Ryan Adams **

Felizmente, o Bryan Adams anda desaparecido. Caso contrário, lá teríamos que sublinhar o R inicial deste, de forma a evitar confusões. E agora, convenhamos, com toda a propriedade. Em entrevistas recentes, Ryan colocava os Velvet Underground e os Smiths (!!) como principais influências do novo disco. Era a brincar, seguramente. Isto é mais Bruce Springsteen de terceira ou quarta categoria ("I Just Might"), U2 ainda mais desinspirados do que de costume ("Shadows"), ou, sim, Bryan, o tal ("Am I Safe"). Uma música que, enfim, poderia ter sido gravada por qualquer uma dessas bandas, especialmente britânicas, preocupadas em fazer sons para estádio. Há uma tensão, na obra passada de Ryan, entre uma música mais serena, muito devedora do country (de que "My Wrecking Ball" é aqui um exemplo), e um som mainstream um tanto banal, sustentado em monótonos riffs de guitarra. Desta vez, ganhou o segundo.

The Antlers - Familiars ***

Se ficares muito quietinho, até consegues ouvir o monstro respirar. O monstro costuma estar debaixo da cama, mas neste disco está dentro de nós. As canções dos Antlers são das coisas mais sombrias que imaginar se possa. Problemas de personalidade, sustos de jovem adulto, crise de identidade. Mas foi isso que tornou em culto o trio de Brooklin, essa música assaltada permanentemente por fantasmas. Nesta quarta gravação de maior fôlego, há, porém, uma novidade de monta, que, nuns casos, adensa as sombras, noutros funciona como inesperado raio de luz - a omnipresença dos metais, especialmente o trombone e o trompete. Em "Revisited", por exemplo, os metais adornam a valsa e tornam-na quase dançante. Já em "Doppelganger" acentuam o nó na ganganta. A atravessar o disco há ainda a sonoridade do jazz e um ambiente de filme negro muito interessantes. Enfim, não é coisa para se ouvir todos os dias, mas...

Jose James - While You Were Sleeping ***

Há qualquer coisa de laboratorial nesta música. Para o bem e para o mal. É uma música de base assumidamente soul, mas que busca uma enorme sofisticação, seja numa sonoridade por vezes fria ("U R The 1"), seja por arranjos de grande densidade dramática (o órgão e as cordas em "4 Noble Truths"), seja, enfim, pela projecção da beleza sensual da voz de José James. Essa sofistação, nos limites do bom gosto comum, é obviamente uma boa aposta. Acaba, porém, por prejudicar o disco, retirando-lhe a alma que podemos ouvir, por exemplo, em "Simply Beautiful", uma boa versão de Al Green. Por vezes, a vertigem pelo cruzamento de influências é um tanto exasperante (o tema título, por exemplo, começa com uma citação descarada de "Heart of Gold", de Neil Young, e acaba num crescendo à la Radiohead). E há ainda citações mais ou menos assumidas de Nirvana ou Hendrix, por exemplo. O problema é que tal dispersão acaba por prejudicar a assumpção de uma voz própria.

Beck Song Reader ***

Como no famoso quadro do Magritte: isto não é um Beck. Depois, vai-se a ver, e é mesmo um Beck. Até tem Beck a cantar e tudo. Mas, ao contrário do quadro, aqui o que parece não é, e isto não é mesmo um Beck. O projecto começou em 2012 e não era para ser isto. Na irrequietude que marca os últimos anos da sua carreira, Beck lembrou-se de ressuscitar uma moda da primeira metade do século XX: a edição de pautas de música para que o povo possa exercitar os seus dotes musicais. O livro de pautas deu origem, então, a uma onda de gravações no Youtube, em registos maioritariamente amadores, mas algumas a destacarem-se da multidão. Próximo passo: alguns amadores e outros nem tanto, em palco. Sucesso mediano. Eis então que alguém se lembra de fazer um disco para angariar fundos destinados a uma associação de crianças americanas. E eis as pautas em acção. A participação de Beck limita-se à interpretação de um tema ("Heaven's Ladder"), num tom, aliás, descaradamente beatliano. Apesar de um ou outro momento com mais interesse, o resultado global - como, aliás, costuma acontecer com este tipo de projectos - deixa muito a desejar. Não é que cada um cante para seu lado, mas todos parecem pouco dispostos a arriscar (por exemplo, Loudon Wainwright III, ou mesmo Jack White, a quem costumamos ouvir melhor). Excepções? A belíssima interpretação de Swamp Dogg de uma das melhores canções do disco ("America, Here's My Boy"), David Johansen a fazer de Tom Waits e (!) Norah Jones a fazer da mais perfeita Norah Jones. Há quem diga que giro, giro mesmo, era Beck gravar um disco com esta canções para percebermos o que queria ele dizer com elas. Pois...

Clube Internacional Transatlântico de Criadores e Gostadores da Música que Se Faz Hoje ****

O mais provável é que este disco não mude nada, apesar das boas intenções. E a intenção explícita é dar a conhecer nos dois lados do Atlântico a música que se faz em cada uma das margens. As regras da indústria e as ditaduras do gosto deverão encarregar-se, como de costume, de tratar das boas intenções... Isto apesar de o disco até estar disponível para download gratuito no site da editora. A ideia foi do brasileiro Marcelo Camelo, a viver em Portugal, que apresentou os músicos da sua banda (Wado, Momo e Cícero) aos portugueses Diego Armés (Feromona), Bernardo Barata (Diabo na Cruz), Alexandre Bernardo (Laia) e Fred (Buraka, Ovelha Negra). O repertório é quase completamente composto por versões de temas já conhecidos, havendo dois inéditos de Armés (belíssimo, "Corda Para o Nó"), havendo uma clara opção por abordagens simples, límpidas. "Pescador" talvez seja paradigmático daquilo a que se propõem, na fusão perfeita das raízes do fado com o tropicalismo, evoluindo para uma espécie de ié-ié dançante.

King Creosote - From Scotland With Love ****


Ouve-se falar pouco da Escócia, especialmente desde que o gin passou a ser a bebida social por excelência. Mas este é um verão escocês. Daqui a poucas semanas, decidem em referendo se passam a independentes (o Mick Jagger mais uns tantos já vieram dizer "não façam isso") e, nos exercícios de aquecimento, receberam em Julho os Jogos da Commonwealth. E foi precisamente para esses jogos que Virginia Heath realizou um documentário, com imagens de arquivo (cenas de trabalho, emigração, ócio e amor), sem palavras, e apenas a música de Kenny Anderson, o prolífico King Creosote - mais de 50 discos, todos baseados na tradição musical escocesa. O resultado são 11 quadros emotivos sobre a história recente, as gentes e as paisagens da Escócia, da vida dos pescadores ("Cargill"), ou das crianças e seus lanches ("Leafe Piece"), das celebrações ("For One Night Only"). Uma oportunidade rara de ouvir este tipo de música (e pronúncia).

Thievery Corporation - Saudade **

"Não chega a ser música de supermercado, de aeroporto talvez." Este elogio envenenado foi o máximo que a nova aventura dos Thievery Corporation conseguiu na crítica do jornal Globo. E vale a pena chamar aqui a avaliação brasileira porque os nova-iorquinos decidiram pôr de lado as electrónicas e as samplagens e arriscar um quase genuíno disco de bossa nova. Quase, porque não resistiu a salpicar alguns temas, de forma muito esparsa, de uns toques da sonoridade que os tornou famosos ("No More Disguise"). A verdadeira aposta é, porém, reproduzir, sem risco ou especial brilho, todo o cânone da bossa nova, o que leva o duo a recorrer, pela primeira vez de forma tão extensiva, a instrumentos reais, sejam as cordas, as percursões, ou as guitarras acústicas. O "pequeno" problema é que, nas últimas décadas, não houve cão nem gato que não tenha explorado o filão da bossa. O que atira este disco para a prateleira dos projectos indiferenciados (e, logo, falhados).

Robin McKelle & The Flytones - Heart of Memphis ***

O ponto de partida é uma espécie de homenagem à Stax, uma das rivais da Motown no soul dos anos 60 e 70, mas o disco acaba por não se ficar pela influência da editora de Memphis. Claro que a marca de água da Stax domina a paisagem: órgão, metais, guitarra eléctrica e uma secção rítimica bem mais funky que o som de Detroit. O tema que dá título ao disco, "Like a River" e, por exemplo, "Down With The Ship" são exemplos perfeitos da recuperação dessa sonoridade. Ainda da Stax, mas um registo menos marcado, a versão de "Forgetting You", uma justa evocação de Otis Redding, o peso pesado da casa de Memphis. Mas, por exemplo, "Good Time" evoca instantaneamente os tempos dourados de Ike & Tina Turner, enquanto que a versão de "Don't Let Me Be Misunderstood" é Animals (ou Eric Burdon) do mais descarado. Ao terceiro disco, Robin McKelle acentua a viragem, já antes ensaiada, do jazz para um território exclusivamente soul. Com balanço positivo.

Metronomy - Love Letters ****

Os improvisos, como se sabe, dão muito trabalho a preparar. É como a música dos Metronomy: esta electrónica deliberadamente 'lo-fi' necessitou de um estúdio analógico para que todos os sons saíssem claros mas redondos. Esta depuração, como que um burilar de 'demos', é a marca de água do quarteto inglês. O resultado é uma pop dançante ("Reservoir"), mas ainda assim melancólica, ou não girasse todo o disco em torno da temática do desencontro (amoroso, claro está), a raiar o desespero, a angústia mesmo - ouça-se, por exemplo, o martelar do refrão em "I'm Aquarius". Quer na composição, que especialmente na encenação, as canções devem muito à Motown (exemplo máximo: o tema que dá nome ao disco), com paragens mais ou menos evidentes nos anos 80 ("Reservoir" poderia estar num disco dos Orchestral Manoeuvres in The Dark). Espantosamente, é uma música que sobrevive, e bem, ao calculismo notório da sua construção.

Real Estate - Atlas ****

Música sem peneiras. Directa, cristalina, despretensiosa. São assim os Real Estate. E agora o paradoxo: mantendo-se tudo na mesma neste terceiro disco - na verdade, melhorando, mercê de uma produção mais profissional, que torna a teia sonora ainda mais límpida -, há uma densidade oriunda do que é cantado que obriga a olhar para a banda com outros olhos. Até aqui, o dedilhar permanente da guitarra entrelaçado com uma voz quase etérea tinha correspondência directa em letras também elas luminosas, sem arestas. Agora, porém, os temas são mais adultos, falam de ausências, de dores de crescimento, de afastamentos... "How Might I Live" é, talvez, o expoente máximo dessa reviravolta temática, mas todo o disco deve bastante à melancolia. O que, bem vistas as coisas, não assenta nada mal no som primitivo da banda. Mesmo "Talking Backwards", o tema mais pop, ou até o instrumental "April's Song" são evidentemente nostálgicos.

Lykke Li - I Never Learn ****

Claro que nunca deveríamos confiar numa miúda que escreve uma canção intitulada "A Tristeza É Uma Benção" (Wounded Rhymes - 2011). Muito provavelmente inspirada em factos reais, ela leva agora a coisa às últimas consequências. São nove (nove!) canções encharcadas em lágrimas, voz dorida (e como se nota e ouve!), corações partidos, o amor que acabou e que nunca, mas nunca, mais voltará. Sem réstea de luz ou esperança. Mas, como em todos os exorcismos, há prazer nesta dor. Por exemplo, o prazer de recriar a "wall of sound", de Phil Spector: a maioria dos temas começa de mansinho, evocando os ambientes planantes do primeiro disco, evoluindo depois para massas sonoras muito consistentes, a que não faltam camadas de coros, cordas e castanholas (sim, castanholas, em "Heart of Steel"). Destas vagas sonoras escapa aquela que talvez seja a melhor canção do disco, "Love Me Like I'm Not Made of Stone", uma balada com guitarra acústica. E um nó na garganta, claro.

Lily Allen - Sheezus ***

Qual é melhor? Beyoncé ou Lorde? Pois... a resposta não é fácil, simplesmente porque a pergunta está mal feita, ou mais propriamente não faz sentido. Mas é a essa pergunta, e a outras similares, que Lily Allen tenta responder neste disco. Afinal, a indústria musical é a boa ou a má da fita ("Hard Out There")? E o jet set das revistas, boa ou má gente ("Insecerely Yours")? E aquela malta das redes sociais, é mesmo para levar a sério ("URL Badman")? Não é preciso ser politicamente correcto para se perceber que, nos tempos que correm, não há certo nem errado. E que errado acaba por estar quem, como Lily, usa (e talvez abuse) do sarcasmo para criticar o meio no qual, bem vistas as coisas, vive. E no qual tem sucesso. Verdade, verdade é que não vale a pena levar as coisas muito a sério. Este é um disco pop e ninguém pode pedir à pop que salve o mundo. Apenas que nos divirta e nos faça rir de nós próprios, repetindo, de forma razoavelmente agradável, velhas e conhecidas fórmulas.

Damon Albarn - Everyday Robots ****

Arrancar toda a beleza que pode haver na melancolia. E fazer dela música. Esse parece ser o projecto de Damon Albarn, especialmente desde que, há década e meia, ainda na vigência dos Blur, inventou os Gorillaz. Mas nunca como neste disco, o primeiro verdadeiramente em nome próprio, esse desígnio foi concretizado de forma tão radical (embora as sementes já fossem bem audíveis em Plastic Beach, dos Gorillaz em 2010). Damon é um excelente autor, um intérprete mais maduro (notável a densificação da voz neste disco...) e um encenador de canções extraordiariamente inventivo (ruídos, vozes de rua, ensembles de cordas, pianos, guitarras acústicas - tudo vale para criar uma sonoridade quase cinematográfica). "Mr Tembo", reggae e gospel numa cantilena quase infantil, e "Heavy Seas of Love", a que Brian Eno confere a impressão digital, são as excepções à melancólica introspecção geral (belíssima "The Selfish Giant").

Frankie Chavez - Heart & Spine ****

"Pine Trees" não é apenas um dos temas mais belos deste disco (a chuva em fundo e tal...), é também aquele em que, através da omnipresença da guitarra portuguesa, há uma real tentativa de romper com a ortodoxia do blues e do rock'n'roll dominantes. Não se pode pedir aquilo que as pessoas não querem dar e Frankie Chavez assume em disco a preferência pela apropriação sem filtros da música de raiz americana. Nem que seja na vertente "feel good" havaiana estilo Jack Johnson de "Don't Leave Tonight", um tema que até pode alegrar o verão das rádios, se alguém fizer por isso. É, na verdade, nos momentos mais calmos do disco que se verifica um maior investimento criativo, com a introdução de vários apontamentos de composição e instrumentação dissonantes ("Sail Upon Your Shore"). Os temas mais pesados ("Fight", "Heart & Spine") são bem esgalhados - importante, para a circunstância - mas menos surpreendentes.

Aloe Blacc - Lift Your Spirit ***

Replicar o êxito de "I Need a Dollar" (2010) era apenas um dos desafios de Aloe Blacc para este disco, o primeiro lançado por uma grande editora. Êxitos para a rádio não faltam por aqui, embora talvez nenhum multiplique tanto os dólares, até porque o mais robusto ("Wake Me Up", numa versão acústica), já rendeu bastante, em 2013, numa versão com o produtor sueco Avicii. Eventualmente "The Man", que cita explicitamente "Your Song", de Elton John, possa fazer esse papel. Mas Aloe tinha outro desafio - demonstrar que é um herdeiro fiável da melhor soul do século passado. A resposta acaba por ser uma fuga em frente, ou seja, a aposta no puro sucesso comercial, em detrimento do apuro estilístico. Coisas para a pista de dança ("Love Is The Answer", com Pharrell Williams), para o estádio ("Here Today"), ou para o sofá ("Red Velvet Seat"), com soul, é certo, mas num registo apressado e pouco sentido.

Ray LaMontagne - Supernova ****


Nunca Ray LaMontagne tinha ido tão longe em ir tão atrás. As influências psicadélicas eram já percepíveis nos quatro discos anteriores, mas a melancolia e algum intimismo eram ainda as notas dominantes. Este Supernova é, pelo contrário, uma explosão de cores, que se desenvolve em paletas sonoras estritamente confinadas ao final dos anos sessenta. Às tantas, convencemo-nos de que estamos a ouvir os Pink Floyd de Syd Barrett, em "Smashing", os Jefferson Airplane, em "Lavender", Neil Young, em "Ojai", os Byrds, em "Drive-in Movies", e por aí fora. E depois há canções, como "Pick Up a Gun", quase perfeitas, na sensação de terem absorvido toda uma época revista pelos anos que lhe sucederam. É certo que parte da magia vem da produção de Dan Bauerbach (Black Keys), mas - justiça seja feita - o material de base, as canções, está bem à altura da ambição. Os fãs, claro, vão ter saudades daquela voz funda e sofrida de outras eras. Mas este é um disco de Verão!

Oquestrada - Atlantic Beat Mad'in Portugal ***


Há no miolo deste disco três exercícios conceptualmente bem interessantes, aquilo a que os Oquestrada chamaram de Triologia de uma Santíssima Trindade. Um poema de Amália ("Os Teus Olhos São Andorinhas"), que recebe uma nova música; o "Comboio Descendente", de Pessoa, também com nova música, obviamente a não conseguir fazer esquecer a composição de José Afonso; e um inédito de António Variações ("Parei na Madrugada") vestido de fado-marcha. Três exercícios arriscados, com um resultado mediano - nenhum dos temas deixa marca indelével. E esse é, talvez, o problema maior deste CD e dos Oquestrada: o conceito é interessante, uma fusão que se quer cosmopolita entre o fado, as cantigas à desgarrada e uma modernidade teoricamente europeia, mas o resultado é repetitivo e não especialmente apelativo. Claro que ao vivo tudo isto resulta muito bem - os permanentes contrapontos de vozes e instrumentos, a euforia quase descontrolada -, mas em estúdio soa um tanto monótono.

Russian Red - Agent Cooper ***

A música de Russian Red, aliás Lourdes Hernandéz, é um pequeno milagre. Nem tanto pela reversão da anedota de uma espanhola que até canta bem em inglês, mas mais especificamente pelo próprio trabalho musical, logo a começar, sim, pela voz. A cantora madrilena pratica uma música que, por facilidade de classificação, poderemos identificar com os movimentos indie. Uma indie que bebe directamente na new wave, especialmente na alegria da new wave. E essa é boa parte do milagre - a vibração, o ritmo, salvam esta música do pastel etéreo que, apesar de tudo, se pressente a cada esquina. Este terceiro disco, o primeiro gravado nos EUA e com um produtor americano, é, aliás, um passo firme numa direcção decididamente pop, de certo em busca de tops mais globais que confirmem o sucesso doméstico. "Casper", primeiro single, e "John Michael" são disso exemplo. Como "Neruda", por exemplo, sinaliza na perfeição o tal território indie de eleição.

Ney Matogrosso no Coliseu


As canções que Ney Matogrosso traz agora a Portugal quase se transformaram na banda sonora da rebelião que atravessou as principais cidades brasileiras em Junho/Julho do ano passado, tendo como mote o contraste entre a pobreza do povo e os milhões gastos no Mundial de Futebol. Meses antes, Ney tinha iniciado uma digressão em que, a par de nomes consagrados, como Arnaldo Antunes, Paulinho da Viola ou Itamar Assumpção, interpretava compositores quase desconhecidos, alguns deles descobertos na Net ou em discos de autor. Desse conjunto de temas fazem parte "Incêndio" (de Pedro Luíz) e "Rua de Passagem" (de Arnaldo Antunes e Lenine), com referências quase premonitórias às manifestações que abalaram o Brasil. Tal bastou para que o nome de Ney Matogrosso fosse catapultado pelos media para a primeira linha, qual precursor da rebelião. Embora preocupado com a situação do seu país (e do mundo), ele prefere, porém, manter-se ao serviço exclusivo da música. As canções desta digressão migraram, entretanto, para um CD (Atento aos Sinais), mantendo a toada fortemente pop, assente em metais e guitarras, sobre a qual se desenvolve um show algo pirotécnico, com Ney meio nu sobre paredes de luz e leds. Aos 72 anos, e com 40 de carreira, é a sua maneira de dizer que está aí para as curvas.

Kaiser Chiefs - Education, Education, Education & War **

Os Kaiser Chiefs ganham uma das apostas deste disco, mas perdem outras duas. O resultado é, portanto, misto, com tendência para negativo. A banda sobrevive perfeitamente à fuga do baterista Nick Hodgson, o autor dominante dos quatro primeiros discos de estúdio. Se tivermos em conta que o código genético das canções parece não ter sofrido qualquer abalo, averbe-se então a vitória mais soborosa desta aventura. Manter o tom é, porém, insuficiente para uma banda que sonha alto. E sonha, por exemplo, estar na vanguarda das lutas sociais da juventude (!), daí ter recuperado uma velha frase de campanha de Tony Blair para título do disco. As canções não são apenas porta-vozes de inconformismo, elas apelam à acção. E talvez aí o primeiro falhanço - os miúdos já não vão em revoluções. Enchem estádios, é certo - e estes dez temas foram pensados para isso -, mas dificilmente se deixarão mobilizar por estas canções. E eis a terceira derrota: não sendo más, as canções não são nada de especial. Ora, tratando-se de um disco...

Maria de Medeiros - Pássaros Eternos ***

Às tantas, damos por nós a interrogarmo-nos que raio de preconceito temos contra as pessoas com voz de sopinha de massa. Porque Maria de Medeiros tem voz de sopinha de massa e isso fica evidente, e de que maneira, logo no primeiro tema ("Quem És Tu?"), volta a ouvir-se evidentemente em "Por Delicadeza", o poema de Sophia transformado por Maria num suave bossa-jazz, e evidencia-se novamente em "Diz Que É Fado", por motivos mais que evidentes. Mas não deixa de ser extraordinário que essa fragilidade da voz, verdadeiramente audível em todo o disco, seja francamente relegada para um secundaríssimo plano, perante canções que parecem não se cansar de encontrarem modos de nos seduzirem. Neste terceiro disco, a cantora assina integralmente cinco dos dez temas, recupera Ivan Lins e Adriano Celentano e colabora com o espanhol Raimundo Amador e com The Legendary Tiger Man (o dueto "Shadow Girl" é, de resto, um dos momentos mais conseguidos).

Elbow - The Take Off and Landing of Everything ***

Eis uma banda com todos os ingredientes para um cozinhado insípido e talvez mesmo soporífero, mas que, por artes de magia, acaba fazer um disco que se ouve muito bem e que revela a cada audição subtilezas inesperadas. Os Elbow praticam uma música que vai buscar ao rock sinfónico uma certa pompa e pendor intelectual e à 'brit pop' a apetência pelos sons de estádio, não sendo abuso evocar os Oasis ou os Coldplay a propósito. Uma receita para o bocejo, convenhamos (e a faixa que dá título ao CD é-o, de facto). Mas, justiça seja feita, nesta sexta gravação da banda há uma esforço de, digamos, humanização, que resulta. Por exemplo, no muito interessate "My Sad Captains", ou em "This Blue World", em que as evoluções planantes não resultam tão enjoativas como chegamos a temer. A audição acaba por ser gratificante, especialmente para as vítimas das crises da meia idade, seja lá isso o que for, que tanto afligem estes simpáticos britânicos.

Rufus Wainwright - Live From The Artists Den **

O início deste DVD é especialmente irritante. O primeiro tema, "Candles", é pura e simplesmente assassinado quando lhe colocam em cima dois depoimentos, o do próprio Rufus e o de um pároco, acerca da importância de o concerto estar a ser gravado numa igreja. Ora "Candles", não só está a ser interpretado - em fundo, insista-se - numa bela versão "a cappella", como se trata de uma sentida homenagem póstuma à mãe do cantor, a canadiana Kate McGarrigle. Agora, digam lá como é possível que um atropelo destes aconteça num DVD musical, ainda para mais proveniente de uma afamada série americana, a Artists Den, dedicada precisamente a concertos de artistas famosos em locais inesperados, no caso, a igreja da Ascenção, em Manhattan... Diga-se que a gracinha se repete ao longo dos 120 minutos, felizmente com um impacto bem menor, já que os curtos depoimentos aparecem nos intervalos das canções (e, já agora, quem quiser ouvir a versão não adulterada de "Candles" terá que recorrer ao CD que entretanto também foi lançado). O desleixo inicial acaba, porém, por ser revelador e, sendo certo que nada corre verdadeiramente mal no concerto, não deixa de ser verdade que não estamos propriamente perante um dos melhores momentos de Rufus. As versões (10 dos 16 temas são do último Out Of The Game, de 2012), sempre competentes, nunca descolam muito do que conhecemos dos estúdios, e o cruzamento das guitarras com um omnipresente sintetizador acaba por conferir uma textura demasiado fria aqui e ali. Entre os melhores momentos do disco estão as interpretações de dois temas dos progenitores: "One Man Guy", de Loudon Wainwright III, e "On My Way To Town", de Kate McGarrigle. Rufus, embora em plena forma vocal, despacha as canções com profissionalismo, mas sem chama. E nem os diálogos com o público são brilhantes, ao contrário do que é habitual - o momento "alto" é a (não) utilização de uma máscara de Helena Bonham Carter (porquê?, já agora).

Rufus Wainwright - Vibrate ****

Rufus Wainwright é um dos mais talentosos compositores surgidos nas últimas duas décadas. E, no entanto, basta percorrer sites e revistas da especialidade para perceber que são raríssimas as vezes em que colheu a simpatia máxima da crítica. Ou seja, os seus discos, sempre muito bons, quase nunca atingem o estrelato da nota máxima. Este Best Of, revisitação dos sete registos de estúdio, ajuda a dar algumas respostas a esse paradoxo, apesar de, como todas as colectâneas, fazer opções e deixar de fora zonas subtanciais do acervo acumulado. No caso, optou-se claramente pelas canções mais fáceis, mais comerciais, excluindo baladas marcantes e temas mais complexos. E que Rufus resulta deste balanço? Certamente, alguém que bebeu e remistura influências, do pop à clássica, passando demoradamente pelo cabaret. Mas também alguém que se deixa enredar por linhas melódicas e harmónicas que se repetem disco após disco. É bom, mas está a precisar de se reinventar.

Joan As Police Woman - The Classic ****

Deitar fora todos os demónios e dar espaço a um amor monumental, canta Joan Wasser em "The Classic", o tema central deste seu quarto disco. E este é verdadeiramente um tempo de ruptura com a pesada melancolia que assombrava amiúde os registos anteriores - conferir, por exemplo, "Forever And A Year", do CD de 2011 (The Deep Field). Agora, pelo contrário, tudo é luz, vibração, esperança. A memória da Motown serve de veículo perfeito para o transporte de toda esta alegria ao longo de dez temas, alguns deles fazendo perdurar a festa para lá dos seis minutos - "Good Together", excelente na forma como acumula a tensão que acabará por se descontrolar na longa recta final, numa metódica exorcização da "nostalgia daquilo que nunca houve". Soul de excelência, com um swing danado, ouve-se ainda em "Holy City", ou no assumido revivalismo doo-woop de "The Classic" (deliciosa, a citação de "Respect", de Aretha Franklin). E mesmo as baladas, como "Stay" ou "New Year's Day", inclinam-se mais para uma toada zen do que para a fatalidade de outros tempos. Uma mudança de rumo agradavelmente desconcertante, a demonstrar uma enorme segurança na composição, mas especialmente na conceptualização e na interpretação.

Jake Bugg - Shangri-La **

Quatro em cada cinco críticas a Jake Bugg nos media anglo-saxónicos fazem referência a Dylan, uma prova mais, afinal, de que vivemos tempos verdadeiramente estranhos. O puto não tem voz que se apresente (conferir em "A Song About Love"), é certo, e entre o primeiro disco e este há um jogo deliberado de apelos nostálgicos, centrado entre o folk americano da primeira metade dos anos sessenta (Dylan, lá está) e a vaga brit pop dos anos 90 (os Oasis são uma influência clara em 'Kitchen Table' e, especialmente, 'Simple Pleasures'). Dylan e Jake são, porém, como as rectas paralelas, nunca se encontram. O mesmo acontece, aliás, com Rick Rubin, esse mito da produção, cuja marca neste disco é tão difícil de descortinar, descontado, talvez, o facto de ter apresentado a Jake a Chad Smith, o baterista dos Red Hot Chilli Peppers, mais que audível em 'What Doesn't Kill You', por exemplo. Digamos que, aos 20 anos e com dois discos no bolso, tem pela frente uma bela curva de aprendizagem.

Beady Eye - BE **

Este disco é uma espécie de jogo de dardos em versão áudio. Há uma outra seta com uma pontuação razoável, mas o centro do alvo fica deserto. Digamos que não é ainda neste segundo exercício pós-Oasis que Liam Gallagher acerta no tom. Basicamente, ouvem-se aqui dois tipos de canções. As mais lentas, mais acústicas, remetem directamente para os Oasis, num jogo de revivalismo beatle de que "Don't Brother Me" será talvez o expoente máximo (quase a pedir que os herdeiros dos quatro de Liverpool reclamem direitos de autor, embora a metade final seja ocupada por uma derivação sónica absurda). Depois, as outras são as que ostentam mais visivelmente o carimbo na produção de Dave Sitek (dos TV On The Radio). Por exemplo, "Flick Of The Finger", construída sobre uma parede de som à base de metais, ou mesmo "Iz Rite", a qual, apesar disso e com "Second Bite of The Apple", acaba por ser das coisas mais audíveis do disco.

Billie Joe + Norah Jones - Foreverly ***


A música em forma de estafeta, com efeitos de loop. É assim: em 1958, os Everly Brothers gravaram um disco intitulado Songs Our Daddy Taught Us, constituído por 12 velhas canções country convertidas em harmoniosas melodias com acompanhamento de guitarra. Mais de meio século depois, uma cantora de jazz ligeiro e um vocalista de uma banda punk pegam nas mesmas 12 canções e devolvem-nas ao universo country. Nada se perde, tudo se transforma. Pouco se ganha. As interpretações, embora agradáveis, são relativamente banais, com Billie Joe Armstrong (voz dos Green Day) sempre mais ou menos na condução e a doce Norah Jones em segundo plano, nas harmonias. Os arranjos espraiam-se por várias sonoridades country, sem nada de especialmente memorável. "Down in The Willow Garden", talvez pelo dedilhar da guitarra, ganha uma certa intensidade indie, mas o resto é de um classicismo irrepreensível. Apenas.

The Beatles - On Air, Live at The BBC Vol. 2 ****


Estamos no domínio da arqueologia virtuosa. Não se escava para descobrir, escava-se pelo simples gosto de escavar e por saber que, lá no fundo, está tudo aquilo que esperamos... e de que gostamos. Muito. Este disco (o primeiro da série saiu há 20 anos!) consiste na reprodução de umas dezenas de actuações na BBC, maioritariamente em 1963. A diferença, e graça, face ao anterior é que, desta vez, as canções são ligadas por diálogos entre o locutor e os quatro fabulosos. Na prática, tratava-se de um programa de discos pedidos, com os quatro a responderem com humor aos pedidos e a lidarem com os primeiros alvores do estrelato. As versões são obviamente boas (os Beatles sabiam mesmo tocar e cantar...), mas muito pouco diferentes das que já conhecemos. O grande valor documental deste duplo CD são as quatro entrevistas individuais (5 minutos cada), nas vésperas do Rubber Soul e do Revolver e, aí sim, estamos já perante a genialidade.

Robbie Williams - Swings Both Ways ***

Robbie Williams é um artista e ponham polissemia nisso. Um extraordinário sentido do espectáculo, um jeito muito especial para se reinventar, uma auto-ironia desarmante. Este disco é isso, um divertimento pegado, Broadway revisitada, através de standards, de versões de canções próprias e até de alguns originais, por sinal as peças mais interessantes desta aventura. Por exemplo, o dueto com Rufus Wainwright em "Swings Both Ways", de longe o segmento que mais brilha, num divertido jogo de troca de identidades sexuais. Ou a sentimental e inspiracional balada "Go Gentle", um rosário de (bons) conselhos para a filha. No campo das desilusões, talvez o dueto com Lilly Allen em "Dream a Little Dream", com muito menos charme que o "Something Stupid, com Nicole Kidman, da anterior aventura swing, de 2001. E talvez esse seja o ligeiro problema deste disco: a falta de surpresa. Não basta que o swing seja perfeito.