Tommy LiPuma (1936-2017) foi, durante as quase duas décadas em que assumiu papel preponderante na Verve, a sombra de Diana Krall e um dos artífices dos megaêxitos da pianista e cantora. LiPuma, como Krall, tinha a visão de que o jazz deveria ser acessível a toda a gente e não vale a pena regressar à discussão sobre se o jazz de Diana é mesmo jazz. A última colaboração dos dois foi “Turn Up the Quiet” (2017), mas dessas sessões sobraram algums temas, que vêm agora a luz do dia, quase em jeito de homenagem. Então, como agora, trata-se de revisitar os clássicos americanos, num registo ainda mais sereno que o habitual na discografia da canadiana. Nestes casos, fica sempre a ideia de aquilo que interessava ficou no primeiro disco e que o segundo mais não é que um depósito de sobras. Não parece ser o caso. O apuradíssimo trabalho de orquestração dá a cada instrumento espaço para respirar: a guitarra em “How Deep Is The Ocean”, o violino em “This Dream of You”, o contrabaixo em “There’s No You” e evidentemente o piano e as discretas cordas um pouco todo o lado. E sabe muito bem ouvir “This Dream of You”, de Dylan, por entre estes clássicos mais antigos. Como que a demonstrar o tal conceito de elasticidade de LiPuma.
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Diana Krall - Turn Up the Quiet ****
“Sway”, a rumba que Dean Martin imortalizou, é aqui quase eternizada, numa langorosa versão de mais de seis minutos, em que, à vez ou em diálogo, piano, guitarra, baixo e bateria dizem o que têm a dizer, antes que toda uma orquestra por ali irrompa a abrir caminho a um pequeno solo de violoncelo. É Diana Krall em grande, num disco que marca o regresso aos standards e ao jazz. Um disco que apela à intimidade, à volta de temas que cantam o amor feliz. As canções sucedem-se em trio, quarteto e orquestra, sempre com espaço para o improviso, com destaque especial para a guitarra de Russel Malone. “No Moon at All” e “L-O-V-E” são os temas em que o jazz mais se expõe, especialmente na segunda, em que Krall mostra que é tão boa no piano como na voz. Um 13.º disco que revela a artista num ponto particularmente alto, em que casa na perfeição o rigor da interpretação com um à-vontade notável na encenação das canções.
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A tradição é para reinventar - Cool Jazz 2013
Se há coisa de que estes quatro não podem ser acusados é de terem parado no tempo. Manuel Morgado apresenta os nomes que encerram o EDP Cool Jazz
Diana Krall conquistou já um daqueles lugares a partir dos quais todos os outros se definem. Uma artista de referência, portanto. Há quem a imite, quem apenas se deixe influenciar, quem procure diferenciar-se. Ninguém, no mundo do jazz pop, lhe fica indiferente. Foi logo assim quando, em 1993, começou por irritar os puristas do jazz, simplesmente porque era branca, gira e cantava bem. Ainda faz tudo isso, até melhor, levando agora mais longe o luxo de fazer o que bem lhe apetece. O último disco, Glad Rag Doll (2012) é uma colecção de temas dos anos 20 e 30, produzidos pelo mago do R&B e soul T-Bone Burnett. Guitarras, em vez de cordas, piano rock'&'roll, em vez de piano jazz. Outros standards.
Rufus [Wainwright] em palco é sempre uma experiência surpreendente. Tanto mais quanto, desta vez, volta a solo, ao piano, o que certamente beneficiará sobremaneira aqueles diálogos com o público que marcam os seus concertos. O último disco (Out Of The Game, 2012) não é propriamente dos mais entusiasmantes da sua carreira, revelando mesmo algum cansaço, especialmente na composição, que nem a produção omnipresente de Mark Ronson consegue esconder. Os últimos anos foram, de resto, entregues a algum experimentalismo, como se Rufus quisesse demonstrar que é ainda algo mais do que um dos mais talentosos e seguros da sua geração. Revisitar uma tal carreira em registo intimista é coisa para resultar mais que bem.
Que Jamie [Cullum] virá desta vez? O Jamie dos clássicos em registo clássico, muito piano, cordas e voz serena? Ou o Jamie do último disco, todo ele irrequieto, a piscar o olho à electrónica, até às pistas de dança? Momentum (2013) é, de facto, uma obra de ruptura, como se o ídolo dos adolescentes tivesse chegado à conclusão de que as canções com que se tornou conhecido estavam a ficar demasiado limitadas. Ao vivo, é natural que acabe por vencer a versão tradicional, de mais fácil execução, e - talvez - a que dá mais garantias de agradar à audiência. De qualquer forma, Jamie, apesar das aparências, é já um intérprete com créditos firmados e, logo, com legitimidade para mandar dançar a seu bel prazer.
Herdeiro da tradição soul com empenhamento político, John Legend tem vindo a registar sucessos assinaláveis, depois de, em 2004, ter gravado o primeiro disco à sombra da constelação Kanye West. Pratica uma música eléctrica e electrizante, talvez apelo explícito à dança em noites de Verão. Essa característica é especialmente audível no último disco, Wake Up (2010), com os Roots, um exercício que deve quase tudo ao funk. O disco é, de resto, o mais politizado de toda a carreira, na qual são privilegiadas as canções de soul clássico, servidas por uma voz possante e arranjos dignos dos grandes dessa corrente musical. Estreia de palco em Portugal e uma boa oportunidade para ouvir um músico pouco rodado por cá.
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