Scott Matthews - Home Part 1 ****

Tomar um chá entre cada gravação e depois voltar a gravar tudo outra vez, até que soe perfeito. É mais ou menos assim que Scott Matthews descreve algures o processo de gravação deste Home Part 1, totalmente registado num estúdio caseiro, sem produtor ou sequer engenheiro de som. O processo de aprendizagem tomou-lhe três anos e o resultado, felizmente, não é perfeito. Felizmente, porque a tendência para o virtuosismo de quem pega numa data de instrumentos - embora alguns amigos tenham aparecido com outros - e, de forma quase obsessiva, trabalha os temas com a dedicação que se adivinha ao ouvi-los poderia afogar o projecto em tiques e maneirismos. Falta, é certo, alguma energia, algum tema mais animado, para quebrar o tom demasiado linear de dez canções em tom de balada, quase sussurrada. A folk é a grande influência de Matthews e há quem o compare a Jeff Buckley, mas se há coisa que este quarto disco veio mostrar é que estamos perante uma voz única. Única, a voz propriamente dita, macia e quase encantatória; única, também, a sensibilidade e a delicadeza da composição. "Running Wild", "The Outsider" e "The Night Is Young" são exemplos dessa perfeição que nos agarra em círculos. O instrumental "The Clearing" é um bom exercício, mas anda perto de cair para um certo barroquismo. E há a espantosa "86 Floors From Heaven", inspirada na famosa fotografia do suicídio de Evelyn McHale, publicada em 1947 por Robert C. Miles, na Life (vale a pena procurar no Youtube o vídeo oficial da canção). Um alerta duplo: não confundir este Scott com um outro que surge num dos discos de Rodrigo Leão, nem com o homónimo americano. Depois de ouvir será mais difícil confundir.

Mark Lanegan - Phantom Radio ****

Há cadáveres por todos os cantos, cantos de canções. Mas nem é tanto a morte que incomoda, são mais os fantasmas, o que sobra da morte, e as desilusões, a morte que nos atravessa em vida. O tema não é propriamente novo (o disco de 2012 tinha por título Blues Funeral), mas nunca Lanegan demontrara tal agilidade a lidar com ele. Agora, é possível dançar sobre as tumbas ("Seventh Days"), embora não seja essa a agilidade que conta, antes a desenvoltura de composição, que começa a projectar Lanegan como um dos compositores a justificar atenção redobrada por estes dias. Por exemplo, em "Judgement Time" ou "I'm The Wolf", duas das mais densas e sombrias canções, mas igualmente das mais belas. A voz cheia de fumo, mas espantosamente versátil, vai casando na perfeição com a atmosfera electrónica predominante, como é o caso de "Torn Red Heart", que vai directamente para o top das suas melhores canções.

Bob Dylan & The Band - Tte Bootleg Series, Vol. 11 - The Basement Tapes *****

Em 1967, Dylan tinha gravado sete discos, pelo menos quatro dos quais absolutamente históricos, tinha dado duas enormes pedradas no charco (a estreia e a electrificação) e, last but not the least, tinha recusado liminarmente ser o líder da geração que o tinha por líder. E foi aí que caiu da mota... O famoso acidente, ainda hoje envolto em mistério, afastou-o dos estúdios e dos palcos. Nesse Verão de 67, numa casa de campo, juntou os músicos que viriam a chamar-se The Band para semanas de gravação, em que, mais uma vez, voltou a fazer história. E, mais uma vez, à sua maneira: as gravações, artesanais, não foram publicadas. Apenas em 1975, após várias edições pirata, viram a luz oficial do dia, numa versão muito adulterada, a que nem faltam regravações posteriores e temas da Band que nem sequer faziam parte do acervo inicial. A verdade histórica só agora é reposta, meio século depois... Há duas edições: uma, de seis discos (138 temas), que reproduz cronologicamente todas as sessões; e outra, de dois CD (38 temas), com o essencial do que se passou em 67. Há de tudo um pouco: versões restauradas (sem os embelezamentos de 75), gravações alternativas e até alguns coisas completamente inéditas. Interessa é que, pela primeira vez, se percebe em profundidade o que se passou naquele Verão e se tornou audível no discografia imediatamente posterior. Dylan reinventava, mais uma vez, não apenas a sua música, mas também a de toda uma geração e das que se lhe seguiram. Beatles, Stones e a grande maioria abandonaram o psicadelismo e outras aventuras sónicas e, a partir de 67/68, regressaram à pureza e simplicidade das raízes. A chamada 'americana' e o 'alt-country', como ainda hoje se pratica, nasceram nessa revolução secreta de 67. Dylan ainda haveria de fazer outras.

The Art of McCartney ***

De certa forma, isto é um CD de karaoke e não, ao contrário do que se imaginaria, um disco de versões, de homenagem, etc. Isto porque a base instrumental da quase totalidade das canções é interpretada pela banda que costuma acompanhar McCartney ao vivo e, portanto, os artistas convidados limitam-se a colocar a voz sobre versões que, no fundo, não são muito diferentes das que já conhecemos. Tudo impecável e até um pouco divertido, se tivermos em conta o peso próprio das três dezenas que se juntaram à volta das canções dos Beatles, dos Wings e de McCartney a solo (Billy Joel, Roger Daltrey, Cat Stevens, Chrissie Hynde, Smokey Robinson...). As versões mais interessantes, como se imagina, são as que mais se libertam do original: "Yesterday" (Willie Nelson), "Wanderlust" (Brian Wilson) e "Bluebird" ( Corinne Bailey Rae), por exemplo. E há ainda a graça de Dylan a cantar "Things We Said Today"... só porque é Dylan.

Lisa Ekdahl - Look To Your Own Heart ***

Faltam teses e outras teorias sobre essa magia que só as canções possuem de transformar em passos de dança e trá-lá-lás os mais desvairados desgostos de amor. Se ainda não existem, não será certamente a partir de Lisa Ekdahl que vão aparecer. Porque, apesar de o tal paradoxo ser o motor deste disco, esta loira sueca tem poucas pretensões e, na verdade, apenas quer dar-nos música. A receita é exactamente a mesma do último disco de originais (Give Me That Slow Knowing Smile, de 2009): umas pitadas de jazz muito ligeiro ("I'm Falling"), uns ares de bossa ("Sing and Dance") e um je ne sais quoi de França, o país que mais sucesso lhe garante, Suécia natal à parte (ouça-se, por exemplo, "You Want Her Approval"). Música mansa, feita para uma voz infantil no timbre, mas adulta nas soluções que, apesar de tudo, alcança. Pensada para encantar sem incomodar. Para chatices já basta a vida, não é?

Ana Cláudia - De Outono ***

Há uns cem segundos de uma faixa quase escondida no final deste disco de uma enorme e dupla utilidade. Revelam, por uma lado, a ossatura inspiradora destas canções, a mansidão da música contemporânea brasileira derivada da bossa nova, enquanto que, em simultâneo, apontam uma saída para o labirinto em que a concepção deste disco se deixou cair. Porque, se há tónica comum aos seis temas deste primeiro esforço discográfico em nome próprio, ela é a de um conceptualismo em excesso, que espartilha a belíssima e educada (jazz) de Ana Cláudia e a mergulha na frieza metálica das electrónicas e outros efeitos de estúdio, como a rigidez dos coros. Uma voz destas ganharia em libertar-se de todo este formalismo e em caminhar por trilhos de maior simplicidade, de que a bossa nova será apenas um exemplo. Para um disco que se explicita De Outono, funciona. Mas não deixa de ser uma auto-limitação.

Gilberto Gil, CCB 8 Nov


Os jornais franceses disseram que Gilberto está numa fase ultra-zen. Não é para menos: só em palco, ele, a voz e o violão. A mulher, Flora Gil, trata da iluminação, e - dizem as crónicas - partilha com ele a condução pela Europa fora, em regime de férias. França, com salas esgotadas, o mesmo em Itália e noutras paragens. Uma passagem pela Suíça, para uma semana de férias com o escritor Paulo Coelho, e mais zen não poderia ser. O espectáculo é isso mesmo, a revisitação da obra de Gilberto, apenas com voz e violão. E uma paragem mais demorada no último disco, já deste ano: "Gilbertos Samba", uma homenagem a João Gilberto, com Gilberto Gil a reinterpretar os sucessos do Papa da bossa nova, no mesmo registo, pausado e "desafinado". No fundo, exactamente o inverso do que fez da última apresentação em Portugal, em 2013, com o espectáculo explosivo "Fé na Festa". Aos 72 anos, com mais de meia centena de discos gravados, o compositor e cantor que já foi ministro continua a demonstrar porque é um dos nomes incontornáveis da música brasileira.

Mirel Wagner - When The Cellar Cildren See The Light of Day ****

Embarcamos numa canção de embalar - "1, 2, 3, 4" -, mas depressa percebemos que este não é um disco para embalar meninos. O protagonista da primeira abordagem é, sim, um menino de olhos lindos, mas está debaixo de terra e da sua barriga inchada libertam-se vermes. Nada mal para começo de conversa, num disco em que os mortos, o terror, os pesadelos, o lixo, os venenos e outros horrores povoam e sufocam amores, famílias e toda e qualquer réstea de humanidade. Estas dez canções do segundo disco de Mirel Wagner pouco devem à sua ascendência etíope, herdando antes do blues a depuração de composição e interpretação. E talvez devam às paisagens agrestes da Finlândia o gelo que lhes corre na alma. A (quase) solitária guitarra ora é golpeada ("Dirt"), ora dedilhada de forma angustiada ("Dreamt of Wave") e, quando recebe companhia, ela assume a forma de fantasmagóricos coros ("Red Oak"). Não entres, então, tão afoito nesta noite escura.

Brass Wires Orchestra - Cornerstone ***

Uma pessoa ouve distraidamente o CD no carro e dá consigo a pensar: olha, os Mumford and Sons têm novo disco e ninguém avisou. Não que tal aviso tivesse relevância especial. Como, aliás, a comparação entre os Mumford e os portugueses Brass Wires Orchestra (BWO), que não é nem elogiosa nem depreciativa. É o que é. Os BWO apresentam, aliás, uma vantagem sobre os Mumford: não têm apenas uma canção, que andam a repetir há um ror de tempo... Não. Os BWO têm baladas ("Wash My Soul" e "Anchor") e coisas assim a dar mais para a festa rija ("Tears of Liberty" e "People & Humans"). E não se inspiram apenas, desculpem a repetição, nos Mumford. Não, também nos Beirut e... coisas parecidas. O projecto, que começou de forma mais ou menos despretensiosa ganhou asas, já andou lá por fora e por domésticos festivais e vê agora a luz do dia num CD de produção e edição muito cuidadas, o que é de aplaudir. E ainda bem que não têm grandes pretensões... isso, sim, seria um problema.

Marianne Faithfull - Give My Love to London ****

Dizer que Marianne Faithfull gosta de boas companhias poderia ser apenas uma piada. Mas é também uma observação pertinente quando ouvimos os seus discos após o surpreendente renascimento de Broken English (1979) e, em especial, as gravações da última década. Neste CD, Nick Cave, além de ceder músicos para o estúdio, é a presença mais marcante, com uma daquelas baladas épicas quase funerárias ("Late Victorian Holocaust") e ainda "Deep Water", em co-autoria com Marianne. A maior parte dos temas tem, aliás, letra da cantora, como "Mother Wolf", tenso e dramático, tão ao seu estilo, composto por Patrick Leonard, o parceiro mais recente das canções de Cohen (do qual surge aqui uma versão de "Goin' Home"). No campo dos originais, destaque ainda para "Sparrows Wil Sing", de Roger Waters, enquanto que nas versões avulta um "The Price of Love", blues bem mais pesado que o original dos Everly Brothers. Pedir que, com tudo isto, estivéssemos perante um disco homogéneo talvez fosse pedir de mais.

Los Waves - This Is Los Waves So What? ***

O disco começa com uns segundos de citação explícita da new wave, mas é na actualidade anglo-saxónica que o trio das Caldas mergulhas as raízes. Especialmente nos Strokes, mas também nos MGMT, de raspão nos Coldplay e, acima de tudo... nos Strokes. Porquê a necessidade de lhes fixar tão nitidamente as referências? Porque raramente se encontra uma banda em que elas sejam tão evidentes e, de alguma forma, assumidas. Este é o primeiro CD de longa duração, mas, além de alguns EP, o grupo, que também já se chamou League, tem uma razoável rodagem pela cena londrina e, imagine-se!, até em bandas sonoras dos states. As guitarras predominam, mas a electrónica é usada de forma muito inteligente, a produção é muito profissional e há uma mão cheia de temas ("Strange Kind of Love", "Got a Feeling", "Darling") susceptíveis de animar palcos, pistas e outros veículos de expressão musical.

Leonard Cohen - Popular Problems *****

O lançamento deste disco coincidiu com o 80.º aniversário de Cohen e o marketing fez o resto - "vejam, ele ainda consegue..." -, quando, na verdade, não é esse o ponto. Não estamos perante uma rotineira prova de vida, mas antes face ao estabelecimento de um novo paradigma. Num gráfico de linha, Popular Problems representa um pico, a par do álbum de estreia (1967) e de I'm Your Man (1988). É um disco de síntese, de revisão e depuração da matéria. Nada aqui está a mais ou a menos, outra forma de dizer que tudo aqui é perfeito. Musicalmente, nunca Cohen se terá sentido tão à vontade, encontrada que está a fórmula ideal para enquadrar a sua poesia - um blues ligeiro, quase lounge por vezes, baseado em teclas e percussão electrónicas, coros femininos e apontamentos de metais (obra do co-autor, músico e produtor Patrick Leonard, responsável por muitos êxitos de... Madonna). Nesse ambiente seguro, Cohen acaba por revelar uma voz funda e segura como nunca, mesmo quando apenas sussura ou quase declama. À pose e rigidez de outros tempos, contrapõe agora uma evidente naturalidade. As nove canções são, também, um trabalho de depuração dos temas fetiche: o apocalipse das guerras quotidianas ("Nevermind", com referências implícitas ao conflito do Médio Oriente) e enquanto destino ao qual não podemos fugir ("Almost Like The Blues"); a maldição do amor e da religião, como se fossem uma e a mesma coisa ("Born In Chains", a merecer figurar entre as suas melhores canções); o amor ainda, mas agora entre a ironia e a ternura ("Did I Ever Love You" e "Slow"). A fechar, "You Got Me Singing", acústica e com referências a "Hallelujah", coloca-nos na casa de partida: no Cohen inicial e com todo o futuro pela frente. Como hoje.

[Uma "arreliadora gralha" na edição impressa retirou uma estrela a mr. Cohen. Mas o disco é mesmo cinco estrelas.]

Banda do Mar ****

A felicidade das coisas simples. Este disco limita deliberadamente o seu raio de acção. Não é um disco novo do brasileiro Marcelo Camelo, ou de Mallu Magalhães, ambos a viver em Lisboa, não é um disco do casal, muito menos de Fred (baterista dos Buraka, Orelha Negra, 5-30). Banda do Mar assume-se como uma descomplexada reunião de amigos, sem mais pretensões que recuperar a sonoridade yé-yé (a "jovem guarda" do Brasil de 60) e cantar as alegrias do amor quotidano sem complicações. Assumidamente, aqui não há surpresas, ou sequer a tentativa de fazer músia elaborada ou ambiciosa. Pelo contrário, a ideia é fazer dançar, ou simplesmente bambolear, cantarolar ou apenas sorrir de felicidade. Tendo em conta a carreira de Marcelo e Mallu facilmente se imagina a perfeição com que a ideia é concretizada. Mas, obviamente, a falta de ambição do projecto reflecte-se no resultado final, não havendo aqui nada de extraordinário. A inspiração principal são os Beatles iniciais (a guitarra de "Cidade Nova", saída directamente de Hamburgo), mas "Faz Tempo" vai buscar quase tudo a "My Sweet Lord", de Harrison. "Dia Clarear" talvez seja o tema que mais se afasta do conceito global, assentando mais no material genético de Camelo. Já "Seja Como For" mostra-nos uma Mallu muito próximo do último "Pitanga", com as suas características inflexões vocais. A Banda anuncia, para já uma digressão brasileira, a que deverão seguir-se, já em 2015, apresentações em Portugal. E talvez com o andamento se perceba a verdadeira ambição deste aparente projecto paralelo.

Au Revoir Simone - Spectrum ***

O que seria do Verão sem os cocktails, essa forma tão civilizada de aventura? Este disco, feito para acompanhar cocktails e similares, é ele próprio um cocktail bem adequado ao Verão hesitante de 2014. Porque umas vezes o remix funciona, noutras ficamos com um certo amargo na boca. Nada que importe muito, o Verão acaba e tudo de esquece. O ponto de partida é Move In Spectrums, o quarto de originais do trio feminino de Brooklin. Um disco mais pop que os anteriores, assente na mesma fórmula de vozes, teclas e ritmos sintéticos. Retrabalhar esta matéria-prima é fácil, pela proximidade do código genético, mas, claro está, isso também coloca a fasquia bem mais alta. O trabalho de Kiwi para "Boiling Point", ou o funk de NZCA/Lines em "Somebody Who", o tema mais comercial do original, são apostas claramente ganhas. Noutros casos ("Crazy", de Jack Savidge), estamos perante a pura banalização para as pistas de dança.

Ryan Adams **

Felizmente, o Bryan Adams anda desaparecido. Caso contrário, lá teríamos que sublinhar o R inicial deste, de forma a evitar confusões. E agora, convenhamos, com toda a propriedade. Em entrevistas recentes, Ryan colocava os Velvet Underground e os Smiths (!!) como principais influências do novo disco. Era a brincar, seguramente. Isto é mais Bruce Springsteen de terceira ou quarta categoria ("I Just Might"), U2 ainda mais desinspirados do que de costume ("Shadows"), ou, sim, Bryan, o tal ("Am I Safe"). Uma música que, enfim, poderia ter sido gravada por qualquer uma dessas bandas, especialmente britânicas, preocupadas em fazer sons para estádio. Há uma tensão, na obra passada de Ryan, entre uma música mais serena, muito devedora do country (de que "My Wrecking Ball" é aqui um exemplo), e um som mainstream um tanto banal, sustentado em monótonos riffs de guitarra. Desta vez, ganhou o segundo.

The Antlers - Familiars ***

Se ficares muito quietinho, até consegues ouvir o monstro respirar. O monstro costuma estar debaixo da cama, mas neste disco está dentro de nós. As canções dos Antlers são das coisas mais sombrias que imaginar se possa. Problemas de personalidade, sustos de jovem adulto, crise de identidade. Mas foi isso que tornou em culto o trio de Brooklin, essa música assaltada permanentemente por fantasmas. Nesta quarta gravação de maior fôlego, há, porém, uma novidade de monta, que, nuns casos, adensa as sombras, noutros funciona como inesperado raio de luz - a omnipresença dos metais, especialmente o trombone e o trompete. Em "Revisited", por exemplo, os metais adornam a valsa e tornam-na quase dançante. Já em "Doppelganger" acentuam o nó na ganganta. A atravessar o disco há ainda a sonoridade do jazz e um ambiente de filme negro muito interessantes. Enfim, não é coisa para se ouvir todos os dias, mas...

Jose James - While You Were Sleeping ***

Há qualquer coisa de laboratorial nesta música. Para o bem e para o mal. É uma música de base assumidamente soul, mas que busca uma enorme sofisticação, seja numa sonoridade por vezes fria ("U R The 1"), seja por arranjos de grande densidade dramática (o órgão e as cordas em "4 Noble Truths"), seja, enfim, pela projecção da beleza sensual da voz de José James. Essa sofistação, nos limites do bom gosto comum, é obviamente uma boa aposta. Acaba, porém, por prejudicar o disco, retirando-lhe a alma que podemos ouvir, por exemplo, em "Simply Beautiful", uma boa versão de Al Green. Por vezes, a vertigem pelo cruzamento de influências é um tanto exasperante (o tema título, por exemplo, começa com uma citação descarada de "Heart of Gold", de Neil Young, e acaba num crescendo à la Radiohead). E há ainda citações mais ou menos assumidas de Nirvana ou Hendrix, por exemplo. O problema é que tal dispersão acaba por prejudicar a assumpção de uma voz própria.

Beck Song Reader ***

Como no famoso quadro do Magritte: isto não é um Beck. Depois, vai-se a ver, e é mesmo um Beck. Até tem Beck a cantar e tudo. Mas, ao contrário do quadro, aqui o que parece não é, e isto não é mesmo um Beck. O projecto começou em 2012 e não era para ser isto. Na irrequietude que marca os últimos anos da sua carreira, Beck lembrou-se de ressuscitar uma moda da primeira metade do século XX: a edição de pautas de música para que o povo possa exercitar os seus dotes musicais. O livro de pautas deu origem, então, a uma onda de gravações no Youtube, em registos maioritariamente amadores, mas algumas a destacarem-se da multidão. Próximo passo: alguns amadores e outros nem tanto, em palco. Sucesso mediano. Eis então que alguém se lembra de fazer um disco para angariar fundos destinados a uma associação de crianças americanas. E eis as pautas em acção. A participação de Beck limita-se à interpretação de um tema ("Heaven's Ladder"), num tom, aliás, descaradamente beatliano. Apesar de um ou outro momento com mais interesse, o resultado global - como, aliás, costuma acontecer com este tipo de projectos - deixa muito a desejar. Não é que cada um cante para seu lado, mas todos parecem pouco dispostos a arriscar (por exemplo, Loudon Wainwright III, ou mesmo Jack White, a quem costumamos ouvir melhor). Excepções? A belíssima interpretação de Swamp Dogg de uma das melhores canções do disco ("America, Here's My Boy"), David Johansen a fazer de Tom Waits e (!) Norah Jones a fazer da mais perfeita Norah Jones. Há quem diga que giro, giro mesmo, era Beck gravar um disco com esta canções para percebermos o que queria ele dizer com elas. Pois...

Clube Internacional Transatlântico de Criadores e Gostadores da Música que Se Faz Hoje ****

O mais provável é que este disco não mude nada, apesar das boas intenções. E a intenção explícita é dar a conhecer nos dois lados do Atlântico a música que se faz em cada uma das margens. As regras da indústria e as ditaduras do gosto deverão encarregar-se, como de costume, de tratar das boas intenções... Isto apesar de o disco até estar disponível para download gratuito no site da editora. A ideia foi do brasileiro Marcelo Camelo, a viver em Portugal, que apresentou os músicos da sua banda (Wado, Momo e Cícero) aos portugueses Diego Armés (Feromona), Bernardo Barata (Diabo na Cruz), Alexandre Bernardo (Laia) e Fred (Buraka, Ovelha Negra). O repertório é quase completamente composto por versões de temas já conhecidos, havendo dois inéditos de Armés (belíssimo, "Corda Para o Nó"), havendo uma clara opção por abordagens simples, límpidas. "Pescador" talvez seja paradigmático daquilo a que se propõem, na fusão perfeita das raízes do fado com o tropicalismo, evoluindo para uma espécie de ié-ié dançante.

King Creosote - From Scotland With Love ****


Ouve-se falar pouco da Escócia, especialmente desde que o gin passou a ser a bebida social por excelência. Mas este é um verão escocês. Daqui a poucas semanas, decidem em referendo se passam a independentes (o Mick Jagger mais uns tantos já vieram dizer "não façam isso") e, nos exercícios de aquecimento, receberam em Julho os Jogos da Commonwealth. E foi precisamente para esses jogos que Virginia Heath realizou um documentário, com imagens de arquivo (cenas de trabalho, emigração, ócio e amor), sem palavras, e apenas a música de Kenny Anderson, o prolífico King Creosote - mais de 50 discos, todos baseados na tradição musical escocesa. O resultado são 11 quadros emotivos sobre a história recente, as gentes e as paisagens da Escócia, da vida dos pescadores ("Cargill"), ou das crianças e seus lanches ("Leafe Piece"), das celebrações ("For One Night Only"). Uma oportunidade rara de ouvir este tipo de música (e pronúncia).

Thievery Corporation - Saudade **

"Não chega a ser música de supermercado, de aeroporto talvez." Este elogio envenenado foi o máximo que a nova aventura dos Thievery Corporation conseguiu na crítica do jornal Globo. E vale a pena chamar aqui a avaliação brasileira porque os nova-iorquinos decidiram pôr de lado as electrónicas e as samplagens e arriscar um quase genuíno disco de bossa nova. Quase, porque não resistiu a salpicar alguns temas, de forma muito esparsa, de uns toques da sonoridade que os tornou famosos ("No More Disguise"). A verdadeira aposta é, porém, reproduzir, sem risco ou especial brilho, todo o cânone da bossa nova, o que leva o duo a recorrer, pela primeira vez de forma tão extensiva, a instrumentos reais, sejam as cordas, as percursões, ou as guitarras acústicas. O "pequeno" problema é que, nas últimas décadas, não houve cão nem gato que não tenha explorado o filão da bossa. O que atira este disco para a prateleira dos projectos indiferenciados (e, logo, falhados).

Robin McKelle & The Flytones - Heart of Memphis ***

O ponto de partida é uma espécie de homenagem à Stax, uma das rivais da Motown no soul dos anos 60 e 70, mas o disco acaba por não se ficar pela influência da editora de Memphis. Claro que a marca de água da Stax domina a paisagem: órgão, metais, guitarra eléctrica e uma secção rítimica bem mais funky que o som de Detroit. O tema que dá título ao disco, "Like a River" e, por exemplo, "Down With The Ship" são exemplos perfeitos da recuperação dessa sonoridade. Ainda da Stax, mas um registo menos marcado, a versão de "Forgetting You", uma justa evocação de Otis Redding, o peso pesado da casa de Memphis. Mas, por exemplo, "Good Time" evoca instantaneamente os tempos dourados de Ike & Tina Turner, enquanto que a versão de "Don't Let Me Be Misunderstood" é Animals (ou Eric Burdon) do mais descarado. Ao terceiro disco, Robin McKelle acentua a viragem, já antes ensaiada, do jazz para um território exclusivamente soul. Com balanço positivo.

Metronomy - Love Letters ****

Os improvisos, como se sabe, dão muito trabalho a preparar. É como a música dos Metronomy: esta electrónica deliberadamente 'lo-fi' necessitou de um estúdio analógico para que todos os sons saíssem claros mas redondos. Esta depuração, como que um burilar de 'demos', é a marca de água do quarteto inglês. O resultado é uma pop dançante ("Reservoir"), mas ainda assim melancólica, ou não girasse todo o disco em torno da temática do desencontro (amoroso, claro está), a raiar o desespero, a angústia mesmo - ouça-se, por exemplo, o martelar do refrão em "I'm Aquarius". Quer na composição, que especialmente na encenação, as canções devem muito à Motown (exemplo máximo: o tema que dá nome ao disco), com paragens mais ou menos evidentes nos anos 80 ("Reservoir" poderia estar num disco dos Orchestral Manoeuvres in The Dark). Espantosamente, é uma música que sobrevive, e bem, ao calculismo notório da sua construção.

Real Estate - Atlas ****

Música sem peneiras. Directa, cristalina, despretensiosa. São assim os Real Estate. E agora o paradoxo: mantendo-se tudo na mesma neste terceiro disco - na verdade, melhorando, mercê de uma produção mais profissional, que torna a teia sonora ainda mais límpida -, há uma densidade oriunda do que é cantado que obriga a olhar para a banda com outros olhos. Até aqui, o dedilhar permanente da guitarra entrelaçado com uma voz quase etérea tinha correspondência directa em letras também elas luminosas, sem arestas. Agora, porém, os temas são mais adultos, falam de ausências, de dores de crescimento, de afastamentos... "How Might I Live" é, talvez, o expoente máximo dessa reviravolta temática, mas todo o disco deve bastante à melancolia. O que, bem vistas as coisas, não assenta nada mal no som primitivo da banda. Mesmo "Talking Backwards", o tema mais pop, ou até o instrumental "April's Song" são evidentemente nostálgicos.

Lykke Li - I Never Learn ****

Claro que nunca deveríamos confiar numa miúda que escreve uma canção intitulada "A Tristeza É Uma Benção" (Wounded Rhymes - 2011). Muito provavelmente inspirada em factos reais, ela leva agora a coisa às últimas consequências. São nove (nove!) canções encharcadas em lágrimas, voz dorida (e como se nota e ouve!), corações partidos, o amor que acabou e que nunca, mas nunca, mais voltará. Sem réstea de luz ou esperança. Mas, como em todos os exorcismos, há prazer nesta dor. Por exemplo, o prazer de recriar a "wall of sound", de Phil Spector: a maioria dos temas começa de mansinho, evocando os ambientes planantes do primeiro disco, evoluindo depois para massas sonoras muito consistentes, a que não faltam camadas de coros, cordas e castanholas (sim, castanholas, em "Heart of Steel"). Destas vagas sonoras escapa aquela que talvez seja a melhor canção do disco, "Love Me Like I'm Not Made of Stone", uma balada com guitarra acústica. E um nó na garganta, claro.

Lily Allen - Sheezus ***

Qual é melhor? Beyoncé ou Lorde? Pois... a resposta não é fácil, simplesmente porque a pergunta está mal feita, ou mais propriamente não faz sentido. Mas é a essa pergunta, e a outras similares, que Lily Allen tenta responder neste disco. Afinal, a indústria musical é a boa ou a má da fita ("Hard Out There")? E o jet set das revistas, boa ou má gente ("Insecerely Yours")? E aquela malta das redes sociais, é mesmo para levar a sério ("URL Badman")? Não é preciso ser politicamente correcto para se perceber que, nos tempos que correm, não há certo nem errado. E que errado acaba por estar quem, como Lily, usa (e talvez abuse) do sarcasmo para criticar o meio no qual, bem vistas as coisas, vive. E no qual tem sucesso. Verdade, verdade é que não vale a pena levar as coisas muito a sério. Este é um disco pop e ninguém pode pedir à pop que salve o mundo. Apenas que nos divirta e nos faça rir de nós próprios, repetindo, de forma razoavelmente agradável, velhas e conhecidas fórmulas.

Damon Albarn - Everyday Robots ****

Arrancar toda a beleza que pode haver na melancolia. E fazer dela música. Esse parece ser o projecto de Damon Albarn, especialmente desde que, há década e meia, ainda na vigência dos Blur, inventou os Gorillaz. Mas nunca como neste disco, o primeiro verdadeiramente em nome próprio, esse desígnio foi concretizado de forma tão radical (embora as sementes já fossem bem audíveis em Plastic Beach, dos Gorillaz em 2010). Damon é um excelente autor, um intérprete mais maduro (notável a densificação da voz neste disco...) e um encenador de canções extraordiariamente inventivo (ruídos, vozes de rua, ensembles de cordas, pianos, guitarras acústicas - tudo vale para criar uma sonoridade quase cinematográfica). "Mr Tembo", reggae e gospel numa cantilena quase infantil, e "Heavy Seas of Love", a que Brian Eno confere a impressão digital, são as excepções à melancólica introspecção geral (belíssima "The Selfish Giant").

Frankie Chavez - Heart & Spine ****

"Pine Trees" não é apenas um dos temas mais belos deste disco (a chuva em fundo e tal...), é também aquele em que, através da omnipresença da guitarra portuguesa, há uma real tentativa de romper com a ortodoxia do blues e do rock'n'roll dominantes. Não se pode pedir aquilo que as pessoas não querem dar e Frankie Chavez assume em disco a preferência pela apropriação sem filtros da música de raiz americana. Nem que seja na vertente "feel good" havaiana estilo Jack Johnson de "Don't Leave Tonight", um tema que até pode alegrar o verão das rádios, se alguém fizer por isso. É, na verdade, nos momentos mais calmos do disco que se verifica um maior investimento criativo, com a introdução de vários apontamentos de composição e instrumentação dissonantes ("Sail Upon Your Shore"). Os temas mais pesados ("Fight", "Heart & Spine") são bem esgalhados - importante, para a circunstância - mas menos surpreendentes.

Aloe Blacc - Lift Your Spirit ***

Replicar o êxito de "I Need a Dollar" (2010) era apenas um dos desafios de Aloe Blacc para este disco, o primeiro lançado por uma grande editora. Êxitos para a rádio não faltam por aqui, embora talvez nenhum multiplique tanto os dólares, até porque o mais robusto ("Wake Me Up", numa versão acústica), já rendeu bastante, em 2013, numa versão com o produtor sueco Avicii. Eventualmente "The Man", que cita explicitamente "Your Song", de Elton John, possa fazer esse papel. Mas Aloe tinha outro desafio - demonstrar que é um herdeiro fiável da melhor soul do século passado. A resposta acaba por ser uma fuga em frente, ou seja, a aposta no puro sucesso comercial, em detrimento do apuro estilístico. Coisas para a pista de dança ("Love Is The Answer", com Pharrell Williams), para o estádio ("Here Today"), ou para o sofá ("Red Velvet Seat"), com soul, é certo, mas num registo apressado e pouco sentido.

Ray LaMontagne - Supernova ****


Nunca Ray LaMontagne tinha ido tão longe em ir tão atrás. As influências psicadélicas eram já percepíveis nos quatro discos anteriores, mas a melancolia e algum intimismo eram ainda as notas dominantes. Este Supernova é, pelo contrário, uma explosão de cores, que se desenvolve em paletas sonoras estritamente confinadas ao final dos anos sessenta. Às tantas, convencemo-nos de que estamos a ouvir os Pink Floyd de Syd Barrett, em "Smashing", os Jefferson Airplane, em "Lavender", Neil Young, em "Ojai", os Byrds, em "Drive-in Movies", e por aí fora. E depois há canções, como "Pick Up a Gun", quase perfeitas, na sensação de terem absorvido toda uma época revista pelos anos que lhe sucederam. É certo que parte da magia vem da produção de Dan Bauerbach (Black Keys), mas - justiça seja feita - o material de base, as canções, está bem à altura da ambição. Os fãs, claro, vão ter saudades daquela voz funda e sofrida de outras eras. Mas este é um disco de Verão!