Diogo Freitas do Amaral - A Transição para a Democracia ****

A vitória moral de uma derrota política

Quem vier a este livro, atraído pelo isco mediático, procurar grandes revelações sobre Camarate talvez tenha uma grande desilusão. Há, é certo, a revelação de um telegrama diplomático, misteriosamente desaparecido, noticiando informações da Scotland Yard acerca do passado delinquente de Lee Rodrigues, um dos “personagens” deste caso. Lee Rodrigues viria a ser ouvido, mais tarde, sobre a queda do avião em que, na noite de 4 de Dezembro de 1980, morreram o primeiro-ministro Francisco Sá Carneiro, o ministro da Defesa Adelino Amaro da Costa e acompanhantes. Como, “mais tarde”, outras pessoas foram ouvidas e a tese de acidente foi dando lugar à possibilidade de atentado.
Freitas do Amaral, apesar da sua proximidade política e pessoal às vítimas e do facto de ser, na altura, uma das figuras centrais do Governo, logo com acesso privilegiado a informação, mais nada diz sobre o assunto. Quase três décadas depois, constata, como todos nós, que a morte de um primeiro-ministro não poderia ter sido investigada da forma aparentemente leviana como foi. De permeio, lança uma pequena polémica com o ex-procurador-geral da República Cunha Rodrigues acerca disso mesmo. Não será, pois, a partir deste livro que o dossier Camarate conhecerá novo fôlego.
Percebe-se, porém, a aposta feita nesse caso para promoção de um livro de memórias, que se lê muito agradavelmente, que balanceia agilmente os pequenos casos e incidentes com a reflexão mais distanciada acerca da política, mas que, enquanto testemunho, nada traz de novo ao período sobre o qual se debruça.
Este segundo volume da autobiografia política do fundador do CDS é, acima de tudo, a tentativa de transformar uma ampla derrota política (um partido que nunca conseguiu definir o seu espaço; um projecto mais ambicioso, a aliança com o PSD, que acabou na tragédia de Camarate) numa vitória das convicções, conforme o autor, de forma algo insistente, assinala logo no prefácio: “Ter razão antes de tempo não me deu votos suficientes: mas o tempo veio a dar-me razão. Portugal tem hoje o modelo que eu defendi desde 1974”.
Estamos, pois, perante um longo ajuste de contas com a História, com o autor, resguardando-se numa bem encenada modéstia, a regressar frequentemente, ao longo de 400 páginas, a essa ideia que expressa logo de início. A relutância com que diz aceitar os vários cargos partidários e governamentais é amplamente compensada por vitórias, reais ou morais, das suas ideias. Esta é, como o autor assinala, a sua “parte da verdade” e não um livro de História.
Não havendo relevações de monta, diga-se que Freitas consegue contar uma história aliciante e que, sem ironia, se lê praticamente como um romance. A escrita é limpa, sem rodriguinhos, entre o género jornalístico e a quase oralidade. Há uma enorme preocupação de contextualizar todos os acontecimentos, como se estivesse a contar os acontecimentos daquele tempo às criancinhas. Nesse aspecto, chega ao exagero, por exemplo, de, quando se refere o célebre episódio da Moca de Rio Maior (a ameaça feita num comício do CDS de atirar todos os comunistas ao mar, a toque de moca), dedicar um parágrafo a uma pormenorizada descrição do objecto.
Um dos aspectos que tornam muito agradável a leitura deste livro, para além do seccionamento em pequenos capítulos, é o recurso frequente aos diálogos. Percebe-se que alguns deles são ficcionados, ou seja, aqueles diálogos podem não ter sido exactamente assim, mas as ideias terão sido aquelas. De qualquer forma, ao fixar esses momentos em diálogos, e ao colocar longas frases na boca de terceiros, o autor está a assumir uma certa dose de risco.
É nesses diálogos que encontramos os melhores momentos do livro. Seja nos episódios hilariantes (o general Galvão de Melo a expor o seu plano para implantar em Portugal o modelo bipartidário da Áustria, extinguindo, fundindo e dividindo partidos…), seja nos momentos de maior tensão (Sá Carneiro, na tarde do dia em que morreu, planeando fundar um novo partido, caso o seu candidato presidencial, Soares Carneiro, perdesse as eleições).
Por paradoxal que pareça, apesar de se centrar num período muito agitado da nossa vida política, o autor parece fugir intencionalmente à polémica. Fica, presume-se, para o terceiro volume das memórias, relativo a um período em que Freitas do Amaral fez opções surpreendentes e deixou o seu campo político perplexo.

Vinicius Cantuária

Apesar da idade (está quase nos 60), Vinicius Cantuária faz parte de uma geração de músicos brasileiros que fizeram a mala, rumaram à grande cidade (normalmente, Nova Iorque), absorveram a música do mundo (o jazz e a electrónica, principalmente), para no fim descobrirem que coisa mais linda (e simples) que a Bossa Nova não há. Bebel Gilberto, bem mais jovem, é disso mesmo um excelente exemplo.
O principal interesse de Vinicius é que ele, de alguma forma, faz a ponte entre as gerações mais marcantes da música brasileira – os seus concertos têm sempre canções de Tom Jobim, Caetano ou Gilberto Gil – e esses aventureiros que travaram amizades com Sakamoto, Byrne, Eno, Frisell e outros ilustres da cena internacional.
O nome começou-o por conquistar Vinicius ao lado de Caetano, em cuja banda de apoio rodou nos anos que se seguiram à iniciação musical com a banda O Terço. Foi na voz de Caetano (e depois de Gal, Gil, Chico e outros) que as suas primeiras canções fizeram sucesso.
A carreira a solo começou-a em 1983 e, onze anos depois, empreendeu a viagem para Nova Iorque. É lá que tem um estúdio, onde passa horas a escrever canções com o violão e a vesti-las experimentalmente de electrónicas, ele que começou pelas percussões.
Na sua página oficial da Web, descrevem-se a música como sendo “post-electronica acoustic” e é disso que se trata. De uma música cheia de subtilezas, mas que nunca esquece as raízes rítmicas do Brasil natal. Nos espectáculos que agora traz a Portugal, haverá certamente muitas canções do seu último disco (Cymbals, de 2007), à mistura com velhos êxitos. Noites quentes e serenas.

Bob Dylan - Dylan **

Quando Mozart fez 250 anos, uns loucos também tentaram o mesmo - todo o Mozart num CD apenas. Os momentos comemorativos têm destas coisas, há sempre quem exagere. Não é possível, simplesmente não é possível, sintetizar Dylan em 19 canções, mesmo com o alibi da euforia celebratória envolvente. Este CD, pelo menos na sua versão mais compacta, tem por isso tanto de corajoso como de disparatado. De certa forma, o exercício roça a desonestidade. Em 45 anos de carreira, Dylan gravou legalmente mais de 500 canções, teve fases absolutamente geniais (65/66, por exemplo) e há pelo menos uma dezena dos seus discos de originais com lugar reservado em qualquer discoteca que não envergonhe o seu proprietário. Há sempre a desculpa de que se trata de um sampler para a geração iPod, mas convém que alguém explique a essa malta os malefícios do fast-food. E, já agora, que mesmo a zona negra – o CD ignora totalmente as duas décadas que vão de 76 a 97 – merece uma espreitadela, porque uma das riquezas da obra de Dylan é precisamente a descontinuidade. É claro que a versão tripla, com meia centena de canções cobrindo de forma mais uniforme estes 45 anos, resolve parte do problema, sendo por isso um investimento bem mais interessante. E aí já não se sente a enorme fragilidade da escolha que a versão compacta manifesta. Ah… não liguem à publicidade sobre uma re-versão (!) de Mark Ronson para Most Likely You Go Your Way. Desinteressante, no mínimo.

Bob Dylan - Tell Tales Signs ******

Vamos directos ao assunto: este é o melhor disco de Bob Dylan em muito tempo, talvez décadas. E, sim, é verdade, trata-se de uma recolha de sobras, restos, tentativas, coisas rejeitadas para edição, um ou outro inédito, uma ou outra gravação ao vivo.
A série dos Bootlegs de Dylan (divulgação oficial de gravações piratas) ameaça tornar-se num caso sério. Até porque a editora percebeu o potencial e, ao oitavo volume, põe cá fora algo que de pirata nada tem. A começar pela qualidade do som, todo ele de estúdio e, em alguns casos, com tratamento digital superior aos originais.
Esta edição cobre uma época de ouro de Dylan (talvez a melhor a seguir àqueles 14 meses dos anos 60 em que gravou Bringing…, Highway 61… e Blonde on Blonde), mais precisamente a que vai do autêntico renascimento que constituiu Oh Mercy (1989) até ao recente Modern Times (2006). Uma época em que Dylan serenou, amadureceu, e deixou claro que, não sendo este o melhor dos mundos, não contem com ele para desistir.
Foram anos muito criativos, com muito trabalho em estúdio e ao vivo, alguns conflitos com produtores (Daniel Lanois, por exemplo) e o que o este disco recolhe são versões alternativas e alguns inéditos. Em muitos casos, estamos perante interpretações superiores às “oficiais” e noutros interrogamo-nos como foi possível certas canções terem ficado na gaveta.
Acreditem que é difícil escolher exemplos de tudo isto, tal a qualidade do que aqui se apresenta. Ainda para mais há três edições à venda: uma tripla luxuosa (por importação), uma dupla (que se recomenda vivamente, pelo longo texto e pelas esclarecedoras notas de Larry Sloman), e ainda um CD simples para quem pensa que isto do Bootleg é apenas um truque para vender uns discos. Os dilanólogos ficam agora com um problema: onde e como classificar este disco?

Bob Dylan - Tarântula ***

Esta é a história de “Jane, cheia de pica, & o seu guarda-costas histérico”. Ou será de a de “um homem estranho a quem temos chamado Simplesmente Isso”? Ou a do “senador vestido de ovelha austríaca”, ou talvez a do “camionista com uma sabrina debaixo dos olhos”? Bom, a verdade é que ninguém sabe que história é esta e diz a lenda – com Dylan, tudo é lenda – que o próprio autor, questionado sobre a coisa, terá respondido mais ou menos assim: “That’s bullshit. This is nothing”. Uma treta, portanto.
A história de “Tarântula” merece ser contada. Estávamos em 1964, Dylan tinha acabado de trair a cena folk e preparava-se para subir ao Olimpo, transformado em líder contrariado de uma geração inconformada. Inebriado pela fama e talvez por outras coisas, assina um contrato milionário com a Macmillan para a edição de uma novela. Diz a tal lenda que, por Nova Iorque e arredores, terá enchido várias casas de centenas de páginas de manuscritos de uma escrita automática muito em voga na altura. À editora foram entregues 130 páginas de algo que o próprio autor se comprometeu a rever. Mas, entretanto, deu-se um famoso acidente de mota e o texto começou a circular em edição pirata, até que, em 71, a editora coloca cá fora a versão oficial (e nunca revista).
Trata-se de uma bizarra mistura de prosa e poesia, um calidoscópio de pequenas histórias e pensamentos, sem que se consiga descortinar um fio condutor ou sequer um sentido. O facto é que a escrita (64/66) de “Tarântula” coincide com a dos três melhores discos de Dylan e no livro encontramos frequentemente o mesmo tipo de lenga-lenga caótica, onírica, absurda que brilha em muitas das suas canções da época. Resta saber se a novela foi um tubo de ensaio para os discos, ou apenas uma espécie de aparas que iam sobrando.

Sharleen Spiteri - Melody ****

Estão a ver a Nancy Sinatra de mini-saia e botas de cano alto? É a primeira faixa: “It Was You”. E aqueles acordes iniciais das canções das Supremes? É a segunda faixa: “All The Times I Cried”. E conseguem imaginar aquela “parede de som” que se tornou a marca de água de Phil Spector? É a faixa número três: “Stop, I Don’t Love You Anymore”. E…?
Poderíamos continuar assim, pelas 11 canções deste disco de Sharleen Spiteri. Ah... é verdade, já me esquecia de apresentar a Sharleen. Olhem bem para a capa… Isso, a vocalista dos Texas. Estão a ver? Aquela rapariga de voz sensual, líder de um grupo escocês (1986-2005), em cujos vídeos geralmente só aparecia ela, em poses também elas sensuais.
Pois a voz de Sharleen adapta-se que nem uma luva a esta pose revivalista, qual Amy Winehouse sem drogas, ou Duffy mais experiente. Digamos que este Melody é assim uma espécie de Motown e arredores condensados em 40 minutos.
O exercício é relativamente arriscado. As coisas têm o seu tempo e, apesar de a certa altura se ter transformado numa cadeia de produção, a Motown era simplesmente genial. Até ter entrado em decadência. “Melody” vai tão longe na simulação que, de modo seguramente involuntário, chega a imitar essa fase menos boa (“Day Tripping”, por exemplo). E também é verdade que, por vezes, os Texas parecem querer ombrear com a velha escola da música negra (“Don’t Keep Me Waiting”).
Mas o resultado afinal é, acima de tudo, agradável. Em tempos tão conturbados, sabe bem ouvir música cujo único fim é divertir. Sem mais pretensões que não sejam as de uma produção muito cuidada, das orquestrações à capa. A certo tipo de música não se deve exigir mais do que ela pode dar.

Juliette Greco

Eis, então, a lenda viva. A mulher que, aos 80 anos, transporta consigo toda a memória e actualidade da música francesa. Juliette Greco é um nome que pouco ou nada dirá às novas gerações do burgo, mas que poderá eventualmente desiludir a velha guarda, que apenas vê nela a intérprete genial de Brel, Ferré e outros monstros sagrados da chanson. É certo que, no auge da boémia parisiense dos anos 50 e 60, ela representou a intelectualidade dos cafés e clubes, amiga de Sartre, primeira grande intérprete de Gainsbourg, admiradora de Brassens, amiga de Brel… A sua voz e presença em palco moldaram muitos dos sucessos dessa época de ouro. Mas, após um quase total silêncio na década de 80 e parte da de 90, Greco regressou com discos em que, mais uma vez, se socorreu dos compositores contemporâneos. E é por isso que em Aimez Vous Les Uns Les Autres (2003) e Le Temps d’Une Chanson (2006) a podemos ouvir interpretando temas de Julien Clerc, mas também de Miosec ou Benjamin Biolay.

É no palco que toda a expressividade das suas interpretações ganha razão de ser. Desde a consagração no Olympia, em 1954, percorreu os palcos de todo o mundo, tendo ainda experimentado o cinema em Hollywood.

Há sete anos, passou pelo CCB e regressa agora, acompanhada apenas por um acordeão (Jean-Louis Matinier) e pelo pianista Gerard Jouannest, nada mais nada menos que um dos co-autores de muitos dos sucessos de Jacques Brel. Convenhamos que é História qb para uma noite memorável.

Caroline Henderson - N.º 8 ****

Há canções cujas versões originais são tão marcantes que não conseguimos imaginar atrevimento suficiente para as beliscar. Unchained Melody (dos Righteous Brothers) é uma delas. E é precisamente essa uma das versões deste No.8, o oitavo disco de uma sueca que adoptou a Dinamarca para viver e o jazz sem grandes pretensões para se expressar.
Das 13 canções que compõem este disco, apenas duas são originais e, dessas, apenas uma tem a assinatura da intérprete – Caroline Henderson. Mas a versões, de Porter a Gershwin, passando por Nick Drake ou Stephin Merritt, valem bem uma audição atenta, se bem que não se deva esperar daqui nada do outro mundo. Apenas jazz sofisticado, apesar de bem sustentado na tradição, bons instrumentistas, uma voz aveludada. Da Dinamarca, quem imaginaria?

James Morrison - Songs For You, Truths For Me **

Juro que aos primeiros acordes pensei estar a ouvir a banda sonora de Mamma Mia. E, bem, parece-me que nesta coisa da indústria musical não há coincidências... James Morrison nasceu para as tabelas de vendas e parece não querer perder muito tempo. É claro que ouviu muito bem toda a discografia de Elton John e nota-se que gosta de música soul. Tem jeito para compor canções apelativas e aquela voz falsamente frágil que tão bem embala qualquer canção romântica. Sim, que é disso que se trata. De canções para namorar no carro, sonhar de olhos abertos e essas coisas assim…
Mandam as regras do patriotismo que se destaque da competência banal desta sucessão de baladas e mid-tempos a colaboração de Nelly Furtado em “Broken Strings”. Porquê? Por nada de especial, apenas mesmo só por patriotismo.

Joan Baez - Day After Tomorrow ****

Joan Baez tem 67 anos, a sua voz ressente-se e isso… nem é mau de todo. Já no disco de regresso, após meia dúzia de anos de silêncio (Dark Chords on a Big Guitar, de 2003), isso se notara. Baez perdeu aquele tom ligeiramente estridente que lhe conhecíamos desde os anos 60, tem a voz mais débil, menos elástica, mas igualmente mais serena e, em certa medida, mais audível.
Este disco assinala o 50.º aniversário de carreira e tudo nele revela um grande esforço de perfeição. Ou seja, de regresso à pureza das raízes, como se fosse possível suspender o tempo para as comemorações.
A produção, a cargo de Steve Earle, que também assina três das canções e acompanha Baez numa delas, pôs a velha activista a cantar temas assinados por grandes autores contemporâneos, como ela fez nos na anos 60, e envolveu tudo numa sonoridade acústica de grande simplicidade, tal e qual como Baez fizera nos anos 60. Para que tudo fosse perfeito, bastaria o impossível – que ainda houvesse causas à volta das quais cantora e ouvintes se reunissem em coro.
O resultado, não sendo surpreendente – a ideia não era seguramente essa –, não deixa de ser agradável. Por exemplo, na canção que dá título ao CD, uma evocação da guerra do Iraque por Tom Waits, temos Baez de viola em punho, quase como reza a lenda. Registo ainda para o tema de Costello e T. Bone Burnett («Scartet Tide»), escrito para o filme Cold Moutain e que aqui tão bem ilustra a veia folk da ex-amiga de Dylan.
«God is God» (quem diria?) e «I Am A Wanderer», escritas de propósito por Earl para este disco, são outros dois excelentes exemplos dessa Baez vintage que se tenta atingir.
Um disco que, enfim, não ressuscita os anos 60, nem dá nada de muito novo ao mundo. Mas que se ouve sem aborrecer. Nada mau, nos dias que correm.

BB King - One Kind Favor *****

Este disco começa com “See That My Grave Is Kept Clean”, tema de onde, aliás, é originário o título do disco: One Kind Favor. Que belo epitáfio para um artista que já vai nos 85… Mas, ao ouvirmos o resto do disco, percebemos que só assim será se o destino rasteirar o velho bluesman.
Estamos – e há coisas que devem ser ditas sem rodeios – perante um dos melhores discos de BB King dos últimos anos e talvez mesmo de toda a sua carreira. E quem nunca ouviu o velho mestre em todo o seu esplendor, não deve hesitar.
Após uns anos em que BB King andava, ora acompanhado (Eric Clapton, por exemplo), ora metido em projectos de versões e colaborações diversas. Regressa agora puro e genuíno. Sempre ele e só ele, mais a guitarra, na primeira linha, suportado por um trio que dispensa apresentações: Jim Keltner (bateria), Dr. John (piano) e Nathan East (baixo), aqui e ali apoiado por alguns metais.
O disco é composto por uma dúzia de blues de recorte clássico, sem concessões a reinterpretações de coisas mais fáceis, e se o tom melancólico do tema de abertura se repete aqui e ali, seja por reflexões mais ou menos sombrias acerca da vida e dos amores, a verdade é que há também muita alegria a salpicar esta hora de música.
É necessário, porém, fazer justiça a um homem que está por detrás deste projecto. T. Bone Burnett, que produziu os últimos de Robert Plant e de John Mellencamp e que aplicou aqui, de forma ainda mais radical, o mesmo conceito de regresso às origens. Um regresso que se faz da recuperação das sonoridades, musicais e vocais, originárias, mas que, também graças às novas tecnologias, permite uma actualização do conceito que lhe incute uma força inédita. E é talvez por isso que este BB King soa melhor que nunca.

Randy Newman - Harps and Angels *****

Ao fim de dez anos a brincar às bandas sonoras, com Oscar e tudo pelo meio, Randy Newman regressa com um disco de dez canções que, todas juntas, não chegam aos 35 minutos. Parca colheita? Antes pelo contrário, valeu a espera e vale a pena pagar o preço de tabela por esta meia hora de grande música.
Grande música porque Newman volta em grande estilo. Irónico, sarcástico, político, poético. Ao piano, mas também quase sempre acompanhado por uma enérgica orquestra de dixieland.
A canção mais marcante do disco é, obviamente, “A Few Words in Defense Of Our Country”, uma mordaz crítica à actual liderança americana, que já tinha estado disponível no iTunes e até havia sido publicada no New York Times como artigo de opinião (!). Newman garante que Bush, apesar de ser o pior líder de sempre da América, não é tão mau como o pintam. Pelo menos, quando comparado com Estaline, Hitler, ou os fulanos da inquisição… Uma canção que acaba, tristemente, a declarar o fim do Império Americano, “um país à deriva na terra dos bravos e no berço dos livres”.
O tom ácido mantém-se, por exemplo, em “Piece of the Pie” (se somos os mais ricos do mundo, porque não somos mais felizes?), ou numa sátira sobre o declínio dos estudantes americanos perante o empenho dos imigrantes (“Korean Parents”).
Já “Harps and Angels”, que dá o nome ao disco, é uma belíssima reflexão sobre a morte, o encontro com os anjos e um deus que até fala francês e admite que se engana…
Salva-se da onda de cinismo, a belíssima “Feels Like Home”, uma genuína canção de amor, escrita há mais de uma década e já interpretada por muita gente, mas a que o autor dá finalmente voz.
Como se calcula, estamos perante um disco para ouvir com atenção. Não apenas pelo que se diz, mas igualmente pela riqueza de pormenores da orquestração. Como se de um filme se tratasse.

John Mellencamp - Life, Death, Love and Freedom ****

Há um erro na capa deste disco. Obviamente, o título não é Life, Death, Love and Freedom. Porque, aqui, não há pingo de vida ou amor. E liberdade só para envelhecer, sofrer, morrer. Por isso, o disco deveria chamar-se Death, Death, Death and… Death. E ter na capa um selo amarelo com o aviso: “Vivamente (!?) desaconselhado a pessoas com tendência para a depressão.”
Para aquele que será certamente um dos discos mais deprimentes do ano, John Mellencamp, ex-Cougar, conta com a preciosa ajuda de T. Bone Burnett, esse herdeiro autêntico de Roy Orbison, que assina a produção e ensombra muitas das 14 canções com a sonoridade atmosférica de uma guitarra em suave vibrato.
Convém alertar, porém, que o pessimismo das reflexões de Mellencamp é aconchegado por um envolvimento que, embora em tom menor, não deixa de ter aquela intensa beleza das coisas tristes.
As bases desta música são os tradicionais blues, explícitos, de resto, logo na primeira canção (“Longest Days”), quase sempre acústicos, embora também quase sempre ornamentados com as ondas eléctricas de Burnett.
A canção que os americanos escolheram para testar na rádio é “My Sweet Love”, dominada fortemente por uma percussão a fazer lembrar Buddy Holly ou as facetas mais experimentais da fase comercial dos Fleetwood Mac.
“A Ride Back Home” é, porém, a canção mais vibrante do disco. Isto, claro, se não ligarmos à letra (um insistente pedido a Jesus para que o leve de regresso a “casa”).
Os audiófilos podem, no entanto, rejubilar, Esta edição é acompanhada de um DVD contendo várias versões para descarregar (para iPod, por exemplo) e ainda a estreia mundial do CODE, uma patente desonvolvida por Burnett que permite uma qualidade sonora idêntica ao som de estúdio. E até se nota a diferença.

Beth Rowley - Little Dreamer ***

Talvez seja a decadência definitiva do Império… A Inglaterra destes dias está cheia de loiras e morenas que cantam como se fossem negras americanas de há umas décadas atrás. O filão Winehouse parece inesgotável. Convenhamos que, moda por moda, esta até nem é má de todo.
Beth Rowley é mais uma dessas raparigas que parece ter ouvido na adolescência (já tem 26, uma sénior, portanto…) toda a colecção de velhos discos de vinil que havia lá por casa. Os pais, rezam as crónicas, eram missionários, ela nasceu no Peru, mas cresceu em terras de Sua Majestade. Os pais, presume-se, eram dados à música americana de raiz religiosa.
Por isso, Beth não se fica pelo R&B das outras e vai mais atrás, ao gospel e aos espirituais. É com uma bem conhecida canção tradicional que abre o disco (“Nobody’s Fault But Mine”) e a que se segue (“Sweet Hours”), co-assinada pela própria, como que pretende desmonstrar que a lição foi bem aprendida e que, no século XXI, se podem escrever canções idênticas às que se ouviam nos campos de algodão.
O resto do disco desenvolve-se a partir dessa toada, mas com derivações interessantes pelos terrenos do blues, do jazz sofisticado (“Almost Persuaded”), do reggae e, claro, do mais puro pop. “Oh My Life”, o primeiro sucesso de um CD que anda pelos tops de Londres, arrancando com um secção de sopros quase soul, evolui para uma cançãozinha que bem podia ter concorrido à Eurovisão. “I Shall Be Released”, de Dylan, surge num alegre reggae, quase a pedir para entrar numa qualquer festa de Verão.
É claro que Beth Rowley, além da razoável técnica para escrever canções, patenteia uma voz à altura destas aventuras. Talvez demasiado certinha, com um certo défice de paixão que as circunstâncias exigiriam.

Ry Cooder - I, Flathead ****

E eis mais uma banda sonora de Ry Cooder. Esperem… Não é verdade, não desistam já. Apesar do título e do subtítulo do CD, não estamos perante uma banda sonora. Bom, de certa maneira…
Desta vez, Ry Cooder fez ao contrário e, por isso, estas 14 canções são, elas próprias, a história. Sendo que também podem servir de banda sonora, mas a uma novela de umas largas dezenas de páginas que acompanha a edição deluxe.
Cooder tornou-se num contador de histórias por excelência. Este I, Flathead é o terceiro disco (depois de Chávez Ravine e My Name Is Buddy) inspirado numa Califórnia quase mítica, desconhecida, anterior à explosão da música pop.
A história, aqui, é a de um cantor de música country e corredor de automóveis (Kash Buk) e da sua banda (The Klowns) e que tem tanto de humor, como de ficção científica, como de canções on the road ou as sempre gloriosas about cars and girls. Este acaba por ser um disco de contos, já que cada canção vale por si, ou, se aceitarmos o fôlego a que o autor se propôs, bem podemos ouvi-lo como se lêssemos um romance.
Musicalmente, quase tudo remete para a pré-história do rock, seja através do country, do blues, dos talking books, do rockabilly, das influências latinas, do boogie-woogie…
Tudo isto embalado numa sonoridade perfeitamente contemporânea, mercê, em grande parte, da inspiração e mestria de Cooder, o qual, uma vez mais, toca quase tudo quanto é instrumento.
“Drive Like I Never Been Hurt”, logo a abrir, dá bem o tom – um pujante tema r&b, com toques de tex-mex. Mas “Filipino Dance Hall Girl” é outra canção que dificilmente se esquece. Não poderia ser de outro modo, num disco em que se proclama: “Johnny Cash will never die buddy cant’t you see…”

Credence Clearwater Revival - Best Of *****

Há por aí uns programas de computador e uns sites onde, através de processos inspirados na cas cadeias genéticas da biologia, se procura criar cadeias de música, ou seja, identificar raízes, detectar continuidades e descontinuidades, criar árvores genealógicas de canções históricas ou simplesmente da moda. O processo conduz, necessariamente, a uma certa engenharia através da qual já é hoje possível criar, com elevado científico, canções destinadas a entrar directamente nos tops.
Nenhum desses programas, presumo, se chama CCR. Mas devia, em homenagem àquela que talvez tenha sido a primeira experiência bem sucedida de pegar nas bases fundamentais da chamada música pop-rock e escrever canções que, a todos os títulos, podem ser consideradas exemplares, paradigmáticas, da escrita e da execução desse género musical.
Os Credence Clearwater Revival (CCR) nasceram em 1967 e lançaram o último disco em 1972. Ou seja, numa altura em que meio mundo andava a fazer experiências, a reinventar a música e a acrescentar-lhe tonalidades, os CCR faziam exactamente o contrário. Foram às raízes do rythm & blues e da country e desataram a gravar canções simples, directas, mas nas quais é possível ouvir tudo aquilo que, ainda hoje, é o ADN da música do mainstream.
O retorno foi gratificante. E, francamente, é difícil imaginar alguém que nunca tenha ouvido, pelo menos uma vez na vida, mesmo sem a identificar, uma canção dos CCR. Das 24 que constam deste CD, é quase impossível, porque injusto, nomear uma ou outra. Mas é óbvio que estão aqui “Proud Mary” ou “Up Around The Bend”, ou “Bad Moon Rising”. As notas sobre as canções são escassas, mas este é claramente um disco mais destinado ao consumo que à reflexão. Como os CCR sempre foram, de resto.

Melody Gardot - Worrisome Heart *****

O disco já está nas lojas há umas semanas, mas seria uma pena que por lá ficasse. A primeira gravação de Melody Gardot merece ser ouvida e, inevitavelmente, reouvida. Sim, trata-se de mais uma cantora de jazz pop, descendente da cadeia hereditária genuinamente iniciada por Diana Krall e amplamente demonstrada nas suas linhas mais ligeiras por Norah Jones.
Melody Gardot foi literalmente passada a ferro por um automóvel, quando, aos 19 anos, passeava de bicicleta pelas ruas de Philadelphia. A sobrevivência passou pela medicina, presume-se que principalmente, mas também pela música (e ainda dizem que a música não salva…) utilizada em jeito de terapia emocional. Daí resultou um primeiro EP, gravado ainda no hospital, e depois algo de maior fôlego, gravado em 2006, mas só agora editado comercialmente (mistérios insondáveis do negócio!).
São dez canções e, sinceramente, é difícil escolher uma, duas ou três para demonstrar que estamos perante uma compositora e cantora muito acima da média.
O amor, mais na forma de desejo que de prática, é a tónica dominante. Ouça-se, por exemplo, “Love Me Like a River Does”, que, na indolência jazzística, sintetiza de forma exemplar o ambiente musical dominante.
Na versão mais pop, temos “All That I Need Is Love” (novamente o amor enquanto desejo), ou, para os amantes de Cole Porter e contemporâneos, que tal começar por ouvir “One Day”? E, para quem ainda tenha dúvidas de onde tudo isto vem, lá está “Sweet Memory”, um blues muito sofisticado a que se segue “Some Lessons”, uma surpreendente balada, que começa apenas com a viola de Melody e evoluiu para um acompanhamento de cordas de uma extrema beleza. Enfim, um disco onde claramente se procurou a perfeição. O que já é meio caminho andado.

Carla Bruni - Comme Si Rien N’Etait *****

Comecemos pelo que importa: este é o melhor dos três discos de Carla Bruni. E tem isso alguma coisa a ver com Sarkozy? Sim e não. Sim, porque um disco é também a sua circunstância e a verdade é que o casamento com o Presidente francês confere às canções de Carla Bruni uma outra leitura, entre o contraste e a insinuação, que transformam a sua audição numa experiência mais rica. Que ela assuma, em “Je Suis Un Enfant”, que continua criança, apesar dos seus 40 anos e 30 amantes, será apenas o mais evidente dos exemplos.
De nada vale – antes pelo contrário… - fingir a ex-modelo e agora cantora não é também Primeira Dama, ainda para mais por via do polémico Sarkozy. Todos temos a ganhar com esse reconhecimento, a começar por ela, obviamente…
Mas este disco também é o melhor de Carla Bruni por motivos que nada têm a ver com esse seu novo estatuto. Estamos perante um trabalho que confirma uma compositora madura, para o que muito contribui o facto de, ao contrário das gravações anteriores, as canções estarem agora mais vestidas de roupagens. Normalizadas, embora maioritariamente através de arranjos de enorme subtileza, as canções sobressaem mais que no anterior registo excessivamente intimista. E fica patente para os menos crédulos que a raiz fundamental de Bruni é, nada mais nada menos, que a tradicional “chanson”. Os mais ortodoxos clamarão “heresia”, mas vale a pena, por exemplo, perceber Brassens por detrás de “La Tienne”. É claro que Carla é deste tempo e, por isso, nada é assim tão simples e as influências continuam a passar pelo blues (“Tu Es Ma Came”, outra canção escandalosa…), assim como os temas são eles próprios de outras origens (“You Belong To Me”, canção americana dos anos 50 que Dylan também cantou).

Emmylou Harris - All I Intended To Be ****

Será certamente caso para um estudo psico-socio-musicológico: a idade parece ter efeitos altamente benéficos nos autores e cantores da música pop e arredores, precisamente aquela que mais alimenta o mito da eterna juventude. E, se calhar, o segredo é mesmo esse.
Emmylou Harris não foge à regra. Após o enorme sucesso no papel da loira mais gira do country, nas décadas de 70 e 80, ei-la que renasceu, já os anos 90 iam altos, no papel de autora inspirada. E, como prova este All I Intended To Be, parece que os anos – anda nos 61 – lhe fazem milagres à voz. Está mais encorpada, menos estridente.
Este é um disco um tanto traiçoeiro, não digam que não foram avisados. Por detrás da graciosidade das belíssimas orquestrações acústicas vagueia, imagine-se, a morte. Presente explicitamente em pelo menos duas canções (“Not Enough” e “Sailing Round the Room”), mas atravessando outros temas, sob a forma de separações, saudades e outros lados escuros da vida.
É um disco que olha para trás. Brian Ahern, que produziu os sucessos dos 70, está de volta e, com ele, uma country mais explícita do que a presente nas últimas gravações de Emmylou. Mas este é, também, um disco de quem aprendeu as lições da vida, que assume alguma nostalgia, também alguma angústia pelo que aí possa vir. Descansem, porém: fá-lo sempre de uma forma pouco pesada, com a leveza, não confundir com ligeireza, do country.
Emmylou assina ou co-assina (por exemplo, com Kate e Anna McGarrigle, que também dão um arzinho da sua graça) metade dos temas do disco, sendo a outra metade dedicada a covers, nem sempre, evidentes de, por exemplo, Tracy Chapman ou Merle Haggard.
Para ouvir descontraídamente. Ou nem por isso. É à escolha do freguês.

Mudcrutch ****

Há muito tempo que não se via um discos destes. Mike Campbell toca guitarra no lado direito e a guitarra de Tom Leadon pode ser ouvida no lado esquerdo. Notem o preciosismo: temos duas lead guitars, mas sabemos sempre onde está cada uma dela. Tom Petty, ele próprio, deixa esses créditos por mãos alheias e concentra-se no baixo e na voz. Mas esta – ai esse preciosismo… - “excepto onde está indicado”, sim, que Leadon e o teclista Benmont Tench também têm direito a brilhar vocalmente. E falta apenas apresentar outro membro da banda, Randall Marsh, que toca bateria e nada mais.
A banda chama-se Mudcrutch e é provável que nunca tenham ouvido falar de tal coisa. Trata-se do novo projecto de Tom Petty, sendo que, na verdade, é o seu projecto mais antigo. Expliquemo-nos: Mudcrutch foi a banda organizada por Petty nos anos 70, antes de embarcar na aventura dos Heartbreakers. Gravou umas coisas dispersas e nunca teve grande sucesso. Porquê, então, o regresso a essa marca?
Bom, os Mudcrutch são realmente bem diferentes dos Heartbreakers. Estamos perante uma música muito mais próxima daquilo a que, nesses anos 70, se convencionou chamar de country-rock e também de southern rock. Tudo isto soa, por isso, a Flying Burrito Brothers, Byrds, Allman Broyhers, Grateful Dead (há mesmo remakes desses grupos – “Lover of the Bayou”, “Six Days on the Road”). Ouça-se, por exemplo, “Orphan of the Storm”, uma exemplar balada, ou as guitarras em pleno em “The Wrong Thing To Do”.
O disco acaba, por isso, por ser um certo regresso ao passado, impossível de concretizar pelos Heartbreakers. À parte as questões técnicas, este disco poderia perfeitamente ter sido gravado há 30 anos e a sua beleza advém, precisamente, daí, dessa indiferença ao tempo que passa.

Steve Winwood - Nine Lives ****

Eis-nos, então, no Verão. E eis a banda sonora perfeita para tardes tórridas e serões amenos. Longas canções, sonoridades afro-latinas (sim, Santana, rói-te de inveja), jazz pouco comprometido, o blues na batida, a voz de sempre.
E a voz não é pormenor de somenos. Steve Winwood sempre a teve pujante, muito característica, negra demais para um britânico de gema. Esta voz, é sempre bom recordar, é identificável a léguas, pelo menos desde meados da década de 60 (Spencer Davis Group), mas especialmente dos tempos dourados (67/74) dos Traffic, essa mistura de blues, folk, psicadelismo e blues para o qual este Nine Lives remete tão explicitamente. Mais para aí do que para os grandes sucessos a solo, Arc of a Diver (1980), por exemplo.
A jóia desta coroa é, como não podia deixar de ser, Dirty City, os quase oito minutos em que o órgão e a voz de Winwood se cruzam com um espantosamente vibrante Eric Clapton, a fazer lembrar os mais que lendários Blind Faith (1969). Os minutos finais são, de resto, um dueto guitarra/voz como há muitos anos não se via.
Destaque merece também o belíssimo I’m Not Drowning de abertura, um clássico blues acústico com Winwood a fazer aquilo de que mais gosta, ou seja, a tocar todos os instrumentos.
O resto são longas digressões, reflexões filosóficas ou simples canções de amor e desamor, servidas por naipes variados de instrumentos, que quase sempre incluem o emblemático Hammond e as guitarras, mas que também supreendem com flautas, congas, saxofones e outras coisas. Uma das maravilhas dos discos de Winwood é precisamente, a par da voz única, o modo como sabe casar instrumentos, alternando entre o rigor da composição e a liberdade de curtos solos. Para ouvir sem pressas.

Alanis Morissette - Flavors of Entanglement ****

Comecemos pelo lado tablóide, que sempre agarra melhor a audiência: Ryan Reynolds trocou Alanis Morissette por… Scarlett Johansson. Uma opção que, enfim, até pode ser compreensível sob certos pontos de vista, mas que deixa muitas dúvidas sobre os gostos musicais do tal Ryan. Este disco, por exemplo, deixa a anos-luz a primeira e desastrada aventura discográfica da diva de Hollywood.
Mas a verdade é que Flavors of Entanglement está cheio de Ryan Reynolds por todos os cantos, já que se trata de mais um disco escrito na ressaca de uma ruptura sentimental e que só muito raramente consegue escapar a esse peso.
Em temas como “Tapes” (“I am someone easy to leave”) ou “Torch” (“I miss your warmth and the though of us bringing up our kids”) a separação é abordada de forma bem explícita, mas o assunto, assim como a necessidade de auto-afirmação após a ruptura, percorre todas as canções.
À semelhança dos discos anteriores de Alanis (o último é de 2004), trata-se de uma gravação densa. Com poemas de difícil digestão, hiper-metafóricos, repletos de referências cruzadas a várias realidades.
Essa densidade poética tem uma directa correspondência nas texturas musicais criadas por Guy Sigsworth (Bjork, Madonna), que produz e co-assina, e por Andy Page, multi-instrumentista, que desenha a maior parte das sonoridades densamente povoadas de sintetizadores, mas em que também ouvimos alguns arranjos de cordas e mesmo instrumentos de outras paragens (tabla, por exemplo). Aqui e ali, a densidade sonora chega a ser gongórica e, felizmente, há um ou outro tema mais límpido (como “Not As We”), em que a bela voz de Alanis é realçada apenas pelas teclas de um piano.

Maria Rita

Maria Rita é uma daquelas artistas que já tem um público certo em Portugal. Desde que lançou o seu primeiro disco (Maria Rita, 2003), que inscreve o nosso país na digressão respectiva (foi assim, também, com Segundo, de 2005). E agora, com este Samba Meu, do ano passado, a regra confirma-se.
A vasta comunidade brasileira explicará alguma coisa, mas o fenómeno Maria Rita é já universal (o primeiro disco já vendeu mais de um milhão de cópias em todo o mundo), para o que terão contribuído os Grammys latinos que entretanto recebeu.
Este terceiro disco, como se depreende do título, é integralmente preenchido por sambas, antigos e novos, e a imprensa brasileira, que a comparou à mãe (Elis Regina) na estreia, não tardou a compará-la à maior voz feminina do samba, Clara Nunes, também ela já desaparecida. O que só pode ser considerado um elogio, não fosse a irritante mania das comparações.
Maria Rita continua, é certo, com um timbre de voz que não a deixa mentir, mas o registo do samba permite-lhe mostrar outras tonalidades. Rezam as crónicas que os shows no Brasil têm sido de uma força e de uma elegância extremas, a que nem faltam as referências à sensualidade e beleza física de Maria Rita…
O espectáculo que agora traz a Portugal terá certamente muito de Samba Meu, com o respectivo apelo à festa e à dança, mas será inevitável que revisite alguns dos êxitos mais intimistas (“Cara Valente”, “Caminho das Águas”…), dos dois discos anteriores.

T Bone Burnett - Tooth of Crime ****

Vale a pena começar a ouvir este disco pela quinta canção, “Kill Zone”. Para perceber o que poderia ter sido um disco fora de série e acaba por ser apenas um disco de quatro estrelas. “Kill Zone” é uma daquelas canções que vão directas à alma. Ao coração, se quiserem. Uma superprodução que tem tanto de Roy Orbison (sim, ele até a co-assina, apesar de ter morrido em 1988), como da insanidade de Brian Wilson, sendo que se trata do mais puro T Bone Burnett.
O resto do disco merece, obviamente, uma audição atenta. E algumas das canções exigem ser reouvidas. Mas nada se compara àquela pérola de quatro minutos.
Digamos que o resto do disco sofre das consequências da circunstância – uma colecção de canções escritas ao longo do tempo (daí o quase-fantasma da autoria de Orbison…), com base num esqueleto destinado a uma encenação da peça homónima de Sam Shepard datada de 1996. Diga-se, já agora, que apenas uma das canções tem letra de Shepard.
Eis-nos, pois, perante uma espécie de banda sonora, escrita por um especialista em bandas sonoras (de filmes dos irmãos Coen, por exemplo), em produções alheias (Elvis Costello, Counting Crows…) e em lançar discos em nome próprio muito de vez em quando.
O disco está cheio das marcas digitais de Burnett (60 anos em Janeiro passado): o blues na base de quase tudo, um pouco de tex-mex, as vozes distorcidas, uma ambiência sonora envolvente, conseguida por vezes à custa de uma certa saturação instrumental, vozes distorcidas e poemas por vezes algo bizarros, com toques de ficção científica. E, claro, um naipe de músicos luxuoso, a começar por Jim Keltner na bateria, a passar pela voz de Sam Phillips (com que foi casado), para acabar na guitarra omnipresente de Marc Ribot.

Neil Diamond - Home Before Dark *****

Provavelmente, a maioria daqueles a quem este disco se destina estarão ainda traumatizados por essa incrível xaropada musical e cinematográfica a que chamaram Fernão Capelo Gaivota (1973). Gente que já viveu meio século. Mas essa náusea de gaivotas românticas é relativamente injusta.
Neil Diamond escreveu para a voz de outros alguns dos maiores sucessos dos anos 60. Manteve-se activo. E agora renasceu em vida, pela mão de Rick Rubin, o mago da última fase de Johnny Cash, para uma encarnação de simplicidade radical.
Foi em 2005 que, com 12 Songs, começou a colaboração com Rubin e que a carreira estagnada de Diamond conheceu um sobressalto. O trabalho de produção despiu-lhe as fanfarras e as orquestras melosas e deixou-lhe apenas guitarras, pianos e um ou outro discreto arranjo de cordas. Sobressaía, assim, a enorme força de uma voz amadurecida a servir canções de grande recorte clássico.
A receita repete-se integralmente com este Home Before Dark. Diamond surge simultaneamente poderoso, pela composição rigorosa e pela lírica profunda, e frágil, sem grandes artefactos de produção que lhe escondam as fragilidades da idade.
Continua um romântico incorrigível, mas os anos deram-lhe a sabedoria da sobrevivência perante os desaires do coração. Nada de muito grave, apenas canções sem consequências de maior. Grandes canções, como “Pretty Amazing Grace”, “The Power Of Two”, ou “If I Don’t See You Again”. Ou o sentido de humor de citar um dos seus maiores sucessos, “Song Sung Blue”, na fracção de segundo inicial de “Act Like a Man”.
Rubin leva-o ainda a cantar Dylan ou Simon and Garfunkel, acentuando assim o paralelismo com Cash. Sabe-a toda, este Rick.

Frank Sinatra - Nothing But The Best ******

Oh não! Outra colecção de sucessos de Frank Sinatra??? Mas as lojas não estão cheias disso? Estão, é verdade, e vão encher-se ainda mais. A Voz calou-se fez este mês uma década e, evidentemente, as editoras iam lá deixar passar esta oportunidade para vender, perdão, celebrar o talento imenso do maior cantor do século XX e arredores. Por isso, habituem-se
Mas na selva de reedições e compilações, nem todos os os gatos são pardos. Este disco, por exemplo, deve ser agarrado com as ambas as mãos. Por exemplo, por quem quer ter apenas um disco de Sinatra. Ou por quem quer ser apresentado como deve ser a Sinatra. Ou por quem comprou alguma dessas colectâneas apressadas que por vezes aparecem.
Nothing But The Best é isso mesmo, o melhor do melhor de Frank Sinatra. Os 21 temas deste disco foram gravados na década de 70 para a Reprise, a editora criada por Frank, após um período de desilusão com a Capitol. Na nova editora, ele tinha o comando artístico e escolheu quem bem quis para lhe escrever canções, fazer os arranjos ou acompanhar em estúdio. Regravou algumas canções, escolheu os melhores clássicos e subiu aos tops com algumas das canções com que mais o identificamos. São desta época, por exemplo, “Strangers In The Night”, ou “My Way”.
Ouvir Sinatra cantar como quem respira, embalado com orquestrações ora sumptuosas, ora de uma delicadeza extrema (“Bewitched”) – ouçam bem a orquestra de Count Basie em “Fly Me To The Moon” – é, acreditem, nas melhores experiências que a música nos pode oferecer.
Esta edição contém ainda um tema (“Body and Soul”), com arranjos contemporâneos para a voz gravada em 1984, e um DVD com um espectáculo de 1971. Tudo isto é tão bom que, nessa década de 70, Sinatra simplesmente desistiu de gravar.

Phoebe Killdeer

Agora, andam a apresentar a rapariga como a nova PJ Harvey. O que, diga-se de passagem, até nem está mal visto. Até porque já cansava a anterior apresentação: ela era uma das vocalistas dos Nouvelle Vague.
Bom… para quem não conhece, a coisa passa, mais ou menos, por aí. Há a imensa criatividade dos Nouvelle Vague, moderada por uma toada mais rock, menos chic, a fazer lembrar a rebeldia de Polly Jean. Ah, a rebeldia, é verdade… Phoebe Killdeer gosta de dizer que foi expulsa da banda francesa por mau comportamento. O que, não sendo verdade, até está bem visto.
O primeiro disco a solo, Weather’s Coming…, revela não apenas uma intérprete ainda mais exuberante e mais segura do aquela que conhecíamos, mas ainda uma compositora mais que razoável. É ela que assina os 12 temas, entre uma certa amargura típica dos nossos tempos e o sentido de humor exigível à sobrevivência (“Paranoia” ou “Looking For a Man” são disso excelentes exemplos).
Phoebe faz-se acompanhar pelo trio The Short Straws, que com ela fez esta primeira gravação, o que deixa antever um bom espectáculo, eventualmente de sonoridades mais agrestes, menos expansivas, do que aquelas que encontramos no disco, tendo em conta o tom meticuloso da produção que alguns temas.
Não será por acaso que a imprensa britânica classifica os seus primeiros espectáculos como “viscerais” e chega a dizer que até Siouxsie ficaria impressionada com a sua presença em palco. Vamos ver se os lisboetas também se deixam impressionar.

Hucknall - Tribute to Bobby *****

Já repararam naquelas bolachas e outros produtos alimentares americanos que trazem em letras pequenas: “Pode conter traços de frutos secos”. Os cuidados que eles têm com a nossa saúde… Com os Simply Red passava-se o mesmo. Por entre toda aquela música adocicada e bonitinha, pressentia-se o aviso: “Cuidado, pode conter traços de rhythm and blues, soul e outras canções rudes”.
Mick Hucknall, o vocalista cabelo de cenoura, rapaz nascido em Manchester há 47 anos, após um razoável sucesso com Stay (2007), decide mudar de vida, voar para Memphis e fazer algo que lhe apetecia desde os tempos de juventude – homenagear um dos seus ídolos. E, para que não restassem dúvidas sobre o alcance da obra, decidiu chamar-lhe Tribute to Bobby.
Bobby “Blue” Bland é um daqueles nomes do rhythm and blues de que nunca ouvimos falar, sendo que já todos ouvimos a canção que abre este disco, “Farther Up The Road”.
Num curto DVD que integra esta edição, percebemos a importância de Bobby, através de depoimentos de B.B.King ou de Van Morrison.
O que Hucknall faz, na companhia do produtor Andy Wright, é um fabuloso trabalho de actualização desta música, sem lhe retirar a autenticidade e a enorme força original.
Dos temas mais electrizantes (genial, o arranjo de “Stormy Monday Blues”, com um riff permanente a marcar o apelo à dança) às mais lentas e doridas baladas (em “I’m Too Far Gone”, por exemplo, é a bateria a dar a toada dramática), todas as canções são vestidas com uma criatividade e bom gosto que já não se usa. Tudo servido pela voz de Hucknall, mais madura, pelo menos uma oitava abaixo da que conhecíamos dos Simply Red. Tudo somado, estamos perante uma das melhores surpresas de 2008.

Amy Winehouse - Frank (Deluxe Edition) *****

Para o ouvinte médio, este é o segundo disco de Amy Winehouse. Sendo que, na verdade, se trata do primeiro. E, para esses ouvintes, há uma probabilidade razoável de este disco ser uma desilusão. Sendo que, sob vários pontos de vista, este é bem mais interessante que o outro.
Baralhado? Não tem de quê.
O mega sucesso de Back To Black, editado nos finais de 2006, mas cujos ecos ainda hoje perduram, com quase todas as canções tranformadas em sucessos, chamou a atenção global para uma artista, cujo primeiro disco, Frank, tinha sido editado três anos antes e tinha tido um já razoável sucesso, embora restrito a alguns sectores do mercado. O sucesso de Back… fez com que muitas pessoas tenham procurado Frank. E porque ficaram desiludidos? Porque Frank é um disco a que falta a produção claramente virada para explorar o filão revivalista do rythm & blues, ou seja, para atirar os ouvintes para o melhor do que se fez nos anos 50 a 70, não menosprezando, claro, os requintes de modernidade que exala.
Mas Frank, sendo menos trabalhado nessa vertente, é um disco altamente revelador da força artística de Amy Winehouse, quer na composição, quer na interpretação. Aos 19 anos, Amy mostra uma maturidade extraordinária e Frank é quase um disco conceptual sobre a decepção e a rejeição a amorosa, tratadas de uma forma simultaneamente poética e crua, que será, de resto a sua marca de água (I’ll take the wrong man as naturally as I sing).
Musicalmente, andamos em águas mais próximas do jazz, com algum soul, embora a abordagem tradicional seja por vezes surpreendida com toques de hip-hop e outras sonoridades contomporâneas.
A edição Deluxe que agora está à venda acrescenta um segundo disco (demos, remixes, gravações ao vivo), de grande valia, porque, em alguns casos, são ainda mais reveladores da enorme criatividade de Amy.

Bebel Gilberto

O jornal Los Angeles Times classifica as suas actuações ao vivo como “extraordinárias, mesmo libertadoras”. A revista Billboard considera o seu último disco (Momento, 2007) de “postal ilustrado e banda sonora perfeita” para o Verão.
Bebel Gilberto é, desde o início da sua carreira, mais universal que brasileira, sendo que é no Brasil que tem as suas raízes bem assentes, ou não fosse ela filha do enorme João Gilberto e de Miúcha. Adivinha-se uma infância e juventude entre músicos, no Brasil e nos Estados Unidos, onde fixou residência, entre as sonoridades calmas e acústicas da bossa novas, a exuberância do samba, mas também a sofisticação das grandes orquestras, mas igualmente de todos os experimentalismos electrónicos de que a Grande Maçã gosta de ser berço.
Por isso, desde o primeiro disco (Tanto Tempo, 2000) que Bebel tem grande aceitação a nível internacional, sendo que, por exemplo, a digressão que a traz a Lisboa já a fez passar pela Califórnia e pos várias cidades do Japão, por exemplo.
O disco base dos espectáculos do Porto e de Lisboa é Momento, onde se cruzam de forma perfeita as sonoridades mais electrónicas de Tanto Tempo com a acústica dominante de Bebel Gilberto (2004).
O concerto não deverá fugir ao registo calmo a que nos habituou, por mais intensa que seja a abordagem. Além dos temas assinados pela sua mão de Momento, assim, como alguns dos mais conhecidos dos dois registos anteriores, é natural que passe também pelas versões de Night and Day (Cole Porter) ou Caçada (do seu tio Chico Buarque).