Wilco - Ashes Of American Flags ****/***

Reduzir a música dos Wilco a um mero country alternativo é, perdoe-se a redundância, redutor. E este DVD é a mais perfeita demonstração disso mesmo.
É claro que a base country é audível em todas as canções. Mas digamos que funciona mais como ponto de partida do que um meio de expressão. A música dos Wilco explode em várias direcções e coloca-as, por vezes, num patamar de experimentalismo que deixa muito para trás as raízes.
O DVD retrata uma digressão pela América, capturada em quatro auditórios e ocasiões bem diversas (Tulsa, Nova Orleães, Nashville e Washington), em que os momentos, digamos, mais bem comportados, alternam com autênticas explosões sónicas, das quais as trovoadas musicais que irrompem em “Via Chicago” são apenas o exemplo mais demonstrativo.
A serenidade de uma banda madura é, porém, a marca dominante deste conjunto de actuações, em que podemos ouvir algumas das melhores canções dos Wilco.
Os segmentos musicais são intercalados por registos de bastidores, que tanto mostram o dia-a-dia de uma banda em digressão, como conversas sobre música, como retratos da América. Há, por exemplo, os pormenores das polaroids de um dos membros da banda: retratos de uma América que desaparece através de uma tecnologia que desaparece. São imagens que, no fundo, justificam o título nostálgico do DVD – cinzas de bandeiras americanas.
Uma das cenas de bastidores mais deliciosa é a que se relaciona com o estado físico da banda. Andar na estrada, é sabido, não faz bem à saúde. O baterista queixa do pulso aberto, ao guitarrista doem-lhe as mães e a garganta de Jeff Tweedy é cuidadosamente examinada. Percebemos, depois em palco, porquê. Diz ele que, se aquele concerto fosse considerado um dos melhores do mundo (!), o prémio teria que lhes ser retirado – ele próprio estava ali a cantar carregado de esteróides para se aguentar.
No campo dos extras, além de meia dúzia de canções que sobraram do alinhamento, a possibilidade – que deveria existir em todos os DVD musicais – de descarregar da Net a banda sonora para ouvir em CD.

Iggy Pop - Preliminaires ****

Primeiro aviso preliminar: os fãs de Iggy Pop devem pensar duas vezes antes de comprar este disco.
Segundo aviso preliminar: este disco é muito bom e qualquer pessoa de bom gosto deverá ouvi-lo.
É claro que, com isto, não se pretende dizer que os fãs de Iggy Pop são pessoas de mau gosto. Mas, aos 62 anos, diz ele num texto de promoção ao novo disco: “Estou um bocado farto de ouvir rufias idiotas com guitarras”. E, bom, isto deverá magoar ligeiramente a legião de punks e pós-punks que o adoptaram como avô.
Este disco, a começar pelo título, é todo francês, se bem que apenas uma canção utilize essa língua – a mais que célebre “Les Feuilles Mortes”, em duas versões arrebatadas. Mas, a abrir e a fechar, é ela que marca todo o ambiente deste Preliminaires. É certo que há por aqui muita influência jazz (“King Of The Dogs”) e até – ah sim – guitarras barulhentas (“Nice To Be Dead”), uma canção que é tal e qual Doors (“A Machine For Loving”), outra que anda pelo blues (“She’s A Business”) e que Nick Cave ou até Leonard Cohen se escondem em algumas esquinas.
Mas a grande influência é mesmo Gainsbourg e o seu pop francês que foi beber, ele próprio, influências a tudo o que atrás foi descrito. Até uma ninfeta Iggy arranjou para que não tenhamos dúvidas (“Je Sais Que Tu Sais”). “I Want To Go To The Beach” ou “Spanish Coast”, duas das mais melódicas canções, poderiam perfeitamente ter sido escritas por um dos compositores franceses da actualidade. A esta marca francesa não será alheio o facto de o autor ser ter inspirado para algumas das canções no livro A Possibilidade de Uma Ilha, de Michel Houellebecq (“A Machine For Loving”) é mesmo uma transcrição dessa obra).
Acho que não será ofensa dizer que Iggy Pop amadureceu. E que ganhámos um novo artista chamado… Iggy Pop.

Richard Swift - The Atlantic Ocean ****

Ouve-se a primeira canção e parecem os Beatles serôdios que ressuscitam. Salta-se para a última, “Lady Luck”, e caímos no meio de uma gravação da Motown dos tempos áureos. E depois há a segunda, “The Original Thought”, que parece Kinks cruzado de Van Dyke Parks. E todas outras parecem ter algo daquele som de cabaret sofisticado de Van Dyke Parks, ou então qualquer coisa dos anos sessenta.
Richard Swift é aquilo a que podemos chamar, com toda a propriedade, um “ganda maluco”. Um génio meio avariado. Um Rufus Wainwright que, em vez de se concentrar no essencial, gosta é de pegar nas melodias e pôr-se a brincar com elas. A ver se resistem.
É claro que todas estas comparações resultam numa enorme injustiça. Porque Swift sabe mesmo escrever canções e, de certa forma, não tem culpa de, tão novo, ter absorvido tanta e tão boa música.
Um disco para quem gosta de ser surpreendido. Mesmo quando se pensa que já se conhece.

a Jigsaw - Like The Wolf ****

Coimbra, como toda a gente sabe, fica algures numa daquelas florestas americanas. Onde desapareceu Laura Palmer, acho que entre os States e o Canadá.
O som desta banda de Coimbra é totalmente americano. No inglês das canções, na opção pelas raízes blues e folk, nos instrumentos (banjos, violinos, guitarras acústicas, pequenos instrumentos de magia…). Mas também nas histórias, que nada têm de cá, mas que conseguimos facilmente localizar numa das tais florestas, cheias de póneis castanhos e lobos nocturnos (muitos lobos há nestas histórias de amores, viagens e encantamentos).
O grupo (João Rui, Jorri e Susana Ribeiro) já anda na estrada há uma década e este é o segundo trabalho de grande fôlego. Um trabalho maduro, a revelar grande criatividade e profissionalismo, com uma produção bastante cuidada.
Apesar de se tratar de uma aposta assumidamente destinada a minorias (afinal de contas, há sempre os originais e nem esses vendem assim tanto), merece alguma atenção a quem gosta deste género musical.

Bob Dylan - Together Trough Life ******

É como quando se fala de Vinho do Porto. Há as colheitas vintage e dessas pouco mais há a dizer que enaltecer a sua excepcionalidade. De um Dylan vintage – e este é um Dylan vintage – pouco mais há a dizer. Excepcional. Tudo o que a partir daqui possa ser dito só contribuirá para vulgarizar o que o não deveria ser.
De há uns anos a esta parte, mais precisamente desde 1997, com Time Out Of Mind, Dylan está a construir um legado que apenas rivaliza, na sua longa carreira, com a época áurea de meados dos anos 60.
Houve quem pressintisse nesta fase algo de crepuscular, um acerto de contas com a vida, uma reflexão sobre o fim. Este Together Trough Life vem contrariar claramente essa tese.
Este é um disco claramente romântico. Em que o amor é o último refúgio de um mundo turbulento. Aqui e ali, há versos cáusticos sobre “estados falidos” e coisas afins (“My Wife´s Home Town”). Mas o romance, bem ou mal sucedido, é o que atravessa todas as canções. E também o sonho (“This Dream Of You”), mesmo quando Dylan admite que, com ele, os sonhos não funcionam, mesmo quando se tornam realidade…
À semelhança do que acontecera com os seus últimos registos, musicalmente somos remetidos para épocas pré-rock. No caso, o blues, chegando a ouvir-se citações directas de Willie Dixon (“My Wife’s Home Town”), cruzado com uma forte influência tex-mex, não sendo por acaso que o acordeão de David Hidalgo (Los Lobos) é omnipresente. O disco terá sido gravado num acto de urgência criativa e isso nota-se nos arranjos imediatistas, sem grandes pretensões.
A canção mais marcante talvez seja “I Feel A Change Comin’ On”, na sua ambiguidade entre a política e o discurso amoroso, numa tapeçaria de versos que fará as delícias dos dylanófilos.
Como já vem sendo hábito, há edições para todos os gostos, com extras que incluem entrevistas, posters e amostras do programa de rádio de Dylan.

Lisa Ekdahl - Give Me That Slow Knowing Smile *****

Estes suecos, ou têm um grande olho para o negócio, ou é mesmo uma questão de irremediável bom gosto. Agora que a vozinha infantil do jazz-bossa de Lisa Ekdhl já começava a enjoar, eis que a rapariga se apresenta toda pop, num registo que cai que nem gingas nesta nossa Primavera intermitente.
O esforço não deve ter sido grande. Lisa só era jazz para consumo externo - na Suécia, tem uma longa e bem sucedida carreira na música mais comercial.
Este disco suplanta, porém, as expectativas. A voz infantil continua lá, para irritar alguns, mas as canções são lindas (é mesmo essa a expressão…), numa elegante mistura de folk, indie e pop.
É claro que as composições são sólidas – a tal espantosa mestria escandinava -, mas o que mais surpreende nesta aventura é o cuidado extremo com que são vestidas. Como se cada canção fosse uma frágil jóia, embelezada e trabalhada de forma diferente.
A primeira canção, embalada de assobio e swing, ainda remete vagamente para a nossa conhecida Lisa, e até mesmo “I Don’t Mind”, que se lhe segue, ainda swinga. A grande ruptura surge com “I’ll Be Around”, canção em três partes: uma encantatória balada que evolui para o mais puro pop, para acabar em qualquer coisa que faz lembrar Nat King Cole. E é desta arte de cruzar tudo o que é bom gosto na história da música que se compõe este disco.
A árvore genealógica em que estas canções se inserem passa claramente pelos Beatles, como muita da pop que nos chega da Escandinávia. Nem que seja na clareza das melodias, na simplicidade com que é exposta cada canção. Ouça-se, por exemplo, “When” (o solo de guitarra, então…), ou “Beautiful Boy”, uma canção que poderia ter sido escrita por Lennon ou McCartney nos anos que se seguiram à separação.
É claro que tal simplicidade deve ter dado muito trabalho. Valeu a pena!

Alela Diane - To Be Still ****

Não fosse pela capa (nos anos 60 e 70, não se usavam fotos tão más nas capas…), e poderíamos concluir que estamos perante uma reedição de Emmylou Harris baralhada com Fairport Convention.
Mas Alela Diane está agora na flor da idade e, depois de The Pirate’s Gospel (2006) regressa com este To Be Still, bem mais consistente, na voz, na composição e na orquestração.
Apesar de americana, a sua maior influência parecem ser os grupos folk britânicos, sejam os Fairport ou os Pentangle. Por vezes, a influência parece até ser demasiado explícita, como em “White as Diamonds”. Ou em Age Old Blues, em que parece pressentir-se a presença de Sandy Denny.
Mas há também canções, como a belíssima “The Alder Trees”, que beneficiam de contextos musicais bem mais recentes, embora nunca seja abandonado o envolvimento acústico que marca todo o disco. Um nome a seguir com atenção

Neil Young - Fork In The Road *****

Este disco deveria ser patrocinado por uma qualquer multinacional energética. Porque energia é o que não falta por aqui. Guitarras eléctricas como raramente se ouve, energia criativa com carácter de urgência, e até mesmo a defesa, radical pois claro, das novas energias, mais amigas do ambiente.
Neil Young atravessa uma das fases mais interessantes da sua carreira. Tivemos uma prova disso com o último disco (Living With War, 2006) e com o espectáculo, no duplo sentido da palavra, que deu no Verão passado em Algés. Parece que a situação política e económica da América e do mundo provocou nele um renascimento, após ter estado realmente às portas da morte há uns anos.
“When Worlds Collide”, que abre este disco, corre sérios riscos de entrar para o top das melhores canções de Neil Young. Mas “Just Singing a Song” não lhe fica atrás. A primeira é uma autêntica orgia de guitarras – de resto, todo o disco é uma colecção de riffs (e, já agora, de fantásticos coros) -, enquanto que a segunda é mais um daqueles hinos políticos que incendeiam plateias.
Todo o disco gira à volta dos carros – Neil Young adaptou um motor eléctrico a um vellho Lincoln Continental de 1959 – e as canções vão fazendo referências, ora directas ora metafóricas, a esse mundo meio mítico, meio em crise, do automóvel. “Fuel Line”, por exemplo, trata precisamente dos carros do futuro que já por aí andam, enquanto “Johnny Magic” fala precisamente do contrário, da nostalgia dos grandes carros (e condutores) do passado.
Pelo meio, ainda há tempo para criticar a crise financeira, em “Cough Up The Bucks” (“Where did all the money go?”), com o mesmo sentido de humor que percorre o resto do disco.

JJ Cale - Roll On ****

De JJ Cale é sempre necessário recordar que se trata do autor de “Cocaine”, popularizada por Eric Clapton. Isto porque “Cocaine” (e, já agora, “After Midnight”, também reinterpretada pelo mesmo artista) concentra, naquele estilo sincopado, toda a música de JJ Cale. E depois porque a enorme influência deste discreto septuagenário em alguma da música que se faz hoje em dia tem em Clapton o seu expoente maior.
Aliás, Clapton é a estrela convidada, precisamente em “Roll On”, a faixa que dá o título ao disco, como já havia sido ele a partilhar, de forma mais ampla, o trabalho anterior de Cale – The Road to Escondido (2006). Diga-se, de passagem, que pouco se dá pela presença de Clapton neste disco, tal é a similitude entre uma certa forma de dedilhar a guitarra exibida por ambos.
Outra coisa que costuma dizer-se de JJ Cale é sua enorme versatilidade com os instrumentos. À parte uma ou duas colaborações, é ele que toca tudo, seja bateria, piano, sintetizador ou banjo. E, obviamente, guitarra (muitas…), a sua imagem de marca.
É claro que Cale não é pessoa destinada aos tops. Aparentemente, até faz gala de manter um certo low profile, de gravar pouco e, acima de tudo, de manter um estilo avesso a modas, que deve muito ao booggie, ao jazz, aos blues, às músicas fundadoras.
Por exemplo, neste disco, canções como “Former Me”, com as suas extraordinárias linhas de piano, remete mais para o universo jazz do que para o rock. E as quase imperceptíveis linhas de metais em “Who Knew” conferem-lhe uma patine muito própria. A pedalada de “Strange Days” estaria mesmo a pedir um êxito de rádio, se estas canções ainda passassem na rádio.
É claro que estamos que perante um cantor de culto. Sobre isso não há grande volta a dar.

Annie Lennox - The Collection ****

Uma das “surpresas” da audição deste disco é percebermos como as canções de Annie Lennox fazem parte da banda sonora das últimas décadas. E isto apesar de apenas ter lançado quatro discos nas quase duas décadas posteriores à separação dos Eurythmics (1991).
Canções como “Why”, “Walking on Broken Glass”, ou versões como “A Whiter Shade of Pale” ou “No More I Love You’s” foram enormes sucessos na rádio e são daqueles temas mais ou menos intemporais, que nem sequer conseguimos identificar com uma época, uma moda.
O maior “segredo” de Lennox é, obviamente, a voz, que consegue levar onde quer, mas não são de menosprezar as produções um pouco gongóricas, mas com grande apelo comercial, que envolvem toda a sua música.
Esta edição, além dos sucessos, integra um segundo CD com raridades (um dueto com Alicia Keys, que só peca por excesso de virtuosismo) e ainda um DVD com os seus vídeos mais conhecidos e por onde perpassam os mesmos tiques barrocos das orquestrações.

José Miguel Júdice - Portugalando ****

Numa entrevista recente, José Miguel Júdice definia-se a si próprio como um provocador e admitia até que, por vezes, provoca apenas para se divertir ou para assistir às reacções de quem o rodeia.
Ninguém diria. Num país de engravatados, espera-se de um engravatado (e que engravatado…) que tenha tino e não se ponha para aí com provocações.
Por exemplo, não se espera de alguém com responsabilidades, um íntimo dos poderosos, que venha dizer que Portugal atravessa “a maior crise de sempre da nossa História” (atenção às conclusões precipitadas – isto foi escrito em Janeiro de 2007…) e que, logo de seguida, manifeste algum comprazimento com a nossa descida aos abismos, já que isso pode “servir de vacina e de demonstração para todos os outros, que com a nossa falência e a nossa extinção como projecto viável aprenderão a evitar igual destino”.
Isolada, ou eventualmente replicada noutros escritos, tal afirmação colocaria o super-advogado no topo dos “encartados pessimistas (…) que se esvaem diariamente em gozo onanista sobre a decadência e os horrores da Pátria”, como ele próprio escreve. E nestas quase 200 páginas em que recolhe as crónicas editadas no Público em 2007, há pessimismo a rodos, seja a propósito da classe política, da igreja católica, dos portugueses em geral, ou do PSD em particular.
E, no entanto, Júdice faz questão de ainda se colocar do lado dos “optimistas”, se bem que “preocupados”. A ténue linha divisória estará, talvez, na “esperança” que diz ter, sem ilusões, de que Portugal possa ultrapassar, sem cair, o tal estado de pré-falência.
A maledicência nacional encontrará aqui pasto q.b. para se alimentar – seja nos elogios a Sócrates, seja na descrição do PSD como um “partido moribundo” e já quase sem lugar no sistema político português. Os outros têm vastos motivos de reflexão, à sombra de uma escrita limpa e elegante. Com gravata, mas jovial.

Adriana ***

Adriana tem todos os ingredientes, excepto talvez aquela voz ligeiramente sopinha de massa, para ser uma grande estrela. É portuguesa, de família musical, passou pelo Conservatório, partiu atrás de um curso no Berklee College of Music, aventurou-se pela América, experimentou a “vida normal” e decidiu meter-se num estúdio e gravar em dez dias o primeiro disco. Além de compor e cantar todas as canções, produz o disco e ainda toca piano, guitarra e flauta.
Tudo perfeito. E, no entanto…
Adriana tem uma voz razoável, as composições são relativamente banais (ouvido o disco, pouco ou nada fica no ouvido) e a produção, apesar de procurar cruzar tudo o que é influência (rock, jazz, afro…), também nunca sai da mediania.
Fica a curiosidade de perceber como funcionarão algumas destas canções ao vivo. Talvez no palco haja alguma alquimia que não se pressente por aqui.

Diana Krall - Quiet Nights ***

O jazz ligeirinho de Diana Krall nunca andou muito longe da bossa nova. Insinuante, sussurrante, com respiração. Mas este Quiet Nights é mesmo, só e apenas, um disco de bossa nova. Perfeito, como tudo o que Diana faz, mas sem entusiasmos por aí além, como Diana já nos habituou. É claro que todos os cuidados foram tomados – chamou-se o director de orquestra Claus Ogerman, antigo colaborador de Tom Jobim, e seleccionou-se um naipe de canções que inclui clássicos da bossa nova (Girl From Ipanema, Corcovado) e standards da canção norte-americana devidamente adaptados ao ritmo lento e às cordas envolventes. Nesta última vertente, merece destaque “Walk on By” (Bacharach). E, é claro, Diana não resiste, como tantos no passado, a cantar em “brasileiro” (“Este Seu Olhar”), não se saindo nada mal. Novidade neste disco só mesmo a capa: pela primeira vez, Diana está francamente…

James Taylor - Covers ***

James Taylor é uma daquelas pessoas a quem não se deve pedir que faça aquilo que não sabe. E o que James Taylor sempre fez bem foi cantar canções de outros, num registo entre o intimista e o “meia bola e força”. É disso que se trata neste disco – 15 canções de autorias diversas, quase todas dos tempos em que JT era uma estrela internacional.
Agora, aos 60 (feitos este mês), JT talvez a pouco mais possa aspirar a ser ouvido pelos da sua idade, ou pouco menos. Estes discos preenchem, de resto, essa função de reatar, reavivar, se quiserem, velhas cumplicidades geracionais.
Nem a presença, aliás mal explorada, de Yo-Yo Ma em “Suzanne” (Cohen) consegue retirar esta versão da mediania geral. “Summertime Blues” é, digamos, engraçadota… Mas, insiste-se, não era certamente do contrário que estavam à espera os fãs de JT.

Manuela Gonzaga - Doida Não e Não! ***

Sabem o que apetecia fazer com este livro? Um romance. A autora optou, ajuizadamente, por uma exposição histórica, ou, se quisermos, uma mega-reportagem biográfica. Até porque o romance já existe – Doidos e Amantes, de Agustina. E até, imagine-se, um filme – Solo de Violino, de Monique Rutler. Ambos, obviamente, com algumas liberdades face à verdade dos factos que se pretende fixar nesta obra.
A história que aqui se conta é a de Maria Adelaide Coelho da Cunha, filha do fundador do Diário de Notícias e casada com um dos seus primeiros directores, Alfredo da Cunha, que se apaixona pelo motorista, com quem foge de casa, trocando os luxos de um palácio de Lisboa pelo desconforto de uma modesta casa na província. Com a colaboração dos maiores alienistas (psiquiatras) da época, marido e filho conseguem interná-la num manicómio, com o diagnóstico de “loucura lúcida”.
Ironicamente, a “libertação” acaba por passar pela publicação de cartas num jornal concorrente, A Capital, e pelo lançamento de um livro, o qual origina, por sua vez, um livro-resposta de Alfredo da Cunha.
Estávamos na segunda década do século passado e ingredientes não faltavam para apaixonar um país mergulhado, também ele, em grandes convulsões, mas de ordem política.
O livro de Manuela Gonzaga é o relato mais completo publicado até hoje dessa fabulosa história, até porque beneficia, não apenas da documentação já conhecida, mas principalmente de um espólio descoberto, em 2003, pelos proprietários do palácio que o casal habitou em Lisboa.
Além de contar a história propriamente dita, o livro é o retrato de uma sociedade dominada pelos poderosos e também dos enormes erros que se cometeram à sombra da nova ciência que era a psiquiatria.
Lê-se como um romance, embora algumas opções da autora sejam discutíveis. Por exemplo, o profuso recurso a citações dá resultados que brigam com a boa utilização da língua (“Por isso, pedia-lhe que não julgasse que a ‘falta de resposta às tuas cartas’…”) e a repetição de episódios, alguns de forma insistente, em capítulos diferentes, quase desmotiva a leitura de uma história a que não faltam os episódios e reviravoltas.

Seasick Steve - I Started Out With Nothing And Still Got Most Of It Left ****

Vale a pena procurar Seasick Steve no Youtube. Porque nem imaginamos como alguns dos sons que ouvimos neste disco são obtidos… O homem usa guitarras normais, acústicas e eléctricas, mas às vezes tira-lhe três cordas e obtém uma sonoridade bastante peculiar. Depois, há a bateria – uma lata velha, onde ele vai batendo com o pé.
Trata-se de um regresso radical aos blues originais. Rudes, directos. Uma história, uma guitarra e uma voz cheia de fumo, álcool ou simplesmente idade.
Seasick Steve anda na casa dos 60 e vai agora no terceiro disco. Antes, vadiou. Pela América, pela Europa, pela Noruega…
Canta histórias e, mesmo tratando-se de um disco de estúdio, muitas das canções começam com uma pequena introdução, já que estamos perante um contador de histórias.
E depois há uma alegria simples que exala desta música. Seja o sentido de humor, sejam as histórias de amor.

Ray LaMontagne - Gossip In The Grain *****

Eis um caso sério – por onde começar os elogios? Pela beleza estrutural das canções? Pelo modo como Ray LaMontagne tem vindo a moldar a voz, aprofundando a sua aparente debilidade? Pela atmosfera intensa e intimista criada pelo músico e produtor Ethan Johns?
O caso é, de facto, sério. Gossip In The Grain é um dos mais belos discos dos últimos tempos e revela um artista em tal progressão criativa que atira a fasquia das expectativas para bem alto. Estamos a milhas da simplicidade de Trouble (2004) e até das texturas já mais complexas de Till The Sun Turns Black (2006).
O tema de abertura, por exemplo, é uma verdadeira explosão de criatividade, a fazer lembrar os melhores momentos da Motown… ou, melhor, da Stax. Os metais, as cordas, os coros femininos, tudo se conjuga numa canção de um rigor clássico irrepreensível.
A abertura é, porém, enganadora. O melhor deste disco não é a alegria contagiante de “You Are The Best Thing”, mas antes os ambientes intimistas e dolorosos, a que a voz de LaMontagne confere dramaticidade e veracidade. “Sarah”, por exemplo, é uma pequena jóia, uma belíssima evocação da perda da inocência. “Let It Be Me”, um hino à amizade nos mesmos termos da histórica “You’ve Got a Friend”, de Carole King. Por vezes, a atmosfera entra por terrenos a fazer lembrar o psicadelismo (“I Still Care For You”) e até, de forma quase explícita, os Pink Floyd primitivos com uma pitada de Morricone (“Meg White”, uma canção sobre a baterista dos White Stripes).
Cada canção ouve-se como se víssemos um filme. Vale a pena ouvir cada uma atentamente, repetidamente. Para melhor absorver a delicadeza dos pormenores com que foram construídas e ornamentadas. Não há discos destes todos os dias.

Andrew Bird - Noble Beast *****

O ouvinte menos avisado poderá exclamar, assim à primeira espreitadela: “O quê? Mais um disco com um fulano que assobia?” Não, caro leitor, este não é “mais um fulano que assobia”, este é “o” fulano que assobia. Andrew Bird tem uma teoria – convém prevenir que estamos perante um erudito –, segundo a qual o assobio será o espelho mais fiel da forma como a música se forma no cérebro. Daí a assobiar por dá cá aquela palha foi um passo.
Andrew Bird tem ainda outra característica peculiar no mundo pop – é violinista. Mas, atenção (o fulano é mesmo complexo…), toca violino como quem toca… saxofone. É verdade, ele está convencido de que, quando pega no violino, está a fazer o mesmo que Lester Young ou Coleman Hawkins.
Bom, mas o que podemos esperar de um disco de um fulano que assobia e que toca violino armado em saxofonista. Na verdade, tudo, como prova a sua já relativamente longa carreira (sete discos, cinco deles a solo).
Este Noble Beast corre sérios riscos de se tornar o seu melhor disco. Após uma incursão mais indie, com Armchair Apocrypha (2007), dá um passo atrás e oferece-nos um registo que tem tanto de folk, como de clássico, como de experimentalista, como de… pop.
Por exemplo, logo a abrir, apetece acompanhar os assobios e coros de “Oh No”, mesmo que o coro fale em “harmless sociopaths” e a canção em “calcified arhythmatists”, que parecem expressões muito pouco pop e até pouco assobiáveis.
Digamos que o assobio que inadvertidamente soltamos, aqui e ali, resulta da exuberância (alegria, mesmo…) que exala desta música incrivelmente complexa e a exigir muita atenção para uma perfeita absorção. Por exemplo, em “Masterswarm”, “Effigy” ou “Souverian”. Que de coisas complexas resulte uma beleza tão evidente, eis o mistério.

João Vasco Almeida e Rui F. Baptista - 12 Erros que Mudaram Portugal ***

Pegue-se na mania das listas, de que padece cada vez mais gente. Junte-se-lhe outra mania, a de encontrar um ponto de vista diferente, inesperado, bem humorado, “giro”, de contar as mesmas histórias de sempre. Contrate-se um ou dois jornalistas, guionistas, ou investigadores de vária estirpe com queda para a escrita. Embrulhe-se tudo de forma muito ligeira, capítulos curtos, letra grande, ilustrações q.b.. Eis a fórmula de sucesso garantido nas livrarias anglo-saxónicas há décadas e décadas.
Este é o tipo de cozinhado que, se bem não fizer, mal não faz. Sejamos generosos: com estes livros de divulgação aprende-se sempre alguma coisa, nem que seja daquelas histórias para contar nas reuniões de família. “Sabem que o D. Afonso Henriques, afinal, não bateu na mãe, tinha era um certo pó ao amante da mãe?” Este é o tipo de tirada capaz de desbloquear uma conversa, iniciar um animado debate sobre o complexo de Édipo ou simplesmente mostrar que estamos perante uma pessoa de cultura geral acima da média.
Este volume, que se lê em meia dúzia de viagens de Metro, não está mal conseguido, se atendermos os objectivos a que se propôs. E aqui é preciso salientar um aspecto muito importante: o título é “12 Erros Que Mudaram Portugal” e não “Os 12 Erros Que Mudaram Portugal”. Ou seja, os autores escolheram uma dúzia de acontecimentos marcantes da História de Portugal e tentam contar-nos o que correu mal, ou que equívoco terá estado por detrás desse evento. Em regra, foram escolhidos momentos marcantes (as Descobertas, a implantação da República…), mas quando a selecção se torna mais aleatória revelam-se algumas fragilidades. Por exemplo, o que terá sido mais marcante na nossa história contemporânea, o buzinão (que os autores contam), ou a decisão de última hora de Sá Carneiro de ir de avião, e não de carro, para o Porto, na noite de 4 de Dezembro de 1980. Isso, sim, foi um erro…
Desnecessário era que, num livro destes, surgissem erros de português. “Concelho de Segurança da ONU”? Principalmente, quando se critica o analfabetismo: “Em Portugal, já há época um país maioritariamente analfabeto…”. Vá lá, não engrossem a lista!

Tom Jones - 24 Hours *****

Pede-se gentilmente às senhoras presentes na sala que não insistam no ritual vulgarizado nos anos 70 de atirar lingerie para o palco - aos 68, quase 69, o artista poderá não aguentar o impacto dos novos wonderbra… Não levem muito a sério quando ele canta “I’ve got sexual ambition… The older I get, the better I was”. A canção (“Sugar Daddy”), escrita por Bono e The Edge (U2), que também dão uma ajuda instrumental, pretende ser mais um retrato do artista “no seu tempo” que um diagnóstico ao seu actual estado.
Aos 68, quase 69, Tom Jones regressa pela enésima vez, agora para surfar a onda das Amy Winehouse que por aí andam a copiar aquilo que ele sempre foi. Soul, R&B, orquestrações luxuosas, grande pedalada, balada de fazer chorar as pedras da calçada, tudo isso e um charme arrasador, a raiar a provocação sexual.
O velho Tom, quase 69, regressa em grande forma… menos na voz. No vozeirão com que enchia as tais baladas e coisas mais aceleradas. Agora, é ouvi-lo no limbo, por exemplo, em “We Got Love” ou “Give a Little Love”.
Mas, se, aos quase 69, lhe falha a potência (!) da voz, onde está então o encanto? Na produção, precisamente. Este é um daqueles discos em que se recupera todo o esplendor do passado (comparem a entrada de “If He Should Ever Leave You” com a abertura de “Love Boat”, ou o electrizante “In Style And Rhythm” com “Sex Bomb”), apoiado agora nos múltiplos recursos existentes. Os Future Cut (produtores de, por exemplo, Lili Allen ou Estelle) conseguem o milagre de condensar num só disco sonoridades que fizeram os tops nas últimas quatro décadas.
Este é um daqueles discos que começa por se ouvir com desconfiança (que raio de capa… cheia de fumos) e que, depois, não se consegue largar. Ah, se a voz ainda lá estivesse toda!

Simply Red - 25, The Greatest Hits ****

Bem-vindos, então, ao quatro best of da carreira dos Simply Red. Mais precisamente àquele que, chamando-se apropriadamente Greatest Hits (como o de 1996), se destina a comemorar o 25.º aniversário de uma das bandas que melhor soube misturar a soul com a pop, daí retirando o óbvio sucesso.
O duplo CD (há também uma edição com mais um DVD) serve ainda de apoio a uma digressão mundial, que começou há dias e que deverá prolongar-se até ao Verão de 2010 (!). Para já, o palco mais perto de Lisboa é o Olympia, de Paris, mas certamente que se arranjará uma data para Lisboa ou coisa assim.
Depois do disco de Abril de 2007 (Stay) e de uma muito interessante aventura (Tribute to Bobby, 2008) do vocalista Mick Hucknall pela música de raiz negra, que é uma das matrizes dos Simply Red, esperava-se por esta altura obra nova e não apenas mais uma compilação.
Porém, o melhor que a banda consegue apresentar é uma nova versão de “Go Now”… dos Moody Blues, revestida com a obrigatória batida negra.
Os Simply Red, sejamos sinceros, são excelentes nos slows, próprios ou alheios, e muitas das suas ascensões aos tops foram feitas à custa de remakes. Veja-se, por exemplo, “If You Don’t Know Me By Now” (dos Blue Notes), ou a versão adocicada de “Every Time We Say Goodbye”.
Mas também convidam a danças mais animadas, como em “Stars” ou “The Right Thing”, ou até no reaggae “Night Nurse”, canções que fizeram as delícias da rádio nas últimas décadas.
O alinhamento deste duplo CD foge à ordem cronológica, o que no caso é completamente indiferente – apesar de ter tido várias configurações ao longo do tempo, a marca de água é a voz e o estilo, meio romântico meio balanceado, de Hucknall. E esse parece claramente em forma.

The Doors - Live at The Matrix 1967 *****

O que mais impressiona neste disco é a contradição entre o empenho dos artistas e a indiferença do público. Estávamos na Primavera de 1967, na São Francisco dos hippies e, numa pequena sala da cidade, actuava uma banda de Los Angeles que de hippie pouco ou nada tinha. Ao binómio peace and love, os Doors tinham respondido, no primeiro disco, editado no início do ano, com mais sombras que sol. Na tal sala, o Matrix, deveriam estar meia dúzia de pessoas, incapazes de adivinhar que, daí a poucos meses, um single (“Light My Fire”), retirado do tal primeiro disco, subiria pelos tops abrindo caminho ao mito.
Nas quatro sessões ao vivo que deram origem a este duplo CD, os Doors executam quase todo o primeiro disco, mas também o segundo (Strange Days), que veria a luz do dia no final do ano. E cantam ainda um tema que só aparecerá muito mais tarde (“Summer’s Almost Gone”), além de uma versão (“Get Out My Life Woman”) que não aparece em mais nenhum disco. Há até uma versão instrumental de “Summertime”. Tudo isto circulou durante muitos anos em discos pirata, até que a Rhino, que tem estado a trabalhar gravações raras dos Doors, resolveu fazer uma edição legal, com um som mais que aceitável.
Pormenores técnicos e equívocos do público à parte, a verdade é que estamos perante um concerto memorável de uma das bandas mais importantes do rock. O som do grupo estava já amadurecido, muito centrado nas teclas de Ray Manzareck, a tendência para o improviso era já patente, e a voz de Jim Morrison estava em pleno, entre o sensual e o descontrolado, embora ainda longe da demência que viria a atingir, o que, no caso, talvez seja uma vantagem (a versão bem diferente de “The End” é fantástica). Um disco essencial para fãs, mas que pode ser uma excelente entrada para os outros.

Josh Rouse - The Best of The Rykodisc Years ****

Quando Josh Rouse lançou o seu primeiro disco (Dressed Up Like Nebraska), em 1998, a Rolling Stone apresentou-o aos seus leitores como o cruzamento entre Tom Petty e Morrissey. Não está mal visto, até porque, embora se considere especialmente fascinado pelos seus ídolos britânicos de juventude (os Smiths, os Cure…), e isso nota-se bem em muitas das suas canções, Josh Rouse não deixa de assumir um cunho claramente americano em tudo o que faz. São, de resto, conhecidas as boas relações que mantém com Kurt Wagner (Lambchop), um dos gurus do country alternativo, com quem chegou a gravar um EP (uma das canções, “65”, está neste disco).
Este duplo CD é a sua primeira antologia e cobre os oito anos em que gravou para a Rykodisc. Depois, Rouse divorciou-me, mudou de editora e fixou residência aqui ao lado, em Espanha. Os temas desses seis discos foram escolhidos pelo próprio, assim como os extras que constam do segundo CD – basicamente, as canções de um EP chamado Bedroom Classics (2001), mais umas tantas demos e outtakes. Digamos que Rouse arruma relativamente bem nestes dois CD uma boa parte da sua vida. O destaque vai, é claro, para Nashville (2004), geralmente considerado o seu melhor disco.
A música, para quem não conhece, enquadra-se naquilo a que algumas pessoas chamam de pop-rock adulto. Ou seja, canções bem escritas, bem produzidas, bem interpretadas. Canções de amor, de encontros e desencontros. Tudo muito certinho, nada de grandes emoções. Pena que esse registo se mantenha no disco de extras, onde se esperaria algum experimentalismo, ou alguma aventura por territórios menos óbvios, fosse em canções próprias ou em versões.

Ry Cooder - The UFO Has Landed *****

Ry Cooder é um daqueles artistas que nunca atingirá o estrelato, mas que terá obrigatoriamente um espaço generoso em qualquer enciclopédia ou história da música pop-rock. Agora sexagenário, este californiano começou a carreira no início da década de sessenta, em grupos destinados ao falhanço, transformando-se depois em músico de estúdio, cunhando uma sonoridade especial na slide-guitar que podemos ouvir, por exemplo, em algumas canções dos Rolling Stones.
Na viragem para a década de 70, iniciou uma carreira a solo, mas foram outras duas actividades que o tornaram conhecido do grande público: como autor de bandas sonoras (aquele som evocando grandes espaços de Paris Texas tornar-se-ia uma marca registada); e como uma espécie de antropólogo musical, que gravou com indianos, africanos e mexicanos, mas que, acima de tudo, ao viajar para Cuba em 1997, deu a conhecer ao mundo esse fenómeno que se chamou Buena Vista Social Club.
Convenhamos que com uma biografia destas é difícil apresentar uma antologia minimamente representativa. Mesmo que, como esta, se estenda por dois CD e quase duas horas e meia de música, apenas dos discos a solo e de meia dúzia de bandas sonoras.
A escolha das canções foi feita pelo filho (o baterista Joachim Cooder), o qual optou por fugir a uma montagem cronológica, aparentemente pretendendo revelar uma inesperada intemporalidade na música do pai.
O resultado é um disco muito vivo, como a música de Cooder, uma alegre convivência das texturas mais tradicionais da América , do rock’n’roll ao gospel, do soul ao tex-mex. A acentuar essa vivacidade surgem as pequenas, mas quase sempre muito bem-humoradas, notas sobre cada canção redigidas pelo músico.

Charles Aznavour - Duos ***

Aznavour está com 84, continua a compor e a lançar discos, corre o mundo, como sempre fez, mas agora numa não totalmente assumida tournée de despedida, até porque tenciona continuar a cantar em público sempre que lhe apetecer (e, como vimos há pouco tempo em Lisboa, bem pode continuar a fazê-lo). E agora até tem, em Paris, uma comédia musical baseada em algumas das quase mil canções que compôs (Je m’Voyais Déjà). Que mais poderia ele fazer? Sim, um disco de duetos. É uma disco que fica sempre bem na discografia dos grandes mitos, dá para revisitar velhos sucessos, talvez arriscar uma ou outra aventura e, finalmente, fazer pontes entre gerações e estilos musicais.
É isso este Duos. A empreitada, diga-se desde já, destina-se quase exclusivamente a fãs, ou seja, àquela faixa de público que ainda se lembra de Aznavour. Os outros, pouco ou nada de interessante por aqui vão encontrar.
A maioria dos temas é servida por orquestrações banais, na maioria dos casos, adaptando-se desgraçadamente aos estilos dos convidados (veja-se os casos de Céline Dion ou Sting, por exemplo).
Das duas partes do projecto (na primeira, Aznavour e os convidados cantam em francês – e nunca imaginei que Elton John tivesse um francês impecável…), a segunda é bem mais interessante. O anfitrião adapta-se que nem uma luva às línguas dos parceiros (maioritariamente inglês, mas também espanhol, italiano e alemão!) , e os temas fluem de modo bem mais interessante. Exemplo disso é a mais que famosa “She”, em dueto com Brian Ferry, muito distante das versões que já conhecemos e mesmo da exuberância que esperaríamos do charmoso ex-Roxy Music.
Curiosamente, ou talvez não, os pontos altos do disco talvez sejam os duetos com mortos (Sinatra e Piaf). É que, se calhar, já não se fazem intérpretes à altura de Charles.

Verve Remixed Christmas ****

O Natal já não é apenas quando um homem (ou mulher…) quiser. Também pode ser como cada um quiser. Este disco pode ser um dos ingredientes para um Natal diferente. A receita é conhecida: grandes produtores e DJ’s de todo o mundo são chamados a revestir o velho catálogo da Verve, a pensar nas pistas de dança, nos locais de lazer mais sofisticados, ou simplesmente no leitor de CD do carro.
Os resultados são quase sempre interessantes, raramente se ficando por meras cosméticas electrónicas. Algumas das canções ganham nova vida e outras transformam-se, verdadeiramente, em novas canções. Por exemplo, neste caso, “I Am Blessed”, de Nina Simone, apenas leva uma batida mais forte, que transforma uma canção tipo Broadway em algo entre o soul e o hip-hop. Pelo contrário, a famosa “Silent Night” é completamente transformada pelos Brazilian Girls num sexy-samba, pouco mais se aproveitando do original que o refrão de Dinah Washington.

Elisabeth Kontomanou - Brewin’ The Blues *****

Que em Paris se faça jazz deste, eis a ironia. Não estamos perante nenhuma menina sussurrante, experimentalista ou… loira. Não, Elisabeth Kontomanou é senhora de uma voz possante, a lembrar Nina Simone, e elástica (já a compararam a Flora Purim) e neste disco dedica-se ao jazz clássico, com a mais clássica das abordagens. Acompanhada apenas por um pianista, Laurent Courthaliac, também ele um classicista, mais interessado em reviver os tempos do be-bop do que em inovar seja o que for.
Ao quarto disco, Kontomanou poderá ter encontrado o registo certo, após incursões mais universalistas. A ver vamos.
O repertório é essencialmente composto por standards (o espírito de Billie Holiday anda por aqui), com a excepção de “Rosebud”, escrita por ambos os intérpretes, mas que em nada se distingue dos restantes temas.

Tony Bennett - A Swingin’ Christmas ****

Pior que as intermináveis compras de Natal só mesmo a música de elevador com que nos castigam em centros comerciais, lojas e mesmo algumas ruas. E então quando têm sininhos (e agora quase todas têm)… Mas pior, muito pior, é quando um desses artistas dos tops decide que chegou a sua hora de fazer um disco de Natal. Aí a coisa pode colocar meio mundo à beira de um ataque de nervos.
É claro que haverá sempre excepções para confirmar a regra. Por exemplo, quando Tony Bennett pega na Count Basie Big Band e decide passar a disco onze canções, mais ou menos conhecidas, alusivas à época. A ideia, diga-se, nada tem de original – há 40 anos, o mesmo Bennett já gravara Snowfall, que ano após ano voltava aos escaparates. Cinco das canções desse disco voltam este ano a estar disponíveis, mas com novas roupagens, neste A Swingin’ Christmas.
Não fosse a quantidade de vezes que a palavra Christmas é entoada e a orquestração claramente natalícia de algumas das canções e até poderíamos arrumar este disco na categoria das gravações mais jazzísticas e interessantes deste octogenário de voz bem conservada. “My Favorite Things”, por exemplo, nem é uma canção de Natal.
Mas não vale a pena fingir. Este é mesmo um disco de Natal e, talvez, o disco deste Natal. Pela colecção de clássicos que apresenta, pela qualidade das orquestrações, da interpretação, de tudo. O piano de Monty Alexander, que pontua com grande nível quase todos os temas. A harmónica de Toots Thielemans que envolve “All I Want For Christmas Is You”. Até Antonia, a filha mais nova de Tony, que aqui debuta sem envergonhar a família, em “I’ve Got My Love To Keep Me Warm”, mais uma canção de amor que de Natal. Em suma, um disco recomendável, especialmente às lojas que gostam de servir bem, em todos os aspectos, a sua clientela mais sofisticada.

Jason Collett - Here’s To Being Here ****

Eis um daqueles discos destinados a sobrar para os saldos da próxima estação. Jason Collett é um nome que pouco ou nada dirá mesmo aos mais atentos consumidores de música, apesar de já andar nestas coisas há mais de uma década. E, no entanto, este é um disco que merece uma oportunidade.
Jason, sim, é mais um desses autores profundamente inspirados por uns certos anos 70. Os anos de ouro dos cantautores, um estilo muito próprio de cantar a vida embalada por pianos, guitarras e uns amigos nos coros. Para quem gosta de colocar as coisas em termos geográficos, diríamos que Jason fica assim um pouco a sul de Rufus Wainwright, mas a norte de Jack Johnson, recebe uns arzinhos de Dylan e diverte-se imenso com o que faz. Ouviu os Stones e decidiu copiar o coro de “Sympathy For The Devil” (em “Out Of Time”) e ouviu George Harrison e achou que ficaria bem aquela guitarra em “Sorry Lori”.
Bom, o parágrafo anterior era mesmo só para situar o objecto musical não identificado. Jason Collett é canadiano, de Toronto, passou por vários grupos (incluindo o relativamente conhecido Broken Social Scene) e este é o seu quarto esforço a solo. Há mais de uma década que só come comida orgânica, mas isso não se nota muito no disco, como não se nota o seu activo envolvimento político.
O disco foi gravado em apenas duas sessões, as canções são quase todas de bom recorte (digamos que não ficariam mal na maioria das estações de rádio…), com histórias de amor e outras banalidades, vestidas de cores quase sempre alegres, com a guitarra, nas suas mais variadas sonoridades, como adorno central.
Não estaremos perante um artista incontornável, mas este é um nome a reter. E a ouvir por quem gosta de coisas boas e está farto dos mesmos nomes.

Lisa Ekdahl

Gershwin só não dá voltas na tumba quando ouve Lisa Ekdahl cantar “But Not For Me” porque Gershwin já ouviu muita coisa e ele próprio inventou umas tantas no seu tempo. Mas a verdade é que aquele corpinho frágil de sueca loira com voz a condizer (a condizer com a fragilidade e não com o cabelo loiro…) é uma das mais improváveis vozes do jazz actual. E compará-la com Norah Jones ou Diana Krall só pode ser obra de surdo ou de… promotor de concertos.
Mas Lisa tem um mercado. Estamos, é preciso não esquecer, no tempo do lounge e outras modernices. Por isso, ouvir uma sueca de voz frágil a cantar Cole Porter e outros standards do jazz é tão comum como o fado na boca de um japonês (juro que há…).
Esclareçamos uma coisa: Lisa é uma estrela na sua terra natal. Estrela, sim, mas a cantar canções pop… em sueco. Foi estrela aos 23. Até que um dia se lembrou de interpretar umas coisas de jazz e bossa nova (lá está, o lounge…) e o mercado internacional, sempre tão generoso, adorou o exotismo da coisa.
Já vai em três discos de jazz, entre originais do marido (Salvadore Poe) e clássicos do género: When Did You Leave Heaven?, Back to Earth e Lisa Ekdahl Sings Salvadore Poe. E isso já lhe valeu três Grammy.
É claro que os puristas abominam – os mais maldosos dizem mesmo que desafina quando canta ao vivo… -, mas ela não se importa. A avaliar pelas vendas dos seus discos por todo o mundo, os espectáculos cá no burgo não devem ficar às moscas.