Claro que nunca deveríamos confiar numa miúda que escreve uma canção intitulada "A Tristeza É Uma Benção" (Wounded Rhymes - 2011). Muito provavelmente inspirada em factos reais, ela leva agora a coisa às últimas consequências. São nove (nove!) canções encharcadas em lágrimas, voz dorida (e como se nota e ouve!), corações partidos, o amor que acabou e que nunca, mas nunca, mais voltará. Sem réstea de luz ou esperança. Mas, como em todos os exorcismos, há prazer nesta dor. Por exemplo, o prazer de recriar a "wall of sound", de Phil Spector: a maioria dos temas começa de mansinho, evocando os ambientes planantes do primeiro disco, evoluindo depois para massas sonoras muito consistentes, a que não faltam camadas de coros, cordas e castanholas (sim, castanholas, em "Heart of Steel"). Destas vagas sonoras escapa aquela que talvez seja a melhor canção do disco, "Love Me Like I'm Not Made of Stone", uma balada com guitarra acústica. E um nó na garganta, claro.
Lily Allen - Sheezus ***
Qual é melhor? Beyoncé ou Lorde? Pois... a resposta não é fácil, simplesmente porque a pergunta está mal feita, ou mais propriamente não faz sentido. Mas é a essa pergunta, e a outras similares, que Lily Allen tenta responder neste disco. Afinal, a indústria musical é a boa ou a má da fita ("Hard Out There")? E o jet set das revistas, boa ou má gente ("Insecerely Yours")? E aquela malta das redes sociais, é mesmo para levar a sério ("URL Badman")? Não é preciso ser politicamente correcto para se perceber que, nos tempos que correm, não há certo nem errado. E que errado acaba por estar quem, como Lily, usa (e talvez abuse) do sarcasmo para criticar o meio no qual, bem vistas as coisas, vive. E no qual tem sucesso. Verdade, verdade é que não vale a pena levar as coisas muito a sério. Este é um disco pop e ninguém pode pedir à pop que salve o mundo. Apenas que nos divirta e nos faça rir de nós próprios, repetindo, de forma razoavelmente agradável, velhas e conhecidas fórmulas.
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Damon Albarn - Everyday Robots ****
Arrancar toda a beleza que pode haver na melancolia. E fazer dela música. Esse parece ser o projecto de Damon Albarn, especialmente desde que, há década e meia, ainda na vigência dos Blur, inventou os Gorillaz. Mas nunca como neste disco, o primeiro verdadeiramente em nome próprio, esse desígnio foi concretizado de forma tão radical (embora as sementes já fossem bem audíveis em Plastic Beach, dos Gorillaz em 2010). Damon é um excelente autor, um intérprete mais maduro (notável a densificação da voz neste disco...) e um encenador de canções extraordiariamente inventivo (ruídos, vozes de rua, ensembles de cordas, pianos, guitarras acústicas - tudo vale para criar uma sonoridade quase cinematográfica). "Mr Tembo", reggae e gospel numa cantilena quase infantil, e "Heavy Seas of Love", a que Brian Eno confere a impressão digital, são as excepções à melancólica introspecção geral (belíssima "The Selfish Giant").
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Frankie Chavez - Heart & Spine ****
"Pine Trees" não é apenas um dos temas mais belos deste disco (a chuva em fundo e tal...), é também aquele em que, através da omnipresença da guitarra portuguesa, há uma real tentativa de romper com a ortodoxia do blues e do rock'n'roll dominantes. Não se pode pedir aquilo que as pessoas não querem dar e Frankie Chavez assume em disco a preferência pela apropriação sem filtros da música de raiz americana. Nem que seja na vertente "feel good" havaiana estilo Jack Johnson de "Don't Leave Tonight", um tema que até pode alegrar o verão das rádios, se alguém fizer por isso. É, na verdade, nos momentos mais calmos do disco que se verifica um maior investimento criativo, com a introdução de vários apontamentos de composição e instrumentação dissonantes ("Sail Upon Your Shore"). Os temas mais pesados ("Fight", "Heart & Spine") são bem esgalhados - importante, para a circunstância - mas menos surpreendentes.
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Aloe Blacc - Lift Your Spirit ***
Replicar o êxito de "I Need a Dollar" (2010) era apenas um dos desafios de Aloe Blacc para este disco, o primeiro lançado por uma grande editora. Êxitos para a rádio não faltam por aqui, embora talvez nenhum multiplique tanto os dólares, até porque o mais robusto ("Wake Me Up", numa versão acústica), já rendeu bastante, em 2013, numa versão com o produtor sueco Avicii. Eventualmente "The Man", que cita explicitamente "Your Song", de Elton John, possa fazer esse papel. Mas Aloe tinha outro desafio - demonstrar que é um herdeiro fiável da melhor soul do século passado. A resposta acaba por ser uma fuga em frente, ou seja, a aposta no puro sucesso comercial, em detrimento do apuro estilístico. Coisas para a pista de dança ("Love Is The Answer", com Pharrell Williams), para o estádio ("Here Today"), ou para o sofá ("Red Velvet Seat"), com soul, é certo, mas num registo apressado e pouco sentido.
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Ray LaMontagne - Supernova ****
Nunca Ray LaMontagne tinha ido tão longe em ir tão atrás. As
influências psicadélicas eram já percepíveis nos quatro discos anteriores, mas
a melancolia e algum intimismo eram ainda as notas dominantes. Este Supernova
é, pelo contrário, uma explosão de cores, que se desenvolve em paletas sonoras estritamente
confinadas ao final dos anos sessenta. Às tantas, convencemo-nos de que estamos
a ouvir os Pink Floyd de Syd Barrett, em "Smashing", os Jefferson
Airplane, em "Lavender", Neil Young, em "Ojai", os Byrds,
em "Drive-in Movies", e por aí fora. E depois há canções, como
"Pick Up a Gun", quase perfeitas, na sensação de terem absorvido toda
uma época revista pelos anos que lhe sucederam. É certo que parte da magia vem
da produção de Dan Bauerbach (Black Keys), mas - justiça seja feita - o
material de base, as canções, está bem à altura da ambição. Os fãs, claro, vão
ter saudades daquela voz funda e sofrida de outras eras. Mas este é um disco de
Verão!
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Ray LaMontagne
Oquestrada - Atlantic Beat Mad'in Portugal ***
Há no miolo deste disco três exercícios conceptualmente bem
interessantes, aquilo a que os Oquestrada chamaram de Triologia de uma
Santíssima Trindade. Um poema de Amália ("Os Teus Olhos São Andorinhas"),
que recebe uma nova música; o "Comboio Descendente", de Pessoa, também
com nova música, obviamente a não conseguir fazer esquecer a composição de José
Afonso; e um inédito de António Variações ("Parei na Madrugada")
vestido de fado-marcha. Três exercícios arriscados, com um resultado mediano -
nenhum dos temas deixa marca indelével. E esse é, talvez, o problema maior
deste CD e dos Oquestrada: o conceito é interessante, uma fusão que se quer
cosmopolita entre o fado, as cantigas à desgarrada e uma modernidade
teoricamente europeia, mas o resultado é repetitivo e não especialmente
apelativo. Claro que ao vivo tudo isto resulta muito bem - os permanentes
contrapontos de vozes e instrumentos, a euforia quase descontrolada -, mas em
estúdio soa um tanto monótono.
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Oquestrada
Russian Red - Agent Cooper ***
A música de Russian Red, aliás Lourdes Hernandéz, é um pequeno milagre. Nem tanto pela reversão da anedota de uma espanhola que até canta bem em inglês, mas mais especificamente pelo próprio trabalho musical, logo a começar, sim, pela voz. A cantora madrilena pratica uma música que, por facilidade de classificação, poderemos identificar com os movimentos indie. Uma indie que bebe directamente na new wave, especialmente na alegria da new wave. E essa é boa parte do milagre - a vibração, o ritmo, salvam esta música do pastel etéreo que, apesar de tudo, se pressente a cada esquina. Este terceiro disco, o primeiro gravado nos EUA e com um produtor americano, é, aliás, um passo firme numa direcção decididamente pop, de certo em busca de tops mais globais que confirmem o sucesso doméstico. "Casper", primeiro single, e "John Michael" são disso exemplo. Como "Neruda", por exemplo, sinaliza na perfeição o tal território indie de eleição.
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Russian Red
Ney Matogrosso no Coliseu
As canções que Ney Matogrosso traz agora a Portugal quase se transformaram na banda sonora da rebelião que atravessou as principais cidades brasileiras em Junho/Julho do ano passado, tendo como mote o contraste entre a pobreza do povo e os milhões gastos no Mundial de Futebol. Meses antes, Ney tinha iniciado uma digressão em que, a par de nomes consagrados, como Arnaldo Antunes, Paulinho da Viola ou Itamar Assumpção, interpretava compositores quase desconhecidos, alguns deles descobertos na Net ou em discos de autor. Desse conjunto de temas fazem parte "Incêndio" (de Pedro Luíz) e "Rua de Passagem" (de Arnaldo Antunes e Lenine), com referências quase premonitórias às manifestações que abalaram o Brasil. Tal bastou para que o nome de Ney Matogrosso fosse catapultado pelos media para a primeira linha, qual precursor da rebelião. Embora preocupado com a situação do seu país (e do mundo), ele prefere, porém, manter-se ao serviço exclusivo da música. As canções desta digressão migraram, entretanto, para um CD (Atento aos Sinais), mantendo a toada fortemente pop, assente em metais e guitarras, sobre a qual se desenvolve um show algo pirotécnico, com Ney meio nu sobre paredes de luz e leds. Aos 72 anos, e com 40 de carreira, é a sua maneira de dizer que está aí para as curvas.
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Kaiser Chiefs - Education, Education, Education & War **
Os Kaiser Chiefs ganham uma das apostas deste disco, mas perdem outras duas. O resultado é, portanto, misto, com tendência para negativo. A banda sobrevive perfeitamente à fuga do baterista Nick Hodgson, o autor dominante dos quatro primeiros discos de estúdio. Se tivermos em conta que o código genético das canções parece não ter sofrido qualquer abalo, averbe-se então a vitória mais soborosa desta aventura. Manter o tom é, porém, insuficiente para uma banda que sonha alto. E sonha, por exemplo, estar na vanguarda das lutas sociais da juventude (!), daí ter recuperado uma velha frase de campanha de Tony Blair para título do disco. As canções não são apenas porta-vozes de inconformismo, elas apelam à acção. E talvez aí o primeiro falhanço - os miúdos já não vão em revoluções. Enchem estádios, é certo - e estes dez temas foram pensados para isso -, mas dificilmente se deixarão mobilizar por estas canções. E eis a terceira derrota: não sendo más, as canções não são nada de especial. Ora, tratando-se de um disco...
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Kaiser Chiefs
Maria de Medeiros - Pássaros Eternos ***
Às tantas, damos por nós a interrogarmo-nos que raio de preconceito temos contra as pessoas com voz de sopinha de massa. Porque Maria de Medeiros tem voz de sopinha de massa e isso fica evidente, e de que maneira, logo no primeiro tema ("Quem És Tu?"), volta a ouvir-se evidentemente em "Por Delicadeza", o poema de Sophia transformado por Maria num suave bossa-jazz, e evidencia-se novamente em "Diz Que É Fado", por motivos mais que evidentes. Mas não deixa de ser extraordinário que essa fragilidade da voz, verdadeiramente audível em todo o disco, seja francamente relegada para um secundaríssimo plano, perante canções que parecem não se cansar de encontrarem modos de nos seduzirem. Neste terceiro disco, a cantora assina integralmente cinco dos dez temas, recupera Ivan Lins e Adriano Celentano e colabora com o espanhol Raimundo Amador e com The Legendary Tiger Man (o dueto "Shadow Girl" é, de resto, um dos momentos mais conseguidos).
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Maria de Medeiros
Elbow - The Take Off and Landing of Everything ***
Eis uma banda com todos os ingredientes para um cozinhado insípido e talvez mesmo soporífero, mas que, por artes de magia, acaba fazer um disco que se ouve muito bem e que revela a cada audição subtilezas inesperadas. Os Elbow praticam uma música que vai buscar ao rock sinfónico uma certa pompa e pendor intelectual e à 'brit pop' a apetência pelos sons de estádio, não sendo abuso evocar os Oasis ou os Coldplay a propósito. Uma receita para o bocejo, convenhamos (e a faixa que dá título ao CD é-o, de facto). Mas, justiça seja feita, nesta sexta gravação da banda há uma esforço de, digamos, humanização, que resulta. Por exemplo, no muito interessate "My Sad Captains", ou em "This Blue World", em que as evoluções planantes não resultam tão enjoativas como chegamos a temer. A audição acaba por ser gratificante, especialmente para as vítimas das crises da meia idade, seja lá isso o que for, que tanto afligem estes simpáticos britânicos.
Rufus Wainwright - Live From The Artists Den **
O início deste DVD é especialmente irritante. O primeiro tema, "Candles", é pura e simplesmente assassinado quando lhe colocam em cima dois depoimentos, o do próprio Rufus e o de um pároco, acerca da importância de o concerto estar a ser gravado numa igreja. Ora "Candles", não só está a ser interpretado - em fundo, insista-se - numa bela versão "a cappella", como se trata de uma sentida homenagem póstuma à mãe do cantor, a canadiana Kate McGarrigle. Agora, digam lá como é possível que um atropelo destes aconteça num DVD musical, ainda para mais proveniente de uma afamada série americana, a Artists Den, dedicada precisamente a concertos de artistas famosos em locais inesperados, no caso, a igreja da Ascenção, em Manhattan... Diga-se que a gracinha se repete ao longo dos 120 minutos, felizmente com um impacto bem menor, já que os curtos depoimentos aparecem nos intervalos das canções (e, já agora, quem quiser ouvir a versão não adulterada de "Candles" terá que recorrer ao CD que entretanto também foi lançado). O desleixo inicial acaba, porém, por ser revelador e, sendo certo que nada corre verdadeiramente mal no concerto, não deixa de ser verdade que não estamos propriamente perante um dos melhores momentos de Rufus. As versões (10 dos 16 temas são do último Out Of The Game, de 2012), sempre competentes, nunca descolam muito do que conhecemos dos estúdios, e o cruzamento das guitarras com um omnipresente sintetizador acaba por conferir uma textura demasiado fria aqui e ali. Entre os melhores momentos do disco estão as interpretações de dois temas dos progenitores: "One Man Guy", de Loudon Wainwright III, e "On My Way To Town", de Kate McGarrigle. Rufus, embora em plena forma vocal, despacha as canções com profissionalismo, mas sem chama. E nem os diálogos com o público são brilhantes, ao contrário do que é habitual - o momento "alto" é a (não) utilização de uma máscara de Helena Bonham Carter (porquê?, já agora).
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Rufus Wainwright - Vibrate ****
Rufus Wainwright é um dos mais talentosos compositores surgidos nas últimas duas décadas. E, no entanto, basta percorrer sites e revistas da especialidade para perceber que são raríssimas as vezes em que colheu a simpatia máxima da crítica. Ou seja, os seus discos, sempre muito bons, quase nunca atingem o estrelato da nota máxima. Este Best Of, revisitação dos sete registos de estúdio, ajuda a dar algumas respostas a esse paradoxo, apesar de, como todas as colectâneas, fazer opções e deixar de fora zonas subtanciais do acervo acumulado. No caso, optou-se claramente pelas canções mais fáceis, mais comerciais, excluindo baladas marcantes e temas mais complexos. E que Rufus resulta deste balanço? Certamente, alguém que bebeu e remistura influências, do pop à clássica, passando demoradamente pelo cabaret. Mas também alguém que se deixa enredar por linhas melódicas e harmónicas que se repetem disco após disco. É bom, mas está a precisar de se reinventar.
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Rufus Wainwright
Joan As Police Woman - The Classic ****
Deitar fora todos os demónios e dar espaço a um amor monumental, canta Joan Wasser em "The Classic", o tema central deste seu quarto disco. E este é verdadeiramente um tempo de ruptura com a pesada melancolia que assombrava amiúde os registos anteriores - conferir, por exemplo, "Forever And A Year", do CD de 2011 (The Deep Field). Agora, pelo contrário, tudo é luz, vibração, esperança. A memória da Motown serve de veículo perfeito para o transporte de toda esta alegria ao longo de dez temas, alguns deles fazendo perdurar a festa para lá dos seis minutos - "Good Together", excelente na forma como acumula a tensão que acabará por se descontrolar na longa recta final, numa metódica exorcização da "nostalgia daquilo que nunca houve". Soul de excelência, com um swing danado, ouve-se ainda em "Holy City", ou no assumido revivalismo doo-woop de "The Classic" (deliciosa, a citação de "Respect", de Aretha Franklin). E mesmo as baladas, como "Stay" ou "New Year's Day", inclinam-se mais para uma toada zen do que para a fatalidade de outros tempos. Uma mudança de rumo agradavelmente desconcertante, a demonstrar uma enorme segurança na composição, mas especialmente na conceptualização e na interpretação.
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Joan As Police Woman
Jake Bugg - Shangri-La **
Quatro em cada cinco críticas a Jake Bugg nos media anglo-saxónicos fazem referência a Dylan, uma prova mais, afinal, de que vivemos tempos verdadeiramente estranhos. O puto não tem voz que se apresente (conferir em "A Song About Love"), é certo, e entre o primeiro disco e este há um jogo deliberado de apelos nostálgicos, centrado entre o folk americano da primeira metade dos anos sessenta (Dylan, lá está) e a vaga brit pop dos anos 90 (os Oasis são uma influência clara em 'Kitchen Table' e, especialmente, 'Simple Pleasures'). Dylan e Jake são, porém, como as rectas paralelas, nunca se encontram. O mesmo acontece, aliás, com Rick Rubin, esse mito da produção, cuja marca neste disco é tão difícil de descortinar, descontado, talvez, o facto de ter apresentado a Jake a Chad Smith, o baterista dos Red Hot Chilli Peppers, mais que audível em 'What Doesn't Kill You', por exemplo. Digamos que, aos 20 anos e com dois discos no bolso, tem pela frente uma bela curva de aprendizagem.
Beady Eye - BE **
Este disco é uma espécie de jogo de dardos em versão áudio. Há uma outra seta com uma pontuação razoável, mas o centro do alvo fica deserto. Digamos que não é ainda neste segundo exercício pós-Oasis que Liam Gallagher acerta no tom. Basicamente, ouvem-se aqui dois tipos de canções. As mais lentas, mais acústicas, remetem directamente para os Oasis, num jogo de revivalismo beatle de que "Don't Brother Me" será talvez o expoente máximo (quase a pedir que os herdeiros dos quatro de Liverpool reclamem direitos de autor, embora a metade final seja ocupada por uma derivação sónica absurda). Depois, as outras são as que ostentam mais visivelmente o carimbo na produção de Dave Sitek (dos TV On The Radio). Por exemplo, "Flick Of The Finger", construída sobre uma parede de som à base de metais, ou mesmo "Iz Rite", a qual, apesar disso e com "Second Bite of The Apple", acaba por ser das coisas mais audíveis do disco.
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El Perro del Mar
Billie Joe + Norah Jones - Foreverly ***
A música em forma de estafeta, com efeitos de loop. É assim: em 1958, os Everly
Brothers gravaram um disco intitulado Songs
Our Daddy Taught Us, constituído por 12 velhas canções country convertidas em harmoniosas melodias com acompanhamento de
guitarra. Mais de meio século depois, uma cantora de jazz ligeiro e um
vocalista de uma banda punk pegam nas
mesmas 12 canções e devolvem-nas ao universo country. Nada se perde, tudo se transforma. Pouco se ganha. As
interpretações, embora agradáveis, são relativamente banais, com Billie Joe
Armstrong (voz dos Green Day) sempre mais ou menos na condução e a doce Norah
Jones em segundo plano, nas harmonias. Os arranjos espraiam-se por várias sonoridades
country, sem nada de especialmente memorável. "Down in The Willow
Garden", talvez pelo dedilhar da guitarra, ganha uma certa intensidade indie, mas o resto é de um classicismo
irrepreensível. Apenas.
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Norah Jones
The Beatles - On Air, Live at The BBC Vol. 2 ****

Estamos no domínio da arqueologia virtuosa. Não se escava para descobrir, escava-se pelo simples gosto de escavar e por saber que, lá no fundo, está tudo aquilo que esperamos... e de que gostamos. Muito. Este disco (o primeiro da série saiu há 20 anos!) consiste na reprodução de umas dezenas de actuações na BBC, maioritariamente em 1963. A diferença, e graça, face ao anterior é que, desta vez, as canções são ligadas por diálogos entre o locutor e os quatro fabulosos. Na prática, tratava-se de um programa de discos pedidos, com os quatro a responderem com humor aos pedidos e a lidarem com os primeiros alvores do estrelato. As versões são obviamente boas (os Beatles sabiam mesmo tocar e cantar...), mas muito pouco diferentes das que já conhecemos. O grande valor documental deste duplo CD são as quatro entrevistas individuais (5 minutos cada), nas vésperas do Rubber Soul e do Revolver e, aí sim, estamos já perante a genialidade.
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The Beatles
Robbie Williams - Swings Both Ways ***
Robbie Williams é um artista e ponham polissemia nisso. Um extraordinário sentido do espectáculo, um jeito muito especial para se reinventar, uma auto-ironia desarmante. Este disco é isso, um divertimento pegado, Broadway revisitada, através de standards, de versões de canções próprias e até de alguns originais, por sinal as peças mais interessantes desta aventura. Por exemplo, o dueto com Rufus Wainwright em "Swings Both Ways", de longe o segmento que mais brilha, num divertido jogo de troca de identidades sexuais. Ou a sentimental e inspiracional balada "Go Gentle", um rosário de (bons) conselhos para a filha. No campo das desilusões, talvez o dueto com Lilly Allen em "Dream a Little Dream", com muito menos charme que o "Something Stupid, com Nicole Kidman, da anterior aventura swing, de 2001. E talvez esse seja o ligeiro problema deste disco: a falta de surpresa. Não basta que o swing seja perfeito.
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Robbie Williams
You Can't Win, Charlie Brown - Diffraction/Refraction *****
Imaginem que os Grizzly Bear se cruzam em Lisboa com Nick Drake ou Tim Buckley... Ups, desculpem, este é o início de um press release sobre a banda e a Time Out não copia press releases. E noutro press release fala-se também de Bon Iver e Sufjan Stevens... Talvez ainda lhe juntasse Arcade Fire ("Shout", por exemplo). Um hábito, não apenas doméstico, este de descrever a música mais pelas influências que pelo resultado final. É, convenhamos, de uma enorme comodidade. Ficamos logo a saber que estamos em território folk, ora melancólica, ora bem humorada, sempre intimista, mas também de uma enorme imaginação sónica. Há instrumentos inesperados (garrafa de cerveja, em "I Wanna Be Your Fog", uma das mais belas canções), arranjos clássicos de cordas ("Fall For You"), muitas e belas guitarras (belíssima, a sua entrada em "Be My World"), vozes maduras e coros afinados. Mas há, principalmente, um ambiente geral, muito suportado nas percussões, canónicas ou nem tanto, em teclas e outras electrónicas, que confere um cunho marcadamente onírico, talvez excessivo para certas almas mais sensíveis a sonoridades despidas (exemplo: "Under", quase a remeter para algum rock sinfónico de má memória), embora também por aqui as haja ("Heart"). Digna de nota é a homogeneidade de produção do disco. A aventura criativa e sónica não desagua numa amálgama de sons inarticulados, pelo contrário, nesta segunda gravação de maior fôlego (Chromatic, de 2011, sucedeu um a EP, de 2010), a banda surge extremamente segura em todas as frentes, fruto evidente de muita estrada, que inclui, por exemplo, a recente reinterpretação ao vivo do primeiro disco dos Velvet Underground (aventura, sublinhe-se, da qual não cai qualquer sombra para esta gravação). Janeiro começa, assim, com um dos discos do ano.
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Vanessa da Mata - Canta Tom Jobim **

As canções de Tom Jobim são tão boas que servem para tudo. Para tocar e sussurrar no piano do hotel, ou para gravar obras de enorme sensibilidade e virtuosismo, como fatalmente fazem todos os grandes nomes da música brasileira. Vanessa da Mata não faz uma coisa nem outra e, tendo em conta os meios envolvidos, o balanço é bem frustrante. Por “meios” entenda-se, por exemplo, ter à disposição Eumir Deodato, um dos orquestradores de Tom, e Kassin, um dos produtores coqueluche do Brasil. O disco oscila, porém, entre alguns arranjos clássicos banais (“Desafinado”) e outros mais pop, mas igualmente banais (“Este seu olhar”), a piscar o olho às novas gerações. Mas se os arranjos e a produção não saem da mediania, o que dizer da interpretação? Nada como a interpretação de um clássico para expor a falta de ambição ou mesmo as limitações de uma voz. Este acaba por ser um bom disco para ouvir… no bar do hotel.
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Vanessa da Mata
Peter Gabriel - And I Scratch Yours ***
Coças as minhas costas, que eu coçarei as tuas. É uma expressão de entreajuda, com um toquezinho de frete, e Peter Gabriel terá entendido perfeitamente a aventura em que se meteu, em 2010, quando decidiu gravar 12 canções de outros tantos amigos, apenas com piano e cordas. A verdade é que, três anos depois, nem todos os amigos compareceram à chamada para gravarem uma canção de Gabriel (Neil Young, por exemplo), e o resultado global da operação deixa um tanto a desejar. Se no primeiro disco houve uma apropriação evidente das canções, com a respectiva transfiguração, nesta segunda parte a abordagem oscila entre esse movimento de apropriação ("Solsbury Hill", por Lou Reed; "Biko", por Paul Simon), a repetição quase mecânica do original ("Games Without Frontiers", pelos Arcade Fire), e coisas sem qualquer chama ou interesse ("Not One Of Us", por Stephin Merritt). Ficam as boas intenções, coisa em que Peter Gabriel é especialista.
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Pearl Jam - Lightning Bolt ***
Estádios de todo o mundo, rejubilai. Os Pearl Jam estão de regresso e em grande forma. Do grunge resta a camisa aos quadrados de Eddie Vedder, a memória dos fãs de sempre e, vá lá, a sonoridade pós-punk de "Mind Your Manners". Os PJ são hoje a prova viva de que é possível ter sucesso e envelhecer sem perder a dignidade ou sequer a energia. Este é, assim, um disco honesto, do qual não salta qualquer novidade, mas em que ouvimos rock do mais clássico que por aí se pratica. As baladas, "Future Days", e especialmente "Sirens", fazem aquela pequena concessão lamechas a puxar para o isqueiro iluminado que toda as baladas devem ter. E os temas mais poderosos, "Swallowed Whole" ou "Getaway", por exemplo, mostram uma banda em plena forma, a começar pelo vocalista e incluindo as óbvias guitarras. E até há espaço para o quase experimentalismo de "Pendulum". Profissionalismo não é necessariamente sinal de tédio.
Arcade Fire - Reflektor ***
Há, no perfeccionismo e na ambição, do quarto disco dos Arcade Fire algo que incomoda. Como se estivéssemos já num domínio da pós-música, coisa de laboratório, pavloviana, feita para nos fazer salivar. Num artifício em que a inspiração, a poesia, a música, enfim, dão lugar, de forma demasiado diabólica, premeditada, fria, à pura manipulação. O paralelo histórico mais próximo terá sido quando os U2 se convenceram que eram os maiores do mundo, do universo mesmo, ou, ainda antes, quando os Pink Floyd implodiram à boleia de uma música e de uma encenação já despida de humanidade. Os tiques repetiram-se, aliás, através do frenesim mediático e de redes sociais que envolveu o lançamento de Reflecktor de uma constelação de “eventos”. É claro que há aqui boas canções, não canções muito boas, mas canções boas. “Aflterlife” e “You Already Know” serão disso bom exemplo. Poeticamente, há por aqui alguns achados e nem será necessário recorrermos ao par mais óbvio “Awful Sound” / “It’s Never Over”. E é óbvio que só uma banda em grande forma poderia abalançar-se a tal projecto. E ainda que “Reflektor”, “We Exist” ou “Here Comes The Night Time” prometem abrasar os woofers das pistas de dança. O que incomoda é o embrulho demasiado gongórico de tudo isto, com permanentes referências, quase citações, de quase tudo o que se gravou, pelo menos, nas últimas três décadas. Provavelmente, teria que ser mesmo assim, fruto da evolução (!), e a verdade é que poucas bandas da actualidade teriam capacidade para se abalançar a tal projecto. Estes Arcade Fire já pouco têm a ver com o genuíno fulgor de Funeral (2004), embora ainda não tenham vendido a alma ao diabo.
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Tindersticks no Coliseu
Os Tindersticks estão em fase comemorativa e Portugal não poderia faltar à festa. Esta é mais uma daquelas relações que a razão não consegue explicar. Talvez a melancolia doce que atravessa todas as suas canções.
2013 é o ano do 21.º aniversário da banda (20.º do primeiro disco) e a data, redonda ou nem por isso, está a ser aproveitada para uma revisitação ao passado, traduzida num disco, Across Six Leap Years, com reinterpretações de temas de toda a carreira, mas especialmente dos primeiros anos. O disco, reconheça-se, não é nada de especial. Não se trata de um best of, a selecção de canções é relativamente aleatória e, acima de tudo, as novas interpretações não trazem nada de especialmente novo. É claro que a voz de Stuart Staples está em grande forma (alguma vez não esteve?), e que os arranjos são, como sempre, de uma elegância irrepreensível. Mas isso é o que esperamos dos Tindersticks. Especialmente depois de The Something Rain (2012), um dos seus melhores discos, esperava-se mais garra.
Esse disco é o guião central da digressão que agora passa por Lisboa, o que não deixa de ser paradoxal, visto que as reinterpretações se socorrem abundantemente dos naipes de cordas (e amiúde dos metais), que, obviamente, não estarão no Coliseu.
Mas a verdade é que tudo isso acaba por ser irrelevante - estamos perante uma banda que nunca desilude em palco. Muito menos os portugueses.
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Midlake - Antiphon **
Os Midlake são um objecto estranho. Oriundos do Texas, movem-se no território indie com um som que cruza essencialmente influências do rock progressivo, folk rock mais erudito e algum psicadelismo. Vão no quarto disco, o primeiro após a saída de um dos líderes e vocalista, Tim Smith, e, apesar de gostarem de evocar os Radiohead, neste Antiphon remetem mais para as flautas dos Jethro Tull, as sonoridades planantes dos Yes e umas coisas decalcadas dos momentos menos inspirados dos Pink Floyd. Escusado será dizer que os sintetizadores e as guitarras distorcidas são a constante em todos os temas, isto, claro, para além de um fraseado vocal excessivamente apoiado nos coros. Os temas sucedem-se de forma monótona, tornando-se quase impossível distinguir uns dos outros. O mais comercial "The Old and The Young"? O desorientado "Vale"? Ou o cantável "This Weight"? Difícil mesmo é perceber a quem se destina esta música, independentemente do gozo que poderá ter dado a quem a criou.
Kings of Leon - Mechanical Bull ***
A música dos King of Leon é um relógio suíço. Tem um tic-tac super-afinado, essencialmente baseado em guitarras, que faz com que as canções fluam com uma genuína sinceridade, naturalidade mesmo. Mas, como todos os relógios suíços, esta é também uma música que não adianta nem atrasa. Ou seja, é competente, extremamente competente, mas fica contente com isso mesmo, não nos dá mais do aquilo que esperamos dela. Essa honestidade é ainda mais radical neste sexto disco, o regresso após o megasucesso mundial de Come Around Sundown (2010) e respectivas ondas de choque. Ainda se ouve por aqui algum U2 ("Beautiful War"), mas os grandes estádios parecem já não ser a paisagem natural destas canções. Há como que um regresso ao rock do sul americano, com os seus esquemas básicos ("Don't Matter") e o seu lirismo de pacotilha ("Last Mile Home"). Ouve-se tudo muito bem, tudo dará grandes momentos ao vivo, mas quase nada se destaca de uma evidente mediania.
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Kings of Leon
Mark Lanegan - Imitations ****
Mexer na ferida, deitar-lhe sal, pode ser a melhor das curas. E para que seja grandiosa, a cura exige grandes feridas, no caso, grandes canções. Uma grande e funda solidão não pode ser cantada de ânimo leve, exige que se convoquem os clássicos, que se exorcize com o que de melhor os melhores tenham produzido. Isso mesmo deverá ter pensado Mark Lanegan, quando decidiu reinterpretar 12 canções em que a palavra solidão se expõe logo no título, ou mais insidiosamente se infiltra pelas estrofes. Lanegan tem vindo a afirmar-se como um intérprete de eleição, nem tanto pela qualidade e técnica vocal, mais pela emoção com que se apropria das canções. É isso que faz com "Brompton Oraty" (Nick Cave), numa leitura baseada em metais, ou "I'm Not The Loving Kind" (John Cale), com orquestra à séria, ou com "You Only Live Twice" (John Barry para Nancy Sinatra). Um trabalho de reinvenção, que acaba por ser a negação do título do disco.
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Mark Lanegan
Elvis Costello and The Roots - Wise Up Ghost ***
Aos mais antigos, este disco soará a Frank Zappa. O que abona muitíssimo a favor de Zappa, especialmente se tivermos em conta que os seus autores não explicitaram qualquer intenção comemorativa. Zappa pela paisagem musical aparentada do hip-hop, mas francamente mais experimental e rica. Zappa ainda pelo estilo vocal que Costello amiúde exala, entre o anasalado e o balbuciante. Mas Zappa não mora aqui. E o que há a dizer sobre este disco é relativamente simples: a ideia original (a regravação de velhos temas de Costello) era interessante, pela nova luz que a banda de Questlove poderia trazer a essas canções, já a concretização, suportada em temas originais, acaba por ser relativamente decepcionante. Há mesmo momentos sensivelmente aborrecidos, por exemplo quando as canções empastelam e parecem cair num interminável loop, o que poderá resultar nas coloridas actuações ao vivo dos Roots (a banda residente do programa de Jimmy Fallon), mas que em disco apenas tem o condão de esticar a quase totalidade dos temas para os cinco minutos. Essa circularidade obsessiva das canções, assim como a batida metálica e também ela obsessiva, são, reconheça-se, o campo perfeito para o tom sombrio, pessimista, corrosivo do que Costello canta. Uma América, um mundo, se quisermos, triste, sem esperança, enredado nas armadilhas de que fala "Tripwire", uma das suas melhores canções de sempre, curiosamente uma valsa clássica que os Roots abdicam de contaminar. Enfim, apenas mais uma colaboração para a já razoável colecção de Costello. E sublinhe-se a palavra "apenas".
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