Norah Jones tem um problema sério – começou por cima. O êxito estrondoso de Come Fly With Me (2002) colocou-lhe uma fasquia difícil de ultrapassar. E a verdade é que tem lidado muito bem com isso, sendo a ironia do título deste disco (Começar de Novo) um bom o exemplo dessa descontração. Porque, assumidamente, este é um disco em que não tenta nada. Tentou manter a chama nos discos que se seguiram à estreia e depois tentou novos e interessantes caminhos quando trocou o jazz pela electrónica. Isto de agora é quase uma brincadeira, de que se sente à vontade para o fazer. Uma colecção de singles em colaboração, especialmente com Jeff Tweedy (Wilco) e Thomas Bartlett (St. Vincent), lançados ao longo de um ano e agora reunidos. O registo é o jazzístico (“Just a Little Bit”), com dois temas (“It Was You” e “Wintertime”) a ombrearem com os melhores que já gravou. Sim, é Norah regular, sem especial golpe de asa. Mas Norah regular é muito bom.
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Van Morrison - EDP Cool Jazz 28 julho 2018
O mítico e místico Morrison
Um dos nomes mais importantes do último meio século apresenta-se em Portugal, num momento particularmente fulgurante da sua carreira. Manuel Morgado antecipa a passagem de Van Morrison pelo EDP Cool Jazz
No último ano, em bom rigor, nos últimos nove meses, Van Morrison lançou três discos. Isto, em si, já diria muito sobre o fulgor actual de um músico com mais de cinco décadas de carreia, sete de vida e mais de meia centena de discos gravados. Mas a apreciação quantitativa – três discos em nove meses – diz pouco e poderia até ser depreciativa, quando se nos apresentam três gravações que, como de costume com Van Morrison, estão uns bons furos acima da mediania e são, eles próprios, reveladores do percurso e da marca que este irlandês do mundo deixa na música. Isto porque, desde logo, os três discos organizam-se em torno da matriz de que é composto o seu estilo interpretativo muito peculiar: “Roll With The Punches” vai às raízes blues da América, a que não falta uma mão-cheia de temas assinados pelo próprio; “Versatile” foca-se nos “standards” (Porter, Gershwin), não faltando, mais uma vez, uma boa quantidade de canções assinadas pelo cantor; finalmente, “You’re Driving Me Crazy” é um exercício jazzístico, beneficiando da colaboração com o organista e trompetista Joey DeFrancesco e, adivinharam, mais uma vez com metade das canções assinadas pelo próprio, desta vez canções que já haviam surgido noutros discos. A gravação foi realizada em dois dias e a sonoridade pouco se diferencia de um disco ao vivo. Para que a palete de que se compõe o estilo Morrison ficasse completa ficam a faltar dois discos: um de música celta, outro com canções country.
Essa marca Morrison, por espantoso que hoje nos pareça, surge logo nos primeiros discos a que este natural de Belfast dá voz, com os Them, em 1965, data do seu primeiro e perene sucesso, “Gloria”. E é ainda com os Them que cunha os primeiros sucessos, sejam eles originais (“Mystic Eyes”, “Here Comes The Night”) ou versões (“Baby, Please Don’t Go”). Os seus primeiros discos a solo (“Astral Weeks”, de 1968, e “Moondance”, de 1970) são obrigatórios em qualquer enciclopédia da música pop-rock e consolidam de vez um estilo inconfundível: uma voz bailarina, frequentemente usada como um instrumento em vocalizos improvisados; um acompanhamento instrumental diversificado, quase sempre devedor do blues, e em que pontificam metais, órgão e guitarras e, novamente, o improviso. Essa sonoridade própria, estável mas sempre inquieta em busca de nuances, é a base sobre a qual o músico desenvolve uma postura por vezes acentuadamente mística, conferindo à sua música um carácter espiritual, não confundível com qualquer opção religiosa.
A sua longa carreira acabou se desenvolver nesse registo, sempre com essas constantes estilísticas, mas também sempre em movimento: discos de versões, discos celtas, discos de jazz, discos mais místicos, discos de duetos... E depois os concertos. É ao vivo que a música de Van Morrison encontra o ambiente propício a revelar todas as suas texturas sonoras, na liberdade dos improvisos de palco e da inspiração do momento. “It’s To Late To Stop Now”, de 2016, um CD triplo que junta gravações ao vivo é disso testemunha – ouça-se, por exemplo, “Listen To The Lion”... Não admira que os concertos que têm vindo a realizar nos últimos anos esgotem sempre, um sucesso que contrasta com a modesta performance comercial dos seus discos.
Norah Jones + Benjamim
Há dois anos, com “Day Breaks”, Norah Jones regressou ao princípio: jazz ligeirinho, ou, se quisermos, pop com roupagens de jazz. “Tragedy” é uma espécie de “Sunrise, Sunrise” sem o fulgor da novidade, nem a alegria da juventude. A pianista e cantora decidiu, pois, regressar a paisagens mais seguras e serenas, após uns tempos de aventura pela pop, em “The Fall” (2009) e, especialmente, em “Little Broken Hearts” (2012). É, pois, uma Norah conservadora, esta que agora se nos apresenta, voz em sossego, escondida atrás do piano. O inverso de Benjamim, uma das mais irrequietas vozes da cena portuguesa, tanto que até de nome tem mudado. Nos discos, o mesmo. Após a fase, digamos, parapsicadélica em que se chamava Walter, veio o registo português, em “Autorádio” (2015) e, no ano passado, o registo bilingue e multicultural de “1986”, com Barnaby Keen. Seja o que for que faça em Cascais, será surpreendente.
Jessie Ware + Jordan Rakei
A soul contemporânea é um mundo vibrante e em expansão de nomes e variantes. Jessie Ware, inglesa de Londres, afirmou-se como figura secundária no mundo da electrónica (Sampha, SBTRKT), antes de se lançar numa carreira a solo, que prossegue com segurança, embora sem sucesso comercial muito animador. Dona de uma voz que oscila elegantemente entre o veludo e a projecção firme, tem recorrido a uma vasta panóplia de autores, não tendo ainda acertado no “hit” salvífico. “Glasshouse”, de 2017, é o seu mais recente registo, um conjunto de canções com ADN soul com suaves floreados electrónicos. Jordan Rakei está-lhe nos antípodas, ou não fosse ele neo-zelandês. Multi-instrumentista, compõe, produz e canta, com voz colorida. Nos dois discos que já gravou (“Cloak”, de 2016, e “Wallflower”, de 2017) de revela uma grande amplitude, que vai da abordagem de R&B puro ao reggae ou ao hip-hop, apelando frequentemente à dança.
Billie Joe + Norah Jones - Foreverly ***
A música em forma de estafeta, com efeitos de loop. É assim: em 1958, os Everly
Brothers gravaram um disco intitulado Songs
Our Daddy Taught Us, constituído por 12 velhas canções country convertidas em harmoniosas melodias com acompanhamento de
guitarra. Mais de meio século depois, uma cantora de jazz ligeiro e um
vocalista de uma banda punk pegam nas
mesmas 12 canções e devolvem-nas ao universo country. Nada se perde, tudo se transforma. Pouco se ganha. As
interpretações, embora agradáveis, são relativamente banais, com Billie Joe
Armstrong (voz dos Green Day) sempre mais ou menos na condução e a doce Norah
Jones em segundo plano, nas harmonias. Os arranjos espraiam-se por várias sonoridades
country, sem nada de especialmente memorável. "Down in The Willow
Garden", talvez pelo dedilhar da guitarra, ganha uma certa intensidade indie, mas o resto é de um classicismo
irrepreensível. Apenas.
Labels:
Billie Joe,
Discos,
Norah Jones
A voz triste da menina bonita - Norah Jones no Campo Pequeno
Norah Jones arrumou de vez o jazz e vai recriar no Campo
Pequeno a atmosfera delicada e contida dos dois últimos discos. Uma aventura
que apela à disponibilidade de quem a vai ver e ouvir
Aviso à navegação: esta Norah Jones é a nova Norah Jones, e
não a outra, aquela que tanto ouvimos no rádio e da qual (ah, sim, consultem os
arquivos) já andávamos todos um pouco enjoados, tal era a omnipresença sonora
de “Come Away With Me”, o megasucesso de estreia. Essa Norah Jones, talvez nem
fosse necessário recordá-lo, era uma miúda gira, de voz doce, exímia praticante
de um jazz ainda mais ligeiro que o de Diana Krall. Isso foi há uma década e a
rapariga – filha do sitarista Ravi Shankar, mandam as regras que se assinale –
arrecadou nessa altura uma data de grammys, isto para não falar dos dólares. O
encanto manteve-se e tivemos direito a nova dose dois anos depois, com o disco Feels Like Home e o novo megasucesso
“Sunrise”. “Sunrise, sunrise...”, lembram-se?
Pois, essa Norah Jones já não existe e convém que os mais
distraídos tomem disso boa nota, porque esse é um facto relevante para o que
aqui nos traz. A miúda tinha 23 anos quando ficou com o mundo a seus pés e – qualquer
terapeuta o comprovará –, muito aguentou ela, que o sucesso não é coisa de
fácil digestão. Mas, é a lei da vida, há idades tramadas e – desculparão a
incursão tablóide pela intimidade da artista – as miúdas giras apaixonam-se (as
outras também, mas isso não vem agora ao caso) e nem sempre as coisas correm
bem. São as dores do crescimento. Interior.
Chegamos assim a 2009. O jazz (já vos tinha dito que Norah
escrevia o que interpretava?) fica para trás e, coração perturbado, novos
trilhos musicais se apresentam. Eis-nos em pleno território pop, devedor,
embora, de alguma atmosfera indie. Dois discos – The Fall e Little Broken
Hearts, já deste ano – cunham uma nova Norah. As canções são mais íntimas,
mais sofridas, menos luminosas, autobiografias de males do coração. E vestem-se
de roupagens, digamos, menos simpáticas (há lá coisa mais agradável que o jazz
ligeirinho?). As guitarras, na primeira incursão, e a electrónica, na versão
deste ano pela mão de Danger Mouse, dominam as canções. É esta Norah Jones que
agora aparece por cá.
Miúda tímida – é verdade! – canções íntimas e atmosféricas. É
isto Norah Jones ao vivo nos dias que correm. Os sucessos dos primeiros anos, a
crer no alinhamento que já a acompanha desde América e a deverá levar ao resto
do mundo, ficam para os encores, o
que poderá ser uma autêntica chave de ouro para muitos dos que vão passar pelo
Campo Pequeno.
Os outros, espera-se que sejam a maioria, certamente irão à
procura da reinterpretação das texturas delicadas dos dois últimos discos. E é
nesse território que o concerto deve ser apreciado. Norah Jones canta, bem como
sempre, e acompanha-se ao piano e na guitarra, com o apoio de uma banda de
quatro músicos de estrutura pop clássica.
O sucesso de um concerto depende, por vezes, da empatia que
se gere entre quem está no palco e quem assiste. Já percebemos que Norah Jones
está numa fase particularmente sensível, de abertura a novas sonoridades,
experiências. Por uma vez, a dúvida está do lado de cá – é isso que esperam
muitos dos que a vão ver e ouvir?
Labels:
Concertos,
Norah Jones
Norah Jones - Little Broken Hearts ****
Velho estratagema: o artista tenta expiar uma separação emocional através de um disco em que, inevitavelmente, os farrapos desse mesmo passado teimam em deixar marcas por todo o lado. Norah Jones, porém, fá-lo em grande estilo, depois de, em 2009, com The Fall, ter mostrado ao mundo que, apesar do seu ar doce e frágil, não pretendia manter-se por muito mais tempo como a menina bonita do jazz ligeirinho. Passados três anos, a menina continua bonita, mas agora um pouco ácida. Para esse exercício de acidez contribui Brian Burton, também conhecido por Danger Mouse, um rapaz da electrónica que co-assina todos os temas e produz o disco (conheceram-se no projecto dele Rome). É um encontro estranho, entre uma voz melodiosa, clássica, e a vanguarda sintética. Mas funciona, porque Danger Mouse deixa respirar as texturas da voz de Norah respirarem (“Say Goodbye” é um excelente exemplo) e até sabe retirar-se nas alturas certas (“She’s 22”).
Labels:
Discos,
Norah Jones
Norah Jone - Featuring ***
Quem quer cantar com a Norah que canta tão bem e é tão
bonitinha? Todos. Até Ray Charles, que foi uma das últimas coisas que fez antes
de morrer, em 2004.
Este disco reúne 18 canções, editadas entre 2001 e 2010, e
acaba por ser uma colecção algo decepcionante. Esperar-se-ia que de um talento
excepcional, como o de Norah, acompanhado de um leque de famosos ou nem tanto,
saísse um disco de excepção. Não é o caso. A generalidade das canções viaja à
boleia da voz quase encantatória de Norah Jones, no seu registo soft jazz, e abstém-se de arriscar. É
muito agradável ouvir os Belle and Sabastian, até porque a canção é fabulosa, a
reinterpretação de “Court & Spark” (Joni Mitchell) na companhia de Herbie
Hancock é muito boa, e há ainda mais um punhado de coisas interessantes. Mas a
maioria das versões fica-se pela mediania, ou pior ainda (Willie Nelson, Dolly
Parton). Norah Jones merece e é capaz de melhor.
Labels:
Discos,
Norah Jones
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