Assalto ao espólio, parte II. Com a mesma velocidade com que
Amy Winehouse (1983-2011) passou pela Terra, a indústria discográfica partiu em
busca das pérolas restantes do génio. Após vasculhar nas gravações de estúdio (Lionness: Hidden Treasures), num
trabalho no limite do razoável, chega agora a vez das actuações ao vivo, no
caso, as efectuadas pela BBC rádio e TV, entre 2004 e 2009. Amy foi um diamante
em bruto que por aqui passou, seja pela forma como transformou o seu conflito
com o amor em algumas das mais belas canções da década, seja pela forma
desamparada, nua, como expunha esse doce desconforto em público. Ao vivo –
Lisboa sabe-o – as coisas descambavam frequentemente, sob o peso das drogas e
do álcool. Mas, quando os deuses o permitiam, era sublime, como em “Just
Friends”, “Love Is A Loosing Game”, “Valerie”, ou “You Know I’m No Good”,
presentes neste CD. Das duas edições, com um ou três DVD, a segunda é
obviamente melhor – o contexto visual explica algumas performances.
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Amy Winehouse - Lioness: Hidden Treasures ***
E são estes os restos mortais de Amy Winehouse. Restos é a palavra certa – a avaliar pela amostra, a cantora britânica não deixou propriamente um espólio à mercê dos arqueólogos da indústria musical. Basta dizer que, para conseguirem juntar 12 canções, tiveram que percorrer quase uma década, desde as gravações contemporâneas de Frank (2003), como “The Girl From Ipanema”, aqui numa versão vocalmente menor, até temas que estavam a ser trabalhados para o sempre adiado terceiro álbum, como “Between The Cheats”, uma boa tentativa de reeditar a sonoridade doo-woop que se adivinhava nas canções de maior sucesso, ou mesmo a incipiente “Like Smoke”. Há aqui de tudo, portanto. Versões que pouco ou nada adiantam, como “Valerie” (outra vez?), orquestrações densas e espalhafatosas imaginadas para esconder o mero balbuciar de uma versão (bolas, não se arranjou um original?), como em “A Song For You” (de Leon Russel), ou – imagine-se! – uns arranjos de 2011, construídos para embrulhar a voz de uma outra versão que Amy tinha gravado em 2004 do clássico “Will You Still Love Me Tomorrow”. Ou seja, estamos no terreno do vale-tudo. E até a versão artificial de “Body And Soul”, com Tony Bennett, acaba por parecer ajuizada, face a tanto desespero e algum disparate. E, no entanto, apesar disso, este não é um mau disco. A voz de Amy, quando lá está em pleno, é poderosa e tem a indiscutível magia de se apropriar das canções, como só acontece com os grandes cantores. O que falta aqui – e há nessa constatação toda a mágoa pela injustiça da vida – é a concretização da promessa de uma enorme autora que Back To Black tão claramente apontava. Infelizmente, até o sótão está vazio – Amy foi um cometa sem rasto.
Labels:
Amy Winehouse,
Discos
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