Rita Redshoes quebra o silêncio de cinco anos com um disco integralmente em português e exclusivamente dedicado à sua recente experiência de maternidade. De certa forma, é quase como nascer outra vez. Sim, há aquela maneira de cantar, meio sussurrada, que já conhecemos há década e meia, e, sim, estão aqui alguns dos maneirismos de composição, e mesmo de orquestração, a que também estamos habituados. A grande novidade acaba por ser, por isso, o evidente prazer com que Rita descobre e trabalha as palavras em português, e mesmo como nelas tropeça, como quando tenta meter “temperamento”, onde de forma evidente o vocábulo não cabe (“Ego no Lugar”). Estão aqui canções que poderiam estar noutros discos da artista “Amor Intermitente”), mas a maioria são cantigas que poderíamos dizer de berço (“Canção Canora” ou “Canto da Sereia”, por exemplo), nas quais o tal sussurro de Rita assenta como se sempre a elas tivesse estado destinado.
José - Primeiro Disco *****
A toada folk do primeiro tema (“Fugir”), a quase lembrar as canções roubadas à terra pelos cantautores dos nossos anos 1970, é enganadora. Este é um disco que explode em todas as direções, como uma palete de cores. Que pede dança, libertação. José (Reis Fontão) lança-se agora a solo, após duas décadas à frente da banda indie francesa Stuck in the Sound e revela um ecletismo deslumbrante, assente em composições informadas e numa produção de calibre profissional. “O Berço da Terra” e “Primavera” são outras duas canções que poderíamos inscrever na linhagem do cancioneiro lusitano. Mas depois há o pop funk de “José, José, José!”, ou de “Intentions”, a house de “Beyond Doubt”, “a electrónica de “Magic Escape”, ou o leve psicadelismo encantado de “Paraíso, e é como se o disco rodasse para fora de órbita. Em direção às pistas de dança, o seu interdito habitat natural. Pareceria pretensioso, não fosse tão bem feito.
Inês de Vasconcellos - Amplexo ****
“Amplexo”, o tema, é bem o resumo deste disco, uma carta de apresentação de uma nova fadista em procura de um fado novo. O assunto, as relações LGBT, já seria suficientemente dissonante do universo do fado, mas a ruptura é mais funda e envolve também uma melodia pouco canónica e um poema com fraseado e métrica angulosos, por vezes no limite da cantabilidade. Esse registo mantém-se um pouco por todo o disco, com, por exemplo, “Fado da Supresa”, a casar a canção castiça com momentos de algum tropicalismo jazzístico. A esse poema, de Maria do Rosário Pedreira, juntam-se mais três de Vasco Graça Moura e um de Fernando Pinto do Amaral (“Olhar”), o qual, aliás, ao adoptar o Fado Licas acaba por ocupar o lugar mais tradicional do CD. Uma aposta em poetas consagrados, que ajuda a situar a aventura e remete irremediavelmente para Amália, ídolo máximo. Produção muito cuidada do experiente Ricardo Cruz.
Herbert Pagani - Megalopolis (1972) - Uma distopia esquecida
Maxime van der Love, presidente director-geral (PDG) dos Estados Unidos da Europa, no discurso da reeleição, anuncia o envio regular de lixo industrial para a Lua e o asfaltamento de todos os principais rios do Velho Continente, para dar resposta às necessidades de circulação automóvel. Enquanto o discurso vai sendo interrompido por spots publicitários da Mega Cola e da PDG (Pasta Dentífrica Governamental).
O disco Megalopolis (1972), de Herbert Pagani, é uma ópera-rock cantada em francês, que retoma parcialmente o livro Demain le Moyen Age, de Roberto Vacca. Uma distopia, prevista para o final do século XX, mas na qual tanto vamos reconhecendo muitas ideias e factos que entretanto se tornaram realidade, como outros tantos que pairam como ameaça.
Herbert Pagani (1944-1988) é um judeu de origem líbia, que fez vida entre a França e a Itália, que se interessou pelas artes plásticas e videográficas, e que deixou uma curta discografia.
A obra chegou a ter uma versão teatral, encenada pelo autor, mas haveria de cair no esquecimento. Existem várias versões, em vinil digital, mas nenhuma com a duração inicial. Estão todas esgotadas, não constam das plataformas de streaming e a única hipótese viável é uma gravação quase completa que pode ser ouvida no Youtube. Uma pena, tratando-se de um disco de tão grande atualidade.
Tempo de coisas novas
março de 2007 a março de 2021.
14 anos de tanta e tão boa música. agora, é preciso fazer coisas novas.




























