Para quê cantar naufrágios, se não para afirmarmos a nossa condição de sobreviventes? Lucinda Williams é, desse ponto de vista, uma sobrevivente persistente. De naufrágios de alma, principalmente. Fá-lo há quatro décadas, com uma voz em que, por vezes, a dor se confunde com sensualidade; uma intensidade poética muito pouco comum; e um cruzamento de country e blues que, bastas vezes, evoca Springsteen (de quem, aliás, interpreta aqui "Factory"). A atestar a fase particularmente criativa em que se encontra, o facto de este ser o seu segundo duplo em dois anos e de estarmos perante algumas das suas melhores canções. Temas como a morte ("Death Came" e "Doors of Heaven"), ou as memórias que queremos esquecer ("Bitter Memory" ou "Close the Door on Love"), atravessam todo o disco, que, apesar disso - a tal sobrevivência... -, não resulta tão negro como se esperaria. Registo ainda para o fabuloso trabalho de guitarras (Bill Frisell e Greg Leisz), em diálogo omnipresente com a voz.
Mostrar mensagens com a etiqueta Lucinda Williams. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Lucinda Williams. Mostrar todas as mensagens
Lucinda Williams - Blessed ****
Canções de entrega e abandono, de preferência em registo de
balada. Com voz quase balbuciada, lânguida, ora sofrida, ora insinuante. E há
uns anos que Lucinda não ia tão fundo, na entrega absoluta, ou da dor da ausência.
Neste disco, há dois amigos que partem, talvez para a órbita da terra, talvez a
caminho do sol, como ela canta em “Copenhagen”, ou em “Seeing Black”, dedicada
a Vic Chestnutt e com Elvis Costello na guitarra. E há o outro lado da vida, o
amor incondicional (“Born To Be Loved”), encantatório (“Kiss Like Your Kiss”),
e incondicional outra vez (“I Don’t Know How You’re Livin’”). Talvez devido à
produção, extremamente cuidada, mas seguramente também graças à composição,
este é um dos melhores discos de Lucinda Williams e marca um certo regresso às
origens, do blues e do country sofisticados, onde nunca falta pelo menos uma
guitarra, de preferência eléctrica e agreste.
Labels:
Discos,
Lucinda Williams
Subscrever:
Mensagens (Atom)

