Toty Sa'Med - Moxi ****

Um dos segredos mais mal guardados da música africana que tem vindo a encontrar em Lisboa uma casa acolhedora. Toty Sa’Med já é bem conhecido das colaborações com Dino D’Santiago, Sara Tavares, Aline Frazão, ou Kalaf Epalanga. Isto já para não falar de um dueto com Joss Stone, em 2017. Mas foi preciso esperar por uma pandemia, uma viagem entre Luanda e Lisboa, real e simbólica, e a bonita idade de 33 anos, para que tenhamos a sua primeira gravação de longa duração, “Moxi” de seu nome. Um disco em que, naturalmente, se cruzam kuduro, semba, kizomba e outras sonoridades de África. Mas em que a eletrónica surge de forma omnipresente, mas bem serena, que confere a esta música uma indiscutível modernidade globalizada. A quem chega aqui pela primeira vez não pode deixar de surpreender a belíssima voz, que tanto serve baladas intimistas (“Supera”), como temas de dança de suprema elegância (“Bem Bom”). Uma espera que, enfim, valeu a pena.

Kátia Guerreiro - Mistura ****

A procura de novos caminhos para o fado daria panos para mangas, houvesse para tal ambiente propício, fosse pela via da divulgação radiofónica, por um circuito mínimo de atuações ao vivo, ou simplesmente pelo consumo de música, nas suas várias vertentes. Dos novos aos consagrados, todos parecem querer reinventar a tradição. Kátia Guerreiro, que – como a própria reconhece – praticamente renasceu pelas mãos de José Mário Branco, insiste na inquietação, com um disco fortemente ancorado na tradição, mas que procura outras formas de respirar. Ainda José Mário (“Xaile Negro” e “Tempo de Viver”), Pedro de Castro e Tiago Bettencourt assim a produção, numa constelação de estrelas que vai de Rui Veloso a Rita Redshoes, de Hélder Moutinho a João Monge ou Zeca Medeiros. E pela pena de Manuela de Freitas (“Lisboa Perdeu a Voz”) chega-nos a perplexidade pelos caminhos atuais do fado. O disco é comercializado em formato de livro, com acesso a conteúdos digitais.

Os Lacraus - Dickens ***

O cânone do rock, revisto e consolidado pelo punk, determina que a coisa se desenvolva a partir de uma sólida base rítmica de baixo e bateria, ornamentada por guitarra ou guitarras, rudes e pouco ousadas. As teclas dão espessura e pouco mais, sendo que a voz se quer avessa à melodia, se possível à beira do desafinanço. Os Lacraus cumprem o cânone com devoção, sendo que Tiago Cavaco acrescenta ao exercício uma patente dificuldade de encaixar as sílabas na pauta musical, como acontece logo na abertura, com “A Maneira Culta de te Mandarem Embora”. A grande diferença em relação a outras bandas punk será a grande criatividade das letras, a sua erudição, o sentido de humor (“Hoje Sonhei que Já Lá Estava”) e, obviamente, as referências religiosas. Tudo junto, dez anos depois de “Os Lacraus Encaram o Lobo”, dez canções para dançar, cantar, exultar, libertar. Já não é mau.

The Gift - Coral ***

A evidência: este é um disco de rutura. Dúvida: trata-se de um objeto único, ou do primeiro capítulo de uma fase, um novo caminho? Deixemos de parte aquilo que não tem resposta. Mais seguro será procurar no passado as raízes da rutura: o gosto crescente pelas eletrónicas e pelas grandes massas (ouça-se “Verão”, de 2019), um tédio evidente com os formatos mais tradicionais da canção pop. Apesar de tudo isso, o risco aqui assumido é gigantesco. A banda quase abandona o formato da canção e o figurino instrumental tradicional, para se lançar numa aventura densa de texturas eletrónicas e vocais (um coro de 48 vozes, talvez demasiado omnipresente). Isso é mais evidente nos temas soturnos (“Noir”, ou “Dissonante”), mas mesmo alguns esboços de canção (“O Regresso”) acabam entregues a essa dinâmica, salvo seja. A versão quase-fado do “Adágio”, a partir de Albinoni, arrisca-se, pelo reconhecimento, a ser o tema mais apropriável pelos não-fãs.

Chico César - Vestido de Amor ****

Este disco de Chico César, o décimo em 27 anos de carreira, ficará certamente marcado pelo tema “Bolsominions”, lançado em plena pré-campanha para as eleições presidenciais de outubro, no Brasil, nas quais o cantor gostaria que fosse derrotado de vez aquilo a que chama de “neofascismo” vigente. Fortíssimo, esse é, porém, o único tema de intervenção, num disco todo ele, como de costume, apontado às pistas de dança. Chico cruza com particular alegria – bem patente em “Vestido de Amor”, o primeiro single –, ritmos que vão do reggae ao forró, passando pelas rumbas africanas ou sonoridades do mais puro rock. A doçura – “Amorinha” e “Te Amo Amor” – é a única força a rivalizar com a dança, num disco otimista de uma ponta à outra. Gravado em França, em 2021, conta com a participação de um dos ídolos do compositor, Salif Keita, em “Sobre Humano”, e do pianista congolês Ray Lema, em “Xangô, Forró e Aí”. 

Angel Olsen - Big Time *****

“Chasing the Sun”, que encerra o disco, envolta em cordas, é um hino à felicidade. Na primeira pessoa. Do plural. E tudo isto são novidades em Angel Olsen. Bom, as cordas eram tudo em “All Mirrors” (2019). O resto, a companhia, a felicidade, essas, sim, são novidade. Este disco acontece na sequência de acontecimentos relevantes na vida pessoal de Angel – a assunção pública de um amor, a morte dos pais – e isso percebe-se a cada canção. Porque há canções de perda (“Right Now”), como antes, no início da carreira, mas agora também há aceitação, esperança e amor (“Big Time”). Há, portanto, uma riqueza temática que torna empolgante a audição e a descoberta, bem patente na complexidade de “Right Now”. Musicalmente, estamos perante um regresso ao country inicial, após a experiência orquestral de 2019 e o disco a solo de 2020. Correndo o risco do lugar-comum, esta é uma obra, talvez a primeira, de perfeita maturidade. Um novo capítulo.

Harry Styles - Harry’s House ****

A propósito deste disco, a Rolling Stone garante que estamos perante um Mick Jagger desta nossa idade mais iluminada. A revista americana refere-se especialmente à atitude de gentleman rock´n´roll que Harry Styles tem cultivado, com um pé nas revistas de moda e outro nos tops dos magazines de música. As semelhanças terminam aí. A música de Styles é mais devedora da face sofisticada dos anos 1970, ou das pistas mais elegantes de dança da década seguinte. Na verdade, a hiper-produção com que os seus discos se apresentam vai buscar influências um pouco a todo o lado, sem que isso comprometa a originalidade e criatividade. Não há aqui ponta de melancolia, tudo é exuberância, num exaustivo enumerar de situações, alimentos (!) e outros objetos dignos – lá está – de revistas de moda sofisticadas. “Music for a Sushi Restaurant” abre o disco e dá o tom.

Amélia Muge - Amélias *****

Nem sempre os títulos dos discos dizem grande coisa sobre o que está lá dentro. Este, acreditem, diz e muito. Neste disco, não há apenas uma Amélia Muge, mas várias, muitas, impossíveis de contar. Ao longo de 30 anos de carreira (com poucos discos a solo, mas com múltiplas colaborações e outras tantas aventuras em vários palcos das artes), Amélia Muge foi ensaiando o que agora se mostra em todo o esplendor: um disco que vive praticamente apenas da sua voz, seja no papel principal, seja nas várias harmonizações com que, multiplicando-se, assume quase por inteiro o papel orquestral, criando ritmos e melodias, em gravações que se sobrepõem e sobrepõem. Além da voz múltipla de Amélia, pouco mais se ouve neste disco, à excepção de vários instrumentos de ritmo e um outro discreto apontamento de outra ordem. Como sempre, Amélia Muge explora o universo da música tradicional (“Meu Coração Emigrou”), do fado (“Chove Muito, Chove Tanto”), das vanguardas (“Diferente”). 

Aline Frazão - Uma música angolana ****

O regresso de Aline Frazão aos discos faz-se num registo de alegria e festa. Após o mais intimista e sereno “Dentro da Chuva”, de 2018, a música angolana – sim, música, o feminino de músico – rodeou-se de conhecidos e mais longínquos companheiros de ofício para uma celebração. Estávamos no segundo semestre de 2021 e já se antevia o fim da clausura da pandemia, havia, pois, que celebrar. Neste quinto disco, fica ainda mais evidente a triangulação que Aline realiza entra a Angola natal, Portugal de acolhimento e Brasil como ponto de união. Quase se sente a presença de Elis a certos passos de “Batuku”... O disco abre com “Luísa”, a celebração de todas as mulheres num nome. Tem convidados de origens várias e temas, também eles, de várias origens. “Valsa da Libertação”, que Ricardo Ribeiro musicou a partir de Pedro Homem de Mello, surge em simultâneo no novo disco de Dulce Pontes, embora quase irreconhecível.

José Cid - Vozes do Além ***

A piada é fácil, mas inevitável. José Cid, reconhecidamente vaidoso, faz finalmente um disco do outro mundo. Um disco sobre a reencarnação, em que – acreditem – a expressão “do além” surge em, nada mais nada menos, que três canções: “Homem do Além”, “Vozes do Além”, “Guitarras do Além”. Sim, este é um disco bastante repetitivo, seja na temática tétrica, seja na vibrante guitarrada elétrica, embora igualmente entediante, de tão previsível que é. Um disco longo, porque, na boa tradição do rock progressivo (!), estes temas devem ser sempre abordados numa perspetiva meio operática, se não ninguém leva a sério. Cid tem rodado nos últimos anos por festas e bailaricos em todo o país, mantendo uma popularidade transgeracional invejável. Essa oleada máquina de fazer música garante chão firme a uma aventura demasiado etérea. “Vou-te Amar Para Além da Morte”, ou “Zombies Como Nós”, são canções que, ao basearem-se no cânone, evitam o naufrágio. Ou a morte sem remissão. 

Tozé Brito (de novo) ****

A música pop são canções que em três minutos levam o amor do céu ao inferno, com bilhete de volta. Este disco-homenagem da nova geração de cantores a um dos papas da música ligeira portuguesa assume por inteiro essa efemeridade da pop. A excepção acaba por ser a quase oração de Camané, reinterpretando Carlos do Carmo e o poema de Ary dos Santos para a banda sonora de uma série de televisão dos anos 1980. O resto é pop, com Benjamim e B Fachada a darem o tom, transformando a memória de uma separação numa festa colorida de praia. E há de tudo um pouco neste disco, como deve ser na pop: Tiago Bettencourt a trazer uma canção para o seu estilo, Zambujo a ser traído pela voz doce na tentativa de ser cantor rock, um coletivo que renuncia à invenção e simplesmente decide imitar os originais Gemini. 43 minutos, enfim, que atenuam, mas não resolvem, demasiados anos de distanciamento.

Camané - Horas Vazias *****

“Tenho Dois Corações”, o poema de Amália que há uns anos José Mário Branco musicou para Amélia Muge, é o tema mais curto deste disco. Dois minutos e meio de simbolismo, a fechar o arco entre o nome maior do fado e o músico que ajudou a definir o perfil daquele que se afirma, a cada disco, como o nome que pode igual o nome. A José Mário Branco sucede Pedro Moreira, mantendo-se uma produção, que sem perder a fidelidade ao cânone do fado, não se satisfaz com a repetição e reinventa, seja no território da guitarra/viola/baixo, seja, como é o caso, arriscando sonoridades mais amplas, com recurso ao saxofone, ao acordeão ou às cordas. Sete anos volvidos sobre o último disco de originais, com a homenagem a Marceneiro e o dueto com Laginha de permeio, Camané surge-nos em pleno, de voz seguríssima e com uma flexibilidade ainda mais surpreendente. O diálogo com o saxofone em “Às vezes há um silêncio” é disso apenas a maior evidência. O resto, parecendo natural como a respiração, é também pura inspiração.

Rodrigo Leão - A Estranha Beleza da Vida ****

Como num filme, outra vez. Os temas deste novo sucedem-se, em jeito de banda sonora de um filme que cada um de nós pode imaginar. Como noutros discos de maior fôlego de Rodrigo Leão. O ambiente onírico é agora ainda mais acentuado, devido à prevalência das encenações musicais que remetem para jogos de infância, em que pressentimos caixinhas de música, martelinhos e outras assombrações (“Sibila”, “A Valsa da Petra”. Trabalhos de pura nostalgia, sublinhados pela valsa e pelo acordeão. Como sempre, os temas cantados são entregues a grandes e pequenas estrelas internacionais, no caso, Kurt Wagner, Michelle Gurevich e Martírio. E também um cuidado especial na imagem, com a intervenção gráfica de Afonso Cruz e de Teresa Vilaverde. O disco encerra uma trilogia marcada pela pandemia (antes: O Método; durante: Avis 2020; após?: A Estranha Beleza da Vida), que o artista paradoxalmente classifica de Liberdade. O novo disco deverá marcar o regresso de Rodrigo Leão aos palcos.

Rita Redshoes - Lado Bom ****

Rita Redshoes quebra o silêncio de cinco anos com um disco integralmente em português e exclusivamente dedicado à sua recente experiência de maternidade. De certa forma, é quase como nascer outra vez. Sim, há aquela maneira de cantar, meio sussurrada, que já conhecemos há década e meia, e, sim, estão aqui alguns dos maneirismos de composição, e mesmo de orquestração, a que também estamos habituados. A grande novidade acaba por ser, por isso, o evidente prazer com que Rita descobre e trabalha as palavras em português, e mesmo como nelas tropeça, como quando tenta meter “temperamento”, onde de forma evidente o vocábulo não cabe (“Ego no Lugar”). Estão aqui canções que poderiam estar noutros discos da artista “Amor Intermitente”), mas a maioria são cantigas que poderíamos dizer de berço (“Canção Canora” ou “Canto da Sereia”, por exemplo), nas quais o tal sussurro de Rita assenta como se sempre a elas tivesse estado destinado. 

José - Primeiro Disco *****

A toada folk do primeiro tema (“Fugir”), a quase lembrar as canções roubadas à terra pelos cantautores dos nossos anos 1970, é enganadora. Este é um disco que explode em todas as direções, como uma palete de cores. Que pede dança, libertação. José (Reis Fontão) lança-se agora a solo, após duas décadas à frente da banda indie francesa Stuck in the Sound e revela um ecletismo deslumbrante, assente em composições informadas e numa produção de calibre profissional. “O Berço da Terra” e “Primavera” são outras duas canções que poderíamos inscrever na linhagem do cancioneiro lusitano. Mas depois há o pop funk de “José, José, José!”, ou de “Intentions”, a house de “Beyond Doubt”, “a electrónica de “Magic Escape”, ou o leve psicadelismo encantado de “Paraíso, e é como se o disco rodasse para fora de órbita. Em direção às pistas de dança, o seu interdito habitat natural. Pareceria pretensioso, não fosse tão bem feito.

Inês de Vasconcellos - Amplexo ****

“Amplexo”, o tema, é bem o resumo deste disco, uma carta de apresentação de uma nova fadista em procura de um fado novo. O assunto, as relações LGBT, já seria suficientemente dissonante do universo do fado, mas a ruptura é mais funda e envolve também uma melodia pouco canónica e um poema com fraseado e métrica angulosos, por vezes no limite da cantabilidade. Esse registo mantém-se um pouco por todo o disco, com, por exemplo, “Fado da Supresa”, a casar a canção castiça com momentos de algum tropicalismo jazzístico. A esse poema, de Maria do Rosário Pedreira, juntam-se mais três de Vasco Graça Moura e um de Fernando Pinto do Amaral (“Olhar”), o qual, aliás, ao adoptar o Fado Licas acaba por ocupar o lugar mais tradicional do CD. Uma aposta em poetas consagrados, que ajuda a situar a aventura e remete irremediavelmente para Amália, ídolo máximo. Produção muito cuidada do experiente Ricardo Cruz. 

Herbert Pagani - Megalopolis (1972) - Uma distopia esquecida

Maxime van der Love, presidente director-geral (PDG) dos Estados Unidos da Europa, no discurso da reeleição, anuncia o envio regular de lixo industrial para a Lua e o asfaltamento de todos os principais rios do Velho Continente, para dar resposta às necessidades de circulação automóvel. Enquanto o discurso vai sendo interrompido por spots publicitários da Mega Cola e da PDG (Pasta Dentífrica Governamental).
Na Europa, há muito que a Natureza cedeu ao betão, o trânsito e a produção de energia tornaram o ar irrespirável, pelo que só é possível sair à rua de máscara de gás. Para combater a solidão, tomam-se pílulas de companhia.

O disco Megalopolis (1972), de Herbert Pagani, é uma ópera-rock cantada em francês, que retoma parcialmente o livro Demain le Moyen Age, de Roberto Vacca. Uma distopia, prevista para o final do século XX, mas na qual tanto vamos reconhecendo muitas ideias e factos que entretanto se tornaram realidade, como outros tantos que pairam como ameaça. 

Herbert Pagani (1944-1988) é um judeu de origem líbia, que fez vida entre a França e a Itália, que se interessou pelas artes plásticas e videográficas, e que deixou uma curta discografia.

A obra chegou a ter uma versão teatral, encenada pelo autor, mas haveria de cair no esquecimento. Existem várias versões, em vinil digital, mas nenhuma com a duração inicial. Estão todas esgotadas, não constam das plataformas de streaming e a única hipótese viável é uma gravação quase completa que pode ser ouvida no Youtube. Uma pena, tratando-se de um disco de tão grande atualidade.

Tempo de coisas novas

março de 2007 a março de 2021.
14 anos de tanta e tão boa música. agora, é preciso fazer coisas novas.

https://www.timeout.pt/lisboa/pt/noticias/time-out-lisboa-volta-as-edicoes-em-papel-com-revista-premium-032321


Raquel Ralha e Pedro Renato - The Devil’s Choice, Vol. II ***

Esta história começou há cinco anos, quando Raquel Ralha e Pedro Renato foram convidados pelo programa Cover de Bruxelas, da Rádio Universidade de Coimbra, a interpretarem três versões de canções que os tinham marcado na adolescência. Desde os tempos dos Belle Chase Hotel que estes dois músicos se tinham mantido no ativo, através de diversos projetos. Este haveria de dar origem, no ano seguinte (2017), a um disco que recolhia essas três e outras versões, e no qual já surgia a menção Volume 1, preparando a sequela. E ela aí está, sem outra novidade que não sejam as canções. O resto, ou seja, a interpretação um tanto dramatizada a pedir palco, mantém-se. Como se mantém a liberdade criativa na abordagem de temas mais ou menos conhecidos, embora nunca entrando por caminhos de pura desconstrução. No leque dos originais, há duas repetições: Lennon (com “God”) e os Pixies (“Monkey Gone To Heaven”). “There Must Be An Angel” mantém a textura instrumental dos Eurythmics, mas passa ao lado dos vocalizos um tanto estridentes de Annie Lenox e coro. Já “Spirit” retiro algum barroquismo típico dos Waterboys, mantendo a tensão. Enfim, horas de comparações.


Diana Krall - This Dream of You ****

Tommy LiPuma (1936-2017) foi, durante as quase duas décadas em que assumiu papel preponderante na Verve, a sombra de Diana Krall e um dos artífices dos megaêxitos da pianista e cantora. LiPuma, como Krall, tinha a visão de que o jazz deveria ser acessível a toda a gente e não vale a pena regressar à discussão sobre se o jazz de Diana é mesmo jazz. A última colaboração dos dois foi “Turn Up the Quiet” (2017), mas dessas sessões sobraram algums temas, que vêm agora a luz do dia, quase em jeito de homenagem. Então, como agora, trata-se de revisitar os clássicos americanos, num registo ainda mais sereno que o habitual na discografia da canadiana. Nestes casos, fica sempre a ideia de aquilo que interessava ficou no primeiro disco e que o segundo mais não é que um depósito de sobras. Não parece ser o caso. O apuradíssimo trabalho de orquestração dá a cada instrumento espaço para respirar: a guitarra em “How Deep Is The Ocean”, o violino em “This Dream of You”, o contrabaixo em “There’s No You” e evidentemente o piano e as discretas cordas um pouco todo o lado. E sabe muito bem ouvir “This Dream of You”, de Dylan, por entre estes clássicos mais antigos. Como que a demonstrar o tal conceito de elasticidade de LiPuma.

Bruce Springsteen - Letter to You ****

“Quando a voz de Ben E. King enche o ar, baby, isso é o poder da oração”. Poucos músicos terão trabalhado tanto o tema da música enquanto salvação, redenção das dores de dentro e dos pecados do mundo. As canções de Springsteen assumem por isso quase sempre a forma de hino ou oração, especialmente quando interpretadas ao vivo. Este disco recupera por inteiro esse espírito, percorrendo quase enciclopedicamente cada uma das malhas musicais criadas pela E Street Band, ao longo de quase cinco décadas de estrada e estúdio. Desta vez, juntaram-se, durante uma semana de neve, em New Jersey, para um disco gravado sem grandes artifícios técnicos, o que lhe confere uma sonoridade autêntica, quase de palco. “House of a Thousand Guitars” e “Ghosts” são os temas onde esse exercício é mais consequente. São, obviamente, canções que nada trazem de novo, limitando-se a revisitar o cânone, com energia e alegria, diga-se. Um disco que recupera três canções de 1972, recorda a primeira banda de Springsteen (os Castiles) e ataca Trump com um tema escrito no tempo de Bush (“Rainmaker”). Nostalgia, outro território querido ao “boss”.

Elvis Costello - Hey Clockface ****

Imagine-se uma audição. Então, e que sabe fazer? Elvis Costello sabe fazer tudo, e faz tudo muito bem feito. Das baladas à música eletrónica, do jazz à new wave, sim ainda à new wave... Não é de agora. Logo após aquela mão cheia de discos de arrebenta, na viragem dos anos 1970 para os 80, foi-se afirmando como um dos mais polifacetados e inventivos da sua geração. De certa forma, um músico do mundo, ancorado na mais cosmopolita pop. Este disco foi gravado em Helsínquia (temas mais rock ou eletrónicos, como “Flag” ou o quase experimental “Hetty O’Hara Confidential”), em sessões nas quais Costello tocou todos os instrumentos, e em Paris, com um naipe de músicos de jazz. Pelo meio, ainda há colaborações à distância (Nova Iorque), por exemplo, do guitarrista Bill Frisell. Os temas mais jazzísticos são simplesmente soberbos, em especial “I Do (Zula’s Song)”, há baladas de grande estilo “The Whirlwind”, ou “The Last Confession of Vivian Whip”. E ainda há espaço para a pura improvisação, na abertura (“Revolution #49”) e para a poesia, em “Radio is Everything”. Um disco complexo, que convida a ouvir repetidamente ao encontro de sempre novas sonoridades.

Paul McCartney - III ****

A uma certa altura, os Beatles gritaram “alto e para o baile”. E parou, literalmente. Acabou-se o frenesim dos concertos e das multidões histéricas, e os estúdios de gravação viram nascer, disco após disco, o verdadeiro cânone da música pop-rock. Décadas passadas, em 2020, ninguém mandou parar o baile, a dança autossuspendeu-se sem pré-aviso. E McCartney viu-se confinado com a família numa quinta. Daí não nasceu qualquer revolução, até porque todas as revoluções já foram feitas, mas o ambiente de reclusão parece continuar a fazer milagres. À semelhança dos anteriores registos homónimos (de 1970 e 1980), o ex-Beatle escreve e interpreta tudo, sozinho. Também como nesses dois discos, este conjunto de canções é atravessado por um misto de simplicidade e exaltação, que quase nos remete para a imagem de uma criança encantada com a magia das coisas, seja o som dos instrumentos ou os mistérios da vida. As canções mais perto da terra – folk, digamos – são as mais interessantes: “The Kiss of Venus”, “When Winter Comes”, ou “Pretty Boys”. Mas há também abordagens mais densas, inspiradas, dissonantes: “Women and Wives”, o instrumental de abertura, ou “Seize the Day”. Num ano tão agreste como este, é muito confortável saber que os nossos heróis permanecem lá, tranquilamente, a zelar por nós.

Mary Chapin Carpenter - The Dirt and the Stars ****

“It’s ok to be sad”. O título da segunda canção é o melhor resumo deste disco, o 16.º e talvez melhor da autora. Um disco de forte introspeção, intemporal, nada a ver com a circunstância da epidemia. O que aqui se canta são os intemporais movimentos telúricos da alma, seja quando o pêndulo te diz que acabou tudo entre nós – “All Broken Hearts Break Differently”-, quando o amor se revela um equívoco – a dolorosa “Asking for a Friend”- , ou simplesmente quando o tema é, sim, o sentido da vida – “Nocturne”, um dos mais belos temas deste conjunto, a par da canção que dá título ao disco, um flashback à adolescência ao som dos Rolling Stones. Mary Chapin Carpenter é um dos nomes mais seguros do panorama country “inteligente”, perdoe-se a simplificação. O disco, gravado em Inglaterra, todos os músicos em estúdio sem artifícios, recolhe-se ao registo mais intimista da música americana, uma opção que lhe abre outros horizontes.

Jarv Is - Beyond the Pale ****

Em “House Music All Night Long”, Jarvis Cocker – é dele que se trata – encontra-se à deriva num mundo de interiores da “night” da sua sala de estar. A intenção não era seguramente essa, até porque o disco terá nascido de atuações ao vivo nos últimos três anos, mas esta canção e atmosfera das restantes são a metáfora perfeita para o 2020 que nos calhou. Dançar na “night” da nossa sala de estar, irremediavelmente à deriva, é esse o nosso destino, tanto quanto podemos alcançar. Jarv Is – é esse o nome da banda – resulta dos tais concertos ao vivo, um pouco por todo o lado, do ex-líder dos Pulp e mais uma mais uma mão-cheia de amigos. As canções integram, aliás, algum desse ADN da música ao vivo. Cocker continua britanicamente sardónico, o que é excelente, e com forte tendência para animar as pistas de dança, por mais interiores que elas sejam. O disco arranca com uma homenagem implícita a Cohen, com Jarvis a sussurrar para um coro feminino que lhe responde, bem humorado, sobre uma evolução suave de valsa. Há ecos de Bowie, fase Berlim, e de Nick Cave, mas o disco é, felizmente, muito mais que isso. Não fosse a quarentena das pistas de dança, e teríamos aqui banda com pés para dançar.

Matt Berninger - Serpentine Prison ***

No tema que dá o título ao disco, e que o encerra, Matt Berninger canta às tantas: “I’ve seen a vision, call an electrician”. Sim, é o mesmo tipo de poesia desconcertante a que nos habituámos nos The National. Este disco, o primeiro de Matt a solo, não é o nono dos National, mas anda lá perto. Não era fácil ao vocalista e alma da banda embarcar numa aventura de distanciamento, especialmente tendo em conta a forma muito marcante como interpreta as canções do colectivo. Seria necessária uma completa reinvenção... Digamos que este exercício a solo nos mostra alguém mais melódico, mais macio, apesar de os temas andarem à volta do mesmo binómio de desesperança versus alento a que já estamos habituados. Booker T. Jones, na produção, salva o disco do que poderia ser um naufrágio meloso. Cordas, metais, órgãos e guitarras encarregam-se de injectar sangue e cor, onde o tédio espreitava. “Distant Axis”, ou “Take Me Out of Town” são exemplos do melhor que aqui se ouve. “Collar of Your Shirt”, ou “Loved So Little” padecem da tendência para o bocejo que se sente mais amiúde do que seria desejável.

Christine and The Queens - La Vita Nuova ****

Em 2018, com “Chris”, Héloise Letissier estabeleceu definitivamente Christine and The Queens como um dos nomes a seguir na cena da música de dança de textura complexa e ambiciosa. O regresso com este EP (seis temas) não se fica pela consequência lógica dessa afirmação. Agora num registo mais lento, em que a batida forte se entrelaça com lençóis de electrónica e coros, resultando num produto que vibra ao ritmo do corpo. O vídeo com cinco destas canções, que pode ser visto no Youtube, materializa ainda mais esse sentimento de dança natural, através de uma coreografia que atravessa os telhados de Paris e que, no plano visual, aproxima Christine de Michael Jackson da mesma forma que “I Disappear in Your Arms” o faz na vertente musical. A ambivalência musical serve na perfeição o carrocel emocional das canções, sempre na incerteza entre a paixão, a desilusão e a ressurreição. Que, como se sabe, é um excelente mote para a dança.

Ray LaMontagne - Monovision ****

Não é seguro que a música salve, mas há discos que aliviam muito os dias cinzentos. Ray LaMontagne levou os dias de confinamento a sério e, completamente sozinho, compôs, produziu e interpretou o seu oitavo disco. E não é que desses dias de chumbo saiu um dos mais luminosos discos deste ano? O psicadelismo dos últimos tempos deu lugar a um regresso às origens, baladas folk sem arestas, melodias de encantar e assobiar por mais. A disposição geral vai a par: canções de amor, amor mesmo, nada de corações partidos... enfim, um ou outro lamento, nada que deixe marcas alma. E depois há o divertimento um pouco virtuoso de este ser um disco de veneração a grandes mestres e influenciadores, como se a canções fossem por vezes quase pastiches. De Van Morrison, em “Misty Morning Rain”, de Neil Young, em “Rocky Montain Healin’”, dos Credence Clearwater Revival, em “Strong Enough”, dos Mamas and Papas (ou será Carpenters?), em “Weeping Willow”. Um disco feliz.

The Psychedelic Furs - Made of Rain ***

O último disco dos Psychedelic Furs (“World Outside”) saiu há 29 anos, o mundo deu voltas e mais voltas. Eles regressam agora, como se nada fosse. “Made of Rain” não pega na história onde ela tinha parado, mas também não inventa novos caminhos. Na verdade, é como se essas três décadas não tivessem existido. Esses anos em que Richard Butler, o irmão e mais uns tantos se entretiveram em projectos diversos e em rodar os sucessos da fulgurosa década de 80 por diversos palcos. Ainda nessa década, estes ingleses evoluíram do punk original para uma sonoridade mais domesticada e destinada aos grandes palcos. Um som que assenta em guitarras (muitas), um inesperado e relativamente discreto saxofone e a voz esforçada e projectada de Butler, a ecoar os dramas e angústias geracionais. “Wrong Train”, “Don’t Believe” ou “You’ll Be Mine” são bons exemplos dessa atitude de uma música descomplexada, de efeito fácil, mas garantido.

Jessie Ware - What´s Your Pleasure *****

Numa entrevista à Glamour, a propósito de “What’s Your Pleasure” e de certa forma respondendo a essa pergunta, Jessie Ware esclareceu ao que vem: “Quis fazer um disco ao som do qual as pessoas façam sexo”. Não será exatamente ou apenas isso. Canções como “Adore You” ou “In Your Eyes” – a dupla de luxo no centro do disco – apelam claramente à continuação da dança por outras vias. Mas este é, essencialmente, um disco para as pistas. De disco, nem tanto pós-disco, ou sequer de nostalgia do disco dos anos 80, embora tenha de tudo isso um pouco. “Mirage (Don’t Stop”, outro dos temas incontornáveis deste exercício, recupera essa batida que vem dos 80 e se que eternizou nas pistas de dança. Começa por declarar: “A noite passada dançámos, e pensei que estavas a salvar-me a vida”, para no refrão explodir numo sussurro quase subversivo nos tempos de distanciamento e negação que vivemos: “Não deixes de te mover em conjunto, continua a dançar”. Este é de longe o disco mais expansivo de Jessie Ware, num sentido até literal. Ao contrário do que acontece nos anteriores três, aqui as canções tendem a desenvolver-se de forma caleidoscópica, com os pés assentes em sólidas secções rítmicas, que ora evoluem sobre si próprias, ora se fazem acompanhar de cordas luxuriantes ou coros ritmados. Tudo isto resultado de uma apurada produção (James Ford) e de uma estrela de créditos firmados para quem o melhor do confinamento foi cozinhar para uma família de quatro (sim, o podcast de gastronomia de Jessie recomenda-se).