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Elvis Costello - Hey Clockface ****

Imagine-se uma audição. Então, e que sabe fazer? Elvis Costello sabe fazer tudo, e faz tudo muito bem feito. Das baladas à música eletrónica, do jazz à new wave, sim ainda à new wave... Não é de agora. Logo após aquela mão cheia de discos de arrebenta, na viragem dos anos 1970 para os 80, foi-se afirmando como um dos mais polifacetados e inventivos da sua geração. De certa forma, um músico do mundo, ancorado na mais cosmopolita pop. Este disco foi gravado em Helsínquia (temas mais rock ou eletrónicos, como “Flag” ou o quase experimental “Hetty O’Hara Confidential”), em sessões nas quais Costello tocou todos os instrumentos, e em Paris, com um naipe de músicos de jazz. Pelo meio, ainda há colaborações à distância (Nova Iorque), por exemplo, do guitarrista Bill Frisell. Os temas mais jazzísticos são simplesmente soberbos, em especial “I Do (Zula’s Song)”, há baladas de grande estilo “The Whirlwind”, ou “The Last Confession of Vivian Whip”. E ainda há espaço para a pura improvisação, na abertura (“Revolution #49”) e para a poesia, em “Radio is Everything”. Um disco complexo, que convida a ouvir repetidamente ao encontro de sempre novas sonoridades.

Elvis Costello and The Roots - Wise Up Ghost ***

Aos mais antigos, este disco soará a Frank Zappa. O que abona muitíssimo a favor de Zappa, especialmente se tivermos em conta que os seus autores não explicitaram qualquer intenção comemorativa. Zappa pela paisagem musical aparentada do hip-hop, mas francamente mais experimental e rica. Zappa ainda pelo estilo vocal que Costello amiúde exala, entre o anasalado e o balbuciante. Mas Zappa não mora aqui. E o que há a dizer sobre este disco é relativamente simples: a ideia original (a regravação de velhos temas de Costello) era interessante, pela nova luz que a banda de Questlove poderia trazer a essas canções, já a concretização, suportada em temas originais, acaba por ser relativamente decepcionante. Há mesmo momentos sensivelmente aborrecidos, por exemplo quando as canções empastelam e parecem cair num interminável loop, o que poderá resultar nas coloridas actuações ao vivo dos Roots (a banda residente do programa de Jimmy Fallon), mas que em disco apenas tem o condão de esticar a quase totalidade dos temas para os cinco minutos. Essa circularidade obsessiva das canções, assim como a batida metálica e também ela obsessiva, são, reconheça-se, o campo perfeito para o tom sombrio, pessimista, corrosivo do que Costello canta. Uma América, um mundo, se quisermos, triste, sem esperança, enredado nas armadilhas de que fala "Tripwire", uma das suas melhores canções de sempre, curiosamente uma valsa clássica que os Roots abdicam de contaminar. Enfim, apenas mais uma colaboração para a já razoável colecção de Costello. E sublinhe-se a palavra "apenas".

Elvis Costello & The Imposters - The Return Of The Spectacular Spinning Songbook!!! ****

Este disco é obra do puro acaso. Literalmente. O seu conteúdo e alinhamento resultam do modo como uma roda da sorte rodou nas noites de 11 e 12 de Maio de 2011, no teatro Wiltern, em Los Angeles. Elvis Costello, aliás Napoleon Dynamite, como prefere ser chamado durante o espectáculo, apresenta-se em palco com os Imposters, uma bailarina, uma hospedeira e uma roda da sorte gigante, que, accionada por membros da assistência, determina as canções que a banda executa. O resultado é um best of completamente aleatório, que deixa de fora canções como “Oliver’s Army”, ou “Accidents Will Happen”, duas das mais emblemáticas do início da carreira de Declan MacManus, ou Elvis Costello, como também gosta de ser conhecido. E tais ausências só são relevantes porque esta actuação remete precisamente para o espírito pós-punk dos primeiros discos. Aliás, os Imposters (teclas, baixo e guitarra) mais não são que os iniciais Attractions com outro baixista. E o tom é também o desses dias explosivos - música sem grandes artifícios, directa, puro divertimento. A versão bem esgalhada de “I Hope You’re Happy Now”, que abre o disco, é disso o exemplo perfeito. Ou a leitura levemente psicadélica de “Watching The Detectives”. Os caprichos da roda da sorte determinam que tais momentos de pura alegria sejam intercalados por outros mais intimistas (“I Want You”), ou até por versões, por exemplo, dos Stones (“Out Of Time”). A edição que agora aqui chega (há outra, luxuosa, recheada de souvenirs, a 250 dólares a unidade...) tem um registo em CD e outro em DVD, com alinhamentos e canções diferentes. O DVD acaba por ser mais interessante, na medida em que nos permite entrar no verdadeiro espírito de festa e encantamento da roda da sorte. Tudo somado, três horas em grande estilo.