Mostrar mensagens com a etiqueta Tiago Bettencourt. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Tiago Bettencourt. Mostrar todas as mensagens

Tiago Bettencourt - A Procura ****

O lado B – este CD tem dois lados, uma maneira de arrumar as canções – é mais denso, com as canções a deixarem-se envolver em sonoridades vastas, à proporção dos instrumentos. É aqui que podemos ouvir “Fogo no Jardim”, um canto de intervenção dos dias de hoje, atravessado por sons da filosofia de Agostinho da Silva e pelas declarações belicistas dos presidentes americanos. Mas é no lado A, mais intimista, que estão as canções que vale a pena memorizar. Canções intimistas, porque procuram, como diz o título do disco, mas também pela frugalidade instrumental. Basicamente, este é um disco fascinado pela eletrónica, sejam as caixas de ritmo, ou os omnipresentes sintetizadores. Um intimismo pop, por paradoxal que tal possa parecer. Há aqui pop da boa, da que vende (há lá pop que não venda...), bem escrita, bem produzida. Pelo menos os três primeiros temas do disco são, por isso mesmo, autênticos hits instantâneos.

Tiago Bettencourt - Tiago na Toca dos Poetas ***

A música é a grande libertadora da poesia e, por isso, nada melhor que uma grande canção para retirar dos livros e gavetas um grande poema. Quem diria que, em 1971, em plena censura, se cantarolava nas ruas de Lisboa um poema de sexualidade quase explícita, a que não faltam referências homossexuais? Sim, “Cavalo À Solta”, de Ary dos Santos, que Fernando Tordo levou ao Festival da Canção e que agora reinterpreta neste disco com Tiago Bettencourt. E esta versão de “Cavalo À Solta” dá o tom ao disco – gravação caseira, intencionalmente artesanal. Mas, acima de tudo, o registo: a canção do Festival, um grito libertador, é aqui submetida a um trabalho de inversão, obrigada a serenar, num quase anti-clímax. Neste projeto, mais do que libertar poemas, através de canções que os tragam para a rua, Tiago Bettencourt prefere oferecer-lhes música que lhes faça companhia na intimidade. Exemplo disso são os dois poemas de Sofia, em que a melodia cede lugar ao acompanhamento instrumental para pouco mais que declamações. Ou o poema de Ramos Rosa, simplesmente sussurrado por Dalila Carmo. Já “Poema de Desamor” (de O’Neill), ou o de Pessoa são objecto de uma intervenção mais explicitamente musical. Não é, então, um disco para trazer a poesia à rua, antes para momentos de intimidade. Os temas foram gravados em casa e outros locais inusitados, em 2008, e estão agora a ser apresentados numa pequena digressão. O disco vem dentro de um livro com os poemas e notas do autor. Um belo objecto.