Este é o primeiro disco de originais de Dylan após o Nobel da Literatura de 2016. O bardo brinda a plateia com um disco que cita Shakespeare, uma e outra vez, coloca Anne Frank e Indiana Jones no mesmo verso e fornece à plebe mais uma mão cheia (qual mão? Uma praça delas...) daquelas frases prontas a citar, sempre a propósito porque francamente polissémicas. A morte, e isso nem é propriamente novidade na discografia mais recente, é uma constante ao longo do disco, seja na muito bem humorada “My Own Version of You”, uma espécie de Frankenstein musical, na épica “Murder Most Foul”, sobre a morte de JFK, ou melhor, sobre como a América se redime pela música, ou na belíssima “Key West”, a lenta peregrinação para a penúltima morada. Como quase sempre, Dylan é profundamente e exclusivamente americano. Mesmo quando o universo o endeusa, como sempre fez, ele recua às raízes americanas e é aí que ancora a sua voz. Uma vez mais, neste ano de peste, tudo gira em torno de uma mitologia americana, até quando se apropria da antiguidade clássica. O mesmo na vertente musical. Os blues, nas versões mais puxadas (“Goodbye Jimmy Reed”) ou nas mais calmas, ou o próprio cancioneiro americano, em que mergulhou nos últimos anos, definem um ambiente musical, que muito vezes é apenas isso, ambiente, como o dedilhar de uma guitarra sobre o qual Dylan estende a sua cada vez mais serena voz (“Black Rider”). Indiferente ao ar do tempo – não há aqui referência a qualquer traço de actualidade – Dylan afirma-se como poeta maior da condição humana contemporânea. Os da Academia sueca às vezes acertam.
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Bob Dylan - Triplicate *****
Os títulos destas 30 canções estão impressos em cada um dos três discos que compõem a colecção. E ainda mais duas vezes: num sucinto desdobrável e no interior da capa. Em nenhum desses locais Dylan arranjou espaço para identificar os seus autores. E, no entanto, estamos perante canções de monstros sagrados do cancioneiro americano: Irving Berlin, Jerome Kern, Hoagy Carmichael, Richard Rodgers, Oscar Hammerstein... É certo que algumas serão tão conhecidas que nem precisam de apresentação – boa desculpa... – mas outras não passam de obscuras baladas.
Conforme escreve Tom Piazza, no tal desdobrável – e já tínhamos percebido pelos dois discos anteriores de Dylan no mesmo registo (“Shadows in the Night”, de 2015, e “Fallen Angels”, de 2016) -, estamos perante um exercício de apropriação radical das canções. Dylan não pretende cantá-las melhor que ninguém, nem sequer descobrir e mostrar um ângulo novo sobre cada uma delas, mas apenas interpretá-las como se fosse possível nesse gesto revelar-lhes uma qualquer essência. Essa apropriação, pelos vistos, inclui a anulação de qualquer traço de autoria, algo que o próprio músico abomina, logo ele que tão cioso é dos seus direitos de autor... Enfim, mais uma das idiossincrasias do velho Bob.
E, já agora, o crime compensa, ou seja, essa apropriação resulta? Estranhamente, sim. Estranhamente porque, à terceira ronda, a ideia de Dylan a imitar Sinatra (sim, é novamente o repertório da Voz que está na baila...) permanece uma contradição nos seus próprios termos. E compensa porque ouvir, por exemplo, “September of my Years” ou “These Foolish Things” nesta voz, com um quinteto em que apenas sobressai a guitarra, é uma experiência quase mística. Perto, talvez, do propósito disto tudo.
Bob Dylan - Fallen Angels ****
Há o carteiro que toca sempre duas vezes. E há Dylan, que toca sempre duas ou três vezes. Ao longo de cinco décadas de carreira, não há disco de Dylan que sofra de solidão. No início, no auge da década de 60, na fase católica, no renascimento dos anos 2000, o que Dylan queria dizer ou demonstrar prolongou-se sempre por dois ou três discos. Volta a ser assim, com esta fase dos grandes standards da música americana centrados em Sinatra. Por isso, em 2016, temos o segundo capítulo da saga iniciada com "Shadows in the Night" (2015). A grande diferença está no tom: à melancolia e ao coração partido de "Shadows", sucede a exuberância dos amores e paixões. A voz de Dylan adapta-se quanto baste, embora a sua debilidade característica funcione melhor no tom menor do primeiro disco. A grande melhoria está nas orquestrações, brilhantes em alguns casos ("Maybe You'll Be There", ou "Melancholy Mood"), mas sempre muito interessantes. A dúvida: haverá terceiro disco, ou irá Dylan reinventar-se novamente?
Bob Dylan - The Best Of The Cutting Edge *****
As primeiras teses universitárias sobre Dylan versavam a sua
poesia. E ainda há muito boa gente para quem o seu nome ecoa, especialmente,
uma espécie de líder geracional, coisa que nunca foi, porque não quis. Ambas as
apreciações são relativamente insuficientes para o definir, não apenas porque
ficam aquém da sua complexidade enquanto artista, mas simplesmente porque o
ignoram enquanto músico. Se há coisa que a Bootleg Series, iniciada em 1992,
veio clarificar é precisamente o carácter vanguardista da sua expressão musical,
ao revelar o processo criativo de cada fase da sua carreira. Esse aspecto é particularmente
audível na avassaladora edição das Basement
Tapes (2014) e, agora, nesta ainda mais espantosa The Cutting Edge, que recolhe os ensaios de estúdio e as várias
versões preliminares dos seus três discos fundamentais: Bringing It All Back Home, Highway
61 Revisited e Blonde on Blonde,
gravados ao longo de 14 meses (1965/66). O projecto é um tanto megalómano: uma
versão de 18 discos, com todas as gravações realizadas; uma de seis discos, em
que um deles contém 20 (!) versões de "Like A Rolling Stone"; e esta, que sintetiza esse período em
36 temas. Há de tudo um pouco: começos em falso, versões de demonstração só com
piano, ensaios e versões verdadeiramente alternativas. Sim, muita das versões
que aqui estão mostram-nos quase outras canções, seja porque o ritmo é
diferente do que conhecemos, seja porque a letra não é exactamente a mesma,
seja principalmente porque Dylan e os músicos ensaiavam, de facto, versões muito
diversas das que conhecemos. Às vezes chegavam mesmo a abandonar alguma canção,
como inexplicavelmente acontece com "She's Your Lover Now", apenas
porque não atinavam com a versão correcta. Um flashback muito esclarecedor
sobre o período mais criativo de um maiores criadores musicais do nosso tempo.
Bob Dylan - Shadows In The Night ****
Na única entrevista que deu a propósito deste disco, Dylan afirma que o seu propósito era manifestar respeito por canções que, ao longo dos anos, foram sendo desrespeitadas. Dito de outra forma, não tinha pretendido fazer "covers" (expressão inglesa utilizada para "versões", mas que também significa "cobrir", ou "tapar"), mas sim um trabalho de "uncover" (descobrir), ou seja, regressar à essência das canções. E é disso que se trata, num exercício que não pode deixar de lembrar as "Basement Tapes" (de 1967, mas reeditadas em pleno em 2014), em que o mesmo exercício foi realizado sobre temas folk. Agora, o repertório assenta em standards de duas fases da carreira de Frank Sinatra: o início, nos anos 40, e a década deslumbrante, mas profundamente melancólica, do "regresso" nos anos 50. Estamos, pois, perante um corpo de canções que versam as vicissitudes do amor e que deixa de fora o lado mais luxuriante e conhecido da Voz. E é, de facto, com respeito, mesmo com solenidade, que Dylan ataca estes dez temas. Na voz pausada, obviamente nada a ver com Sinatra, mas também nada a ver com o Dylan mais entaramelado de outras épocas, em que cada sílaba é audível e fica frequentemente suspensa, confundindo-se com os discretos traços de metais (trompete e trompa) ou do choro da pedal steel guitar. Aqui não há pequenas ou grandes orquestras, nem sequer piano, e a bateria é usada com extrema discrição. Toda a carga emotiva é colocada na letra das canções, de certa forma reafirmando a importância que a palavra sempre teve em toda a sua obra. Mas, reconheçamos, apesar de Dylan dizer o contrário, estas são canções que já foram muito bem interpretadas, restando agora saber se este exercício principalmente simbólico será compreendido pelo comum dos mortais.
Bob Dylan & The Band - Tte Bootleg Series, Vol. 11 - The Basement Tapes *****
Em 1967, Dylan tinha gravado sete discos, pelo menos quatro dos quais absolutamente históricos, tinha dado duas enormes pedradas no charco (a estreia e a electrificação) e, last but not the least, tinha recusado liminarmente ser o líder da geração que o tinha por líder. E foi aí que caiu da mota... O famoso acidente, ainda hoje envolto em mistério, afastou-o dos estúdios e dos palcos. Nesse Verão de 67, numa casa de campo, juntou os músicos que viriam a chamar-se The Band para semanas de gravação, em que, mais uma vez, voltou a fazer história. E, mais uma vez, à sua maneira: as gravações, artesanais, não foram publicadas. Apenas em 1975, após várias edições pirata, viram a luz oficial do dia, numa versão muito adulterada, a que nem faltam regravações posteriores e temas da Band que nem sequer faziam parte do acervo inicial. A verdade histórica só agora é reposta, meio século depois... Há duas edições: uma, de seis discos (138 temas), que reproduz cronologicamente todas as sessões; e outra, de dois CD (38 temas), com o essencial do que se passou em 67. Há de tudo um pouco: versões restauradas (sem os embelezamentos de 75), gravações alternativas e até alguns coisas completamente inéditas. Interessa é que, pela primeira vez, se percebe em profundidade o que se passou naquele Verão e se tornou audível no discografia imediatamente posterior. Dylan reinventava, mais uma vez, não apenas a sua música, mas também a de toda uma geração e das que se lhe seguiram. Beatles, Stones e a grande maioria abandonaram o psicadelismo e outras aventuras sónicas e, a partir de 67/68, regressaram à pureza e simplicidade das raízes. A chamada 'americana' e o 'alt-country', como ainda hoje se pratica, nasceram nessa revolução secreta de 67. Dylan ainda haveria de fazer outras.
Bob Dylan - Tempest ****
Dylan é a medida de Dylan e isso pode ser um problema. Falamos do homem que, há cinco décadas, estabeleceu cânones, não apenas na música, mas na cultura tal como a entendemos no sentido mais lato. O problema é que esse Dylan, sendo a medida de todas as coisas, não é repetível, ou sequer comparável, e não é suposto que do mesmo Dylan surjam novos cânones. Por isso, chega a ser desonesto o que muita imprensa anglo-saxónica tem feito por estes dias – sobrevalorizar Tempest e estabelecer comparações, por vezes canção a canção, com as obras-primas (não há que ter medo das palavras) dos anos sessenta. O Dylan de Tempest é o Dylan que muito cedo percebeu a armadilha de ser um mito vivo, recusou o altar, tropeçou uma e outra vez, naufragou em discos menores, para se reerguer encarnado de novo em trovador de amores urbanos, paisagens interiores devastadas e um certo desencanto com o mundo. Há uma década que assim é. O ciclo que musicalmente se poderá catalogar como de pré-rock, construído com sonoridades austeras de blues, rockabilly, country. O início de Tempest faz lembrar um velho programa de rádio em Onda Média e é assim que somos desafiados para uma viagem que nos levará a territórios maioritariamente obscuros. A tragédia do Titanic reinventada, ao ponto de colocar na acção original o Leonardo DiCaprio da versão cinematográfica. O amigo Lennon, mais que o músico, evocado através das suas próprias palavras. Uma “Pay in Blood” com riffs de guitarra roubados aos Stones. Uma “Narrow Way” encharcada de blues do Mississipi. Uma “Scarlet Town” feita valsa triste, desconjuntada. O violino, ou o acordeão, a acentuarem a toada melancólica. E depois os poemas, jogos de enganos, em que cada um ouve o que quer, nem sempre ouvindo o que ouvira antes. Mas em que nada se aproxima do sublime. Caso para dizer que Dylan está em forma. Sim, mas.
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