Van Morrison - Three Chords and the Truth ****

Van Morrison é um caso raro. Um caso sério. Desde logo porque, tendo ele inventado um estilo muito próprio – aquela mistura de blues, gospel, country, jazz, música celta – parece ter inventado também o antidoto para a monotonia e o aborrecimento. Ao fim de centenas e centenas de canções, continuamos com a agradável sensação de que é tudo novo, tudo excitante como da primeira vez. Se tivermos em conta que, aos 74, já leva com 41 discos gravados, seis dos quais nos últimos quatro anos (belíssima coleção de standards dos blues, jazz ou soul), a admiração é ainda maior. Este registo é composto por 14 originais em nome próprio e um em coautoria. À habitual mestria vocal e instrumentação exuberante (destaque para o órgão, as guitarras e o baixo), junta-se uma arte de composição de recorte clássico e sofisticado. “Nobody in Charge”ou “Does Love Conquer All?”, por exemplo, demonstram tudo isso. O resto não lhe fica atrás.

Leonard Cohen - Thanks for The Dance ****

Estas nove canções resultaram, evidentemente, das sessões de gravação de “You Want It Darker”, o disco que, em 2016, acabou por ser o inesperado testamento de Leonard Cohen. O velho leão, ferido por um cancro e preso a uma cadeira ortopédica, cantou e declamou alguns dos seus derradeiros poemas, com o filho, Adam, nas lides instrumentais. 
Dessas sessões resultou esse primeiro disco, sombrio e premonitório, no seu labor em redor da morte, com uma gravitas própria, que lhe adveio do desaparecimento sobreveniente. As canções que agora nos chegam são inevitáveis segundas escolhas dessa sementeira. 
Apesar de ter gravado apenas a voz, na prática, Cohen deixou as canções praticamente prontas, ao imprimir a cada uma o cânone desenvolvido nos últimos anos, especialmente a partir de “Old Ideas” (2012). O filho, acompanhado de uma vaga de estrelas (Beck, Feist, Patrick Watson, Damien Rice, músicos dos National e dos Arcade Fire) – que, diga-se em abono da verdade, primam pela discrição – limitou-se a encontrar as orquestrações que rodeiam a voz, num trabalho não muito diferente do que fizera no primeiro disco. 
O resultado, interessante pela utilização meticulosa de instrumentos e coros (de que é excelente exemplo o tema-título), acaba por ser demasiado conservador, por absoluta falta de sentido do risco. Cohen, na posse total das capacidades vocais, canta o amor, a religião e o sexo (“Happens to the Heart”, ou “The Night of Santiago”), também sem surpresa, ou algo que coloque estas canções em qualquer top coheniano. “Puppets” ou “The Hill”, por exemplo, têm claramente potencialidades que não foram exploradas. 
Apesar de tudo, fica-se com a sensação de que, entre pai e filho, poderíamos ficar toda uma eternidade a ouvir canções destas.

The National, 12 dezembro, Campo Pequeno


Bem-vindos, trintões – ora, ora, onde isso já vai –, bem-vindos, quarentões e mesmo cinquentões à subida ao palco da vossa desilusão. Nunca uma banda terá representado tão bem os dramas domésticos de rotina e tédio (“Apartment Story”, “Conversation 16”), o erotismo sofisticado (“Slow Show”), o amor louco, furioso e destruidor (“Terrible Love”), de uma geração de jovens adultos, urbanos e depressivos, como nos filmes. Uma banda que levou tão longe o conceito, que trouxe para os discos a família e a vida doméstica e com elas a rotina e o tédio de “I’m Easy to Find” (2019), um disco que, repetindo a temática e o ambiente musical tenso, se ouve sem sobressalto de uma ponta à outra. Dessas 16 canções, uma mão cheia razoável vai estar agora em palco, não lhe faltando as vozes femininas em contraponto com a voz cava de Matt Berninger. “Not in Kansas” e inevitavelmente “Light Years” são as duas baladas obrigatórias desta colheita, para cantar, como de costume, em coro, e dançar ou ondular simplesmente, conforme a condição física ou amorosa. Mas as canções mais recentes funcionam apenas como pontes para uma revisitar da carreira de quase duas décadas da banda de Ohio, que teve entre 2007 (“Boxer”) e 2010 (“High Violet”) o seu indiscutível pico criativo. “Fake Empire” é a canção-símbolo dessa época e o hino por excelência destes concertos.

Mark Lanegan Band - Somebody’s Knocking ****

Que disco mais adequado para Dia de Finados, Halloween e outras festas dos mortos. Sim, festas. Mark Lanegan continua negro, negro, quase tétrico, mas agora cada canção é, na prática, um convite à dança. Uma dança de esqueletos, uma festa a que todos comparecem vestidos de negro. Mas decididamente festa, seja no registo eletrónico, seja nas guitarras que neste disco ganham claramente aos sintetizadores e caixas de ritmos que marcaram a sonoridade dos discos da última década. A electrónica ainda aqui anda, e domina mesmo algumas canções, como “Dark Disco Jag” ou o disco de “Penthouse High”, com as suas referências a fantasmas, por entre aquela batida de uma alegria contagiante. Mas é nas canções dominadas pelas guitarras, como “Disbelief Suspension”, “Sticht It Up” ou, por exemplo, “Gazing from the Shore”, que Mark solta a franga e põe todo a gente a dançar ao som de poderosos riffs. Por uma hora e tal, a vida vence a morte.

Nick Cave - Ghosteen *****

Um disco assumidamente à procura de paz, verso repetido insistentemente no tema final, a longa epopeia de 14 minutos de “Hollywood”. Um disco sobre a perda, declamada na mesma canção, com referências explícitas à morte do filho adolescente há uns anos – e abordada de forma mais extensiva e simbólica em “Ghosteen Speaks”. Mas também um disco de reencontros, de amor nas suas mais variadas formas, de religião e fantasmas.
Este é um Nick Cave reflexivo, servido por uma estrutura musical que, aqui como nunca antes de forma tão clara e deliberada, serve esse propósito de uma introspeção que deambula à face da terra numa busca permanente da tal paz, que em última instância pode já não ser deste mundo. 
Aqui não há guitarras, eléctricas ou outras, nada que se pareça com uma secção rítmica tradicional. O pulsar das canções é definido por uma eletrónica omnipresente, espectral, sobre a qual evoluem frequentemente sussurros, coros e meros esboços vocais (“Galleon Ship”). Lençóis planantes, de um barroquismo sereno. De outros tempos resta o piano, por exemplo em “Waiting For You”, ela própria uma balada de amor a lembrar tantas outras de uma já longa discografia. “Night Raid”, no seu relato de uma noite num quarto de hotel, mas também na cenografia do coro feminino, remete-nos inevitavelmente para um universo coheniano, numa daquelas aproximações que sempre nos pareceram evidentes, mas um tanto improváveis. 
A um conjunto de oito canções, a que Cave chamou de “filhos”, segue-se um segundo disco, com dois longuíssimos temas, separados por uma breve declamação, os “pais”. E é aí que “Hollywood” funciona como que um exorcismo final, arrumando neste capítulo um ciclo de dor do qual será possível sair. Ou talvez não, veremos.

Metronomy - Forever ****

Quem consegue chegar ao fim deste verão sem provar um gelado de caramelo salgado? Até os supermercados low cost os têm. Um sabor de verão preservado para a eternidade, em mais uma daquelas canções muito bem dispostas dos Metronomy, um cruzamento de Bee Gees, era disco, com os Pet Shop Boys (ou será Kraftwerk?). Joseph Mount continua a escrever canções que tanto dão para as pistas de dança, como para os mais cool sunsets – sim, esta música é verão puro – de estrutura basicamente funk, cobertura essencialmente eletrónica, com uns riffs de guitarra que sabem tão bem como os toppings. Esse registo, também em “Lately” ou “Insecurity”, tem neste sexto disco da banda um contraponto talvez demasiado expressivo em temas mais experimentais (“Forever is a Long Time” e “Miracle Rooftop”), que funcionam como espaço de respiração, mas que não deixam de ser uns baldes de água fria que por aqui vão aparecendo.

Iggy Pop - Free ****

A fúria celebratória do ano de 1969, obviamente, passou ao lado do primeiro disco (homónimo) dos Stooges, que cunhou aquilo que conhecemos por punk rock. Iggy Pop, que na altura tinha por hábito sair do palco ensanguentado, é hoje um rebelde sereno e também ele se esqueceu da efeméride. A marca mais notória deste seu 18.º disco a solo é a total imersão no ambiente do jazz, seja nos temas mais vibrantes (“James Bond”, “Loves Missing”), seja especialmente nos mais atmosféricos, em que se destacam a abertura, com a declaração de princípios “I wanna be free” (quero ser livre) e as três declamações finais, que incluem um poema de Lou Reed (“We Are The People) e “Do Not Go Gently”, de Dylan Thomas. O trompetista Leron Thomas e a guitarrista Noveller são os grandes artifíces do som que por aqui se ouve, surfando basicamente sobre ritmos e sintetizadores. Apesar da evidente bipolaridade, este é já um dos melhores discos de Iggy Pop, correndo embora o risco de desagradar a gregos e troianos, precisamente devido a essa aposta de corrida em duas pistas.

Josh Ritter - Fever Breaks ***

Josh Ritter anda nisto há 20 anos e 10 discos. Num mundo – o da música pop e arredores – em que a novidade é o combustível, inventou uma fórmula discreta de sobrevivência, que consiste em inovar apenas o suficiente para prosseguir caminho numa estrada de trilhos conhecidos e seguros. Herdeiro das grandes sonoridades americanas, que podem ir de Dylan a Neil Young, de Tom Petty a Springsteen, faz-se rodear neste disco de Jason Isbell (produtor) e da sua banda de apoio, os Unit 400. O resultado é um som mais consistente e cuidado, sobre o qual Ritter tece o mais tradicional cancioneiro americano, sejam as canções de amor e separação (“On The Water”), sejam as de maior envolvimento político (“The Torch Committee” e “All Some Kind of Dream”, pela qual passa o drama o dos refugiados). “Old Black Magic” e “Losing Battles” são dois hinos de guitarras vibrantes, “Blazing Highway Home”, o reverso acústico.

Julia Saphiro - Perfect Version ***

Das Childbirth e, especialmente, das Chastity Belt, por onde andou na última década, Julia Saphiro trouxe apenas o amor sem reticências ao poder encantatório das guitarras. Tudo o resto é diferente, se não oposto. Onde antes havia sentido de humor e interação com o mundo lá fora, há agora fechamento sobre si própria, reflexão sobre a vida, as relações, o amor. Como em tantos outros casos, este primeiro esforço a solo é completamente autobiográfico e nasce de relacionamentos que não funcionaram, mas também de problemas de saúde complicados. Nem por isso, no entanto, se torna um disco de difícil audição. Provavelmente pelas guitarras (cristalinas em “Natural”, agrestes em “Harder to Do”), talvez pela doce melancolia à la Beach House (“Shape”), talvez pela harmonia global de um exercício, em que Julia Shapiro compõe, canta e toca todos os instrumentos, excepção para um trompete e uns violinos. De tudo resulta uma certa curiosidade sobre os próximos capítulos.

Pixies - Beneath the Eyrie ***

Há um odor a ressurreição, apesar de tanta morte, fantasmas, bruxas, seres sobrenaturais que por aqui vagam. Este é o terceiro disco desta segunda vida dos Pixies, iniciada em 2014, após um interregno de 13 anos. E se, nos dois discos anteriores desta fase, havia um certo desnorte, agora a banda parece ter acertado numa sonoridade que se renova indo buscar elementos ao passado (1988-2014), sem dele ficar refém. Há, por isso, abordagens mais libertas, como o pós-country de “Bird of Prey” (alguém falou em Leonard Cohen?). Há baladas quase sem espinhas (“Silver Bullet”), não fossem os inevitáveis riffs de guitarra. E, claro, há os temas, como “On Graveyard Hill” ou “Long Rider”, que farão os fãs saltar de alegria e nostalgia. O disco foi gravado numa igreja, o que, não sendo evidente ao ouvido, terá ajudado a fixar as características mais negras, góticas mesmo, mas também a abrir caminho a um som pensado para o palco.

Frank Carter & Rattlesnakes - End Of Suffering ***

O último tema, título do disco, é uma balada acústica. Guitarra e piano, quase caixa de música, com sons de criança em fundo. O fim do sofrimento, eventualmente tentativa de ritual de passagem para qualquer coisa. O resto do disco é catarse pura, com Frank Carter a exorcizar demónios (“Supervillain”, “Little Devil”), separações, traumas avulsos (“Latex Dreams”). Nada de novo, apenas um pouco mais cinzento que o habitual. O resto é que já lhe conhecemos, desde os Gallows da década passada, mas especialmente desde o primeiro com os Rattlesnakes, em 2015. Um fundo e atitude punk (“Heartbreaker”), a atracção fatal pelo hard-rock (“Love Games” – deliciosa a citação explícita do “Losing Game”, de Amy Winehouse), para acabar numa certa banalidade das bandas de estádio inglesas (“Crowbar”). Por entre tanta evidência, as guitarras roucas de “Angel Wings“ assumem contornos de quase experimentalismo.

Efterklang - Altid Sammen ****

O anterior disco dos Efterklang era, literalmente, um exercício sobre gelo. Gravado numa base russa abandonada no Pólo Norte, “Piramida” desenvolvia-se em avalanches sonoras de frente fria. Estávamos em 2012, no pico de um percurso iniciado por quatro dinamarqueses, uma década antes, algures entre o pós-rock, um certo neo-romantismo e muita electrónica. Os sete anos seguintes foram de silêncio do colectivo, embrenhados os seus elementos em projetos paralelos. Regressam agora, em formato de trio e com a surpresa, um tanto desagradável, de um disco integralmente cantado na língua nativa. O que, fazendo-lhes a vontade, nos priva de perceber que cantam eles – basicamente, aquilo a que poderíamos chamar de paisagismo existencialista, ou seja, reflexões intimistas com montanhas e nevoeiro ao fundo – e a focarmo-nos na música. Bem mais serena, com mais espaço para respirar, como em “Hander der Abner sig”, com uma belíssima utilização de metais, ou em “Havet Lofter Sig”, com pianos a recordar Virginia Astley e a voz a ecoar ao John Cale dos dias mais dramáticos. Há ainda uma aragem do Norte, mas o ambiente é agora bem mais acolhedor.

Penelope Isles - Until The Tide Creeps In ***

Jack e Lily Wolter são dois irmãos, separados por seis anos, criados na ilha de Man e que se reuniram em Brighton, acumulada que estava alguma experiência musical em separado. E que, por isso, vão imprimindo cunho pessoal às canções que, à vez, compõem e interpretam. O resultado é uma banda que absorve influências de algumas das coisas mais relevantes das últimas duas décadas: MGMT, Flaming Lips, Tame Impala, Radiohead... E que constrói canções pop de três/quatro minutos, com guitarras e complementos electrónicos muito desenvoltos, de que “Chlorine”, “Round” e “Leipzig” são bons exemplos. E que também se aventura em lances mais arriscados, como a longa “Gnarbone”, com psicadelismo e outros experimentalismos à mistura. Uma banda de base familiar, que cultiva memórias – o pai na capa e em “Underwater Record Store”, a mãe em “Through the Garden”. Começo auspicioso.

Momo - I Was Told To Be Quiet ****

Marcelo Frota, aliás Momo, disse algures que escreveu “Stupid Lullaby” imaginando Nina Simone a cantar “Wild is the Wind”. Entende-se bem a ideia durante o improviso vocal que encerra o tema, e também na delicadeza firme com que a canção evolui. Mas a verdade é que, nesta como noutras canções, seja na abertura seja em “Mon Néant”, por exemplo, sentem-se também muitos requebros do fado, a música com que este brasileiro do mundo convive desde a chegada a Portugal, há uns quatro anos. Esclareça-se: este é um disco radicalmente brasileiro, filho da bossa nova, parente um pouco mais afastado do samba (“Diz a Verdade”). É à bossa nova que Momo vai buscar a simplicidade e a contenção. E foi com o produtor Tom Biller que vestiu as canções de um cosmopolitismo a que não faltam caixas de ritmos e outras electrónicas. Um disco em português, inglês e francês, por onde passam todas as perplexidades da alma humana. Num registo sereno e relaxado.

Faye Webster - Atlanta Millionaires Club ****

Costumava fazer a cama, mas agora não vejo qualquer interesse nisso (“Pigeon”). Aos 21 anos, Faye Webster assina o terceiro disco, expõe uma solidão talvez inesperada para a idade e confirma uma desenvoltura musical pouco habitual, seja qual for a etapa da vida. O contexto rhythm and blues (R&B) em que tudo se passa ajuda a explicar a amplitude de espectro estilístico, mas não deixa de ser espantosa a facilidade com que aqui se viaja de uma valsa pop de raiz country (“What Used To Be Mine”) a “Come To Atlanta”, com os seus metais funk e neo-soul. Isto, claro, não esquecendo o hip-hop sereno de “Flowers”, em dueto com Father. Poderia ser apenas algo de enciclopédico, uma demonstração de virtuosismo, não se desse o facto de tudo estar estruturado de forma coerente, ligado por uma voz nada extraordinária, mas que tem o condão de nos prender às histórias que desenrola. “Kingston” é, sob qualquer ponto de vista, uma canção memorável.

Michael Bublé - 30 setembro 01 outubro altice arena


Perfeito, perfeito era o Altice Arena ter uma daquelas enormes escadarias brancas que aparecem nos filmes de Hollywood. O último degrau acabaria numa pista de dança, onde deslizariam suaves e estonteantes casais, e tudo à volta seriam mesas redondas, onde a única bebida permitida era o champanhe. Só não haveria charutos, por motivos óbvios. Mas nem vai ser necessário fechar os olhos para imaginar o cenário, a música de Michael Bublé tem a magia de nos transportar para um mundo de leveza e glamour, basta que não resistamos ao apelo. Herdeiro dos grandes crooners (Sinatra, Bennett, ou até Harry Connick Jr.), embora obviamente sem a voz do primeiro, Bublé açucarou a herança e os seus discos pingam amor. Vai no décimo, sempre com recurso aos clássicos da era de ouro do cancioneiro americano, mas também sempre com viagens ao futuro, seja através de originais próprios ou de outros compositores, seja mesmo com actualizações estilísticas relevantes. Neste último (“Love”, imaginem), de 2018, a orquestração de “My Funny Valentine” é muito interessante, na ponte que estabelece entre a grande sonoridade do século passado e uma respiração muito contemporânea, a que nem falta uma muito discreta electrónica. Da tal herança, Bublé recebe ainda um apurado sentido de espectáculo, com que transforma cada concerto num serão de histórias e bons momentos. Coisas para eternos apaixonados, nem que a eternidade sejam duas horas no embalo de uma grande orquestra.

Glen Hansard - This Wild Willing ****

Um disco excessivo. Até na duração, mais de uma hora, com várias canções a ultrapassarem a barreira dos seis minutos. Mas excessivo, principalmente, na densidade, seja das letras, histórias de muitas palavras, seja na diversidade instrumental. “Race To The Bottom”, por exemplo, consegue juntar guitarra acústica, percussões muito marcantes, coros, e muitos metais, num tema que tudo deve ao jazz, mas que termina numa toada meio árabe. E é isso mau, especialmente quando, como é o caso, até resulta numa belíssima canção? Nada disso. Cada unidade, cada canção, faz sentido assim, o problema é o todo, de audição um tanto cansativa. Especialmente na segunda metade do disco, em que os temas parecem ter menos fulgor, já longe da belíssima encenação em crescendo da abertura, ou do mesmo esquema em “Fool’s Game”, com as suas reminiscências celtas. Um disco, portanto, para ir consumindo com tempo, como os alimentos pesados o devem ser.

Norah Jones - Begin Again ****

Norah Jones tem um problema sério – começou por cima. O êxito estrondoso de Come Fly With Me (2002) colocou-lhe uma fasquia difícil de ultrapassar. E a verdade é que tem lidado muito bem com isso, sendo a ironia do título deste disco (Começar de Novo) um bom o exemplo dessa descontração. Porque, assumidamente, este é um disco em que não tenta nada. Tentou manter a chama nos discos que se seguiram à estreia e depois tentou novos e interessantes caminhos quando trocou o jazz pela electrónica. Isto de agora é quase uma brincadeira, de que se sente à vontade para o fazer. Uma colecção de singles em colaboração, especialmente com Jeff Tweedy (Wilco) e Thomas Bartlett (St. Vincent), lançados ao longo de um ano e agora reunidos. O registo é o jazzístico (“Just a Little Bit”), com dois temas (“It Was You” e “Wintertime”) a ombrearem com os melhores que já gravou. Sim, é Norah regular, sem especial golpe de asa. Mas Norah regular é muito bom.

Stephen Malkmus - Groove Denied ***

Chega-se ao último tema, mais ou menos meia hora depois do primeiro, e é inevitável perguntar o que aconteceu entretanto. “Grown Nothing” é talvez a melhor canção desta aventura a solo do ex-Pavement, na sua textura electrónica de bossa nova, com marcados solos de guitarra e uma linha rítmica belíssima. Mas é estranhamente parecida com o que Malkmus tem andado a fazer com os Jicks, e que não é muito diferente do que fazia com os Pavement: pop clássico, um pós-indie, que não desdenha a busca de eternas novidades. Essa “Grown Nothing” acaba, assim, por ficar muito distante e até algo contraditória com o tom geral do disco, totalmente dominado pela electrónica, de que o primeiro tema (um instrumental) e “Viktor Borgia” são os exemplos mais exuberantes. Fica, por isso, a dúvida sobre se este disco representa uma nova linha de exploração, ou apenas um episódio, uma brincadeira com sintetizadores.

Calexico + Iron & Wine - Years to Burn ****

A soma das partes não é mais nem é menos. É outra coisa. Há a voz e especialmente a marca composicional de Sam Beam (Iron & Wine), mas há também a sonoridade de fronteira dos Calexico. Não se trata, porém, de um disco em que, à vez, cada um exibe os seus genes, antes de um exercício de integração, que, paradoxalmente, faz todo o sentido nas cronologias distintas de busca de sentido musical. Há temas mais comerciais, como “Father Mountain”, em que as coisas são mais lineares: a melodia bucólica típica dos Iron & Wine, as guitarras e secção rítmica que são marca de água dos Calexico. Mas é nas zonas mais experimentais que esse movimento exploratório se desenvolve de forma mais explícita, como em “The Bitter Suite” – oito minutos de exploração sonora, que começam por um tema acústico em espanhol, passam por um momento de improviso jazzístico e terminam em nova balada, agora abertamente indie folk. Um longo caminho desde a primeira colaboração (In the Reins, 2005).

Joan As A Police Woman - Joanthology ****

Joan Wasser é um dos nomes mais subvalorizados da atual cena musical. Talvez o heterónimo que escolheu para as capas dos discos tenha alguma culpa no cartório, pelo efeito de distanciamento e estranheza que provoca, mas obviamente não explica tudo. Além de uma compositora de primeira água, algures entre a soul e um pós-punk elegante, Joan é uma intérprete mais que competente. Este triplo CD é uma clara tentativa de repor alguma verdade na história. Trata-se de uma escolha pessoal das melhores canções de década e meia de carreira, com alguns inéditos, seja de autoria própria (“What a World”), seja de versões, das quais “Kiss”, de Prince, é a mais expressiva. Bastante sintomática é a presença massiva do primeira disco (Real Life, de 2006), um excelente manifesto de intenções. Muito interessante é também o terceiro CD, integralmente preenchido com uma sessão ao vivo na BBC, especialmente as primeiras canções, só com piano e voz.

Rustin Man - Drift Code ****
Beth Gibbons - Symphony of Sorrowful Songs ***

Em outubro de 2002, Beth Gibbons e Rustin Man lançaram Out of Season, um disco único em todos os sentidos. Passados 17 anos, quis o destino que cada um deles lance ao mesmo tempo aqueles que são os primeiros registos em nome próprio. Longínquos formalmente, próximos na intensidade da obra de 2002. Gibbons ocupou esta década e meia com actividades esparsas, entre as quais colaborações (Rodrigo Leão, homenagem a Gainsbourg...) e o derradeiro Third (2008) dos Portishead, a banda-mãe. Em 2014, gravou com a Orquestra Sinfónica da Rádio Nacional polaca esta terceira sinfonia de Górecky, cuja primeira e pouco apreciada apresentação data de 1976, mas que tem vindo a ganhar estatuto de culto com os anos. Trata-se de obra extremamente sombria, que leva como título Sinfonia de Canções Pesarosas, sendo a orquestra dirigida, nesta versão, por Krzysztof Penderecki, conhecido, por exemplo, pelas bandas sonoras do Exorcista e de Shining. Beth Gibbons é tudo menos a soprano que a obra tradicionalmente exige. Mas o seu vibrato inseguro confere à obra uma particular intensidade, seja nas notas mais altas, seja quando o canto se transforma quase em declamação. Um exercício de uma beleza peculiar a exigir algum controlo emocional da parte do ouvinte. Já Rustin Man, o nome que esconde Paul Webb, baixista do Talk Talk, passou todos estes anos praticamente recatada em família, a transformar um velho palheiro em estúdio, no qual gravou, com incrível detalhe, uma infinitude de instrumentos e alguns amigos, este primeiro disco totalmente seu. E o que espanta logo a abrir é a voz, qualquer coisa entre a dureza de um Robert Wyatt e um Bowie tardio e nasal. Um disco à vez sumptuoso, pela exuberância instrumental mas igualmente variedade estilística, e quase rural, na dimensão das coisas simples a que amiúde regressa. Difícil destacar uma canção – talvez “Brings Me Joy” – porque se trata de um daqueles objetos que se vai revelando a cada audição. Tomara que todas as sequelas fossem como esta de Out of Season: um compositor de primeira água, duas vozes verdadeiramente fora de série.

The Divine Comedy - Office Politics ****

“Estás a ver aquela apresentação Powerpoint? Merecia uma nomeação para os Bafta...”. Sim, Neil Hannon continua divertido, perspicaz, irónico, mordaz e etc acerca deste desconcertante mundo que é o nosso. Como na história de “Norman and Norma”, que revivem os ardores amorosos da juventude numa batalha entre Saxões e... Normandos. Ou a autêntica delícia que são os cinco minutos que ficciona uma infância em comum a Philip Glass e Steve Reich, nos anos 60 de Nova Iorque e que – milagre – consegue manter-se pop, apesar da mimética minimalista. Ah, sim, este 12.º disco dos Divine Comedy é pop do mais pop que há. Seja na abordagem “de câmara”, tão distintiva (“After the Lord Mayor’s Show”), seja na electrónica mais funk (“The Life and Soul of the Party”) ou mesmo numa electrónica “de câmara” (“A Feather in Your Cap”). E quem não quiser deixar-se encantar por violinos e sintetizadores, há uma edição “deluxe”, só com “demos”.

Sei Miguel - O Carro de Fogo ****

Sei Miguel é um caso singular no panorama musical português. O seu território é o jazz, numa abordagem que ao ouvinte desprevenido poderá surgir como improviso absoluto. Erro que não resiste a uma audição mais atenta: esta é uma música muito burilada, experimentada, ensaiada. O saxofone de bolso situa-se claramente no centro de um palco, ao redor do qual se desenvolvem outras sonoridades, maioritariamente em movimentos próprios, mas por vezes também de forma mais estruturada, organizada. Em coro. Mais metais (trombone, saxofone), um baixo muito marcante, órgão bem mais discreto, várias espécies de percussão, finalmente uma guitarra eléctrica como que vinda de outras bandas. O disco – de vinil se trata – é composto de uma única peça (O Carro de Fogo) que Sei Miguel foi testando ao longo dos anos mais recentes. Um jogo admirável de equilíbrios permanentes de tensão e contenção.

Rickie Lee Jones - Kicks ***

Rickie Lee Jones adora cantar canções de outros, tanto que já vai no quarto disco de versões, em 40 anos de carreira. Não que lhe falte a criatividade para escrever as suas próprias canções, ainda em 2015 lançou o muito interessante The Other Side of Desire. As versões são, mais que uma homenagem ou um reconhecimento das influências, uma verdadeira forma de expressão. Rickie tem aquela forma muito peculiar de cantar e encenar música, com fortes raízes no jazz e uma voz cheia de fumo, agora claramente menos colorida. A surpresa neste disco é a origem dos temas: Elton John (“My Father Gun”), America (“Lonely People”), “Bad Company”, da banda homónima. Ou seja, um universo pop de temas não muito evidentes, cruzado com outros mais expectáveis (“Mack The Knife”, ou “Houston”, de Lee Hazlewood, em quase country). Nada do outro mundo, em suma. Balanço relativamente inofensivo.

Lambchop - This (Is What I Wanted to Tell You) *****

Kurt Wagner confirma neste disco o caminho que começou a trilhar em 2016, com “PLOTUS”. Em vez do country alternativo, em versão sofisticada de câmara, temos electrónica e uma voz permanentemente distorcida pelo Vocoder. É tudo uma questão de atmosfera – mas que diferença! -, porque lá atrás permanecem aquelas melodias gentis dos Lambchop, servidas por letras em que cohabitam estilhaços do real com o mais puro do onirismo. E a voz. A voz de crooner de Wagner continua a mesma, a distorção permanente nada pretende esconder. Antes pelo contrário, trata-se de uma busca incessante de novas texturas. Como aliás acontece com todo o pano de fundo, de onde amiúde emergem guitarras, harmónicas, metais, mas que na essência é constituído por construções sonoras eletrónicas e rítmicas. Uma arriscadíssima arquitectura sónica, que seduz cada vez mais a cada nova audição. A encerrar o disco, “Flower”, um pungente regresso aos Lambchop canónicos. Estará ali por acaso?

Martin Frawley - Undone at 31 ***

Na pop não há separações amigáveis e, por isso, são tantas e tão boas as canções sobre divórcios, corações partidos, vales de lágrimas. Há mesmo discos inteiros, tantos, que talvez já se pudesse formalizar uma corrente. Este primeiro registo a solo de Martin Frawley é mais um exemplar dessa espécie – Martin separou-se de Julia Mc Farlane, com quem, durante uma década, partilhou a cama e a banda australiana pouco mais que discreta Twerps. Como quase sempre acontece – fará parte da terapia? –, o estado de espírito comatoso reflecte-se em canções de letras mais ou menos reflexivas, mais ou menos depressivas, mas que do ponto de vista musical alinham pelos padrões solares e até dançantes da pop. “Chain Reaction” é o exemplo perfeito, mas o resto não é muito diferente. Martin é um discípulo, quase evidente de mais, de Lou Reed (“You Want Me?”) e venera os Velvet Underground a cada esquina (“What’s On Your Mind”). Início prometedor.

Edwyn Collins - Badbea *****

De que ingredientes se faz um disco perfeito? Sim, há a composição, a produção, a orquestração, a inspiração, o vozeirão. E aquela canção. Este disco tem isso tudo, em doses desacertadas, porque excessivas. E tem ainda aqueles ingredientes secretos que fazem da pop o mais delicioso bombom: um sentimento difuso de eterna adolescência, chamem-lhe nostalgia, e aquela magia de com o velho fazer novo. Edwyn Collins não merece ser o homem de uma só canção (“A Girl Like You”, 1994) e este disco – o terceiro após o derrame cerebral de 2005 que o deixou meio paralisado, sem memória e literalmente sem palavras – é uma prova contundente. Collins e um grupo de amigos passeia-se com um à-vontade extraordinário entre toadas tex-mex com metais de circo (“I Guess We Were Young”), funk eletrónico q.b. (“Glasgow to London”), punk puro (“Outside”), baladas de raiz folk (“Beauty” e “Badbea”) e mais uma série de coisas entre o R&B e soul. A tal perfeição.

John Paul White - The Hurting Kind ****

Como se Roy Orbison tivesse regressado para ensinar as novas gerações a cantar coisas de partir o coração, feridas saradas com sal, desespero alimentado de memórias e, enfim, outras histórias de amor. O terceiro disco a solo de John Paul White – após a aventura dos Civil Wars (2009-14), com Joy Williams – é um mergulho profundo no country mais comercial dos anos 1960. É um disco sem contemplações: se é necessário falsetto, faça-se falsetto (“My Dreams Have All Come True”); se Roy Orbison é a referência evidente, cante-se descaradamente à Orbison (“I Wish I Could Write You a Song”); se não há country que se preze sem um dueto, que se convide Lee Ann Womack para uma daquelas canções de deixar tudo a sangrar (“This Isn’t Gonna End Well”). O tema de abertura (“The Good Old Days”) ainda ironiza levemente os anos Trump e o tema-título é sobre a violência nas relações, mas o resto é mesmo só sobre a desgraça do amor. Sempre deu excelentes canções e estas não são excepção.

Salvador Sobral - Paris, Lisboa ****

Comecemos pela Eurovisão. O próprio Salvador Sobral não resistiu ao flirt e inclui aqui uma versão do tema de Francisca Cortesão (Minta & The Brook Trout) e Afonso Cabral, em que apostava no Festival de 2018. “Anda Estragar-me os Planos”, cantada por Joana Barra Vaz, ficou pelo caminho, e renasce neste disco numa versão exuberante, marcada pela sonoridade do rajão madeirense e ritmos africanos. Ambiente de festa, ou não fosse este um disco de estúdio, mas que por vezes (e é o caso...) mais parece uma actuação ao vivo. Eurovisão, ainda, porque se há aqui um tema que poderia ser a sequela de “Amar Pelos Dois”, essa canção é “Benjamin”, no seu recorte clássico, assente numa melodia de fácil absorção. A Eurovisão foi o acidente feliz na carreira de Salvador Sobral – permitindo-lhe, por exemplo, gravar um disco nas excelentes condições deste, ou abrindo-lhe as portas dos palcos do mundo –, mas Paris, Lisboa deixa claro que a contaminação só ocorreu num sentido. Salvador Sobral continua a interpretar música essencialmente estruturada a partir do jazz, quase sempre em registo de balada. Essa base permite-lhe depois digressões, por exemplo, pelo bolero (“Grandes Ilusiones”), a chanson (“La Souffleuse”), ou até o folclore nacional (“Mano a Mano, com Zambujo). Assina apenas cinco das letras, sendo tudo o resto, letra e música, de autoria alheia. Este é um disco feliz, luminoso, apaixonado até, como se prova na contracapa.