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Nicotine's Orchestra - 77 13 ****

"Luna Loca", o único inédito deste disco, confirma o caminho por trilhar. Nick Nicotine parece apostado em explorar o filão tropicalista que tão bons resultados lhe trouxe com o Gipsycalia, de 2012. Não deixa de ser sintomático que todos os temas incluídos nesta colectânea tenha sido regravados ou remisturados, à excepção dos que integraram a obra mais recente. Obviamente, essas revisitações às canções mais distantes prendem-se com, digamos, algumas questões técnicas. Mas também é verdade que Gipsycalia deixou para trás uma música mais rude, com o esqueleto blues mais exposto, a favor de uma versão mais elaborada, à vez mais festiva e, sem preconceitos, mais ligeira. E tropical. "Love and Science" (bela balada), de 2011, é talvez um bom exemplo da transição entre esses duas fases/faces. "Luna Loca" denota também uma certa domesticação, uma aproximação do mainstream, cuja confirmação fica a aguardar desenvolvimentos.

Nick Nicotine’s Mystical Orchestra - Gypsicalia ****

Uma banda de ciganos brasileiros que pratica música americana numa oficina abandonada no Barreiro. Está bem visto, mas não é totalmente verdade. Os ciganos estão apenas no título do disco e talvez no ambiente de festa descontrolada que toma conta das canções. Já brasileiros, há-os. Marcelo Camelo, na voz de “Tropic of Capricorn”, um tema que vai sendo corroído por dentro pelo tropicalismo, para acabar em qualquer coisa que mistura o samba e a morna. Brasileiro, ainda, Alex Kassin, que empresta a pedal steel guitar a um dos temas mais alucinantes do disco, “Sunny Day”, uma divertida e muito sentimental valsa surfista. Mas o disco é essencialmente Nick Nicotine, uma voz soberba, uma fabulosa imaginação e um jeito muito especial para encenar canções, sempre agarradas a uma base blues (espantosa, “Breathless”, uma espécie de Elvis meets Beach Boys meets Springsteen meets etc), mas que voam em delírios, por vezes psicadélicos (“Bodhi and Utah”), que aos mais antigos recordarão a atitude e a sonoridade de Frank Zappa. “Hit Me Like The First Time”, rock’n’roll bem esgalhado, ainda remete para um Nick que conhecíamos de discos anteriores, mas o resto é bem mais solar, produzido, divertido. A merecer cada vez mais atenção.

Nicotine’s Orchestra - Ghosts and Spirits ****

Há muito que o Barreiro deixou de ser a cidade pós-industrial deprimida e passou a integrar uma América imprecisa, talvez no Sul, numa época também ela indefinida. Nomes como Nick Nicotine, músico, produtor, editor e organizador de festivais, colocaram a cidade num roteiro do rock nacional que vive à margem da rádio e de outros circuitos de divulgação.
Este disco, o segundo da Nicotine’s Orchestra, é uma boa oportunidade para a rádio se redimir. Muitas das canções que por aqui se ouvem poderiam ter sido escritas na tal América e até figurar em antologias do rock rude, herdeiro da soul e do blues (“Rosario”), tipo George Thorogood (“Love At First Sniff”), topam? Ou, se preferirem, filhas do cruzamento das bandas sonoras de Tarantino (“Help Me”) e David Lynch (“Mighty River”), que o psicadelismo também lhes assenta muito bem.
Um disco, já perceberam, cruzamento de muitos e bons imaginários.