Yusuf - Tell 'em I'm Gone ***

Eis alguém que parece levar demasiado a sério aquela história de os gatos terem várias vidas. Nascido Steven Demetre Georgiu, foi como Cat Stevens que, nos anos 70, se tornou conhecido com baladas pacifistas. No final da década, converte-se ao islamismo e passa a ser conhecido por Yusuf Islam. Grava uns discos religiosos, envolve-se em polémicas (Salman Rushdie) e... cala-se. Em 2006, deixa cair o Islam das capas dos discos e regressa à música profana. Com o CD e vinil que agora assina, faz a quadratura do círculo: homenageia os blues e a folk que o inspiraram no início da carreira e consegue insuflar-lhes algumas doses de islamismo. O resultado não é grande coisa, nem tanto por esse difícil casamento, mas antes pelas óbvias limitações de voz, totalmente inadequadas ao blues (ouça-se "Big Boss Man"). Salvam-se as baladas mais folk ("Cat andThe Dog Trap"). Rick Rubin assina uma produção rotineira.

Capitães da Areia - A viagem a bordo do Apolo 70 ****

Os anos 80, os Heróis do Mar, os Sétima Legião, José Cid, Toy (sim, esse), Rui Pregal da Cunha, Lena d'Água, Miguel Ângelo (sim, esse). E Samuel Úria, Tiago Cavaco, Capitão Fausto, Mel do Monte, Tiago Bettencourt. E as Adufeiras de Monsanto e Tiago Pereira. E (oh, não...) o Bruno Aleixo e a porteira do Lux. E, claro, Manuel Fúria. Ficou alguém de fora? A coisa é, convenhamos, um pouco demencial. No bom sentido, como se costuma dizer. Este é um dos projectos mais loucos da música portuguesa e - há que dizê-lo - dos mais bem conseguidos. Muito influenciadas pelos anos 80, portugueses e não só (sintetizadores a rodos), mas também pelo folclore e até por África, estão aqui algumas das canções mais vibrantes da pop portuguesa actual. Sim, pop. Canções bem dispostas, sem complexos, para dançar, sonhar, etc. Este é o segundo disco dos Capitães e as rádios bem podiam dar alguma atenção a este antídoto para a habitual neura nacional.

José González, 19 Fev CCB


O Facebook de José González tem andado agitado. Os anúncios relativos ao lançamento de um novo disco, esta semana, são entrecortados pela marcação de novas datas para as digressões deste ano, na Europa e nos EUA, a que se segue a notícia de que há datas esgotadas e vem aí novo concerto. Isto diz bem da popularidade que González tem granjeado nos dois lados do Atlântico, facto espantoso, se tivermos em conta que o último disco a solo deste sueco de ascendência argentina (In Our Nature) data de 2007 e que, antes desse, apenas gravara outro de grande fôlego (Veneer, 2003). Entretanto, tem feito circular a banda Junip, também ela com discografia esparsa. A verdade é que há um bom mercado para esta música, que nos obriga a fazer um intervalo na azáfama do dia-a-dia e ficar simplesmente a ouvir. E talvez meditar, que Gonzalez é músico que gosta de pensar e fazer pensar. Fá-lo, aliás, da mesma forma minimalista com que pratica a música: umas frases fortes, soltas, entre a reflexão sobre "o que fazemos aqui" e um incitamento a que façamos alguma coisa por nós. É assim com Vestiges & Claws, o novo disco, em que o minimalismo ganha ritmo e intensidade, à custa de mais guitarras, coros e percussões. Sem perder a cor intimista que é a marca de água de González.

Bob Dylan - Shadows In The Night ****

Na única entrevista que deu a propósito deste disco, Dylan afirma que o seu propósito era manifestar respeito por canções que, ao longo dos anos, foram sendo desrespeitadas. Dito de outra forma, não tinha pretendido fazer "covers" (expressão inglesa utilizada para "versões", mas que também significa "cobrir", ou "tapar"), mas sim um trabalho de "uncover" (descobrir), ou seja, regressar à essência das canções. E é disso que se trata, num exercício que não pode deixar de lembrar as "Basement Tapes" (de 1967, mas reeditadas em pleno em 2014), em que o mesmo exercício foi realizado sobre temas folk. Agora, o repertório assenta em standards de duas fases da carreira de Frank Sinatra: o início, nos anos 40, e a década deslumbrante, mas profundamente melancólica, do "regresso" nos anos 50. Estamos, pois, perante um corpo de canções que versam as vicissitudes do amor e que deixa de fora o lado mais luxuriante e conhecido da Voz. E é, de facto, com respeito, mesmo com solenidade, que Dylan ataca estes dez temas. Na voz pausada, obviamente nada a ver com Sinatra, mas também nada a ver com o Dylan mais entaramelado de outras épocas, em que cada sílaba é audível e fica frequentemente suspensa, confundindo-se com os discretos traços de metais (trompete e trompa) ou do choro da pedal steel guitar. Aqui não há pequenas ou grandes orquestras, nem sequer piano, e a bateria é usada com extrema discrição. Toda a carga emotiva é colocada na letra das canções, de certa forma reafirmando a importância que a palavra sempre teve em toda a sua obra. Mas, reconheçamos, apesar de Dylan dizer o contrário, estas são canções que já foram muito bem interpretadas, restando agora saber se este exercício principalmente simbólico será compreendido pelo comum dos mortais.

Jamie Cullum - Interlude ****

O flirt teria que dar nisto. Década e meia e sete discos passados, Jamie Cullum grava um primeiro CD de jazz. Aqui já (quase) não há pop, nem electrónica, nem truques. O disco foi gravado com todos os músicos em estúdio, de forma analógica, numa homenagem assumida ao jazz dos anos 30/40. O produtor e os músicos foi-os conhecendo Jamie através do programa de jazz que conduz na BBC. O que há aqui de pop são duas canções, uma de Randy Newman ("Losing You"), mas especialmente outra de Sufjan Stevens ("The Seer's Tower"), que resistem à avalanche do swing. Curiosamente, "Lovesick Blues", um dos hinos country de Hank Williams, surge completamente transfigurada e alinhada com os clássicos de Gillespie, Ray Charles, Cannonball Adderley, que são o prato forte do disco. Destaque ainda para os dois duetos: com Laura Mvula, em "Good Morning Heartache", e Gregory Porter, num surpreendente "Don't Let Me Be Misunderstood".

Jorge Palma - CCB, 28 Jan.


"Bairro do Amor" é um disco de viragem na carreira de Jorge Palma. Lançado em 1989, ele representa o fecho de um ciclo, iniciado em meados da década anterior. Foi uma época de descoberta, de improvisos, de grande espontaneidade. A criação de uma imagem de marca, desalinhada, inconformada, aventureira. Com "Bairro do Amor" parecia chegar uma idade mais adulta, mais pensada, menos improvisada e mais trabalhada. Era também um disco de ressaca dessa época, entre a melancolia e a necessidade de continuar. O disco revisita algumas canções antigas - por exemplo, a que dá título ao disco e que já surgira no segundo de originais, "Té Já", de 1977 - e lança pistas que serão exploradas depois - "Só" daria origem a um outro disco. Dele constam canções que acompanharão o artista para o resto da vida, repetidas em todos os espectáculos: o tema título, "Dá-me Lume", "Frágil"... Palma compõe, toma as rédeas da produção, convida amigos para acompanhar, faz tudo com tempo. Pelo meio, a sua editora recusa a ideia e o músico é obrigado a encontrar outra. Mas a aposta foi claramente ganha: "Bairro do Amor" é referido em todas as listas como um dos melhores discos de música portuguesa. Estranhamente, ou talvez não, a promessa acabou por não se cumprir e Palma manteve-se praticamente afastado dos estúdios na década seguinte. Esta comemoração dos 25 anos desse disco histórico (entretanto reeditado, com extras), em vários palcos do país, é também pretexto para celebrar uma carreira peculiar e uma voz influente da música portuguesa.

Mimicat - For You ***

A chamada música popular, em sentido lato, tem essa coisa maravilhosa: estabelecido o paradigma, basta aprender inglês e qualquer um, em qualquer parte do planeta, passa a praticante e aspira a estrela. Pop na Escandinávia, rock no Barreiro. E jazz em Coimbra, com Marisa Mena, aliás Mimicat. Após passar pelos Casino Royal, juntou-se ao produtor e arranjador Sérgio Costa (Belle Chase Hotel, Real Combo Lisbonense) para esta primeira aventura discográfica. O resultado final é satisfatório: as canções cumprem, a voz idem, os instrumentos ibidem. No entanto, da audição das 14 (!) canções pouco fica, além da competência. Não há um tema que resista no ouvido, um golpe de asa numa canção que nos prenda, uma infracção à regra que nos faça voltar atrás e tentar perceber o que se passou. Tudo demasiado linear e óbvio. E, aparentemente, material e meios até os havia. Assim, ainda corre o risco de a confundirem com a Áurea...

Robert Plant - Lullaby and The Ceaseless Roar ****

A declaração de princípios está em Raising Sand, o disco que Plant gravou, em 2007, com Alison Krauss. A vida pós-Led Zeppelin, após hesitações q.b., haverá de ter uma base folk muito evidente, camadas de electrónica não muito intrusivas e explorações étnicas variadas. Foi assim em Band of Joy (2010) e é assim agora. O mais engraçado disto tudo é que, parecendo estar a fazer diferente, e tendo mesmo resultados muito diferentes, esta não deixa de ser a boa e velha receita dos Zeppelin - parecendo outra coisa (hard, metal), na prática, o que eles praticavam era muito blues e algum folk. Exemplo perfeito desse movimento é "Pocketful of Golden", em que quase conseguimos ouvir uma actualização dos Zeppelin, mas agora com tons de trance. Ou "Turn It Up", que, apesar de começar com uma imitação perfeira de Tom Waits, rapidamente evolui para esse passado. Na prática, o que Plant está a fazer é a tornar evidente que não, não precisamos nada de ressuscitar os LZ.

Leonard Cohen - Live in Dublin ****

Poucas manifestações artísticas se assemelham tanto a uma cerimónia religiosa como os concertos de Leonard Cohen. A religião é, aliás, um tema recorrente na obra deste judeu irrequieto, errante na busca do Sublime, seja pelos caminhos explícitos da espiritualidade, seja pela via, talvez menos evidente, da música. São muitas as canções em que a inquietação religiosa se cruza e se confunde com o amor e o sexo, sendo mesmo essa uma das linhas de força da sua obra poética. Nos concertos ao vivo dos últimos anos, há uma liturgia tácita, assente em Cohen, mas que envolve músicos, coro e espectadores, que em nada fica a dever à dramaturgia dos ofícios religiosos. Na atitude do cantor, no modo como entoa de olhos fechados ou fixos no infinito, no contraponto com as coristas, na forma como pastoreia e espalha a fé, perdão, a música e a poesia entre o seu rebanho. E talvez isso nunca tenha sido tão evidente como nesta edição de 3 CD e um DVD, cada um deles com mais de três horas de música, pelas quais passam os sucessos de uma carreira. Esta edição não deixa de ser surpreendente, se tivermos em conta que se trata da terceira gravação ao vivo no espaço de cinco anos, certamente ditada pela mesma necessidade de fazer dinheiro que levou Cohen a percorrer intensamente os palcos do mundo. Esta grande rodagem ao vivo está a ter o mérito de fixar uma leitura interpretativa, especialmente na parte instrumental, de uma obra relativamente instável nesse campo. Um cânone baseado em pequenos ensembles, predominantemente acústicos, centrados na tradição americana (blues, country), mas também devedores da herança europeia (cigana, latina). A poesia, que sempre foi o forte de Cohen, encontra finalmente uma companhia musical estável.

Scott Matthews - Home Part 1 ****

Tomar um chá entre cada gravação e depois voltar a gravar tudo outra vez, até que soe perfeito. É mais ou menos assim que Scott Matthews descreve algures o processo de gravação deste Home Part 1, totalmente registado num estúdio caseiro, sem produtor ou sequer engenheiro de som. O processo de aprendizagem tomou-lhe três anos e o resultado, felizmente, não é perfeito. Felizmente, porque a tendência para o virtuosismo de quem pega numa data de instrumentos - embora alguns amigos tenham aparecido com outros - e, de forma quase obsessiva, trabalha os temas com a dedicação que se adivinha ao ouvi-los poderia afogar o projecto em tiques e maneirismos. Falta, é certo, alguma energia, algum tema mais animado, para quebrar o tom demasiado linear de dez canções em tom de balada, quase sussurrada. A folk é a grande influência de Matthews e há quem o compare a Jeff Buckley, mas se há coisa que este quarto disco veio mostrar é que estamos perante uma voz única. Única, a voz propriamente dita, macia e quase encantatória; única, também, a sensibilidade e a delicadeza da composição. "Running Wild", "The Outsider" e "The Night Is Young" são exemplos dessa perfeição que nos agarra em círculos. O instrumental "The Clearing" é um bom exercício, mas anda perto de cair para um certo barroquismo. E há a espantosa "86 Floors From Heaven", inspirada na famosa fotografia do suicídio de Evelyn McHale, publicada em 1947 por Robert C. Miles, na Life (vale a pena procurar no Youtube o vídeo oficial da canção). Um alerta duplo: não confundir este Scott com um outro que surge num dos discos de Rodrigo Leão, nem com o homónimo americano. Depois de ouvir será mais difícil confundir.

Mark Lanegan - Phantom Radio ****

Há cadáveres por todos os cantos, cantos de canções. Mas nem é tanto a morte que incomoda, são mais os fantasmas, o que sobra da morte, e as desilusões, a morte que nos atravessa em vida. O tema não é propriamente novo (o disco de 2012 tinha por título Blues Funeral), mas nunca Lanegan demontrara tal agilidade a lidar com ele. Agora, é possível dançar sobre as tumbas ("Seventh Days"), embora não seja essa a agilidade que conta, antes a desenvoltura de composição, que começa a projectar Lanegan como um dos compositores a justificar atenção redobrada por estes dias. Por exemplo, em "Judgement Time" ou "I'm The Wolf", duas das mais densas e sombrias canções, mas igualmente das mais belas. A voz cheia de fumo, mas espantosamente versátil, vai casando na perfeição com a atmosfera electrónica predominante, como é o caso de "Torn Red Heart", que vai directamente para o top das suas melhores canções.

Bob Dylan & The Band - Tte Bootleg Series, Vol. 11 - The Basement Tapes *****

Em 1967, Dylan tinha gravado sete discos, pelo menos quatro dos quais absolutamente históricos, tinha dado duas enormes pedradas no charco (a estreia e a electrificação) e, last but not the least, tinha recusado liminarmente ser o líder da geração que o tinha por líder. E foi aí que caiu da mota... O famoso acidente, ainda hoje envolto em mistério, afastou-o dos estúdios e dos palcos. Nesse Verão de 67, numa casa de campo, juntou os músicos que viriam a chamar-se The Band para semanas de gravação, em que, mais uma vez, voltou a fazer história. E, mais uma vez, à sua maneira: as gravações, artesanais, não foram publicadas. Apenas em 1975, após várias edições pirata, viram a luz oficial do dia, numa versão muito adulterada, a que nem faltam regravações posteriores e temas da Band que nem sequer faziam parte do acervo inicial. A verdade histórica só agora é reposta, meio século depois... Há duas edições: uma, de seis discos (138 temas), que reproduz cronologicamente todas as sessões; e outra, de dois CD (38 temas), com o essencial do que se passou em 67. Há de tudo um pouco: versões restauradas (sem os embelezamentos de 75), gravações alternativas e até alguns coisas completamente inéditas. Interessa é que, pela primeira vez, se percebe em profundidade o que se passou naquele Verão e se tornou audível no discografia imediatamente posterior. Dylan reinventava, mais uma vez, não apenas a sua música, mas também a de toda uma geração e das que se lhe seguiram. Beatles, Stones e a grande maioria abandonaram o psicadelismo e outras aventuras sónicas e, a partir de 67/68, regressaram à pureza e simplicidade das raízes. A chamada 'americana' e o 'alt-country', como ainda hoje se pratica, nasceram nessa revolução secreta de 67. Dylan ainda haveria de fazer outras.

The Art of McCartney ***

De certa forma, isto é um CD de karaoke e não, ao contrário do que se imaginaria, um disco de versões, de homenagem, etc. Isto porque a base instrumental da quase totalidade das canções é interpretada pela banda que costuma acompanhar McCartney ao vivo e, portanto, os artistas convidados limitam-se a colocar a voz sobre versões que, no fundo, não são muito diferentes das que já conhecemos. Tudo impecável e até um pouco divertido, se tivermos em conta o peso próprio das três dezenas que se juntaram à volta das canções dos Beatles, dos Wings e de McCartney a solo (Billy Joel, Roger Daltrey, Cat Stevens, Chrissie Hynde, Smokey Robinson...). As versões mais interessantes, como se imagina, são as que mais se libertam do original: "Yesterday" (Willie Nelson), "Wanderlust" (Brian Wilson) e "Bluebird" ( Corinne Bailey Rae), por exemplo. E há ainda a graça de Dylan a cantar "Things We Said Today"... só porque é Dylan.

Lisa Ekdahl - Look To Your Own Heart ***

Faltam teses e outras teorias sobre essa magia que só as canções possuem de transformar em passos de dança e trá-lá-lás os mais desvairados desgostos de amor. Se ainda não existem, não será certamente a partir de Lisa Ekdahl que vão aparecer. Porque, apesar de o tal paradoxo ser o motor deste disco, esta loira sueca tem poucas pretensões e, na verdade, apenas quer dar-nos música. A receita é exactamente a mesma do último disco de originais (Give Me That Slow Knowing Smile, de 2009): umas pitadas de jazz muito ligeiro ("I'm Falling"), uns ares de bossa ("Sing and Dance") e um je ne sais quoi de França, o país que mais sucesso lhe garante, Suécia natal à parte (ouça-se, por exemplo, "You Want Her Approval"). Música mansa, feita para uma voz infantil no timbre, mas adulta nas soluções que, apesar de tudo, alcança. Pensada para encantar sem incomodar. Para chatices já basta a vida, não é?

Ana Cláudia - De Outono ***

Há uns cem segundos de uma faixa quase escondida no final deste disco de uma enorme e dupla utilidade. Revelam, por uma lado, a ossatura inspiradora destas canções, a mansidão da música contemporânea brasileira derivada da bossa nova, enquanto que, em simultâneo, apontam uma saída para o labirinto em que a concepção deste disco se deixou cair. Porque, se há tónica comum aos seis temas deste primeiro esforço discográfico em nome próprio, ela é a de um conceptualismo em excesso, que espartilha a belíssima e educada (jazz) de Ana Cláudia e a mergulha na frieza metálica das electrónicas e outros efeitos de estúdio, como a rigidez dos coros. Uma voz destas ganharia em libertar-se de todo este formalismo e em caminhar por trilhos de maior simplicidade, de que a bossa nova será apenas um exemplo. Para um disco que se explicita De Outono, funciona. Mas não deixa de ser uma auto-limitação.

Gilberto Gil, CCB 8 Nov


Os jornais franceses disseram que Gilberto está numa fase ultra-zen. Não é para menos: só em palco, ele, a voz e o violão. A mulher, Flora Gil, trata da iluminação, e - dizem as crónicas - partilha com ele a condução pela Europa fora, em regime de férias. França, com salas esgotadas, o mesmo em Itália e noutras paragens. Uma passagem pela Suíça, para uma semana de férias com o escritor Paulo Coelho, e mais zen não poderia ser. O espectáculo é isso mesmo, a revisitação da obra de Gilberto, apenas com voz e violão. E uma paragem mais demorada no último disco, já deste ano: "Gilbertos Samba", uma homenagem a João Gilberto, com Gilberto Gil a reinterpretar os sucessos do Papa da bossa nova, no mesmo registo, pausado e "desafinado". No fundo, exactamente o inverso do que fez da última apresentação em Portugal, em 2013, com o espectáculo explosivo "Fé na Festa". Aos 72 anos, com mais de meia centena de discos gravados, o compositor e cantor que já foi ministro continua a demonstrar porque é um dos nomes incontornáveis da música brasileira.

Mirel Wagner - When The Cellar Cildren See The Light of Day ****

Embarcamos numa canção de embalar - "1, 2, 3, 4" -, mas depressa percebemos que este não é um disco para embalar meninos. O protagonista da primeira abordagem é, sim, um menino de olhos lindos, mas está debaixo de terra e da sua barriga inchada libertam-se vermes. Nada mal para começo de conversa, num disco em que os mortos, o terror, os pesadelos, o lixo, os venenos e outros horrores povoam e sufocam amores, famílias e toda e qualquer réstea de humanidade. Estas dez canções do segundo disco de Mirel Wagner pouco devem à sua ascendência etíope, herdando antes do blues a depuração de composição e interpretação. E talvez devam às paisagens agrestes da Finlândia o gelo que lhes corre na alma. A (quase) solitária guitarra ora é golpeada ("Dirt"), ora dedilhada de forma angustiada ("Dreamt of Wave") e, quando recebe companhia, ela assume a forma de fantasmagóricos coros ("Red Oak"). Não entres, então, tão afoito nesta noite escura.

Brass Wires Orchestra - Cornerstone ***

Uma pessoa ouve distraidamente o CD no carro e dá consigo a pensar: olha, os Mumford and Sons têm novo disco e ninguém avisou. Não que tal aviso tivesse relevância especial. Como, aliás, a comparação entre os Mumford e os portugueses Brass Wires Orchestra (BWO), que não é nem elogiosa nem depreciativa. É o que é. Os BWO apresentam, aliás, uma vantagem sobre os Mumford: não têm apenas uma canção, que andam a repetir há um ror de tempo... Não. Os BWO têm baladas ("Wash My Soul" e "Anchor") e coisas assim a dar mais para a festa rija ("Tears of Liberty" e "People & Humans"). E não se inspiram apenas, desculpem a repetição, nos Mumford. Não, também nos Beirut e... coisas parecidas. O projecto, que começou de forma mais ou menos despretensiosa ganhou asas, já andou lá por fora e por domésticos festivais e vê agora a luz do dia num CD de produção e edição muito cuidadas, o que é de aplaudir. E ainda bem que não têm grandes pretensões... isso, sim, seria um problema.

Marianne Faithfull - Give My Love to London ****

Dizer que Marianne Faithfull gosta de boas companhias poderia ser apenas uma piada. Mas é também uma observação pertinente quando ouvimos os seus discos após o surpreendente renascimento de Broken English (1979) e, em especial, as gravações da última década. Neste CD, Nick Cave, além de ceder músicos para o estúdio, é a presença mais marcante, com uma daquelas baladas épicas quase funerárias ("Late Victorian Holocaust") e ainda "Deep Water", em co-autoria com Marianne. A maior parte dos temas tem, aliás, letra da cantora, como "Mother Wolf", tenso e dramático, tão ao seu estilo, composto por Patrick Leonard, o parceiro mais recente das canções de Cohen (do qual surge aqui uma versão de "Goin' Home"). No campo dos originais, destaque ainda para "Sparrows Wil Sing", de Roger Waters, enquanto que nas versões avulta um "The Price of Love", blues bem mais pesado que o original dos Everly Brothers. Pedir que, com tudo isto, estivéssemos perante um disco homogéneo talvez fosse pedir de mais.

Los Waves - This Is Los Waves So What? ***

O disco começa com uns segundos de citação explícita da new wave, mas é na actualidade anglo-saxónica que o trio das Caldas mergulhas as raízes. Especialmente nos Strokes, mas também nos MGMT, de raspão nos Coldplay e, acima de tudo... nos Strokes. Porquê a necessidade de lhes fixar tão nitidamente as referências? Porque raramente se encontra uma banda em que elas sejam tão evidentes e, de alguma forma, assumidas. Este é o primeiro CD de longa duração, mas, além de alguns EP, o grupo, que também já se chamou League, tem uma razoável rodagem pela cena londrina e, imagine-se!, até em bandas sonoras dos states. As guitarras predominam, mas a electrónica é usada de forma muito inteligente, a produção é muito profissional e há uma mão cheia de temas ("Strange Kind of Love", "Got a Feeling", "Darling") susceptíveis de animar palcos, pistas e outros veículos de expressão musical.

Leonard Cohen - Popular Problems *****

O lançamento deste disco coincidiu com o 80.º aniversário de Cohen e o marketing fez o resto - "vejam, ele ainda consegue..." -, quando, na verdade, não é esse o ponto. Não estamos perante uma rotineira prova de vida, mas antes face ao estabelecimento de um novo paradigma. Num gráfico de linha, Popular Problems representa um pico, a par do álbum de estreia (1967) e de I'm Your Man (1988). É um disco de síntese, de revisão e depuração da matéria. Nada aqui está a mais ou a menos, outra forma de dizer que tudo aqui é perfeito. Musicalmente, nunca Cohen se terá sentido tão à vontade, encontrada que está a fórmula ideal para enquadrar a sua poesia - um blues ligeiro, quase lounge por vezes, baseado em teclas e percussão electrónicas, coros femininos e apontamentos de metais (obra do co-autor, músico e produtor Patrick Leonard, responsável por muitos êxitos de... Madonna). Nesse ambiente seguro, Cohen acaba por revelar uma voz funda e segura como nunca, mesmo quando apenas sussura ou quase declama. À pose e rigidez de outros tempos, contrapõe agora uma evidente naturalidade. As nove canções são, também, um trabalho de depuração dos temas fetiche: o apocalipse das guerras quotidianas ("Nevermind", com referências implícitas ao conflito do Médio Oriente) e enquanto destino ao qual não podemos fugir ("Almost Like The Blues"); a maldição do amor e da religião, como se fossem uma e a mesma coisa ("Born In Chains", a merecer figurar entre as suas melhores canções); o amor ainda, mas agora entre a ironia e a ternura ("Did I Ever Love You" e "Slow"). A fechar, "You Got Me Singing", acústica e com referências a "Hallelujah", coloca-nos na casa de partida: no Cohen inicial e com todo o futuro pela frente. Como hoje.

[Uma "arreliadora gralha" na edição impressa retirou uma estrela a mr. Cohen. Mas o disco é mesmo cinco estrelas.]

Banda do Mar ****

A felicidade das coisas simples. Este disco limita deliberadamente o seu raio de acção. Não é um disco novo do brasileiro Marcelo Camelo, ou de Mallu Magalhães, ambos a viver em Lisboa, não é um disco do casal, muito menos de Fred (baterista dos Buraka, Orelha Negra, 5-30). Banda do Mar assume-se como uma descomplexada reunião de amigos, sem mais pretensões que recuperar a sonoridade yé-yé (a "jovem guarda" do Brasil de 60) e cantar as alegrias do amor quotidano sem complicações. Assumidamente, aqui não há surpresas, ou sequer a tentativa de fazer músia elaborada ou ambiciosa. Pelo contrário, a ideia é fazer dançar, ou simplesmente bambolear, cantarolar ou apenas sorrir de felicidade. Tendo em conta a carreira de Marcelo e Mallu facilmente se imagina a perfeição com que a ideia é concretizada. Mas, obviamente, a falta de ambição do projecto reflecte-se no resultado final, não havendo aqui nada de extraordinário. A inspiração principal são os Beatles iniciais (a guitarra de "Cidade Nova", saída directamente de Hamburgo), mas "Faz Tempo" vai buscar quase tudo a "My Sweet Lord", de Harrison. "Dia Clarear" talvez seja o tema que mais se afasta do conceito global, assentando mais no material genético de Camelo. Já "Seja Como For" mostra-nos uma Mallu muito próximo do último "Pitanga", com as suas características inflexões vocais. A Banda anuncia, para já uma digressão brasileira, a que deverão seguir-se, já em 2015, apresentações em Portugal. E talvez com o andamento se perceba a verdadeira ambição deste aparente projecto paralelo.

Au Revoir Simone - Spectrum ***

O que seria do Verão sem os cocktails, essa forma tão civilizada de aventura? Este disco, feito para acompanhar cocktails e similares, é ele próprio um cocktail bem adequado ao Verão hesitante de 2014. Porque umas vezes o remix funciona, noutras ficamos com um certo amargo na boca. Nada que importe muito, o Verão acaba e tudo de esquece. O ponto de partida é Move In Spectrums, o quarto de originais do trio feminino de Brooklin. Um disco mais pop que os anteriores, assente na mesma fórmula de vozes, teclas e ritmos sintéticos. Retrabalhar esta matéria-prima é fácil, pela proximidade do código genético, mas, claro está, isso também coloca a fasquia bem mais alta. O trabalho de Kiwi para "Boiling Point", ou o funk de NZCA/Lines em "Somebody Who", o tema mais comercial do original, são apostas claramente ganhas. Noutros casos ("Crazy", de Jack Savidge), estamos perante a pura banalização para as pistas de dança.

Ryan Adams **

Felizmente, o Bryan Adams anda desaparecido. Caso contrário, lá teríamos que sublinhar o R inicial deste, de forma a evitar confusões. E agora, convenhamos, com toda a propriedade. Em entrevistas recentes, Ryan colocava os Velvet Underground e os Smiths (!!) como principais influências do novo disco. Era a brincar, seguramente. Isto é mais Bruce Springsteen de terceira ou quarta categoria ("I Just Might"), U2 ainda mais desinspirados do que de costume ("Shadows"), ou, sim, Bryan, o tal ("Am I Safe"). Uma música que, enfim, poderia ter sido gravada por qualquer uma dessas bandas, especialmente britânicas, preocupadas em fazer sons para estádio. Há uma tensão, na obra passada de Ryan, entre uma música mais serena, muito devedora do country (de que "My Wrecking Ball" é aqui um exemplo), e um som mainstream um tanto banal, sustentado em monótonos riffs de guitarra. Desta vez, ganhou o segundo.

The Antlers - Familiars ***

Se ficares muito quietinho, até consegues ouvir o monstro respirar. O monstro costuma estar debaixo da cama, mas neste disco está dentro de nós. As canções dos Antlers são das coisas mais sombrias que imaginar se possa. Problemas de personalidade, sustos de jovem adulto, crise de identidade. Mas foi isso que tornou em culto o trio de Brooklin, essa música assaltada permanentemente por fantasmas. Nesta quarta gravação de maior fôlego, há, porém, uma novidade de monta, que, nuns casos, adensa as sombras, noutros funciona como inesperado raio de luz - a omnipresença dos metais, especialmente o trombone e o trompete. Em "Revisited", por exemplo, os metais adornam a valsa e tornam-na quase dançante. Já em "Doppelganger" acentuam o nó na ganganta. A atravessar o disco há ainda a sonoridade do jazz e um ambiente de filme negro muito interessantes. Enfim, não é coisa para se ouvir todos os dias, mas...

Jose James - While You Were Sleeping ***

Há qualquer coisa de laboratorial nesta música. Para o bem e para o mal. É uma música de base assumidamente soul, mas que busca uma enorme sofisticação, seja numa sonoridade por vezes fria ("U R The 1"), seja por arranjos de grande densidade dramática (o órgão e as cordas em "4 Noble Truths"), seja, enfim, pela projecção da beleza sensual da voz de José James. Essa sofistação, nos limites do bom gosto comum, é obviamente uma boa aposta. Acaba, porém, por prejudicar o disco, retirando-lhe a alma que podemos ouvir, por exemplo, em "Simply Beautiful", uma boa versão de Al Green. Por vezes, a vertigem pelo cruzamento de influências é um tanto exasperante (o tema título, por exemplo, começa com uma citação descarada de "Heart of Gold", de Neil Young, e acaba num crescendo à la Radiohead). E há ainda citações mais ou menos assumidas de Nirvana ou Hendrix, por exemplo. O problema é que tal dispersão acaba por prejudicar a assumpção de uma voz própria.

Beck Song Reader ***

Como no famoso quadro do Magritte: isto não é um Beck. Depois, vai-se a ver, e é mesmo um Beck. Até tem Beck a cantar e tudo. Mas, ao contrário do quadro, aqui o que parece não é, e isto não é mesmo um Beck. O projecto começou em 2012 e não era para ser isto. Na irrequietude que marca os últimos anos da sua carreira, Beck lembrou-se de ressuscitar uma moda da primeira metade do século XX: a edição de pautas de música para que o povo possa exercitar os seus dotes musicais. O livro de pautas deu origem, então, a uma onda de gravações no Youtube, em registos maioritariamente amadores, mas algumas a destacarem-se da multidão. Próximo passo: alguns amadores e outros nem tanto, em palco. Sucesso mediano. Eis então que alguém se lembra de fazer um disco para angariar fundos destinados a uma associação de crianças americanas. E eis as pautas em acção. A participação de Beck limita-se à interpretação de um tema ("Heaven's Ladder"), num tom, aliás, descaradamente beatliano. Apesar de um ou outro momento com mais interesse, o resultado global - como, aliás, costuma acontecer com este tipo de projectos - deixa muito a desejar. Não é que cada um cante para seu lado, mas todos parecem pouco dispostos a arriscar (por exemplo, Loudon Wainwright III, ou mesmo Jack White, a quem costumamos ouvir melhor). Excepções? A belíssima interpretação de Swamp Dogg de uma das melhores canções do disco ("America, Here's My Boy"), David Johansen a fazer de Tom Waits e (!) Norah Jones a fazer da mais perfeita Norah Jones. Há quem diga que giro, giro mesmo, era Beck gravar um disco com esta canções para percebermos o que queria ele dizer com elas. Pois...

Clube Internacional Transatlântico de Criadores e Gostadores da Música que Se Faz Hoje ****

O mais provável é que este disco não mude nada, apesar das boas intenções. E a intenção explícita é dar a conhecer nos dois lados do Atlântico a música que se faz em cada uma das margens. As regras da indústria e as ditaduras do gosto deverão encarregar-se, como de costume, de tratar das boas intenções... Isto apesar de o disco até estar disponível para download gratuito no site da editora. A ideia foi do brasileiro Marcelo Camelo, a viver em Portugal, que apresentou os músicos da sua banda (Wado, Momo e Cícero) aos portugueses Diego Armés (Feromona), Bernardo Barata (Diabo na Cruz), Alexandre Bernardo (Laia) e Fred (Buraka, Ovelha Negra). O repertório é quase completamente composto por versões de temas já conhecidos, havendo dois inéditos de Armés (belíssimo, "Corda Para o Nó"), havendo uma clara opção por abordagens simples, límpidas. "Pescador" talvez seja paradigmático daquilo a que se propõem, na fusão perfeita das raízes do fado com o tropicalismo, evoluindo para uma espécie de ié-ié dançante.

King Creosote - From Scotland With Love ****


Ouve-se falar pouco da Escócia, especialmente desde que o gin passou a ser a bebida social por excelência. Mas este é um verão escocês. Daqui a poucas semanas, decidem em referendo se passam a independentes (o Mick Jagger mais uns tantos já vieram dizer "não façam isso") e, nos exercícios de aquecimento, receberam em Julho os Jogos da Commonwealth. E foi precisamente para esses jogos que Virginia Heath realizou um documentário, com imagens de arquivo (cenas de trabalho, emigração, ócio e amor), sem palavras, e apenas a música de Kenny Anderson, o prolífico King Creosote - mais de 50 discos, todos baseados na tradição musical escocesa. O resultado são 11 quadros emotivos sobre a história recente, as gentes e as paisagens da Escócia, da vida dos pescadores ("Cargill"), ou das crianças e seus lanches ("Leafe Piece"), das celebrações ("For One Night Only"). Uma oportunidade rara de ouvir este tipo de música (e pronúncia).

Thievery Corporation - Saudade **

"Não chega a ser música de supermercado, de aeroporto talvez." Este elogio envenenado foi o máximo que a nova aventura dos Thievery Corporation conseguiu na crítica do jornal Globo. E vale a pena chamar aqui a avaliação brasileira porque os nova-iorquinos decidiram pôr de lado as electrónicas e as samplagens e arriscar um quase genuíno disco de bossa nova. Quase, porque não resistiu a salpicar alguns temas, de forma muito esparsa, de uns toques da sonoridade que os tornou famosos ("No More Disguise"). A verdadeira aposta é, porém, reproduzir, sem risco ou especial brilho, todo o cânone da bossa nova, o que leva o duo a recorrer, pela primeira vez de forma tão extensiva, a instrumentos reais, sejam as cordas, as percursões, ou as guitarras acústicas. O "pequeno" problema é que, nas últimas décadas, não houve cão nem gato que não tenha explorado o filão da bossa. O que atira este disco para a prateleira dos projectos indiferenciados (e, logo, falhados).