Alicia Keys


Alicia Keys toca piano e isso faz toda a diferença. O piano, de raiz clássica, confere-lhe um estatuto à parte, de uma certa superioridade, nos meios R&B, hip-hop e neo-soul em que se move. Isso começa por se notar nos discos, em que as teclas chegam a declinar um ou outro tom mais clássico. Ao vivo, o piano como que dispensa das encenações e danças musculadas, como, por exemplo, as de Beyonce.
Essa classe de Alicia tem, no entanto, um senão - a frieza, tanto mais estranha quanto estamos num estilo musical em que tudo é calor, a começar pelo humano, tudo é expansivo. Alicia leva tanto a sério a sua música, que se “esquece” de ser sedutora, de insinuar.
Junte-se tudo isto e temos, como alguém disse, uma artista que não sua em palco. Ou que, pelo menos, não transforma cada espectáculo numa exibicionismo de ginásio, tão em voga, especialmente entre as vozes femininas.
Conclusão: os espectáculos de Alicia Keys são uma sensaboria? Não necessariamente. São apenas concertos em que a vertente musical ainda impera sobre a visual. Não estamos perante uma Madonna, ou sequer uma Beyonce.
Esta sua terceira passagem por Portugal será centrada no último disco (The Element Of Freedom, 2009), que, a propósito, está longe de ser o mais interessante da sua carreira. Obviamente, os sucessos anteriores serão os mais requisitados pela plateia.
No Pavilhão Atlântico, o sucesso jogar-se-á, acima de tudo, nos músicos e nos arranjos com que vestirão cada tema. E, claro, mais na voz que na movimentação em palco de Alicia.

She & Him - Volume Two ***


É mentira. Nunca fomos assim tão felizes. Escusam de vir para cá com esses coros afinadinhos, as pandeiretas, os solos de guitarra bem comportados, os violinos celestiais, essa vozinha adolescente, quase púbere... Mas que fazer, se a nostalgia é isso mesmo, um passado mais que perfeito?
Zooey Deschanel, actriz, e M. Ward, músico e produtor folk, encaram a nostalgia com muito profissionalismo. Ela escreve cantigas lindas, à moda dos anos 60 e 70 (Carpenters, lembram-se?) e ele veste-as como se o tempo tivesse parado. Tudo tão certinho, até mesmo quando a voz dela quase fraqueja e faz lembrar uma menina, toda ela inocente.
Neste segundo volume, igualzinho ao primeiro (2008), há canções perfeitas (“Thieves”, “Lingering Still”), outras assim-assim (“Sing”) e ainda algumas que fogem ligeiramente ao registo e até parecem canções de autor (“Brand New Shoes”).
A coisa, globalmente, é refrescante, adequada para a época. Mas o consumo em doses repetidas pode provocar algum enjoo.

Jakob Dylan - Woman + Country ***

Quem não quer, ou não pode, ser lobo não lhe veste a pele. Jakob é filho de Dylan, mas Dylan não se chama Dylan e Jakob fez questão de lhe herdar o pseudónimo. O que é, creiam, um aborrecimento. A cada crítica, lá temos que alertar que Jakob é filho de Bob e fazer comparações – o rapaz também tem a voz enevoada e as águas blues-country clássicas são as mesmas em que o pai mergulhou na última década.
Um aborrecimento, creiam. Porque Jakob tem, apesar de tudo, uma voz própria, no sentido mais amplo da expressão, como já tinha demonstrado na experiência colectiva com os Wallflower. E porque esta segunda gravação a solo está uns furos acima da monocórdica estreia a solo (Seeing Things, de 2008), talvez mercê da troca de produtor – Jack Rubin deu lugar aos mais lunático T Bone Burnett. O resultado são canções com mais densidade, às quais os metais e as cordas conferem uma espessura que talvez falte à relativamente banal composição. Por isso mesmo, “Lend a Hand” e “Standing Eight Count” sejam duas das canções que mais ficam no ouvido, a par, talvez das duas baladazinhas de abertura.

Emma Pollock - The Law Of Large Numbers ***

De pessoas como Emma Pollock costuma dizer-se que têm uma voz muito própria - por mais voltas que se dê, não se conseguem catalogar. É o caso de Emma, uma compositora e cantora escocesa, que consegue juntar numa mesma canção estilos, ritmos, instrumentos, talvez influências, completamente distintas.
Esta é a segunda gravação a solo (a anterior data de 2007: Watch The Fireworks), mas Emma Pollock era já uma das almas dos escoceses Delgados, uma banda de relativo sucesso na viragem da década anterior.
Neste CD de título enigmático (a própria autora confessa não ter a mínima ideia do que quer dizer), há pop quase a pedir top (“Confessions”, ou “I Could Be A Saint”), mas igualmente baladas folk de beleza refinada (“House On The Hill”), números de neo-vaudeville (“Nine Lives”) e até pequenas pérolas de brincadeira (“Red Orange Green”). Tudo envolto em guitarras, muitas mas elegantes, pianos e até cordas. Uma voz muito própria, de facto.

Drive-By Truckers - The Big To-Do ***

Puros e duros. Ao contrário da generalidade dos parceiros do renascimento country (alt-country), os Drive-By Trucks não querem inovar coisa alguma. Fazem aquilo a que, há quatro décadas, se convencionou agrupar sob o chapéu de rock sulista e, se alguma coisa os distingue dessa linhagem, é a ausência do discurso descaradamente conservador. Enfim, uma música marcada pelas omnipresentes e múltiplas guitarras, entre o riff constante (Drag The Lake Charlie”) e o solo quase interminável (“After The Scene Dies”).
Nesta oitava gravação da banda (andam cá desde 1996), há, como manda a tradição, canções bem esgalhadas e quase dançáveis, como “Drag The Lake Charlie”, mas igualmente abordagens mais comerciais, à la Fleetwood Mac (“I Told You So”) e até quase-baladas, “Santa Fe”, que fazem deste disco uma experiência de audição nunca aborrecida. Uma piscadela de olho ao mercado não americano, que até agora lhes tem escapado.

Basia Bulat - Heart Of My Own ***

Basia Bulat, como o próprio nome indica, é canadiana. A sério – é mesmo canadiana. À laia de apresentação, poderíamos ainda acrescentar que faz parte da constelação Arcade Fire, mas aí já estaríamos a enganar os leitores mais incautos. De facto, quer este disco quer o primeiro (Oh, My Darling, 2007) foram produzidos por Howard Billerman, esse sim da órbita dos Arcade. Mas Basia navega outras águas, geralmente mais calmas.
São basicamente baladas folk, entrecortadas por uma outra mais animada (“If Only You”, ou “Walk For Down”), a matéria-prima com que trabalha a menina Bulat. Ouça-se, por exemplo, a lindíssima “The Shore”, um monólogo melódico apenas pautado por uma harpa e uns esparsos coros, para que fique claro o grau de intimidade com que estamos a lidar.
Acrescente-se que a voz de Basia Bulat é muito agradável e que as canções ultrapassam facilmente a mediania para que se entenda a atenção dispensada a mais esta canadiana.

Florence and The Machine

É uma das coqueluches do momento na cena britânica. O primeiro disco (Lungs), lançado em meados de 2009, atingiu o topo das tabelas de vendas já no início deste ano. Um sucesso de vendas a que não será alheio o bom acolhimento da crítica e que se reflectiu, ainda há poucas semanas, na consagração de melhor disco dos Brit Awards.
A passagem por um palco português ocorre, pois, na melhor altura, ainda para mais se tivermos em conta que, de acordo com a imprensa especializada, Florence and The Machine terão gravado em Janeiro algumas canções para o segundo disco, pelo que não seria de estranhar que, além de ouvir a totalidade dos temas de Lungs, Lisboa fosse das primeiras cidades a tomar conhecimento da evolução do fenómeno.
A música de Florence não é para gente de estômago fraco, perdoe-se a alusão a mais um dos órgãos internos do género humano, mas é mesmo de coisas viscerais que tratam estas canções. Senhora de uma voz potente, algures entre Annie Lennox e Celine Dion, Florence põe todo o seu corpo ao serviço da música, seja através de vibrantes descargas de decibéis, seja pela permanente e exuberante movimentação em palco.
E as canções são, elas próprias, essencialmente físicas (“Kiss With a Fist”), mesmo quando enganadoramente começam de mansinho (“Dog Days Are Over”). Canções de amor, temperadas com limão azedo, portanto.
Diz quem já viu que é melhor ir preparado para saltar muito durante o espectáculo. Não esperem de Florence que faça toda a despesa.

Holly Miranda - The Magician’s Private Library ***

Caso raro. Alguém a quem apetece dar uma segunda oportunidade para causar uma primeira boa impressão. Holly Miranda anda na música há uma década, idade que tem a sua primeira e única gravação a solo até à data. Pelo meio, integrou uma banda sem grande história (Jealous Girlfriends), com quem gravou dois discos irrelevantes.
O regresso, a solo, ocorreu o ano passado, com um EP e, agora, com este disco de maior duração. O projecto é em grande parte dominado pelo produtor – Dave Sitek, dos TV On The Radio – e esse poderá ser o grande problema: um som saturado, com uma densidade orquestral pouco comum, um pouco irrespirável.
Pelo timbre, pela maneira displicente como deixa cair as sílabas, pelos tiques de composição, Holly faz lembrar Cat Power. Até mesmo pela ausência de brilhantismo na composição. A diferença está no produção de semblante psicadélico. Torna-se, porém, tudo um pouco monótono e ficamos com a sensação de que poderia ser diferente. Vai uma segunda oportunidade?

Josh Rouse - El Turista ***

Canções como “I Will Live On Islands” podem levantar problemas morais – isto é uma cópia descarada de Paul Simon, ou o rapaz não tem culpa alguma de os seus gostos musicais, os tiques de composição, ou mesmo o timbre da voz, se assemelharem em demasia à fase “graceland” do velho cantautor?
A resposta, como calculam, é irrelevante, instalada que está a dúvida. Até porque Rouse tem uma carreira que fala por si – oito discos numa década – e neste CD volta a revelar-se um compositor inspirado e um intérprete versátil.
Estamos perante música claramente norte-americana (indie folk não será classificação que lhe assente mal), mas embebida de fortes influências latinas (Rouse vive há meia dúzia de anos em Espanha) e afro-brasileiras. “Lemon Tree”, por exemplo, é uma bela balada em registo bossa jazz e “Valência” um bolero digno de Bola de Nieve, o enorme vulto da canção cubana, aqui revisitado em dois temas.

Laura Veirs - July Flame ***

Ouvindo “Sun King”, a terceira canção deste disco, poderíamos julgar estar na presença de uma cantora country notoriamente apaixonada. Ora, isso não é bem assim, embora não seja totalmente mentira.
Com este sétimo disco, Laura Veirs regressa parcialmente à simplicidade dos primeiros discos, sendo disso exemplo o destaque dado à guitarra acústica e a pouca roupagem que a maioria da canções ostenta. E é, sim, um disco feliz, reflectindo a harmonia da vida no campo e uma relação amorosa aparentemente também ela feliz. A sério… (Ouçam a bela “When You Give Your Heart”).
Laura Veirs continua a ser um personagem peculiar. A voz que sobe e desce e se fixa insistentemente num registo quase desafinado. As composições a fugirem quase sempre ao óbvio. Mas a aposta numa sonoridade acústica e de orquestrações subtis limam algumas, apenas algumas, das arestas do passado. Mais comercial, então? Sim, mas só um pouco.

Clare and The Reasons - Arrow ****

A voz de Clare Muldaur remete-nos para um universo algo infantil. E por isso imaginamos uma menina loira a brincar com melodias, deliciada com a repetição das mais belas, fascinada com o modo como o amigo de brincadeira (no caso, o marido, Olivier Manchon, autor, músico, produtor…) arruma e desarruma as peças do lego.
São 13 canções impecavelmente escritas, orquestradas e interpretadas, que bebem amiúde na tradição francesa e nas raízes do jazz, mas que escapam a qualquer classificação. O que mais sobressai, insiste-se, é o lado lúdico, seja no modo como as canções são construídas, os tais pedaços de melodia repetidos (quase) até exaustão, seja nas roupagens extraordinariamente inventivas e diversificadas com que são servidas. As cordas, com destaque para o violoncelo, e os sopros estão quase sempre presentes (um espanto, a versão de “That’s All”, dos Genesis), mas há também electrónica usada com toda a elegância (“You Got Time”).

The Magnetic Fields - Realism ****

Na ficha técnica, a seguir à lista de músicos, lê-se: “no synths” (sem sintetizadores). Ficam, pois, avisados os seguidores de Stephin Merritt que aquela onda sónica que afogava as canções, tipo Jesus and Mary Chain, foi (felizmente) sol de pouca dura (Distortion, 2008) e que, apesar das semelhanças das capas de um peculiar mau gosto, este Realism é algo completamente diferente.
Por “diferente” entenda-se o regresso de Merritt às sonoridades de raiz folk, com muitas harpas, banjos, pandeiretas e ferrinhos. Sim, é de novo o fantasma de 69 Love Songs, essa esmagadora obra-prima, que por aqui se passeia.
Nem todas as canções deste CD chegam aos calcanhares das Love Songs, mas algumas andam lá perto (“Seduced and Abandoned”, “You Must Be Out of Your Mind”). E poucos músicos conseguem compor canções tão bonitas com poemas tão tristes, de desamores, desalentos, desatenções. Especialmente recomendado a quem goste de sofrer com estilo.

Charlotte Gainsbourg - IRM ****

Se Serge Gainsbourg fosse vivo, não faria um disco destes. É próprio dos génios, escaparem à previsibilidade. Mas este é o melhor disco de originais de Gainsbourg desde a sua morte. A cumplicidade de Charlotte, filha de Serge, confere a Beck, o americano Beck, a legitimidade para se apoderar do universo do francês mais amado pelos músicos anglo-saxónicos. Como bónus, Charlotte reincarna na perfeição, não apenas o look, mas também a pose musical da mãe Birkin.
O disco nasce de um acontecimento traumático, a hemorragia cerebral sofrida por Charlotte há três anos, e isso justifica a tensão que o atravessa. A electrónica, metáfora hospitalar, da faixa que dá título ao disco, ou as guitarras e percussões de “Trick Pony”. Quase alucinações compensadas por momentos de grande beleza melódica, como “In The End”, ou “Time of the Assassins”. Ou coisas tão pop como “Heaven Can Wait”. Gainsbourg, o pai, haveria de gostar.

Bon Jovi - The Circle ***

Rock pesado para domésticas e executivos. Eis a fórmula dos Bon Jovi, demonstrada com toda a pujança neste seu disco de regresso, após um toca-e-foge de separações e reagrupamentos e de um gravação (“Lost Highway”, 2007) em que o “country” media forças com o rock.


The Circle traz-nos 12 canções cheias de pedalada e de guitarras, mas também suficientemente redondas, expectáveis, para viajarem nos leitores de CD dos carros da classe média. O que mais espanta, apesar de tudo, é a espantosa resistência deste tipo de música ao tempo e às modas. Tivesse este disco sido gravado há 20 anos e seria exactamente igual.

Difícil mesmo é destacar uma ou outra canção. O grupo funciona como uma jukebox que vai pondo cá fora acordes atrás de acordes, refrões atrás de refrões, feitos a pensar em estádios e o ouvinte, por mais paciente que seja, perde-se e já nem sabe se está a ouvir a canção número dois ou a oitava.

Alela Diane feat. Alina Hardin - Alela & Alina ****

Guitarra e duas vozes femininas. A solo, em coro, em contraponto. Histórias do quotidiano, de amores e desamores, filosofia incluída. O mais puro do folk, mais britânico que americano.


Estamos num território mais radical que o psych-folk que emergiu na cena musical na viragem do milénio. Aqui, as canções, três originais e outras tantas covers, são despidas – não há vozes distorcidas, guitarras eléctricas, não, é mesmo tudo a nu. Verdadeiramente, um disco destes grava-se em casa, com o risco de parte da audiência pensar que se trata de maquetes para posterior produção e embelezamento. Nada disso.

“Matty Groves”, cuja versão mais conhecida é a dos Fairport Convention, é um excelente exemplo dessa depuração. Dos originais, “I Have Returned” é a mais conseguida. Melancólica, como tudo o resto.

Susan Boyle - I Dreamed A Dream ***

Um dia destes, no Ídolos que passa na televisão portuguesa, ouviu-se “Hallelujah” numa versão cuja principal virtualidade era de apenas durar um minuto e meio e, assim, reduzir consideravelmente os danos. Não admira. Foi a partir de um programa do mesmo tipo que uma das mais simbólicas canções de Cohen subiu recentemente aos tops britânicos. E, claro, há ainda os miúdos que agora estão no início da adolescência e que adivinham “Hallelujah” pelos primeiros acordes depois de a terem ouvido, pela voz de Rufus Wainwright (!?), na banda sonora do primeiro Shrek (!!!).


Dá que pensar, convenhamos. Como uma canção mística, que é ouvida em prece pelos adoradores de Cohen, é repentinamente convertida em algo digno de concorrer com lituanos e moldavos no Eurofestival. Questões de gosto, que os leitores da Time Out certamente gostarão de discutir entre si, mas que não terão paciência para ler na página de críticas de discos. Ainda por cima, Susan Boyle (ainda) não canta “Hallelujah”.

Lembram-se, certamente, da dona de casa escocesa que encantou o júri de um desses tais programas de imitações britânico? O primeiro disco vai buscar a canção que a tornou famosa (“I Dreamed a Dream”) e junta-lhe uma dezena de outros sucessos pop cantados à la Celine Dion, com a vantagem (Aleluia!) de Susan não ser tão estridente quanto o original.

E o que dizer destas versões, senão que são, sim, domesticadas? E que a voz de Susan Boyle é, de facto, muito boa e que, às vezes, até consegue fingir que sente aquilo que canta?

Tendo em conta a tarefa a que meteram ombros – ganhar uns cobres, reproduzindo o mesmo esquema até que se esgote –, os artífices da coisa estão de parabéns. E, na verdade, quem quiser ouvir uma boa versão de “Wild Horses” tem o original dos Stones. Ninguém chega aqui por engano.

Charles Aznavour & The Clayton Hamilton Jazz Orchestra *****

Há um cheirinho de imortalidade nesta gravação. Como se as canções, algumas das melhores escritas no século XX, nos mirassem da Eternidade e nos desafiassem: vejam, oiçam, como nós brincamos, fingimos de nós próprias e nos reinventamos, sem perdermos aquela aura que nos trouxe até este Olimpo.
Aznavour tem agora 85 (a tournée mundial de despedida passou o ano passado por Lisboa) e poderia limitar-se a catalogar antologias, ou, na melhor das hipóteses, a gravar duetos com gente de desvairada origem (também já o fez…). Tudo jogadas seguras para a consolidação do mito.
Mas e o prazer, sim, o prazer? Aquele bichinho louco do artista, inquieto por definição. Por exemplo, pegar numa dezena e meia de canções e atirá-las lá para trás, para o tempo em que foram escritas, em que deram os primeiros passos em cabarets? E fazer tudo isto, mas com uma grande orquestra de jazz, como se tudo acontecesse pela primeira vez, como se o jazz fosse a terra nativa destas canções?
Dificilmente o exercício poderia ter resultado melhor. Ouça-se, por exemplo, “I’ve Discovered I Love You”, em dueto com Rachelle Ferrel (há por aqui vários e ainda um com Dianne Reeves), toda aquela subtileza, toda aquela alma, e somos obrigados a fazer coro: “you take my breathe away”.
E há de tudo, dessa subtileza à força do jazz mais clássico, em “Viens fais-mois rever”, ao bebop de “Des amis des deux côtés”, ao neworleanesco “The Jam”. A imaginação à solta. E, claro, “La Bohème”, uma canção que Aznavour canta como quem respira, ficando a orquestra “limitada” a um subtil contraponto.
Para que tudo fosse realmente perfeito, a voz de Aznavour teria que ter resistido incólume a milhares (milhões?) de horas de palco e estúdio. Mas isso já seria da ordem do milagre.

Martha Wainwright - Sans Fusils, Ni Souliers, à Paris (Piaf Record) ****

Piaf imitada, Piaf reinventada. É assim o novo disco de Martha Wainwright, gravado em três noites quase íntimas num pequeno auditório de Nova Iorque.
Nascida e criada em Montreal, Martha lida perfeitamente com a língua francesa e, ouvindo este disco, percebe-se que Piaf é uma paixão de vida. Chega a imitar-lhe as sílabas nasaladas e só lhe falta um pouco mais de autenticidade na embriaguez da voz para que o vulto da grande dama seja convocado ao palco.
Há Piaf escandalosamente imitada (“La Foule”, ou “C’Est a Hambourg”) e há Piaf reinventada (“Le Chant d’Amour”), não traída, mas simplesmente pressentida, como se Martha imaginasse como poderia ser Piaf.
Os arranjos musicais raramente se afastam das sonoridades identitárias da chanson (piano, acordeão, a valsa dominante), o que, a par da dramaturgia da voz, quase concretiza o milagre da ressuscitação.

Robbie Williams - Reality Killed The Video Star ***

Eis o regresso do homem-espectáculo. Sim, com um disco à altura de servir de base a fabulosos videoclips e a espectáculos de fazer cortar a respiração.
Em grande forma, o cantor pop por excelência regressa aos discos grandiosos após a desilusão que foi Rudebox (2006). A produção está a cargo de Trevor Horn, o génio por detrás dos Buggles (“Vídeo Killed The Radio Star”, lembram-se? Daí o trocadilho no título).
As grandes canções são vestidas com orquestrações à maneira, piano e orquestra de luxo (“You Kown Me”, “Superblind”), mas o pop eléctrico – agradar a gregos e troianos ainda é uma regra de ouro – não fica esquecido (“Do You Mind”, “Deceptacon”) e, às vezes (“Last Days of Disco”, “Difficult for Weirdos”), o apelo da pista de dança é ainda mais forte. E para quem gosta de bonsais, nada melhor que “Somewhere”, um minuto e dois segundos de pura evocação beatleana.

Rod Stewart - Soulbook **

Uma das coisas mais deliciosas deste disco é a linha de baixo de “(Your Love Keeps Me Lifting Me) Higher and Higher”. A força e a suavidade, sim, a força e a suavidade, daquele baixo não eram possíveis em 1967, quando Jackie Wilson gravou a primeira versão.
Esses prodígios da era digital – é disso que se trata –, têm, todavia, os seus efeitos nefastos. A pureza do som é uma espécie de droga, que pede sempre mais e inebria, e alguma da música que hoje se ouve deve muita da sua vivacidade mais aos artifícios da técnica que à inspiração, sendo exemplo disso a praga de revivalismo R&B que ataca os tops de todo o mundo.
E é o caso deste CD do mais famoso canastrão da história da pop. Nada, nadinha mesmo, neste disco é original. Pelo contrário – o que se procurou fazer foram cópias dos originais, sublinhadas por gravações de enorme pureza instrumental, numa espécie de hiper-realismo musical. Simplificando, Rod Stewart mandou fazer umas cópias catitas dos arranjos originais e depois, qual amante do karaoke, meteu-lhes a voz. E, pese embora a peculiaridade dessa voz, a verdade é que ela já teve melhores dias, muito melhores dias.
Exemplo perfeito desse mimetismo é o convite dirigido a Stevie Wonder para reproduzir o mesmíssimo acompanhamento de harmónica do seu “My Cherie Amour”. Ou a presença, quase simbólica de tão discreta, de Smokey Robinson. A Motown forneceu, de resto, cerca de metade da matéria-prima deste disco, o que deriva do peso da editora no panorama da soul, mas também diz muito sobre as intenções deste disco: filet mignon à medida dos tops.
Obviamente, um disco destes não desilude. Cumpre exactamente o papel para que foi feito – easy listening para pessoas de gosto requintado. Seja isso lá o que for.

Seasick Steve - Man From Another Time ***

O êxito de I Started Out With Nothin’ And I Still Got Most Of It Left (2008), o terceiro disco deste sexagenário excêntrico, colocou bem alta a fasquia das expectativas.
O homem é do mais arcaico que há. Constrói as próprias guitarras, com uma ou quatro cordas, às vezes a partir de caixas de charutos. Grava em estúdios analógicos e todos os sons que ouvimos, menos a percussão, são de sua autoria. Uma espécie de reinvenção radical dos blues.
Man From Another Time, a começar pelo título demasiado explícito, é, porém, um disco em que já se perdeu a inocência e pouco mais tem para se mostrar que a exuberância mecânica de um certo estilo. Um disco de manutenção, portanto.
“That’s All” é uma excelente canção, quase radiofónica. “Diddley Bo”, executada com uma guitarra do mesmo nome, é uma óbvia homenagem a uma das principais fontes de inspiração. Boogie vibrante, há-o a encerrar, e baladas como “Just Because I Can” não se ouvem todos os dias.

Jacinta - Sings Songs Of Freedom ***

Há um objectivo claramente comercial neste disco e isso está longe de ser censurável. Jacinta tem uma excelente voz, um nome firmado no pequeno mundo do jazz luso e, admita-se, até alguma projecção para lá dessas duas fronteiras.
Os êxitos dos anos 60, 70 e 80 referidos na capa são originais de gente tão díspar como os Bee Gees, U2, Beatles, Beach Boys, Bob Marley ou Stevie Wonder. Temos, então, genericamente canções pop adaptadas à linguagem jazz, sendo que as versões ficam a meio caminho, tentando agradar a públicos dos dois mundos.
“How Deep Is Your Love” ou “Sir Duke”, por exemplo, talvez fiquem excessivamente agarradas ao original. Já em “And I Love Her” ou “Where the Streets Have No Name” assume-se mais o risco.
Pena que o arrebatamento de “Redemption Song”, especialmente na versão ao vivo, não tenha contaminado todo o disco, quer na interpretação, quer na escolha do repertório. Mesmo assim, uma boa alternativa às xaropadas próprias da época natalícia.

Tom Waits - Glitter & Doom Live *****

Bastavam os extras para colar a etiqueta de “obrigatório” neste disco. Os extras são, nada mais, nada menos, que 36 minutos de histórias, piadas e bizarrias, contadas por Tom Waits nos intervalos das canções, e aqui reunidos num CD, como se de um “stand-up” se tratasse. Desde as leis estúpidas do Oklahoma, ao “museu do spam”, ao motivo pelo qual os ratos não comem apenas porque têm fome, ao trocadilho entre a percentagem de homens “importantes” e “impotentes”, passando por outras balelas fundamentais para o futuro da Humanidade, de tudo Tom Waits se lembra de contar para puro divertimento de quem o ouve.
Quando se passa do segundo para o primeiro disco, a coisa não melhora… Mantemo-nos nesse bizarro e perturbante universo de um dos mais fascinantes autores, músicos e cantores das últimas décadas. A Rolling Stone chamou-lhe “one man circus”, expressão que lhe assenta que nem uma luva, desde logo pela temática onírica que criou, toda ela cheia de personagens bizarros, mas igualmente porque a sua música – e isso é especialmente audível nesta gravação – deve muito ao mundo dos cabarets e circos. Quando canta “I’ll Shoot The Moon” quase o imaginamos no arame, com o saxofonista lá em baixo acompanhando a valsa de uma bailarina decadente.
Glitter & Doom Live junta 17 canções gravadas, em 10 cidades diferentes, durante a digressão americana e europeia do Verão de 2008. Waits faz-se acompanhar de cinco músicos que reinventam, literalmente, canções de quase toda a sua carreira. Mas o destaque vai, inteirinho, para a voz, ora sussurrante, ora projectada, como um instrumento musical. “Green grass”, cantada ao nosso ouvido, tem direito a assobio, “Goin’ Out West” transforma-se num boogie-woogie infernal, “Dirt In The Ground” é a balada herdeira do folk. A criatividade parece não ter limites.

Norah Jones - The Fall *****

Talvez o céu seja o limite para esta menina, nascida há 30 anos em Nova Iorque e que nunca precisou do nome do pai (Ravi Shankar) para dizer ao que vinha. Ao quarto disco, confirma que é uma compositora de rara elegância, mostra uma voz tão fresca como no primeiro dia em que a ouvimos e, acima de tudo, revela um apetite pela aventura musical que só lhe pode augurar o melhor.
Estamos longe, a léguas, da enorme surpresa da estreia (Come Away With Me, 2002), um disco que revelava uma nova e lindíssima voz e uma menina com muito jeito para compor canções que cruzavam delicadamente o jazz e a pop. Mas, nesse e no segundo CD, o registo era marcadamente tradicional. Na estrutura das canções e, principalmente, no modo de as abordar. Norah Jones poderia ter continuado esse caminho, o filão parecia inesgotável. Mas, em Not Too Late (2007) e, especialmente, neste The Fall, as estruturas clássicas do jazz ligeiro são definitivamente deixadas para trás e a compositora mostra-se em toda a sua plenitude.
Estamos perante um disco assumidamente pop. Mas um pop que arrisca, que frequentemente se deixa contaminar pelas texturas indie – “Stuck”, por exemplo, é uma das mais belas canções dos últimos tempos. Já “Chasing Pirates”, que vai certamente rodar nas rádios, bebe deliberadamente nos anos 80. Há restos de swing em “Waiting” e “Tell Yer Mamma”. E há baladas qb.
Mas isto é dizer pouco. Porque o mais marcante deste disco é o som global, completamente dominado pelas guitarras, em vários registos, mas raramente clean. Tudo na exacta medida para fazer sobressair as composições e a voz.
A edição Deluxe tem três destas novas canções cantadas ao vivo e ainda três covers (Wilco, Johnny Cash e Kinks), elas próprias reveladoras da nova Norah Jones.

Joss Stone - Colour Me Free! ***

Reinventa-te ou morre. Este é o destino que a indústria musical destina aos medianos. Os outros, os extraordinários, reinventam-se, ou não, a seu bel-prazer.
Joss Stone é uma rapariga mediana, apesar do estrondo que foi a sua estreia há seis anos. Afinal de contas, não é todos os dias que uma adolescente linda (16 anos) põe cá fora um disco de soul com a mesma garra dos que por aí andam há décadas. Durou dois discos, esse encantamento. Ao terceiro (Introducing), já a rapariga procurava outros caminhos, menos conservadores.
Esta quarta gravação procura a síntese entre o classicismo dos dois primeiros e a modernidade do terceiro. O resultado não entusiasma por aí além. O soul divide agora o palco com o funk, bem cantados, é certo, mas sem a garra dos primeiros discos, nem nada que os distinga de tanta música que todos os dias se edita. “4 and 20” é uma bela balada soul; “Parallel Lines”, um funk aceitável. Mas ainda não é esta reinvenção de Joss que lhe vai garantir a glória eterna

Sting - If On A Winter’s Night… *

O Natal tem destas coisas – um belo laçarote esconde por vezes uma prenda sem graça. Época de boa vontade, sabendo-se que dela está o Inferno cheio. Este disco de Sting é lindo. Quer dizer, a capa, o livrinho, o DVD, o selo da Deutsche Grammophon na contra-capa… Como se de uma obra clássica se tratasse. E, na realidade, até por aqui surgem peças de Purcell, Schubert, Bach, a par de outras de autoria própria e de algumas tradicionais. Canções de Inverno, sombrias, mas também de júbilo, pelas neves, pelas alegrias do Natal.
O problema, o grande problema, é a concretização de tudo isto. Os arranjos, entre um classicismo light e as influências folk, a fazer lembrar, por exemplo, as aventuras de Enya, até nem são o pior. Má mesmo é a voz de Sting, completamente fora de contexto, monocórdica, chegando mesmo a ser desagradável. Um projecto destes exigia obrigatoriamente uma voz moldada pelos cânones clássicos. Em vez disso, temos uma voz dura, sem qualquer maleabilidade. Confrangedor.

Ludovico Einaudi

O tecto do CCB não tem estrelas, e não há lá janelas por onde a luz quebre a escuridão. Essa é a paisagem que Ludovico Einaudi imaginou para a sua música. Manda o bom gosto e o bom senso que ninguém se lembre de decorar o local com objectos alusivos e deixe a imaginação da assistência fazer o seu trabalho.
Einaudi considera-se um desenhador de paisagens e por esta descrição dá para calcular que falamos de um compositor de música contemplativa, de um artesão de melodias simples. Uma música, enfim, minimal, embora o autor recuse, e bem, inscrever-se na escola do minimalismo. A respiração é, aqui, mais ampla, mais melódica, e sendo certo que se desenvolve em movimentos quase sempre circulares, não é menos verdade que as texturas pop e world music lhe conferem uma muito maior agilidade, muito familiar a quem gosta, por exemplo, de Rodrigo Leão.
A obra que Einaudi traz ao CCB é o disco Nightbook, um ciclo de temas escritos durante as constantes viagens do compositor à volta do mundo e que, de alguma forma, pretende ser uma reflexão sobre os contrastes entre a luz e a escuridão, o conhecido e o misterioso.
O piano, por vezes trabalhado electronicamente, é o centro desta música, em que as cordas e as percussões desenham ora vastos espaços abertos (“The Planets”), ora intensos crescendos orgíacos (“Eros”).

Daniel Merriweather - Love & War ****

Eis a versão masculina de Amy Winehouse. Com o ar saudável de quem não vai cair na próxima esquina, garantindo uma certa continuidade a todo este soul e R&B minuciosamente recriado pelo mesmo Mark Ronson que esteve por detrás do mega-mega Back to Black.
Merriweather, australiano, 26 anos, é um protegido de longa data de Ronson. Desde 2003 que entra nos seus projectos e, graças a isso, os tops britânicos não lhe são propriamente estranhos.
Este disco de estreia tem inúmeros condimentos para arrasar nas rádios, nas pistas de dança e, claro, nos tops. A abertura é dedicada a Nova Iorque e rodeia-se da grandiosidade dos standards, mas é logo a seguir, com “Impossible”, que as coisas começam a fiar mais fino. “Impossible” é um hit instantâneo, movido descaradamente a soul revivalista, num ritmo avassalador. E a máquina infernal continua com “Change”, apoiado pelo rapper Wale. Mais à frente, “Red” mostra que também nas baladas são invocados os melhores dos melhores (abençoado Stevie Wonder).

David Gray - Draw The Line ***

Há década e meia que David Gray anda por aí e não encontra o seu lugar. Um ou outro sucesso, mudanças de editora, afinações de estilo, tudo sem grande proveito. O balanço, comercial e criativo, acaba sempre na mediania.
Draw the Line não foge à regra. A abertura, com “Fugitive”, é prometedora, uma boa canção R&B, com o piano a marcar o ritmo acelerado, umas boas pinceladas de guitarras, um coro swingante e a voz de Gray em grande forma. Mas depois, incluindo com o tema que dá nome ao disco, cai-se numa certa monotonia. Gray é um bom escritor de canções, ele e o piano fazem lembrar por vezes os melhores momentos de Billy Joel (“Jackdraw”) e até há canções acima da média (“Transformation”, com um belo balanceado entre a voz e o piano), mas o registo excessivamente colado à balada folk acaba por prejudicá-lo. Isto, é claro, já nem contando com a teatral e completamente desnecessária colaboração de Annie Lennox em “Full Steam”.

Bob Dylan - Christmas In The Heart ***

Dylan é uma lenda americana e às vezes, ofuscados pelo seu universalismo, tendemos a esquecer isso. Eis, então, um disco que nos recorda esse verdade essencial, um disco típico de uma lenda viva americana. Armstrong, Elvis, Sinatra e tantos, tantos outros, uns que foram lendas e outros que o tentaram ser, também gravaram os seus discos de Natal
Dylan tinha, pelo menos, duas maneiras de atacar o problema – fazer um disco de Natal, ou fazer um disco de Dylan. Optou por fazer um disco de Natal, o que só surpreende quem não o tem acompanhado atentamente. O ídolo que nos anos 60 recusou liderar a revolução, o músico maduro que, de tanto se reinventar, accionou a máquina do tempo e reencarnou os anos 40 e 50, como se nada tivesse havido depois. São assim os discos da última década.
E este disco de Natal insere-se precisamente nesse espírito, na ideia de uma certa imortalidade, de alguém para quem o conceito de geração já não faz sentido, porque ele mesmo é a ponte entre todas as gerações.
A sonoridade deste disco é idêntica à das suas últimas gravações, uma recriação dos sons acústicos dos anos 50, com algum country, algum jazz de salão, algum blues. Desenganem-se, pois, os que aqui vierem à procura de novidade – isto são apenas 15 hinos tradicionais de Natal, com instrumentos tradicionais de Natal, coros femininos e masculinos de Natal e… a voz de Dylan.
“Must Be Santa”, numa versão alucinada com o acordeão de David Hidalgo (Los Lobos), é a pequena loucura do disco. “The Christmas Blues”, num arrastado blues, poderia ter entrado em qualquer dos seus discos da última década. E depois há, é claro, aquela aventura de cantar “O’ Come All Ye Faithfull” em latim (!).
Todos os lucros do disco serão destinados a organizações humanitárias. É o que costumam fazer todas as lendas americanas. Obrigado Santa Dylan.