ghosts That We Knew”). A edição que agora chega às lojas é bem o espelho da grandiosidade em que rapazes navegam. O Babel original foi acrescentado de três extras (um deles, “Boxer”, de e com Paul Simon) e ainda de mais um CD e um DVD que recolhem a digressão em que o grupo mergulhou nos últimos anos e na qual foi experimentando algumas das canções do segundo disco. Uma edição para coleccionadores.

Rodrigo Leão - Songs (2004-2012) ****

O Álvaro, já se sabe, aposta no pastel de nata. O que, sabendo bem, sabe a pouco. Nada, pois, como diversificar. Rodrigo Leão pode ser uma alternativa, ou até uma via paralela. Falamos, claro está, de economia e da necessidade extrema que temos de fazer dinheiro, de preferência lá fora, onde ele existe. Este Songs 2004-2012 é claramente um objecto exportável, tanto mais que Rodrigo Leão não é propriamente um desconhecido em talvez mais países que o pastel de nata. O disco reúne canções cantadas em inglês dos discos Cinema (2004), A Mãe (2009) e A Montanha Mágica (2012), a que se juntam três originais, sendo que um deles, o instrumental “Lost Words”, é a excepção que valida a regra. Em resumo, estamos perante a faceta mais pop de Rodrigo Leão, sendo que, no seu caso, pop não significa necessariamente ligeireza. Apenas uma abordagem mais de acordo com os cânones vigentes, embora nunca dispensando a carga neoclássica e minimalista que é a sua marca de água. As boas companhias - outro argumento de exportação – contribuem fortemente para a fixação da identidade dramática de Rodrigo Leão, seja pela intensidade de Beth Gibbons (“Lonely Carrousel”), ou de Scott Matthew (que assina e canta um dos inéditos, “Incomplete”), ou pelos registos tão característicos de Neil Hannon ou Stuart Staples, ou ainda pelas presenças nacionais de Sónia Tavares e Ana Vieira. A Joan Wasser (Joan As a Police Woman) cabe o outro inédito (“The Long Run”), a canção (valsa) mais ligeira do disco. Nota negativa para o modo como tudo isto é apresentado: em lado algum do disco há nota para as datas de gravação dos temas, em que discos sairam, ou sequer quem canta o quê. Tratando-se de uma antologia (aparentemente, a primeira de uma série sobre a obra do artista), justificava-se algum empenho didáctico, já que, afinal de contas, este disco pode servir de porta de entrada para um dos valores mais seguros da música portuguesa contemporânea.

Amy Winehouse - At The BBC ****


Assalto ao espólio, parte II. Com a mesma velocidade com que Amy Winehouse (1983-2011) passou pela Terra, a indústria discográfica partiu em busca das pérolas restantes do génio. Após vasculhar nas gravações de estúdio (Lionness: Hidden Treasures), num trabalho no limite do razoável, chega agora a vez das actuações ao vivo, no caso, as efectuadas pela BBC rádio e TV, entre 2004 e 2009. Amy foi um diamante em bruto que por aqui passou, seja pela forma como transformou o seu conflito com o amor em algumas das mais belas canções da década, seja pela forma desamparada, nua, como expunha esse doce desconforto em público. Ao vivo – Lisboa sabe-o – as coisas descambavam frequentemente, sob o peso das drogas e do álcool. Mas, quando os deuses o permitiam, era sublime, como em “Just Friends”, “Love Is A Loosing Game”, “Valerie”, ou “You Know I’m No Good”, presentes neste CD. Das duas edições, com um ou três DVD, a segunda é obviamente melhor – o contexto visual explica algumas performances.

The Vaccines - Come Of Age ***


Temos banda, e agora? A questão, diga-se, está razoavelmente mal respondida na segunda incursão discográfica dos Vaccines. Em 2011, surpreenderam Londres e o mundo com uns ares de revivalismo punk e a ambição disfarçada de porta-vozes de uma geração, que é o que todas as bandas punk sonha(ra)m. Agora, mantêm essa sonoridade crua, já não querem ser bandeira de coisa nenhuma e assobiam para o lado, disfarçando um certo desnorte conceptual. O resultado é um disco com algumas canções acima de mediania, mas que acaba por deixar todas as confirmações em aberto para a terceira rodada, afinal de contas o drama de muitos segundos discos. Há coisas terríveis (em “Lonely World” teme-se que sejam sinos de Natal o que se ouve em fundo), há punk a sério (“No Hope”), experiências interessantes (“Weirdo”), singles evidentes (“Teenage Icon”), mas, no final, o que pravalece é um “Está bem, e depois?”.

Áurea - Soul Notes **

Áurea soube aproveitar bem, muito bem mesmo, a sua primeira oportunidade para causar uma boa impressão. O disco com o seu nome, de 2010, vendeu que nem pãezinhos, algumas das suas canções estiveram na rádio durante meses, encheu salas por todo o lado e até teve direito a subsídio de Natal, com um inusitado disco ao vivo lançado fez agora um ano. O segundo disco, tradicionalmente um teste a qualquer artista pop, surge como natural extensão do primeiro e sem qualquer tipo de drama. Áurea e os autores só têm que fazer novas canções, de preferência que lembrem as primeiras, de forma a manter a máquina em funcionamento. Ninguém se lembrará de pedir inovação a um projecto que trabalha precisamente o conceito de pastiche. Ah, e as canções, como são? Pois... são quase iguais às primeiras. Com a diferença de que, agora, já não são surpresa e, na verdade, não há nenhuma com tanta graça como “Busy (For Me” e “Okay Alright”. Um pouco entediante, em suma.

Tori Amos - Gold Dust ****

Estava escrito nas estrelas e, por isso, o maior defeito deste disco acaba por ser a sua previsibilidade. A música de Tori Amos é de um classicismo evidente, seja pela própria criação, seja pela textura da interpretação vocal ou mesmo pela omnipresença do piano. Frutos de uma educação esmerada... Esta revisitação de canções de duas décadas de carreira acaba, pois, por não desarrumar excessivamente os originais, percorrendo caminhos de alguma segurança criativa. Não é por acaso que os arranjos foram entregues a John Philip Shenale, colaborador de longa data. O risco recai, pois, todo na selecção do repertório, que deixa de fora as canções mais conhecidas e opta por momentos de maior intimidade autobiográfica. Tudo somado, este disco acaba por constituir um catálogo demonstrativo das enormes capacidades criativas e interpretativas de Tori Amos. Canções como “Yes, Anastasia”, “Winter”, “Jackie’s Strenght”, ou a que dá nome ao disco, são disso exemplo.

Two Door Cinema Club - Beacon ***

Disco sound revisitado na era da música indie. Os norte irlandeses Two Door Cinema Club (TDCC) ultrapassam confortavelmente a maldição do segundo disco e atiram mais 11 peças para as pistas de dança. A receita, desvendada em Tourist History (2010), é simples: meia dose de electrónica, outro tanto de guitarras. Nem sempre com grande rigor – “Wake Up” soçobra às roupagens eléctricas, “Someday” respira guitarras por todo o lado. Ouvimos, por vezes, uns coros perfeitos a lembrar Fleet Foxes (!?), por exemplo, no início de “The World Is Watching” – uma grande canção, já agora –, outras vezes, a barreira de guitarras recorda os Strokes. Não vale a pena, porém, menosprezar a obra, remetendo-a às influências. Ou sequer limitá-lo ao evidente pastiche de alguma música dos anos 80/90. Este é material original. E, claro, bem mais profissional, elegante também, que o do primeiro disco.