Them Flying Monkeys - Golden Cap ***

A tentação mais evidente será a comparação com os Tame Impala, influência evidente desta sonoridade psicadélica arrancada aos anos 70. Mas a banda de Sintra vai um pouco mais atrás e deixa-se contaminar pelos delírios de Barrett nos Pink Floyd iniciais, por exemplo em “Yellow Hearts”, ou, de forma ainda mais imersiva em “Halos”. Esse fascínio um tanto exagerado e datado pelos sintetizadores, pelas vozes e coros distorcidos, pelas quebras sucessivas de ritmo, crescendos e mudanças súbitas de tom compromete decisivamente amplitude desta música (“Leave to Relief” é quase um catálogo de efeitos sonoros). Os Tame Impala, leia-se, o sucesso comercial, fica assim comprometido por essa atmosfera demasiado planante e um tanto obsessiva. Nada disto parece fruto do acaso, até porque, apesar da juventude da banda de Sintra, o som é já bem profissional e bem construído. Agora é deixar rodar a ver o que dá.

Elbow - Little Fictions ***

Começando pelo fim. “Kindling”, a base rítmica de “Kindling”, faz lembrar os Velvet Underground. Mais exactamente “Sweet Jane”. Mas as semelhanças ficam por aí. Essa é a máxima crueza musical que os Elbow concedem a si próprios, sendo que a postura vocal muito “cool” de Guy Garvey ajuda à comparação. A banda britânica mantém-se preferencialmente em territórios mais aveludados, de que é bom exemplo o tema de abertura, “Magnificent (She Says)”, no seu compasso muito certinho, dramatizado por umas cordas de banda sonora. O CD sela o fim de um silêncio de três anos, marcado por pequenas mudanças na banda e na vida dos músicos, o que se reflecte numa toada bem mais luminosa das canções. À qual nem sequer faltam as referências um tanto sarcásticas ao Brexit, em “K2”. O resto são as pequenas histórias (“Little Fictions”), com o amor no centro, e espirais de som em redor (“Firebrand & Angel”, por exemplo).

Lula Pena - Archivo Pittoresco ****

Todas as canções numa só. Como num continuum, em que apenas os limites fisiológicos ou tecnológicos obrigam à quebra, à descontinuidade. Todas as línguas a destilarem sentido, do francês ao crioulo, do castelhano ao grego, do inglês ao puro murmúrio. Todas as músicas enlaçadas numa música universal, em busca talvez da raiz comum. O phado, sim esse fado, as mornas, o samba, a chanson, o indefinível. Em palco, é por vezes difícil perceber onde acaba Lula Pena e começa o violão, onde acaba o dedilhar e entra o tamborilar. Em disco, esse movimento é congelado no momento e temos sempre a sensação de que foi assim naquele momento, porque fosse outro e outro movimento ficaria registado. Música orgânica, gosta de dizer a autora, compositora, intérprete. Como se a música fosse a sua natureza, pouco importando que, em duas décadas, este seja apenas o terceiro registo (“Phados”, em 1998 e “Troubadour”, em 2010). Este que agora ouvimos resulta de uma encomenda feita em 2014. O resto do tempo passa-o Lula Pena em cena e impressiona visitar a sua página no Facebook e perceber como o mundo, especialmente a Europa, a ouve, e como os media de referência desses países lhe registam tão atentamente o percurso. Numa dessas entrevistas, a definição do que pretende fazer em palco: “acupunctura, tocar o ponto emocional de cada espectador. É esse o poder da música”. E é, afinal, isso que acontece, mesmo neste formato frio do digital. Mesmo o ouvido mais empedernido pelos tops da moda haverá de reagir às agulhas de melodia e melancolia que por aqui tão generosamente são oferecidas. Talvez – é só uma ideia – começando pelo fim, pela mais fácil “Come Wander with Me”, da banda sonora de Twilight Zone.

Momo - Voá ****

Quando, ao fim de minuto e meio de doçura e delicadeza de Momo, a voz de Camané irrompe poderosa, “Alfama” dispara em todas as direções. É samba? É fado? É valsa? Flamenco? Pouco importa, na verdade. Que a graça desta música é essa mesmo. Isto é, na verdade, música brasileira até ao osso (“Pensando Nele”), tem o doce balancear dos trópicos, mas não se deixa aprisionar no samba, na bossa ou em qualquer outro formato (“Mimo”, escrita com Rita Redshoes”). Momo (Marcelo Frota) é ele próprio um cidadão do mundo (“Song of Hope”), mineiro de nascimento, em Alfama há um ano, com passagem por vários pontos do globo. A sonoridade, mais luminosa e complexa que a dos seus quatro discos anteriores, deve-a à produção de outro brasileiro de Lisboa, Marcelo Camelo. Uma música ondulante, quase dançante, assente numa poética introspectiva (“Roseiras”) e melodias planantes (“Esse mar”). Bem bonito.

Rita Redshoes, Teatro Tivoli, 23 Fev


Um dos aspectos mais interessantes do último disco de Rita Redshoes é o permanente paradoxo. Nunca, como em “Her”, as canções foram tão luminosas, e, no entanto... no entanto, há uma suave melancolia que se infiltra em cada ruga desses sorrisos. 
Outro paradoxo? A simplicidade das melodias que nos apetece cantarolar de imediato esconde, na realidade, um trabalho de composição de uma complexidade de quem já domina os cantos à coisa. E depois há o paradoxo, digamos assim, do canto em português cantado por uma portuguesa de quem só conhecíamos ainda a versão anglo-saxónica. 
Victor Van Vugt, produtor, e Knox Chandler, que tratou dos arranjos de cordas do disco lançado em Novembro de 2016, reflectem sobre esses aspectos (aparentemente) contraditórios, nos webisodes criados para o lançamento de “Her” e que podem ser encontrados na Net. 
Os músicos, a sua qualidade e experiência, foram uma das apostas ganhas desta quarta gravação de Rita, num trabalho de densidade estética e técnica raramente vistas entre nós. 
É, pois, com o peso de toda essa responsabilidade que a compositora e cantora se apresenta agora em concerto nas nossas duas grandes cidades. Trabalho, diga-se, relativamente facilitado pela primeira parte da digressão, realizada, ainda o ano passado, em pequenas cidades portuguesas. 
O palco vai ser dominado por um quarteto de cordas, a que se juntam a secção rítmica (baixo/bateria) e o piano da própria. O mais certo é que consigam reencarnar o som e espírito do disco. 
Uma dúvida: irá Rita mostrar o “Heroes”, de Bowie, que gravou para disco de David Fonseca?

David Fonseca - Bowie 70 ***

A gravação de versões serve, normalmente, para que o homenageador mostre ao mundo como o seu estilo interpretativo se mescla com o ADN dos originais. Se um músico de jazz faz uma versão dos Beatles esperamos uma versão jazzística dos de Liverpool. Simples: despe-se a canção das roupas originais e cola-se-lhe à pele uma outra indumentária. Com Bowie há, porém, uma dificuldade: ele deixou marca como autor e intérprete, mas as suas canções foram também fazendo história pela pose, traduzida na produção. É, por exemplo, difícil imaginar “Absolute Beginners” sem o “pam-pam-paroum” do coro masculino, ou até sem a cascata de piano... Não estando na pauta, aquilo faz parte da canção. Que fazer, então? Talvez numa versão que mantenha algumas daquelas peças no sítio e recomponha a cena. Ou talvez, mais radicalmente, inventando algo completamente novo sobre a canção original. O disco de David Fonseca não faz uma coisa, nem outra. O músico, que toca todos os instrumentos à excepção das cordas, como que equalizou as canções, numa massa sonora muito similar ao longo do disco, sem lugar à surpresa. Os cantores, um por canção, trazem o seu estilo interpretativo, mas nenhuma das canções, nunca pretendendo reproduzir o original, consegue descolar para algo de inovador, à la Bowie. Ou seja, versões competentes, mas (demasiado) bem-comportadas. Por exemplo, “Absolute Beginners”. A cortina instrumental é densa e arrastada, o que as cordas só acentuam, e Tiago Bettencourt tem a voz que tem e nunca arranha lá em cima, como Bowie tantas vezes fazia. Felizmente, o fado de Ana Moura toma conta da cena em “The Man Who Sold the World”, Reininho é vintage em “Where Are We Now” e – sim – o próprio David Fonseca é um belo Bowie em “Lazarus”.

Dead Man Winter - Furnace ****

Poderia chamar-se Clube dos Músicos Solitários. Involuntariamente solitários, desesperadamente solitários, temporariamente solitários. Músicos que sublimam a dor da separação em discos inteiros de ir às lágrimas e, às vezes, de redenção. Dave Simonett, o mais recente membro do clube, explica a razão: ou deitava tudo cá para fora agora, ou andaria o resto da vida a cantar isto (já quase todos sabemos que não é bem assim...). Desiludam-se, porém, se vêm aqui à procura de lamúria em baladas arrastadas. As letras são amargas (“I’m full of shit”), mas a música é da boa e, de certa maneira, animadora (“Red Wing Blue Wing”, da qual consta o verso citado). Há mais de uma década que Simonett liderava a banda de bluegrass Trampled by Turtles, mas esta é a segunda aventura sob a asa dos Dead Man Winter. Byrds, Band e Dylan são as influências mais evidentes. Musicalmente, a separação fez-lhe bem. O resto sara mais depressa do que parece.

Simple Minds - Acoustic **

O formato acústico (unplugged, em inglês da MTV) é especialmente interessante quando dá a ouvir versões stripped-down (despidas, em português) de canções que conhecemos na sua forma, não apenas eléctrica, mas também orquestrada e muito perfeitinha. Ou seja, o elogio da simplicidade. Exemplos clássicos? REM e Nirvana. Já os Simple Minds acabam de inventar um novo conceito: as versões acústicas dos seus grandes temas surgem aqui envoltos em camadas e camadas de instrumentos, com destaque para as percussões e as guitarras. Uma espécie de mil folhas musical, açucarado com reverberações abundantes e alguma electrónica mal escondida, a criar um efeito de estádio de trazer por casa, entendendo-se por casa aqueles leitores de CD rodeados de colunas 5 por 1 e o diabo a sete. E, é claro, quem disser que isto lhe soa terrivelmente a qualquer coisa, essa coisa chama-se Mumford & Sons, recordistas de vendas nos últimos anos. Mentes simples? Ah ah...

The Molochs - America’s Velvet Glory ***

Na contracapa, à antiga, recomenda-se: para fãs dos Violent Femmes, Bob Dylan, The Modern Lovers, Mac DeMarco, Real Estate, Lou Reed & The Velvet Underground. A enumeração dá pistas, mas baralha bastante. Dos VU há uma citação evidente em “New York”, dos Modern Lovers há a atmosfera de garagem, mas para Dylan nem uma vénia sobra. Este é um disco de assumidas influências, mas elas andam muito mais perto dos Stones (“No More Cryin’” parece saído de Aftermath), ou até dos Pink Floyd de Barrett (“Charlie’s Lips”). O disco, na realidade, poderia ter sido gravado em 1965, tal é o descaramento com que assume a sonoridade daqueles dias de beat, garagem e psicadelismo. Lucas Fitzsimons, com uma biografia à maneira (nascimento em Buenos Aires, juventude em LA com guitarra encontrada aos 12, viagem à Índia a coroar a adolescência) é a alma de tudo. Vamos ter que esperar por uma segunda aventura para perceber se o ano de 65 é ponto de partida, ou se não sai disso mesmo.

The xx - I See You ****

Com algumas bandas, músicos em geral, vá lá, mas acontece mais com bandas, apetece perguntar: para onde vão eles? Por exemplo, com The xx. Inventam uma matriz, uma espécie de indie de matriz sintética, urbano-pouco-depressivo, gozam o sucesso planetário, repetem a dose e, depois, ao terceiro exercício, não negam nada, não inventam nada, mas fazem soar tudo um pouco diferente. O suficiente para que seja já outra coisa, sendo ainda o mesmo. O resultado é o disco mais pop da banda, sendo inevitável constatar que nunca se pareceram tanto com os Everything But The Girl, e não apenas da fase serôdia. Especialmente em certos (muitos...) fraseados de Romy Madley Croft, belíssimos, como, por exemplo, em “Brave For You”. Se bem que a matriz predominante sejam os diálogos dramaticamente contidos com Oliver Sim. Contenção que se estende, de resto, a todo o disco, obra e graça de Jamie xx, o mago das estruturas ora intensas (“Dangerous“, com aqueles trompetes sintéticos), ora esparsas (“Performance”) em que se desenvolvem estas histórias de desencontros e, agora, mais encontros. “Violent Noise”, por exemplo, fica sempre à beira de explodir na pista de dança, mas nunca sai desse limbo, precisamente por via dessa contenção extrema. Um dique que está sempre a vibrar e numa desaba. Essa energia solta-se apenas em “On Hold”, com uma citação circular e evolutiva de Hall & Oates. Um disco, enfim, feliz, especialmente quando celebra a própria felicidade, como em “Say Something Loving”. 

Kings of Leon - Walls ***

Um dos segredos mais bem guardados da música pop está na secção rítmica e no modo como o baixo e a bateria emulam o bater do coração. Ora compassado, em ritmo natural, ora acelerado por qualquer excitação temporária. Se ainda não há estudos científicos sobre isto, deveria haver, e os Kings of Leon bem poderiam doar o corpo à ciência. A batida é uma das principais características deste tipo de música, deliberadamente desenhada para os grandes estádios e para aquelas baterias de holofotes frenéticas. É fácil: pega-se numa boa dose de Strokes (“Around the World”), junta-se-lhe U2 (“Waste a Moment” – ouçam os primeiros segundos...) e chama-se Markus Bravs, produtor – voilá! – dos Coldplay e dos Mumford & Sons, e temos a coisa garantida. O sétimo disco é relativamente idêntico ao sexto e aparentado ao quinto. Não convém recuar muito, ou ainda de percebe que os King of Leon são apenas mais uma banda indie que soçobrou aos cifrões. Acontece muito.

Sting - 57th & 9th ***

Há na auto-citação de “I Can’t Stop Thinking About You”, que abre o disco, uma ironia quase fatal. Percebe-se a ideia: fazer um disco pop, ao fim de década e meia de aventuras extra-conjugais, retomando a história no ponto em que ela tinha graça, ou seja, nos gloriosos tempos dos Police. O exercício repete-se, de forma muito evidente, por exemplo em “Petrol Head”, e de forma quase involuntária no resto do disco. O regresso à pop faz-se ainda, paradoxalmente, através da aproximação ao jazz que marcou boa parte da sua carreira a solo (“You Can’t Love Me"). Estão aqui todas marcas caraterísticas de Sting, desde as baladas sussurradas (“Inshallah”), àquele ritmo um tanto empastelado (“50.000” – uma canção sobre a morte, com o pensamento em Prince e Bowie). E, como não poderia deixar de ser com Sting, há uma versão deluxe, com versões alternativas de algumas canções, vídeo e materiais gráficos. Coisa também ela irónica: não foi ainda desta que Sting regressou à pop. À simplicidade da pop.

Mafalda Veiga - Praia ***

Há vários movimentos que se vêm desenhando na carreira de Mafalda Veiga – que, a propósito, entra em 2017 na quarta década... – e que confluem harmoniosamente neste nono disco. Desde logo, a perda progressiva dos maneirismos dos primeiros anos, especialmente os que tinham a ver com a interpretação. A voz está hoje como que normalizada, e isso é muito bom. Depois, o adeus a um certo bucolismo deslocado no tempo e no espaço. Este é um disco de hoje, da nossa vida urbana (“Domingo” é, talvez, disso o melhor exemplo). Por último, a constatação que a vida é bem mais simples do que por vezes a fazemos (“Olha Como a Vida É Boa”). Mesmo as coisas mais complicadas (“O Mesmo Deus”) podem ser reduzidas a uma quase caixinha de música. Pena que outros temas, como “Todas as Coisas” ou mesmo “Praia”, não façam grande coisa para nos surpreender. Na edição especial, há três versões de ensaio, só com guitarra e voz.

Billy Bragg & Joe Henry - Shine a Light ***

Se Billy Bragg e Joe Henry tivessem optado por gravar aquelas que consideram as melhores canções de viagem (Tom Robinson, Sinatra, Jonathan Richman...), cuja lista disponibilizaram no Spotify, este seria, certamente um disco excepcional. Assim mesmo, neste registo vadio, guitarra, voz e uma escassa harmónica. A opção foi, porém, outra: gravar, nesse mesmo estilo, as canções que já nasceram nesses territórios do blues, country e folk, os standards. O resultado, sendo interessante, nunca é surpreendente. As vozes afinam de forma competente, mas rotineira. Os arranjos nunca saem dos carris da tradição. E nem o facto de as canções terem sido gravadas em estações de comboio entre Chicago e LA muda o que quer que seja. Nesta época de grande turbulência na América, um disco cheio de canções de liberdade, seja dos grandes espaços seja da luta contra a tirania, poderia fazer a diferença. Não faz.

The Rolling Stones - Havana Moon ****

O DVD começa com um plano de breves segundos de Havana. Para que não restem dúvidas, o segundo plano é uma nova e breve imagem da cidade velha, praticamente em ruínas, mais parecida com as urbes mártires do Iraque ou da Síria do que com qualquer capital de um país em paz. Se alguma mensagem política há por aqui, ela resume-se a esses quatro segundos, à exposição de uma ilha exausta. E talvez seja melhor ficar por aqui. Caso contrário, ainda nos arriscamos a perceber que Mick Jagger se “esquece” de cantar os versos de “who killed the Kennedys” em “Sympathy For The Devil”... e aí são os Stones que ficam mal na fotografia, apanhados a autocensurar-se num momento de suposta libertação. Talvez, afinal, não seja assim tão certo que “finalmente los tiempos estan cambiando”, como o mesmo Jagger proclama a uma certa altura num castelhano engraçado. Porque, usando do cinismo tão em voga nos tempos que correm, se é certo que os Stones lucraram com esta lança na pátria de Fidel, já o mesmo não se pode dizer de Havana ou dos cubanos – aquelas duas horas de concerto não mudaram nada das suas vidas. Como não têm ponto de comparação, nem deverão ter percebido que, apesar da muito visível idade, os Stones estão aí para as curvas. Com energia q.b. para interpretar com toda a garra os maiores sucessos e ainda com imaginação suficiente para reinventar muitos deles. Desse ponto de vista, estritamente musical, estamos perante um poderoso documento. DVD hiper-profissional de duas horas, mais meia de extras, e CD duplo com os mesmos temas, mas alinhamento diferente.

Rita Redshoes - Her *****

Se a arte é a busca de uma qualquer perfeição, estamos perante um objeto artístico que atinge o seu objetivo. A composição, com as linhas melódicas que já conhecemos, mas agora ainda mais depuradas, a voz que sabe conter-se mesmo quando voa (“Life Is Huge”), ou que se revela dura e angulosa quando o assunto o pede (“Vestido”). Depois, o trabalho instrumental. E é aqui que o círculo da perfeição se fecha. Valeu a pena apostar num leque de músicos de referência e num produtor experimentado. Ouça-se, por exemplo em “Bag of Love”, o casamento da base piano/baixo/bateria com as cordas e os metais... Texturas densas, complexas, mas extremamente agradáveis, que se repetem ao longo do disco. Sim, Nick Cave, Tindersticks, Tori Amos... faz lembrar tudo isso. E há ainda a aposta ganha de cantar em português, como que a marcar a fronteira entre o feminino e o feminista. Um disco justificadamente ambicioso.

Charles Aznavour - Meo Arena


Daqui a uns anos, não muitos, haverá uma entrada nas enciclopédias sobre a “chanson” que começará assim: “modo de composição e interpretação em francês, cujo último ícone foi Charles Aznavour”. Nada menos que isto: Aznavour representa, já hoje, uma arte extinta, um estilo muito próprio, símbolo da música ligeira francesa do século XX. Essas canções sobrevivem ainda pelos bares e cabarets de Paris, em versões para turista, mas cá fora já ninguém ouve coisas dessas. De alguma forma, apenas mais um reflexo da perda de influência cultural dos gauleses. Aznavour nunca teve uma voz por aí além, mas compensa essa falha com uma interpretação empenhada. Tanto mais que, na maior parte dos casos, são canções em nome próprio, histórias de amor, talvez vividas por alguém que também foi galã de cinema. Escreveu mais de 1200, cantou-as em sete línguas, ao largo de quase 300 discos, entre originais e colectâneas. “Mourir d’Aimer”, “La Bohème”, “Je m'Voyais Déjà” e tantas outras, não esquecendo a sua famosa versão de “She”, vão ser cantadas em Lisboa, como foram no Outono na América, no Japão, ou, lá mais para o fim de Dezembro, em Paris. Aos 92, mais que uma demonstração de longevidade, Aznavour dá lições de classe. Provavelmente, será a última vez que se cantará assim em francês em Lisboa.

Sam Beam & Jesca Hoop - Love Letter For Fire ***

Sam Beam é a voz e alma dos Iron & Wine, como a capa faz questão de nos recordar. Jesca Hoop é uma compositora, guitarrista e cantora das zonas indie folk, de origem californiana, mas a viver na inglesa Manchester. Era pouco provável, mas, como nas histórias de amor, encontraram-se. Para escrever e interpretar 13 histórias - cartas, dizem eles - do tal amor. E o que mais salta à vista, mantendo o registo exageradamente romântico da coisa, é que as vozes casam na perfeição, todas as canções, escritas a quatro mãos, são cantadas em diálogo permanente, como se de uma conversa se tratasse ("Every Songbird Says"). A base em que tudo assenta é o folk nu e cru ("Valley Clouds"), ou naquele registo quase pop anos 50/60 ("Kiss Me Quick"). Até certo ponto, este seria um disco aceitável na discografia dos Iron & Wine, um projeto também ele ancorado na tradição, mas em busca de outros voos.

Leonard Cohen - You Want It Darker *****

Na conferência de imprensa de apresentação deste disco, três semanas antes de morrer, Leonard Cohen prometeu, pelo menos, mais dois discos. E também que fazia tenções de viver eternamente, embora depois tenha rectificado para os 120 anos... Vale a pena recordar este episódio e a auto-ironia de Cohen para colocar as coisas em contexto e retirar o dramatismo que estes actos finais sempre comportam. É claro que este é o último disco de Cohen, embora o filho, Adam - a quem verdadeiramente o devemos, tão dramáticas foram as circunstâncias da sua conclusão, graças ao estado de saúde de Leonard -, já tenha revelado que sobraram uns temas das sessões de gravação... Tendo sido gravado nessas circunstâncias, o disco ganha inevitavelmente um estatuto de testamento, acentuado pelo facto de a totalidade das canções se debruçarem sobre o tema da finitude. Não há propriamente qualquer balanço de vida, apenas a constatação de que tudo tem um tempo. E que o tempo, na circunstância pessoal, é o do fim. Poeticamente, Cohen está ao seu melhor nível, fazendo mesmo recordar o fulgurante início de carreira ("Treaty", "Steer Your Way", ou o tema que dá título ao CD), com recurso frequente a expressões da cultura judaico-cristã que são uma das suas marcas de água. Essa intensidade poética é servida por um apuramento meticuloso e contido da componente musical, para a qual contribuem Patrick Leonard (parceiro da triologia que começou com "Old Ideas", em 2012, e prosseguiu com "Popular Problems", em 2014) e, especialmente, Adam Cohen, a quem se deve a forma final. Este é, afinal, um disco que cumpre o que promete. You Want It Darker? Aí têm.

Cass McCombs - Mangy Love ****

O que mais salta ao ouvido neste oitavo disco de Cass McCombs é a procura de consistência, coincidindo com uma mudança de editora e - quem sabe? - a procura do estrelato, de um músico até agora quase de culto. E isso é ainda mais evidente se tivermos em conta o marcado experimentalismo do seu disco anterior, Big Wheel and Others (2013). Consistência que, porém, não anula o amplo espectro em que McCombs se movimenta e que torna a sua música quase indefinível. Vai do psicadelismo dos anos 60 e 70 (If, um dos melhores temas desde disco, é disso um exemplo), ao funk versão anos 80 (Opposite House, em registo balada, ou In a Chinese Alley), passando pelas obrigatórias paisagens indie e americana. As letras continuam um tanto surreais, às vezes até descontroladas (Rancid Girl), excepção para as de cariz mais político (Bum, Bum, Bum, sobre a violência e as armas; Run Sister Run, acerca da misoginia).

The Beatles - Live At The Hollywood Bowl *****

As pessoas que assistiram às três atuações em que estas canções foram gravadas (Los Angeles, 1964 e 65) não ouviram nada disto. As que compraram o vinil de 77, a única gravação ao vivo oficial da banda, também não. Nem mesmo os Beatles alguma vez tinham ouvido isto. Tal como refere um deles no documentário a que este CD serve de banda sonora - Eight Days a Week, de Ron Howard, agora nos cinemas -, eles nem conseguiam ouvir-se uns aos outros em palco, tal era a histeria da audiência. Histeria que, no vinil de 77, abafa totalmente a música. Chega agora uma versão que consegue resgatar essas 13 canções à parede de som que se tornou símbolo da beatlemania, e ainda juntar-lhes mais quatro que andavam perdidas. Isto é História, sob qualquer das pontas por que se pegue. Um ano depois disto, os quatro abandonam os palcos e escrevem em estúdio alguns dos capítulos mais cimeiros da pop. Aqui... bom, se há quem não precise de apresentações ou descrições, os Beatles estarão certamente na frente. 

Lloyd Cole, 15 Set CCB


Repare-se na parca extensão da entrada sobre Lloyd Cole na Wikipedia, barómetro destes dias, e tirem-se as conclusões. Mais de meio século de vida e 33 de carreira não lhe trouxeram fama nem honrarias por aí além. Nem por isso desiste, antes pelo contrário. À boleia do sucesso da caixa com a discografia integral dos Commotions (Collected Recordings 1983-1989), lançada o ano passado, prepara idêntica aventura com os primeiros anos a solo (1989-1996), e, juntando os dois segmentos, anda em digressão, acústica e a solo (às vezes aparece o filho, Will, à guitarra), a recordar precisamente essas quase duas décadas. Na prática, o que o traz agora a Portugal é o desfile de êxitos, quase integralmente dos Commotions, que tanto agradam aos fãs. De fora e relevante, ficam apenas alguns temas de Music in a Foreign Language (2003) e de Standards (2013). O registo acústico, quase íntimo, potencia a inteacção com o público, uma das suas marcas de água. Desde que a sala não entre em rebuliço, por exemplo, com palmas fora de ritmo, o que o levou a interromper a actuação em aparições recentes. Não deverá acontecer por cá. Lloyd Cole e os portugueses, é sabido, têm uma relação que resiste a esses arrufos.

Marissa Nadler - Strangers ****

O disco encerra com Marissa Nadler, a solo com guitarra eléctrica, cantando "you never bring me down", em "Dissolve", uma belíssima e sincera canção de amor. Uma excepção, num disco de capa a preto e branco, e em que o refrão do tema título fala de alguém muito só que canta no escuro. As canções de Marissa Nadler são de um cinzento denso. Cinza dos amores falhados, cujo expoente talvez seja o disco anterior (July, 2014), mas cinza também pelo cepticismo em que tudo se desenvolve, e cinza, ainda, porque, apesar de toda essa negritude, há frestas de luz que insistem em aparecer. "Dissolve" é também uma excepção, porque, nesta sétima gravação, a cantora e o produtor Randall Dunn voltam a vestir as canções outrora quase folk de densidade barroca, feita especialmente de teclas e cordas. "Janie in Love" é o tema que melhor casa a velha guitarra com essa parede sonora e, por isso, o mais recompensador do disco.

Tindersticks - The Wainting Room ****

As canções dos Tindersticks dividem-se em duas categorias: as que são bandas sonoras, especialmente dos filmes de Claire Denis, e as que são filmes elas próprias, que contam histórias de forma cinematográfica. Neste disco, as canções ocupam as duas categorias. Ouvimo-las enquanto curtas metragens, mas podemos vê-las nos pequenos filmes, de vários realizadores, inspirados nas canções e publicados numa edição especial do disco. Mas fiquemo-nos pela música. Há uma canção ("We Are Dreamers!"), que sobe directamente ao top das melhores da banda - um dueto, de enorme tensão, com Jehnny Beth (The Savages); outro dueto, este diferido no tempo e em registo contemplativo, com Lhasa de Sela ("Hey Lucinda"); e ainda uma estreia, um tema de grande influência afro ("Help Yourself"). O resto é, ainda e sempre, Stuart Staples em grande forma. Uma bela celebração do 25.º aniversário dos Tindersticks.

Red Hot Chili Peppers - The Getaway ****

A evolução das espécies aplicada à música. Ir mudando algo para que se perceba que algo muda, mas nunca mudar mais que o suficiente para que tudo fique mais ou menos na mesma. Os RHCP não são muito diferentes dos outros, mas são um dos expoentes desse darwinismo musical. Há uma fórmula - que, a brincar a brincar, já tem três décadas -, a qual assenta num punk evoluído, ensopado em soul e funk. Uma linha de baixo muito marcada, com duas ou três matrizes alternantes, curtos solos de guitarras, fugazes apontamentos de cordas, aquela voz que avia sílabas a velocidade estonteante. Neste disco, que quebra um silêncio de cinco anos, Danger Mouse substitui Rick Rubin na produção e isso nota-se na toada mais planante ("Feasting on the Flowers" e "Dreams of a Samurai". Mas, no geral está tudo na mesma ("We Turn Red"). O que é bom, a evolução das espécies é um processo lento e não se coaduna com revoluções.

The Monkees - The Good Times! ****

Os Monkees nasceram há 50 anos, numa série de TV, para macaquearem literalmente os Beatles. Tiveram tanto sucesso que os levaram a sério e eles próprios se levaram a sério. No final da década, já cantavam Carole King, Gerry Goffin, Neil Diamond e, espanto!, canções escritas pelos próprios. A partir daí, a história conta-se num instante, ao ritmo inacreditável de um disco por década. Em 1996, saiu "Justus" aquele que foi encarado com o seu último disco, até porque, ainda muito antes do desaparecimento de Davy Jones, um dos quatro fundadores, em 2012, já a banda andava aos tropeções de palco em palco. Mas em 2016, os três septuagenários restantes surpreendem com um novo e, bem bom, disco. E até Jones apareceu para dar voz a uma das canções. Uma das belezas deste disco é o modo como viaja entre décadas. Entre a recuperação de canções dos anos 60, a voz de Jones perdida numa gravação, e temas, por exemplo, de Noel Gallagher ou Andy Partridge. Tudo muito divertido.


Bob Dylan - Fallen Angels ****

Há o carteiro que toca sempre duas vezes. E há Dylan, que toca sempre duas ou três vezes. Ao longo de cinco décadas de carreira, não há disco de Dylan que sofra de solidão. No início, no auge da década de 60, na fase católica, no renascimento dos anos 2000, o que Dylan queria dizer ou demonstrar prolongou-se sempre por dois ou três discos. Volta a ser assim, com esta fase dos grandes standards da música americana centrados em Sinatra. Por isso, em 2016, temos o segundo capítulo da saga iniciada com "Shadows in the Night" (2015). A grande diferença está no tom: à melancolia e ao coração partido de "Shadows", sucede a exuberância dos amores e paixões. A voz de Dylan adapta-se quanto baste, embora a  sua debilidade característica funcione melhor no tom menor do primeiro disco. A grande melhoria está nas orquestrações, brilhantes em alguns casos ("Maybe You'll Be There", ou "Melancholy Mood"), mas sempre muito interessantes. A dúvida: haverá terceiro disco, ou irá Dylan reinventar-se novamente?

Rod Stewart, Meo Arena, 6 jul


Antes de mais, curvemo-nos. Rod Stewart foi armado cavaleiro pela Rainha, há menos de um mês, e é agora Sir Rod Stewart. Respeito, portanto. Depois, as verdades que têm que ser ditas: Rod Stewart teve momentos musicais absolutamente desprezíveis, especialmente nos anos 80 e 2000. Por último, arrumemos o preconceito: aquele penteado não lembra ao careca e o aspecto geral é geralmente de fugir. Feitas as advertências, vamos ao que interessa. Aos 71, com 47 de carreira, Rod Stewart pode orgulhar-se de poder encher uns dois CD (vá lá, CD e meio...) de sucessos absolutamente irrepreensíveis, na melhor escola do cruzamento da pop, com o blues, o folk e até o country. Pode mesmo dizer-se que nenhum outro teve tanto sucesso comercial com tais ingredientes fundamentais da pop. E sempre com uma extraordinária coerência na interpretação daquilo que é um dos mistérios principais da música, de toda a música: a diversão. Tudo pela diversão, "just for fun". E é isso que vem fazer, uma vez mais, a Lisboa: desfilar êxitos atrás de êxitos. Os mais velhos vão abraçar-se e dançar, se tiverem pedalada, e os mais novos têm aqui uma oportunidade de ver e ouvir um verdadeiro artista em acção.

Minta & The Brook Trout - Slow ****

Se o blues tivesse nascido nas margens do Mediterrâneo, provavelmente seria assim, ainda mais indolente, da calma que vem do calor, do céu azul, e das noites abafadas e brisas imaginadas. Se a folk americana tivesse nascido nas margens do Mediterrâneo, etc., etc.. As influências de Francisca Cortesão, autora destes onze temas, cantora, multi-instrumentista, com especial predilecção pelas guitarras, produtora e alma dos Minta & The Brook Trout (designação inspirada em Virginia Woolf e Sufjan Stevens), são clara e assumidamente anglo-saxónicas, especialmente americanas, mais concretamente os blues e o folk. Este é terceiro disco de longa duração da banda (homónino, em 2009, e Olympia, em 2012) e assinala algumas mudanças no elenco - a Francisca, Mariana Ricardo e Nuno Pessoa, juntam-se agora Bruno Pernadas (guitarra) e Margarida Campelo (teclas). O título deste CD, Slow, dizem eles, resulta do longo tempo que levou a fazer, mas aplica-se na perfeição ao tipo de música que desde sempre praticam. Uma música serena, sem pressas, extremamente contida, mesmo quando - como acontece mais que uma vez neste disco - o apelo à dança seja por demais evidente (por exemplo, em "Bangles", ou "Sand"). Trata-se, muitas vezes, de uma lentidão apenas aparente, que deriva mais da indolência da voz principal e da contenção instrumental, que do próprio ritmo interno das canções (por exemplo, "I Can't Handle The Summer" seria toda outra canção se a banda quisesse, digamos, soltar a franga...). Falta, talvez, uma ou outra ocasião em que banda solte o ritmo e o deixe fazer a festa. Porque temas lindos de morrer já por aqui há muitos, como "Old Habits", recuperado do projecto paralelo They're Heading West, mas aqui numa versão etérea e particularmente feliz.

Patti Smith - M Train ****



"Do que perdi e não consigo encontrar, lembro-me. O que não posso ver, procuro que venha ter comigo. Trabalhando dentro de uma sucessiva corrente de impulsos, tentando aproximar-me de alguma iluminação" (do último capítulo, A hora do meio-dia), É assim o mais recente livro de Patti Smith, uma viagem no tempo pela sua paisagem íntima. Um laborioso trabalho de construção da memória. O relato do naufrágio que é a vida, com a sua incessante peregrinação de perdas, como se esse reconhecimento fosse essencial para que tudo faça sentido. 

É um livro bem diferente do anterior, Apenas Miúdos, com o qual a sua escrita ganhou notoriedade e, à semelhança deste, recebeu prémios literários e outras distinções. Nesse, havia um fio condutor, a sua relação com o fotógrafo Robert Mapplethorpe, e era à volta dessa relação que tudo acontecia, especialmente a explosão cultural alternativa na Nova Iorque do dealbar dos anos setenta. Nesse sentido, esse livro, sendo de memórias - um requiem, como a autora se refere a estes seus exercícios memorialisticos -, aproxima-se mais do romance, de uma narrativa. Agora, é simplesmente a memória a trabalhar em roda viva. Daí a letra M do título. Como quando pensamos em algo, que nos traz à memória outra memória e assim sucessivamente.

O livro começa num café de Greenwich Village - e há muitos mais cafés no livro, locais privilegiados de libertação do pensamento -, que evoca à autora o sonho de ter um café próprio, e depois uma viagem à Guiana Francesa, com o marido Fred Sonic Smith, entretanto falecido e que é outro traço de união destas histórias, em busca de pedras e terra para oferecer a Jean Genet - os escritores franceses, outra da suas predilecções. Depois deste capítulo, outras duas dezenas de "árias" se lhe seguem no mesmo registo. Este não é um livro em que música surja em primeiro plano, ou sequer em segundo, como no anterior. E Patti Smith nem gosta muito de se apresentar como música, preferindo a escrita como inclinação dominante. Mas a sua escrita, inserindo-se embora numa corrente muito americana da literatura, que cruza o descritivo seco, imagético, com o onírico e o lírico, deve à sua actividade mais conhecida uma muito evidente musicalidade. Como se estes livros pudessem ser declamados, a par do que frequentemente faz nos discos e, especialmente, nos concertos. E talvez seja essa musicalidade um dos segredos do seu sucesso editorial, a par da capacidade de nos mostrar e fazer transportar para locais e histórias.