William Tyler - Goes West ****

William Tyler é um contador de histórias sem palavras. Conta-as através da guitarra acústica, que coloca no centro de uma banda tradicional, a que não faltam, por exemplo, as variantes eléctricas desse mesmo instrumento. O resultado, fortemente condicionado pelo seu virtuosismo nada impositivo, remete para um território algures entre a folk, o country e algum blues rural. Nomes como Leo Kottke, ou Bill Frisell – este último com presença nesta gravação, em “Our Lady of the Desert” –, podem ser sinalizados como influências, mas Tyler é um músico de estúdio muito experiente (Lambchop, Bonnie Prince Billy), pelo que os seus discos a solo (e já lá vão quatro) reflecte uma vasta acumulação de experiências. Nesta edição, o destaque vai para a suite em vários andamentos “Alpine Star”, ou para temas, como “Venus in Aquarius”, exuberantes no cruzamento de sonoridades. Em fundo, está sempre a América, seja a que vai perdendo os valores fundadores, ou a dos grandes espaços e grandes sonhos.

Gregory Porter - One Night Only ****

Nat King Cole, de quem se comemora o centenário, foi novamente o ponto de partida para mais este registo de Gregory Porter. Na verdade, esta gravação ao vivo (CD e DVD), realizada no ano passado em Londres, retoma grande parte do disco de homenagem à sua maior influência (Nat King Cole and Me, 2017), recorrendo, inclusive aos mesmos músicos (quarteto e grande orquestra) e aos arranjos de Vincent Mendoza. E é esse o especial interesse do disco. Mendoza volta a criar as atmosferas, ora íntimas (“For All We Know”) ora quase cinematográficas (“Miss Otis Regrets”, tão típicas de Hollywood dos anos 1950 e 60, mas agora aplicadas, não apenas aos sucessos de Cole, mas também aos originais de Porter. Um dos exemplos maiores desse movimento é “When Love Was King”, que ganha aqui uma nova grandiosidade, toda ela feita de subtileza. Neste registo mais quente e aveludado, Porter volta a demonstrar porque é uma das vozes incontornáveis da actualidade.

Cass McCombs - Tip of the Sphere ****

A história da música, e do resto, é mesmo assim, composta de movimentos oscilantes, viajantes no tempo, que fazem do passado o combustível para a abertura de novos horizontes. Cass McCombs é um dos intérpretes mais perfeitos dessa teoria. Ancorado nos anos 1970, dos supergrupos, do psicadelismo e de uma certa intelectualidade, tem conseguido evitar cair no tédio com que hoje olhamos para aquela época. Neste disco, por exemplo, há um tema de 7 minutos e meio, a abrir, e outro de 10 minutos, a fechar, a que não faltam longas digressões de solos e improvisos de guitarra e teclas. Ou seja: alerta bocejo! Curiosamente, neste, como nos oito discos anteriores, Cass, assim como os músicos que o rodeiam, fazem o milagre e conseguem balançar essa ambiência geral de psicadelismo e virtuosismo com algumas canções de grande inspiração e ainda melhor execução. “Absentee”, “Real Life” ou “Sleeping Volcanos” aí estão para o provar.

The Gift - Verão ****

25 anos de carreira, cumpridos este ano, a caminho da dezena de discos de originais, donos de uma sonoridade marcante na música portuguesa contemporânea. Os Gift já nada têm a demonstrar, nem seria justo pedir-lhes a sempre almejada novidade pop – “o que fizeram eles de novo agora?”. Não há novidade aqui. O produtor, Brian Eno, é o mesmo do disco anterior (“Altar”, 2017), a ideia original é a sequência natural de “Primavera” (2012) e são vários os momentos de “Verão” que ecoam memórias da obra passada. E, no entanto, este é um grande disco dos Gift, um dos melhores dos últimos tempos. Na criação de massas sonoras de grande dramaticidade e intensidade, recorrendo amiúde ao casamento das cordas com a electrónica (“Impressiveness”, “Foggy”), nos temas mais pop (“Vulcão”, “Lowland” – esta na voz e Nuno Gonçalves e tão tão Eno), nas baladas (“Books”, que bela linha de piano...) ou no inevitável hino para os palcos (“Verão”). Este ano, o Verão terá a sua dose de melancolia.

Mavis Staples - Live in London ****

Desaparecida Aretha, cabe a Mavis transportar a chama das grandes vozes femininas da soul mais tradicional. Aos 79, no verão de 2018, em duas noites gravadas na Union Chapel, em Londres, a voz mais conhecida dos Staple Singers assumiu o risco de evitar os sucessos de décadas e focar-se nos temas que gravou, na última década, sob a batuta de M. Ward e, especialmente, de Jeff Tweedy, dos Wilco. Foi com eles que gravou temas de compositores contemporâneos, como Ben Harper (“Love and Trust”), David Byrne (“Slippery Sole”), ou Justin Vernon (“Dedicated”), para mencionar apenas alguns dos que constam deste disco. Estamos, pois, perante uma espécie de “best of” do renascimento de carreira, a que se juntam três temas mais antigos. O valor acrescentado do exercício passa pela uniformização dos vários temas por uma pujante formação de R&B, que rivaliza em vitalidade com a projeção vocal de Mavis. Quase dá para ver a vibração em palco.

Lone Lisbonaires - Varina Voodoo ****

Este é segundo disco dos Lone Lisbonaires e não deixa de ser o tal da confirmação, apesar de o primeiro ter sido outra coisa. “Deported Songs” (2015) era um conjunto de canções em inglês, interpretadas por uma banda ocasional, mas resultado direto de um percurso a dois (Paulo Oliveira e Paulo Spranger) e de muitas horas ao vivo, na rua e locais conexos. Agora, os dois Paulos (guitarra, voz e harmónica) mantêm-se no epicentro, mas à volta está uma banda mais a sério. E as canções, em português, são bem mais estruturadas, apesar de no osso estar a mesma base orgânica de blues, muitos blues do Mississippi, mas também daquele nervo eléctrico que se ouve em estúdios e palcos do Mali e da Nigéria. Isto, claro, transplantado para o quotidiano dos Anjos ou da Marateca... “Rua do Paraíso”, pequena maravilha dançante, é o cartão de apresentação e, a partir dele, podemos adivinhar a exuberância que esta música pode alcançar nas improvisações ao vivo.

Steve Gunn - The Unseen in Between ****

Numa prova cega, este seria um disco traiçoeiro. Tudo nele soa aos verões do final da década de 1960, ou talvez às luas dos primeiros anos da década que seguiu. Folk, ora em versão acústica ora eléctrica, algum country, muito psicadelismo e uns pós de sonoridades indianas. Ou seja, algo entre trovadores como Tim Buckleye aquela primeira fase dos Pink Floyd. Steve Gunn afirmou-se como músico de estúdio e virtuoso da guitarra e foi progressivamente ganhando voz própria como compositor. Um trovador. O seu primeiro disco a solo a demonstrar essa tendência foi “Eyes on the Lines”, de 2016, sendo que a presente gravação constitui a consagração de um autor de primeira linha. Trata-se de nove canções que têm como mote a ideia de viagem, de deambulação por paisagens naturais e histórias de pessoas. “A hand-driven hand map provides the facts”, canta em “Paranoid”, a canção que encerra o disco, a que não faltam uns bons segundos de massa sonora atordoante, tão ao gosto dos sixties. Na mesma linha, “New Familiar” transporta-nos para as ragas indianas desses anos, enquanto “Morning is Mended” poderia ter saído da mente de Syd Barrett. Na versão acústica, em que Gunn resiste a exibir o virtuosismo que patenteia noutras paragens, cabe destacar “Stonehurst Cowboy”, a memória do pai numa evocação da paisagem de Filadélfia, e “Luciano”, a história da relação de um taberneiro com o seu gato. “New Moon”, que abre o disco, casa na perfeição as sonoridades acústica e eléctrica, num disco de produção afinadíssima e em que se descobrem novos pormenores a cada nova audição.

Beirut - Gallipoli ****

Os Beirut poderiam ser a tradução para uma linguagem universal da tal palavra saudade, que os portugueses gostam de pensar intraduzível. Nada de fado, que fala da saudade, mas não é saudade ele próprio. Esta música, sim. Aquela toada triste, melancólica, mas que sabe bem, bonita até, mesmo alegre às vezes. Aquela desesperança que nunca acaba e que, por isso mesmo, mantém sempre viva a esperança. Como a saudade. Isso talvez nunca tenha sido tão evidente como neste quinto disco de Zach Condon, o rapaz que gosta de se fazer passar por Beirut, uma banda que sempre fez da vagadundagem musical o seu cartão de visita. A matriz da última década e meia mantêm-se: som radicalmente indie, mas que não recusa beber em várias fontes folclóricas, especialmente do Leste europeu. A novidade, volvidos que estão quatro anos de silêncio, é agora a polifonia mais avançada em que tudo se apresenta, com as várias sonoridades a desenvolverem-se de forma autónoma, como se leques de uma orquestra sinfónica se tratasse. Fazê-lo, sem perder a leveza pop, eis a beleza da coisa. Nessa dança - sim, esta é também música de dança - entra o arcaico e omnipresente órgão Farfisa (“Corfu”), mas também o trompete, que Zach Condon interpreta em pistas sobrepostas (“Gallipoli”), ou os arranjos de metais (“We Never Lived Here”), ou ainda de tudo um pouco para parecer mesmo uma orquestra (“Family Curse”). E depois há duas canções maiores e que definem o disco - “Landslide” e “Varieties of Exile”, sobre coisas que acontecem maiores que nós, mas que nos fazem maiores, e as linhas frágeis que determinam permanências e ausências. Ou seja, a saudade.

Mercury Rev - Bobbie Gentry's The Delta Sweete Revisited ***

Bobbie Gentry caiu praticamente no esquecimento quando, no final da década de 1970, se retirou, após pouco mais de uma década de carreira marcada por um grande sucesso, “Ode to Billie Joe”, e um conjunto de discos em que procurou novos e amplos caminhos para a música de raiz country. 
Cantora e compositora – neta de portugueses, mas isso é irrelevante para esta história –, produziu também os seus próprios discos, incutindo-lhes sonoridades ricas e densas, com elementos pop, soul, gospel e blues, que haveriam de ser inspiração, décadas depois, para muitos nomes do country alternativa. 
A sua obra-prima é, precisamente, “The Delta Sweete” (1968), um razoável falhanço comercial, de que os Mercury Rev fazem agora uma versão completa, muito distante do original e razoavelmente desinteressante, apesar do convite a 13 vozes femininas para interpretar as canções desse disco mais o sucesso de “Billie Joe”. E nem vale a pena comparar a exuberância vocal e a subtileza instrumental de “Reunion” com a versão etérea e pastosa aqui interpretada por Rachel Goswell (Mojave 3). Aos originais de “Tobacco Road” ou de “Morning Glory” – em que se ouve ora peso do trabalho escravo nas plantações do sul dos EUA, ora uma voz ensonada que nem hesita em bocejar, correspondem agora réplicas domesticadas e rotineiras, como aliás é algumas vezes a música dos Mercury Rev. 
E nem a presença de algumas estrelas de primeira linha (Beth Orton, Norah Jones ou Lucinda Wiiliams) é suficiente para retirar esta aventura da mediania de que, precisamente, Bobbie Gentry fez tudo para fugir na sua época.

Cat Power - Wanderer ****

Há uma tensão permanente em Cat Power que talvez nunca tenha estado tão exposta, tenha sido tão evidente, como neste 10.º disco. A tensão entre a fragilidade e a força. A fragilidade da voz, quase sempre à beira do precipício, e a força que a cantora vai buscar sabe-se lá onde e que torna toda a sua música um acto de redenção. Desta vez, com Cat Power a toma conta de tudo, a fragilidade estende-se ao lado instrumental, com pianos esparsos, guitarras hesitantes e baterias em surdina. E o sentido de redenção é ainda mais apurado, porque autobiograficamente foi assim que as coisas se passaram. Desde o electrónico “Sun” (2012), a vida de Chan Marshall frequentou infernos até chegar aqui. Reza a lenda que Lana Del Rey (!) terá sido fundamental na operação de resgate do plano inclinado, e é com ela que se encena um dos temas centrais (“Woman”). E é mesmo difícil destacar um ou outro tema, num disco que se situa em permanência uns bons furos acima da banalidade.

Thom Yorke - Suspiria ***

Eis um disco que – oh sacrilégio – encaixa na perfeição nas modernas técnicas de audição, que conferem ao ouvinte a liberdade de escolher e misturar temas. Porque, na verdade, estes 80 minutos distribuídos por dois CD comportam dois tipos de objeto bem distintos: canções, boa parte delas encaixáveis na discografia dos Radiohead, e temas instrumentais, de duração e conteúdo muito variáveis, que bebem nos compositores clássicos contemporâneos, mas que são o que são: banda sonora de um filme de terror (“A Choir of One” é uma longa digressão de uma voz, sem palavras, por 14 minutos de efeitos sonoros electrónicos arrepiantes...). Do lado das canções, “Suspirium” é uma bela balada com piano, “Has Ended” anda por território trip-hop e “Unmade” põe Thom Yorke a fazer uma demonstração de voz. Os fãs dos Radiohead podem pegar nelas e ouvir em “repeat”, que não irão arrepender-se. Para o resto, especialmente o segundo CD, será necessário entrar na onda da coisa.

Melhores de 2018 (excertos)

António Zambujo. Um disco de adeus aos fados, que não ao Alentejo (“Retrato de Bolso”). Assumidamente pop de raiz beatleana (“Sem Palavras”). Impregnado de um Brasil contemporâneo nada tropical, de que o eco de Rodrigo Amarante na primeira canção será a prova mais evidente. Sem perder o pé do que lhe trouxe tanto sucesso, Zambujo parece querer abrir, ao oitavo disco, um capítulo que cruza a densidade orquestral com a extrema atenção ao detalhe.
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Dead Combo. O duo é agora banda. E com essa expansão expande-se também este som que, apesar de tão português, ou talvez por isso, não conhece fronteiras. A bateria que a banda trouxe dá músculo rock a quase todo o disco, abrindo ainda mais o leque já enorme de jazz, fado, western, caraíbas, África... A voz de Mark Lanegan encaixa na perfeição, num disco com memórias de Carlos Paredes, poema de Pessoa e traços de Verdi.
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Ry Cooder. Que lição, mr. Cooder! Um disco que, com três originais e uma mão cheia de clássicos, mais parece um catálogo em redor dos formatos clássicos da América: blues, country, bluegrass, gospel. Um manifesto contra as velhas e as novas tiranias.
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Father John Misty. Mais um disco sobre corações partidos por um dos mestres do melodrama indie. Dez canções autobiográficas, encharcadas num arrependimento que se transfigura em redenção por via da ironia. Um autêntico strip tease sentimental para nosso deleite.

Pedro Abrunhosa - Espiritual ***

Há três ou quatro momentos memoráveis neste disco. O dueto com Lucinda Williams, em que uma das vozes mais espantosas da country ensopa de sensualidade o tema mais coheniano do disco. O dueto com Ana Moura, que demonstra onde pode chegar a música de Abrunhosa numa grande voz. O dueto com Elisa Rodrigues, que chama mais uma vez a atenção para uma das vozes mais espantosas que por aqui apareceu nos últimos tempos. O dueto com Lila Downs, porque a world music é obrigatória num disco que fala de refugiados e muros, e também de violência doméstica (“Dizes que Gostas de Mim”). Sim, este disco vale especialmente pelos duetos (há mais dois, com Carla Bruni e Ney Matogrosso, mas ambos menos interessantes), nos quais até a voz frágil e menos maleável do autor consegue equilíbrio suficiente. O resto é Abrunhosa a ser Abrunhosa, baladas-hino, cheias de perdão e salvação. “É o Diabo” faz de testemunha solitária de um passado funk.

Salto - Férias em Família ***

Este é um disco de confirmação, por muito pouco canónico que um terceiro disco o possa ser. Com estúdio próprio, em Marvila, a banda, agora estabilizada a quatro, teve toda a liberdade para finalmente abraçar a produção desta terceira aventura e, dessa forma, fixar a sonoridade que procurara na gravação homónima (2012) e em Passeio das Virtudes (2016). Um som com raízes psicadélicas – o fascínio pelo sintetizadores e toda a sorte de guitarras com e sem efeitos – mas que não abdica dos sonhos pop, entre coros contemplativos e uma alegria eternamente juvenil. “Rio Seco” é um dos temas que melhor representa essa aposta de fazer música de múltiplas camadas, que ora nos transporta para territórios oníricos, ora nos puxa os pés para danças bem terrenas. Talvez que o principal pecadilho seja o excesso de autobiografia, uma banda centrada na ideia de fazer música. Convém não esquecer que há música lá fora.

Carminho - Maria *****

Fado (2009), Alma (2012), Canto (2014), Maria (2018). Faz sentido, faz todo o sentido. Ao quinto disco – as contas não batem certo porque, pelo meio, houve o disco de canções de Tom Jobim (2016) – Carminho canta, como nunca, na primeira pessoa. É um disco de histórias e vivências, reflexões de coisas vividas (“Desengano” sobre o Fado Latino, de Jaime Santos). Mas é também na primeira pessoa porque Carminho produz, toca guitarra elétrica (“Estrela”), assina sete dos 12 temas, seja na totalidade, apenas as letras, ou só a música. Um disco que resulta de dois movimentos distintos, aparentemente opostos: um, a depuração extrema do material genético do fado (o a capella de “A Tecedeira”, ou o quase mero esboço da guitarra de “Sete Saias”, de Ricardo Ribeiro); outro, a procura de novas sonoridades para o fado, de que o exemplo extremo é a pedal steel guitar, tocada com arco de violino (!) de “O Menino e a Cidade”. Um disco de plena maturidade.

António Azambujo - Do Avesso *****

“Até o Fim”. Piano, depois as cordas, a seguir os sopros. Toda uma orquestra, toda ela muito subtil. A voz também. Tudo neste disco é pensado e concretizado com enorme subtileza, uma forma extrema de elegância. A canção é de Arnaldo Antunes, mas a sonoridade que salta ao ouvido é a dos discos mais sofisticados de Caetano. Essa ambiência brasileira, embora nada tropical, é talvez a marca mais distintiva deste disco. Claro que, amiúde, ainda apetece cantar em coro e até dançar, não temam os fãs. Há “Não Interessa Nada”, de Márcia, o “Catavento da Sé”, de Miguel Araújo, esta ideal para bailaricos românticos, e mesmo o beatleano “Sem Palavras”. O que já não há, neste 8.º disco, é traços de fado, apenas de cante, especialmente na belíssima “Retrato de Bolso”, de Aldina Duarte, que acaba praticamente em oração. Sem perder o pé do que lhe trouxe tanto sucesso, Zambujo parece querer abrir aqui um capítulo de simplicidade feita de densidade e detalhe. Paradoxos que funcionam.

Diabo na Cruz - Lebre ****

As referências dos Diabo na Cruz vão da ancestralidade da “procissão [que] ainda vai no adro” (“Procissão”) ao esperanto digital dos tempos modernos condensado no “não há emojis para o que sinto”, em “Roque da Casa”. Uma música ancorada em raízes folclóricas evidentes, que se deixa contaminar pela universalidade das guitarras e esquemas rítmicos de matriz anglo-saxónica (na longa “Montanha Mãe – Contramão” há guitarras portuguesas, mas há também ecos fortes do rock progressivo ou sinfónico de décadas atrás), para acabar novamente com os pés bem assentes na “Terra Natal” e num “Portugal”, meio vira, meio hino. E a meio da aventura, há uma tocante “Balada”, liberta de amarras. O puzzle, a justaposição de linguagens, é agora, ao quarto disco, mais complexa, mas igualmente mais consistente, com as costuras menos evidentes. Resultado de muita estrada, certamente, mas igualmente do tempo de respiração a que a banda se obrigou.

Luísa Sobral - Rosa ****

É o primeiro disco de Luísa Sobral após o megassucesso de “Amar Pelos Dois”, de que foi autora para a Eurovisão, em 2017. E é incontornável dizê-lo, desde logo, porque a canção, ao contrário do que seria expectável, não consta deste disco. Depois porque esse inesperado êxito talvez tenha incentivado Luísa a gravar o seu primeiro disco integralmente em português (exceção óbvia à edição infantil de 2014). Mas se “Amar Pelos Dois” não está fisicamente por aqui, o seu espírito paira por todo o lado. Seja pelo depuramento extremo da linguagem musical - Luísa nunca foi de grandes orquestrações, mas a produção de Raúl Refree eleva a subtileza a outro nível, ao assentar basicamente na guitarra, trio de metais e percussão -, seja pelo mundo encantando dos amores, que até se podem fazer de difíceis, mas acabam sempre felizes, quem sabe se para sempre. “Querida Rosa”, apenas com guitarra, ou “Dois Namorados”, com grande paleta instrumental, mas mesmo assim com a voz sempre em primeiro plano, são apenas dois exemplos extremos de um disco que pede tempo para ser ouvido.

Neko Case - Hell-on ****

“A minha voz é uma fractura (...) que te levanta e te senta / exactamente na linha d'água da tristeza.” Que ninguém venha ao engano, é assim que Neko Case canta logo na primeira canção, a que dá título ao CD. E, no entanto, este é, de longe, o seu mais luminoso disco, muito por culpa das orquestrações. Cada canção tratada como uma unidade, instrumentos e vozes pensados ao pormenor, encenados como se nada mais houvesse a seguir. E depois tudo recomeça. Sempre com a tal voz no centro, seja a da própria, seja em coro de “power ballad” com Eric Bachmann (“Sleep All Summer”, a única canção não original do disco, no caso um êxito dos Crocked Fingers), seja um fabuloso dueto a que Mark Lannegan apenas empresta a base (“Curse of the I-5 Corridor”), ou ainda no clímax/anticlímax de “Winnie”, com Beth Ditto (Gossip). Ao oitavo disco, Neko Case deixa ainda mais para trás o universo country, um berço que nunca lhe serviu.

Dirty Projectors - Lamp Lit Prose ****

Eventualmente, peca por exagero. De estilos musicais, de instrumentos, de colagens, de mudanças de rumo inesperadas. “(I Wanna) Feel It All” começa com música da renascença, evolui para jazz de cave nova-iorquina e espraia-se por um experimentalismo que tudo mistura. Os Dirty Projectors foram sempre assim, expansivos, híper-criativos, e a década e meia de estúdio e palco apenas terá contribuído para afinar esta música que não se deixa conter na classificação de indie cruzada com hip-hop. Acústica com electrónica – é o que fazem melhor. Aqui, “That’s a Lifestyle” dá-nos a ouvir um fabuloso trabalho de cruzamento de guitarras acústicas com eléctricas. Em “I Feel Energy”, os omnipresentes metais surfam caixas de ritmo, para mais à frente se fundirem mesmo com elas, em “Blue Bird”. E há alegria nesta exuberância, após o interlúdio sombrio da edição anterior (2017). Letras de regresso ao amor e aos encontros (“I Found It In U”), a condizer.

Huggs - Did I Cut These Too Short? ****

Não há lugar a contemplações. Mesmo “Troubles”, que chega de mansinho, guitarra dedilhada e voz espessa, o resto dos instrumentos a entrarem no ritmo, com tempo, acaba por explodir, a meio caminho, com a voz a elevar-se e a guitarra (as guitarras...) a soçobrar à batida pesada e suja das peles e do baixo. Sem contemplações. Nos outros cinco temas de que é feia a estreia do Huggs não há sequer a contemplação inicial. “Cocaine”, feito para rodar, é directo desde o primeiro segundo, como o são os grandes temas do punk. Duarte Queiróz (guitarra e voz) e Jantónio (bateria) são o núcleo da banda, a que se juntou, primeiro no estúdio e agora ao vivo, Guilherme Correia (baixo). “Take My Hand”, uma valsa punk algures entre os Walkmen e os Strokes, já andava por aí há uns meses e a rodagem dos festivais terá feito o resto, num disco de estreia invulgarmente consistente para estas paragens. Começo auspicioso.

Stephen Malkmus and The Jicks - Sparkle Hard ****

Uma serena energia. Um suave sarcasmo. É assim a música de Stephen Malkmus. Já era assim à frente dos Pavement, assim se manteve, a seguir a 1999, a solo e com os Jicks. Por comodidade, ou pela atitude, esta é uma música que costuma arrumar-se na prateleira do indie (“Solid Silk”, ou, num registo mais acústico, “Refute”), mas que lhe escapa sonicamente, seja para a psicadelia, graças à queda pelos sintetizadores (“Rattler”), seja para o rock mais clássico, por via dos insistentes solos e riffs de guitarra (“Kite”). Nesta sétima aventura, essa energia primitiva é ainda mais patente, com as guitarras num juvenil jogo de sedução dançante (“Shiggy”). Música nada neutra, quando aborda os temas da violência racial de origem policial (“Bike Lane”), ou do movimento #metoo (“Middle America”) e o sarcasmo fica um pouco menos suave que de costume. Nada é simples nem evidente por aqui, seja nas texturas musicais, ou nas letras alérgicas à banalidade. Disco de audição exigente.

Wild Beasts - Last NIght All My Dreams Came True ***

Há qualquer coisa de anti-climax neste disco. E é pena. Os Wild Beasts decidiram separar-se e deixar-nos em testamento esta colecção, que serviu de base à digressão de despedida. Trata-se de uma gravação ao vivo, mas em estúdio, que revisita uma década e meia de carreira expressa em cinco discos. A ideia, não sendo uma originalidade por aí além, tem tanto de interessante como de perigoso. Interessa sempre perceber como uma banda, um artista, revisita a sua obra, mas, por outro lado, esse regresso ao passado é quase sempre feito à luz do olhar, do modo de fazer as coisas, mais recente. No caso, quase metade (6 em 13) dos temas saem directamente do último disco (“Boy King”, 2026) e mesmo os mais antigos são formatados pela normalização que esse registo assinalava. “Hooting & Howling”, ou, por exemplo, “The Devil’s Palace” renovam a frescura inicial, mas na maioria dos casos estas regravações não adiantam grande coisa.

Camané, CCB, 11 e 12 de outubro


Os fados que o CCB vai ouvir já andaram por salas destas, amplas e improváveis. Pelo São Luiz, por exemplo, onde Alfredo Marceneiro se despediu da vida artística, em 1963. Mas estes são fados que nasceram e retratam uma Lisboa de outras eras, de bêbados pintores, de camareiras e ciganos alquiladores e, claro, de mariquinhas que viviam em ruas bizarras de janelas com tabuinhas. Histórias de poetas populares, a que Marceneiro deu tal corpo musical que muitos desses fados são hoje considerados tradicionais e a base de outros fados. O mais recente disco de Camané recupera esses temas, tal como o autor os idealizou e cantou, assumindo o risco do desencontro histórico-cultural – a visão da mulher em “Ironia” deve tirar do sério qualquer feminista – ou simplesmente o kitsch de quadros bucólicos ou burlescos estranhos às novas gerações. Fá-lo numa altura da sua carreira em que já nada tem que provar e pode, por isso, transportar Marceneiro para o lugar da sua voz em palco. Com Camané estarão José Manuel Neto, na guitarra portuguesa, Carlos Manuel Neto, na viola, e Paulo Paz, no contrabaixo.

Stuart A. Staples - Arrhythmia ***

Não é propriamente um disco sobre o tempo, antes um disco em que o tempo se ouve, literalmente. Tomemos, por exemplo, “Memories of Love”, o tema de mais de 10 minutos que melhor expressa essa condição. Trata-se de uma canção, se isso lhe poderemos chamar, sobre os efeitos do tempo (lá está, mas isso não é o mais relevante...) no amor. A voz de Stuart Staples espraia-se, muuuuuito lentamente, sobre um fundo de piano eléctrico, campainhas (tubular bells) e pratos de bateria. A meio caminho, ou seja, aos 5 minutos, a voz silencia-se e depois são outros tantos minutos em que os instrumentos preenchem o silêncio e o tempo de texturas. Um disco fora da caixa, este, em que a voz e alma dos Tindersticks dá espaço à experimentação e à respiração. A peça central, de 30 minutos, é a banda sonora para mais um filme de Claire Denis, mas é nos outros três temas que vale a pena parar – parar mesmo –, para ouvir.

Courtney Barnett - Tell Me How You Feel ****

Depois de Sometimes I Sit and Think, and Sometimes I Just Sit, de 2015, temos agora Tell Me How You Feel. E sem esquecer a pré-história do EP How to Carve a Carrot into a Rose… Os títulos dos discos de Courtney Barnett são já reveladores do espírito sarcástico e fora da caixa que enforma as suas canções. Como, neste disco: “I’m Not Your Mother, I’m Not Your Bitch”. Um espírito crítico, amiúde desarmante, acerca de tudo o que nos rodeia, como a guerra dos sexos nas redes sociais: os homens que têm medo que as mulheres se riam deles; as mulheres que têm medo que os homens… as matem (“Nameless, Faceless”). Depois da aventura com Kurt Vile, em 2017, este é o regresso àquele registo entre a voz quase balbuciante, a fazer lembrar muito Sheryl Crow, e as guitarras que tudo pontuam, evoluindo frequentemente para um som sujo e catártico. Se o segundo disco funciona como prova de fogo, ei-la superada.

Ry Cooder - The Prodigal Son *****

Jesus, é sabido, gostava mais dos pecadores que dos fascistas. Ah... não sabiam? Pois é essa a história que Jesus, o próprio, conta a Woody Guthrie, no diálogo imaginado em “Jesus and Woody”, um dos três originais que Ry Cooder assina neste seu regresso aos discos. Não se pense que fica pela parábola, não, todo o disco é um apelo à acção, porque eles, os “assassinos” derrotados em 1945 estão de novo a preparar a sua “máquina de ódio” e os “bons” devem juntar-se para se defenderem do mal. Exagero? Há muito que Cooder escolheu o seu lado e isso ficou bem patente nos dois últimos discos de estúdio, especialmente em “Election Special”, de 2012, um autêntico manifesto anti-Romney, mesmo que Obama não precisasse de tal ajuda para a reeleição. Desta vez, não há um alvo imediato a abater – sim, não há aqui referência, mesmo que indirecta, a Trump -, revindicando, antes, Cooder o estatuto tradicional do artista que se coloca do lado dos pobres e desvalidos, contra todo o tipo de opressão. Sendo que o elemento religioso é amiúde chamado ao palco, nem que seja pelo facto de o gospel ser uma das bases musicais que atravessa todo o disco. “You Must Unload”, é disso um exemplo, um tema de 1927, que apela aos cristãos que se aliviem da ostentação terrena, se querem ascender aos Céus. Coros e violinos fazem o resto. Política à parte, o disco acaba por ser quase um catálogo de criatividade em redor dos formatos clássicos da América (blues, country, bluegrass, gospel), criando-se para cada tema uma atmosfera específica. Os saudosistas de “Paris Texas” têm mesmo uma recriação daquele ambiente tenso e lânguido em “Nobody’s Fault But Mine”. Ry Cooder toca quase todos os instrumentos, o filho (Joachim) assume a produção.

Father John Misty - God’s Favorite Customer ****

Josh Tillman, aliás Father John Misty desde 2012, quatro discos contando com este, é um dos maiores compositores – e, porque não? cantores – da actual música pop. Com uma especialização, é certo, em melodrama, mas há lá coisa mais linda e pop que o melodrama, a lágrima que se esconde atrás de cada beijo, a incompreensão global dos dramas juvenis que se estendem por toda a idade adulta? Este disco resulta da assunção plena dessa ambiguidade, ou, mais prosaicamente, de dois meses fechado num hotel, substâncias mais ou menos proibidas, com o propósito de produzir dez canções biográficas, encharcadas num arrependimento que se transfigura em redenção por via da ironia. “E se fosses tu o compositor, despindo-me repetidamente em público, para mostrar quão nobre e nu consegues ser?”, canta ele, à amada e musa, em “The Songwriter”. Toda a intimidade ao serviço da arte, sejamos benévolos. Em sílabas minuciosamente entoadas, já menos a lembrar Elton John, com piano e orquestração tão Lennon anos 70 que até dói.

Dead Combo - Odeon Hotel *****

É quase impossível não pressentirmos “Verde Anos”, de Paredes, ao virar de cada nota suspensa de “Faduncho”, o tema que encerra este disco e que, curiosamente, é o único em que Tó Trips e Pedro Gonçalves são deixados sozinhos, na guitarra e no baixo com que, há década e meia, se lançaram nesta aventura. Essa quase memória de uma guitarra ali fica a fazer o arco com a memória da própria banda. E banda é precisamente uma das novidades deste disco: agora já não são apenas dois, como nos cinco discos anteriores, mas sim um grupo de músicos que se juntam em estúdio para dar início à aventura, que se desdobra já pelos palcos nacionais. Sem a banda, por exemplo, sem a bateria, como seria possível esgalhar o blues-punk “The Egyptian Magician”, de homenagem a Zé Pedro, ou partir para a desbunda da banda sonora de um policial imaginado, que é “Desassossego”? A bateria dá músculo rock a quase todo o disco, abrindo ainda mais o leque já enorme de jazz, fado, western, caraíbas, África, que torna os Dead Combo numa das mais originais sonoridades lusitanas dos últimos tempos. A banda, a bateria e, sim, também o produtor externo, Alain Johannes, outra estreia. E ainda Mark Lanegan, aquela voz pastosa – sim, voz, num disco dos Dead Combo... – às voltas com um dos poemas ingleses de Fernando Pessoa sobre guitarras angulosas e rugosas, a ilustrar a dor e a solidão. Uma outra maneira de abordar “La Forza del Destino”, uma leitura de guitarras lânguidas e sonoridades marítimas (a percussão, lá está) da obra de Verdi. E a morna para Carmen Miranda e os metais de “Interlúdio”. Um universo em expansão, esta música, tão daqui e tão universal.

Toni Braxton - Sex & Cigarettes ****

Em 1993, quando Toni Braxton lançou o seu primeiro e multipremiado disco, Beyoncé tinha 12 anos e Rihanna apenas cinco. Quase nada mudou nestes 25 anos: a mesma base R&B, a mesma garra interpretativa, as letras naquela fronteira estreita da sensualidade com o interdito a menores de 18. Até a mesma abordagem estética nas capas dos discos... Com este lançamento, Toni Braxton põe fim a quase uma década de silêncio, apenas interrompido para um disco de duetos (2014) com Babyface, que de resto volta a colaborar na presente edição. Com uma excepção (“Long As I Live”), faz agora o que sempre fez bem: baladas poderosas, acompanhadas principalmente a piano e cordas. Histórias de amor e desamor (“FOH”, “Sex & Cigarettes”), de arrependimento (“Sorry”) e redenção (“Coping”). A produção mantém aquele tom polido e quiçá demasiado sofisticado, que a coloca num mercado adulto, que talvez não a oiça apenas com puras motivações musicais.