E, no entanto, move-se. A metáfora telúrica assenta que nem
uma luva a Florence e à evidente inflexão que este seu terceiro disco
representa. O pendor gótico e tribal dá agora lugar a uma espécie de soul
acelerada, em que as guitarras, e por vezes os metais substituem os gongos e,
parcialmente, as teclas em registo gongórico. Por via dessa descompressão
instrumental, a própria voz de Florence parece ter encontrado um registo um
tudo-nada mais sereno, o que, no caso, é altamente relevante, tendo em conta
todo um passado de gritaria intensa. Particularmente representativo desta
mutação é o tema que dá título ao disco e que, ao contrário do que seria
habitual, não evolui para a explosão, mas, antes, evolui sempre dentro de uma
extraordinária contenção. O mesmo com as baladas, em que Florence resiste à
tentação do exagero vocal. A temática, essa, continua enredada em fantasmas e
naufrágios no feminino.
LLoyd Cole and The Commotions - Collected Recordings 1983-1989 ****
Retrato de LLoyd enquanto jovem artista
A história, oficial e de bastidores, da curta vida dos Commotions, em 5 discos e um DVD. Manuel Morgado ouviu a caixa que consagra o início da carreira de Lloyd Cole
A história, oficial e de bastidores, da curta vida dos Commotions, em 5 discos e um DVD. Manuel Morgado ouviu a caixa que consagra o início da carreira de Lloyd Cole
1984, além de ser o título de um famoso livro mais ou menos apocalíptico, foi um ano de boa colheita para a música pop-rock. O mundo, ao contrário do que previa George Orwell na tal obra, não caminhava para qualquer totalitarismo - visto de 2015, estava até em rumo bem recomendável -, e a indústria musical rejubilava com um novo formato: nos EUA, Springsteen lançava "Born in the USA", o seu primeiro disco a sair originalmente em CD. Na Grã-Bretanha, os Smiths lançavam o seu primeiro LP.
Começar um texto sobre Lloyd Cole mencionando George Orwell, eis algo que o próprio Lloyd não desdenharia. No disco de estreia - sim, em 1984 - há referências a Simone de Beauvoir, Eve Marie Saint, Norman Mailer, etc, etc. O estudante de filosofia, acabado de chegar de Glasgow, exibia-se com toda a sua cultura, de forma um tanto petulante, apenas suportável porque a doseava com aquela fina ironia que apenas os britânicos cultos conseguem praticar. Nos seus 36 minutos, distribuídos por 10 canções, "Rattlesnakes" revelava uma banda com uma abordagem muito profissional e plena de energia e um autor e compositor de primeira água. "Perfect Skin" foi o primeiro single, mas "Forest Fire" e "Are You Ready to Be Heartbroken" não a deixariam sozinha nas preferência da crítica e do público. Sobre uma base musical pop, ancorada nas tradições folk/country e R&B, Lloyd Cole cantava - e ainda hoje o faz... - os triviais amores e desamores, filtrados pela tal intelectualidade irónica e um tanto cínica.
A vitalidade desse primeiro disco seria adocicada nas gravações seguintes: "Easy Pieces" (86) e , especialmente, "Mainstream" (87). Entregues a produtores mais centrados no mercado, acabaram sem a espontaneidade da primeira obra. Mesmo assim, há neles canções perfeitamente incontornáveis, como "Brand New Friend", "From the Hip", ou "Jennifer She Said".
Após uma digressão europeia, a banda acabaria por se separar (1989) e o líder prosseguiu uma carreira a solo, que tem alternado momentos discretos com outros mais exuberantes.
A caixa que agora recupera a obra da banda contempla a versão integral dos três discos originais, sujeitos a uma suave remasterização, e junta-lhe outros dois, nos quais podemos ouvir lados B dos singles, gravações caseiras e alguns inéditos. Nada de muito surpreendente, porém. Confirma-se, por exemplo, o acerto da decisão de não ter feito da primeira versão de "Down at the Mission" o primeiro single, visto que se trata de um tema mais alinhado com a típica música dos anos oitenta e, logo, menos surpreendente e interessante.
A caixa tem ainda uma colecção de fotos, um pequeno livro com um ensaio/reportagem sobre a história da banda, e um DVD com os clips originais e as passagens pela BBC. Muito interessante, não apenas porque este material tem estado fora do Youtube, mas também pela referência estética àqueles anos e pela oportunidade de vermos como os Commotions eram, de facto, bons músicos.
Tudo combinado, é uma nova luz sobre a importância de alguém que nem sempre se tem dado bem com os tops, nem é propriamente influente, mas que pratica uma música confiável e com alguns momentos de grande criatividade. E que tem em Portugal uma das principais bases de fãs.
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LLoyd Cole
Márcia - Quarto Crescente ****
"A Insatisfação" é certamente uma das canções mais bonitas dos últimos anos da música portuguesa. Com todo o peso que a palavra "bonita" transporta, ou seja, o lado ligeiro do belo. Na verdade, pop do bom: música alegre, quase dançante, instrumentos cristalinos (belíssimos, os sublinhados de guitarra ou de percussão), um coro sublime. E, no entanto, não deixa de ser uma canção triste, que a letra não a deixa mentir. E todo o disco é um pouco assim, um paradoxo de música luminosa cruzada com reflexões e sentimentos melancólicos, marca de água da autora. A produção de Dadi Carvalho (Marisa Monte, Caetano) será a principal responsável por puxar a música para o lado solar, embora passando sempre ao largo de tentações tropicalistas, nem mesmo no dueto com Criolo, em "Linha de Ferro". Com um extrema, mas certeira, delicadeza, a base hip-hop da generalidade das canções é sublinhada por apontamentos de coros, guitarras, teclas, percussões. Um disco belo e seguro.
Of Monsters and Men - Beneath The Sun **
Claro que a culpa é dos Arcade Fire. Um sucesso daqueles só poderia dar nisto: uma cópia. Islandesa para não abusar muito da boa vontade dos canadianos. O problema é que a música dos Arcade Fire não é apenas aquela marca, aquele estilo. Pelo contrário, como mostrou o seu último disco, parece estar em permanente expansão. Ora estes rapazes e raparigas (sim, a cópia chega aí...) fazem exactamente o contrário. Ao segundo disco, já todos percebemos que a sua música anda em círculos, incapaz de se reinventar. Todas as canções, sem excepção, assentam na mesma estrutura rítmica, evoluem da mesma forma, aspiram a uma espécie de ópera para as massas dos festivais. A tendência da vocalista para imitar a estridência de Florence + The Machine também não ajuda muito. Mesmo os temas que começam mais calmos, como "Thousand Eyes", acabam por se desenvolver da mesma forma, o que torna a audição particularmente desinteressante.
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Of Monsters and Men
Jason Isbell - Something More Than Free ****
O quinto disco de estúdio de Jason Isbell é ainda, obviamente, um exercício essencialmente country, mas todo ele respira também já um muito evidente ar pop. Não será por acaso: a pop assenta bem a canções bem mais luminosas que as de "Southeastern" (2013), ainda dominado pela recuperação do alcoolismo por que passou o autor, ex-membro dos Drive-By Truckers. Aqui, a exuberância da banda marca o ritmo, com muito pouco espaço para a melancolia ("To a Band That I Loved") ou mesmo para as naturais referências ao som do sul dos EUA ("Palmetto Rose"). As canções, mais que histórias, mostram-nos quadros, instantâneos, a partir dos quais se retiram conclusões, mais filosóficas que moralistas. É assim com a solidão a dois no balcão de um bar ("Flagship"), ou com o caso da mãe adolescente ("Children of Children"). "How To Forget" é o hit instantâneo, "24 Frames" é, talvez, o tema mais conseguido do disco.
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Jason Isbell
Tape Junk - Tape Junk ****
Ainda um dia se há-de fazer justiça à enorme influência dos Kinks em gerações e gerações de músicos dos dois lados do Atlântico. "Substance", que abre este segundo disco dos Tape Junk, é disso um exemplo. Pela sonoridade, mas também pela atitude, que volta a sentir-se, por exemplo, em "All My Money Ran Out", de uma indisfarçável alegria, mesmo que por vezes ácida. Há, é claro, influências em cadeia, que viajam por Beck e Jack White, por exemplo, como se pode ouvir em "Scratch and Bite". Adivinhar as influências ajuda a perceber o DNA de uma música gravada no Alentejo, serve talvez para perceber o que andaram a ouvir os músicos. Apenas isso. Porque a música dos Tape Junk é surpreendentemente coerente e, de certa forma, original e descomplexada na forma como articula e integra as inevitáveis inspirações. Os Tape Junk são um projecto de João Correia (Julie & The Carjackers), em que participa Frankie Chavez. Este disco foi produzido por Luís Nunes (ex-Walter Benjamin).
Mark Knopfler - EDP Cool Jazz, Parque dos Poetas
Mark Knopfler é um resistente e, a avaliar pela legião de fãs que o acompanha nos discos e concertos, tem razões para isso. É um resistente porque não há-de ser nada fácil, para quem inventou um estilo tão característico, manter-se fiel, fazendo orelhas moucas às muitas reviravoltas da cena musical. E o que é o estilo Knopfler? A guitarra, sim, aquele dedilhar característico herdado dos blues, mas também o ambiente de folk atmosférico, som cristalino, a enquadrar uma voz que nada deve a Dylan no timbre anasalado e pastoso. Eram assim os Dire Straits, em meados dos anos 70 quando irromperam num mundo rendido ao punk, eram assim, uma década depois, faz agora 30 anos, quando lançaram o mega sucesso global "Brothers in Arms", e é ainda assim Mark Knopfler, ao oitavo disco da sua carreia a solo, "Tracker", a base do concerto que o traz a Portugal, no âmbito de uma longa digressão europeia, a anteceder mais uma ronda americana. Em "Tracker", como já antes, no duplo "Privateer" (2012), recupera muita da sonoridade, mas especialmente, do espírito da banda que lhe deu fama. São discos de histórias feitas canções, escritas por um verdadeiro escritor de canções, interpretadas pelos velhos amigos de estrada (sete em palco), no tal registo que começa no folk de raiz celta e acaba em sonoridades jazzísticas, com pop, country e blues pelo meio. Claro que estes discos, especialmente o de 2015, dominam a apresentação, com "Broken Bones" a abrir e a dar o tom, mas haverá certamente lugar para uma romagem ao passado, com o inevitável "Sultans of Swing", "Romeo and Juliet", ou "So Far Away". É uma música que não fascina pela surpresa, mas antes pela segurança própria dos experientes. Se calhar, a música é capaz de ser uma boa âncora para enfrentar um mundo em tão grande agitação.
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Mika - No Place in Heaven ****
À quarta canção deste disco, enquanto o refrão pergunta por onde andarão todos os "good guys", Mika prefere interrogar-se sobre o paradeiro dos "gay guys". Como quem diz: foram-se todos embora e deixaram-me aqui sozinho... Pouco importa, porém, quem está ou não está. O tempo é de festa, como sempre com Mika. Pouco importa que a mãe tivesse preferido outro tipo de rapaz ("All She Wants"), ou que o pai ache que ele não tem salvação ("No Place in Heaven"), ou mesmo que o fim do mundo espreite à esquina ("Last Party"). O que interessa mesmo é nunca parar de dançar, lançar serpentinas, ou mesmo citar canções de outros ("I Can't Stop Losing You", dos Police, em "Hurts"). Mika tem um apuradíssimo sentido do espectáculo, todas as canções parecem imaginadas para o palco, e, ao quarto disco, já não restam dúvidas de que esse lado teatral se apoia num sólida escrita de canções. Alegres e coloridas, como as capas dos discos.
The Mountain Goats - Beat the Champ ****
Moby Dick, o livro, é uma obra-prima, mas é preciso gostar muito de baleias para perceber a profundidade da coisa. Este disco, embora seja muito bom, não é nenhuma obra-prima, mas quem gostar de wrestling é capaz de lhe achar muita graça. As parecenças com a literatura não acabam por aqui. Os Mountain Goats são, essencialmente, um projecto de John Darnielle, um tal contador de histórias que a última coisa que fez antes deste disco foi lançar um muito aclamado romance, Wolf In White Van. Este disco, como muitos dos anteriores - duas dezenas em duas décadas, já para não falar das cassetes e outro expedientes -, é uma colecção de histórias. No caso, dos heróis do wrestling que povoam as memórias de infância de Darnielle. A estrutura musical parte da folk, mas espraia-se pela electricidade e pelo jazz. A excessiva teatralização de alguns temas talvez seja o lado menos interessante da aventura.
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The Mountain Goats
Muse - Drones ***
O tema que encerra o disco, e que lhe dá nome, é uma peça a capella, apenas com a voz de Matthew Bellamy replicada dezenas de vezes (a ficha técnica faz questão de salientar o acto a solo), que recupera o "Sanctus et Benedictus", de Palestrina (séc XVI). E reza, literalmente, assim: "Minha mãe, meu pai, minha irmã e meu irmão, meu filho e minha filha, mortos pelos drones". Pois é, uma carnificina. Os Muse especializaram-se nestas coisas meio diabólicas, meio apocalípticas, em registo a atirar para o operático cruzado de heavy metal básico (como se houvesse outro). São coisas do fim do mundo, ou do outro mundo, se quisermos. O problema de tudo isto é a extraordinária pompa associada. Porque os Muse não estão para brincadeiras, as fábulas de guerra e horror comportam insondáveis pressupostos filosóficos. Levam-se demasiado a sério, é isso. A longa citação de Morricone a abrir "Globalist" era suficiente, e até teria alguma graça, se mais à frente o tema não descambasse numa mini-ópera, a que não faltam uns minutos de recriação de Elgar. O resto é o trio (guitarra-baixo-bateria) do costume, às vezes acompanhado por teclas e outros ornamentos, sempre em cadência sincopada, cada canção seu "riff" de guitarra, por vezes prolongado para um solo para cumprir calendário. Às vezes, fazem lembrar Queen ("Defetor"), outras U2 ("Mercy"), ou outra coisa qualquer que soe bem em estádio ou palco principal.
Ron Sexsmith - Caroussel One ****
Ron Sexsmith especializou-se em canções de pôr a cabeça no ombro. Coisas de embalar, nos melhores dias, ou de abalar, quando a coisa dá para o torto. Fá-lo com a segurança de quem começou cedo, aos 14, e foi ouvindo pelo caminho os discos certos para a tarefa a que meteu ombros: as melodias amorosas de McCartney, a poesia mais profunda de Tim Hardin, ou a ironia ácida de Ray Davies. "Sure As the Sky", que abre o disco, poderia ser, por exemplo, dos Kinks. Já "Loving You" ou "No One" vão beber à country, influência essencial para quem pratica este tipo de música. Mas a verdade é que, aos 51 e com 14 discos no repertório, o canadiano já conseguiu cunhar um estilo muito próprio, de que este CD é um excelente exemplo. As baladas são, como se calcula, a sua praia ("Nothing Feels The Same Anymore"), mas há aqui ritmo mais que suficiente para tamborilar os dedos enquanto se ajeita o ombro onde a cabeça vai encaixar.
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Ron Sexsmith
Leonard Cohen - Can't Forget (A Souvenir of The Grand Tour) ****
Este é o quarto disco ao vivo desde que Cohen voltou à estrada por motivos económicos (2009). Cinicamente, poder-se-ia dizer que está a fazer render o peixe. Aos 80, como se sabe, é tempo de preparar a reforma... Mas, na verdade, isto faz todo o sentido. Estes quatro discos ao vivo são até mais interessantes que os dois de estúdio que lançou entretanto (Old Ideas e Popular Problems). Digamos que esta é a fase da carreira de Cohen em que ele se descobre como animal de palco. Os concertos chegam a durar três horas, muitas canções são reencenadas e, acima de tudo, o homem diverte-se. Muito. Este CD é disso a melhor prova: metade das canções resultam de ensaios antes dos espectáculos e é aí que se sente o gozo deste conjunto de músicos ao testar novas maneiras de mostra velhas (e novas) canções. Inéditos, há dois blues. Versões de coisas alheias, também duas. O resto é Cohen vintage. O Sexo e a Idade poderia ser o título do disco.
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Leonard Cohen
Calexico - Edge of The Sun ****
Em "Miles from the Sea", o protagonista - sim, protagonista, as canções dos Calexico são histórias e têm protagonistas - fala de natação em sonhos, a milhas do mar. A música dos Calexico tem tudo o que cabe numa fronteira: a possibilidade de encontro, basicamente das sonoridades americana e mexicana, mas também o espectro permanente da desilusão, do desencontro. Quando te sentes em queda livre e não tens ninguém nem nada a que te agarrar, como em "Falling from the Sky", o tema de abertura, pop bem esgalhada, com uns sintetizadores muito malucos. Talvez nunca como neste disco o grupo tenha estado tão perdido, num quase frenesim de apostas. Sim, há pop, também em "Tapping on the Line", há latinidade em "Cumbia de Donde" e chega a haver reggae, em "Moon Never Rises", e há tudo muito bem costurado, como em "Beneath the City of Dreams". Há, é certo, uma sensação de falta de unidade. Mas talvez a perdição seja a bênção desta música.
Sufjan Stevens - Carrie & Lowell *****
Este disco deveria ser impossível de se ouvir. Apenas massas dissonantes de som agonizante, notas angustiadas, vozes torturadas. Há, é verdade, um tema cuja paisagem sonora se aproxima desse abismo, "Blue Bucket of Gold", a encerrar. Mas o resto é até agradável de se ouvir, se não prestarmos atenção aos fantasmas que espreitam a cada verso. Ao sétimo disco, Sufjan Stevens decidiu exorcizar a memória da mãe, alcoólica e esquizofrénica, que abandonou repetidamente os dois filhos na infância, e que morreu em 2012, com Sufjan à cabeceira rendido a um inevitável amor. Entre os dois momentos, há pouca luz e muito sofrimento, à parte umas imagens amarelecidas de idas à praia no Oregon, com a mãe e o padrasto, a Carrie e o Lowell do título. Sofrimento que passa por insistentes tentativas de suicídio e uma redenção através da fé. Paradoxalmente, os frescos que Sufjan nos mostra desta sua caminhada pelo Inferno são serenos, coloridos, quase alegres. O registo está nos antípodas dos discos que lhe conhecemos, seja no som quase sinfónico, seja na electrónica. Aqui impera a inspiração folk, em tom muito sereno e melódico, de que "Eugene" será o tema mais exemplar, na austeridade do dedilhar de uma guitarra acústica. A electrónica surge, de maneira discreta, em forma de mero sublinhado, como em "All Of Me Wants All Of You", ou mais dominante, embora subtil, como em "Fourth of July", o tema que descreve a morte da mãe. E há temas que têm de tudo um pouco, de delicadeza barroca, como "Should Have Know Better. Sufjan pode ter assinado aqui um dos melhores discos da sua já faustosa carreira, o que não deixa de ser... incómodo, se tivermos em conta a matéria prima.
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Sufjan Stevens
Gregory Porter, Coliseu 9 de Junho
A graça de Gregory Porter está no sucesso sem concessões. Irrompeu na cena musical há cinco anos, portador de uma voz de respeito e de um estilo todo ele ancorado nas origens, e alcançou um muito razoável sucesso comercial sem abdicar dessa marca inicial, sem entrar pelas vias do delicodoce, tão comuns a parceiros desta área, ou outros truques apontados às tabelas de vendas. Quando o ouvimos, ainda ouvimos as canções de trabalho dos escravos, o gospel das igrejas americanas, o blues dos campos de algodão e das cidades do álcool, ou a soul e o R&B dos anos 50 e 60, tudo isso estruturado em torno de um jazz clássico e sofisticado. O mérito vai para a voz, claro, um barítono com grande elasticidade, também para os músicos que o acompanham – nota relevante para o saxofonista Yosuke Sato -, mas acima de tudo para as canções. A par das obrigatórias versões, Porter tem vindo a gravar alguns temas que poderão, eles próprios, vir a integrar o repertório dos grandes standards, de que “Painted on Canvas”, com que tem aberto os concertos desta digressão, será um dos melhores exemplos. Porter e a banda têm um apurado sentido do espectáculo, mas isso o público português já sabe, tal tido sido a rotação por estas bandas.
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Gregory Porter
De tuk tuk no Parque
Entrei Feira adentro a bordo de um tuk-tuk. Visualizem a cena em quadrinhos de BD, sff. Gosto de imaginar a Feira como um daqueles bairros pelos quais adoramos passear nos calores de Junho e, nos dias que correm, como sabem, bairros de Lisboa só de tuk tuk. Avancemos, portanto. Antes de cheirar o primeiro livro - é verdade, várias pessoas cheiravam os livros nos alfarrabistas... -, a primeira tangente com um 'runner' (conhecem? antes faziam 'jogging'). Bela ideia. E que tal uma meia maratona Feira do Livro? E ainda antes de cheirar o primeiro livro, a primeira desilusão: este é o único bairro de Lisboa que não cheira à sardinha assada da época. Cheira a churros, cheira a cebola frita, a algodão doce e a leitão (!), mas não a sardinha. Vá lá perceber-se o preconceito. E poderia cheirar a muito mais coisas boas de chorar por mais, se as bancas tivessem cheiro. Ficamos, aliás, com a ideia de que era condição de admissão que as editoras tivessem pelo menos um livro de culinária. E há mesmo um salão de show cooking (!) ao fundo do parque - não tem nada que enganar, é mesmo ao lado do pavilhão do papel higiénico, bem nas traseiras do Marquês. De resto, a Feira cumpre o cliché e está igual a si própria. Um tédio para os intelectuais, para quem falta sempre um 'je ne sais quoi', uma excitação para casais da classe média ascensional (sim, a crise não acabou com eles) e com filhos em idade escolar que ensacam como se não houvesse amanhã. Um desses casais chegou a tentar sacar-me o tuk tuk para levar os livros. É o sacas!
Positivo:
Passear e namorar nas laterais do Parque em noite amena, sob a protecção da Feira
Negativo: A inclinação do terreno, sem resolução ao fim de tantos anos. Torna o passeio cansativo. Mas a vista é bonita
Sugestões: Vale a pena consultar o site antes de ir: estão lá os livros do dia Na última hora (a partir das 22 ou das 23, conforme os dias), há editores que baixam muitos os preços
Mazgani - Lifeboat ****
O que ouvimos quando ouvimos uma canção? Ouvimos a canção, certamente, a sua essência, mas ouvimos também a sua circunstância: a voz, os instrumentos, o modo como tudo se conjuga, o ar do tempo que a ela se agarra. E ouvimos também, nas canções, a nossa voz interior, o modo de ouvir que faz com que uma canção possa ser uma e tantas coisas, conforme quem a ouve. Este quarto disco de Mazgani é uma excelente proposta para o jogo de ouvir canções. Pegue-se no disco e ouça-se a canção número 3, sem tratar de saber previamente o que se vai ouvir. É possível que, passados os primeiros 70 segundos, o verso "these arms of mine" diga alguma coisa a algumas pessoas, mas também é provável que outras tantas não cheguem a perceber que estão perante um dos maiores êxitos de Otis Redding. A soul vibrante é trocada por um blues, arrastado primeiro, angustiante no final, que desfigura totalmente o original. De certa forma, já não é mesma canção que ouvimos... Mas, no tema seguinte, "Love Me Tender", a voz de Mazgani, em registo quase improvisado, remete-nos claramente para Elvis. Mais à frente, o gospel de "Cannan Land" dá azo a algo completamente diferente (e muito bom), para logo de seguida um tema de Cohen ser simplesmente... Cohen. Ou seja, o tratamento a que as canções são sujeitas não obedece a qualquer outra ordem que não seja a voz/vozeirão de Mazgani e a base de blues que, de resto, é a marca de toda a sua obra. Esse trabalho de apropriação faz-se sobre um corpo relativamente disforme, que vai de PJ Harvey a Chavela Vargas, de Cole Porter aos Bee Gees, e que funcionará como homenagem às principais influências, mas também como manobra para incorporar estes "corpos estranhos" na narrativa em nome pessoal que este iraniano a viver em Portugal encontrou nas raízes da música anglo-saxónica.
Van Morrison - Duets ***
Discos de duetos tipo chuva de estrelas raramente resultam. Talvez pelo cerimonial associado, talvez porque todos se sentem na necessidade de demonstrar que estão ali por uma razão, resultando daí uma boa dose de artificialismo. A incursão de Van Morrison por esse território não é a excepção que confirma a regra. O melhor do disco ainda são as canções, todas da zona menos conhecida da obra de Morrison... e a voz do próprio. Aliás, com alguma dose de maldade, poder-se-ia concluir que engendrou este plano apenas para demonstrar a sua superioridade face a muitos dos convidados. Claro que Mavis Staples, Bobby Womack, ou mesmo Michael Bublé, por exemplo, fazem (bem) o que deles se espera. Na verdade, nem são eles, os convidados, o que mais desilude, mas sim o tom demasiado ligeiro das abordagens musicais, bem longe da intensidade blues e folk que associamos a Morrison e que, aqui, quase só a sua voz transmite.
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Scott Matthew - This Here Defeat *****
Prometer não chorar e quebrar em lágrimas. Virar as costas e continuar lá. São assim as melhores canções de amor, as que se perdem nos territórios da impossibilidade. Scott Matthew tem pergaminhos nesse labor de explorar os prazeres da dor, mas este quinto disco traz algumas novidades. É certo que ainda há temas, como "Here We Go Again" (belíssima balada, a remeter para as colaborações com Rodrigo Leão), ou mesmo o minimalismo depressivo de "Soul To Save", que mais não são que sal deitado em feridas. Mas "This Here Defeat" é já um grito contra a melancolia, num registo surpreendentemente pop, e "Bittersweet" transforma mesmo a separação (é disso que se trata...) em algo assobiável e até dançável. A voz sofrida de Scott ainda é dominante, mas a chegada fulgurante das guitarras, teclas e percussões é decisiva para a mudança de paisagem. O disco, de grande elegância na composição e produção, equilibrado na diversidade, foi gravado em Lisboa, mas isso não se nota.
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José Cid - Menino Prodígio ***
Qual o contrário de xenofobia? Ah, pois é... José Cid e mais uns tantos, da mesma geração e de outras que se lhe seguiram, são vítimas dessa xenofobia ao contrário. Do desprezo pelo que nos é próximo. E também da ausência de uma verdadeira industrial musical. Não custa muito adivinhar que este disco vai ser mais uma vítima dessa aversão pelo que é nosso. Porque José Cid faz tudo certo. Pega em dois músicos e vai para um estúdio analógico, agora tão na moda, gravar 13 canções que nos transportam no tempo para o início dos anos 70. Não faltam dois inéditos dessa altura ("Blá!, Blá!, Blá!" e "Monstros Sagrados"), uma versão ("I Don't Wanna Miss a Thing", dos Aerosmith) e um poema a sério ("Os Poetas", de José Régio). O som é o rock de raiz beatleana, o tom é inconformista, próximo do canto de protesto. A grande pedalada dos músicos, quase faz esquecer a fragilidade da voz de Cid... Falta-lhe, porém, o glamour das grandes estrelas "lá de fora".
Yusuf - Tell 'em I'm Gone ***
Eis alguém que parece levar demasiado a sério aquela história de os gatos terem várias vidas. Nascido Steven Demetre Georgiu, foi como Cat Stevens que, nos anos 70, se tornou conhecido com baladas pacifistas. No final da década, converte-se ao islamismo e passa a ser conhecido por Yusuf Islam. Grava uns discos religiosos, envolve-se em polémicas (Salman Rushdie) e... cala-se. Em 2006, deixa cair o Islam das capas dos discos e regressa à música profana. Com o CD e vinil que agora assina, faz a quadratura do círculo: homenageia os blues e a folk que o inspiraram no início da carreira e consegue insuflar-lhes algumas doses de islamismo. O resultado não é grande coisa, nem tanto por esse difícil casamento, mas antes pelas óbvias limitações de voz, totalmente inadequadas ao blues (ouça-se "Big Boss Man"). Salvam-se as baladas mais folk ("Cat andThe Dog Trap"). Rick Rubin assina uma produção rotineira.
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Capitães da Areia - A viagem a bordo do Apolo 70 ****
Os anos 80, os Heróis do Mar, os Sétima Legião, José Cid, Toy (sim, esse), Rui Pregal da Cunha, Lena d'Água, Miguel Ângelo (sim, esse). E Samuel Úria, Tiago Cavaco, Capitão Fausto, Mel do Monte, Tiago Bettencourt. E as Adufeiras de Monsanto e Tiago Pereira. E (oh, não...) o Bruno Aleixo e a porteira do Lux. E, claro, Manuel Fúria. Ficou alguém de fora? A coisa é, convenhamos, um pouco demencial. No bom sentido, como se costuma dizer. Este é um dos projectos mais loucos da música portuguesa e - há que dizê-lo - dos mais bem conseguidos. Muito influenciadas pelos anos 80, portugueses e não só (sintetizadores a rodos), mas também pelo folclore e até por África, estão aqui algumas das canções mais vibrantes da pop portuguesa actual. Sim, pop. Canções bem dispostas, sem complexos, para dançar, sonhar, etc. Este é o segundo disco dos Capitães e as rádios bem podiam dar alguma atenção a este antídoto para a habitual neura nacional.
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José González, 19 Fev CCB
O Facebook de José González tem andado agitado. Os anúncios relativos ao lançamento de um novo disco, esta semana, são entrecortados pela marcação de novas datas para as digressões deste ano, na Europa e nos EUA, a que se segue a notícia de que há datas esgotadas e vem aí novo concerto. Isto diz bem da popularidade que González tem granjeado nos dois lados do Atlântico, facto espantoso, se tivermos em conta que o último disco a solo deste sueco de ascendência argentina (In Our Nature) data de 2007 e que, antes desse, apenas gravara outro de grande fôlego (Veneer, 2003). Entretanto, tem feito circular a banda Junip, também ela com discografia esparsa. A verdade é que há um bom mercado para esta música, que nos obriga a fazer um intervalo na azáfama do dia-a-dia e ficar simplesmente a ouvir. E talvez meditar, que Gonzalez é músico que gosta de pensar e fazer pensar. Fá-lo, aliás, da mesma forma minimalista com que pratica a música: umas frases fortes, soltas, entre a reflexão sobre "o que fazemos aqui" e um incitamento a que façamos alguma coisa por nós. É assim com Vestiges & Claws, o novo disco, em que o minimalismo ganha ritmo e intensidade, à custa de mais guitarras, coros e percussões. Sem perder a cor intimista que é a marca de água de González.
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Bob Dylan - Shadows In The Night ****
Na única entrevista que deu a propósito deste disco, Dylan afirma que o seu propósito era manifestar respeito por canções que, ao longo dos anos, foram sendo desrespeitadas. Dito de outra forma, não tinha pretendido fazer "covers" (expressão inglesa utilizada para "versões", mas que também significa "cobrir", ou "tapar"), mas sim um trabalho de "uncover" (descobrir), ou seja, regressar à essência das canções. E é disso que se trata, num exercício que não pode deixar de lembrar as "Basement Tapes" (de 1967, mas reeditadas em pleno em 2014), em que o mesmo exercício foi realizado sobre temas folk. Agora, o repertório assenta em standards de duas fases da carreira de Frank Sinatra: o início, nos anos 40, e a década deslumbrante, mas profundamente melancólica, do "regresso" nos anos 50. Estamos, pois, perante um corpo de canções que versam as vicissitudes do amor e que deixa de fora o lado mais luxuriante e conhecido da Voz. E é, de facto, com respeito, mesmo com solenidade, que Dylan ataca estes dez temas. Na voz pausada, obviamente nada a ver com Sinatra, mas também nada a ver com o Dylan mais entaramelado de outras épocas, em que cada sílaba é audível e fica frequentemente suspensa, confundindo-se com os discretos traços de metais (trompete e trompa) ou do choro da pedal steel guitar. Aqui não há pequenas ou grandes orquestras, nem sequer piano, e a bateria é usada com extrema discrição. Toda a carga emotiva é colocada na letra das canções, de certa forma reafirmando a importância que a palavra sempre teve em toda a sua obra. Mas, reconheçamos, apesar de Dylan dizer o contrário, estas são canções que já foram muito bem interpretadas, restando agora saber se este exercício principalmente simbólico será compreendido pelo comum dos mortais.
Jamie Cullum - Interlude ****
O flirt teria que dar nisto. Década e meia e sete discos passados, Jamie Cullum grava um primeiro CD de jazz. Aqui já (quase) não há pop, nem electrónica, nem truques. O disco foi gravado com todos os músicos em estúdio, de forma analógica, numa homenagem assumida ao jazz dos anos 30/40. O produtor e os músicos foi-os conhecendo Jamie através do programa de jazz que conduz na BBC. O que há aqui de pop são duas canções, uma de Randy Newman ("Losing You"), mas especialmente outra de Sufjan Stevens ("The Seer's Tower"), que resistem à avalanche do swing. Curiosamente, "Lovesick Blues", um dos hinos country de Hank Williams, surge completamente transfigurada e alinhada com os clássicos de Gillespie, Ray Charles, Cannonball Adderley, que são o prato forte do disco. Destaque ainda para os dois duetos: com Laura Mvula, em "Good Morning Heartache", e Gregory Porter, num surpreendente "Don't Let Me Be Misunderstood".
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Jorge Palma - CCB, 28 Jan.
"Bairro do Amor" é um disco de viragem na carreira de Jorge Palma. Lançado em 1989, ele representa o fecho de um ciclo, iniciado em meados da década anterior. Foi uma época de descoberta, de improvisos, de grande espontaneidade. A criação de uma imagem de marca, desalinhada, inconformada, aventureira. Com "Bairro do Amor" parecia chegar uma idade mais adulta, mais pensada, menos improvisada e mais trabalhada. Era também um disco de ressaca dessa época, entre a melancolia e a necessidade de continuar. O disco revisita algumas canções antigas - por exemplo, a que dá título ao disco e que já surgira no segundo de originais, "Té Já", de 1977 - e lança pistas que serão exploradas depois - "Só" daria origem a um outro disco. Dele constam canções que acompanharão o artista para o resto da vida, repetidas em todos os espectáculos: o tema título, "Dá-me Lume", "Frágil"... Palma compõe, toma as rédeas da produção, convida amigos para acompanhar, faz tudo com tempo. Pelo meio, a sua editora recusa a ideia e o músico é obrigado a encontrar outra. Mas a aposta foi claramente ganha: "Bairro do Amor" é referido em todas as listas como um dos melhores discos de música portuguesa. Estranhamente, ou talvez não, a promessa acabou por não se cumprir e Palma manteve-se praticamente afastado dos estúdios na década seguinte. Esta comemoração dos 25 anos desse disco histórico (entretanto reeditado, com extras), em vários palcos do país, é também pretexto para celebrar uma carreira peculiar e uma voz influente da música portuguesa.
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Mimicat - For You ***
A chamada música popular, em sentido lato, tem essa coisa maravilhosa: estabelecido o paradigma, basta aprender inglês e qualquer um, em qualquer parte do planeta, passa a praticante e aspira a estrela. Pop na Escandinávia, rock no Barreiro. E jazz em Coimbra, com Marisa Mena, aliás Mimicat. Após passar pelos Casino Royal, juntou-se ao produtor e arranjador Sérgio Costa (Belle Chase Hotel, Real Combo Lisbonense) para esta primeira aventura discográfica. O resultado final é satisfatório: as canções cumprem, a voz idem, os instrumentos ibidem. No entanto, da audição das 14 (!) canções pouco fica, além da competência. Não há um tema que resista no ouvido, um golpe de asa numa canção que nos prenda, uma infracção à regra que nos faça voltar atrás e tentar perceber o que se passou. Tudo demasiado linear e óbvio. E, aparentemente, material e meios até os havia. Assim, ainda corre o risco de a confundirem com a Áurea...
Robert Plant - Lullaby and The Ceaseless Roar ****
A declaração de princípios está em Raising Sand, o disco que Plant gravou, em 2007, com Alison Krauss. A vida pós-Led Zeppelin, após hesitações q.b., haverá de ter uma base folk muito evidente, camadas de electrónica não muito intrusivas e explorações étnicas variadas. Foi assim em Band of Joy (2010) e é assim agora. O mais engraçado disto tudo é que, parecendo estar a fazer diferente, e tendo mesmo resultados muito diferentes, esta não deixa de ser a boa e velha receita dos Zeppelin - parecendo outra coisa (hard, metal), na prática, o que eles praticavam era muito blues e algum folk. Exemplo perfeito desse movimento é "Pocketful of Golden", em que quase conseguimos ouvir uma actualização dos Zeppelin, mas agora com tons de trance. Ou "Turn It Up", que, apesar de começar com uma imitação perfeira de Tom Waits, rapidamente evolui para esse passado. Na prática, o que Plant está a fazer é a tornar evidente que não, não precisamos nada de ressuscitar os LZ.
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Leonard Cohen - Live in Dublin ****
Poucas manifestações artísticas se assemelham tanto a uma cerimónia religiosa como os concertos de Leonard Cohen. A religião é, aliás, um tema recorrente na obra deste judeu irrequieto, errante na busca do Sublime, seja pelos caminhos explícitos da espiritualidade, seja pela via, talvez menos evidente, da música. São muitas as canções em que a inquietação religiosa se cruza e se confunde com o amor e o sexo, sendo mesmo essa uma das linhas de força da sua obra poética. Nos concertos ao vivo dos últimos anos, há uma liturgia tácita, assente em Cohen, mas que envolve músicos, coro e espectadores, que em nada fica a dever à dramaturgia dos ofícios religiosos. Na atitude do cantor, no modo como entoa de olhos fechados ou fixos no infinito, no contraponto com as coristas, na forma como pastoreia e espalha a fé, perdão, a música e a poesia entre o seu rebanho. E talvez isso nunca tenha sido tão evidente como nesta edição de 3 CD e um DVD, cada um deles com mais de três horas de música, pelas quais passam os sucessos de uma carreira. Esta edição não deixa de ser surpreendente, se tivermos em conta que se trata da terceira gravação ao vivo no espaço de cinco anos, certamente ditada pela mesma necessidade de fazer dinheiro que levou Cohen a percorrer intensamente os palcos do mundo. Esta grande rodagem ao vivo está a ter o mérito de fixar uma leitura interpretativa, especialmente na parte instrumental, de uma obra relativamente instável nesse campo. Um cânone baseado em pequenos ensembles, predominantemente acústicos, centrados na tradição americana (blues, country), mas também devedores da herança europeia (cigana, latina). A poesia, que sempre foi o forte de Cohen, encontra finalmente uma companhia musical estável.
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Scott Matthews - Home Part 1 ****
Tomar um chá entre cada gravação e depois voltar a gravar tudo outra vez, até que soe perfeito. É mais ou menos assim que Scott Matthews descreve algures o processo de gravação deste Home Part 1, totalmente registado num estúdio caseiro, sem produtor ou sequer engenheiro de som. O processo de aprendizagem tomou-lhe três anos e o resultado, felizmente, não é perfeito. Felizmente, porque a tendência para o virtuosismo de quem pega numa data de instrumentos - embora alguns amigos tenham aparecido com outros - e, de forma quase obsessiva, trabalha os temas com a dedicação que se adivinha ao ouvi-los poderia afogar o projecto em tiques e maneirismos. Falta, é certo, alguma energia, algum tema mais animado, para quebrar o tom demasiado linear de dez canções em tom de balada, quase sussurrada. A folk é a grande influência de Matthews e há quem o compare a Jeff Buckley, mas se há coisa que este quarto disco veio mostrar é que estamos perante uma voz única. Única, a voz propriamente dita, macia e quase encantatória; única, também, a sensibilidade e a delicadeza da composição. "Running Wild", "The Outsider" e "The Night Is Young" são exemplos dessa perfeição que nos agarra em círculos. O instrumental "The Clearing" é um bom exercício, mas anda perto de cair para um certo barroquismo. E há a espantosa "86 Floors From Heaven", inspirada na famosa fotografia do suicídio de Evelyn McHale, publicada em 1947 por Robert C. Miles, na Life (vale a pena procurar no Youtube o vídeo oficial da canção). Um alerta duplo: não confundir este Scott com um outro que surge num dos discos de Rodrigo Leão, nem com o homónimo americano. Depois de ouvir será mais difícil confundir.
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