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Gregory Porter - One Night Only ****

Nat King Cole, de quem se comemora o centenário, foi novamente o ponto de partida para mais este registo de Gregory Porter. Na verdade, esta gravação ao vivo (CD e DVD), realizada no ano passado em Londres, retoma grande parte do disco de homenagem à sua maior influência (Nat King Cole and Me, 2017), recorrendo, inclusive aos mesmos músicos (quarteto e grande orquestra) e aos arranjos de Vincent Mendoza. E é esse o especial interesse do disco. Mendoza volta a criar as atmosferas, ora íntimas (“For All We Know”) ora quase cinematográficas (“Miss Otis Regrets”, tão típicas de Hollywood dos anos 1950 e 60, mas agora aplicadas, não apenas aos sucessos de Cole, mas também aos originais de Porter. Um dos exemplos maiores desse movimento é “When Love Was King”, que ganha aqui uma nova grandiosidade, toda ela feita de subtileza. Neste registo mais quente e aveludado, Porter volta a demonstrar porque é uma das vozes incontornáveis da actualidade.

Gregory Porter, Coliseu 9 de Junho


A graça de Gregory Porter está no sucesso sem concessões. Irrompeu na cena musical há cinco anos, portador de uma voz de respeito e de um estilo todo ele ancorado nas origens, e alcançou um muito razoável sucesso comercial sem abdicar dessa marca inicial, sem entrar pelas vias do delicodoce, tão comuns a parceiros desta área, ou outros truques apontados às tabelas de vendas. Quando o ouvimos, ainda ouvimos as canções de trabalho dos escravos, o gospel das igrejas americanas, o blues dos campos de algodão e das cidades do álcool, ou a soul e o R&B dos anos 50 e 60, tudo isso estruturado em torno de um jazz clássico e sofisticado. O mérito vai para a voz, claro, um barítono com grande elasticidade, também para os músicos que o acompanham – nota relevante para o saxofonista Yosuke Sato -, mas acima de tudo para as canções. A par das obrigatórias versões, Porter tem vindo a gravar alguns temas que poderão, eles próprios, vir a integrar o repertório dos grandes standards, de que “Painted on Canvas”, com que tem aberto os concertos desta digressão, será um dos melhores exemplos. Porter e a banda têm um apurado sentido do espectáculo, mas isso o público português já sabe, tal tido sido a rotação por estas bandas.