Não há qualquer surpresa, ou sequer confirmação. Década e meia de estrada, seis discos no activo, Mazgani tem já créditos firmados e um nome que identifica um estilo. Mas este disco é, apesar disso, um passo em frente. Ao assumir um registo muito mais calmo, lento, que em registos anteriores, e ao afastar-se do blues seminal talvez como nunca outrora, Mazgani burila e fixa de forma mais evidente uma maneria muito peculiar de estar na música. Os temas andam – como poderia ser de outra forma? – em torna do amor, da busca, da errância. A música, com mais espaço para respirar, serve na perfeição esse desígnio contemplativo. Canções como “Into Silence” aproximam-se do pop elegante, sem as arestas do blues, para logo de seguida “The Sweetest Song” ser a excepção que nos traze o canto gritado de discos passados. Os mais puristas hesitarão perante este som mais manso, que nada parece ter, porém, de derrota ou inflexão.
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Mazgani - The Poet’s Death ****
Se a música tivesse tradução visual, a de Mazgani neste disco seria algo como pequenas luzes, traços, outras e maiores luzes, cores tracejadas, interrogações no escuro. No azul escuro da noite, tal como na capa de Michelle Henning, designer de eleição PJ Harvey, que assim se cruza mais uma vez com a voz deste iraniano de Lisboa. Este é um regresso às canções em nome próprio, depois da bem-sucedida aventura das versões de “Lifeboat” (2015). Um regresso ao blues seminal, sem grandes artifícios, só ritmos e guitarras vincadas, ora lancinantes ora de embalar. Uma tensão sonora com tempo para se espraiar. Dez temas em busca da alma (“The Traveler”), com mais perguntas que respostas (“Saint of All Names”), talvez com um pouco mais de espiritualidade do que antes (“Breath of Gold”). E depois, a fechar, “The Faintest Light”, delicadíssima balada, cordas em crescendo, abrindo caminhos de luz na noite escura e azul.
Mazgani - Lifeboat ****
O que ouvimos quando ouvimos uma canção? Ouvimos a canção, certamente, a sua essência, mas ouvimos também a sua circunstância: a voz, os instrumentos, o modo como tudo se conjuga, o ar do tempo que a ela se agarra. E ouvimos também, nas canções, a nossa voz interior, o modo de ouvir que faz com que uma canção possa ser uma e tantas coisas, conforme quem a ouve. Este quarto disco de Mazgani é uma excelente proposta para o jogo de ouvir canções. Pegue-se no disco e ouça-se a canção número 3, sem tratar de saber previamente o que se vai ouvir. É possível que, passados os primeiros 70 segundos, o verso "these arms of mine" diga alguma coisa a algumas pessoas, mas também é provável que outras tantas não cheguem a perceber que estão perante um dos maiores êxitos de Otis Redding. A soul vibrante é trocada por um blues, arrastado primeiro, angustiante no final, que desfigura totalmente o original. De certa forma, já não é mesma canção que ouvimos... Mas, no tema seguinte, "Love Me Tender", a voz de Mazgani, em registo quase improvisado, remete-nos claramente para Elvis. Mais à frente, o gospel de "Cannan Land" dá azo a algo completamente diferente (e muito bom), para logo de seguida um tema de Cohen ser simplesmente... Cohen. Ou seja, o tratamento a que as canções são sujeitas não obedece a qualquer outra ordem que não seja a voz/vozeirão de Mazgani e a base de blues que, de resto, é a marca de toda a sua obra. Esse trabalho de apropriação faz-se sobre um corpo relativamente disforme, que vai de PJ Harvey a Chavela Vargas, de Cole Porter aos Bee Gees, e que funcionará como homenagem às principais influências, mas também como manobra para incorporar estes "corpos estranhos" na narrativa em nome pessoal que este iraniano a viver em Portugal encontrou nas raízes da música anglo-saxónica.
Mazgani - Common Ground ****
Música telúrica e orgânica. Porque parece brotar
directamente das entranhas da terra, porque nela se torna impossível perceber
onde acaba o corpo e começa o som que ele emite. O terceiro disco de Mazgani,
EP à parte, apresenta-nos um artista maduro, finalmente envolto na sonoridade adequada
às canções densas e subtis que escreve. É um disco dominado pela voz, que
domina as canções. Ou, se quiserem, exactamente o contrário. E um disco de
guitarras, que estando sempre presentes, nunca se impõem à voz e às canções. Ouça-se,
por exemplo, ‘Common Ground’, a canção que encerra o disco. São cinco minutos
de voz ininterrupta, voz e respiração, no tal jogo orgânico de investimento
total do corpo. Atente-se na tensão daquela voz, daquele corpo, que se entrega
todo ao “fogo que incendeia os lençóis brancos da lua” e que percorre uma
espiral encantatória, a que uma guitarra quase distraidamente dedilhada e uma
tuba quase silenciosa se limitam a emprestar o terreno de progressão. São,
seguramente, dos mais belos cinco minutos dos últimos tempos. Ouça-se agora
“Blow Wind”, a face mais telúrica do disco. Uma cantilena encantatória, com o
trémulo das guitarras a soprar visualmente sobre um deserto quente e seco. A
dança do vento. E ouça-se, claro, “Dog at your Door”, apenas para que se
entenda a raiz de tudo isto: os blues duros e crus, as inconstâncias do
coração. E as baladas, líricas, comoventes: “Into the River”, ou “Hold me a
While”, com os metais a invadirem declaradamente a placidez das guitarras. Artesãos
por detrás de tudo isto? Mazgani, o iraniano de Setúbal e do mundo. John Parish
(PJ Harvey) e Mick Harvey (Nick Cave), na produção e instrumentos. Gravado em
Bristol, para ouvir em todo o lado.
Mazgani - Tell the People ****
Há nesta segunda gravação de Mazgani um acentuado retorno às raízes. Coisa estranha, sendo as raízes a música americana e Mazgani um luso-iraniano. Mas a verdade é que esta segunda gravação (depois da estreia em CD de longa duração, em 2007) põe muito mais a nu o gospel, os blues e seus derivados que são a marca distintiva de um dos mais interessantes músicos portugueses da nova geração.
O megafone da capa deste EP não está lá por acaso. A música de Mazgani tem uma intensidade rara. Uma espécie de prece, ora serena, ora exaltada. A lindíssima “Dust In The Sun”, por exemplo, concilia as duas. Unindo tudo, um misticismo, que por vezes bebe directamente na Bíblia, e que não se fica pelas palavras, mas molda a pose, a entoação. Um misticismo que se estende às guitarras de Pedro Gonçalves, ora através de teias encantatórias ora em descargas vibrantes.
Este EP, com distribuição limitada (Net e Fnac), antecede o segundo trabalho de grande fôlego, prometido ainda para 2009.
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