Sam Beam & Jesca Hoop - Love Letter For Fire ***

Sam Beam é a voz e alma dos Iron & Wine, como a capa faz questão de nos recordar. Jesca Hoop é uma compositora, guitarrista e cantora das zonas indie folk, de origem californiana, mas a viver na inglesa Manchester. Era pouco provável, mas, como nas histórias de amor, encontraram-se. Para escrever e interpretar 13 histórias - cartas, dizem eles - do tal amor. E o que mais salta à vista, mantendo o registo exageradamente romântico da coisa, é que as vozes casam na perfeição, todas as canções, escritas a quatro mãos, são cantadas em diálogo permanente, como se de uma conversa se tratasse ("Every Songbird Says"). A base em que tudo assenta é o folk nu e cru ("Valley Clouds"), ou naquele registo quase pop anos 50/60 ("Kiss Me Quick"). Até certo ponto, este seria um disco aceitável na discografia dos Iron & Wine, um projeto também ele ancorado na tradição, mas em busca de outros voos.

Leonard Cohen - You Want It Darker *****

Na conferência de imprensa de apresentação deste disco, três semanas antes de morrer, Leonard Cohen prometeu, pelo menos, mais dois discos. E também que fazia tenções de viver eternamente, embora depois tenha rectificado para os 120 anos... Vale a pena recordar este episódio e a auto-ironia de Cohen para colocar as coisas em contexto e retirar o dramatismo que estes actos finais sempre comportam. É claro que este é o último disco de Cohen, embora o filho, Adam - a quem verdadeiramente o devemos, tão dramáticas foram as circunstâncias da sua conclusão, graças ao estado de saúde de Leonard -, já tenha revelado que sobraram uns temas das sessões de gravação... Tendo sido gravado nessas circunstâncias, o disco ganha inevitavelmente um estatuto de testamento, acentuado pelo facto de a totalidade das canções se debruçarem sobre o tema da finitude. Não há propriamente qualquer balanço de vida, apenas a constatação de que tudo tem um tempo. E que o tempo, na circunstância pessoal, é o do fim. Poeticamente, Cohen está ao seu melhor nível, fazendo mesmo recordar o fulgurante início de carreira ("Treaty", "Steer Your Way", ou o tema que dá título ao CD), com recurso frequente a expressões da cultura judaico-cristã que são uma das suas marcas de água. Essa intensidade poética é servida por um apuramento meticuloso e contido da componente musical, para a qual contribuem Patrick Leonard (parceiro da triologia que começou com "Old Ideas", em 2012, e prosseguiu com "Popular Problems", em 2014) e, especialmente, Adam Cohen, a quem se deve a forma final. Este é, afinal, um disco que cumpre o que promete. You Want It Darker? Aí têm.

Cass McCombs - Mangy Love ****

O que mais salta ao ouvido neste oitavo disco de Cass McCombs é a procura de consistência, coincidindo com uma mudança de editora e - quem sabe? - a procura do estrelato, de um músico até agora quase de culto. E isso é ainda mais evidente se tivermos em conta o marcado experimentalismo do seu disco anterior, Big Wheel and Others (2013). Consistência que, porém, não anula o amplo espectro em que McCombs se movimenta e que torna a sua música quase indefinível. Vai do psicadelismo dos anos 60 e 70 (If, um dos melhores temas desde disco, é disso um exemplo), ao funk versão anos 80 (Opposite House, em registo balada, ou In a Chinese Alley), passando pelas obrigatórias paisagens indie e americana. As letras continuam um tanto surreais, às vezes até descontroladas (Rancid Girl), excepção para as de cariz mais político (Bum, Bum, Bum, sobre a violência e as armas; Run Sister Run, acerca da misoginia).

The Beatles - Live At The Hollywood Bowl *****

As pessoas que assistiram às três atuações em que estas canções foram gravadas (Los Angeles, 1964 e 65) não ouviram nada disto. As que compraram o vinil de 77, a única gravação ao vivo oficial da banda, também não. Nem mesmo os Beatles alguma vez tinham ouvido isto. Tal como refere um deles no documentário a que este CD serve de banda sonora - Eight Days a Week, de Ron Howard, agora nos cinemas -, eles nem conseguiam ouvir-se uns aos outros em palco, tal era a histeria da audiência. Histeria que, no vinil de 77, abafa totalmente a música. Chega agora uma versão que consegue resgatar essas 13 canções à parede de som que se tornou símbolo da beatlemania, e ainda juntar-lhes mais quatro que andavam perdidas. Isto é História, sob qualquer das pontas por que se pegue. Um ano depois disto, os quatro abandonam os palcos e escrevem em estúdio alguns dos capítulos mais cimeiros da pop. Aqui... bom, se há quem não precise de apresentações ou descrições, os Beatles estarão certamente na frente. 

Lloyd Cole, 15 Set CCB


Repare-se na parca extensão da entrada sobre Lloyd Cole na Wikipedia, barómetro destes dias, e tirem-se as conclusões. Mais de meio século de vida e 33 de carreira não lhe trouxeram fama nem honrarias por aí além. Nem por isso desiste, antes pelo contrário. À boleia do sucesso da caixa com a discografia integral dos Commotions (Collected Recordings 1983-1989), lançada o ano passado, prepara idêntica aventura com os primeiros anos a solo (1989-1996), e, juntando os dois segmentos, anda em digressão, acústica e a solo (às vezes aparece o filho, Will, à guitarra), a recordar precisamente essas quase duas décadas. Na prática, o que o traz agora a Portugal é o desfile de êxitos, quase integralmente dos Commotions, que tanto agradam aos fãs. De fora e relevante, ficam apenas alguns temas de Music in a Foreign Language (2003) e de Standards (2013). O registo acústico, quase íntimo, potencia a inteacção com o público, uma das suas marcas de água. Desde que a sala não entre em rebuliço, por exemplo, com palmas fora de ritmo, o que o levou a interromper a actuação em aparições recentes. Não deverá acontecer por cá. Lloyd Cole e os portugueses, é sabido, têm uma relação que resiste a esses arrufos.

Marissa Nadler - Strangers ****

O disco encerra com Marissa Nadler, a solo com guitarra eléctrica, cantando "you never bring me down", em "Dissolve", uma belíssima e sincera canção de amor. Uma excepção, num disco de capa a preto e branco, e em que o refrão do tema título fala de alguém muito só que canta no escuro. As canções de Marissa Nadler são de um cinzento denso. Cinza dos amores falhados, cujo expoente talvez seja o disco anterior (July, 2014), mas cinza também pelo cepticismo em que tudo se desenvolve, e cinza, ainda, porque, apesar de toda essa negritude, há frestas de luz que insistem em aparecer. "Dissolve" é também uma excepção, porque, nesta sétima gravação, a cantora e o produtor Randall Dunn voltam a vestir as canções outrora quase folk de densidade barroca, feita especialmente de teclas e cordas. "Janie in Love" é o tema que melhor casa a velha guitarra com essa parede sonora e, por isso, o mais recompensador do disco.

Tindersticks - The Wainting Room ****

As canções dos Tindersticks dividem-se em duas categorias: as que são bandas sonoras, especialmente dos filmes de Claire Denis, e as que são filmes elas próprias, que contam histórias de forma cinematográfica. Neste disco, as canções ocupam as duas categorias. Ouvimo-las enquanto curtas metragens, mas podemos vê-las nos pequenos filmes, de vários realizadores, inspirados nas canções e publicados numa edição especial do disco. Mas fiquemo-nos pela música. Há uma canção ("We Are Dreamers!"), que sobe directamente ao top das melhores da banda - um dueto, de enorme tensão, com Jehnny Beth (The Savages); outro dueto, este diferido no tempo e em registo contemplativo, com Lhasa de Sela ("Hey Lucinda"); e ainda uma estreia, um tema de grande influência afro ("Help Yourself"). O resto é, ainda e sempre, Stuart Staples em grande forma. Uma bela celebração do 25.º aniversário dos Tindersticks.

Red Hot Chili Peppers - The Getaway ****

A evolução das espécies aplicada à música. Ir mudando algo para que se perceba que algo muda, mas nunca mudar mais que o suficiente para que tudo fique mais ou menos na mesma. Os RHCP não são muito diferentes dos outros, mas são um dos expoentes desse darwinismo musical. Há uma fórmula - que, a brincar a brincar, já tem três décadas -, a qual assenta num punk evoluído, ensopado em soul e funk. Uma linha de baixo muito marcada, com duas ou três matrizes alternantes, curtos solos de guitarras, fugazes apontamentos de cordas, aquela voz que avia sílabas a velocidade estonteante. Neste disco, que quebra um silêncio de cinco anos, Danger Mouse substitui Rick Rubin na produção e isso nota-se na toada mais planante ("Feasting on the Flowers" e "Dreams of a Samurai". Mas, no geral está tudo na mesma ("We Turn Red"). O que é bom, a evolução das espécies é um processo lento e não se coaduna com revoluções.

The Monkees - The Good Times! ****

Os Monkees nasceram há 50 anos, numa série de TV, para macaquearem literalmente os Beatles. Tiveram tanto sucesso que os levaram a sério e eles próprios se levaram a sério. No final da década, já cantavam Carole King, Gerry Goffin, Neil Diamond e, espanto!, canções escritas pelos próprios. A partir daí, a história conta-se num instante, ao ritmo inacreditável de um disco por década. Em 1996, saiu "Justus" aquele que foi encarado com o seu último disco, até porque, ainda muito antes do desaparecimento de Davy Jones, um dos quatro fundadores, em 2012, já a banda andava aos tropeções de palco em palco. Mas em 2016, os três septuagenários restantes surpreendem com um novo e, bem bom, disco. E até Jones apareceu para dar voz a uma das canções. Uma das belezas deste disco é o modo como viaja entre décadas. Entre a recuperação de canções dos anos 60, a voz de Jones perdida numa gravação, e temas, por exemplo, de Noel Gallagher ou Andy Partridge. Tudo muito divertido.


Bob Dylan - Fallen Angels ****

Há o carteiro que toca sempre duas vezes. E há Dylan, que toca sempre duas ou três vezes. Ao longo de cinco décadas de carreira, não há disco de Dylan que sofra de solidão. No início, no auge da década de 60, na fase católica, no renascimento dos anos 2000, o que Dylan queria dizer ou demonstrar prolongou-se sempre por dois ou três discos. Volta a ser assim, com esta fase dos grandes standards da música americana centrados em Sinatra. Por isso, em 2016, temos o segundo capítulo da saga iniciada com "Shadows in the Night" (2015). A grande diferença está no tom: à melancolia e ao coração partido de "Shadows", sucede a exuberância dos amores e paixões. A voz de Dylan adapta-se quanto baste, embora a  sua debilidade característica funcione melhor no tom menor do primeiro disco. A grande melhoria está nas orquestrações, brilhantes em alguns casos ("Maybe You'll Be There", ou "Melancholy Mood"), mas sempre muito interessantes. A dúvida: haverá terceiro disco, ou irá Dylan reinventar-se novamente?

Rod Stewart, Meo Arena, 6 jul


Antes de mais, curvemo-nos. Rod Stewart foi armado cavaleiro pela Rainha, há menos de um mês, e é agora Sir Rod Stewart. Respeito, portanto. Depois, as verdades que têm que ser ditas: Rod Stewart teve momentos musicais absolutamente desprezíveis, especialmente nos anos 80 e 2000. Por último, arrumemos o preconceito: aquele penteado não lembra ao careca e o aspecto geral é geralmente de fugir. Feitas as advertências, vamos ao que interessa. Aos 71, com 47 de carreira, Rod Stewart pode orgulhar-se de poder encher uns dois CD (vá lá, CD e meio...) de sucessos absolutamente irrepreensíveis, na melhor escola do cruzamento da pop, com o blues, o folk e até o country. Pode mesmo dizer-se que nenhum outro teve tanto sucesso comercial com tais ingredientes fundamentais da pop. E sempre com uma extraordinária coerência na interpretação daquilo que é um dos mistérios principais da música, de toda a música: a diversão. Tudo pela diversão, "just for fun". E é isso que vem fazer, uma vez mais, a Lisboa: desfilar êxitos atrás de êxitos. Os mais velhos vão abraçar-se e dançar, se tiverem pedalada, e os mais novos têm aqui uma oportunidade de ver e ouvir um verdadeiro artista em acção.

Minta & The Brook Trout - Slow ****

Se o blues tivesse nascido nas margens do Mediterrâneo, provavelmente seria assim, ainda mais indolente, da calma que vem do calor, do céu azul, e das noites abafadas e brisas imaginadas. Se a folk americana tivesse nascido nas margens do Mediterrâneo, etc., etc.. As influências de Francisca Cortesão, autora destes onze temas, cantora, multi-instrumentista, com especial predilecção pelas guitarras, produtora e alma dos Minta & The Brook Trout (designação inspirada em Virginia Woolf e Sufjan Stevens), são clara e assumidamente anglo-saxónicas, especialmente americanas, mais concretamente os blues e o folk. Este é terceiro disco de longa duração da banda (homónino, em 2009, e Olympia, em 2012) e assinala algumas mudanças no elenco - a Francisca, Mariana Ricardo e Nuno Pessoa, juntam-se agora Bruno Pernadas (guitarra) e Margarida Campelo (teclas). O título deste CD, Slow, dizem eles, resulta do longo tempo que levou a fazer, mas aplica-se na perfeição ao tipo de música que desde sempre praticam. Uma música serena, sem pressas, extremamente contida, mesmo quando - como acontece mais que uma vez neste disco - o apelo à dança seja por demais evidente (por exemplo, em "Bangles", ou "Sand"). Trata-se, muitas vezes, de uma lentidão apenas aparente, que deriva mais da indolência da voz principal e da contenção instrumental, que do próprio ritmo interno das canções (por exemplo, "I Can't Handle The Summer" seria toda outra canção se a banda quisesse, digamos, soltar a franga...). Falta, talvez, uma ou outra ocasião em que banda solte o ritmo e o deixe fazer a festa. Porque temas lindos de morrer já por aqui há muitos, como "Old Habits", recuperado do projecto paralelo They're Heading West, mas aqui numa versão etérea e particularmente feliz.

Patti Smith - M Train ****



"Do que perdi e não consigo encontrar, lembro-me. O que não posso ver, procuro que venha ter comigo. Trabalhando dentro de uma sucessiva corrente de impulsos, tentando aproximar-me de alguma iluminação" (do último capítulo, A hora do meio-dia), É assim o mais recente livro de Patti Smith, uma viagem no tempo pela sua paisagem íntima. Um laborioso trabalho de construção da memória. O relato do naufrágio que é a vida, com a sua incessante peregrinação de perdas, como se esse reconhecimento fosse essencial para que tudo faça sentido. 

É um livro bem diferente do anterior, Apenas Miúdos, com o qual a sua escrita ganhou notoriedade e, à semelhança deste, recebeu prémios literários e outras distinções. Nesse, havia um fio condutor, a sua relação com o fotógrafo Robert Mapplethorpe, e era à volta dessa relação que tudo acontecia, especialmente a explosão cultural alternativa na Nova Iorque do dealbar dos anos setenta. Nesse sentido, esse livro, sendo de memórias - um requiem, como a autora se refere a estes seus exercícios memorialisticos -, aproxima-se mais do romance, de uma narrativa. Agora, é simplesmente a memória a trabalhar em roda viva. Daí a letra M do título. Como quando pensamos em algo, que nos traz à memória outra memória e assim sucessivamente.

O livro começa num café de Greenwich Village - e há muitos mais cafés no livro, locais privilegiados de libertação do pensamento -, que evoca à autora o sonho de ter um café próprio, e depois uma viagem à Guiana Francesa, com o marido Fred Sonic Smith, entretanto falecido e que é outro traço de união destas histórias, em busca de pedras e terra para oferecer a Jean Genet - os escritores franceses, outra da suas predilecções. Depois deste capítulo, outras duas dezenas de "árias" se lhe seguem no mesmo registo. Este não é um livro em que música surja em primeiro plano, ou sequer em segundo, como no anterior. E Patti Smith nem gosta muito de se apresentar como música, preferindo a escrita como inclinação dominante. Mas a sua escrita, inserindo-se embora numa corrente muito americana da literatura, que cruza o descritivo seco, imagético, com o onírico e o lírico, deve à sua actividade mais conhecida uma muito evidente musicalidade. Como se estes livros pudessem ser declamados, a par do que frequentemente faz nos discos e, especialmente, nos concertos. E talvez seja essa musicalidade um dos segredos do seu sucesso editorial, a par da capacidade de nos mostrar e fazer transportar para locais e histórias.

Sean Riley and The Slowriders ****

Aquela simulação electrónica de cravo - sim, cravo - é talvez demasiado evidente, em "Swimming Pool Blues". A banda de Coimbra, mas de raízes musicais assentes em solo americano, assume agora uma sonoridade grandiloquente, quase barroca, a pedir palco grande. Este é o quarto disco do grupo liderado por Afonso Rodrigues, após um longo silêncio (a última gravação é de 2011 - "It's Been a Long Night"). E se as tais raízes estão sempre presentes, já que a base de tudo continua a ser um blues evoluído e a guitarra o seu intérprete, os quatro músicos soltam-se agora mais no acabamento das canções, gerando, apesar disso, um disco extremamente homogéneo. O elo de ligação mais evidente é a tensão criada pela cadência rítmica, mas também pela interpretação vocal. Essa tensão sonora não prejudica, porém, o lirismo que continua a ser uma das suas marcas de água, como fica bem evidente em "Díli", o single de lançamento do CD. 

Adele, Meo Arena, 21-22 Maio


Num dos primeiros concertos desta digressão, ainda em Londres, Adele falou à audiência de uns desarranjos intestinais que a tinham apoquentado durante o dia. Sim, Adele talvez chegue a soar inconveniente a alguns dos seus fãs, gente maioritariamente de uma classe média urbana que, à falta de melhor, não se importa de aplaudir os múltiplos émulos que pululam naqueles programas televisivos de talentos imitadores de estrelas. Essa simplicidade desarmante - as cenas da vida doméstica são outro dos seus tópicos preferidos - tornou-se já uma imagem de marca. Ela é a rapariga comum, com jeito (e que jeito...) para escrever canções e com uma voz de ouro que, no intervalo de afazeres certamente importantes, nos dá a honra de cantar para nós, sem paredes de vídeos, luzes que cegam, gesticulações e outras ginásticas. Não, Adele só canta mesmo. E conta histórias, é verdade. Sem menosprezo para as outras miúdas - ela até é fã de Beyoncé... - esta apenas quer dar-nos música ("dar", enfim, será uma força de expressão). A simplicidade com que se apresenta, como se imagina, dá imenso trabalho e o espectáculo é meticulosamente encenado, desde o momento em que Adele surge no palco numa plataforma elevatória, até que a mesma geringonça a engole, uma hora e meia depois. Todo um rigor de cena para fazer realçar o que realmente importa: a voz, as canções. Ao terceiro disco - recordemos: "19", "21", "25" - ela é já uma das maiores estrelas mundiais, quebra recordes de vendas atrás de recordes de vendas, faz bandas sonoras para o 007 e pode embarcar em digressões mundiais, como esta, em que, de Fevereiro a Novembro, avia mais de uma centena de concertos. Em Lisboa, onde actua pela primeira vez ao vivo, são dois. Esgotadíssimos.

The Loafing Heroes - The Baron and The Trees ****

O título do disco foi é do escritor italiano Italo Calvino. Todas as canções são escritas pelo irlandês Bartholomew Ryan. A banda tem base em Lisboa, com uns tiradas a Berlim. Há músicos americanos, alemães, italianos e portugueses. Poderiam fazer algum tipo de world music e a tentação para esse marketing rodeia a banda. Mas não. Fazem da mais pura música folk anglo-saxónica, mais precisamente irlandesa. Este é o quinto disco do projecto e, seguramente, o melhor. É difícil destacar uma ou outra canção, tal o equilíbrio de composição e cuidado colocado na encenação final. Veja-se, por exemplo, a belíssima "God's Spy" e o extraordinário casamento entre as vozes e os muitos instrumentos que por ali passeiam. "God's Spy" que, de resto, é uma espécie de desenvolvimento de uma das mais belas canções do disco, "Collapsing Star". Ou, no extremo bucólico, "Javali". Uma música para ouvir com tempo, uma espécie de "slow music". 

Emmy The Great - Second Love ****

"Second Love", título deste disco, é também um site de encontros para gente casada. Em "Hyperlink", Emma declama que "o amor é a resposta", mas declara logo de seguida que ela própria não passa de uma "confortável mentirosa". Em que ficamos, afinal? Na dúvida, claro. Esse sentimento, de duplicidade (on-off /real-virtual) e mesmo de falsidade, das redes sociais, omnipresentes em quase todas as canções. Mas de duplicidade também nas coisas mais sérias (serão?) da vida, como o amor e a falta dele. Este é, portanto, o disco perfeito para estes dias de encantamento, pelos e através dos ecrãs, seja de computador ou de telemóvel. As canções continuam a dever à folk, como no primeiro disco ("First Love", 2009), mas a abraçar, sem rodeios, a electrónica ou a simples electricidade, para criar cenários musicais de grande economia, mas de grande beleza, quase divertidos na sua diversidade. Como uma criança que brinca aos sons. 

Música para soar e suar
Florence + The Machine [Meo Arena, 17 ABR]


Poucos meses depois de terem enchido e incendiado o Meo Arena, Florence + The Machine regressam com a mesma receita. Como escreve Manuel Morgado, estas canções assombradas acabam por fazer bem à alma 

A última vez que Florence esteve em Portugal foi também no Meo Arena e o concerto acabou com ela de soutien a incitar a plateia a tirar também uma peça de roupa, ao som de "Dog Days Are Over". A ideia é vermo-nos livres do que não precisamos... É certo que estávamos em Junho, num Super Bock Super Rock de pavilhão esgotado, e a temperatura convidava até a tirar mais que uma peça de roupa... Mas também é verdade que os espectáculos dos Florence + The Machine costumam atingir uma tal intensidade, mesmo no sentido físico, que ninguém deverá queixar-se de eventuais baixas temperaturas neste regresso noutra estação. 
A música de Florence, a forma como é orquestrada e especialmente o modo como é cantada - há quem diga "gritada" -, é feita precisamente a pensar nos concertos de grandes espaços, de preferência em plateias que permitam alguma comunhão com a assistência. Porque se aqui não há qualquer espaço para a intimidade, tal é a intensidade dos décibeis, a cantora faz questão de manter uma grande interactividade com o público, ora contando as histórias, quase sempre autobiográficas, por detrás das canções, ora de uma forma ainda mais próxima, por exemplo, oferecendo flores. 
 Embora tenha estabelecido um estilo muito próprio e rapidamente identificável, nota-se que Florence Welch ouviu muito (e viu...) Kate Bush, mas que também interiorizou um sentido de espectáculo a que nos habituou, por exemplo, Madonna (na entrega e na plasticidade do espectáculo), e até mesmo os Led Zeppelin, sendo que as piruetas e a forma como se desloca com rapidez e àvontade pelo palco fazem lembrar os melhores dias de Robert Plant. A digressão mundial que agora está a realizar insere-se na promoção do seu último disco, "How Big, How Blue, How Beautiful" (2015), um tudo nada menos histriónico que os anteriores. Mas estes são também concertos em que a banda aproveita para revisitar os temas das edições anteriores: "Lung" (2009) e "Cerimonials" (2011). É, por isso, expectável que pelo Meo Arena desfilem todos os temas que já tornaram os Florence + The Machine num poderoso fenómeno de vendas (o disco mais recente subiu ao primeiro lugar dos tops do Reino Unido e dos EUA). Em Lisboa vão, por isso, ecoar de novo versões aditivadas de "Shake It Out", "Ship to Wreck", "What Kind of Man" ou "You've Got The Love". 
Os portugueses já o sabem (além da passagem pelo SBSR, a banda visitou-nos, em 2010, logo após o lançamento do primeiro disco): a um concerto dos Florence + The Machine não se vai para ficar sentado, ou sequer quieto. Seja por identificação com a irrequietude de Florence em palco, seja pelo próprio apelo da música (uma mistura de raízes folk, que no terceiro disco ganhou contornos soul mais acentuados), é tempo de dançar e saltar. No fundo, deitar cá para fora todos os fantasmas, amores e desamores e outras dores, que povoam e assombram esta música. A ideia é mesmo essa: exorcizar, pela exposição e pela intensidade, tudo o que nos corre menos bem. E assim, de forma um tanto paradoxal, esta acaba por ser música que faz bem. Ao corpo e à alma.

Elliott Smith - Heaven Adores You ****

Elliott Smith morreu aos 34. Neste disco, há um longo e complexo tema escrito e gravado aos 13. Discos oficiais, há apenas cinco, a que se juntam um póstumo e uma grande colectânea. Mas essa é a história oficial. Ao longo dessas duas décadas, de forma quase obcecada, foi escrevendo e reescrevendo canções, gravando versões atrás de versões. Muitas dessas gravações andam por aí, na selva digital. Este CD recolhe uma boa mão-cheia, a pretexto da banda sonora de um documentário sobre o músico de Portland lançado em 2015. "True Love" é, de longe, o tema mais surpreendente, uma canção de leve inspiração beatleana (Lennon), com uma letra que oscila entre a luz e as cinzas e instrumentos que se desenvolvem em intermináveis camadas. Muito interessantes são igualmente os excertos instrumentais, dominados pelas guitarras, precisamente porque se percebe que poderiam ter sido muito mais que apenas isso. Um disco para descobrir um alma inquieta.

Old Jerusalem - A Rose Is A Rose Is A Rose *****

Não há propriamente uma ruptura - as cordas, por exemplo, já conhecem os cantos à casa - mas nunca os Old Jerusalem tinham permitido uma tão avassaladora invasão orquestral. E o resultado não deixa de ser surpreendente, na medida em que a delicadeza que conhecíamos nesta música em nada é afectada, antes pelo contrário, ganha ainda mais espaço de respiração, como bem se ouve em "Airs Of Probity". Para quem agora chega a este som, um breve esclarecimento: Old Jerusalem é um projecto de geometria variável, alimentado, há década e meia, por Francisco Silva, a partir do Porto. Este é o seu sexto trabalho de longa duração, sendo que o disco anterior, de título homónimo, data de 2011 e, precisamente, é completamente dominado pela guitarra acústica sem muitos artifícios, numa assumpção plena do folk. Agora, mercê de uma intensa colaboração com Filpe Melo (piano e orquestrações), as canções enchem-se de sonoridades várias, que sublinham as linhas melódicas de grande elegância e dão ainda mais destaque a uma bela e ainda mais versátil voz. O tema que dá título ao disco é, talvez, o melhor exemplo desse novimento: começa com uns compassos dolentes de jazz, adorna-se de acordes marcantes de guitarra acústica, recebe o piano e outras teclas, só lhe ficando a faltar as cordas, que surgem logo a seguir, em "All The While". É muito difícil destacar um ou outro tema, já que se trata de uma colecção extremamente homogénea, com a temática da passagem do tempo como elo de ligação, e cada canção é meticulosamente acarinhada na vertente orquestral. É natural que se ouça por aqui Kings of Convenience, Iron & Wine ou Lambchop. Não se trata de influências, antes de identidade. Com a mesma naturalidade com que se cita Kris Kristofferson em "Twenties".

M. Ward - More Rain *****

Talvez se perceba melhor ouvindo o que M. Ward escreve e produz para a colaboração que mantém com Zooey Deschanel nos She & Him - são canções que vivem noutro tempo (anos 50, 60), mas que se salvam do puro kitsch através de uma intangível aura de intemporalidade. Assim é, também, a solo. No caso, o material de referência é da mesma época, mas, em vez de Burt Bacharach, temos o rockabilly ("Time Won't Wait Up") e o doo-wop ("Little Baby"). Este oitavo exercício a solo, depois do belo e melancólico "The Wasteland Companion" (2012), é assumidamente retro, cortando de alguma forma as amarras da country, mas é igualmente muito mais luminoso que o seu antecedente. Há ainda baladas intimistas ("I'm Listening", que até poderia ser gravado com Deschanel), mas são as canções mais expansivas que marcam o disco, seja "Confession", ou "Girl From Conejo Valley". Algures, o autor resumiu bem a ideia: num mundo tão cinzento, a música pode ser a salvação.

Lucinda Williams - The Ghosts of Highway 20 ****

Para quê cantar naufrágios, se não para afirmarmos a nossa condição de sobreviventes? Lucinda Williams é, desse ponto de vista, uma sobrevivente persistente. De naufrágios de alma, principalmente. Fá-lo há quatro décadas, com uma voz em que, por vezes, a dor se confunde com sensualidade; uma intensidade poética muito pouco comum; e um cruzamento de country e blues que, bastas vezes, evoca Springsteen (de quem, aliás, interpreta aqui "Factory"). A atestar a fase particularmente criativa em que se encontra, o facto de este ser o seu segundo duplo em dois anos e de estarmos perante algumas das suas melhores canções. Temas como a morte ("Death Came" e "Doors of Heaven"), ou as memórias que queremos esquecer ("Bitter Memory" ou "Close the Door on Love"), atravessam todo o disco, que, apesar disso - a tal sobrevivência... -, não resulta tão negro como se esperaria. Registo ainda para o fabuloso trabalho de guitarras (Bill Frisell e Greg Leisz), em diálogo omnipresente com a voz.

Golden Slumbers - The New Messiah****

O som das cigarras a marcar o ritmo no tema de abertura ("Foreigner") é relativamente enganador. Porque a música de Cat e Magarida Falcão tem tanto desse bucolismo, a evocar o folk intemporal, como de um cosmopolitismo de traços levemente jazzísticos ("The Hunt"). O canto que praticam, especialmente quando o rigor vocal se desenvolve sobre o rendilhado das guitarras, remete tanto para Joni Mitchell como para os exercícios modernistas sobre base celta e eslava (ouçam-se os requebros vocais de "Woke Up", por exemplo). A interpretação em duo é um esquema raro na música pop, talvez porque as omnipresentes harmonias vocais acabam por ser demasiado impositivas, deixando pouco espaço de respiração a tudo o que as rodeia (as cordas de "Love" não mereceriam outro destaque, pelo menos que as guitarras as deixassem ouvir?). Interessa, porém, o essencial: a matéria-prima é mais que suficiente para outros voos.

Adriana Calcanhotto - Loucura *****

"A vida não quer saber de mau gosto, de bom gosto", comenta Adriana Calcanhotto, num dos extras do DVD que acompanha esta edição, quando a conversa aborda o ostracismo a que Lupicínio Rodrigues foi votado (1914-1974) nos alvores da bossa nova. Mas a verdade é que, apesar das acusações de mau gosto, o "rei da dor de cotovelo" foi vastamente cantado pela geração que então eclodia (Gal, Caetano, Elis, Simone, Arnaldo Antunes). Este CD recolhe o espectáculo único que Calcanhotto dedicou a Lupicínio, em Dezembro de 2014. As valsinhas, no fundo é disso que se trata, evoluem de uma base violão/contraixo, para ganharem asas com o acordeão e especialmente com o trompete. A cantora mantém-se num registo contido, sentindo/expressando cada sílaba, como logo no início, em "Homenagem", ou mesmo na famosa "Felicidade", já em ambiente de quase festa. Tudo, afinal, com o bom gosto que a "dor de cotovelo" merece.

Aline Frazão - Insular ****

Em "Império Perdido", Aline Frazão canta "Procurei por ti, nos filmes de Bergman, nos discos do Chico" e essa poderá ser a melhor síntese do caminho que percorre neste terceiro disco. Gravado na ilha escocesa de Jura, cruza a sonoridade nórdica e plana de Giles Perring com a sensualidade da matriz africana da cantora. A omnipresente guitarra eléctrica de Pedro Geraldes (Linda Martini) é o elemento dissonante e realista, que trava qualquer veleidade de cristalização numa world music globalista, passe a redundância. É claramente um disco que quer ser também manifesto político - nem tanto pelas referências mais ou menos explícitas à situação de Angola, como em "A Prosa da Situação" ou "Langidila" - mas especialmente por constituir um radical exercício de liberdade criativa, de que "O Homem Que Queria um Barco" (a partir do Conto da Ilha Desconhecida, de Saramago), talvez seja o melhor exemplo. Um disco de descobertas.

Neil Young and Bluenote Café ***

Eis um excelente disco para filosofia de café. Do estilo: Neil Young tem, de facto, algumas canções bem desinteressantes, ou são essas canções meras vítimas das recorrentes aventuras estilísticas do autor? Contextualizemos. Em 1988, Young quis juntar uma big band aos gemidos da guitarra e lançou "This Note's For You". Nesse ano e no anterior, andou em digressão com a tal big band, a que chamou de Bluenote. A gravação que agora chega até nós é o 11.º capítulo na recuperação dos arquivos de Young e junta vários excertos dessa digressão. O resultado, como já se vira no disco de estúdio, não é particularmente brilhante, restando a tal dúvida inicial: culpa das canções, ou do estilo? A dúvida é tanto mais legítima quanto a fórmula big band não é sequer testada de forma extensiva no restante reportório. Excepção, particularmente bem conseguida, para "On The Way Home", a velhinha dos Buffalo Springfield que a Motown não desdenharia nesta artilhada versão.

They're Heading West ****

Samuel Úria, Peixe, Ana Bacalhau, Ana Moura, JP Simões, Bruno Pernadas, Capicua... e mais meia dúzia. Este disco é uma espécie de catálogo de alguma da melhor música que se tem feito em Portugal nos últimos anos. Uma música sem fronteiras, que vai do quase fado a sonoridades do universo anglo-saxónico. Reza a lenda que os quatro membros da banda apenas queriam juntar umas massas para viajar pelos states (daí o nome), mas verdade verdade é que foram juntando convidados, ao longo dos anos, para cantar canções próprias ou alheias. O disco recupera em estúdio algumas dessas aventuras de palco, funcionando os quatro como uma banda de suporte que define a matriz sonora, basicamente acústica, além de assinar algumas das composições. O resultado é espantosamente homogéneo, não padecendo dos desequilíbrios habituais neste tipo de colaborações. Uma das boas surpresas de 2015.

Jorge Palma e Sérgio Godinho - Juntos ao Vivo no Theatro Circo ****

Poderiam ter cantado uma canção de um dos ídolos comuns (Dylan, Brel, Zeca). Poderiam ter composto um novo tema a quatro mãos. Poderiam ter tomado conta de uma ou duas canções, fundi-las, reiventá-las... o diabo a sete. Mas não. A opção foi deliderada e completamente celebratória. Agora cantas tu uma minha e eu canto uma tua, mas entramos sempre os dois. Nove de Sérgio, oito de Jorge, que o respeitinho, apesar da amizade, é uma coisa muito bonita. O resultado é uma espécie de karaoke geracional, com a malta dos "entas" a cantarolar e, quiçá, a gingar ligeiramente na poltrona. Sim, com a pedalada que estavam poderiam ter arriscado mais, surpreender um bocadinho. Na opção conservadora sobressaem dois intérpretes em grande forma, a cantar, sobre arranjos de recorte também ele clássico, algumas das canções mais ouvidas em Portugal nas últimas quatro décadas. Quem pode fazer isto, se calhar não precisa de fazer mais.

Bob Dylan - The Best Of The Cutting Edge *****


As primeiras teses universitárias sobre Dylan versavam a sua poesia. E ainda há muito boa gente para quem o seu nome ecoa, especialmente, uma espécie de líder geracional, coisa que nunca foi, porque não quis. Ambas as apreciações são relativamente insuficientes para o definir, não apenas porque ficam aquém da sua complexidade enquanto artista, mas simplesmente porque o ignoram enquanto músico. Se há coisa que a Bootleg Series, iniciada em 1992, veio clarificar é precisamente o carácter vanguardista da sua expressão musical, ao revelar o processo criativo de cada fase da sua carreira. Esse aspecto é particularmente audível na avassaladora edição das Basement Tapes (2014) e, agora, nesta ainda mais espantosa The Cutting Edge, que recolhe os ensaios de estúdio e as várias versões preliminares dos seus três discos fundamentais: Bringing It All Back Home, Highway 61 Revisited e Blonde on Blonde, gravados ao longo de 14 meses (1965/66). O projecto é um tanto megalómano: uma versão de 18 discos, com todas as gravações realizadas; uma de seis discos, em que um deles contém 20 (!) versões de "Like A Rolling Stone"; e esta, que sintetiza esse período em 36 temas. Há de tudo um pouco: começos em falso, versões de demonstração só com piano, ensaios e versões verdadeiramente alternativas. Sim, muita das versões que aqui estão mostram-nos quase outras canções, seja porque o ritmo é diferente do que conhecemos, seja porque a letra não é exactamente a mesma, seja principalmente porque Dylan e os músicos ensaiavam, de facto, versões muito diversas das que conhecemos. Às vezes chegavam mesmo a abandonar alguma canção, como inexplicavelmente acontece com "She's Your Lover Now", apenas porque não atinavam com a versão correcta. Um flashback muito esclarecedor sobre o período mais criativo de um maiores criadores musicais do nosso tempo.

Lizz Wright - Freedom and Surrender ****

Lizz Wright nunca foi uma purista. O jazz, já na sua forma ligeira, sempre foi um ponto de partida, quer para aventuras nas zonas gospel, blues ou mesmo folk, quer quase sempre para jogos de sedução com a pop. Pop e sedução, eis as duas palavas-chave desta nova aventura. As canções mais ritmadas inscrevem-se claramente na linhagem da pop clássica robusta ("New Game", por exemplo), mas é no outro terreno, o da sedução, que quase todo o disco se desenvolve. Lizz Wright decidiu colocar a sua voz possante, mas aveludada, ao serviço de uma mão cheia de canções em que a sedução não é palavra vã, antes se materializa numa toada insinuante, lânguida mesmo. "Right Where You Are", em dueto com Gregory Parker, ou especialmente "Here and Now", são disso o melhor exemplo. O investimento vocal é enorme (é mais difícil segurar elegantemente estes notas, do que soltá-las em correria) e exige do ouvinte mais disponibilidade do que é habitual. Mas vale a pena.