Há no miolo deste disco três exercícios conceptualmente bem
interessantes, aquilo a que os Oquestrada chamaram de Triologia de uma
Santíssima Trindade. Um poema de Amália ("Os Teus Olhos São Andorinhas"),
que recebe uma nova música; o "Comboio Descendente", de Pessoa, também
com nova música, obviamente a não conseguir fazer esquecer a composição de José
Afonso; e um inédito de António Variações ("Parei na Madrugada")
vestido de fado-marcha. Três exercícios arriscados, com um resultado mediano -
nenhum dos temas deixa marca indelével. E esse é, talvez, o problema maior
deste CD e dos Oquestrada: o conceito é interessante, uma fusão que se quer
cosmopolita entre o fado, as cantigas à desgarrada e uma modernidade
teoricamente europeia, mas o resultado é repetitivo e não especialmente
apelativo. Claro que ao vivo tudo isto resulta muito bem - os permanentes
contrapontos de vozes e instrumentos, a euforia quase descontrolada -, mas em
estúdio soa um tanto monótono.
Russian Red - Agent Cooper ***
A música de Russian Red, aliás Lourdes Hernandéz, é um pequeno milagre. Nem tanto pela reversão da anedota de uma espanhola que até canta bem em inglês, mas mais especificamente pelo próprio trabalho musical, logo a começar, sim, pela voz. A cantora madrilena pratica uma música que, por facilidade de classificação, poderemos identificar com os movimentos indie. Uma indie que bebe directamente na new wave, especialmente na alegria da new wave. E essa é boa parte do milagre - a vibração, o ritmo, salvam esta música do pastel etéreo que, apesar de tudo, se pressente a cada esquina. Este terceiro disco, o primeiro gravado nos EUA e com um produtor americano, é, aliás, um passo firme numa direcção decididamente pop, de certo em busca de tops mais globais que confirmem o sucesso doméstico. "Casper", primeiro single, e "John Michael" são disso exemplo. Como "Neruda", por exemplo, sinaliza na perfeição o tal território indie de eleição.
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Ney Matogrosso no Coliseu
As canções que Ney Matogrosso traz agora a Portugal quase se transformaram na banda sonora da rebelião que atravessou as principais cidades brasileiras em Junho/Julho do ano passado, tendo como mote o contraste entre a pobreza do povo e os milhões gastos no Mundial de Futebol. Meses antes, Ney tinha iniciado uma digressão em que, a par de nomes consagrados, como Arnaldo Antunes, Paulinho da Viola ou Itamar Assumpção, interpretava compositores quase desconhecidos, alguns deles descobertos na Net ou em discos de autor. Desse conjunto de temas fazem parte "Incêndio" (de Pedro Luíz) e "Rua de Passagem" (de Arnaldo Antunes e Lenine), com referências quase premonitórias às manifestações que abalaram o Brasil. Tal bastou para que o nome de Ney Matogrosso fosse catapultado pelos media para a primeira linha, qual precursor da rebelião. Embora preocupado com a situação do seu país (e do mundo), ele prefere, porém, manter-se ao serviço exclusivo da música. As canções desta digressão migraram, entretanto, para um CD (Atento aos Sinais), mantendo a toada fortemente pop, assente em metais e guitarras, sobre a qual se desenvolve um show algo pirotécnico, com Ney meio nu sobre paredes de luz e leds. Aos 72 anos, e com 40 de carreira, é a sua maneira de dizer que está aí para as curvas.
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Kaiser Chiefs - Education, Education, Education & War **
Os Kaiser Chiefs ganham uma das apostas deste disco, mas perdem outras duas. O resultado é, portanto, misto, com tendência para negativo. A banda sobrevive perfeitamente à fuga do baterista Nick Hodgson, o autor dominante dos quatro primeiros discos de estúdio. Se tivermos em conta que o código genético das canções parece não ter sofrido qualquer abalo, averbe-se então a vitória mais soborosa desta aventura. Manter o tom é, porém, insuficiente para uma banda que sonha alto. E sonha, por exemplo, estar na vanguarda das lutas sociais da juventude (!), daí ter recuperado uma velha frase de campanha de Tony Blair para título do disco. As canções não são apenas porta-vozes de inconformismo, elas apelam à acção. E talvez aí o primeiro falhanço - os miúdos já não vão em revoluções. Enchem estádios, é certo - e estes dez temas foram pensados para isso -, mas dificilmente se deixarão mobilizar por estas canções. E eis a terceira derrota: não sendo más, as canções não são nada de especial. Ora, tratando-se de um disco...
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Maria de Medeiros - Pássaros Eternos ***
Às tantas, damos por nós a interrogarmo-nos que raio de preconceito temos contra as pessoas com voz de sopinha de massa. Porque Maria de Medeiros tem voz de sopinha de massa e isso fica evidente, e de que maneira, logo no primeiro tema ("Quem És Tu?"), volta a ouvir-se evidentemente em "Por Delicadeza", o poema de Sophia transformado por Maria num suave bossa-jazz, e evidencia-se novamente em "Diz Que É Fado", por motivos mais que evidentes. Mas não deixa de ser extraordinário que essa fragilidade da voz, verdadeiramente audível em todo o disco, seja francamente relegada para um secundaríssimo plano, perante canções que parecem não se cansar de encontrarem modos de nos seduzirem. Neste terceiro disco, a cantora assina integralmente cinco dos dez temas, recupera Ivan Lins e Adriano Celentano e colabora com o espanhol Raimundo Amador e com The Legendary Tiger Man (o dueto "Shadow Girl" é, de resto, um dos momentos mais conseguidos).
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Maria de Medeiros
Elbow - The Take Off and Landing of Everything ***
Eis uma banda com todos os ingredientes para um cozinhado insípido e talvez mesmo soporífero, mas que, por artes de magia, acaba fazer um disco que se ouve muito bem e que revela a cada audição subtilezas inesperadas. Os Elbow praticam uma música que vai buscar ao rock sinfónico uma certa pompa e pendor intelectual e à 'brit pop' a apetência pelos sons de estádio, não sendo abuso evocar os Oasis ou os Coldplay a propósito. Uma receita para o bocejo, convenhamos (e a faixa que dá título ao CD é-o, de facto). Mas, justiça seja feita, nesta sexta gravação da banda há uma esforço de, digamos, humanização, que resulta. Por exemplo, no muito interessate "My Sad Captains", ou em "This Blue World", em que as evoluções planantes não resultam tão enjoativas como chegamos a temer. A audição acaba por ser gratificante, especialmente para as vítimas das crises da meia idade, seja lá isso o que for, que tanto afligem estes simpáticos britânicos.
Rufus Wainwright - Live From The Artists Den **
O início deste DVD é especialmente irritante. O primeiro tema, "Candles", é pura e simplesmente assassinado quando lhe colocam em cima dois depoimentos, o do próprio Rufus e o de um pároco, acerca da importância de o concerto estar a ser gravado numa igreja. Ora "Candles", não só está a ser interpretado - em fundo, insista-se - numa bela versão "a cappella", como se trata de uma sentida homenagem póstuma à mãe do cantor, a canadiana Kate McGarrigle. Agora, digam lá como é possível que um atropelo destes aconteça num DVD musical, ainda para mais proveniente de uma afamada série americana, a Artists Den, dedicada precisamente a concertos de artistas famosos em locais inesperados, no caso, a igreja da Ascenção, em Manhattan... Diga-se que a gracinha se repete ao longo dos 120 minutos, felizmente com um impacto bem menor, já que os curtos depoimentos aparecem nos intervalos das canções (e, já agora, quem quiser ouvir a versão não adulterada de "Candles" terá que recorrer ao CD que entretanto também foi lançado). O desleixo inicial acaba, porém, por ser revelador e, sendo certo que nada corre verdadeiramente mal no concerto, não deixa de ser verdade que não estamos propriamente perante um dos melhores momentos de Rufus. As versões (10 dos 16 temas são do último Out Of The Game, de 2012), sempre competentes, nunca descolam muito do que conhecemos dos estúdios, e o cruzamento das guitarras com um omnipresente sintetizador acaba por conferir uma textura demasiado fria aqui e ali. Entre os melhores momentos do disco estão as interpretações de dois temas dos progenitores: "One Man Guy", de Loudon Wainwright III, e "On My Way To Town", de Kate McGarrigle. Rufus, embora em plena forma vocal, despacha as canções com profissionalismo, mas sem chama. E nem os diálogos com o público são brilhantes, ao contrário do que é habitual - o momento "alto" é a (não) utilização de uma máscara de Helena Bonham Carter (porquê?, já agora).
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Rufus Wainwright - Vibrate ****
Rufus Wainwright é um dos mais talentosos compositores surgidos nas últimas duas décadas. E, no entanto, basta percorrer sites e revistas da especialidade para perceber que são raríssimas as vezes em que colheu a simpatia máxima da crítica. Ou seja, os seus discos, sempre muito bons, quase nunca atingem o estrelato da nota máxima. Este Best Of, revisitação dos sete registos de estúdio, ajuda a dar algumas respostas a esse paradoxo, apesar de, como todas as colectâneas, fazer opções e deixar de fora zonas subtanciais do acervo acumulado. No caso, optou-se claramente pelas canções mais fáceis, mais comerciais, excluindo baladas marcantes e temas mais complexos. E que Rufus resulta deste balanço? Certamente, alguém que bebeu e remistura influências, do pop à clássica, passando demoradamente pelo cabaret. Mas também alguém que se deixa enredar por linhas melódicas e harmónicas que se repetem disco após disco. É bom, mas está a precisar de se reinventar.
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Rufus Wainwright
Joan As Police Woman - The Classic ****
Deitar fora todos os demónios e dar espaço a um amor monumental, canta Joan Wasser em "The Classic", o tema central deste seu quarto disco. E este é verdadeiramente um tempo de ruptura com a pesada melancolia que assombrava amiúde os registos anteriores - conferir, por exemplo, "Forever And A Year", do CD de 2011 (The Deep Field). Agora, pelo contrário, tudo é luz, vibração, esperança. A memória da Motown serve de veículo perfeito para o transporte de toda esta alegria ao longo de dez temas, alguns deles fazendo perdurar a festa para lá dos seis minutos - "Good Together", excelente na forma como acumula a tensão que acabará por se descontrolar na longa recta final, numa metódica exorcização da "nostalgia daquilo que nunca houve". Soul de excelência, com um swing danado, ouve-se ainda em "Holy City", ou no assumido revivalismo doo-woop de "The Classic" (deliciosa, a citação de "Respect", de Aretha Franklin). E mesmo as baladas, como "Stay" ou "New Year's Day", inclinam-se mais para uma toada zen do que para a fatalidade de outros tempos. Uma mudança de rumo agradavelmente desconcertante, a demonstrar uma enorme segurança na composição, mas especialmente na conceptualização e na interpretação.
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Joan As Police Woman
Jake Bugg - Shangri-La **
Quatro em cada cinco críticas a Jake Bugg nos media anglo-saxónicos fazem referência a Dylan, uma prova mais, afinal, de que vivemos tempos verdadeiramente estranhos. O puto não tem voz que se apresente (conferir em "A Song About Love"), é certo, e entre o primeiro disco e este há um jogo deliberado de apelos nostálgicos, centrado entre o folk americano da primeira metade dos anos sessenta (Dylan, lá está) e a vaga brit pop dos anos 90 (os Oasis são uma influência clara em 'Kitchen Table' e, especialmente, 'Simple Pleasures'). Dylan e Jake são, porém, como as rectas paralelas, nunca se encontram. O mesmo acontece, aliás, com Rick Rubin, esse mito da produção, cuja marca neste disco é tão difícil de descortinar, descontado, talvez, o facto de ter apresentado a Jake a Chad Smith, o baterista dos Red Hot Chilli Peppers, mais que audível em 'What Doesn't Kill You', por exemplo. Digamos que, aos 20 anos e com dois discos no bolso, tem pela frente uma bela curva de aprendizagem.
Beady Eye - BE **
Este disco é uma espécie de jogo de dardos em versão áudio. Há uma outra seta com uma pontuação razoável, mas o centro do alvo fica deserto. Digamos que não é ainda neste segundo exercício pós-Oasis que Liam Gallagher acerta no tom. Basicamente, ouvem-se aqui dois tipos de canções. As mais lentas, mais acústicas, remetem directamente para os Oasis, num jogo de revivalismo beatle de que "Don't Brother Me" será talvez o expoente máximo (quase a pedir que os herdeiros dos quatro de Liverpool reclamem direitos de autor, embora a metade final seja ocupada por uma derivação sónica absurda). Depois, as outras são as que ostentam mais visivelmente o carimbo na produção de Dave Sitek (dos TV On The Radio). Por exemplo, "Flick Of The Finger", construída sobre uma parede de som à base de metais, ou mesmo "Iz Rite", a qual, apesar disso e com "Second Bite of The Apple", acaba por ser das coisas mais audíveis do disco.
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El Perro del Mar
Billie Joe + Norah Jones - Foreverly ***
A música em forma de estafeta, com efeitos de loop. É assim: em 1958, os Everly
Brothers gravaram um disco intitulado Songs
Our Daddy Taught Us, constituído por 12 velhas canções country convertidas em harmoniosas melodias com acompanhamento de
guitarra. Mais de meio século depois, uma cantora de jazz ligeiro e um
vocalista de uma banda punk pegam nas
mesmas 12 canções e devolvem-nas ao universo country. Nada se perde, tudo se transforma. Pouco se ganha. As
interpretações, embora agradáveis, são relativamente banais, com Billie Joe
Armstrong (voz dos Green Day) sempre mais ou menos na condução e a doce Norah
Jones em segundo plano, nas harmonias. Os arranjos espraiam-se por várias sonoridades
country, sem nada de especialmente memorável. "Down in The Willow
Garden", talvez pelo dedilhar da guitarra, ganha uma certa intensidade indie, mas o resto é de um classicismo
irrepreensível. Apenas.
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Norah Jones
The Beatles - On Air, Live at The BBC Vol. 2 ****

Estamos no domínio da arqueologia virtuosa. Não se escava para descobrir, escava-se pelo simples gosto de escavar e por saber que, lá no fundo, está tudo aquilo que esperamos... e de que gostamos. Muito. Este disco (o primeiro da série saiu há 20 anos!) consiste na reprodução de umas dezenas de actuações na BBC, maioritariamente em 1963. A diferença, e graça, face ao anterior é que, desta vez, as canções são ligadas por diálogos entre o locutor e os quatro fabulosos. Na prática, tratava-se de um programa de discos pedidos, com os quatro a responderem com humor aos pedidos e a lidarem com os primeiros alvores do estrelato. As versões são obviamente boas (os Beatles sabiam mesmo tocar e cantar...), mas muito pouco diferentes das que já conhecemos. O grande valor documental deste duplo CD são as quatro entrevistas individuais (5 minutos cada), nas vésperas do Rubber Soul e do Revolver e, aí sim, estamos já perante a genialidade.
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The Beatles
Robbie Williams - Swings Both Ways ***
Robbie Williams é um artista e ponham polissemia nisso. Um extraordinário sentido do espectáculo, um jeito muito especial para se reinventar, uma auto-ironia desarmante. Este disco é isso, um divertimento pegado, Broadway revisitada, através de standards, de versões de canções próprias e até de alguns originais, por sinal as peças mais interessantes desta aventura. Por exemplo, o dueto com Rufus Wainwright em "Swings Both Ways", de longe o segmento que mais brilha, num divertido jogo de troca de identidades sexuais. Ou a sentimental e inspiracional balada "Go Gentle", um rosário de (bons) conselhos para a filha. No campo das desilusões, talvez o dueto com Lilly Allen em "Dream a Little Dream", com muito menos charme que o "Something Stupid, com Nicole Kidman, da anterior aventura swing, de 2001. E talvez esse seja o ligeiro problema deste disco: a falta de surpresa. Não basta que o swing seja perfeito.
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Robbie Williams
You Can't Win, Charlie Brown - Diffraction/Refraction *****
Imaginem que os Grizzly Bear se cruzam em Lisboa com Nick Drake ou Tim Buckley... Ups, desculpem, este é o início de um press release sobre a banda e a Time Out não copia press releases. E noutro press release fala-se também de Bon Iver e Sufjan Stevens... Talvez ainda lhe juntasse Arcade Fire ("Shout", por exemplo). Um hábito, não apenas doméstico, este de descrever a música mais pelas influências que pelo resultado final. É, convenhamos, de uma enorme comodidade. Ficamos logo a saber que estamos em território folk, ora melancólica, ora bem humorada, sempre intimista, mas também de uma enorme imaginação sónica. Há instrumentos inesperados (garrafa de cerveja, em "I Wanna Be Your Fog", uma das mais belas canções), arranjos clássicos de cordas ("Fall For You"), muitas e belas guitarras (belíssima, a sua entrada em "Be My World"), vozes maduras e coros afinados. Mas há, principalmente, um ambiente geral, muito suportado nas percussões, canónicas ou nem tanto, em teclas e outras electrónicas, que confere um cunho marcadamente onírico, talvez excessivo para certas almas mais sensíveis a sonoridades despidas (exemplo: "Under", quase a remeter para algum rock sinfónico de má memória), embora também por aqui as haja ("Heart"). Digna de nota é a homogeneidade de produção do disco. A aventura criativa e sónica não desagua numa amálgama de sons inarticulados, pelo contrário, nesta segunda gravação de maior fôlego (Chromatic, de 2011, sucedeu um a EP, de 2010), a banda surge extremamente segura em todas as frentes, fruto evidente de muita estrada, que inclui, por exemplo, a recente reinterpretação ao vivo do primeiro disco dos Velvet Underground (aventura, sublinhe-se, da qual não cai qualquer sombra para esta gravação). Janeiro começa, assim, com um dos discos do ano.
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You Can't Win
Vanessa da Mata - Canta Tom Jobim **

As canções de Tom Jobim são tão boas que servem para tudo. Para tocar e sussurrar no piano do hotel, ou para gravar obras de enorme sensibilidade e virtuosismo, como fatalmente fazem todos os grandes nomes da música brasileira. Vanessa da Mata não faz uma coisa nem outra e, tendo em conta os meios envolvidos, o balanço é bem frustrante. Por “meios” entenda-se, por exemplo, ter à disposição Eumir Deodato, um dos orquestradores de Tom, e Kassin, um dos produtores coqueluche do Brasil. O disco oscila, porém, entre alguns arranjos clássicos banais (“Desafinado”) e outros mais pop, mas igualmente banais (“Este seu olhar”), a piscar o olho às novas gerações. Mas se os arranjos e a produção não saem da mediania, o que dizer da interpretação? Nada como a interpretação de um clássico para expor a falta de ambição ou mesmo as limitações de uma voz. Este acaba por ser um bom disco para ouvir… no bar do hotel.
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Vanessa da Mata
Peter Gabriel - And I Scratch Yours ***
Coças as minhas costas, que eu coçarei as tuas. É uma expressão de entreajuda, com um toquezinho de frete, e Peter Gabriel terá entendido perfeitamente a aventura em que se meteu, em 2010, quando decidiu gravar 12 canções de outros tantos amigos, apenas com piano e cordas. A verdade é que, três anos depois, nem todos os amigos compareceram à chamada para gravarem uma canção de Gabriel (Neil Young, por exemplo), e o resultado global da operação deixa um tanto a desejar. Se no primeiro disco houve uma apropriação evidente das canções, com a respectiva transfiguração, nesta segunda parte a abordagem oscila entre esse movimento de apropriação ("Solsbury Hill", por Lou Reed; "Biko", por Paul Simon), a repetição quase mecânica do original ("Games Without Frontiers", pelos Arcade Fire), e coisas sem qualquer chama ou interesse ("Not One Of Us", por Stephin Merritt). Ficam as boas intenções, coisa em que Peter Gabriel é especialista.
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Peter Gabriel
Pearl Jam - Lightning Bolt ***
Estádios de todo o mundo, rejubilai. Os Pearl Jam estão de regresso e em grande forma. Do grunge resta a camisa aos quadrados de Eddie Vedder, a memória dos fãs de sempre e, vá lá, a sonoridade pós-punk de "Mind Your Manners". Os PJ são hoje a prova viva de que é possível ter sucesso e envelhecer sem perder a dignidade ou sequer a energia. Este é, assim, um disco honesto, do qual não salta qualquer novidade, mas em que ouvimos rock do mais clássico que por aí se pratica. As baladas, "Future Days", e especialmente "Sirens", fazem aquela pequena concessão lamechas a puxar para o isqueiro iluminado que toda as baladas devem ter. E os temas mais poderosos, "Swallowed Whole" ou "Getaway", por exemplo, mostram uma banda em plena forma, a começar pelo vocalista e incluindo as óbvias guitarras. E até há espaço para o quase experimentalismo de "Pendulum". Profissionalismo não é necessariamente sinal de tédio.
Arcade Fire - Reflektor ***
Há, no perfeccionismo e na ambição, do quarto disco dos Arcade Fire algo que incomoda. Como se estivéssemos já num domínio da pós-música, coisa de laboratório, pavloviana, feita para nos fazer salivar. Num artifício em que a inspiração, a poesia, a música, enfim, dão lugar, de forma demasiado diabólica, premeditada, fria, à pura manipulação. O paralelo histórico mais próximo terá sido quando os U2 se convenceram que eram os maiores do mundo, do universo mesmo, ou, ainda antes, quando os Pink Floyd implodiram à boleia de uma música e de uma encenação já despida de humanidade. Os tiques repetiram-se, aliás, através do frenesim mediático e de redes sociais que envolveu o lançamento de Reflecktor de uma constelação de “eventos”. É claro que há aqui boas canções, não canções muito boas, mas canções boas. “Aflterlife” e “You Already Know” serão disso bom exemplo. Poeticamente, há por aqui alguns achados e nem será necessário recorrermos ao par mais óbvio “Awful Sound” / “It’s Never Over”. E é óbvio que só uma banda em grande forma poderia abalançar-se a tal projecto. E ainda que “Reflektor”, “We Exist” ou “Here Comes The Night Time” prometem abrasar os woofers das pistas de dança. O que incomoda é o embrulho demasiado gongórico de tudo isto, com permanentes referências, quase citações, de quase tudo o que se gravou, pelo menos, nas últimas três décadas. Provavelmente, teria que ser mesmo assim, fruto da evolução (!), e a verdade é que poucas bandas da actualidade teriam capacidade para se abalançar a tal projecto. Estes Arcade Fire já pouco têm a ver com o genuíno fulgor de Funeral (2004), embora ainda não tenham vendido a alma ao diabo.
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Tindersticks no Coliseu
Os Tindersticks estão em fase comemorativa e Portugal não poderia faltar à festa. Esta é mais uma daquelas relações que a razão não consegue explicar. Talvez a melancolia doce que atravessa todas as suas canções.
2013 é o ano do 21.º aniversário da banda (20.º do primeiro disco) e a data, redonda ou nem por isso, está a ser aproveitada para uma revisitação ao passado, traduzida num disco, Across Six Leap Years, com reinterpretações de temas de toda a carreira, mas especialmente dos primeiros anos. O disco, reconheça-se, não é nada de especial. Não se trata de um best of, a selecção de canções é relativamente aleatória e, acima de tudo, as novas interpretações não trazem nada de especialmente novo. É claro que a voz de Stuart Staples está em grande forma (alguma vez não esteve?), e que os arranjos são, como sempre, de uma elegância irrepreensível. Mas isso é o que esperamos dos Tindersticks. Especialmente depois de The Something Rain (2012), um dos seus melhores discos, esperava-se mais garra.
Esse disco é o guião central da digressão que agora passa por Lisboa, o que não deixa de ser paradoxal, visto que as reinterpretações se socorrem abundantemente dos naipes de cordas (e amiúde dos metais), que, obviamente, não estarão no Coliseu.
Mas a verdade é que tudo isso acaba por ser irrelevante - estamos perante uma banda que nunca desilude em palco. Muito menos os portugueses.
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Midlake - Antiphon **
Os Midlake são um objecto estranho. Oriundos do Texas, movem-se no território indie com um som que cruza essencialmente influências do rock progressivo, folk rock mais erudito e algum psicadelismo. Vão no quarto disco, o primeiro após a saída de um dos líderes e vocalista, Tim Smith, e, apesar de gostarem de evocar os Radiohead, neste Antiphon remetem mais para as flautas dos Jethro Tull, as sonoridades planantes dos Yes e umas coisas decalcadas dos momentos menos inspirados dos Pink Floyd. Escusado será dizer que os sintetizadores e as guitarras distorcidas são a constante em todos os temas, isto, claro, para além de um fraseado vocal excessivamente apoiado nos coros. Os temas sucedem-se de forma monótona, tornando-se quase impossível distinguir uns dos outros. O mais comercial "The Old and The Young"? O desorientado "Vale"? Ou o cantável "This Weight"? Difícil mesmo é perceber a quem se destina esta música, independentemente do gozo que poderá ter dado a quem a criou.
Kings of Leon - Mechanical Bull ***
A música dos King of Leon é um relógio suíço. Tem um tic-tac super-afinado, essencialmente baseado em guitarras, que faz com que as canções fluam com uma genuína sinceridade, naturalidade mesmo. Mas, como todos os relógios suíços, esta é também uma música que não adianta nem atrasa. Ou seja, é competente, extremamente competente, mas fica contente com isso mesmo, não nos dá mais do aquilo que esperamos dela. Essa honestidade é ainda mais radical neste sexto disco, o regresso após o megasucesso mundial de Come Around Sundown (2010) e respectivas ondas de choque. Ainda se ouve por aqui algum U2 ("Beautiful War"), mas os grandes estádios parecem já não ser a paisagem natural destas canções. Há como que um regresso ao rock do sul americano, com os seus esquemas básicos ("Don't Matter") e o seu lirismo de pacotilha ("Last Mile Home"). Ouve-se tudo muito bem, tudo dará grandes momentos ao vivo, mas quase nada se destaca de uma evidente mediania.
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Mark Lanegan - Imitations ****
Mexer na ferida, deitar-lhe sal, pode ser a melhor das curas. E para que seja grandiosa, a cura exige grandes feridas, no caso, grandes canções. Uma grande e funda solidão não pode ser cantada de ânimo leve, exige que se convoquem os clássicos, que se exorcize com o que de melhor os melhores tenham produzido. Isso mesmo deverá ter pensado Mark Lanegan, quando decidiu reinterpretar 12 canções em que a palavra solidão se expõe logo no título, ou mais insidiosamente se infiltra pelas estrofes. Lanegan tem vindo a afirmar-se como um intérprete de eleição, nem tanto pela qualidade e técnica vocal, mais pela emoção com que se apropria das canções. É isso que faz com "Brompton Oraty" (Nick Cave), numa leitura baseada em metais, ou "I'm Not The Loving Kind" (John Cale), com orquestra à séria, ou com "You Only Live Twice" (John Barry para Nancy Sinatra). Um trabalho de reinvenção, que acaba por ser a negação do título do disco.
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Elvis Costello and The Roots - Wise Up Ghost ***
Aos mais antigos, este disco soará a Frank Zappa. O que abona muitíssimo a favor de Zappa, especialmente se tivermos em conta que os seus autores não explicitaram qualquer intenção comemorativa. Zappa pela paisagem musical aparentada do hip-hop, mas francamente mais experimental e rica. Zappa ainda pelo estilo vocal que Costello amiúde exala, entre o anasalado e o balbuciante. Mas Zappa não mora aqui. E o que há a dizer sobre este disco é relativamente simples: a ideia original (a regravação de velhos temas de Costello) era interessante, pela nova luz que a banda de Questlove poderia trazer a essas canções, já a concretização, suportada em temas originais, acaba por ser relativamente decepcionante. Há mesmo momentos sensivelmente aborrecidos, por exemplo quando as canções empastelam e parecem cair num interminável loop, o que poderá resultar nas coloridas actuações ao vivo dos Roots (a banda residente do programa de Jimmy Fallon), mas que em disco apenas tem o condão de esticar a quase totalidade dos temas para os cinco minutos. Essa circularidade obsessiva das canções, assim como a batida metálica e também ela obsessiva, são, reconheça-se, o campo perfeito para o tom sombrio, pessimista, corrosivo do que Costello canta. Uma América, um mundo, se quisermos, triste, sem esperança, enredado nas armadilhas de que fala "Tripwire", uma das suas melhores canções de sempre, curiosamente uma valsa clássica que os Roots abdicam de contaminar. Enfim, apenas mais uma colaboração para a já razoável colecção de Costello. E sublinhe-se a palavra "apenas".
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Jack Johnson - From Here To Now To You ***
Não peçam ao rei das pranchas que (re)invente a roda. Jack Johnson será sempre Jack Johnson, a voz cool, quase inexpressiva, o assobio e o tralalara, a guitarra acústica de acordes muito simples, fáceis de imitar, as canções ligeiras, ligeirinhas, que se ouvem em bares de praia ou em sofás sofisticados a sonhar com bares de praia. A dúvida, a cada disco, é saber como se reinventa ele dentro deste estilo em que é rei e senhor. E a verdade é que nesta sexta revisitação desse esquema não se sai nada mal. Há até canções que mais complexas e interessantes do que a baladas ingénuas do costume. Ouça-se, por exemplo, o funk de "Radiate", ou o swing de "Tape Deck", ambas com uma utilização inteligente da harmónica e das cordas, e reconheça-se que estamos num patamar diferente das coisitas sem sal que lhe conhecemos (e que também aqui há). Pena faltarem quase nove meses para o verão...
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Jack Johnson
The Grand Opening - Don't Look Back Into The Darkness **
Começa a ser evidente que os suecos estão a exagerar. Descobriram a cadeia genética da pop e agora não largam as garagens e os computadores, lançam discos atrás de discos, canções bem compostas, bem cantadas, destinadas, enfim, aos tops. Não andamos, porém, já muito longe da galinha dos ovos de ouro, com o filão a esgotar-se à custa de tanta repetição. John Roger Olsson, multi-instrumentista que se apresenta em público como The Grand Opening, é autor e vítima dessa exaustão criativa. Ao quatro disco, não consegue sair de um quadro repetitivo de baladas melancólicas, que remetem permanentemente para algo que já ouvimos algures. "Towards Your Final Rest", por exemplo, poderia ser Kings of Convenience, como "Free" soa a Everything But The Girl e por aí fora. E tudo isto num movimento circular, quase obsessivo, dos mesmos ritmos, os mesmo acordes, os mesmos recursos estilísticos. Como é calminho, talvez funcione em elevadores.
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The Grand Opening
Nicotine's Orchestra - 77 13 ****
"Luna Loca", o único inédito deste disco, confirma o caminho por trilhar. Nick Nicotine parece apostado em explorar o filão tropicalista que tão bons resultados lhe trouxe com o Gipsycalia, de 2012. Não deixa de ser sintomático que todos os temas incluídos nesta colectânea tenha sido regravados ou remisturados, à excepção dos que integraram a obra mais recente. Obviamente, essas revisitações às canções mais distantes prendem-se com, digamos, algumas questões técnicas. Mas também é verdade que Gipsycalia deixou para trás uma música mais rude, com o esqueleto blues mais exposto, a favor de uma versão mais elaborada, à vez mais festiva e, sem preconceitos, mais ligeira. E tropical. "Love and Science" (bela balada), de 2011, é talvez um bom exemplo da transição entre esses duas fases/faces. "Luna Loca" denota também uma certa domesticação, uma aproximação do mainstream, cuja confirmação fica a aguardar desenvolvimentos.
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Nicotine's Orchestra
Nome Comum - Cuco ***
Sendo voador, como é da natureza dos cucos, este é verdadeiramente um ovni musical, um objecto não identificado, ou de difícil identificação. E também de difícil audição, já que não obedece a modas, nem se deixa aprisionar por estilos ou correntes musicais. Exige disponibilidade e só na disponibilidade dá a ouvir as ricas nuances sonoras de que é tecido. Nasce do diálogo permanente e intenso, tão intenso que mais parece monólogo a duas vozes, de Bernardo (The Grey Blues Bend) e Madalena Palmeirim (colaborações com Minta & The Brook Trout e They’re Heading West) e faz-se acompanhar exclusivamente por instrumentação acústica. Bebe tanto nas raízes da música tradicional ("alentejar", de explícito erotismo), como em correntes de experimentalismo erudito e jazzístico ("ângulo morto", ou "anão gordo"), ou até em algum tropicalismo ("acordo tarde"). Um universo particular, talvez excessivamente circular e fechado.
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Hellsongs - These Are Evil Times***
Ora aqui está um belo exemplo de serviço público - transformar temas de metal e hard rock em momentos divertidos, saltitantes, coloridos, ternos até. Inventaram mesmo uma corrente musical só para eles: metal lounge, uma aparente contradição nos termos. Bom, a verdade é que fãs de guitarradas ululantes e gritos farsantes devem abster-se. Isto é mais a onda dos Nouvelle Vague, música adocicada, vozes e coros melodiosos, para ouvir em jardins frescos numa noite de Verão. Atente-se, por exemplo, em "Equality" e estamos no universo musical dos Camera Obscura. Se optarmos por "A Silence So Loud", quase ouvimos o timbre delico-doce dos saudosos Carpenters... Já de uma graça inesperada é "Engel", dos Rammstein, que remete para o lado mais divertido da longíngua Nina Hagen. Porém, a surpresa deste quarto disco do trio sueco é mesmo a escrita em nome próprio, e logo em cinco temas. Destaque para "Animal Party". Ligeiro, claro.
Men Among Animals - Buried Handsome ***
Continua a não haver nada de especialmente novo no reino na Dinamarca. Ao terceiro disco, e após anos de rodagem pela Europa, os Men Among Animals mostram, porém, terem encontrado um estilo distintivo quanto baste. É verdade que no esqueleto desta música assentam camadas e camadas de música anglo-saxónica das últimas décadas, mas onde não as encontramos hoje em dia? "When you smile", por exemplo, até cita explicitamente Andy Warhol, não fôssemos nós estar distraídos. Muito interessante é o à-vontade com que cruzam guitarras com electrónica, embora pareçam excessivamente fascinados pelos sintetizadores ("Neighborhood", à qual nem faltam as vozes distorcidas). A canção que ficará deste disco é, porém, uma simples balada ("They Build a Colony"), com guitarra acústica, e com uma forte mensagem política, como aliás ocorre noutra ocasião ("Failures, Flaws..."), embora aqui de forma musicalmente mais catártica. Pop algo experimentalista.
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