Norah Jones - Begin Again ****

Norah Jones tem um problema sério – começou por cima. O êxito estrondoso de Come Fly With Me (2002) colocou-lhe uma fasquia difícil de ultrapassar. E a verdade é que tem lidado muito bem com isso, sendo a ironia do título deste disco (Começar de Novo) um bom o exemplo dessa descontração. Porque, assumidamente, este é um disco em que não tenta nada. Tentou manter a chama nos discos que se seguiram à estreia e depois tentou novos e interessantes caminhos quando trocou o jazz pela electrónica. Isto de agora é quase uma brincadeira, de que se sente à vontade para o fazer. Uma colecção de singles em colaboração, especialmente com Jeff Tweedy (Wilco) e Thomas Bartlett (St. Vincent), lançados ao longo de um ano e agora reunidos. O registo é o jazzístico (“Just a Little Bit”), com dois temas (“It Was You” e “Wintertime”) a ombrearem com os melhores que já gravou. Sim, é Norah regular, sem especial golpe de asa. Mas Norah regular é muito bom.

Stephen Malkmus - Groove Denied ***

Chega-se ao último tema, mais ou menos meia hora depois do primeiro, e é inevitável perguntar o que aconteceu entretanto. “Grown Nothing” é talvez a melhor canção desta aventura a solo do ex-Pavement, na sua textura electrónica de bossa nova, com marcados solos de guitarra e uma linha rítmica belíssima. Mas é estranhamente parecida com o que Malkmus tem andado a fazer com os Jicks, e que não é muito diferente do que fazia com os Pavement: pop clássico, um pós-indie, que não desdenha a busca de eternas novidades. Essa “Grown Nothing” acaba, assim, por ficar muito distante e até algo contraditória com o tom geral do disco, totalmente dominado pela electrónica, de que o primeiro tema (um instrumental) e “Viktor Borgia” são os exemplos mais exuberantes. Fica, por isso, a dúvida sobre se este disco representa uma nova linha de exploração, ou apenas um episódio, uma brincadeira com sintetizadores.

Calexico + Iron & Wine - Years to Burn ****

A soma das partes não é mais nem é menos. É outra coisa. Há a voz e especialmente a marca composicional de Sam Beam (Iron & Wine), mas há também a sonoridade de fronteira dos Calexico. Não se trata, porém, de um disco em que, à vez, cada um exibe os seus genes, antes de um exercício de integração, que, paradoxalmente, faz todo o sentido nas cronologias distintas de busca de sentido musical. Há temas mais comerciais, como “Father Mountain”, em que as coisas são mais lineares: a melodia bucólica típica dos Iron & Wine, as guitarras e secção rítmica que são marca de água dos Calexico. Mas é nas zonas mais experimentais que esse movimento exploratório se desenvolve de forma mais explícita, como em “The Bitter Suite” – oito minutos de exploração sonora, que começam por um tema acústico em espanhol, passam por um momento de improviso jazzístico e terminam em nova balada, agora abertamente indie folk. Um longo caminho desde a primeira colaboração (In the Reins, 2005).

Joan As A Police Woman - Joanthology ****

Joan Wasser é um dos nomes mais subvalorizados da atual cena musical. Talvez o heterónimo que escolheu para as capas dos discos tenha alguma culpa no cartório, pelo efeito de distanciamento e estranheza que provoca, mas obviamente não explica tudo. Além de uma compositora de primeira água, algures entre a soul e um pós-punk elegante, Joan é uma intérprete mais que competente. Este triplo CD é uma clara tentativa de repor alguma verdade na história. Trata-se de uma escolha pessoal das melhores canções de década e meia de carreira, com alguns inéditos, seja de autoria própria (“What a World”), seja de versões, das quais “Kiss”, de Prince, é a mais expressiva. Bastante sintomática é a presença massiva do primeira disco (Real Life, de 2006), um excelente manifesto de intenções. Muito interessante é também o terceiro CD, integralmente preenchido com uma sessão ao vivo na BBC, especialmente as primeiras canções, só com piano e voz.

Rustin Man - Drift Code ****
Beth Gibbons - Symphony of Sorrowful Songs ***

Em outubro de 2002, Beth Gibbons e Rustin Man lançaram Out of Season, um disco único em todos os sentidos. Passados 17 anos, quis o destino que cada um deles lance ao mesmo tempo aqueles que são os primeiros registos em nome próprio. Longínquos formalmente, próximos na intensidade da obra de 2002. Gibbons ocupou esta década e meia com actividades esparsas, entre as quais colaborações (Rodrigo Leão, homenagem a Gainsbourg...) e o derradeiro Third (2008) dos Portishead, a banda-mãe. Em 2014, gravou com a Orquestra Sinfónica da Rádio Nacional polaca esta terceira sinfonia de Górecky, cuja primeira e pouco apreciada apresentação data de 1976, mas que tem vindo a ganhar estatuto de culto com os anos. Trata-se de obra extremamente sombria, que leva como título Sinfonia de Canções Pesarosas, sendo a orquestra dirigida, nesta versão, por Krzysztof Penderecki, conhecido, por exemplo, pelas bandas sonoras do Exorcista e de Shining. Beth Gibbons é tudo menos a soprano que a obra tradicionalmente exige. Mas o seu vibrato inseguro confere à obra uma particular intensidade, seja nas notas mais altas, seja quando o canto se transforma quase em declamação. Um exercício de uma beleza peculiar a exigir algum controlo emocional da parte do ouvinte. Já Rustin Man, o nome que esconde Paul Webb, baixista do Talk Talk, passou todos estes anos praticamente recatada em família, a transformar um velho palheiro em estúdio, no qual gravou, com incrível detalhe, uma infinitude de instrumentos e alguns amigos, este primeiro disco totalmente seu. E o que espanta logo a abrir é a voz, qualquer coisa entre a dureza de um Robert Wyatt e um Bowie tardio e nasal. Um disco à vez sumptuoso, pela exuberância instrumental mas igualmente variedade estilística, e quase rural, na dimensão das coisas simples a que amiúde regressa. Difícil destacar uma canção – talvez “Brings Me Joy” – porque se trata de um daqueles objetos que se vai revelando a cada audição. Tomara que todas as sequelas fossem como esta de Out of Season: um compositor de primeira água, duas vozes verdadeiramente fora de série.

The Divine Comedy - Office Politics ****

“Estás a ver aquela apresentação Powerpoint? Merecia uma nomeação para os Bafta...”. Sim, Neil Hannon continua divertido, perspicaz, irónico, mordaz e etc acerca deste desconcertante mundo que é o nosso. Como na história de “Norman and Norma”, que revivem os ardores amorosos da juventude numa batalha entre Saxões e... Normandos. Ou a autêntica delícia que são os cinco minutos que ficciona uma infância em comum a Philip Glass e Steve Reich, nos anos 60 de Nova Iorque e que – milagre – consegue manter-se pop, apesar da mimética minimalista. Ah, sim, este 12.º disco dos Divine Comedy é pop do mais pop que há. Seja na abordagem “de câmara”, tão distintiva (“After the Lord Mayor’s Show”), seja na electrónica mais funk (“The Life and Soul of the Party”) ou mesmo numa electrónica “de câmara” (“A Feather in Your Cap”). E quem não quiser deixar-se encantar por violinos e sintetizadores, há uma edição “deluxe”, só com “demos”.

Sei Miguel - O Carro de Fogo ****

Sei Miguel é um caso singular no panorama musical português. O seu território é o jazz, numa abordagem que ao ouvinte desprevenido poderá surgir como improviso absoluto. Erro que não resiste a uma audição mais atenta: esta é uma música muito burilada, experimentada, ensaiada. O saxofone de bolso situa-se claramente no centro de um palco, ao redor do qual se desenvolvem outras sonoridades, maioritariamente em movimentos próprios, mas por vezes também de forma mais estruturada, organizada. Em coro. Mais metais (trombone, saxofone), um baixo muito marcante, órgão bem mais discreto, várias espécies de percussão, finalmente uma guitarra eléctrica como que vinda de outras bandas. O disco – de vinil se trata – é composto de uma única peça (O Carro de Fogo) que Sei Miguel foi testando ao longo dos anos mais recentes. Um jogo admirável de equilíbrios permanentes de tensão e contenção.

Rickie Lee Jones - Kicks ***

Rickie Lee Jones adora cantar canções de outros, tanto que já vai no quarto disco de versões, em 40 anos de carreira. Não que lhe falte a criatividade para escrever as suas próprias canções, ainda em 2015 lançou o muito interessante The Other Side of Desire. As versões são, mais que uma homenagem ou um reconhecimento das influências, uma verdadeira forma de expressão. Rickie tem aquela forma muito peculiar de cantar e encenar música, com fortes raízes no jazz e uma voz cheia de fumo, agora claramente menos colorida. A surpresa neste disco é a origem dos temas: Elton John (“My Father Gun”), America (“Lonely People”), “Bad Company”, da banda homónima. Ou seja, um universo pop de temas não muito evidentes, cruzado com outros mais expectáveis (“Mack The Knife”, ou “Houston”, de Lee Hazlewood, em quase country). Nada do outro mundo, em suma. Balanço relativamente inofensivo.

Lambchop - This (Is What I Wanted to Tell You) *****

Kurt Wagner confirma neste disco o caminho que começou a trilhar em 2016, com “PLOTUS”. Em vez do country alternativo, em versão sofisticada de câmara, temos electrónica e uma voz permanentemente distorcida pelo Vocoder. É tudo uma questão de atmosfera – mas que diferença! -, porque lá atrás permanecem aquelas melodias gentis dos Lambchop, servidas por letras em que cohabitam estilhaços do real com o mais puro do onirismo. E a voz. A voz de crooner de Wagner continua a mesma, a distorção permanente nada pretende esconder. Antes pelo contrário, trata-se de uma busca incessante de novas texturas. Como aliás acontece com todo o pano de fundo, de onde amiúde emergem guitarras, harmónicas, metais, mas que na essência é constituído por construções sonoras eletrónicas e rítmicas. Uma arriscadíssima arquitectura sónica, que seduz cada vez mais a cada nova audição. A encerrar o disco, “Flower”, um pungente regresso aos Lambchop canónicos. Estará ali por acaso?

Martin Frawley - Undone at 31 ***

Na pop não há separações amigáveis e, por isso, são tantas e tão boas as canções sobre divórcios, corações partidos, vales de lágrimas. Há mesmo discos inteiros, tantos, que talvez já se pudesse formalizar uma corrente. Este primeiro registo a solo de Martin Frawley é mais um exemplar dessa espécie – Martin separou-se de Julia Mc Farlane, com quem, durante uma década, partilhou a cama e a banda australiana pouco mais que discreta Twerps. Como quase sempre acontece – fará parte da terapia? –, o estado de espírito comatoso reflecte-se em canções de letras mais ou menos reflexivas, mais ou menos depressivas, mas que do ponto de vista musical alinham pelos padrões solares e até dançantes da pop. “Chain Reaction” é o exemplo perfeito, mas o resto não é muito diferente. Martin é um discípulo, quase evidente de mais, de Lou Reed (“You Want Me?”) e venera os Velvet Underground a cada esquina (“What’s On Your Mind”). Início prometedor.

Edwyn Collins - Badbea *****

De que ingredientes se faz um disco perfeito? Sim, há a composição, a produção, a orquestração, a inspiração, o vozeirão. E aquela canção. Este disco tem isso tudo, em doses desacertadas, porque excessivas. E tem ainda aqueles ingredientes secretos que fazem da pop o mais delicioso bombom: um sentimento difuso de eterna adolescência, chamem-lhe nostalgia, e aquela magia de com o velho fazer novo. Edwyn Collins não merece ser o homem de uma só canção (“A Girl Like You”, 1994) e este disco – o terceiro após o derrame cerebral de 2005 que o deixou meio paralisado, sem memória e literalmente sem palavras – é uma prova contundente. Collins e um grupo de amigos passeia-se com um à-vontade extraordinário entre toadas tex-mex com metais de circo (“I Guess We Were Young”), funk eletrónico q.b. (“Glasgow to London”), punk puro (“Outside”), baladas de raiz folk (“Beauty” e “Badbea”) e mais uma série de coisas entre o R&B e soul. A tal perfeição.

John Paul White - The Hurting Kind ****

Como se Roy Orbison tivesse regressado para ensinar as novas gerações a cantar coisas de partir o coração, feridas saradas com sal, desespero alimentado de memórias e, enfim, outras histórias de amor. O terceiro disco a solo de John Paul White – após a aventura dos Civil Wars (2009-14), com Joy Williams – é um mergulho profundo no country mais comercial dos anos 1960. É um disco sem contemplações: se é necessário falsetto, faça-se falsetto (“My Dreams Have All Come True”); se Roy Orbison é a referência evidente, cante-se descaradamente à Orbison (“I Wish I Could Write You a Song”); se não há country que se preze sem um dueto, que se convide Lee Ann Womack para uma daquelas canções de deixar tudo a sangrar (“This Isn’t Gonna End Well”). O tema de abertura (“The Good Old Days”) ainda ironiza levemente os anos Trump e o tema-título é sobre a violência nas relações, mas o resto é mesmo só sobre a desgraça do amor. Sempre deu excelentes canções e estas não são excepção.

Salvador Sobral - Paris, Lisboa ****

Comecemos pela Eurovisão. O próprio Salvador Sobral não resistiu ao flirt e inclui aqui uma versão do tema de Francisca Cortesão (Minta & The Brook Trout) e Afonso Cabral, em que apostava no Festival de 2018. “Anda Estragar-me os Planos”, cantada por Joana Barra Vaz, ficou pelo caminho, e renasce neste disco numa versão exuberante, marcada pela sonoridade do rajão madeirense e ritmos africanos. Ambiente de festa, ou não fosse este um disco de estúdio, mas que por vezes (e é o caso...) mais parece uma actuação ao vivo. Eurovisão, ainda, porque se há aqui um tema que poderia ser a sequela de “Amar Pelos Dois”, essa canção é “Benjamin”, no seu recorte clássico, assente numa melodia de fácil absorção. A Eurovisão foi o acidente feliz na carreira de Salvador Sobral – permitindo-lhe, por exemplo, gravar um disco nas excelentes condições deste, ou abrindo-lhe as portas dos palcos do mundo –, mas Paris, Lisboa deixa claro que a contaminação só ocorreu num sentido. Salvador Sobral continua a interpretar música essencialmente estruturada a partir do jazz, quase sempre em registo de balada. Essa base permite-lhe depois digressões, por exemplo, pelo bolero (“Grandes Ilusiones”), a chanson (“La Souffleuse”), ou até o folclore nacional (“Mano a Mano, com Zambujo). Assina apenas cinco das letras, sendo tudo o resto, letra e música, de autoria alheia. Este é um disco feliz, luminoso, apaixonado até, como se prova na contracapa.

William Tyler - Goes West ****

William Tyler é um contador de histórias sem palavras. Conta-as através da guitarra acústica, que coloca no centro de uma banda tradicional, a que não faltam, por exemplo, as variantes eléctricas desse mesmo instrumento. O resultado, fortemente condicionado pelo seu virtuosismo nada impositivo, remete para um território algures entre a folk, o country e algum blues rural. Nomes como Leo Kottke, ou Bill Frisell – este último com presença nesta gravação, em “Our Lady of the Desert” –, podem ser sinalizados como influências, mas Tyler é um músico de estúdio muito experiente (Lambchop, Bonnie Prince Billy), pelo que os seus discos a solo (e já lá vão quatro) reflecte uma vasta acumulação de experiências. Nesta edição, o destaque vai para a suite em vários andamentos “Alpine Star”, ou para temas, como “Venus in Aquarius”, exuberantes no cruzamento de sonoridades. Em fundo, está sempre a América, seja a que vai perdendo os valores fundadores, ou a dos grandes espaços e grandes sonhos.

Gregory Porter - One Night Only ****

Nat King Cole, de quem se comemora o centenário, foi novamente o ponto de partida para mais este registo de Gregory Porter. Na verdade, esta gravação ao vivo (CD e DVD), realizada no ano passado em Londres, retoma grande parte do disco de homenagem à sua maior influência (Nat King Cole and Me, 2017), recorrendo, inclusive aos mesmos músicos (quarteto e grande orquestra) e aos arranjos de Vincent Mendoza. E é esse o especial interesse do disco. Mendoza volta a criar as atmosferas, ora íntimas (“For All We Know”) ora quase cinematográficas (“Miss Otis Regrets”, tão típicas de Hollywood dos anos 1950 e 60, mas agora aplicadas, não apenas aos sucessos de Cole, mas também aos originais de Porter. Um dos exemplos maiores desse movimento é “When Love Was King”, que ganha aqui uma nova grandiosidade, toda ela feita de subtileza. Neste registo mais quente e aveludado, Porter volta a demonstrar porque é uma das vozes incontornáveis da actualidade.

Cass McCombs - Tip of the Sphere ****

A história da música, e do resto, é mesmo assim, composta de movimentos oscilantes, viajantes no tempo, que fazem do passado o combustível para a abertura de novos horizontes. Cass McCombs é um dos intérpretes mais perfeitos dessa teoria. Ancorado nos anos 1970, dos supergrupos, do psicadelismo e de uma certa intelectualidade, tem conseguido evitar cair no tédio com que hoje olhamos para aquela época. Neste disco, por exemplo, há um tema de 7 minutos e meio, a abrir, e outro de 10 minutos, a fechar, a que não faltam longas digressões de solos e improvisos de guitarra e teclas. Ou seja: alerta bocejo! Curiosamente, neste, como nos oito discos anteriores, Cass, assim como os músicos que o rodeiam, fazem o milagre e conseguem balançar essa ambiência geral de psicadelismo e virtuosismo com algumas canções de grande inspiração e ainda melhor execução. “Absentee”, “Real Life” ou “Sleeping Volcanos” aí estão para o provar.

The Gift - Verão ****

25 anos de carreira, cumpridos este ano, a caminho da dezena de discos de originais, donos de uma sonoridade marcante na música portuguesa contemporânea. Os Gift já nada têm a demonstrar, nem seria justo pedir-lhes a sempre almejada novidade pop – “o que fizeram eles de novo agora?”. Não há novidade aqui. O produtor, Brian Eno, é o mesmo do disco anterior (“Altar”, 2017), a ideia original é a sequência natural de “Primavera” (2012) e são vários os momentos de “Verão” que ecoam memórias da obra passada. E, no entanto, este é um grande disco dos Gift, um dos melhores dos últimos tempos. Na criação de massas sonoras de grande dramaticidade e intensidade, recorrendo amiúde ao casamento das cordas com a electrónica (“Impressiveness”, “Foggy”), nos temas mais pop (“Vulcão”, “Lowland” – esta na voz e Nuno Gonçalves e tão tão Eno), nas baladas (“Books”, que bela linha de piano...) ou no inevitável hino para os palcos (“Verão”). Este ano, o Verão terá a sua dose de melancolia.

Mavis Staples - Live in London ****

Desaparecida Aretha, cabe a Mavis transportar a chama das grandes vozes femininas da soul mais tradicional. Aos 79, no verão de 2018, em duas noites gravadas na Union Chapel, em Londres, a voz mais conhecida dos Staple Singers assumiu o risco de evitar os sucessos de décadas e focar-se nos temas que gravou, na última década, sob a batuta de M. Ward e, especialmente, de Jeff Tweedy, dos Wilco. Foi com eles que gravou temas de compositores contemporâneos, como Ben Harper (“Love and Trust”), David Byrne (“Slippery Sole”), ou Justin Vernon (“Dedicated”), para mencionar apenas alguns dos que constam deste disco. Estamos, pois, perante uma espécie de “best of” do renascimento de carreira, a que se juntam três temas mais antigos. O valor acrescentado do exercício passa pela uniformização dos vários temas por uma pujante formação de R&B, que rivaliza em vitalidade com a projeção vocal de Mavis. Quase dá para ver a vibração em palco.

Lone Lisbonaires - Varina Voodoo ****

Este é segundo disco dos Lone Lisbonaires e não deixa de ser o tal da confirmação, apesar de o primeiro ter sido outra coisa. “Deported Songs” (2015) era um conjunto de canções em inglês, interpretadas por uma banda ocasional, mas resultado direto de um percurso a dois (Paulo Oliveira e Paulo Spranger) e de muitas horas ao vivo, na rua e locais conexos. Agora, os dois Paulos (guitarra, voz e harmónica) mantêm-se no epicentro, mas à volta está uma banda mais a sério. E as canções, em português, são bem mais estruturadas, apesar de no osso estar a mesma base orgânica de blues, muitos blues do Mississippi, mas também daquele nervo eléctrico que se ouve em estúdios e palcos do Mali e da Nigéria. Isto, claro, transplantado para o quotidiano dos Anjos ou da Marateca... “Rua do Paraíso”, pequena maravilha dançante, é o cartão de apresentação e, a partir dele, podemos adivinhar a exuberância que esta música pode alcançar nas improvisações ao vivo.

Steve Gunn - The Unseen in Between ****

Numa prova cega, este seria um disco traiçoeiro. Tudo nele soa aos verões do final da década de 1960, ou talvez às luas dos primeiros anos da década que seguiu. Folk, ora em versão acústica ora eléctrica, algum country, muito psicadelismo e uns pós de sonoridades indianas. Ou seja, algo entre trovadores como Tim Buckleye aquela primeira fase dos Pink Floyd. Steve Gunn afirmou-se como músico de estúdio e virtuoso da guitarra e foi progressivamente ganhando voz própria como compositor. Um trovador. O seu primeiro disco a solo a demonstrar essa tendência foi “Eyes on the Lines”, de 2016, sendo que a presente gravação constitui a consagração de um autor de primeira linha. Trata-se de nove canções que têm como mote a ideia de viagem, de deambulação por paisagens naturais e histórias de pessoas. “A hand-driven hand map provides the facts”, canta em “Paranoid”, a canção que encerra o disco, a que não faltam uns bons segundos de massa sonora atordoante, tão ao gosto dos sixties. Na mesma linha, “New Familiar” transporta-nos para as ragas indianas desses anos, enquanto “Morning is Mended” poderia ter saído da mente de Syd Barrett. Na versão acústica, em que Gunn resiste a exibir o virtuosismo que patenteia noutras paragens, cabe destacar “Stonehurst Cowboy”, a memória do pai numa evocação da paisagem de Filadélfia, e “Luciano”, a história da relação de um taberneiro com o seu gato. “New Moon”, que abre o disco, casa na perfeição as sonoridades acústica e eléctrica, num disco de produção afinadíssima e em que se descobrem novos pormenores a cada nova audição.

Beirut - Gallipoli ****

Os Beirut poderiam ser a tradução para uma linguagem universal da tal palavra saudade, que os portugueses gostam de pensar intraduzível. Nada de fado, que fala da saudade, mas não é saudade ele próprio. Esta música, sim. Aquela toada triste, melancólica, mas que sabe bem, bonita até, mesmo alegre às vezes. Aquela desesperança que nunca acaba e que, por isso mesmo, mantém sempre viva a esperança. Como a saudade. Isso talvez nunca tenha sido tão evidente como neste quinto disco de Zach Condon, o rapaz que gosta de se fazer passar por Beirut, uma banda que sempre fez da vagadundagem musical o seu cartão de visita. A matriz da última década e meia mantêm-se: som radicalmente indie, mas que não recusa beber em várias fontes folclóricas, especialmente do Leste europeu. A novidade, volvidos que estão quatro anos de silêncio, é agora a polifonia mais avançada em que tudo se apresenta, com as várias sonoridades a desenvolverem-se de forma autónoma, como se leques de uma orquestra sinfónica se tratasse. Fazê-lo, sem perder a leveza pop, eis a beleza da coisa. Nessa dança - sim, esta é também música de dança - entra o arcaico e omnipresente órgão Farfisa (“Corfu”), mas também o trompete, que Zach Condon interpreta em pistas sobrepostas (“Gallipoli”), ou os arranjos de metais (“We Never Lived Here”), ou ainda de tudo um pouco para parecer mesmo uma orquestra (“Family Curse”). E depois há duas canções maiores e que definem o disco - “Landslide” e “Varieties of Exile”, sobre coisas que acontecem maiores que nós, mas que nos fazem maiores, e as linhas frágeis que determinam permanências e ausências. Ou seja, a saudade.

Mercury Rev - Bobbie Gentry's The Delta Sweete Revisited ***

Bobbie Gentry caiu praticamente no esquecimento quando, no final da década de 1970, se retirou, após pouco mais de uma década de carreira marcada por um grande sucesso, “Ode to Billie Joe”, e um conjunto de discos em que procurou novos e amplos caminhos para a música de raiz country. 
Cantora e compositora – neta de portugueses, mas isso é irrelevante para esta história –, produziu também os seus próprios discos, incutindo-lhes sonoridades ricas e densas, com elementos pop, soul, gospel e blues, que haveriam de ser inspiração, décadas depois, para muitos nomes do country alternativa. 
A sua obra-prima é, precisamente, “The Delta Sweete” (1968), um razoável falhanço comercial, de que os Mercury Rev fazem agora uma versão completa, muito distante do original e razoavelmente desinteressante, apesar do convite a 13 vozes femininas para interpretar as canções desse disco mais o sucesso de “Billie Joe”. E nem vale a pena comparar a exuberância vocal e a subtileza instrumental de “Reunion” com a versão etérea e pastosa aqui interpretada por Rachel Goswell (Mojave 3). Aos originais de “Tobacco Road” ou de “Morning Glory” – em que se ouve ora peso do trabalho escravo nas plantações do sul dos EUA, ora uma voz ensonada que nem hesita em bocejar, correspondem agora réplicas domesticadas e rotineiras, como aliás é algumas vezes a música dos Mercury Rev. 
E nem a presença de algumas estrelas de primeira linha (Beth Orton, Norah Jones ou Lucinda Wiiliams) é suficiente para retirar esta aventura da mediania de que, precisamente, Bobbie Gentry fez tudo para fugir na sua época.

Cat Power - Wanderer ****

Há uma tensão permanente em Cat Power que talvez nunca tenha estado tão exposta, tenha sido tão evidente, como neste 10.º disco. A tensão entre a fragilidade e a força. A fragilidade da voz, quase sempre à beira do precipício, e a força que a cantora vai buscar sabe-se lá onde e que torna toda a sua música um acto de redenção. Desta vez, com Cat Power a toma conta de tudo, a fragilidade estende-se ao lado instrumental, com pianos esparsos, guitarras hesitantes e baterias em surdina. E o sentido de redenção é ainda mais apurado, porque autobiograficamente foi assim que as coisas se passaram. Desde o electrónico “Sun” (2012), a vida de Chan Marshall frequentou infernos até chegar aqui. Reza a lenda que Lana Del Rey (!) terá sido fundamental na operação de resgate do plano inclinado, e é com ela que se encena um dos temas centrais (“Woman”). E é mesmo difícil destacar um ou outro tema, num disco que se situa em permanência uns bons furos acima da banalidade.

Thom Yorke - Suspiria ***

Eis um disco que – oh sacrilégio – encaixa na perfeição nas modernas técnicas de audição, que conferem ao ouvinte a liberdade de escolher e misturar temas. Porque, na verdade, estes 80 minutos distribuídos por dois CD comportam dois tipos de objeto bem distintos: canções, boa parte delas encaixáveis na discografia dos Radiohead, e temas instrumentais, de duração e conteúdo muito variáveis, que bebem nos compositores clássicos contemporâneos, mas que são o que são: banda sonora de um filme de terror (“A Choir of One” é uma longa digressão de uma voz, sem palavras, por 14 minutos de efeitos sonoros electrónicos arrepiantes...). Do lado das canções, “Suspirium” é uma bela balada com piano, “Has Ended” anda por território trip-hop e “Unmade” põe Thom Yorke a fazer uma demonstração de voz. Os fãs dos Radiohead podem pegar nelas e ouvir em “repeat”, que não irão arrepender-se. Para o resto, especialmente o segundo CD, será necessário entrar na onda da coisa.

Melhores de 2018 (excertos)

António Zambujo. Um disco de adeus aos fados, que não ao Alentejo (“Retrato de Bolso”). Assumidamente pop de raiz beatleana (“Sem Palavras”). Impregnado de um Brasil contemporâneo nada tropical, de que o eco de Rodrigo Amarante na primeira canção será a prova mais evidente. Sem perder o pé do que lhe trouxe tanto sucesso, Zambujo parece querer abrir, ao oitavo disco, um capítulo que cruza a densidade orquestral com a extrema atenção ao detalhe.
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Dead Combo. O duo é agora banda. E com essa expansão expande-se também este som que, apesar de tão português, ou talvez por isso, não conhece fronteiras. A bateria que a banda trouxe dá músculo rock a quase todo o disco, abrindo ainda mais o leque já enorme de jazz, fado, western, caraíbas, África... A voz de Mark Lanegan encaixa na perfeição, num disco com memórias de Carlos Paredes, poema de Pessoa e traços de Verdi.
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Ry Cooder. Que lição, mr. Cooder! Um disco que, com três originais e uma mão cheia de clássicos, mais parece um catálogo em redor dos formatos clássicos da América: blues, country, bluegrass, gospel. Um manifesto contra as velhas e as novas tiranias.
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Father John Misty. Mais um disco sobre corações partidos por um dos mestres do melodrama indie. Dez canções autobiográficas, encharcadas num arrependimento que se transfigura em redenção por via da ironia. Um autêntico strip tease sentimental para nosso deleite.

Pedro Abrunhosa - Espiritual ***

Há três ou quatro momentos memoráveis neste disco. O dueto com Lucinda Williams, em que uma das vozes mais espantosas da country ensopa de sensualidade o tema mais coheniano do disco. O dueto com Ana Moura, que demonstra onde pode chegar a música de Abrunhosa numa grande voz. O dueto com Elisa Rodrigues, que chama mais uma vez a atenção para uma das vozes mais espantosas que por aqui apareceu nos últimos tempos. O dueto com Lila Downs, porque a world music é obrigatória num disco que fala de refugiados e muros, e também de violência doméstica (“Dizes que Gostas de Mim”). Sim, este disco vale especialmente pelos duetos (há mais dois, com Carla Bruni e Ney Matogrosso, mas ambos menos interessantes), nos quais até a voz frágil e menos maleável do autor consegue equilíbrio suficiente. O resto é Abrunhosa a ser Abrunhosa, baladas-hino, cheias de perdão e salvação. “É o Diabo” faz de testemunha solitária de um passado funk.

Salto - Férias em Família ***

Este é um disco de confirmação, por muito pouco canónico que um terceiro disco o possa ser. Com estúdio próprio, em Marvila, a banda, agora estabilizada a quatro, teve toda a liberdade para finalmente abraçar a produção desta terceira aventura e, dessa forma, fixar a sonoridade que procurara na gravação homónima (2012) e em Passeio das Virtudes (2016). Um som com raízes psicadélicas – o fascínio pelo sintetizadores e toda a sorte de guitarras com e sem efeitos – mas que não abdica dos sonhos pop, entre coros contemplativos e uma alegria eternamente juvenil. “Rio Seco” é um dos temas que melhor representa essa aposta de fazer música de múltiplas camadas, que ora nos transporta para territórios oníricos, ora nos puxa os pés para danças bem terrenas. Talvez que o principal pecadilho seja o excesso de autobiografia, uma banda centrada na ideia de fazer música. Convém não esquecer que há música lá fora.

Carminho - Maria *****

Fado (2009), Alma (2012), Canto (2014), Maria (2018). Faz sentido, faz todo o sentido. Ao quinto disco – as contas não batem certo porque, pelo meio, houve o disco de canções de Tom Jobim (2016) – Carminho canta, como nunca, na primeira pessoa. É um disco de histórias e vivências, reflexões de coisas vividas (“Desengano” sobre o Fado Latino, de Jaime Santos). Mas é também na primeira pessoa porque Carminho produz, toca guitarra elétrica (“Estrela”), assina sete dos 12 temas, seja na totalidade, apenas as letras, ou só a música. Um disco que resulta de dois movimentos distintos, aparentemente opostos: um, a depuração extrema do material genético do fado (o a capella de “A Tecedeira”, ou o quase mero esboço da guitarra de “Sete Saias”, de Ricardo Ribeiro); outro, a procura de novas sonoridades para o fado, de que o exemplo extremo é a pedal steel guitar, tocada com arco de violino (!) de “O Menino e a Cidade”. Um disco de plena maturidade.

António Azambujo - Do Avesso *****

“Até o Fim”. Piano, depois as cordas, a seguir os sopros. Toda uma orquestra, toda ela muito subtil. A voz também. Tudo neste disco é pensado e concretizado com enorme subtileza, uma forma extrema de elegância. A canção é de Arnaldo Antunes, mas a sonoridade que salta ao ouvido é a dos discos mais sofisticados de Caetano. Essa ambiência brasileira, embora nada tropical, é talvez a marca mais distintiva deste disco. Claro que, amiúde, ainda apetece cantar em coro e até dançar, não temam os fãs. Há “Não Interessa Nada”, de Márcia, o “Catavento da Sé”, de Miguel Araújo, esta ideal para bailaricos românticos, e mesmo o beatleano “Sem Palavras”. O que já não há, neste 8.º disco, é traços de fado, apenas de cante, especialmente na belíssima “Retrato de Bolso”, de Aldina Duarte, que acaba praticamente em oração. Sem perder o pé do que lhe trouxe tanto sucesso, Zambujo parece querer abrir aqui um capítulo de simplicidade feita de densidade e detalhe. Paradoxos que funcionam.

Diabo na Cruz - Lebre ****

As referências dos Diabo na Cruz vão da ancestralidade da “procissão [que] ainda vai no adro” (“Procissão”) ao esperanto digital dos tempos modernos condensado no “não há emojis para o que sinto”, em “Roque da Casa”. Uma música ancorada em raízes folclóricas evidentes, que se deixa contaminar pela universalidade das guitarras e esquemas rítmicos de matriz anglo-saxónica (na longa “Montanha Mãe – Contramão” há guitarras portuguesas, mas há também ecos fortes do rock progressivo ou sinfónico de décadas atrás), para acabar novamente com os pés bem assentes na “Terra Natal” e num “Portugal”, meio vira, meio hino. E a meio da aventura, há uma tocante “Balada”, liberta de amarras. O puzzle, a justaposição de linguagens, é agora, ao quarto disco, mais complexa, mas igualmente mais consistente, com as costuras menos evidentes. Resultado de muita estrada, certamente, mas igualmente do tempo de respiração a que a banda se obrigou.