Bob Dylan - Triplicate *****

Os títulos destas 30 canções estão impressos em cada um dos três discos que compõem a colecção. E ainda mais duas vezes: num sucinto desdobrável e no interior da capa. Em nenhum desses locais Dylan arranjou espaço para identificar os seus autores. E, no entanto, estamos perante canções de monstros sagrados do cancioneiro americano: Irving Berlin, Jerome Kern, Hoagy Carmichael, Richard Rodgers, Oscar Hammerstein... É certo que algumas serão tão conhecidas que nem precisam de apresentação – boa desculpa... – mas outras não passam de obscuras baladas. Conforme escreve Tom Piazza, no tal desdobrável – e já tínhamos percebido pelos dois discos anteriores de Dylan no mesmo registo (“Shadows in the Night”, de 2015, e “Fallen Angels”, de 2016) -, estamos perante um exercício de apropriação radical das canções. Dylan não pretende cantá-las melhor que ninguém, nem sequer descobrir e mostrar um ângulo novo sobre cada uma delas, mas apenas interpretá-las como se fosse possível nesse gesto revelar-lhes uma qualquer essência. Essa apropriação, pelos vistos, inclui a anulação de qualquer traço de autoria, algo que o próprio músico abomina, logo ele que tão cioso é dos seus direitos de autor... Enfim, mais uma das idiossincrasias do velho Bob. 
E, já agora, o crime compensa, ou seja, essa apropriação resulta? Estranhamente, sim. Estranhamente porque, à terceira ronda, a ideia de Dylan a imitar Sinatra (sim, é novamente o repertório da Voz que está na baila...) permanece uma contradição nos seus próprios termos. E compensa porque ouvir, por exemplo, “September of my Years” ou “These Foolish Things” nesta voz, com um quinteto em que apenas sobressai a guitarra, é uma experiência quase mística. Perto, talvez, do propósito disto tudo.

José James - Love in a Time of Madness ****

Se fosse necessário apresentar um exemplo contemporâneo da enorme influência de Prince na música que se pratica nos territórios de intersecção de brancos e pretos, esse disco seria esse. Especialmente nos temas colocados a meio do disco: “Last Night”, “Live Your Fantasy” e “Ladies Man”. E, se os dois primeiros são quase Prince original, já o terceiro parece herdeiro indirecto, por via de Pharrell Williams. Esta é claramente a aposta mais conseguida desta quarta gravação de José James para a Blue Note. Depois da abordagem conservadora, embora nada menor, à obra de Billie Holiday (2015) agora é a vez de experimentar uma enorme expansividade sónica pelas zonas de dança, R&B e funk. A base é frequentemente um simples e esparso pulsar electrónico (“Always There”), sobre o qual a voz de veludo de James se faz evidenciar (“To Be With You”). E depois há umas coisas mais tipo John Legend (“Remember Our Love”), que, sendo menos brilhantes, não deslustram.

The Magnetic Fields - 50 Song Memoir *****

Cinco motivos pelos quais vale muito a pena ouvir os cinco discos com que Stephin Merritt celebra o seu 50.º aniversário através de 50 canções em que toca 50 instrumentos. 
O autor. Stephin Merritt é a modos que um génio. Herdeiro dos grandes compositores americanos do século XX, pela via de Burt Bacharach, num universo a que não são alheios Phil Spector e Brian Wilson. Em 1999, publicou um triplo CD, com o título muito apropriado e literal de “69 Love Songs”, um objecto absolutamente intemporal, tal é a sua perfeição. Stephin não é a alma dos Magnetic Fields. Stephin é os Magnetic Fields. 
O conceito. Este é um disco de não-ficção, de certa maneira, no sentido em que todas as autobiografias são construções meticulosas. As palavras são do próprio autor, numa longa e interessante entrevista que integra esta edição. A cada ano da sua vida, Merritt faz corresponder uma canção. 50 no total. 
As canções. As canções não se limitam à biografia. Têm a mãe, é certo, e o gato Dionysius e os muitos amores falhados. Mas são também sobre o sujeito no seu contexto. A epidemia inicial de SIDA que ceifa as amizades em redor, os jogos de computador, Londres e Nova Iorque. As canções de Merritt são quase sempre pequenos contos, narrados com um simplicidade e naturalidade desarmantes. 
A interpretação. A imaginação à solta, como raramente se encontra na música. As canções de Merritt lembram muitas vezes caixinhas de música, pela simplicidade com que se apresentam. Mas são caixinhas sempre diferentes e a simplicidade é apenas aparente. Pouca gente casa de forma tão perfeita os instrumentos acústicos com a eletrónica, talvez pela sobriedade com que esta última é abordada. 
O amor. Não terá sido por acaso que fez um disco com 69 canções sobre o tema. Agora, destas 50, poderia juntar-lhes mais umas trinta, talvez. Da acidez da desilusão à esperança de um Cupido que acaba sempre por aparecer, nem que seja na exacta última canção. 

Regina Amália ****

Uma edição de três discos que recupera a história de amor de Itália pela nossa maior fadista. Uma história com muito pouco fado


















Amália foi, não apenas a nossa melhor fadista, mas também a artista portuguesa que atingiu maior fama mundial. Esta edição é disso a prova, através da exposição exaustiva da sua passagem por Itália, onde durante três décadas foi tratada por Regina (Rainha) Amália.
Em 1966, Amália actuou no Lincoln Center e no Hollywood Bowl, acompanhada de orquestra, em 1970 lança o disco com Vinícius, em 71 sai “Amália no Japão”, em 72 “Amália em Paris” (o Olympia é de 57...) e, em 76, sai “Amália no Canecão”. Embora sempre tenha actuado com sucesso no estrangeiro, a década que se inicia em meados dos anos 60 foi uma era de ouro na carreira internacional de Amália. No entanto, foi em Itália que alcançou o maior êxito. A fadista percorreu o país de norte a sul, encheu as maiores salas, foi incensada pela imprensa – de tudo isso esta edição dá conta e documenta.
O grande segredo de Amália para essa conquista do mundo não foi, porém, o fado, mas sim o folclore. Nessa época, lançou o seu grande disco de fado, “Com Que Voz”, com os maiores poetas lusófonos musicados por Alain Oulman, mas edita também vários discos de folclore português, alguns deles reunidos nas colectâneas “Amália Canta Portugal”. É fruta da época: a apropriação do folclore pela música clássica, vinda do início do século, estende-se à música de grande consumo, seja na pop-rock anglo-saxónica, seja, por exemplo, por cá, com o outro grande vulto português desse tempo, José Afonso. É, aliás, em 1971 que se estreia na televisão “Povo que canta”, com as recolhas etnográficas de Michel Giacometti.
Não é, por isso, de estranhar que, nesta edição, das cerca de 60 interpretações que recolhe, surjam apenas pouco mais que meia dúzia de fados. É certo que um dos discos é especificamente dedicado ao folclore italiano (e essa é outra peculiaridade da relação de Amália com o país), mas mesmo no disco que reúne a sua atuação no Teatro Sistina (Roma, Novembro de 76) o fado é escasso e o palco é todo para o folclore, seja ele português, italiano ou espanhol, ou para as derivações, como seja o “Porompompero”, um grande êxito castelhano da época que Amália incorpora no seu repertório ao vivo.
Itália, o carinho e entusiasmo com que é recebida, marcam também uma mudança mais funda em Amália. Apoiada pelos avanços tecnológicos (microfones portáteis), movimenta-se pelo palco, desenvolve grandes gestos, que definirão a sua imagem, e, tendo como pano de fundo o coro da assistência, desenvolve aquele improviso entaramelado (trálaralá) que se torna marca de água quando sai do fado e interpreta temas populares.
Esta edição, coordenada por Frederico Santiago, integra-se na cuidada reedição das suas obras iniciada há poucos anos, e disponibiliza pela primeira vez entre nós registos inicialmente destinados ao mercado italiano.
O primeiro disco reproduz o LP “A Uma Terra che Amo” (1973), que reúne dez temas do folclore italiano de vários séculos e regiões. Nos extras, surgem coisas tão dispersas, mas interessantíssimas, como versões de canções do festival de Sanremo (“Canzone Per Te”, celebrizada por Roberto Carlos), versões italianas de “Coimbra” e “Barco Negro”, ou mesmo um fado em italiano “Mio Amor, Mio Amor”, com letra de Ary dos Santos).
Os outros dois discos recuperam gravações ao vivo. A integral de “Amalia in Teatro” (76), com folclore em três línguas (impecável, o italiano falado e cantado de Amália) e alguns fados. Muito interessante, a definição de fado com que introduz “Povo que Lavas no Rio”: fado é o destino (do latim “fatum”), um “destino bruto, cativo, triste”. O terceiro disco junta gravações ao vivo realizadas em vários locais de Itália para um documentário de Augusto Cabrita, que acabou por nunca ser editado e cujas imagens desapareceram. E essa talvez passe a ser a grande falha na história de Amália – agora, que começamos a ter acesso até a algumas gravações perdidas, é pena que toda a força das suas actuações ao vivo não nos seja devolvida através de gravações de vídeo. Existirão?

Depeche Mode - Spirit ****

São tempos duros, estes que vivemos. Tempos sombrios, angulosos, frios. A música dos Depeche Mode sempre andou por territórios de uma certa aspereza, moldados pela omnipresente eletrónica. A espiritualidade dos seus temas funcionava, assim, como saída de emergência. Agora, com “Spirit”, curiosamente, é a materialidade que se impõe. A matéria das notícias, de Trump ao Brexit, da erosão da política à ilusão da economia. A resposta dos Depeche Mode desenvolve-se em três frentes: o puro niilismo sobre a condição humana (“Going Backwards” ou “The Worst Crime”); o pegar em armas contra toda esta situação (“Where’s The Revolution”); e, sim, a tal resposta espiritual de sempre, por exemplo sob a forma prosaica do amor (“So Much Love”), ou da carnalidade de “You Move”. Cinicamente, poderemos sempre concluir que toda esta crise lhes faz muito bem. Este é o melhor registo da banda em muitos anos.

Arcade Fire - The Reflektor Tapes ***

Os extras incluem um DVD inteirinho com a gravação de um concerto em Earls Court, quase duas horas em redor de “Reflektor” e um ou outro salto aos discos anteriores. A realização é banal, mas os concertos dos Arcade Fire não precisam de grandes artifícios para se tornarem em algo memorável. Ainda no capítulo dos extras, há os vídeoclips realizados para “Reflektor”, especialmente o de “Afterlife”, dirigido por Spike Jonze e interpretado por Greta Gerwig (“Frances Ha”). O menos interessante do conjunto acaba por ser a sua peça central, ou seja, o filme de Kahlil Joseph, um objecto de difícil definição, talvez porque demasiado pretensioso, tentando alcandorar-se a ensaio, quando não passa de uma colagem de segmentos, por vezes um tanto entediante. O objetivo é mostrar-nos o processo criativo da banda através das personalidades dos seus dois actores principais (Win Butler e Regine Chassagne). Ficamos a saber muito pouco. 

Them Flying Monkeys - Golden Cap ***

A tentação mais evidente será a comparação com os Tame Impala, influência evidente desta sonoridade psicadélica arrancada aos anos 70. Mas a banda de Sintra vai um pouco mais atrás e deixa-se contaminar pelos delírios de Barrett nos Pink Floyd iniciais, por exemplo em “Yellow Hearts”, ou, de forma ainda mais imersiva em “Halos”. Esse fascínio um tanto exagerado e datado pelos sintetizadores, pelas vozes e coros distorcidos, pelas quebras sucessivas de ritmo, crescendos e mudanças súbitas de tom compromete decisivamente amplitude desta música (“Leave to Relief” é quase um catálogo de efeitos sonoros). Os Tame Impala, leia-se, o sucesso comercial, fica assim comprometido por essa atmosfera demasiado planante e um tanto obsessiva. Nada disto parece fruto do acaso, até porque, apesar da juventude da banda de Sintra, o som é já bem profissional e bem construído. Agora é deixar rodar a ver o que dá.

Elbow - Little Fictions ***

Começando pelo fim. “Kindling”, a base rítmica de “Kindling”, faz lembrar os Velvet Underground. Mais exactamente “Sweet Jane”. Mas as semelhanças ficam por aí. Essa é a máxima crueza musical que os Elbow concedem a si próprios, sendo que a postura vocal muito “cool” de Guy Garvey ajuda à comparação. A banda britânica mantém-se preferencialmente em territórios mais aveludados, de que é bom exemplo o tema de abertura, “Magnificent (She Says)”, no seu compasso muito certinho, dramatizado por umas cordas de banda sonora. O CD sela o fim de um silêncio de três anos, marcado por pequenas mudanças na banda e na vida dos músicos, o que se reflecte numa toada bem mais luminosa das canções. À qual nem sequer faltam as referências um tanto sarcásticas ao Brexit, em “K2”. O resto são as pequenas histórias (“Little Fictions”), com o amor no centro, e espirais de som em redor (“Firebrand & Angel”, por exemplo).

Lula Pena - Archivo Pittoresco ****

Todas as canções numa só. Como num continuum, em que apenas os limites fisiológicos ou tecnológicos obrigam à quebra, à descontinuidade. Todas as línguas a destilarem sentido, do francês ao crioulo, do castelhano ao grego, do inglês ao puro murmúrio. Todas as músicas enlaçadas numa música universal, em busca talvez da raiz comum. O phado, sim esse fado, as mornas, o samba, a chanson, o indefinível. Em palco, é por vezes difícil perceber onde acaba Lula Pena e começa o violão, onde acaba o dedilhar e entra o tamborilar. Em disco, esse movimento é congelado no momento e temos sempre a sensação de que foi assim naquele momento, porque fosse outro e outro movimento ficaria registado. Música orgânica, gosta de dizer a autora, compositora, intérprete. Como se a música fosse a sua natureza, pouco importando que, em duas décadas, este seja apenas o terceiro registo (“Phados”, em 1998 e “Troubadour”, em 2010). Este que agora ouvimos resulta de uma encomenda feita em 2014. O resto do tempo passa-o Lula Pena em cena e impressiona visitar a sua página no Facebook e perceber como o mundo, especialmente a Europa, a ouve, e como os media de referência desses países lhe registam tão atentamente o percurso. Numa dessas entrevistas, a definição do que pretende fazer em palco: “acupunctura, tocar o ponto emocional de cada espectador. É esse o poder da música”. E é, afinal, isso que acontece, mesmo neste formato frio do digital. Mesmo o ouvido mais empedernido pelos tops da moda haverá de reagir às agulhas de melodia e melancolia que por aqui tão generosamente são oferecidas. Talvez – é só uma ideia – começando pelo fim, pela mais fácil “Come Wander with Me”, da banda sonora de Twilight Zone.

Momo - Voá ****

Quando, ao fim de minuto e meio de doçura e delicadeza de Momo, a voz de Camané irrompe poderosa, “Alfama” dispara em todas as direções. É samba? É fado? É valsa? Flamenco? Pouco importa, na verdade. Que a graça desta música é essa mesmo. Isto é, na verdade, música brasileira até ao osso (“Pensando Nele”), tem o doce balancear dos trópicos, mas não se deixa aprisionar no samba, na bossa ou em qualquer outro formato (“Mimo”, escrita com Rita Redshoes”). Momo (Marcelo Frota) é ele próprio um cidadão do mundo (“Song of Hope”), mineiro de nascimento, em Alfama há um ano, com passagem por vários pontos do globo. A sonoridade, mais luminosa e complexa que a dos seus quatro discos anteriores, deve-a à produção de outro brasileiro de Lisboa, Marcelo Camelo. Uma música ondulante, quase dançante, assente numa poética introspectiva (“Roseiras”) e melodias planantes (“Esse mar”). Bem bonito.

Rita Redshoes, Teatro Tivoli, 23 Fev


Um dos aspectos mais interessantes do último disco de Rita Redshoes é o permanente paradoxo. Nunca, como em “Her”, as canções foram tão luminosas, e, no entanto... no entanto, há uma suave melancolia que se infiltra em cada ruga desses sorrisos. 
Outro paradoxo? A simplicidade das melodias que nos apetece cantarolar de imediato esconde, na realidade, um trabalho de composição de uma complexidade de quem já domina os cantos à coisa. E depois há o paradoxo, digamos assim, do canto em português cantado por uma portuguesa de quem só conhecíamos ainda a versão anglo-saxónica. 
Victor Van Vugt, produtor, e Knox Chandler, que tratou dos arranjos de cordas do disco lançado em Novembro de 2016, reflectem sobre esses aspectos (aparentemente) contraditórios, nos webisodes criados para o lançamento de “Her” e que podem ser encontrados na Net. 
Os músicos, a sua qualidade e experiência, foram uma das apostas ganhas desta quarta gravação de Rita, num trabalho de densidade estética e técnica raramente vistas entre nós. 
É, pois, com o peso de toda essa responsabilidade que a compositora e cantora se apresenta agora em concerto nas nossas duas grandes cidades. Trabalho, diga-se, relativamente facilitado pela primeira parte da digressão, realizada, ainda o ano passado, em pequenas cidades portuguesas. 
O palco vai ser dominado por um quarteto de cordas, a que se juntam a secção rítmica (baixo/bateria) e o piano da própria. O mais certo é que consigam reencarnar o som e espírito do disco. 
Uma dúvida: irá Rita mostrar o “Heroes”, de Bowie, que gravou para disco de David Fonseca?

David Fonseca - Bowie 70 ***

A gravação de versões serve, normalmente, para que o homenageador mostre ao mundo como o seu estilo interpretativo se mescla com o ADN dos originais. Se um músico de jazz faz uma versão dos Beatles esperamos uma versão jazzística dos de Liverpool. Simples: despe-se a canção das roupas originais e cola-se-lhe à pele uma outra indumentária. Com Bowie há, porém, uma dificuldade: ele deixou marca como autor e intérprete, mas as suas canções foram também fazendo história pela pose, traduzida na produção. É, por exemplo, difícil imaginar “Absolute Beginners” sem o “pam-pam-paroum” do coro masculino, ou até sem a cascata de piano... Não estando na pauta, aquilo faz parte da canção. Que fazer, então? Talvez numa versão que mantenha algumas daquelas peças no sítio e recomponha a cena. Ou talvez, mais radicalmente, inventando algo completamente novo sobre a canção original. O disco de David Fonseca não faz uma coisa, nem outra. O músico, que toca todos os instrumentos à excepção das cordas, como que equalizou as canções, numa massa sonora muito similar ao longo do disco, sem lugar à surpresa. Os cantores, um por canção, trazem o seu estilo interpretativo, mas nenhuma das canções, nunca pretendendo reproduzir o original, consegue descolar para algo de inovador, à la Bowie. Ou seja, versões competentes, mas (demasiado) bem-comportadas. Por exemplo, “Absolute Beginners”. A cortina instrumental é densa e arrastada, o que as cordas só acentuam, e Tiago Bettencourt tem a voz que tem e nunca arranha lá em cima, como Bowie tantas vezes fazia. Felizmente, o fado de Ana Moura toma conta da cena em “The Man Who Sold the World”, Reininho é vintage em “Where Are We Now” e – sim – o próprio David Fonseca é um belo Bowie em “Lazarus”.

Dead Man Winter - Furnace ****

Poderia chamar-se Clube dos Músicos Solitários. Involuntariamente solitários, desesperadamente solitários, temporariamente solitários. Músicos que sublimam a dor da separação em discos inteiros de ir às lágrimas e, às vezes, de redenção. Dave Simonett, o mais recente membro do clube, explica a razão: ou deitava tudo cá para fora agora, ou andaria o resto da vida a cantar isto (já quase todos sabemos que não é bem assim...). Desiludam-se, porém, se vêm aqui à procura de lamúria em baladas arrastadas. As letras são amargas (“I’m full of shit”), mas a música é da boa e, de certa maneira, animadora (“Red Wing Blue Wing”, da qual consta o verso citado). Há mais de uma década que Simonett liderava a banda de bluegrass Trampled by Turtles, mas esta é a segunda aventura sob a asa dos Dead Man Winter. Byrds, Band e Dylan são as influências mais evidentes. Musicalmente, a separação fez-lhe bem. O resto sara mais depressa do que parece.

Simple Minds - Acoustic **

O formato acústico (unplugged, em inglês da MTV) é especialmente interessante quando dá a ouvir versões stripped-down (despidas, em português) de canções que conhecemos na sua forma, não apenas eléctrica, mas também orquestrada e muito perfeitinha. Ou seja, o elogio da simplicidade. Exemplos clássicos? REM e Nirvana. Já os Simple Minds acabam de inventar um novo conceito: as versões acústicas dos seus grandes temas surgem aqui envoltos em camadas e camadas de instrumentos, com destaque para as percussões e as guitarras. Uma espécie de mil folhas musical, açucarado com reverberações abundantes e alguma electrónica mal escondida, a criar um efeito de estádio de trazer por casa, entendendo-se por casa aqueles leitores de CD rodeados de colunas 5 por 1 e o diabo a sete. E, é claro, quem disser que isto lhe soa terrivelmente a qualquer coisa, essa coisa chama-se Mumford & Sons, recordistas de vendas nos últimos anos. Mentes simples? Ah ah...

The Molochs - America’s Velvet Glory ***

Na contracapa, à antiga, recomenda-se: para fãs dos Violent Femmes, Bob Dylan, The Modern Lovers, Mac DeMarco, Real Estate, Lou Reed & The Velvet Underground. A enumeração dá pistas, mas baralha bastante. Dos VU há uma citação evidente em “New York”, dos Modern Lovers há a atmosfera de garagem, mas para Dylan nem uma vénia sobra. Este é um disco de assumidas influências, mas elas andam muito mais perto dos Stones (“No More Cryin’” parece saído de Aftermath), ou até dos Pink Floyd de Barrett (“Charlie’s Lips”). O disco, na realidade, poderia ter sido gravado em 1965, tal é o descaramento com que assume a sonoridade daqueles dias de beat, garagem e psicadelismo. Lucas Fitzsimons, com uma biografia à maneira (nascimento em Buenos Aires, juventude em LA com guitarra encontrada aos 12, viagem à Índia a coroar a adolescência) é a alma de tudo. Vamos ter que esperar por uma segunda aventura para perceber se o ano de 65 é ponto de partida, ou se não sai disso mesmo.

The xx - I See You ****

Com algumas bandas, músicos em geral, vá lá, mas acontece mais com bandas, apetece perguntar: para onde vão eles? Por exemplo, com The xx. Inventam uma matriz, uma espécie de indie de matriz sintética, urbano-pouco-depressivo, gozam o sucesso planetário, repetem a dose e, depois, ao terceiro exercício, não negam nada, não inventam nada, mas fazem soar tudo um pouco diferente. O suficiente para que seja já outra coisa, sendo ainda o mesmo. O resultado é o disco mais pop da banda, sendo inevitável constatar que nunca se pareceram tanto com os Everything But The Girl, e não apenas da fase serôdia. Especialmente em certos (muitos...) fraseados de Romy Madley Croft, belíssimos, como, por exemplo, em “Brave For You”. Se bem que a matriz predominante sejam os diálogos dramaticamente contidos com Oliver Sim. Contenção que se estende, de resto, a todo o disco, obra e graça de Jamie xx, o mago das estruturas ora intensas (“Dangerous“, com aqueles trompetes sintéticos), ora esparsas (“Performance”) em que se desenvolvem estas histórias de desencontros e, agora, mais encontros. “Violent Noise”, por exemplo, fica sempre à beira de explodir na pista de dança, mas nunca sai desse limbo, precisamente por via dessa contenção extrema. Um dique que está sempre a vibrar e numa desaba. Essa energia solta-se apenas em “On Hold”, com uma citação circular e evolutiva de Hall & Oates. Um disco, enfim, feliz, especialmente quando celebra a própria felicidade, como em “Say Something Loving”. 

Kings of Leon - Walls ***

Um dos segredos mais bem guardados da música pop está na secção rítmica e no modo como o baixo e a bateria emulam o bater do coração. Ora compassado, em ritmo natural, ora acelerado por qualquer excitação temporária. Se ainda não há estudos científicos sobre isto, deveria haver, e os Kings of Leon bem poderiam doar o corpo à ciência. A batida é uma das principais características deste tipo de música, deliberadamente desenhada para os grandes estádios e para aquelas baterias de holofotes frenéticas. É fácil: pega-se numa boa dose de Strokes (“Around the World”), junta-se-lhe U2 (“Waste a Moment” – ouçam os primeiros segundos...) e chama-se Markus Bravs, produtor – voilá! – dos Coldplay e dos Mumford & Sons, e temos a coisa garantida. O sétimo disco é relativamente idêntico ao sexto e aparentado ao quinto. Não convém recuar muito, ou ainda de percebe que os King of Leon são apenas mais uma banda indie que soçobrou aos cifrões. Acontece muito.

Sting - 57th & 9th ***

Há na auto-citação de “I Can’t Stop Thinking About You”, que abre o disco, uma ironia quase fatal. Percebe-se a ideia: fazer um disco pop, ao fim de década e meia de aventuras extra-conjugais, retomando a história no ponto em que ela tinha graça, ou seja, nos gloriosos tempos dos Police. O exercício repete-se, de forma muito evidente, por exemplo em “Petrol Head”, e de forma quase involuntária no resto do disco. O regresso à pop faz-se ainda, paradoxalmente, através da aproximação ao jazz que marcou boa parte da sua carreira a solo (“You Can’t Love Me"). Estão aqui todas marcas caraterísticas de Sting, desde as baladas sussurradas (“Inshallah”), àquele ritmo um tanto empastelado (“50.000” – uma canção sobre a morte, com o pensamento em Prince e Bowie). E, como não poderia deixar de ser com Sting, há uma versão deluxe, com versões alternativas de algumas canções, vídeo e materiais gráficos. Coisa também ela irónica: não foi ainda desta que Sting regressou à pop. À simplicidade da pop.

Mafalda Veiga - Praia ***

Há vários movimentos que se vêm desenhando na carreira de Mafalda Veiga – que, a propósito, entra em 2017 na quarta década... – e que confluem harmoniosamente neste nono disco. Desde logo, a perda progressiva dos maneirismos dos primeiros anos, especialmente os que tinham a ver com a interpretação. A voz está hoje como que normalizada, e isso é muito bom. Depois, o adeus a um certo bucolismo deslocado no tempo e no espaço. Este é um disco de hoje, da nossa vida urbana (“Domingo” é, talvez, disso o melhor exemplo). Por último, a constatação que a vida é bem mais simples do que por vezes a fazemos (“Olha Como a Vida É Boa”). Mesmo as coisas mais complicadas (“O Mesmo Deus”) podem ser reduzidas a uma quase caixinha de música. Pena que outros temas, como “Todas as Coisas” ou mesmo “Praia”, não façam grande coisa para nos surpreender. Na edição especial, há três versões de ensaio, só com guitarra e voz.

Billy Bragg & Joe Henry - Shine a Light ***

Se Billy Bragg e Joe Henry tivessem optado por gravar aquelas que consideram as melhores canções de viagem (Tom Robinson, Sinatra, Jonathan Richman...), cuja lista disponibilizaram no Spotify, este seria, certamente um disco excepcional. Assim mesmo, neste registo vadio, guitarra, voz e uma escassa harmónica. A opção foi, porém, outra: gravar, nesse mesmo estilo, as canções que já nasceram nesses territórios do blues, country e folk, os standards. O resultado, sendo interessante, nunca é surpreendente. As vozes afinam de forma competente, mas rotineira. Os arranjos nunca saem dos carris da tradição. E nem o facto de as canções terem sido gravadas em estações de comboio entre Chicago e LA muda o que quer que seja. Nesta época de grande turbulência na América, um disco cheio de canções de liberdade, seja dos grandes espaços seja da luta contra a tirania, poderia fazer a diferença. Não faz.

The Rolling Stones - Havana Moon ****

O DVD começa com um plano de breves segundos de Havana. Para que não restem dúvidas, o segundo plano é uma nova e breve imagem da cidade velha, praticamente em ruínas, mais parecida com as urbes mártires do Iraque ou da Síria do que com qualquer capital de um país em paz. Se alguma mensagem política há por aqui, ela resume-se a esses quatro segundos, à exposição de uma ilha exausta. E talvez seja melhor ficar por aqui. Caso contrário, ainda nos arriscamos a perceber que Mick Jagger se “esquece” de cantar os versos de “who killed the Kennedys” em “Sympathy For The Devil”... e aí são os Stones que ficam mal na fotografia, apanhados a autocensurar-se num momento de suposta libertação. Talvez, afinal, não seja assim tão certo que “finalmente los tiempos estan cambiando”, como o mesmo Jagger proclama a uma certa altura num castelhano engraçado. Porque, usando do cinismo tão em voga nos tempos que correm, se é certo que os Stones lucraram com esta lança na pátria de Fidel, já o mesmo não se pode dizer de Havana ou dos cubanos – aquelas duas horas de concerto não mudaram nada das suas vidas. Como não têm ponto de comparação, nem deverão ter percebido que, apesar da muito visível idade, os Stones estão aí para as curvas. Com energia q.b. para interpretar com toda a garra os maiores sucessos e ainda com imaginação suficiente para reinventar muitos deles. Desse ponto de vista, estritamente musical, estamos perante um poderoso documento. DVD hiper-profissional de duas horas, mais meia de extras, e CD duplo com os mesmos temas, mas alinhamento diferente.

Rita Redshoes - Her *****

Se a arte é a busca de uma qualquer perfeição, estamos perante um objeto artístico que atinge o seu objetivo. A composição, com as linhas melódicas que já conhecemos, mas agora ainda mais depuradas, a voz que sabe conter-se mesmo quando voa (“Life Is Huge”), ou que se revela dura e angulosa quando o assunto o pede (“Vestido”). Depois, o trabalho instrumental. E é aqui que o círculo da perfeição se fecha. Valeu a pena apostar num leque de músicos de referência e num produtor experimentado. Ouça-se, por exemplo em “Bag of Love”, o casamento da base piano/baixo/bateria com as cordas e os metais... Texturas densas, complexas, mas extremamente agradáveis, que se repetem ao longo do disco. Sim, Nick Cave, Tindersticks, Tori Amos... faz lembrar tudo isso. E há ainda a aposta ganha de cantar em português, como que a marcar a fronteira entre o feminino e o feminista. Um disco justificadamente ambicioso.

Charles Aznavour - Meo Arena


Daqui a uns anos, não muitos, haverá uma entrada nas enciclopédias sobre a “chanson” que começará assim: “modo de composição e interpretação em francês, cujo último ícone foi Charles Aznavour”. Nada menos que isto: Aznavour representa, já hoje, uma arte extinta, um estilo muito próprio, símbolo da música ligeira francesa do século XX. Essas canções sobrevivem ainda pelos bares e cabarets de Paris, em versões para turista, mas cá fora já ninguém ouve coisas dessas. De alguma forma, apenas mais um reflexo da perda de influência cultural dos gauleses. Aznavour nunca teve uma voz por aí além, mas compensa essa falha com uma interpretação empenhada. Tanto mais que, na maior parte dos casos, são canções em nome próprio, histórias de amor, talvez vividas por alguém que também foi galã de cinema. Escreveu mais de 1200, cantou-as em sete línguas, ao largo de quase 300 discos, entre originais e colectâneas. “Mourir d’Aimer”, “La Bohème”, “Je m'Voyais Déjà” e tantas outras, não esquecendo a sua famosa versão de “She”, vão ser cantadas em Lisboa, como foram no Outono na América, no Japão, ou, lá mais para o fim de Dezembro, em Paris. Aos 92, mais que uma demonstração de longevidade, Aznavour dá lições de classe. Provavelmente, será a última vez que se cantará assim em francês em Lisboa.

Sam Beam & Jesca Hoop - Love Letter For Fire ***

Sam Beam é a voz e alma dos Iron & Wine, como a capa faz questão de nos recordar. Jesca Hoop é uma compositora, guitarrista e cantora das zonas indie folk, de origem californiana, mas a viver na inglesa Manchester. Era pouco provável, mas, como nas histórias de amor, encontraram-se. Para escrever e interpretar 13 histórias - cartas, dizem eles - do tal amor. E o que mais salta à vista, mantendo o registo exageradamente romântico da coisa, é que as vozes casam na perfeição, todas as canções, escritas a quatro mãos, são cantadas em diálogo permanente, como se de uma conversa se tratasse ("Every Songbird Says"). A base em que tudo assenta é o folk nu e cru ("Valley Clouds"), ou naquele registo quase pop anos 50/60 ("Kiss Me Quick"). Até certo ponto, este seria um disco aceitável na discografia dos Iron & Wine, um projeto também ele ancorado na tradição, mas em busca de outros voos.

Leonard Cohen - You Want It Darker *****

Na conferência de imprensa de apresentação deste disco, três semanas antes de morrer, Leonard Cohen prometeu, pelo menos, mais dois discos. E também que fazia tenções de viver eternamente, embora depois tenha rectificado para os 120 anos... Vale a pena recordar este episódio e a auto-ironia de Cohen para colocar as coisas em contexto e retirar o dramatismo que estes actos finais sempre comportam. É claro que este é o último disco de Cohen, embora o filho, Adam - a quem verdadeiramente o devemos, tão dramáticas foram as circunstâncias da sua conclusão, graças ao estado de saúde de Leonard -, já tenha revelado que sobraram uns temas das sessões de gravação... Tendo sido gravado nessas circunstâncias, o disco ganha inevitavelmente um estatuto de testamento, acentuado pelo facto de a totalidade das canções se debruçarem sobre o tema da finitude. Não há propriamente qualquer balanço de vida, apenas a constatação de que tudo tem um tempo. E que o tempo, na circunstância pessoal, é o do fim. Poeticamente, Cohen está ao seu melhor nível, fazendo mesmo recordar o fulgurante início de carreira ("Treaty", "Steer Your Way", ou o tema que dá título ao CD), com recurso frequente a expressões da cultura judaico-cristã que são uma das suas marcas de água. Essa intensidade poética é servida por um apuramento meticuloso e contido da componente musical, para a qual contribuem Patrick Leonard (parceiro da triologia que começou com "Old Ideas", em 2012, e prosseguiu com "Popular Problems", em 2014) e, especialmente, Adam Cohen, a quem se deve a forma final. Este é, afinal, um disco que cumpre o que promete. You Want It Darker? Aí têm.

Cass McCombs - Mangy Love ****

O que mais salta ao ouvido neste oitavo disco de Cass McCombs é a procura de consistência, coincidindo com uma mudança de editora e - quem sabe? - a procura do estrelato, de um músico até agora quase de culto. E isso é ainda mais evidente se tivermos em conta o marcado experimentalismo do seu disco anterior, Big Wheel and Others (2013). Consistência que, porém, não anula o amplo espectro em que McCombs se movimenta e que torna a sua música quase indefinível. Vai do psicadelismo dos anos 60 e 70 (If, um dos melhores temas desde disco, é disso um exemplo), ao funk versão anos 80 (Opposite House, em registo balada, ou In a Chinese Alley), passando pelas obrigatórias paisagens indie e americana. As letras continuam um tanto surreais, às vezes até descontroladas (Rancid Girl), excepção para as de cariz mais político (Bum, Bum, Bum, sobre a violência e as armas; Run Sister Run, acerca da misoginia).

The Beatles - Live At The Hollywood Bowl *****

As pessoas que assistiram às três atuações em que estas canções foram gravadas (Los Angeles, 1964 e 65) não ouviram nada disto. As que compraram o vinil de 77, a única gravação ao vivo oficial da banda, também não. Nem mesmo os Beatles alguma vez tinham ouvido isto. Tal como refere um deles no documentário a que este CD serve de banda sonora - Eight Days a Week, de Ron Howard, agora nos cinemas -, eles nem conseguiam ouvir-se uns aos outros em palco, tal era a histeria da audiência. Histeria que, no vinil de 77, abafa totalmente a música. Chega agora uma versão que consegue resgatar essas 13 canções à parede de som que se tornou símbolo da beatlemania, e ainda juntar-lhes mais quatro que andavam perdidas. Isto é História, sob qualquer das pontas por que se pegue. Um ano depois disto, os quatro abandonam os palcos e escrevem em estúdio alguns dos capítulos mais cimeiros da pop. Aqui... bom, se há quem não precise de apresentações ou descrições, os Beatles estarão certamente na frente. 

Lloyd Cole, 15 Set CCB


Repare-se na parca extensão da entrada sobre Lloyd Cole na Wikipedia, barómetro destes dias, e tirem-se as conclusões. Mais de meio século de vida e 33 de carreira não lhe trouxeram fama nem honrarias por aí além. Nem por isso desiste, antes pelo contrário. À boleia do sucesso da caixa com a discografia integral dos Commotions (Collected Recordings 1983-1989), lançada o ano passado, prepara idêntica aventura com os primeiros anos a solo (1989-1996), e, juntando os dois segmentos, anda em digressão, acústica e a solo (às vezes aparece o filho, Will, à guitarra), a recordar precisamente essas quase duas décadas. Na prática, o que o traz agora a Portugal é o desfile de êxitos, quase integralmente dos Commotions, que tanto agradam aos fãs. De fora e relevante, ficam apenas alguns temas de Music in a Foreign Language (2003) e de Standards (2013). O registo acústico, quase íntimo, potencia a inteacção com o público, uma das suas marcas de água. Desde que a sala não entre em rebuliço, por exemplo, com palmas fora de ritmo, o que o levou a interromper a actuação em aparições recentes. Não deverá acontecer por cá. Lloyd Cole e os portugueses, é sabido, têm uma relação que resiste a esses arrufos.

Marissa Nadler - Strangers ****

O disco encerra com Marissa Nadler, a solo com guitarra eléctrica, cantando "you never bring me down", em "Dissolve", uma belíssima e sincera canção de amor. Uma excepção, num disco de capa a preto e branco, e em que o refrão do tema título fala de alguém muito só que canta no escuro. As canções de Marissa Nadler são de um cinzento denso. Cinza dos amores falhados, cujo expoente talvez seja o disco anterior (July, 2014), mas cinza também pelo cepticismo em que tudo se desenvolve, e cinza, ainda, porque, apesar de toda essa negritude, há frestas de luz que insistem em aparecer. "Dissolve" é também uma excepção, porque, nesta sétima gravação, a cantora e o produtor Randall Dunn voltam a vestir as canções outrora quase folk de densidade barroca, feita especialmente de teclas e cordas. "Janie in Love" é o tema que melhor casa a velha guitarra com essa parede sonora e, por isso, o mais recompensador do disco.

Tindersticks - The Wainting Room ****

As canções dos Tindersticks dividem-se em duas categorias: as que são bandas sonoras, especialmente dos filmes de Claire Denis, e as que são filmes elas próprias, que contam histórias de forma cinematográfica. Neste disco, as canções ocupam as duas categorias. Ouvimo-las enquanto curtas metragens, mas podemos vê-las nos pequenos filmes, de vários realizadores, inspirados nas canções e publicados numa edição especial do disco. Mas fiquemo-nos pela música. Há uma canção ("We Are Dreamers!"), que sobe directamente ao top das melhores da banda - um dueto, de enorme tensão, com Jehnny Beth (The Savages); outro dueto, este diferido no tempo e em registo contemplativo, com Lhasa de Sela ("Hey Lucinda"); e ainda uma estreia, um tema de grande influência afro ("Help Yourself"). O resto é, ainda e sempre, Stuart Staples em grande forma. Uma bela celebração do 25.º aniversário dos Tindersticks.