“All Of Me”, o megassucesso de 2013, poderá dar origem a alguns equívocos. John Legend é um poderoso cantor de baladas, daquelas que se cantam sonoramente. Algo muito semelhantes a uma Adele de voz (ainda) mais grave. Em abono dessa tese, há no disco mais recente (“Darkness and Light”, de 2016) uma canção (“Love Me Now”), que mais não é que uma tentativa de aproveitar a embalagem comercial desse sucesso que atirou Legend para a fama. Há até a coisa matreira de incluir umas linhas de piano em tudo idênticas... Mas “Darkness and Light”, a começar pelo título, é um disco bem mais complexo que essa abordagem melosa, revelando um artista que não se deixa engaiolar nessa aproximação simplista. É um disco verdadeiramente, de sombras e luz, de amor em tempos de guerra, se quisermos. A canção para a filha (“Right By You”), com ternura tintada de angústia por um futuro tão incerto neste planeta, ou a história de uma mera operação stop na estrada (“How Can I Blame You”), metáfora para a violência policial com motivações racistas. Complexidade que se revela também nas texturas musicais, como no groove de “Penthouse Floor”, a milhas da rotina das baladas bem comportadas. Longe vão os tempos em que Legend era um protegido de Kanye West, conforme atestam os muitos Grammys e mesmo o Oscar entretanto amealhados. Face a alguma futilidade reinante, apresenta-se, portanto, um artista adulto, em toda acepção da palavra.
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A tradição é para reinventar - Cool Jazz 2013
Se há coisa de que estes quatro não podem ser acusados é de terem parado no tempo. Manuel Morgado apresenta os nomes que encerram o EDP Cool Jazz
Diana Krall conquistou já um daqueles lugares a partir dos quais todos os outros se definem. Uma artista de referência, portanto. Há quem a imite, quem apenas se deixe influenciar, quem procure diferenciar-se. Ninguém, no mundo do jazz pop, lhe fica indiferente. Foi logo assim quando, em 1993, começou por irritar os puristas do jazz, simplesmente porque era branca, gira e cantava bem. Ainda faz tudo isso, até melhor, levando agora mais longe o luxo de fazer o que bem lhe apetece. O último disco, Glad Rag Doll (2012) é uma colecção de temas dos anos 20 e 30, produzidos pelo mago do R&B e soul T-Bone Burnett. Guitarras, em vez de cordas, piano rock'&'roll, em vez de piano jazz. Outros standards.
Rufus [Wainwright] em palco é sempre uma experiência surpreendente. Tanto mais quanto, desta vez, volta a solo, ao piano, o que certamente beneficiará sobremaneira aqueles diálogos com o público que marcam os seus concertos. O último disco (Out Of The Game, 2012) não é propriamente dos mais entusiasmantes da sua carreira, revelando mesmo algum cansaço, especialmente na composição, que nem a produção omnipresente de Mark Ronson consegue esconder. Os últimos anos foram, de resto, entregues a algum experimentalismo, como se Rufus quisesse demonstrar que é ainda algo mais do que um dos mais talentosos e seguros da sua geração. Revisitar uma tal carreira em registo intimista é coisa para resultar mais que bem.
Que Jamie [Cullum] virá desta vez? O Jamie dos clássicos em registo clássico, muito piano, cordas e voz serena? Ou o Jamie do último disco, todo ele irrequieto, a piscar o olho à electrónica, até às pistas de dança? Momentum (2013) é, de facto, uma obra de ruptura, como se o ídolo dos adolescentes tivesse chegado à conclusão de que as canções com que se tornou conhecido estavam a ficar demasiado limitadas. Ao vivo, é natural que acabe por vencer a versão tradicional, de mais fácil execução, e - talvez - a que dá mais garantias de agradar à audiência. De qualquer forma, Jamie, apesar das aparências, é já um intérprete com créditos firmados e, logo, com legitimidade para mandar dançar a seu bel prazer.
Herdeiro da tradição soul com empenhamento político, John Legend tem vindo a registar sucessos assinaláveis, depois de, em 2004, ter gravado o primeiro disco à sombra da constelação Kanye West. Pratica uma música eléctrica e electrizante, talvez apelo explícito à dança em noites de Verão. Essa característica é especialmente audível no último disco, Wake Up (2010), com os Roots, um exercício que deve quase tudo ao funk. O disco é, de resto, o mais politizado de toda a carreira, na qual são privilegiadas as canções de soul clássico, servidas por uma voz possante e arranjos dignos dos grandes dessa corrente musical. Estreia de palco em Portugal e uma boa oportunidade para ouvir um músico pouco rodado por cá.
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