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Aldina Duarte - Roubados ****

E se a melhor versão de uma canção, vá lá, de um fado, fosse uma versão que se afasta do original, como se de algo sagrado se tratasse, e fosse por aí fora à procura de uma nova voz própria? O que Aldina Duarte faz neste disco é precisamente esse trabalho de criar novos fados sobre 12 fados que considera, de alguma forma, estruturantes da sua forma de estar no fado. São temas que conhecemos nas vozes de Tony de Matos, Beatriz da Conceição, Maria da Fé, Carlos do Carmo ou Amália, uns mais famosos, outros menos conhecidos, escritos quase sempre a pensar nesses fadistas, que Aldina Duarte reinterpreta, desconstruindo frequentemente o fraseado original, na busca de um sentido que seja seu. Os dois últimos temas do disco levam esse trabalho ao extremo, seja na versão quase rezada de “Padre Nosso”, seja no dueto improvisado com António Zambujo que transfigura “Rosa Enjeitada”. Foram necessários 25 anos de fados, comemorados com este disco, para que Aldina Duarte sentisse total confiança para roubar estes fados. A espera valeu a pena.

Aldina Duarte - CCB, 6 de abril


O concerto do final do verão passado, no Largo de São Carlos, perdurará certamente na memória, pela comunhão da cidade com a sua canção, pela festa de verão que o fado também sabe ser. Mas é no CCB que o fado se dá especialmente bem, porque, apesar da desproporção espacial face às tradicionais casas e tascas, consegue um equilíbrio justo entre a intimidade e a ambição dos grandes palcos. Faz jus ao fado, no som e no recolhimento. Aldina Duarte regressa, pois, a essa outra casa de fado e novamente com histórias de amor, depois de ali ter apresentado, em espectáculo único, o ambicioso “Romance(s)”, com poemas de Maria do Rosário Pedreira. O regresso é com outra história de amor, agora em nome próprio e final trágico. E com uma outra escritora como musa inspiradora, Maria Gabriela Llansol, autora do primeiro livro que lhe ofereceu um amor que acabou sem aviso. O luto desse amor foi feito com os livros de Llansol, junto a uma árvore do Jardim da Estrela, dele tendo nascido dez poemas que, bordados com outros tantos fados tradicionais, deram origem a um dos discos mais aplaudidos de 2017. São fados que, ao invés de lamuriarem o brutal acidente da despedida, eternizam os momentos felizes, a que se juntam outro com letra de Maria do Rosário Pedreira e ainda um fado-canção de Manel Cruz (Ornatos Violeta). No CCB, a fadista faz-se acompanhar de Paulo Parreira (guitarra) e Rogério Ferreira (viola), com quem canta há 12 anos no Senhor Vinho e que com ela gravaram, em três sessões, o disco “Quando Se Ama Loucamente”. Pedro Gonçalves (Dead Combo), que produziu o CD, será outro dos convidados.