Peter Gabriel - And I Scratch Yours ***

Coças as minhas costas, que eu coçarei as tuas. É uma expressão de entreajuda, com um toquezinho de frete, e Peter Gabriel terá entendido perfeitamente a aventura em que se meteu, em 2010, quando decidiu gravar 12 canções de outros tantos amigos, apenas com piano e cordas. A verdade é que, três anos depois, nem todos os amigos compareceram à chamada para gravarem uma canção de Gabriel (Neil Young, por exemplo), e o resultado global da operação deixa um tanto a desejar. Se no primeiro disco houve uma apropriação evidente das canções, com a respectiva transfiguração, nesta segunda parte a abordagem oscila entre esse movimento de apropriação ("Solsbury Hill", por Lou Reed; "Biko", por Paul Simon), a repetição quase mecânica do original ("Games Without Frontiers", pelos Arcade Fire), e coisas sem qualquer chama ou interesse ("Not One Of Us", por Stephin Merritt). Ficam as boas intenções, coisa em que Peter Gabriel é especialista.

Pearl Jam - Lightning Bolt ***

Estádios de todo o mundo, rejubilai. Os Pearl Jam estão de regresso e em grande forma. Do grunge resta a camisa aos quadrados de Eddie Vedder, a memória dos fãs de sempre e, vá lá, a sonoridade pós-punk de "Mind Your Manners". Os PJ são hoje a prova viva de que é possível ter sucesso e envelhecer sem perder a dignidade ou sequer a energia. Este é, assim, um disco honesto, do qual não salta qualquer novidade, mas em que ouvimos rock do mais clássico que por aí se pratica. As baladas, "Future Days", e especialmente "Sirens", fazem aquela pequena concessão lamechas a puxar para o isqueiro iluminado que toda as baladas devem ter. E os temas mais poderosos, "Swallowed Whole" ou "Getaway", por exemplo, mostram uma banda em plena forma, a começar pelo vocalista e incluindo as óbvias guitarras. E até há espaço para o quase experimentalismo de "Pendulum". Profissionalismo não é necessariamente sinal de tédio.

Arcade Fire - Reflektor ***

Há, no perfeccionismo e na ambição, do quarto disco dos Arcade Fire algo que incomoda. Como se estivéssemos já num domínio da pós-música, coisa de laboratório, pavloviana, feita para nos fazer salivar. Num artifício em que a inspiração, a poesia, a música, enfim, dão lugar, de forma demasiado diabólica, premeditada, fria, à pura manipulação. O paralelo histórico mais próximo terá sido quando os U2 se convenceram que eram os maiores do mundo, do universo mesmo, ou, ainda antes, quando os Pink Floyd implodiram à boleia de uma música e de uma encenação já despida de humanidade. Os tiques repetiram-se, aliás, através do frenesim mediático e de redes sociais que envolveu o lançamento de Reflecktor de uma constelação de “eventos”. É claro que há aqui boas canções, não canções muito boas, mas canções boas. “Aflterlife” e “You Already Know” serão disso bom exemplo. Poeticamente, há por aqui alguns achados e nem será necessário recorrermos ao par mais óbvio “Awful Sound” / “It’s Never Over”. E é óbvio que só uma banda em grande forma poderia abalançar-se a tal projecto. E ainda que “Reflektor”, “We Exist” ou “Here Comes The Night Time” prometem abrasar os woofers das pistas de dança. O que incomoda é o embrulho demasiado gongórico de tudo isto, com permanentes referências, quase citações, de quase tudo o que se gravou, pelo menos, nas últimas três décadas. Provavelmente, teria que ser mesmo assim, fruto da evolução (!), e a verdade é que poucas bandas da actualidade teriam capacidade para se abalançar a tal projecto. Estes Arcade Fire já pouco têm a ver com o genuíno fulgor de Funeral (2004), embora ainda não tenham vendido a alma ao diabo.

Tindersticks no Coliseu


Os Tindersticks estão em fase comemorativa e Portugal não poderia faltar à festa. Esta é mais uma daquelas relações que a razão não consegue explicar. Talvez a melancolia doce que atravessa todas as suas canções. 2013 é o ano do 21.º aniversário da banda (20.º do primeiro disco) e a data, redonda ou nem por isso, está a ser aproveitada para uma revisitação ao passado, traduzida num disco, Across Six Leap Years, com reinterpretações de temas de toda a carreira, mas especialmente dos primeiros anos. O disco, reconheça-se, não é nada de especial. Não se trata de um best of, a selecção de canções é relativamente aleatória e, acima de tudo, as novas interpretações não trazem nada de especialmente novo. É claro que a voz de Stuart Staples está em grande forma (alguma vez não esteve?), e que os arranjos são, como sempre, de uma elegância irrepreensível. Mas isso é o que esperamos dos Tindersticks. Especialmente depois de The Something Rain (2012), um dos seus melhores discos, esperava-se mais garra. Esse disco é o guião central da digressão que agora passa por Lisboa, o que não deixa de ser paradoxal, visto que as reinterpretações se socorrem abundantemente dos naipes de cordas (e amiúde dos metais), que, obviamente, não estarão no Coliseu. Mas a verdade é que tudo isso acaba por ser irrelevante - estamos perante uma banda que nunca desilude em palco. Muito menos os portugueses.

Midlake - Antiphon **

Os Midlake são um objecto estranho. Oriundos do Texas, movem-se no território indie com um som que cruza essencialmente influências do rock progressivo, folk rock mais erudito e algum psicadelismo. Vão no quarto disco, o primeiro após a saída de um dos líderes e vocalista, Tim Smith, e, apesar de gostarem de evocar os Radiohead, neste Antiphon remetem mais para as flautas dos Jethro Tull, as sonoridades planantes dos Yes e umas coisas decalcadas dos momentos menos inspirados dos Pink Floyd. Escusado será dizer que os sintetizadores e as guitarras distorcidas são a constante em todos os temas, isto, claro, para além de um fraseado vocal excessivamente apoiado nos coros. Os temas sucedem-se de forma monótona, tornando-se quase impossível distinguir uns dos outros. O mais comercial "The Old and The Young"? O desorientado "Vale"? Ou o cantável "This Weight"? Difícil mesmo é perceber a quem se destina esta música, independentemente do gozo que poderá ter dado a quem a criou.

Kings of Leon - Mechanical Bull ***

A música dos King of Leon é um relógio suíço. Tem um tic-tac super-afinado, essencialmente baseado em guitarras, que faz com que as canções fluam com uma genuína sinceridade, naturalidade mesmo. Mas, como todos os relógios suíços, esta é também uma música que não adianta nem atrasa. Ou seja, é competente, extremamente competente, mas fica contente com isso mesmo, não nos dá mais do aquilo que esperamos dela. Essa honestidade é ainda mais radical neste sexto disco, o regresso após o megasucesso mundial de Come Around Sundown (2010) e respectivas ondas de choque. Ainda se ouve por aqui algum U2 ("Beautiful War"), mas os grandes estádios parecem já não ser a paisagem natural destas canções. Há como que um regresso ao rock do sul americano, com os seus esquemas básicos ("Don't Matter") e o seu lirismo de pacotilha ("Last Mile Home"). Ouve-se tudo muito bem, tudo dará grandes momentos ao vivo, mas quase nada se destaca de uma evidente mediania.

Mark Lanegan - Imitations ****

Mexer na ferida, deitar-lhe sal, pode ser a melhor das curas. E para que seja grandiosa, a cura exige grandes feridas, no caso, grandes canções. Uma grande e funda solidão não pode ser cantada de ânimo leve, exige que se convoquem os clássicos, que se exorcize com o que de melhor os melhores tenham produzido. Isso mesmo deverá ter pensado Mark Lanegan, quando decidiu reinterpretar 12 canções em que a palavra solidão se expõe logo no título, ou mais insidiosamente se infiltra pelas estrofes. Lanegan tem vindo a afirmar-se como um intérprete de eleição, nem tanto pela qualidade e técnica vocal, mais pela emoção com que se apropria das canções. É isso que faz com "Brompton Oraty" (Nick Cave), numa leitura baseada em metais, ou "I'm Not The Loving Kind" (John Cale), com orquestra à séria, ou com "You Only Live Twice" (John Barry para Nancy Sinatra). Um trabalho de reinvenção, que acaba por ser a negação do título do disco.

Elvis Costello and The Roots - Wise Up Ghost ***

Aos mais antigos, este disco soará a Frank Zappa. O que abona muitíssimo a favor de Zappa, especialmente se tivermos em conta que os seus autores não explicitaram qualquer intenção comemorativa. Zappa pela paisagem musical aparentada do hip-hop, mas francamente mais experimental e rica. Zappa ainda pelo estilo vocal que Costello amiúde exala, entre o anasalado e o balbuciante. Mas Zappa não mora aqui. E o que há a dizer sobre este disco é relativamente simples: a ideia original (a regravação de velhos temas de Costello) era interessante, pela nova luz que a banda de Questlove poderia trazer a essas canções, já a concretização, suportada em temas originais, acaba por ser relativamente decepcionante. Há mesmo momentos sensivelmente aborrecidos, por exemplo quando as canções empastelam e parecem cair num interminável loop, o que poderá resultar nas coloridas actuações ao vivo dos Roots (a banda residente do programa de Jimmy Fallon), mas que em disco apenas tem o condão de esticar a quase totalidade dos temas para os cinco minutos. Essa circularidade obsessiva das canções, assim como a batida metálica e também ela obsessiva, são, reconheça-se, o campo perfeito para o tom sombrio, pessimista, corrosivo do que Costello canta. Uma América, um mundo, se quisermos, triste, sem esperança, enredado nas armadilhas de que fala "Tripwire", uma das suas melhores canções de sempre, curiosamente uma valsa clássica que os Roots abdicam de contaminar. Enfim, apenas mais uma colaboração para a já razoável colecção de Costello. E sublinhe-se a palavra "apenas".

Jack Johnson - From Here To Now To You ***

Não peçam ao rei das pranchas que (re)invente a roda. Jack Johnson será sempre Jack Johnson, a voz cool, quase inexpressiva, o assobio e o tralalara, a guitarra acústica de acordes muito simples, fáceis de imitar, as canções ligeiras, ligeirinhas, que se ouvem em bares de praia ou em sofás sofisticados a sonhar com bares de praia. A dúvida, a cada disco, é saber como se reinventa ele dentro deste estilo em que é rei e senhor. E a verdade é que nesta sexta revisitação desse esquema não se sai nada mal. Há até canções que mais complexas e interessantes do que a baladas ingénuas do costume. Ouça-se, por exemplo, o funk de "Radiate", ou o swing de "Tape Deck", ambas com uma utilização inteligente da harmónica e das cordas, e reconheça-se que estamos num patamar diferente das coisitas sem sal que lhe conhecemos (e que também aqui há). Pena faltarem quase nove meses para o verão...

The Grand Opening - Don't Look Back Into The Darkness **

Começa a ser evidente que os suecos estão a exagerar. Descobriram a cadeia genética da pop e agora não largam as garagens e os computadores, lançam discos atrás de discos, canções bem compostas, bem cantadas, destinadas, enfim, aos tops. Não andamos, porém, já muito longe da galinha dos ovos de ouro, com o filão a esgotar-se à custa de tanta repetição. John Roger Olsson, multi-instrumentista que se apresenta em público como The Grand Opening, é autor e vítima dessa exaustão criativa. Ao quatro disco, não consegue sair de um quadro repetitivo de baladas melancólicas, que remetem permanentemente para algo que já ouvimos algures. "Towards Your Final Rest", por exemplo, poderia ser Kings of Convenience, como "Free" soa a Everything But The Girl e por aí fora. E tudo isto num movimento circular, quase obsessivo, dos mesmos ritmos, os mesmo acordes, os mesmos recursos estilísticos. Como é calminho, talvez funcione em elevadores.

Nicotine's Orchestra - 77 13 ****

"Luna Loca", o único inédito deste disco, confirma o caminho por trilhar. Nick Nicotine parece apostado em explorar o filão tropicalista que tão bons resultados lhe trouxe com o Gipsycalia, de 2012. Não deixa de ser sintomático que todos os temas incluídos nesta colectânea tenha sido regravados ou remisturados, à excepção dos que integraram a obra mais recente. Obviamente, essas revisitações às canções mais distantes prendem-se com, digamos, algumas questões técnicas. Mas também é verdade que Gipsycalia deixou para trás uma música mais rude, com o esqueleto blues mais exposto, a favor de uma versão mais elaborada, à vez mais festiva e, sem preconceitos, mais ligeira. E tropical. "Love and Science" (bela balada), de 2011, é talvez um bom exemplo da transição entre esses duas fases/faces. "Luna Loca" denota também uma certa domesticação, uma aproximação do mainstream, cuja confirmação fica a aguardar desenvolvimentos.

Nome Comum - Cuco ***

Sendo voador, como é da natureza dos cucos, este é verdadeiramente um ovni musical, um objecto não identificado, ou de difícil identificação. E também de difícil audição, já que não obedece a modas, nem se deixa aprisionar por estilos ou correntes musicais. Exige disponibilidade e só na disponibilidade dá a ouvir as ricas nuances sonoras de que é tecido. Nasce do diálogo permanente e intenso, tão intenso que mais parece monólogo a duas vozes, de Bernardo (The Grey Blues Bend) e Madalena Palmeirim (colaborações com Minta & The Brook Trout e They’re Heading West) e faz-se acompanhar exclusivamente por instrumentação acústica. Bebe tanto nas raízes da música tradicional ("alentejar", de explícito erotismo), como em correntes de experimentalismo erudito e jazzístico ("ângulo morto", ou "anão gordo"), ou até em algum tropicalismo ("acordo tarde"). Um universo particular, talvez excessivamente circular e fechado.

Hellsongs - These Are Evil Times***

Ora aqui está um belo exemplo de serviço público - transformar temas de metal e hard rock em momentos divertidos, saltitantes, coloridos, ternos até. Inventaram mesmo uma corrente musical só para eles: metal lounge, uma aparente contradição nos termos. Bom, a verdade é que fãs de guitarradas ululantes e gritos farsantes devem abster-se. Isto é mais a onda dos Nouvelle Vague, música adocicada, vozes e coros melodiosos, para ouvir em jardins frescos numa noite de Verão. Atente-se, por exemplo, em "Equality" e estamos no universo musical dos Camera Obscura. Se optarmos por "A Silence So Loud", quase ouvimos o timbre delico-doce dos saudosos Carpenters... Já de uma graça inesperada é "Engel", dos Rammstein, que remete para o lado mais divertido da longíngua Nina Hagen. Porém, a surpresa deste quarto disco do trio sueco é mesmo a escrita em nome próprio, e logo em cinco temas. Destaque para "Animal Party". Ligeiro, claro.

Men Among Animals - Buried Handsome ***

Continua a não haver nada de especialmente novo no reino na Dinamarca. Ao terceiro disco, e após anos de rodagem pela Europa, os Men Among Animals mostram, porém, terem encontrado um estilo distintivo quanto baste. É verdade que no esqueleto desta música assentam camadas e camadas de música anglo-saxónica das últimas décadas, mas onde não as encontramos hoje em dia? "When you smile", por exemplo, até cita explicitamente Andy Warhol, não fôssemos nós estar distraídos. Muito interessante é o à-vontade com que cruzam guitarras com electrónica, embora pareçam excessivamente fascinados pelos sintetizadores ("Neighborhood", à qual nem faltam as vozes distorcidas). A canção que ficará deste disco é, porém, uma simples balada ("They Build a Colony"), com guitarra acústica, e com uma forte mensagem política, como aliás ocorre noutra ocasião ("Failures, Flaws..."), embora aqui de forma musicalmente mais catártica. Pop algo experimentalista.

Phoenix - Bankrupt ***

Rock sinfónico dos anos 70, pop dos 80, disco sound dos 70, Strokes, música barroca e outros classicismos, Japão... Os Phoenix exploram um filão que faz do pastiche a forma de vida. De consciência tranquila, talvez por serem franceses, e até com muito gozo. Do lado de cá, o gozo dessa amálgama homogeneizada à força de sintetizadores alterna, de forma um tanto excessiva, com algum tédio, especialmente pela repetição de fórmulas. Digamos que a super criatividade de que padecem resulta amiúde num gongorismo à beira do insuportável. "Entertainment", o single, é disso um bom exemplo - uma canção com alguns achados curiosos, mas que se torna cansativa a partir, digamos, da segunda audição. Pior é o tema que tá título ao disco - uma longa e aborrecida divagação pinkfloydiana. Nos 41 minutos que dura o disco há, porém e sem exagero, uma dezenas de ideias interessantes. Demais, talvez.

Sigur Rós - Kveikur***

Os Sigur Rós deixaram-se de contemplações, literalmente ou quase, e o resultado, sendo surpreendente, não espanta nem encanta por aí além. O sétimo disco da banda islandesa, agora reduzida a três elementos, assume uma certa influência do mundo do metal e das suas correntes mais industriais e sombrias. O resultado não poderia ser mais óbvio, logo a partir da abertura, com "Brennisteinn", ou mais à frente com o tema que dá título ao CD - o ambiente é claramente pesado, à beira da opressão audio-respiratória, e alguns ouvidos menos habituados poderão mesmo confundir esta música com alguma instalação fabril fora de controlo. Os outros Sigur Rós, mais lineares e contemplativos, também marcam presença, por exemplo, em "Var", e noutros momentos ("Stormur") parecem quase soçobrar à pop. Poder-se-ia, então, imaginar que a diversidade de soluções é sinal de vitalidade. Paradoxo: estes 50 minutos (será a batida) resultam um tanto entediantes.

LLoyd Cole - Standards ***

LLoyd Cole é um tipo honesto, pacato até. Devemos, por isso, encarar as demasiado óbvias citações de Dylan presentes neste disco como uma espécie de veneração, um tributo que qualquer um de nós poderia manifestar ao Todo Poderoso. Porque, fossemos induzidos pelo marketing associado, estaríamos agora aqui a zurzir no pobre do Lloyd, que, após ouvir Tempest, o mais recente do Mestre, teria visto a luz e sido finalmente conduzido para os caminhos resplandecentes da Grande Arte. Ora o que podemos ouvir em Standards é apenas uma citação de fraseado musical, mais verdadeiramente pela via dos Byrds, em "Period Piece", e um mais descarado pastiche em "Diminished Ex". E é o que há de Dylan por aqui, e não é muito nem especialmente brilhante. O que há, e isso é mesmo bom, é Lloyd Cole do mais clássico, a remeter directamente para os Commotions da década de 80. Ou seja, música mais luminosa do que a recente discografia a solo, toda ela muito caseira e sombria. Aqui imperam as guitarras em vários formatos, sublinhadas pelos característicos coros, e uma vaga inspiração country nas baladas, como é o caso de "Myrtle and Rose", que Johnny Cash não desdenharia incluir nos famosos últimos discos (nem lhe faltam as referências bíblicas...). Imutável, na música de Lloyd Cole, independentemente da roupagem mais ou menos profissional, é aquela aura de uma melancolia que sabe bem. A despedida de "Silver Lake", a nostalgia de "Women's Studies", ou a ambivalência de "Kids Today" são apenas alguns exemplos. Essa doce tristeza é, afinal, a marca de água que suplanta qualquer citação, mais ou menos estudada, de Dylan.

The National - Trouble Will Find Me ****

No seu trabalho mais recente (Heaven), os Walkmen fizeram-se fotografar na contracapa com uma data de filhos. Agora são os National que ocupam uma página do booklet de Trouble Will Find Me com uma dedicatória à múltipla descendência. Estarão as bandas fetiche dos jovens adultos ilustrados a calçar as pantufas? Depois da saída do armário, da indie e do culto, que representou o assinalável sucesso de High Violet (2010), os National tinham tudo para deitar tudo a perder, especialmente se optassem pela auto-contemplação da repetição. O perigo tinha pernas para andar - a banda sempre jogou na exploração de sonoridades intensas, mas minimais e repetitivas. Aliás, muita da intensidade da sua música deriva do trabalho da percussão, por natureza repetitiva. Neste disco, o perigo espreita, nem tanto o da repetição, antes o de alguma banalidade. Por exemplo, "Humiliation" anda ali nas margens do aborrecimento, perdida algures entre os U2 e os Coldplay. Mas é, felizmente, a excepção. O resto disco é todo ele um trabalho de maturada depuração das tensões e catarses, lirismo e ironia, corações partidos e charadas metafóricas que fazem, a que voz de Matt Berninger dá uma espessura e uma gravidade únicas. A grande canção do disco é seguramente "Pink Rabbits", um daqueles temas de amor radical, impossível e maravilhoso que a banda conduz a um clímax que nunca mais chega, mas que vai sabendo bem enquanto demora. "Fireproof" é outra pequena pérola: guitarras e percussão, paralelas e desencontradas, até no ritmo, salvas pelas cordas. Os cultores dos clássicos terão sempre "Demons", uma coisa tão National que até chateia. Ah, e aquela coisa das pantufas, sempre é verdade? Mas que raio de pergunta. Parece um verso do Berninger.

A tradição é para reinventar - Cool Jazz 2013


Se há coisa de que estes quatro não podem ser acusados é de terem parado no tempo. Manuel Morgado apresenta os nomes que encerram o EDP Cool Jazz

Diana Krall conquistou já um daqueles lugares a partir dos quais todos os outros se definem. Uma artista de referência, portanto. Há quem a imite, quem apenas se deixe influenciar, quem procure diferenciar-se. Ninguém, no mundo do jazz pop, lhe fica indiferente. Foi logo assim quando, em 1993, começou por irritar os puristas do jazz, simplesmente porque era branca, gira e cantava bem. Ainda faz tudo isso, até melhor, levando agora mais longe o luxo de fazer o que bem lhe apetece. O último disco, Glad Rag Doll (2012) é uma colecção de temas dos anos 20 e 30, produzidos pelo mago do R&B e soul T-Bone Burnett. Guitarras, em vez de cordas, piano rock'&'roll, em vez de piano jazz. Outros standards.

Rufus [Wainwright] em palco é sempre uma experiência surpreendente. Tanto mais quanto, desta vez, volta a solo, ao piano, o que certamente beneficiará sobremaneira aqueles diálogos com o público que marcam os seus concertos. O último disco (Out Of The Game, 2012) não é propriamente dos mais entusiasmantes da sua carreira, revelando mesmo algum cansaço, especialmente na composição, que nem a produção omnipresente de Mark Ronson consegue esconder. Os últimos anos foram, de resto, entregues a algum experimentalismo, como se Rufus quisesse demonstrar que é ainda algo mais do que um dos mais talentosos e seguros da sua geração. Revisitar uma tal carreira em registo intimista é coisa para resultar mais que bem.

Que Jamie [Cullum] virá desta vez? O Jamie dos clássicos em registo clássico, muito piano, cordas e voz serena? Ou o Jamie do último disco, todo ele irrequieto, a piscar o olho à electrónica, até às pistas de dança? Momentum (2013) é, de facto, uma obra de ruptura, como se o ídolo dos adolescentes tivesse chegado à conclusão de que as canções com que se tornou conhecido estavam a ficar demasiado limitadas. Ao vivo, é natural que acabe por vencer a versão tradicional, de mais fácil execução, e - talvez - a que dá mais garantias de agradar à audiência. De qualquer forma, Jamie, apesar das aparências, é já um intérprete com créditos firmados e, logo, com legitimidade para mandar dançar a seu bel prazer.

Herdeiro da tradição soul com empenhamento político, John Legend tem vindo a registar sucessos assinaláveis, depois de, em 2004, ter gravado o primeiro disco à sombra da constelação Kanye West. Pratica uma música eléctrica e electrizante, talvez apelo explícito à dança em noites de Verão. Essa característica é especialmente audível no último disco, Wake Up (2010), com os Roots, um exercício que deve quase tudo ao funk. O disco é, de resto, o mais politizado de toda a carreira, na qual são privilegiadas as canções de soul clássico, servidas por uma voz possante e arranjos dignos dos grandes dessa corrente musical. Estreia de palco em Portugal e uma boa oportunidade para ouvir um músico pouco rodado por cá.

Jamie Cullum- Momentum ***

Deixaram o miúdo à solta e é o que se ouve. Na verdade, Cullum já não é tão miúdo assim e este disco, se estilhaça a imagem do bem comportadinho com piano à frente, é mais sinal de maturidade que de infantilidade. O piano continua presente por todo o lado, mas agora claramente ofuscado por uma sonoridade que cruza batidas soul de há umas décadas com uma electrónica esparsa e pragmática apontada aos tops (quem verdadeiramente fica a perder são os violinos...). "Edge of Something" e "Everything You Didn't Do" são apenas duas desenvoltas amostras desse novo espírito. "Love For Sale", a versão que confirma a regra, e "Pure Imagination", a excepção orquestrada que nos liga aos cinco discos anteriores. Um disco, enfim, que se arrisca a não agradar a ninguém, nem às fãs apaixonadas de sempre, nem aos críticos desconfiados com meninos prodígio. Mas só esse desconforto do risco é já uma confortável vitória.

Maria Rita


Há um ano atrás, quando Maria Rita aceitou o desafio de homenagear a mãe, por ocasião dos 30 anos do seu desaparecimento, pode fazê-lo de consciência tranquila - tinha atrás de si uma década e quatro discos que a confirmavam como cantora por direito próprio. Porque Maria Rita teve que resolver, talvez até perante si própria, essa bênção que era também a sua maior maldição, aquele timbre que faz recordar a cada respiração a enorme voz da mãe Elis Regina. Dessa homenagem, nasceu um disco duplo ("Redescobrir") e uma digressão, que passa agora por Portugal. Timbre à parte, basta ouvir, por exemplo, a versão ao vivo de "Como Nossos Pais" para perceber que Elis não é imitável. Trata-se, pois, de uma homenagem, não de uma (impossível) recriação, mesmo que o tal timbre traia amiúde a cantora e quem a ouve. Uma boa oportunidade para recordar clássicos como "Águas de Março" ou "Arrastão".

Alicia Keys


Quando Alicia Keys canta sobre uma "Girl on Fire", fá-lo na terceira pessoa. E isso faz toda a diferença. Fossem Beyoncé ou Rihanna a cantar e a tal rapariga em chamas (ardente) estaria na primeira pessoa, como, aliás, no vídeo da segunda com Eminem ("Love the Way You Lie"). Com essas duas divas da neo-soul, estamos no território do explícito - elas mostram tudo, sejam os sentimentos, sejam as pernas. Em palco, são máquinas programadas para continuar esse jogo de hiper-exibição. Alicia Keys é diferente, muito diferente. A zona mais erógena do seu corpo nem sequer está à vista, já que é com as cordas vocais que mais nos seduz. Por isso, nada que enganar - espectáculo com pirotecnia carnal, só no regresso da Rhianna ou da Beyoncé. Não que Alicia não dance, só que a sua dança faz-se mais de insinuação que de transpiração. Os seus gestos limitam-se muitas vezes a leves esboços e, ao vivo, deixa o fitness para os dançarinos convidados. Os concertos de Alicia Keys - e Lisboa já assistiu a quatro, tendo deixado boas recordações de todos eles - vivem de uma ambivalência que poderia conduzir ao desastre, não estivéssemos perante alguém cada vez mais seguro de si, quer como compositora, quer especialmente enquanto intérprete. São espectáculos que não podem escapar às grandes encenações de pendor tecnológico, mas que também guardam um espaço generoso para a demonstração do virtuosismo da artista, seja no papel de pianista (os ecrãs projectam frequentemente grandes planos das suas mãos), de intérprete (e Alicia é, seguramente, uma das mais surpreendentes vozes femininas da actualidade), ou de compositora, e aí será fundamental deixar respirar as texturas, delicadas ou vibrantes, de um R&B de primeira água. Ou seja, haverá espaço para alguma pirotecnia, mas também para o intimismo possível de um grande espaço. E não será difícil adivinhar que será precisamente neste segundo registo que o concerto atingirá os seus melhores momentos. A base da digressão mundial em curso é, obviamente, o seu quinto disco, "Girl on Fire", de 2012, com o qual quebrou um silêncio de quase três anos. Um disco que reflecte o amadurecimento pessoal pós-maternidade, expresso, por exemplo, em "Brand New Me" ou em "New Day", mas pelo qual passa também uma poderosa corrente erotizante ("Fire We Make"), ou baladas do mais puro classicismo de partir o coração "Tears Always Win". É claro que haverá tempo para revisitar um carreira iniciada em 2001 (se descontarmos as aulas de piano, aos sete anos), com Songs In A Minor, e cristalizada em 14 prémios Grammy, mais de 30 milhões de discos vendidos. Uma viagem ao passado por terrenos nem sempre óbvios, e que incluem, por exemplo, "Fallin'", ou "Like You'll Never See Me Again", num registo de enorme contenção. E, claro, o imprescindível "New York State of Mind", com um J-Zay enlatado e projectado em ecrã gigante. Algures entre duas canções, Alicia talvez lhe peça que ligue a luz do telemóvel em nome de qualquer coisa (ou será causa?). O melhor é alinhar. As grandes divas, dizem, não gostam de ser contrariadas.

John Grant - Pale Green Ghosts ****

"Queen of Denmark", do disco homónimo de estreia (2010), estabeleceu um paradigma de cinismo na forma de canção dificilmente igualável. E, no entanto... No entanto, neste segundo registo, John Grant esforça-se por bater esse recorde pessoal. Não é comum encontrarmos - num disco, quanto mais numa mesma canção - tais doses de ironia, auto-ironia, crítica, sofrimento e redenção, como acontece em mais que um dos temas deste CD. As canções de Grant giram invariavelmente em torno da dor, seja a repressão da homossexualidade, o consumo descontrolado de álcool e droga, o diagnóstico de HIV, ou simplesmente os banais desencontros da vida. Banal seria, porém, reduzir esta poesia aos seus motivos próximos. É verdade que o "agente laranja" do tema "Vietnam" é assumidamente um ex-namorado, que de resto povoa todo o disco, mas será redutor ouvir "This pain / It is a glacier moving through you / And carving out deep valleys / And creating spectacular landscapes" colado a uma qualquer situação concreta. Este segundo disco confirma Grant como um extraordinário escritor de canções, com um apurado sentido lírico e dramático, que a voz encorpada serve na perfeição. "I Hate This Town", por exemplo, lembra "Going to a Town" (Rufus Wainwright), até pelas similitudes da construção sinfónica. Esse classicismo tem, neste disco, um tratamento inesperado, mercê da colaboração com Biggi Veira, dos electrónicos islandeses GusGus. O som pastoral dos Midlake do primeiro disco cede lugar à electrónica versátil, numa sonoridade a remeter amiúde para os anos 80. A frieza dos sintetizadores é, porém, temperada pela calidez das harmonias, marca de água de Grant. A par do cinismo, por questões de sobrevivência.

She & Him - Volume 3 ***

Um dia, ainda vamos descobrir que Zooey Deschanel e M. Ward, na versão She & Him, nunca existiram. Foi tudo feito em computador, daí a forma mecânica de nomear os discos: Vol.1 , Vol. 2, Vol. 3... A sério: já devem existir apps que juntam pedacinhos de canções e fazem outras canções, completamente novas, mas que já ouvimos em algum lado. Uma memória ao contrário. Zooey, na escrita, e M., no embrulho da coisa, são, além do mais, perfeccionistas. Por isso, é quase irresistível bater o pezinho ou deixar cair a cabeça sonhadora sobre o ombro ao ouvir estas evocações de uns anos 50 ou 60 que não vivemos. O único problema é que a fórmula, parasita por definição, tende a esgotar-se. É bonito, e depois?, já conhecemos. Há, porém, momentos de rara beleza ("Turn To White"), em que a fragilidade das vozes lembra que estamos perante simples humanos ("Baby" - uma versão), ou até de partir o coração ("Together"), que (os) salvam.

Ciclo Preparatório - As Viúvas Não Temem A Morte ****

Num assomo de modéstia e síntese, autodefinem-se como Grupo Coral Pop Especial Rural-Chique Delicodoce. Definição alternativa? Mais uma banda de queques urbanos fascinados por uma ruralidade que nem da TV conhecem e... também pelos anos 80. O resultado não é apenas agradável, talvez venha a ser um dos discos do ano, quiçá até mesmo de um Verão tão efémero como efémera é a pop divertida e certeira que praticam. Aos mais velhos – e a pose nostálgica assenta-lhes tão bem – isto soará a uma revisitação dos Heróis do Mar com a Lena d’Água ao microfone. Soa e soa bem, que a Lena entra numa das canções, título e voz. Outra Lena, esta Del Rey, é protagonista (calma, que é só em sonhos...) numa dos muitos exercícios de estilo que povoam o disco. As letras bem esgalhadas, cheias de coisas divertidas e filosóficas (!), encaixam perfeitamente em canções ágeis, apelativas (comerciais!) e muito bem interpretadas. Prometem.

Carla Bruni - Little French Songs ***

A língua francesa está a morrer e só os franceses ainda não o perceberam. Por isso, deveriam estar agradecidos a Carla, uma italiana no BI, pelo meritório trabalho que tem feito, não apenas de divulgação da língua, nas especialmente pela recuperação e reformulação de uma das marcas gaulesas por excelência – a chanson. Esse exercício tem neste disco o seu zénite provisório. É de longe aquele em que a reconstrução da chanson vai mais longe, com o aproveitamento de estruturas e referências históricas desse estilo musical e a sua projecção numa elegante modernidade, que obviamente desemboca no... inglês. ‘Darling’ é disso mesmo um excelente exemplo, mas a canção que dá o título ao disco explicita-o de uma forma muito evidente. A ironia – humor, mesmo – que imprime a quase todos os temas é outros dos avanços deste quarto disco. A voz, essa continua sensualmente imperfeita, para irritação dos puristas.

JP Simoes - Roma ****

Valter Hugo Mãe escreveu um texto para este disco em que trata JP Simões por “Eduardo Lourenço da música popular portuguesa”. Faz sentido. Como sentido faria que Alexandre O’Neill fosse o autor de “Gosto De Me Drogar”, um retrato auto-irónico, vagabundo e terno do português comum, o portuguesinho, como diria o poeta, confrontado e confortado com o seu fado, num fado a descambar para o vaudeville, coro de revista de outros tempos. A graça, ponhamos as coisas assim até porque elas bastas vezes têm mesmo graça, das canções de JP Simões reside precisamente naquele jeito de agarrar a alma lusitana, na circunstância do seu tempo, como agora, perseguidos que somos por esses “talibãs da Goldman Sachs”, no retrato gaspariano (de Vítor) de “Rio-me de Janeiro”. Por falar nisso... o que este disco é mesmo é um antídoto para estes tempos deprimentes que vivemos. Som claramente solar, com apelos à dança (“O Fardo do Amor”) e até mesmo coisas a arranhar o pop ligeirito (“A Million Songs of Yesterday”). Um disco ecléctico – talvez o mais ecléctico de JP nas suas várias configurações –, uma autêntica vitrine de estilos e línguas, com o samba e o fraseado brasileiro a saírem claramente por cima, conhecida que é a queda e o jeito do cantor. É assim em “Valsa Rancho”, de Chico e Hime, mas também em “Samba Radioactivo”, novamente entre a ternura e a ironia e que transpira Vinícius por uns poros e Chico da fase teatral por outros. Do catálogo fazem ainda parte o italiano e o francês, no caso a interpretação de um poema de Boris Vian. Roma acaba por evocar a grandeza do império, mas também a sua decadência real e moral, nada que não estejamos a viver. Chateados, mas de sorriso na voz. “Vai para a tumba que te pariu”!

Devendra Banhart - Mala ****

O Devendra andou desaparecido quatro anos, mas, descansem os fãs, não se curou. Está o mesmo maluco de sempre. Aliás, poucos malucos haverá na música actual com tal consistência, mas também com tal liberdade, provavelmente porque não a souberam conquistar. Este disco tem tudo o que já lhe conhecíamos – psicadelismo folk, digamos –, mas acrescenta movimentações no campo da electrónica, que só não desconcertam porque acertam, encaixam no espírito de vale tudo que é a marca de água de Devendra. ‘Your Fine Petting Duck’, um dueto em inglês e alemão com a namorada/designer sérvia Ana Kras, é a prova acabada disso mesmo, uma canção, afinal duas, dual também na ironia com que trabalha o tema do amor (I’ll take you back/cause I don’t really love him), que, de resto, está presente ao longo de todo o disco. Só isso, a ironia, o humor, torna a audição deste disco num exercício que faz bem à saúde. Mental.

Márcia - Casulo ***

Pode uma canção crescer, crescer e... entrar num beco sem saída e nunca ser verdadeiramente canção? Pode, claro. Este disco abre com uma dessas, e tem outras. Há por aqui um assumido desejo de contenção, que acaba por se transformar na armadilha que corta as asas à segunda aventura de Márcia em disco grande. É pena, porque, pelo que já fez, podia, devia e merecia fazer melhor. Sintomática é a escolha de “Deixa-me Ir” para primeiro single, canção mortiça, que só ganha força no clip de Miguel Gonçalves Mendes (José e Pilar), melancólica panorâmica sobre um “país que definha” às mãos da troika. Márcia, convém lembrar, chega a este disco com dois trunfos de peso: o êxito de “A Pele Que Há em Mim”, com JP Simões, e a autoria de “Até ao Verão”, o single de promoção do mais recente Ana Moura. Daí a expectativa, depois de uma estreia muito promissora (Dá, 2010). Deste novo capítulo esperar-se-ia mais que canções bonitas, ambientes de grande beleza e sofisticação (“Desmazelo”), poemas consistentes. Tudo competente, muito certinho, sim, mas mediano, sem a vontade de voar mais alto, sem que isso significasse sair do registo. “Delicado”, na mesma linha de “Até ao Verão”, vai por aí, mas pouco acompanhado.

Luísa Sobral - There's a Flower in My Bedroom ****


E no fim foram tristes para sempre. Tristes mas felizes. É assim este disco: histórias de amor que acabam sempre mal, mas que nos são contadas com alegria. Por exemplo, ‘As The Night Comes Alone’ fala-nos de uma rapariga que imagina coisas, namorados mais precisamente, mas que na realidade vive na mais absoluta solidão. Acham que isto nos é contado com choraminguices? Qual quê!? Swing e mais swing e um tralala final que até abana. E (quase) todo o disco é assim. Triste por dentro, alegre por fora. Porque – nota-se – estas 17 (!) canções devem ter dado um gozo do caraças a compor e a gravar. E só isso bastaria para ganhar o desafio do segundo disco. Depois do sucesso (mesmo internacional, helas) da estreia com There’s a Cherry On My Cake (2011), Luísa Sobral resolveu dar um passo atrás e as canções estão agora mais expostas na sua estrutura: há jazz mais jazz (‘The Letter I Won’t Send’) e pop só pop (‘Mom Says’). E mesmo coisas que parecem saídas de um Brasil pré-bossa (‘Inês’, com António Zambujo, ou “Quando Te Vi”). Há convidados estratégicos (Jamie Cullum) e outros que alargam horizontes (Mário Laginha) e a estranha pronúncia de Luísa, seja em português ou inglês. Ligeirinho? Sim, e qual é o problema?