março de 2007 a março de 2021.
14 anos de tanta e tão boa música. agora, é preciso fazer coisas novas.
Tempo de coisas novas
Raquel Ralha e Pedro Renato - The Devil’s Choice, Vol. II ***
Esta história começou há cinco anos, quando Raquel Ralha e Pedro Renato foram convidados pelo programa Cover de Bruxelas, da Rádio Universidade de Coimbra, a interpretarem três versões de canções que os tinham marcado na adolescência. Desde os tempos dos Belle Chase Hotel que estes dois músicos se tinham mantido no ativo, através de diversos projetos. Este haveria de dar origem, no ano seguinte (2017), a um disco que recolhia essas três e outras versões, e no qual já surgia a menção Volume 1, preparando a sequela. E ela aí está, sem outra novidade que não sejam as canções. O resto, ou seja, a interpretação um tanto dramatizada a pedir palco, mantém-se. Como se mantém a liberdade criativa na abordagem de temas mais ou menos conhecidos, embora nunca entrando por caminhos de pura desconstrução. No leque dos originais, há duas repetições: Lennon (com “God”) e os Pixies (“Monkey Gone To Heaven”). “There Must Be An Angel” mantém a textura instrumental dos Eurythmics, mas passa ao lado dos vocalizos um tanto estridentes de Annie Lenox e coro. Já “Spirit” retiro algum barroquismo típico dos Waterboys, mantendo a tensão. Enfim, horas de comparações.
Diana Krall - This Dream of You ****
Tommy LiPuma (1936-2017) foi, durante as quase duas décadas em que assumiu papel preponderante na Verve, a sombra de Diana Krall e um dos artífices dos megaêxitos da pianista e cantora. LiPuma, como Krall, tinha a visão de que o jazz deveria ser acessível a toda a gente e não vale a pena regressar à discussão sobre se o jazz de Diana é mesmo jazz. A última colaboração dos dois foi “Turn Up the Quiet” (2017), mas dessas sessões sobraram algums temas, que vêm agora a luz do dia, quase em jeito de homenagem. Então, como agora, trata-se de revisitar os clássicos americanos, num registo ainda mais sereno que o habitual na discografia da canadiana. Nestes casos, fica sempre a ideia de aquilo que interessava ficou no primeiro disco e que o segundo mais não é que um depósito de sobras. Não parece ser o caso. O apuradíssimo trabalho de orquestração dá a cada instrumento espaço para respirar: a guitarra em “How Deep Is The Ocean”, o violino em “This Dream of You”, o contrabaixo em “There’s No You” e evidentemente o piano e as discretas cordas um pouco todo o lado. E sabe muito bem ouvir “This Dream of You”, de Dylan, por entre estes clássicos mais antigos. Como que a demonstrar o tal conceito de elasticidade de LiPuma.
Labels:
Diana Krall,
Discos
Bruce Springsteen - Letter to You ****
“Quando a voz de Ben E. King enche o ar, baby, isso é o poder da oração”. Poucos músicos terão trabalhado tanto o tema da música enquanto salvação, redenção das dores de dentro e dos pecados do mundo. As canções de Springsteen assumem por isso quase sempre a forma de hino ou oração, especialmente quando interpretadas ao vivo. Este disco recupera por inteiro esse espírito, percorrendo quase enciclopedicamente cada uma das malhas musicais criadas pela E Street Band, ao longo de quase cinco décadas de estrada e estúdio. Desta vez, juntaram-se, durante uma semana de neve, em New Jersey, para um disco gravado sem grandes artifícios técnicos, o que lhe confere uma sonoridade autêntica, quase de palco. “House of a Thousand Guitars” e “Ghosts” são os temas onde esse exercício é mais consequente. São, obviamente, canções que nada trazem de novo, limitando-se a revisitar o cânone, com energia e alegria, diga-se. Um disco que recupera três canções de 1972, recorda a primeira banda de Springsteen (os Castiles) e ataca Trump com um tema escrito no tempo de Bush (“Rainmaker”). Nostalgia, outro território querido ao “boss”.
Elvis Costello - Hey Clockface ****
Imagine-se uma audição. Então, e que sabe fazer? Elvis Costello sabe fazer tudo, e faz tudo muito bem feito. Das baladas à música eletrónica, do jazz à new wave, sim ainda à new wave... Não é de agora. Logo após aquela mão cheia de discos de arrebenta, na viragem dos anos 1970 para os 80, foi-se afirmando como um dos mais polifacetados e inventivos da sua geração. De certa forma, um músico do mundo, ancorado na mais cosmopolita pop. Este disco foi gravado em Helsínquia (temas mais rock ou eletrónicos, como “Flag” ou o quase experimental “Hetty O’Hara Confidential”), em sessões nas quais Costello tocou todos os instrumentos, e em Paris, com um naipe de músicos de jazz. Pelo meio, ainda há colaborações à distância (Nova Iorque), por exemplo, do guitarrista Bill Frisell. Os temas mais jazzísticos são simplesmente soberbos, em especial “I Do (Zula’s Song)”, há baladas de grande estilo “The Whirlwind”, ou “The Last Confession of Vivian Whip”. E ainda há espaço para a pura improvisação, na abertura (“Revolution #49”) e para a poesia, em “Radio is Everything”. Um disco complexo, que convida a ouvir repetidamente ao encontro de sempre novas sonoridades.
Labels:
Discos,
Elvis Costello
Paul McCartney - III ****
A uma certa altura, os Beatles gritaram “alto e para o baile”. E parou, literalmente. Acabou-se o frenesim dos concertos e das multidões histéricas, e os estúdios de gravação viram nascer, disco após disco, o verdadeiro cânone da música pop-rock. Décadas passadas, em 2020, ninguém mandou parar o baile, a dança autossuspendeu-se sem pré-aviso. E McCartney viu-se confinado com a família numa quinta. Daí não nasceu qualquer revolução, até porque todas as revoluções já foram feitas, mas o ambiente de reclusão parece continuar a fazer milagres. À semelhança dos anteriores registos homónimos (de 1970 e 1980), o ex-Beatle escreve e interpreta tudo, sozinho. Também como nesses dois discos, este conjunto de canções é atravessado por um misto de simplicidade e exaltação, que quase nos remete para a imagem de uma criança encantada com a magia das coisas, seja o som dos instrumentos ou os mistérios da vida. As canções mais perto da terra – folk, digamos – são as mais interessantes: “The Kiss of Venus”, “When Winter Comes”, ou “Pretty Boys”. Mas há também abordagens mais densas, inspiradas, dissonantes: “Women and Wives”, o instrumental de abertura, ou “Seize the Day”. Num ano tão agreste como este, é muito confortável saber que os nossos heróis permanecem lá, tranquilamente, a zelar por nós.
Labels:
Discos,
Paul McCartney
Mary Chapin Carpenter - The Dirt and the Stars ****
“It’s ok to be sad”. O título da segunda canção é o melhor resumo deste disco, o 16.º e talvez melhor da autora. Um disco de forte introspeção, intemporal, nada a ver com a circunstância da epidemia. O que aqui se canta são os intemporais movimentos telúricos da alma, seja quando o pêndulo te diz que acabou tudo entre nós – “All Broken Hearts Break Differently”-, quando o amor se revela um equívoco – a dolorosa “Asking for a Friend”- , ou simplesmente quando o tema é, sim, o sentido da vida – “Nocturne”, um dos mais belos temas deste conjunto, a par da canção que dá título ao disco, um flashback à adolescência ao som dos Rolling Stones. Mary Chapin Carpenter é um dos nomes mais seguros do panorama country “inteligente”, perdoe-se a simplificação. O disco, gravado em Inglaterra, todos os músicos em estúdio sem artifícios, recolhe-se ao registo mais intimista da música americana, uma opção que lhe abre outros horizontes.
Jarv Is - Beyond the Pale ****
Em “House Music All Night Long”, Jarvis Cocker – é dele que se trata – encontra-se à deriva num mundo de interiores da “night” da sua sala de estar. A intenção não era seguramente essa, até porque o disco terá nascido de atuações ao vivo nos últimos três anos, mas esta canção e atmosfera das restantes são a metáfora perfeita para o 2020 que nos calhou. Dançar na “night” da nossa sala de estar, irremediavelmente à deriva, é esse o nosso destino, tanto quanto podemos alcançar. Jarv Is – é esse o nome da banda – resulta dos tais concertos ao vivo, um pouco por todo o lado, do ex-líder dos Pulp e mais uma mais uma mão-cheia de amigos. As canções integram, aliás, algum desse ADN da música ao vivo. Cocker continua britanicamente sardónico, o que é excelente, e com forte tendência para animar as pistas de dança, por mais interiores que elas sejam. O disco arranca com uma homenagem implícita a Cohen, com Jarvis a sussurrar para um coro feminino que lhe responde, bem humorado, sobre uma evolução suave de valsa. Há ecos de Bowie, fase Berlim, e de Nick Cave, mas o disco é, felizmente, muito mais que isso. Não fosse a quarentena das pistas de dança, e teríamos aqui banda com pés para dançar.
Matt Berninger - Serpentine Prison ***
No tema que dá o título ao disco, e que o encerra, Matt Berninger canta às tantas: “I’ve seen a vision, call an electrician”. Sim, é o mesmo tipo de poesia desconcertante a que nos habituámos nos The National. Este disco, o primeiro de Matt a solo, não é o nono dos National, mas anda lá perto. Não era fácil ao vocalista e alma da banda embarcar numa aventura de distanciamento, especialmente tendo em conta a forma muito marcante como interpreta as canções do colectivo. Seria necessária uma completa reinvenção... Digamos que este exercício a solo nos mostra alguém mais melódico, mais macio, apesar de os temas andarem à volta do mesmo binómio de desesperança versus alento a que já estamos habituados. Booker T. Jones, na produção, salva o disco do que poderia ser um naufrágio meloso. Cordas, metais, órgãos e guitarras encarregam-se de injectar sangue e cor, onde o tédio espreitava. “Distant Axis”, ou “Take Me Out of Town” são exemplos do melhor que aqui se ouve. “Collar of Your Shirt”, ou “Loved So Little” padecem da tendência para o bocejo que se sente mais amiúde do que seria desejável.
Labels:
Discos,
Matt Berninger
Christine and The Queens - La Vita Nuova ****
Em 2018, com “Chris”, Héloise Letissier estabeleceu definitivamente Christine and The Queens como um dos nomes a seguir na cena da música de dança de textura complexa e ambiciosa. O regresso com este EP (seis temas) não se fica pela consequência lógica dessa afirmação. Agora num registo mais lento, em que a batida forte se entrelaça com lençóis de electrónica e coros, resultando num produto que vibra ao ritmo do corpo. O vídeo com cinco destas canções, que pode ser visto no Youtube, materializa ainda mais esse sentimento de dança natural, através de uma coreografia que atravessa os telhados de Paris e que, no plano visual, aproxima Christine de Michael Jackson da mesma forma que “I Disappear in Your Arms” o faz na vertente musical. A ambivalência musical serve na perfeição o carrocel emocional das canções, sempre na incerteza entre a paixão, a desilusão e a ressurreição. Que, como se sabe, é um excelente mote para a dança.
Ray LaMontagne - Monovision ****
Não é seguro que a música salve, mas há discos que aliviam muito os dias cinzentos. Ray LaMontagne levou os dias de confinamento a sério e, completamente sozinho, compôs, produziu e interpretou o seu oitavo disco. E não é que desses dias de chumbo saiu um dos mais luminosos discos deste ano? O psicadelismo dos últimos tempos deu lugar a um regresso às origens, baladas folk sem arestas, melodias de encantar e assobiar por mais. A disposição geral vai a par: canções de amor, amor mesmo, nada de corações partidos... enfim, um ou outro lamento, nada que deixe marcas alma. E depois há o divertimento um pouco virtuoso de este ser um disco de veneração a grandes mestres e influenciadores, como se a canções fossem por vezes quase pastiches. De Van Morrison, em “Misty Morning Rain”, de Neil Young, em “Rocky Montain Healin’”, dos Credence Clearwater Revival, em “Strong Enough”, dos Mamas and Papas (ou será Carpenters?), em “Weeping Willow”. Um disco feliz.
Labels:
Discos,
Ray LaMontagne
The Psychedelic Furs - Made of Rain ***
O último disco dos Psychedelic Furs (“World Outside”) saiu há 29 anos, o mundo deu voltas e mais voltas. Eles regressam agora, como se nada fosse. “Made of Rain” não pega na história onde ela tinha parado, mas também não inventa novos caminhos. Na verdade, é como se essas três décadas não tivessem existido. Esses anos em que Richard Butler, o irmão e mais uns tantos se entretiveram em projectos diversos e em rodar os sucessos da fulgurosa década de 80 por diversos palcos. Ainda nessa década, estes ingleses evoluíram do punk original para uma sonoridade mais domesticada e destinada aos grandes palcos. Um som que assenta em guitarras (muitas), um inesperado e relativamente discreto saxofone e a voz esforçada e projectada de Butler, a ecoar os dramas e angústias geracionais. “Wrong Train”, “Don’t Believe” ou “You’ll Be Mine” são bons exemplos dessa atitude de uma música descomplexada, de efeito fácil, mas garantido.
Jessie Ware - What´s Your Pleasure *****
Numa entrevista à Glamour, a propósito de “What’s Your Pleasure” e de certa forma respondendo a essa pergunta, Jessie Ware esclareceu ao que vem: “Quis fazer um disco ao som do qual as pessoas façam sexo”. Não será exatamente ou apenas isso. Canções como “Adore You” ou “In Your Eyes” – a dupla de luxo no centro do disco – apelam claramente à continuação da dança por outras vias. Mas este é, essencialmente, um disco para as pistas. De disco, nem tanto pós-disco, ou sequer de nostalgia do disco dos anos 80, embora tenha de tudo isso um pouco. “Mirage (Don’t Stop”, outro dos temas incontornáveis deste exercício, recupera essa batida que vem dos 80 e se que eternizou nas pistas de dança. Começa por declarar: “A noite passada dançámos, e pensei que estavas a salvar-me a vida”, para no refrão explodir numo sussurro quase subversivo nos tempos de distanciamento e negação que vivemos: “Não deixes de te mover em conjunto, continua a dançar”. Este é de longe o disco mais expansivo de Jessie Ware, num sentido até literal. Ao contrário do que acontece nos anteriores três, aqui as canções tendem a desenvolver-se de forma caleidoscópica, com os pés assentes em sólidas secções rítmicas, que ora evoluem sobre si próprias, ora se fazem acompanhar de cordas luxuriantes ou coros ritmados. Tudo isto resultado de uma apurada produção (James Ford) e de uma estrela de créditos firmados para quem o melhor do confinamento foi cozinhar para uma família de quatro (sim, o podcast de gastronomia de Jessie recomenda-se).
Labels:
Discos,
Jessie Ware
Haim - Women in Music Pt. III *****
Desespero, doença e melancolia. Ritmos fulgurantes, guitarras exuberantes, efeitos sonoros de feira e carrinhos de choque. Eis um dos segredos mais bem guardados da pop: como casar almas amarguradas com pernas a pedir dança? Quanto mais perfeito o casamento, melhor a pop – um teste que nunca falha. Ao terceiro disco, as Haim aproximam-se da excelência nessa arte de juntar o impensável. Os últimos anos caíram forte sobre as três irmãs: namorado com cancro, depressão, morte do melhor amigo, diabetes tipo 1... E tudo isso se reflecte nas 16 canções deste disco, em canções confessionais, cheias de dúvidas, mas quase sempre com respostas. Muito cinematográficas, na escrita, mas especialmente na produção. E, aqui, outro pequeno milagre deste disco: a forma como apropria, sem vergonha, por vezes ao nível do puro pastiche, as principais referências do grupo (Fleetwood Mac em “Leaning on You”, Joni Mitchell em “Man From The Magazine”, Lou Reed em “Summer Girl”, ou Prince em “FUBT”) e as desenvolve numa linguagem de extrema contemporaneidade, em que não se conhecem fronteiras ou limites. Os coros que já conhecíamos juntam-se a uma plêiade de instrumentos, em que será justo destacar o fabuloso trabalho de saxofone em vários momentos (por exemplo, em “Summer Girl”, canção notável a vários níveis). Difícil é eleger uma outra canção que se eleve do conjunto, neste disco em que exuberância rima, de facto, com elegância.
Car Seat Headrest - Making a Door Less Open ***
Esta é uma história já muitas vezes contada, mas que se repete uma e outra vez. Uma banda, eficiente mas irrelevante no panorama da indústria e comércio musical, faz um interregno, para regressar com imagem retocada, nova energia e ambicionando a glória que lhe falhou antes. O resultado raramente é satisfatório e esta não será a excepção à regra. Will Toledo aproveitou os quatro anos de pousio após “Teens of Denial” para prosseguir projectos paralelos, que em boa medida desaguam neste novo som da banda principal: onde antes havia um som lo-fi, baseado em guitarras, quase indie, há agora muitos sintetizadores, que se misturam com as guitarras, e um som a apelar aos grandes palcos (o nome que mais salta ao ouvido: The Killers). Estivéssemos nós em tempos de festivais e tal... Assim, restam canções como “Deadlines (Hostile)” ou “Hollywood”, para as danças possíveis. E uma profunda sensação de déjà vu.
Labels:
Car Seat Headrest,
Discos
Bob Dylan - Rough and Rowdy Ways *****
Este é o primeiro disco de originais de Dylan após o Nobel da Literatura de 2016. O bardo brinda a plateia com um disco que cita Shakespeare, uma e outra vez, coloca Anne Frank e Indiana Jones no mesmo verso e fornece à plebe mais uma mão cheia (qual mão? Uma praça delas...) daquelas frases prontas a citar, sempre a propósito porque francamente polissémicas. A morte, e isso nem é propriamente novidade na discografia mais recente, é uma constante ao longo do disco, seja na muito bem humorada “My Own Version of You”, uma espécie de Frankenstein musical, na épica “Murder Most Foul”, sobre a morte de JFK, ou melhor, sobre como a América se redime pela música, ou na belíssima “Key West”, a lenta peregrinação para a penúltima morada. Como quase sempre, Dylan é profundamente e exclusivamente americano. Mesmo quando o universo o endeusa, como sempre fez, ele recua às raízes americanas e é aí que ancora a sua voz. Uma vez mais, neste ano de peste, tudo gira em torno de uma mitologia americana, até quando se apropria da antiguidade clássica. O mesmo na vertente musical. Os blues, nas versões mais puxadas (“Goodbye Jimmy Reed”) ou nas mais calmas, ou o próprio cancioneiro americano, em que mergulhou nos últimos anos, definem um ambiente musical, que muito vezes é apenas isso, ambiente, como o dedilhar de uma guitarra sobre o qual Dylan estende a sua cada vez mais serena voz (“Black Rider”). Indiferente ao ar do tempo – não há aqui referência a qualquer traço de actualidade – Dylan afirma-se como poeta maior da condição humana contemporânea. Os da Academia sueca às vezes acertam.
Perfume Genius - Set My Heart on Fire, Immediately *****
Pop de luxo. Pop, pela batida frequentemente dançante, o refrão sempre disponível, a luxúria de colecionar referências sem cair na vulgaridade exibicionista, procurando, antes, criar momentos de espanto que se sucedem sem fim. Luxo, pela miríade de músicos de estúdio de elevada cotação e prestação (Jim Keltner, Matt Chamberlain, Pino Palladino), mas principalmente pelo delírio barroco em que cada canção se desenrola. Ao quinto disco, Mike Hadreas está a anos-luz da gravação caseira com que se apresentou há uma década, ou mesmo das texturas lineares de, por exemplo, “Too Bright” (2019). Aqui tudo é exuberância, mesmo que sempre contida nos limites de uma pose elegante. Seja em “On The Floor”, devedora do pós-funk, em “Without You”, objecto pop por excelência, seja até na mais cinzenta desta coleção, “Describe”. Como num bom filme – e a alusão cinematográfica não é inocente – há sempre qualquer coisa, uma cena ou uma inflexão sonora, que nos impede de desviar o olhar. O ouvido, no caso.
Labels:
Discos,
Parfume Genius
Mark Lanegan - Straight Songs of Sorrow ****
Aos 55, Mark Lanegan faz um balanço de vida. Num livro, “Sing Backwards and Weep”, no qual recorda os anos conturbados dos anos 80 e 90, das drogas aos serviços de urgência de hospitais, os bastidores dos Screeming Trees e dos Queens of the Stone Age (já nos anos 2000), histórias e mais histórias dos amigos aos quais foi sobrevivendo. E também num disco que – diz – resultou da catarse de se expor em público de uma forma tão explícita. Porque, como afirmou numa entrevista recente, “Songs aren’t real life, you know?”. Porque, apesar de assentarem numa base quase sempre autobiográfica, as canções acabam por ser apropriadas pelos ouvintes, virando costas ao criador. Livro e disco deixam claro, logo nos títulos, ao que vêm: a sombra permanente da morte e da dor, como sempre nas canções de Lanegan. Este é o terceiro disco completamente ensopado de electrónica, mas o seu peso só se sente no esmagador tema de abertura. Depois, mercê da urgência com que foi gravado, o disco mostra-nos muitos temas quase simplesmente esboçados. Por isso, apesar do ambiente pesado das letras, as orquestrações permitem alguma respiração e até alguma luz. A dupla acústica/blues de “Hanging On” / “Burying Ground” são disso o exemplo mais acabado. Como, antes, “Apples From a Tree”. “Eden Lost and Found”, com um fundo de órgão Farfisa gravado por telefone evoca tanto Lou Reed que até dói. Lá está, Mark ia gostar de ler isto: Termina com o verbo doer.
Labels:
Discos,
Mark Lanegan
Pedro Jóia - Zeca ****
Trinta e três anos após a morte de José Afonso, a sua obra atravessa um longo período de clandestinidade. Devido aos conhecidos problemas relacionados com os direitos das suas canções, há muito que os seus discos não estão à venda, estando também praticamente ausente das plataformas digitais. Tem valido, ao longo destas décadas, a admiração das gerações sucessoras, que em vários formatos e estilos têm vindo a revisitar algumas das mais fascinantes canções portuguesas do século XX. Pedro Jóia tinha 16 anos quando José Afonso morreu, mas também é verdade que por essa altura já manejava a guitarra com grande à-vontade. O disco é consistente com as homenagens que Pedro Jóia tem vindo a fazer a outros grandes nomes da música portuguesa, tal como Carlos Paredes ou o fadista Armandinho, aos quais também dedicou obras completas. Acompanhado apenas pelo percussionista José Salgueiro, devolve-nos alguns dos temas mais conhecidos de Zeca, sempre com um enorme respeito pelos originais. Mesmo quando introduz o flamenco em “Cantigas do Maio”, porque os traços afro-latinos que ouvimos noutros casos, esses, já lá estavam.
Labels:
Discos,
Pedro Joia
Madalena Palmeirim - Right As Rain ****
Esse arco indefinível que une o fado, a morna, o samba. Música tão portuguesa, por ser ângulo desse arco, mas também universal, sem fronteiras, de estilo ou linguísticas. Madalena Palmeirim abalança-se na primeira aventura em nome próprio, após uma década de estúdio e estrada, ora com o irmão, Bernardo, no projecto Nome Comum (“Cuco”, 2015), ora com outras companhias, como Francisca Cortesão e Mariana Ricardo (Minta & The Brook Trout e They’re Heading West). Todos eles se juntam agora a Madalena, e ainda Carlos Barretto, com o seu doublebass em dois temas, e o brasileiro Momo, no dueto de “Solidão”, uma das tais canções que voa sobre o Atlântico. A outra mais descarada é “M´Câ Sabê”, uma morna cabo-verdiana construída sobre um fado. Fado que aliás surge logo de seguida, com balanço tropical, em “Teus braços de embalar”. E depois há as canções em inglês, mais cosmopolitas, com milimétrica e elegante encenação vocal e instrumental.
Labels:
Discos,
Madalena Palmeirim
Fiona Apple - Fetch The Bolt Cutters *****
Fiona Apple nunca foi propriamente uma menina do coro, naquele sentido do pop melódico, penteadinho, no seu lugar. Mas nunca, como neste regresso após quase uma década de silêncio (“The Idler Wheel…”, 2012), foi tão longe na dissonância. Estamos ainda em zona pop, pela atitude e inevitavelmente pelo mercado em que se move, mas estas 13 canções devem muito é ao jazz, especialmente na sua variante free, free jazz. Seja pela recusa do facilitismo da melodia óbvia, seja pela descontinuidade de trechos e estilos musicais(“For Her”) , seja pela inacreditável liberdade instrumental e de interpretação (em “On I Go” fica mesmo para a posterioridade um erro no final do refrão…). O disco foi gravado na casa de Fiona, na Califórnia, com mais três músicos, que tocaram literalmente em tudo o que estava à mão, gerando registos rítmicos surpreendentes e inolvidáveis, no tema título, por exemplo. E mesmo na frente vocal, esta menina que nunca foi do coro inventa coros, que são mais somas de vozes do que propriamente qualquer expressão uníssona da presença humana (“Shameika” e “Newspaper”). “I Want You To Love Me”, o tema-título, ou “Under The Table” são canções em que a exuberância desta abordagem de jam session balizada atinge uma expressão mais evidente. Grandes canções. Estamos aqui perante um território estético pouco canónico, mas que, paradoxalmente, absorve e desenvolve a fragmentação estilística que domina os tops de todo o mundo. A expressão de toda a originalidade interior, no momento exacto em que o terreno está fértil para a sua progressão e consequente assimilação pelo colectivo. Costumam ser assim os génios.
Labels:
Discos,
Fiona Apple
The Strokes - The New Abnormal ****
Convenhamos. Não podemos exigir sempre temas de abertura como “Is This It” (2001), ou “You Only Live Once” (2006). Mas “The Adults Are Talking” não é propriamente de se deitar fora. A banda quebra o silêncio de sete anos com aquele que é seguramente o seu melhor disco desde a trilogia inicial. O primeiro single, “At The Door”, uma quase balada, sem bateria e quase só teclas, deixou algumas angústias no ar. É um tema de palco, para grande encenação, mas faltavam-lhe os famosos “riffs” de guitarra e a bateria entusiasmada, imagem de marca destes nova-iorquinos. Guitarras e bateria, afinal, não faltam por aqui, em temas que remetem em permanência para os grandes momentos do passado, como em “Brooklyn Bridge to Chorus” ou “Bad Decisions”. Há, claro, alguma palha, como “Not The Same Anymore”, mas não chega para ensombrar o regresso. Só fica por esclarecer a presença de Rick Rubin, produtor que normalmente sinaliza inflexões assinaláveis de trajeto, o que não é, de todo, o caso. Se o passado é um local confortável para regressar, porque não uma escapadinha de vez em quando?
Labels:
Discos,
The Strokes
Animais - 15 Anos sem Paredes ***
Este disco levou mais de década e meia a nascer. E isso pode ser um problema. Em 2003, músicos dos Belle Chase Hotel e do Quinteto de Coimbra reuniram-se, nos Mondego Chase, para homenagear Carlos Paredes. Desse tempo, ficou o registo da versão de “Verdes Anos”, que integrou a colectânea “Movimento Perpétuo”, também desse ano. Volvido este tempo, esses músicos rodearam-se de outros, para, finalmente, passarem a disco essa experiência e, de alguma forma, expandi-la. Onde antes havia versões instrumentais e um apego à guitarra portuguesa, há agora canções com letra e bastante densidade instrumental, que ocupam metade do disco. Só que, entretanto, existiram os Dead Combo, que exploraram muito este tipo de sonoridades, e principalmente o projecto Amália Hoje (2009), ambos a limitarem bastante o efeito novidade que este disco poderia ter. Se os temas instrumentais nos deixam agarrados aos caminhos inesperados que abrem, já as canções sofrem do mesmo problema da homenagem a Amália, ou seja, um excesso de intensidade, de uma instrumentação gongórica, que mata toda a subtileza.
Tame Impala - The Slow Rush ****
Com alguma boa vontade, poderemos encontrar na batida e na circularidade do canto da segunda parte de “One More Hour” laivos de um fantasma chamado Brian Wilson. E, no entanto, apesar de todas as enormes distâncias estilistas e geracionais, é quase inevitável falar da alma dos Beach Boys quando se fala de Tame Impala, ou mais precisamente de Kevin Parker, o australiano por detrás disto tudo. E tudo é mesmo tudo: composição, interpretação (incluindo todos os instrumentos), mistura e produção. Sim, Kevin é uma espécie de Brian, alguém que tem na cabeça uma imagem (!) exacta da música que quer e que, em estúdio, se dedica a infindáveis e minuciosas manipulações sonora. A construção de enormes massas sonoras, mas que todos os detalhes estão à mostra. Com Brian, Kevin partilha ainda o fino gosto pela composição. E, pronto, param aqui as comparações. Os Tame Impala são mais herdeiros do funk, o dos anos 70 e o dos 90, e de um psicadelismo tardio, ou intemporal, se quisermos, mas nunca o de 60. Não será, porém, isso que torna os Tame Impala um dos maiores sucessos dos últimos anos, mas antes a tessitura pop em que estas canções assentam, seja, por exemplo, em “Posthumous Forgiveness”, ou obviamente em “Borderline”.
Labels:
Discos,
Tame Impala
Big Thief - Two Hands ****
Na sua recente passagem por Lisboa, os Big Thief revelaram-nos um pouco do seu processo criativo: metade de um concerto para lá de impecável, a outra metade à beira do desastre, porque feita à custa de canções novas, sem rodagem. Este disco, o segundo no espaço de um ano, é em boa parte constituído por canções que a banda trabalhou em palco, ao longo de anos. Basta passar pelo Youtube para encontrarmos diversas versões, por exemplo, de “Shoulders”, uma composição, aliás, paradigmática do território em que a banda se move, com frequentes referências ao mal (no caso, a violência doméstica) que se esconde na beleza das coisas. Mas este disco não recolhe apenas canções de estrada, de certa forma ele tenta replicar as aventuras de palco, numa gravação crua, sem muitos artifícios. Um som rude, que contrasta flagrantemente com o ambiente quase celestial de “U.F.O.F.” (2019). Adrianne Lenker está aqui, por isso, muito mais perto daquela radicalidade de palco, como em “Not”, seja na sofreguidão da voz, seja na exuberância das guitarras, a lembrar algumas aventuras de Neil Young. A acústica e quase bucólica “Wolf”, ou “Forgotten Eyes”, a lembrar tanto os Rilo Kiley, de Jenny Lewis, são momentos em que essa urgência dá lugar a uma distensão muito pop. E é tão pop esta música, mesmo que o não pareça.
Lina_Raul Refree ****
Um belíssimo disco de fado. Arrumem-se desde já os preconceitos: não há aqui uma única guitarra portuguesa, mas, apesar de ainda agora estarmos no início, este será certamente um dos melhores discos de fado de 2020. Lina, anteriormente conhecida por Carolina, juntou-se ao produtor catalão Raul Refree (Silvia Pérez Cruz, Rosalía), para reinterpretarem Amália (mais um tema de Variações e outro de Marceneiro/Amélia Muge). O resultado tem tanto de estranho, como de cativante. Sem o suporte das guitarras, liberta da esquadria sonora tradicional, Lina supera-se na interpretação genuinamente fadista. A seu lado, Refree constrói um percurso inesperado de pianos e electrónica, ora emulando guitarras (“Cuidei que Tinha Morrido”), ora gerando massas sonoras quase espectrais (“Os Meus Olhos São Dois Círios”). Face a outros exercícios similares de trabalho sobre formas tradicionais, faltou a Refree trazer, também para a voz de Lina, um Cohen ou um Bowie. O fado teria gostado.
Labels:
Discos,
Lina,
Raul Refree
Patrick Watson - Wave ****
Aí vamos novamente, carrocel de emoções, a vida transformada em arte sonora, nós no papel de voyeurs de sentimentos, dores e ressurreições alheias. Foram duros os anos de Patrick Watson desde “Love Songs For Robots” (2015): a morte da mãe, uma separação dolorosa. Tudo isso está neste disco, há versos e linhas melódicas de melancolia um pouco por todo o lado. Mas este é também um disco de exorcizar fantasmas, de reerguer a cabeça e continuar. A generalidade das canções tem, é certo, a tal tristeza, muito devedora do timbre melancólico da voz, mas são quase sempre um crescendo sonoro e luminoso, assentes em orquestrações de uma rara leveza, tendo em conta a diversidade instrumental presente. Há momentos desconcertantes (“Wild Flower”), de intensa beleza (“Look At You”) e mesmo de uma inusitada vivacidade, com recurso ao tango e tudo (“Melody Noir”). Sim, que terapia é a música.
Labels:
Discos,
Patrick Watson
Angel Olsen - All Mirrors ****
Como alguém que procura infinitas planícies para gritar as suas dores. Ou penhascos para chorar íntimas traições. E juras desesperadas. É assim o mais recente registo de Algel Olsen. As canções continuam perdidas, entre a constatação de amores irremediáveis e a recusa em baixar as armas, procurar sempre, falhar, como dizem os poetas, falhar ainda mais e melhor. Mas agora essas confissões são-nos servidas em turbilhões sonoros, de guitarras, sim, essas que conhecemos desde o primeiro disco, vai para seis anos. Também os sintetizadores, que aqui chegaram em 2017 (“My Woman”). Mas especialmente através das cordas, muitas, planantes algumas, tensas e densas, na maioria dos casos. A orquestra é a grande arma de Angel nesta quinta investida, tornando expansiva a já nossa conhecida intimidade. “Lark”, logo a abrir, marca o tom, com as cordas a gerarem uma enorme barreira sonora, que rebenta num continuum a caminho de um fade out de guitarras distorcidas. Dramatismo sonoro a rodos, com intervalos de doce distensão. E cinema, como em “New Love Cassette”, uma peça assumidamente gainsbourguiana (“Melody Nelson”). E depois aquela “Chance”, a fechar, com o glamour decadente dos anos 50. As cordas rodopiam e dançam.
Labels:
Angel Olsen,
Discos
Mazgani - The Gambler Song ****
Não há qualquer surpresa, ou sequer confirmação. Década e meia de estrada, seis discos no activo, Mazgani tem já créditos firmados e um nome que identifica um estilo. Mas este disco é, apesar disso, um passo em frente. Ao assumir um registo muito mais calmo, lento, que em registos anteriores, e ao afastar-se do blues seminal talvez como nunca outrora, Mazgani burila e fixa de forma mais evidente uma maneria muito peculiar de estar na música. Os temas andam – como poderia ser de outra forma? – em torna do amor, da busca, da errância. A música, com mais espaço para respirar, serve na perfeição esse desígnio contemplativo. Canções como “Into Silence” aproximam-se do pop elegante, sem as arestas do blues, para logo de seguida “The Sweetest Song” ser a excepção que nos traze o canto gritado de discos passados. Os mais puristas hesitarão perante este som mais manso, que nada parece ter, porém, de derrota ou inflexão.
Alma Nuestra - Alma Nuestra ***
O jazz e a música latina constituem territórios seguros para Salvador Sobral. A sua obra gravada e actuações ao vivo são prova cabal de que é, aliás, esse o chão que lhe serve de base ao resto, talvez juntando-lhe a “chanson”, como ficou evidente no mais recente disco a solo (“Paris, Lisboa”, 2019). Este CD resulta da paixão pela música sul-americana, partilhada com o pianista cubano Victor Zamora, a que se juntaram Nelson Cascais (contrabaixo) e André Sousa Machado (bateria). Os espectáculos ao vivo que foram rodando desembocaram num disco sem ambições extraordinárias e que se ouve com a mesma intensidade. São nove temas do cancioneiro latino, uns mais conhecidos que outros, em que o jazz fala frequentemente mais alto (o diálogo bateria/contrabaixo em “Si Me Pudieras Querer”, o piano em “La Gloria Eres Tu”) e em que Salvador faz uso extensivo dos seus limitados dotes vocais (“Alma Mia”). Não se poderia pedir mais.
Labels:
Alma Nuestra,
Discos
Subscrever:
Mensagens (Atom)




























