Só aparentemente é fácil este caminho que Melody Gardot percorre há uma década, do qual já resultaram quatro discos de estúdio e agora este duplo ao vivo, em várias cidades europeias, revisitação de uma carreira, em concertos realizados entre 2012 e 2016. Porque o jazz ligeiro - é disso que se trata - constitui um território pouco afirmativo, muitas vezes confundido com música de elevador ou de piano bar, fronteiras difusas com a folk ou a pop, um gato malhado que nunca de deixa apanhar. Gardot tem a virtualidade de quase nunca se deixar (a)trair pela facilidade. Infelizmente, para nós, “Lisboa”, do seu disco mais folk, é um desses casos, como aqui se prova numa gravação de 2015, em... Oeiras. No polo oposto, escute-se, por exemplo, o classicismo de “Deep Within The Corners of my Mind”, ou os improvisos vocais e instrumentais de “March for Mingus”. Ou a sensibilíssima versão de “Baby I’m a Fool”, em Londres.
Aldina Duarte - CCB, 6 de abril
O concerto do final do verão passado, no Largo de São Carlos, perdurará certamente na memória, pela comunhão da cidade com a sua canção, pela festa de verão que o fado também sabe ser. Mas é no CCB que o fado se dá especialmente bem, porque, apesar da desproporção espacial face às tradicionais casas e tascas, consegue um equilíbrio justo entre a intimidade e a ambição dos grandes palcos. Faz jus ao fado, no som e no recolhimento. Aldina Duarte regressa, pois, a essa outra casa de fado e novamente com histórias de amor, depois de ali ter apresentado, em espectáculo único, o ambicioso “Romance(s)”, com poemas de Maria do Rosário Pedreira. O regresso é com outra história de amor, agora em nome próprio e final trágico. E com uma outra escritora como musa inspiradora, Maria Gabriela Llansol, autora do primeiro livro que lhe ofereceu um amor que acabou sem aviso. O luto desse amor foi feito com os livros de Llansol, junto a uma árvore do Jardim da Estrela, dele tendo nascido dez poemas que, bordados com outros tantos fados tradicionais, deram origem a um dos discos mais aplaudidos de 2017. São fados que, ao invés de lamuriarem o brutal acidente da despedida, eternizam os momentos felizes, a que se juntam outro com letra de Maria do Rosário Pedreira e ainda um fado-canção de Manel Cruz (Ornatos Violeta). No CCB, a fadista faz-se acompanhar de Paulo Parreira (guitarra) e Rogério Ferreira (viola), com quem canta há 12 anos no Senhor Vinho e que com ela gravaram, em três sessões, o disco “Quando Se Ama Loucamente”. Pedro Gonçalves (Dead Combo), que produziu o CD, será outro dos convidados.
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PAUS - Madeira ****
Tudo gira em volta da bateria siamesa, seja quando se expõe em palco – e estamos perante uma banda de palco, de gestos largos –, seja quando a ouvimos, assim, em disco, sem descanso, sempre a bomb(e)ar, coração do sistema. Predomina, a bateria, mas não domina. Ou já não domina, como antes. As teclas, essas sim, exuberantes, assumindo várias, sucessivas e simultâneas formas, arriscam amiúde deixar tudo à beira do sufoco, mas é então que nos lembramos que tudo isto foi pensado para o palco e que, aí, faz todo o sentido. Esta é uma música que deve ao prog rock e ao kraut rock, mas que não se deixa aprisionar em classificações, apelando frequentes vezes à dança, como em “L123”, o tema mais apontado às rádios e tops, ou revelando mesmo longínquos ecos folclóricos (“A Mutante”), nos coros e na instrumentação. Na edição com DVD, a liberdade criativa da música encontra boa companhia nas paisagens inóspitas da Madeira.
Brandi Carlile - By the Way, I Forgive You ****
Um dos maiores contributos da country à música pop é aquele jeito de contar histórias com sentimento e uma moral. Os blues, mais sofridos, são também mais secos. Nada como a country para puxar a lágrima, frequentemente para lá do razoável, já na zona da lamechice. Isto, claro, quando não se tem bom gosto e bom senso. Brandi Carlile vem da country, tem muito senso e ainda mais bom gosto, é bem vinda na indie e sente-se muito à vontade na pop, como este sexto disco mostra de forma muito clara. As histórias que conta, sim é um disco de histórias, são densas, amargas, como a vida muitas vezes é. “Party of One” diz quase tudo no título e encerra o disco da melhor maneira, com cordas a grande altura e Brandi a levar ao limite o seu estilo interpretativo, a la Joni Mitchell, cheio de inflexões, projecções e falsettos. “The Mother”, num registo acústico e íntimo, e a perturbante “Sugartooth” são outros grandes momentos de um disco para o qual a etiqueta country é demasiado redutora.
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Franz Ferdinand - Always Ascending ***
O primeiro minuto e meio do disco parece um regresso dos saudosos Housemartins, dos anos 80, só que, quando esperamos que o a capella progrida, salta lá de trás uma caixa de ritmo endiabrada e mudamos radicalmente de território.
Percebemos que são os Franz Ferdinand porque os Franz Ferdinand soam a léguas a Franz Ferdinand mesmo quando não são exactamente os Franz Ferdinand de que guardamos boa memória. Porque, sejamos honestos, os FF nunca voltaram a ser aquela banda surpreendente, única, indispensável dos dois primeiros discos (2004 e 5).
Este quinto assalto, volvidos que são cinco anos de silêncio, umas mudanças na banda (troca de guitarrista, mais um guitarrista e teclista novo) e uma colaboração com os Sparks (“FFS”, de 2015), deixa-nos em território de alguma perplexidade.
Neste disco, como nos dois que se seguiram aos primeiros dois, a banda anda em círculos à volta dos conceitos que criou, deixa-se absorver amiúde pelas sonoridades da brit pop contemporânea (“The Academy Award”) ou retro (“Slow Don’t Kill Me Slow”), sem nunca realmente nos dizer nada de novo. A novidade, relativa diga-se, é a assolapada paixão pelo cruzamento da eletrónica com a pista de dança (“Feel the Love Go”, disco, disco, ou “Lois Lane”, mais na vertente funk, mas sempre com as teclas em evidência). Da verve original há um “Lazy Boy”, mais centrado nas guitarras que na electrónica, que sabe bem ouvir “em memória”, digamos.
Um disco que, por vontade própria, se deixa dançar muito bem, uma banda não necessariamente perdida, mas pouco afirmativa.
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Van Morrison - Versatile ****
Há pessoas, músicos também, que estão sempre lá, dos quais só nos lembramos muito de vez em quando, mas que estão sempre lá. Para o melhor e para o pior. Van Morrison é um desses músicos. Em 53 anos (!) de carreira, não há um disco seu que seja mau, ou até sofrível. E são muitos, quase 40, se não contarmos com os dos Them, no início de carreira. Todos discos acima da média, sempre disponíveis para que os ouçamos, resistentes às modas, perenes que nem rochedos. Van Morrison inventou um estilo, uma vocalização meio declamada meio improvisada, que espraia sobre orquestrações que tanto devem ao jazz, como ao blues e à música celta. Os últimos CD são quase excepção: este é só jazz, o anterior, de finais de 2017, era quase só R&B e blues. Dois terços de standards (Gershwin, Porter) , um terço de originais, sem surpresas, apenas o regular Morrison e um septeto com metais em destaque. Ou seja, a velha rotina, entre o bom e o muito bom.
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Medeiros/Lucas - Sol de Março ****
A memória que mais nos assalta durante a audição deste disco é a de José Afonso. Nada a ver com empenhamento político, apenas o posicionamento estético e o risco da criatividade. Como pegar em ritmos e sonoridades de vários quadrantes, África e América Latina à cabeça, fazer a ponte da tradição popular para a contemporaneidade, aqui vincada com um recurso repetitivo ao minimalismo, e tudo isso servido por uma graciosidade serena da voz, às voltas com versos que fogem da facilidade. Ouça-se, por exemplo, “Podre Poder” ou “Galgar”. Há umas décadas que não ouvíamos música assim, com esta sede de perfeição. Este é o terceiro de uma série de discos que Carlos Medeiros (voz) e Pedro Lucas (composição) iniciaram, em 2015, com “Mar Aberto”, dedicado às emoções, e prosseguiram, em 2016, com uma obra mais colada ao corpo, “Terra do Corpo”. Agora, com letras de João Pedro Porto, chegamos ao terceiro capítulo, centrado na razão. Filosofia aural.
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Medeiros/Lucas
Joan as a Police Woman - Damned Devotion ***
Ah, as agruras e belezas e contradições do amor. Poemas e poemas disto, livros, tratados e discos. Muitos discos. Joan Wasser, aka Police Woman, não faz outra coisa, há 12 anos e cinco discos, seis com este que agora se apresenta. “I’m told that wounds are where the light gets in”, canta Joan em “The Silence”, parafraseado Cohen, e fica feita a declaração de princípios sobre as águas em que se movem estas 12 canções. E se na temática tudo se mantém igual, já na frente estilística esta edição representa um regresso às orquestrações densas, pastosas, indolentes, depois da intensa luminosidade soul de “The Classic”, de 2014. A electrónica é o cimento que tudo agrega, quase rivalizando com a secção rítmica, em movimentos pendulares entre a recitação compassada e descargas catárticas (“Valid Jagger”). Sobre tudo isto, a voz, ou melhor, as vozes de Joan, em registos de uma elasticidade pouco comum na pop.
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Nadia Schilling - Above the Trees ****
Não viria mal ao mundo se este disco fosse promovido à boleia do sucesso de Salvador Sobral. Os fins justificam os meios e é de aproveitar, agora que os portugueses parecem estar disponíveis para ouvir canções, digamos, menos comerciais. A música de Nadia Schilling inscreve-se numa corrente – Márcia, Minta & The Brook Trout... –, em que melodia e melancolia andam a par, em que o intimismo das letras contracena com uma instrumentação muito cuidada e atenta aos pormenores. Ouça-se a subtileza do piano de Filipe Melo em “Gloom Song”, ou as guitarras, por exemplo, em “Bad as Me” ou “Misfire”. Mas ouçam-se especialmente as cordas em quase todo o disco (“Kite” é uma boa amostra), que paradoxalmente funcionam como elemento iluminador num disco que nasce de uma dor, a morte da mãe. Começo muito auspicioso em grande formato – e aqui vai bem um pouco de trivia – para esta arquitecta paisagista nascida há três década e meia nas Caldas da Rainha.
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Nadia Schilling
N.E.R.D - No One Really Dies **
Muita coisa aconteceu nos sete anos em que os N.E.R.D estiveram silenciosos. Na verdade, quando os N.E.R.D ainda estavam activos já muito coisa lhes passava ao lado, daí que esse derradeiro esforço, “Nothing” (2010), pouco ou nada conte para a história. Os “side projects” têm, normalmente, razões ou objectivos muito concretos. Este, de Pharrell Williams (Chad Hugo e Shay Haley desempenham um papel relativamente secundário, como fica evidente neste disco), era suposto funcionar como uma montra de algum virtuosismo de composição e produção, com epicentro no hip-hop e na electrónica, mas absorvendo tudo à sua volta. Ora, para projecto-montra, este CD é particularmente decepcionante, porque se trata de uma montra com produtos repetidos, gastos, em saldo. O início, com Rihanna (“Lemon), ainda promete, o funk de Kendrik Lamar (“Don’t Don’t Do It”) cumpre sem surpresa, mas o resto é demasiado “déjà” vu para justificar a quebra do silêncio.
Miguel - War & Leisure ****
Amor em tempo de guerra, de cólera. Ou guerra e diversão, na explícita crueza do título. A proposta de Miguel para estes tempos de mísseis e Trumps que nos atormentam é explicitamente erótica, nem tanto pela repetida utilização da f-word (“Come Through and Chill”), mas antes pela sensualidade que exala de toda a sua música. As guitarras deslizantes, insinuantes, a secção rítmica a chamar o corpo a todas as danças, a voz ora funda ora lânguida (“Wolf”). A música de Miguel insere-se, aliás, numa linhagem que remonta a Marvin Gaye, tem em Prince uma influência evidente (“Told You So”), e presta homenagem a nomes, como Stevie Wonder, que souberam cruzar o soul com o R&B – Prince e Wonder juntos, aliás, em “Pineapple Skies”, uma das canções mais luminosas de um disco que nunca soçobra aos tempos sombrios (“Now”). Este quarto registo do músico californiano é, sem complexos, um claro movimento num sentido mais pop, comercial. E, sem qualquer contradição, uma nova confirmação como um dos grandes compositores da actualidade.
U2 - Songs of Experience ****
A Rolling Stone considerou-o o terceiro melhor disco de 2017. Outros, especialmente os britânicos, declararam os U2 quase moribundos. É a vertigem das redes sociais – só podes ser besta ou bestial, não há meio termo – a contaminar a crítica musical (vidé os dois últimos anos dos Arcade Fire). Acontece que o mais recente dos U2 não se ajeita a essa moda. Na pior das hipóteses, será um disco médio, e poderíamos alegar a favor dessa tese com “The Little Things That Give You Away”, um preguiçoso pastiche dos tempos de Joshua Tree. Mas excepção é excepção e, na verdade, a maioria das canções aqui presentes são bem mais interessantes e até reveladoras de uma inesperada vitalidade, se tivermos em conta as hesitações (três anos...) que rodearam este disco. Canções pop, de puro divertimento, as melhores delas: “The Showman”, “Get Out of Your Own Way” ou “Summer of Love”, em que dificilmente a mensagem política (Síria) se sobreporá ao ritmo de dança indolente. Nada há aqui de novo, sim. Mas era suposto haver?
The Legendary Tiger Man - Misfit ****
Em 1961, John Huston foi ao deserto filmar a solidão, real e trágica, de três actores (Clark Gable, Montgomery Clift, Marilyn Monroe), em “The Misfits” (“Os Inadaptados”).
É também no deserto que Paulo Furtado põe em cena um novo alter ego, Misfit, para, nos dar a ouvir a solidão. Ou, no caso, o vazio, para o qual remete o documentário-ficção “Fade Into Nothing” que acompanha esta edição. Um diário, em forma de road movie, revelador do cenário, paisagístico e interior, em que foram escritas estas 11 canções.
Esqueçam os lençóis melódicos com que Ry Cooder nos dá a ouvir o deserto (em “Paris Texas”, por exemplo). Aqui, deserto é mais que solidão, é sol a pino (“Red Sun”), carne em brasa, buraco negro na alma (“Black Hole”). E isso pede, como pediu um dos coprodutores deste disco, Johnny Hostile (o outro é Dave Catching), “fucked up guitars” e “fat drum sounds”. E ainda toda a espécie de efeitos, distorções de voz e instrumentos, e “overdubs”, o que não é novidade com TLTM, a que se juntam – isso sim, novo – Paulo Segadães (bateria) e João Cabrita (sax).
O resultado é uma “wall of sound” suja, num regresso radical ao rock’n’roll, com variações de fraca amplitude ao longo de 40 minutos. “Fix of Rock’n’Roll” será a síntese mais feliz, e eventualmente comercial, a par do quase-funk quase-reggae “Sleeping Alone”.
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Foo Fighters - Concrete and Gold ***
Aos 20 segundos de “Sunday Rain” temos de ir confirmar se não há engano e não estaremos a ouvir uma das derradeiras canções dos Beatles. As coisas esclarecem-se rapidamente quando Dave Grohl abre a goela e o resto da banda acompanha sempre a abrir, sendo igual ao litro que MacCartney, o próprio, se esforce na bateria – qualquer um faria o mesmo. Os Foo Fighters sempre foram assim, pouco dados a pormenores, sempre mais apostados na massa sonora e nos seus efeitos nas massas. É certo que este disco abre espaço ao psicadelismo a la Pink Floyd (“Dirty Water”) e até a uma balada séria, daquelas que não cedem a guinadas sónicas (“Happy Ever After”). Mas é no exercício mais pesado que a banda nunca desilude, seja na balada de estádio (“The Sky Is a Neighborhood”), ou no verdadeiro catálogo de riffs, coros e rasganços de voz (“Run”). Nada muito diferente do começo, em 1994, nove discos atrás.
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Shania Twain - Now ***
Sejamos francos: é impossível lembrar Shania sem os vídeos a transbordar de sensualidade. Mas aquilo fazia sentido, batia certo com a alegria vibrante das canções. Estávamos nos anos 90 e tudo parecia possível. Por isso, Shania “That Don’t Impress Me Much” Twain vendeu milhões atrás de milhões de uma música de raízes country, em que valia tudo, dos adornos pop aos riffs da metal music. Mas, em 2002, tudo começou a correr mal: doenças, perda de voz e a separação do produtor Mutt Lange, cara metade do mega sucesso. Quinze anos depois, ei-la a reivindicar o trono entretanto ocupado por Taylor Swift ou Miley Cyrus. Como dizem os tabloides, continua sexy aos 50, mas (pelo menos) parte da magia quebrou-se. A alguma melancolia assumida pelos infortúnios do destino junta-se a involuntária falta de garra geral. Ou então talvez tudo resulte da frustração das expectativas- afinal, que esperar do regresso de uma rainha, após tão longa ausência?
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The Killers - Wonderful Wonderful **
Terão todas as canções já sido escritas? O título de uma das canções do novo dos Killers é uma boa questão, mas a banda não é propriamente conhecida por resolver os grandes problemas da filosofia e da indústria musical modernas. A banda de Las Vegas pratica um estilo de meia bola e força, com doses relativamente equilibradas de U2 (“Out Of My Mind” e a já mencionada “Have All The Songs Been Writen”), funk e disco (“The Man”) e ainda Springsteen e Fleetwood Mac um pouco todo o lado. O resultado é, quase sempre, uma música que tanto funciona no ambiente tonitroante dos estádios, como em não menos tonitroantes discotecas. A excepção (“Some Kind of Love”) tem a mão de Brian Eno e, obviamente, transporta-nos para atmosferas planantes. Este é o quinto disco dos Killers e põe termo a um silencio de cinco anos, que Brandon Flowers (ele “é” os Killers) aproveitou para (mais) uma aventura solitária.
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Lana del Rey - Lust For Life ****
Há um paradoxo incontornável em Lana del Rey. A sofisticação com que se apresentou, já lá vão quase seis anos, soava terrivelmente a falso, e isso afastou aqueles a quem as canções se dirigiam. Lana tornou-se um sucesso, sim, mas com o público errado. As comparações iniciais com Nico (!) e os desastres que foram as primeiras apresentações ao vivo fizeram o resto. Mas Lana é uma excepcional cantora da América, da sua iconografia, mitos e fantasmas. E uma mais que razoável autora de histórias, como este quarto disco, finalmente, demonstra. As orquestrações, até mais densas que o habitual, podem distrair-nos à primeira audição, mas procuremos essa tal Lana superior nos temas mais despidos, como “Cherry”, ou especialmente “Change”, e deixemo-nos convencer de que o paradoxo, ou talvez o preconceito, está mais em nós que nela.
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The Doors -The Singles *****
As publicações especializadas e os locais de venda da chamada música pop-rock têm por estes dias tantos discos novos como reedições dos mais variados tipos. Há razões para isso, que não vêm agora ao caso, mas nem sempre é fácil perceber o que vale mesmo a pena. Este duplo CD (triplo, se contarmos com o blu-ray disc quadrofónico) cabe claramente na categoria dos obrigatórios. Ele reúne todos os singles (lados A e B) da carreira dos Doors, com e sem Jim Morrison. Isto quer dizer que há aqui uma mão-cheia de canções à beira do disparate (que é aquilo do “Mosquito”?), daqueles dois anos (71 e 72), em que os Doors imaginaram (eh eh) que sobreviveriam ao génio. Mas há uma constatação bem mais relevante: expurgada das aventuras mais conceptuais e barrocas (os singles sempre foram o formato mais directo para os tops), a música dos Doors é basicamente blues. Sofisticados, mas ainda blues. Uns Doors em carne e osso, sem gorduras, portanto.
Yusuf - The Laughing Apple ****
De velho se torna a menino, como diz a tal sabedoria popular. E dessa viagem no tempo podem surgir surpreendentes e agradáveis coisas. Como este disco, com que Yusuf celebra os 50 anos de carreira de Cat Stevens. Após uma decepcionante contaminação da sua música pelas opções religiosas que tomou há uns anos, Yusuf celebra agora a inocência, a velha infância, das canções alegres e cantaroláveis que tornaram Cat Stevens famoso. Este disco não esconde ao que vem: metade das canções são novas, as outras são do início da carreira. E para tornar tudo ainda mais claro, o produtor é Paul Samwell-Smith e há Alun Davis na guitarra (, dois dos magos da era dourada. O balanço é muito positivo, com a recuperação daquele estilo solar, guitarra e voz sincopadas, entre a marcha e a cantilena infantil, que fizeram História. “Mary and the Little Lamb” e “See What Love Did to Me” são duas boas portas de entrada para esta aventura.
Pearl Jam - Let's Play Two ***
Em Novembro de 2016, os Chicago Cubs sagraram-se campeões de baseball, após um jejum de 108 anos. Tal feito nunca constaria da história da música moderna, não tivesse ele sido celebrado pelos Pearl Jam, com uns meses de antecedência. Este CD é a banda sonora dessa celebração, em duas noites de Agosto desse ano, no estádio do clube, o Wrigley Field. E é também a banda sonora do filme realizado então por Danny Clinch e que capta a banda num momento particularmente aconchegado, a jogar em casa – Eddie Veder é um fã confesso dos Cubs e presta-lhes aqui homenagem em “All The Way”. Sem novidade de maior (há os êxitos, como “Corduroy”, ou as menos conhecidas, como “Black, Red, Yellow” ou “Crazy Mary”), o disco serve fundamentalmente para matar saudades (o último de originais, “Lightning Bolt”, é de 2011) e aguçar o apetite para mais uma digressão com passagem em Portugal, em 2018.
Tiago Bettencourt - A Procura ****
O lado B – este CD tem dois lados, uma maneira de arrumar as canções – é mais denso, com as canções a deixarem-se envolver em sonoridades vastas, à proporção dos instrumentos. É aqui que podemos ouvir “Fogo no Jardim”, um canto de intervenção dos dias de hoje, atravessado por sons da filosofia de Agostinho da Silva e pelas declarações belicistas dos presidentes americanos. Mas é no lado A, mais intimista, que estão as canções que vale a pena memorizar. Canções intimistas, porque procuram, como diz o título do disco, mas também pela frugalidade instrumental. Basicamente, este é um disco fascinado pela eletrónica, sejam as caixas de ritmo, ou os omnipresentes sintetizadores. Um intimismo pop, por paradoxal que tal possa parecer. Há aqui pop da boa, da que vende (há lá pop que não venda...), bem escrita, bem produzida. Pelo menos os três primeiros temas do disco são, por isso mesmo, autênticos hits instantâneos.
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Tiago Bettencourt
Bonnie Prince Billy - Best Troubador ****
Certo, um disco de versões é sempre uma apropriação. A transfiguração do original pela lente de quem presta homenagem. O que Bonnie Prince Billy fez com Merle Haggard (1937-2016) é algo de bem mais radical. Ao deixar de parte alguns dos maiores sucessos da estrela grande da “country”, assim como as suas canções mais animadas, Bonnie reserva-nos um Merle muito parcial, muito ao seu jeito. Este é o Merle intimista, das canções de amor complexas, das reflexões sobre a existência. Junte-se a produção caseira, num registo quase ao vivo, as flautas e o saxofone que substituem os banjos a “pedal steel” e temos o cenário sobre o qual se desenvolve a voz serena e até sussurrada (“I Am What I Am”) de Bonnie. “If I Could Only Fly”, que encerra o disco, ou “My Old Pal” são dois dos temas em que o espírito deste disco mais se corporiza. O ADN das canções ainda é “country”, mas este disco já é outra coisa.
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Camané - Canta Marceneiro *****
Camané já cantou muitas vezes Marceneiro. Logo no segundo disco (1998), há um fado com música da Marcha do Marceneiro. Nisso, Camané não se distingue da maioria dos fadistas, já que quase todos acabam por interpretar temas com músicas do grande fadista, seja o Fado Cravo, o Fado Laranjeira, ou qualquer um dos fados com que Marceneiro ajudou a moldar o fado que hoje conhecemos. Mas Camané obrigou-se a esperar quase duas décadas, a amadurecer duas décadas, para verdadeiramente cantar Marceneiro. Ou seja, para cantar exactamente os fados que Marceneiro cantou. Com aquelas músicas, mas também com aquelas letras e, acima de tudo, com aquela alma.
Não se trata aqui de imitar ou emular Marceneiro, isso seria talvez mais fácil. O que Camané faz é recriar Marceneiro, propondo a sua própria interpretação, a qual, por ser tão íntima da original, acaba por se transformar na melhor das homenagens. Essa é a primeira vitória deste disco, sendo a segunda a coragem de cantar em 2017 estes versos arrancados à boémia, às casas de fados e a uma mundividência da primeira metade do século XX, em que – imagine-se – ainda havia mundo rural (“Quadras Soltas”), ciganos “alquiladores” que “roubavam” camareiras e até mesmo jovens pintores que pintavam na rua retratos das suas prostitutas mães (“Bêbado Pintor”). São quadros quase arqueológicos que convivem com os temas mais eternos do amor e do engano (“Olhos Fatais”) ou da tal tão nossa saudade (“Despedida”). E depois há essa pequena e pouca conhecida pérola que se chama “O Remorso” (interpretação vocal e instrumental superiores) e ainda outra, “Lembro-me de Ti”.
A capa de Siza Vieira ou o dueto com Carlos do Carmo são já bónus num disco perfeito.
Marco Rodrigues - Copo Meio Cheio ****
Preconceito nenhum. Há fado fado, há canções quase pop que parecem fado, há fados tradicionais com letras nada convencionais, há fados quase sem guitarra portuguesa, e por aí fora. O quinto disco de Marco Rodrigues revela um artista plenamente seguro de si, capaz de ignorar todas as fronteiras e ficar à vontade na mesma. A ideia de trazer outros instrumentos para o fado já vinha de trás (aqui, o acordeão em “Fado do Cobarde”, ou o piano e a harmónica em “O Amor Desacontece”). A novidade agora é trazer para o fado autores que nunca nele haviam sequer pensado. E há de tudo: um verdadeiro fado escrito por Agir (“Por Ti”), uma canção pop com nada de fado, pelos Amor Electro (“Copo Meio Cheio”). E as letras inesperadas, com rimas de “swag” e “biscuit, de Luísa Sobral, Carlão ou Capicua, para velhos fados tradicionais. Surpreendente, como permite o fado tanta liberdade e criatividade e mesmo assim ser fado.
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Marco Rodrigues
Cage The Elephant - Unpeeled ***
Americanos do Kentucky, os Cage The Elephant conquistaram a Inglaterra com um som meio garage, meio punk. Ou seja, com guitarras e secções rítmicas sem contemplações. Este disco é, porém, algo completamente diferente: a banda decidiu fazer uma digressão acompanhada por um quarteto de cordas e com as guitarras em registo comedido. Estão lá, são importantes, chegam a impor-se, mas nunca esmagam. O resultado é muito interessante, mesmo para quem não esteve particularmente atento aos cinco discos anteriores, um deles ao vivo, aliás como este, embora possa não parecer à primeira vista. Faltam por vezes os aplausos e o ambiente, mas as interpretações, apesar de perfeitinhas, não enganam. Neste registo, assemelham-se muito aos Kinks, até pelo sentido de humor. A revisão dos principais temas, sem a canga instrumental, acaba por mostrar uma banda de qualidade de escrita acima da média. Com um agridoce muito britânico, lá está.
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Mazgani - The Poet’s Death ****
Se a música tivesse tradução visual, a de Mazgani neste disco seria algo como pequenas luzes, traços, outras e maiores luzes, cores tracejadas, interrogações no escuro. No azul escuro da noite, tal como na capa de Michelle Henning, designer de eleição PJ Harvey, que assim se cruza mais uma vez com a voz deste iraniano de Lisboa. Este é um regresso às canções em nome próprio, depois da bem-sucedida aventura das versões de “Lifeboat” (2015). Um regresso ao blues seminal, sem grandes artifícios, só ritmos e guitarras vincadas, ora lancinantes ora de embalar. Uma tensão sonora com tempo para se espraiar. Dez temas em busca da alma (“The Traveler”), com mais perguntas que respostas (“Saint of All Names”), talvez com um pouco mais de espiritualidade do que antes (“Breath of Gold”). E depois, a fechar, “The Faintest Light”, delicadíssima balada, cordas em crescendo, abrindo caminhos de luz na noite escura e azul.
Lizz Wright - Grace ****
Lizz Wright é uma daquelas vozes capazes de transformar a mais banal das canções numa oração, um exercício com tanto de religioso como de carnal. Não é o caso, no que respeita às canções, entenda-se. Joe Henry, o produtor, um homem de tradições, terá sugerido 70 canções, das quais Lizz escolheu nove, juntando-lhes mais uma, que assina em co-autoria. São temas que atravessam um século de música americana, do gospel aos blues, ao country e ao R&B. Dylan, Ray Charles, k. d. lang, Rose Cousins são alguns dos autores que por aqui passam. Lizz e Joe apropriam-se de cada canção e encenam pequenos momentos de magia. “Grace”, por exemplo, começa da forma mais subtil possível, com a voz no centro do palco, para mais tarde receber um coro que entra de mansinho e evolui para um sonante, embora contido, gospel. Ao sexto disco, Lizz Wright continua sem um minuto, um segundo, de deslize. De uma elegância intransigente.
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Ringo Starr - Give More Love **
E tu, diz lá, se fosses um ex-Beatle, que farias tu? Sim, dá para viver, upa upa, dos rendimentos. Mas depois há aquele tédio de ficar todos os dias pasmado a ver o sol mergulhar no mar... Vai daí, chamas os amigos, gravas umas canções, divertes-te (mas, atenção, nada de exageros...), ganhas mais uns cobres, porque, convenhamos, um disco de um-Beatle vende-se, mesmo que a embalagem venha vazia. E depois, oh luxo, até podes fazer umas digressões, para te divertires (sim, sem exageros...) e, isso mesmo, ganhar mais uns cobres. Tem sido esta a vida e obra de Ringo Starr, um rapaz que canta mesmo sem voz, e que tem, vá lá, a quarta classe completa na categoria dos bateristas. Este é o 19.º disco do artista, não muito diferente do primeiro: rock’n’roll, blues, country, amigos (McCartney), interpretações competentes (menos a voz, claro). A cada disco, Ringo consolida a invejável posição de quarto Beatle. Não é para qualquer um.
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LCD Soundsystem - American Dream ****
“American Dream”, a canção, sintetiza a coisa: a electrónica é planante, borbulhante por vezes, e há mesmo coros doo woop a envolver a voz de quase crooner de James Murphy. Como numa valsa pós-moderna. Mas a melodia rima com melancolia. E do que a canção fala mesmo é da passagem do tempo, dos sonhos que envelhecem connosco. Podemos passar a noite a dançar, por exemplo ao som dos LCD Soundsystem, e até misturar ácidos com revoluções, mas o que o espelho da manhã nos devolve é mesmo a idade.
A música de Murphy teve sempre esse sabor agridoce tão típico de Nova Iorque. Este quarto disco em 15 anos não é excepção e até talvez acentue esse desencanto. Trata-se de um regresso após cinco anos de silêncio, iniciados com um memorável concerto de despedida... E o mais importante que há a dizer é que “American Dream” mantém a banda na linha da frente do melhor que por aí se faz. Ou seja, o quarto disco de uma série indispensável para entender a música contemporânea. Nem tudo passa por aqui, é certo, mas poucas músicas sintetizam tão bem a ilusão e desilusão deste início de milénio.
Os LCD Soundsystem continuam a ser James Murphy, que escreve todos os temas, canta e toca uma miríade de instrumentos, eletrónicos quase todos. A frieza e o esquematismo, a lembrar por vezes os Kraftwerk (“How Do You Sleep”), são temperados por secções rítmicas e guitarras eléctricas (“Emotional Haircut”), embora nem mesmo elas consigam sempre quebrar o gelo.
Das muitas referências musicais que por aqui passam, vale a pena registar as que abrem e fecham o disco: “Oh Baby”, uma quase homenagem aos Suicide, de Alan Vega (“Dream Baby Dream”), e “Black Screen”, uma longa e muito pessoal despedida de David Bowie, à volta de cuja influência se constrói, aliás, outra canção: “Call The Police”.
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John Legend, Meo Arena 14 out
“All Of Me”, o megassucesso de 2013, poderá dar origem a alguns equívocos. John Legend é um poderoso cantor de baladas, daquelas que se cantam sonoramente. Algo muito semelhantes a uma Adele de voz (ainda) mais grave. Em abono dessa tese, há no disco mais recente (“Darkness and Light”, de 2016) uma canção (“Love Me Now”), que mais não é que uma tentativa de aproveitar a embalagem comercial desse sucesso que atirou Legend para a fama. Há até a coisa matreira de incluir umas linhas de piano em tudo idênticas... Mas “Darkness and Light”, a começar pelo título, é um disco bem mais complexo que essa abordagem melosa, revelando um artista que não se deixa engaiolar nessa aproximação simplista. É um disco verdadeiramente, de sombras e luz, de amor em tempos de guerra, se quisermos. A canção para a filha (“Right By You”), com ternura tintada de angústia por um futuro tão incerto neste planeta, ou a história de uma mera operação stop na estrada (“How Can I Blame You”), metáfora para a violência policial com motivações racistas. Complexidade que se revela também nas texturas musicais, como no groove de “Penthouse Floor”, a milhas da rotina das baladas bem comportadas. Longe vão os tempos em que Legend era um protegido de Kanye West, conforme atestam os muitos Grammys e mesmo o Oscar entretanto amealhados. Face a alguma futilidade reinante, apresenta-se, portanto, um artista adulto, em toda acepção da palavra.
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