Courtney Barnett - Tell Me How You Feel ****

Depois de Sometimes I Sit and Think, and Sometimes I Just Sit, de 2015, temos agora Tell Me How You Feel. E sem esquecer a pré-história do EP How to Carve a Carrot into a Rose… Os títulos dos discos de Courtney Barnett são já reveladores do espírito sarcástico e fora da caixa que enforma as suas canções. Como, neste disco: “I’m Not Your Mother, I’m Not Your Bitch”. Um espírito crítico, amiúde desarmante, acerca de tudo o que nos rodeia, como a guerra dos sexos nas redes sociais: os homens que têm medo que as mulheres se riam deles; as mulheres que têm medo que os homens… as matem (“Nameless, Faceless”). Depois da aventura com Kurt Vile, em 2017, este é o regresso àquele registo entre a voz quase balbuciante, a fazer lembrar muito Sheryl Crow, e as guitarras que tudo pontuam, evoluindo frequentemente para um som sujo e catártico. Se o segundo disco funciona como prova de fogo, ei-la superada.

Ry Cooder - The Prodigal Son *****

Jesus, é sabido, gostava mais dos pecadores que dos fascistas. Ah... não sabiam? Pois é essa a história que Jesus, o próprio, conta a Woody Guthrie, no diálogo imaginado em “Jesus and Woody”, um dos três originais que Ry Cooder assina neste seu regresso aos discos. Não se pense que fica pela parábola, não, todo o disco é um apelo à acção, porque eles, os “assassinos” derrotados em 1945 estão de novo a preparar a sua “máquina de ódio” e os “bons” devem juntar-se para se defenderem do mal. Exagero? Há muito que Cooder escolheu o seu lado e isso ficou bem patente nos dois últimos discos de estúdio, especialmente em “Election Special”, de 2012, um autêntico manifesto anti-Romney, mesmo que Obama não precisasse de tal ajuda para a reeleição. Desta vez, não há um alvo imediato a abater – sim, não há aqui referência, mesmo que indirecta, a Trump -, revindicando, antes, Cooder o estatuto tradicional do artista que se coloca do lado dos pobres e desvalidos, contra todo o tipo de opressão. Sendo que o elemento religioso é amiúde chamado ao palco, nem que seja pelo facto de o gospel ser uma das bases musicais que atravessa todo o disco. “You Must Unload”, é disso um exemplo, um tema de 1927, que apela aos cristãos que se aliviem da ostentação terrena, se querem ascender aos Céus. Coros e violinos fazem o resto. Política à parte, o disco acaba por ser quase um catálogo de criatividade em redor dos formatos clássicos da América (blues, country, bluegrass, gospel), criando-se para cada tema uma atmosfera específica. Os saudosistas de “Paris Texas” têm mesmo uma recriação daquele ambiente tenso e lânguido em “Nobody’s Fault But Mine”. Ry Cooder toca quase todos os instrumentos, o filho (Joachim) assume a produção.

Father John Misty - God’s Favorite Customer ****

Josh Tillman, aliás Father John Misty desde 2012, quatro discos contando com este, é um dos maiores compositores – e, porque não? cantores – da actual música pop. Com uma especialização, é certo, em melodrama, mas há lá coisa mais linda e pop que o melodrama, a lágrima que se esconde atrás de cada beijo, a incompreensão global dos dramas juvenis que se estendem por toda a idade adulta? Este disco resulta da assunção plena dessa ambiguidade, ou, mais prosaicamente, de dois meses fechado num hotel, substâncias mais ou menos proibidas, com o propósito de produzir dez canções biográficas, encharcadas num arrependimento que se transfigura em redenção por via da ironia. “E se fosses tu o compositor, despindo-me repetidamente em público, para mostrar quão nobre e nu consegues ser?”, canta ele, à amada e musa, em “The Songwriter”. Toda a intimidade ao serviço da arte, sejamos benévolos. Em sílabas minuciosamente entoadas, já menos a lembrar Elton John, com piano e orquestração tão Lennon anos 70 que até dói.

Dead Combo - Odeon Hotel *****

É quase impossível não pressentirmos “Verde Anos”, de Paredes, ao virar de cada nota suspensa de “Faduncho”, o tema que encerra este disco e que, curiosamente, é o único em que Tó Trips e Pedro Gonçalves são deixados sozinhos, na guitarra e no baixo com que, há década e meia, se lançaram nesta aventura. Essa quase memória de uma guitarra ali fica a fazer o arco com a memória da própria banda. E banda é precisamente uma das novidades deste disco: agora já não são apenas dois, como nos cinco discos anteriores, mas sim um grupo de músicos que se juntam em estúdio para dar início à aventura, que se desdobra já pelos palcos nacionais. Sem a banda, por exemplo, sem a bateria, como seria possível esgalhar o blues-punk “The Egyptian Magician”, de homenagem a Zé Pedro, ou partir para a desbunda da banda sonora de um policial imaginado, que é “Desassossego”? A bateria dá músculo rock a quase todo o disco, abrindo ainda mais o leque já enorme de jazz, fado, western, caraíbas, África, que torna os Dead Combo numa das mais originais sonoridades lusitanas dos últimos tempos. A banda, a bateria e, sim, também o produtor externo, Alain Johannes, outra estreia. E ainda Mark Lanegan, aquela voz pastosa – sim, voz, num disco dos Dead Combo... – às voltas com um dos poemas ingleses de Fernando Pessoa sobre guitarras angulosas e rugosas, a ilustrar a dor e a solidão. Uma outra maneira de abordar “La Forza del Destino”, uma leitura de guitarras lânguidas e sonoridades marítimas (a percussão, lá está) da obra de Verdi. E a morna para Carmen Miranda e os metais de “Interlúdio”. Um universo em expansão, esta música, tão daqui e tão universal.

Toni Braxton - Sex & Cigarettes ****

Em 1993, quando Toni Braxton lançou o seu primeiro e multipremiado disco, Beyoncé tinha 12 anos e Rihanna apenas cinco. Quase nada mudou nestes 25 anos: a mesma base R&B, a mesma garra interpretativa, as letras naquela fronteira estreita da sensualidade com o interdito a menores de 18. Até a mesma abordagem estética nas capas dos discos... Com este lançamento, Toni Braxton põe fim a quase uma década de silêncio, apenas interrompido para um disco de duetos (2014) com Babyface, que de resto volta a colaborar na presente edição. Com uma excepção (“Long As I Live”), faz agora o que sempre fez bem: baladas poderosas, acompanhadas principalmente a piano e cordas. Histórias de amor e desamor (“FOH”, “Sex & Cigarettes”), de arrependimento (“Sorry”) e redenção (“Coping”). A produção mantém aquele tom polido e quiçá demasiado sofisticado, que a coloca num mercado adulto, que talvez não a oiça apenas com puras motivações musicais.

Beach House - 7 ****

Há 12 anos, uma eternidade na pop, que os Beach House estão sozinhos neste som que inventaram. Um duplo feito: ninguém se atreveu a imitá-los; eles próprios conseguiram manter a sonoridade ao longo de sete discos, sem que deles nos cansemos. Pelo contrário, esta sétima aventura chega a ser desarmante. Sabemos, desde o primeiro segundo, que isto só pode ser Beach House, mantemos a vontade de continuar a ouvir, como se da primeira vez se tratasse, e, como recompensa, somos surpreendidos a cada novo capítulo. É verdade que, agora, têm um novo produtor, que valoriza mais a bateria (simbolicamente, é com ela que o disco abre, para nunca mais nos largar), mas não é isso que marca o disco. Antes, a capacidade de reinventar o dueto sintetizador circular / voz planante, em temas que tanto poderiam estar aqui como no primeiro disco (“Lose Your Smile”, “Lemon Glow”), ou outros que talvez só agora sejam possíveis (“Black Car”).

The Arctic Monkeys - Tranquility Base Hotel + Casino **

Os dois primeiros versos do disco definem a coisa: “I just wanted to be one of the Strokes, now look at the mess you made me make”. Poderia ser Alex Turner a descrever o percurso dos Arctic Monkeys, desde a estreia de 2006 (tinha ele 19...) até esta estranha transfiguração pelos terrenos do lounge decadente, que talvez deva mais à sua banda de brincadeira, The Last Shadow Puppets, que à memória de um dos grupos ingleses mais marcantes da última década. Sim, não há aqui punk, derivadas do blues, as guitarras que marcaram a última década da música inglesa. Agora, Alex Turner virou crooner. Ele, que já tinha aquela pose vocal um tanto bowieana, assume-se camaleão, da cabeça aos pés. Reza a lenda que aprendeu a tocar piano, sendo que não se nota muito, funcionando isso mais como metáfora da opção acústica/electrónica da aventura. À primeira audição, estranha-se. Depois, não entranha. Dúvida: a culpa é da opção de fundo, ou da ausência de uma mera uma canção que perdure?

Van Morrison - EDP Cool Jazz 28 julho 2018



O mítico e místico Morrison


Um dos nomes mais importantes do último meio século apresenta-se em Portugal, num momento particularmente fulgurante da sua carreira. Manuel Morgado antecipa a passagem de Van Morrison pelo EDP Cool Jazz

No último ano, em bom rigor, nos últimos nove meses, Van Morrison lançou três discos. Isto, em si, já diria muito sobre o fulgor actual de um músico com mais de cinco décadas de carreia, sete de vida e mais de meia centena de discos gravados. Mas a apreciação quantitativa – três discos em nove meses – diz pouco e poderia até ser depreciativa, quando se nos apresentam três gravações que, como de costume com Van Morrison, estão uns bons furos acima da mediania e são, eles próprios, reveladores do percurso e da marca que este irlandês do mundo deixa na música. Isto porque, desde logo, os três discos organizam-se em torno da matriz de que é composto o seu estilo interpretativo muito peculiar: “Roll With The Punches” vai às raízes blues da América, a que não falta uma mão-cheia de temas assinados pelo próprio; “Versatile” foca-se nos “standards” (Porter, Gershwin), não faltando, mais uma vez, uma boa quantidade de canções assinadas pelo cantor; finalmente, “You’re Driving Me Crazy” é um exercício jazzístico, beneficiando da colaboração com o organista e trompetista Joey DeFrancesco e, adivinharam, mais uma vez com metade das canções assinadas pelo próprio, desta vez canções que já haviam surgido noutros discos. A gravação foi realizada em dois dias e a sonoridade pouco se diferencia de um disco ao vivo. Para que a palete de que se compõe o estilo Morrison ficasse completa ficam a faltar dois discos: um de música celta, outro com canções country.
Essa marca Morrison, por espantoso que hoje nos pareça, surge logo nos primeiros discos a que este natural de Belfast dá voz, com os Them, em 1965, data do seu primeiro e perene sucesso, “Gloria”. E é ainda com os Them que cunha os primeiros sucessos, sejam eles originais (“Mystic Eyes”, “Here Comes The Night”) ou versões (“Baby, Please Don’t Go”). Os seus primeiros discos a solo (“Astral Weeks”, de 1968, e “Moondance”, de 1970) são obrigatórios em qualquer enciclopédia da música pop-rock e consolidam de vez um estilo inconfundível: uma voz bailarina, frequentemente usada como um instrumento em vocalizos improvisados; um acompanhamento instrumental diversificado, quase sempre devedor do blues, e em que pontificam metais, órgão e guitarras e, novamente, o improviso. Essa sonoridade própria, estável mas sempre inquieta em busca de nuances, é a base sobre a qual o músico desenvolve uma postura por vezes acentuadamente mística, conferindo à sua música um carácter espiritual, não confundível com qualquer opção religiosa.
A sua longa carreira acabou se desenvolver nesse registo, sempre com essas constantes estilísticas, mas também sempre em movimento: discos de versões, discos celtas, discos de jazz, discos mais místicos, discos de duetos... E depois os concertos. É ao vivo que a música de Van Morrison encontra o ambiente propício a revelar todas as suas texturas sonoras, na liberdade dos improvisos de palco e da inspiração do momento. “It’s To Late To Stop Now”, de 2016, um CD triplo que junta gravações ao vivo é disso testemunha – ouça-se, por exemplo, “Listen To The Lion”... Não admira que os concertos que têm vindo a realizar nos últimos anos esgotem sempre, um sucesso que contrasta com a modesta performance comercial dos seus discos.

Norah Jones + Benjamim

Há dois anos, com “Day Breaks”, Norah Jones regressou ao princípio: jazz ligeirinho, ou, se quisermos, pop com roupagens de jazz. “Tragedy” é uma espécie de “Sunrise, Sunrise” sem o fulgor da novidade, nem a alegria da juventude. A pianista e cantora decidiu, pois, regressar a paisagens mais seguras e serenas, após uns tempos de aventura pela pop, em “The Fall” (2009) e, especialmente, em “Little Broken Hearts” (2012). É, pois, uma Norah conservadora, esta que agora se nos apresenta, voz em sossego, escondida atrás do piano. O inverso de Benjamim, uma das mais irrequietas vozes da cena portuguesa, tanto que até de nome tem mudado. Nos discos, o mesmo. Após a fase, digamos, parapsicadélica em que se chamava Walter, veio o registo português, em “Autorádio” (2015) e, no ano passado, o registo bilingue e multicultural de “1986”, com Barnaby Keen. Seja o que for que faça em Cascais, será surpreendente.

Jessie Ware + Jordan Rakei

A soul contemporânea é um mundo vibrante e em expansão de nomes e variantes. Jessie Ware, inglesa de Londres, afirmou-se como figura secundária no mundo da electrónica (Sampha, SBTRKT), antes de se lançar numa carreira a solo, que prossegue com segurança, embora sem sucesso comercial muito animador. Dona de uma voz que oscila elegantemente entre o veludo e a projecção firme, tem recorrido a uma vasta panóplia de autores, não tendo ainda acertado no “hit” salvífico. “Glasshouse”, de 2017, é o seu mais recente registo, um conjunto de canções com ADN soul com suaves floreados electrónicos. Jordan Rakei está-lhe nos antípodas, ou não fosse ele neo-zelandês. Multi-instrumentista, compõe, produz e canta, com voz colorida. Nos dois discos que já gravou (“Cloak”, de 2016, e “Wallflower”, de 2017) de revela uma grande amplitude, que vai da abordagem de R&B puro ao reggae ou ao hip-hop, apelando frequentemente à dança.

Belle and Sebastian - How to Solve Our Human Problems ****

Num mundo perfeito, ninguém se atreveria sequer a tentar encontrar defeitos na música dos Belle and Sebastian. Porque, especialmente nos últimos anos, eles fazem um tal esforço para espalhar a alegria que, mesmo que não fique perfeito, o mundo fica sempre um pouco melhor e mais feliz com a sua música. Não há aqui traço de melancolia, daquela doce e encantadora melancolia que tanto nos encantou nas primeiras duas décadas. Nem mesmo em baladas, como “We Were Beautiful”, com o seu fundo de “drum’n’bass”. Não, aqui tudo é positivo, seja quando estilizam o “disco” (“Sweet Dew Lee”), quando se atiram à Motown (“The Same Star” e “Best Friend”), ou quando se ficam pelo simples B&S vintage (“I’ll Be Your Pilot”). Até lhes perdoamos as palermices instrumentais de “Everything Is Now” ou o não menos desconchavada “Cornflakes”. Sim, quando dizem no título que querem resolver todos os nossos problemas, estão a falar a sério e fazem a parte deles. O resto depende de nós.

Janita Salomé - Valsa dos Poetas ***

Canções sobre poetas, canções de poetas, poetas das canções. Janita presta homenagem a alguns dos seus poetas preferidos, com novos e velhos temas, num registo de grande amplitude musical e interpretativa. Se “Bluebird”, poema de Charles Bukovski, surge num blues algures entre, digamos, Nick Cave e Tom Waits, já “Aquela Triste e Leda Madrugada” (Camões) é-nos apresentada num estilo jazzístico. Essa diversidade é assumida e resulta da opção de ter entregue os arranjos dos temas a dois músicos: Mário Delgado (guitarra) e Filipe Raposo (piano). Nos temas revisitados, há uma nova versão de “Não É Fácil o Amor” e outra de José Afonso (“Era um Redondo Vocábulo”). Lugar ainda para olhares mais a sul, com um poema de Ibn Amar. E depois aquela “Vozes do Sul / Carta à Sra. Dª Europa”, em que o próprio Janita se rebela contra os “usurários encartados” que comandam o Velho Continente, e não só. A poesia enquanto arma possível

Mariza - Mariza ****

Um dos segredos do enorme sucesso de Mariza – voz à parte, bem entendido – é o modo com tem sabido utilizar toda a elasticidade do fado, trazendo para o seu território, nem tanto outras sonoridades, mas antes modos de compor e cantar. “Quem Me Dera”, do músico angolano Matias Damásio, é um exemplo extremo desse movimento, ao forçar o convívio do fraseado do fado com as evoluções melódicas típicas das canções românticas. Ou, num plano completamente diferente, “Sou (Rochedo)”, um tema que já não é bem fado, embora tenha sido escrito por um especialista (Jorge Fernando). Neste sétimo disco de originais, Mariza continua, pois, a fazer a ponte entre a tradição revisitada (“Fado Errado”, em dueto com Maria da Fé, numa versão com fundo de flamenco) e a pura novidade (“Por Tanto Te Amar”, de Carolina Deslandes, numa interpretação intimista em que Mariza quase se liberta do fado). O disco marca ainda a estreia da cantora como letrista (“Oração”).

David Fonseca - Radio Gemini ***

David Fonseca assinala 20 anos de carreira – “Silence Becomes It”, o primeiro dos Silence Four, foi lançado em 1998 – com uma homenagem àquela que é (ainda?) a melhor amiga da música: a rádio. Não há sentimentalismos, ou nostalgia, num disco, longo, que se desenvolve em duas frentes: temas curtos, evocativos da rádio, que funcionam como jingles; e canções de formato mais convencional. Os primeiros são pequenos divertimentos, que giram à volta de um ritmo (a dançante “Blah-Blah-Blah”), ou de uma frase (“C’Est Pas Fini”), ou que remetem diretamente para a rádio (leitura de textos e instrumentais, em “A New Wave”). Nas canções propriamente ditas, temos o David Fonseca clássico (a balada “Closer, Stronger”, ou “Oh My Heart”, single evidente), mas atento às tendências dos tops anglo-saxónicos (“Get Up” e “Anyone Can Do It”). Como de costume, David compõe tudo, toca tudo e canta tudo, privilegiando a massa sonora de ritmos e teclas, em detrimento das guitarras e alguma respiração.

Roger Waters, Altice Arena, 20 e 21 de maio


Contra o sistema, cantar cantar Roger Waters passa por Lisboa a meio de uma longa digressão mundial centrada numa leitura fortemente política da obra dos Pink Floyd 

Em “Déjà Vu”, do seu disco mais recente, “Is This the Life We Really Want?” (2017), Roger Waters foi talvez um pouco longe de mais, pelo menos para alguns dos admiradores de sempre dos Pink Floyd (PF): “If I had been God, I believe I could have done a better job” (“Se eu tivesse sido Deus, acredito que teria feito um trabalho melhor”). Especialmente a partir de 1977, com “Animals”, e depois com “The Wall” (1979), os PF transformaram-se numa das mais consistentes vozes críticas daquilo a que poderemos chamar sistema capitalista, numa acepção que extravasa a economia e abarca um vasto conjunto de valores sociais e culturais. Fizeram-no de forma eficaz, não através de cantos revolucionários, mas a partir de dentro, tirando partido de toda a parafernália tecnológica e de marketing proporcionada pela indústria musical, ou seja, pelo capitalismo, ele próprio. Foi também nessa época que consolidaram e deram nova escala a uma forma de espectáculo em que a música surge dramatizada num aparato cénico e audiovisual de grande envergadura e impacto. 
Roger Waters foi o mago por detrás dessa fase, com David Gilmour em claro segundo plano, como tinha sido já ele a pegar no legado psicadélico de Syd Barrett e a dar-lhe um formato de enorme sucesso comercial – “The Dark Side of the Moon” (1973) é ainda hoje um dos discos mais vendidos de sempre. Waters afastou-se dos PF em meados da década de 80, com duas consequências hoje evidentes: sob a batuta de Gilmour, a banda entrou em longa agonia criativa; a sua carreira a solo pouco mais é que uma canibalização dos tempos áureos dos PF. 
Nas últimas três décadas, Waters lançou dois ou três discos com algum interesse e tem embarcado regularmente em digressões em que o prato forte é o acervo dos PF, tendo realizado já diversas encenações de “The Wall”. Agora, aos 75, realiza aquela que será provavelmente a sua derradeira volta ao mundo. Literal, já que a digressão começou há exactamente um ano e promete prolongar-se ainda mais uns meses por todos os continentes. 
São mais de duas horas de espectáculo, passando pelas canções do último disco a solo e por quase todos os grandes sucessos dos PF, numa leitura e alinhamento deliberadamente políticos. O título “Us and Them” remete para a temática da inclusão, tal como foi glosado num discurso de Obama, enquanto que, no polo oposto, Trump sai muito maltratado, especialmente durante o tema “Pigs”. 
Àqueles que – aconteceu... – abandonaram concertos em sinal de protesto com tanta política, responde Waters: “É um tanto surpreendente que alguém ouça as minhas canções dos últimos 50 anos e ainda as não tenha entendido”. É, de facto.

First Aid Kit - Ruins ****

Corações partidos dão belas canções. Eis a enésima constatação dessa maldição da pop, ou de toda a arte, o que certamente nos dará interessantes lições sobre a vida, ela própria. Estas 10 canções são, precisamente, sobre as ruínas de um caso amoroso de uma das irmãs Soderberg e, lá está, terá sido o motivo que as levou a quebrar um silêncio de quatro anos, numa carreira iniciada em 2008. Estamos, claro, perante mais uma banda escandinava, sueca, no caso, que mais parece ter nascido e crescido numa pequena cidade americana. São canções pop de forte raiz folk na composição, a que a instrumentação (pedal steel, etc) conferem uma evidente sonoridade country. “Postcard”, por exemplo, é uma balada simplesmente country, sem rodriguinhos, mas mesmo os dois temas mais comerciais (“Rebel Heart” e “Fireworks”), também devem muito aos esquemas mais tradicionais da música americana. Como as próprias harmonias vocais das irmãs, marca de água da banda.

Frankie Cosmos - Vessel *****

“Duet” é a canção de amor que Scarlett Johansson gostaria de cantar, naquela voz sussurrada horizontal. “The End”, no seu minuto e meio de vozes femininas sobre fundo de dedilhar acústico, poderia integrar uma das melhores colecções dos Magnetic Fields. “Cafeteria” é punk, como punk é também “Being Alive”. Guitarras dos 90, em “Accommodate”, sons etéreos em “My Phone”... E poderíamos continuar, já que, em 33 minutos, Greta Kline consegue mostrar-nos 18 canções, muitas delas quase meros esboços (“Ur Up”, 36 segundos), e apenas 7 delas com mais de dois minutos. Greta Kline, a autora, cantora e intérprete de tudo isto, numa banda de quatro com três convidados, é simplesmente genial. Não apenas porque faz tudo isto aos 24 – terceiro disco, mas o primeiro numa editora a sério, após muitas edições caseiras – mas especialmente pelo modo como o faz: Nova Iorque volta a ser a cidade onde tudo é possível, desde as banais aventuras no metro, às mais surpreendentes descobertas interiores.

MGMT - Little Dark Age ****

O último disco dos Prefab Sprout é de 2013, data em que os MGMT lançaram o seu terceiro, segundo numa série de tédio psicadélico, após a estreia espectacular de “Oracular Spetacular” (2008). Acontece que agora, no regresso cinco anos volvidos, os MGMT parecem ter herdado parcialmente os genes da banda dos manos McAloon. Por exemplo, em “Me and Michael”, o tema mais comercial do disco, ou nas linhas melódicas de “James”. O duo continua ainda obcecado com as experiências psicadélicas – “When You’re Small” parece a sequela do floydiano “Arnold Lane – mas o disco revela uma vivacidade e uma liberdade só comparável à obra inicial. Liberdade quase excessiva, tal é a diversidade de abordagens, tantas quantas as canções. Como se de uma banda à procura do Norte se tratasse, o que não andará muito longe da verdade. Paradoxalmente, o resultado final não se ressente desse desnorte, talvez porque cada uma das unidades tem, de facto, uma mais-valia evidente.

Kyle Craft - Full Circle Nightmare **

Kyle Craft é um tipo engraçado e não tomem isso como um elogio. Dylan, diz ele, será uma das suas influências, especialmente na vertente lírica. Na verdade, apanhamo-lo muitas vezes a debitar versos em catadupa, tal como o Nobel faz, mas, como na anedota, Kyle apenas terá apreendido a música do poema e não propriamente o poema. Noutras palavras, a cantilena. As canções deste disco são, na prática, dez variações sobre um mesmo tema: quão diabólicas conseguem ser as mulheres quando não gosta, ou pior, deixam de gostar de um homem. E tudo isto martelado em sucessivas e pouco inspiradas metáforas. É pena. Porque há na postura de Kyle, no seu revivalismo e energia à anos setenta, terreno fértil para outros voos. Talvez um pouco menos acelerado, como em “Bridge City Rose”, ou especialmente “Slick & Delta Queen”. Este é o primeiro disco a sério (o anterior, de 2016, apesar de oficial é demasiado caseiro...) e talvez dê para afinar o conceito. Caso contrário...

Paulo Bragança - Cativo ***

Há uma bipolaridade em Paulo Bragança que faz falta à cena fadista. Talvez nunca, como agora, se tenha cantado tanto e tão bom fado. Mas ninguém canta como Paulo Bragança, pés bem assentes no fado, mas alma sempre a tentar voar para paisagens inesperadas. Nunca deixando verdadeiramente de ser fado, mas sempre tentado explorar os seus limites, o que tanto pode remeter para a busca das origens, como para um qualquer futuro por achar. Desapareceu, literalmente, em 2001, após uns fulgurantes lampejos, sabendo-se agora que andou pela Irlanda e outras partes, meio perdido. Volta, de mansinho, com um EP de sete temas e a promessa de obra maior (“Exílio”) mais à frente. “Peregrino”, fado-canção a meias com Carlos Maria Trindade, poderá ser a primeira canção dessa aventura. Deste EP, ficam memórias de dois grandes (Carlos do Carmo e Carlos Ramos), duas homenagens geracionais (Sitiados e Xutos) e uma aventura celta. Aguardemos, então.

David Byrne - American Utopia ****

Impossível ouvir “Dog’s Mind”, aquela micropeça de teatro inicial, um Presidente e os jornalistas sobre fundo de marcha lenta (fúnebre?), e não nos lembrarmos do actual inquilino da Casa Branca. Mas não, o disco terá sido concebido ainda na era pré-Trump e o desconcerto desencantado que o atravessa não é mais que o fio condutor de toda a obra de David Byrne, Talking Heads incluídos. Já agora, os mais nostálgicos podem começar por aí, com “Everybody’s Coming to My House”. O resto, diga-se, é muito consistente, puro Byrne, como se não tivessem 14 anos sem um Byrne a solo. As linhas melódicas do costume (“I Dance Like This”), a loucura surreal das letras (“Everyday Is a Miracle”), as camadas de ritmos e sonoridades cruzados à escala planetária. Até mesmo a companhia de Brian Eno em oito das dez canções. Apesar dessa constância, mérito dele ou saudade nossa, a sensação de que se reinventa a cada canção.

Monday - One ****

Catarina Falcão, aliás Cat, aliás Monday, é metade das Golden Slumbers, banda em que, com a irmã Margarida, se estreou em grande formato vai para dois anos (“The New Messiah”). Este “One” nasce de um curso de composição em Londres, das canções que aí se acumularam, e da óbvia vontade de mostrar voz própria. Cat é, verdade, uma das melhores vozes desta novíssima geração, seja pela capacidade vocal propriamente dita, seja pelo modo desenvolto como trata a língua inglesa, sem aqueles falsos jazzismos/hesitações/gaguejos com que por aí se disfarça a lusa naturalidade. Se a voz e a composição estão dentro do bom e expectável, agradável mesmo, neste “One”, é a descomplexada aproximação à pop e ao rock, evidente em “Changes”, “Learn” ou “Dark Night for Suki”, embora a folk domine a paisagem (“Pink Moon”, “One”), uma opção concordante com o tom melancólico de grande parte das canções.

Melody Gardot - Live in Europe ****

Só aparentemente é fácil este caminho que Melody Gardot percorre há uma década, do qual já resultaram quatro discos de estúdio e agora este duplo ao vivo, em várias cidades europeias, revisitação de uma carreira, em concertos realizados entre 2012 e 2016. Porque o jazz ligeiro - é disso que se trata - constitui um território pouco afirmativo, muitas vezes confundido com música de elevador ou de piano bar, fronteiras difusas com a folk ou a pop, um gato malhado que nunca de deixa apanhar. Gardot tem a virtualidade de quase nunca se deixar (a)trair pela facilidade. Infelizmente, para nós, “Lisboa”, do seu disco mais folk, é um desses casos, como aqui se prova numa gravação de 2015, em... Oeiras. No polo oposto, escute-se, por exemplo, o classicismo de “Deep Within The Corners of my Mind”, ou os improvisos vocais e instrumentais de “March for Mingus”. Ou a sensibilíssima versão de “Baby I’m a Fool”, em Londres.

Aldina Duarte - CCB, 6 de abril


O concerto do final do verão passado, no Largo de São Carlos, perdurará certamente na memória, pela comunhão da cidade com a sua canção, pela festa de verão que o fado também sabe ser. Mas é no CCB que o fado se dá especialmente bem, porque, apesar da desproporção espacial face às tradicionais casas e tascas, consegue um equilíbrio justo entre a intimidade e a ambição dos grandes palcos. Faz jus ao fado, no som e no recolhimento. Aldina Duarte regressa, pois, a essa outra casa de fado e novamente com histórias de amor, depois de ali ter apresentado, em espectáculo único, o ambicioso “Romance(s)”, com poemas de Maria do Rosário Pedreira. O regresso é com outra história de amor, agora em nome próprio e final trágico. E com uma outra escritora como musa inspiradora, Maria Gabriela Llansol, autora do primeiro livro que lhe ofereceu um amor que acabou sem aviso. O luto desse amor foi feito com os livros de Llansol, junto a uma árvore do Jardim da Estrela, dele tendo nascido dez poemas que, bordados com outros tantos fados tradicionais, deram origem a um dos discos mais aplaudidos de 2017. São fados que, ao invés de lamuriarem o brutal acidente da despedida, eternizam os momentos felizes, a que se juntam outro com letra de Maria do Rosário Pedreira e ainda um fado-canção de Manel Cruz (Ornatos Violeta). No CCB, a fadista faz-se acompanhar de Paulo Parreira (guitarra) e Rogério Ferreira (viola), com quem canta há 12 anos no Senhor Vinho e que com ela gravaram, em três sessões, o disco “Quando Se Ama Loucamente”. Pedro Gonçalves (Dead Combo), que produziu o CD, será outro dos convidados.

PAUS - Madeira ****

Tudo gira em volta da bateria siamesa, seja quando se expõe em palco – e estamos perante uma banda de palco, de gestos largos –, seja quando a ouvimos, assim, em disco, sem descanso, sempre a bomb(e)ar, coração do sistema. Predomina, a bateria, mas não domina. Ou já não domina, como antes. As teclas, essas sim, exuberantes, assumindo várias, sucessivas e simultâneas formas, arriscam amiúde deixar tudo à beira do sufoco, mas é então que nos lembramos que tudo isto foi pensado para o palco e que, aí, faz todo o sentido. Esta é uma música que deve ao prog rock e ao kraut rock, mas que não se deixa aprisionar em classificações, apelando frequentes vezes à dança, como em “L123”, o tema mais apontado às rádios e tops, ou revelando mesmo longínquos ecos folclóricos (“A Mutante”), nos coros e na instrumentação. Na edição com DVD, a liberdade criativa da música encontra boa companhia nas paisagens inóspitas da Madeira.

Brandi Carlile - By the Way, I Forgive You ****

Um dos maiores contributos da country à música pop é aquele jeito de contar histórias com sentimento e uma moral. Os blues, mais sofridos, são também mais secos. Nada como a country para puxar a lágrima, frequentemente para lá do razoável, já na zona da lamechice. Isto, claro, quando não se tem bom gosto e bom senso. Brandi Carlile vem da country, tem muito senso e ainda mais bom gosto, é bem vinda na indie e sente-se muito à vontade na pop, como este sexto disco mostra de forma muito clara. As histórias que conta, sim é um disco de histórias, são densas, amargas, como a vida muitas vezes é. “Party of One” diz quase tudo no título e encerra o disco da melhor maneira, com cordas a grande altura e Brandi a levar ao limite o seu estilo interpretativo, a la Joni Mitchell, cheio de inflexões, projecções e falsettos. “The Mother”, num registo acústico e íntimo, e a perturbante “Sugartooth” são outros grandes momentos de um disco para o qual a etiqueta country é demasiado redutora.

Franz Ferdinand - Always Ascending ***

O primeiro minuto e meio do disco parece um regresso dos saudosos Housemartins, dos anos 80, só que, quando esperamos que o a capella progrida, salta lá de trás uma caixa de ritmo endiabrada e mudamos radicalmente de território. 
Percebemos que são os Franz Ferdinand porque os Franz Ferdinand soam a léguas a Franz Ferdinand mesmo quando não são exactamente os Franz Ferdinand de que guardamos boa memória. Porque, sejamos honestos, os FF nunca voltaram a ser aquela banda surpreendente, única, indispensável dos dois primeiros discos (2004 e 5). 
Este quinto assalto, volvidos que são cinco anos de silêncio, umas mudanças na banda (troca de guitarrista, mais um guitarrista e teclista novo) e uma colaboração com os Sparks (“FFS”, de 2015), deixa-nos em território de alguma perplexidade. 
Neste disco, como nos dois que se seguiram aos primeiros dois, a banda anda em círculos à volta dos conceitos que criou, deixa-se absorver amiúde pelas sonoridades da brit pop contemporânea (“The Academy Award”) ou retro (“Slow Don’t Kill Me Slow”), sem nunca realmente nos dizer nada de novo. A novidade, relativa diga-se, é a assolapada paixão pelo cruzamento da eletrónica com a pista de dança (“Feel the Love Go”, disco, disco, ou “Lois Lane”, mais na vertente funk, mas sempre com as teclas em evidência). Da verve original há um “Lazy Boy”, mais centrado nas guitarras que na electrónica, que sabe bem ouvir “em memória”, digamos. 
Um disco que, por vontade própria, se deixa dançar muito bem, uma banda não necessariamente perdida, mas pouco afirmativa.

Van Morrison - Versatile ****

Há pessoas, músicos também, que estão sempre lá, dos quais só nos lembramos muito de vez em quando, mas que estão sempre lá. Para o melhor e para o pior. Van Morrison é um desses músicos. Em 53 anos (!) de carreira, não há um disco seu que seja mau, ou até sofrível. E são muitos, quase 40, se não contarmos com os dos Them, no início de carreira. Todos discos acima da média, sempre disponíveis para que os ouçamos, resistentes às modas, perenes que nem rochedos. Van Morrison inventou um estilo, uma vocalização meio declamada meio improvisada, que espraia sobre orquestrações que tanto devem ao jazz, como ao blues e à música celta. Os últimos CD são quase excepção: este é só jazz, o anterior, de finais de 2017, era quase só R&B e blues. Dois terços de standards (Gershwin, Porter) , um terço de originais, sem surpresas, apenas o regular Morrison e um septeto com metais em destaque. Ou seja, a velha rotina, entre o bom e o muito bom.

Medeiros/Lucas - Sol de Março ****

A memória que mais nos assalta durante a audição deste disco é a de José Afonso. Nada a ver com empenhamento político, apenas o posicionamento estético e o risco da criatividade. Como pegar em ritmos e sonoridades de vários quadrantes, África e América Latina à cabeça, fazer a ponte da tradição popular para a contemporaneidade, aqui vincada com um recurso repetitivo ao minimalismo, e tudo isso servido por uma graciosidade serena da voz, às voltas com versos que fogem da facilidade. Ouça-se, por exemplo, “Podre Poder” ou “Galgar”. Há umas décadas que não ouvíamos música assim, com esta sede de perfeição. Este é o terceiro de uma série de discos que Carlos Medeiros (voz) e Pedro Lucas (composição) iniciaram, em 2015, com “Mar Aberto”, dedicado às emoções, e prosseguiram, em 2016, com uma obra mais colada ao corpo, “Terra do Corpo”. Agora, com letras de João Pedro Porto, chegamos ao terceiro capítulo, centrado na razão. Filosofia aural.

Joan as a Police Woman - Damned Devotion ***

Ah, as agruras e belezas e contradições do amor. Poemas e poemas disto, livros, tratados e discos. Muitos discos. Joan Wasser, aka Police Woman, não faz outra coisa, há 12 anos e cinco discos, seis com este que agora se apresenta. “I’m told that wounds are where the light gets in”, canta Joan em “The Silence”, parafraseado Cohen, e fica feita a declaração de princípios sobre as águas em que se movem estas 12 canções. E se na temática tudo se mantém igual, já na frente estilística esta edição representa um regresso às orquestrações densas, pastosas, indolentes, depois da intensa luminosidade soul de “The Classic”, de 2014. A electrónica é o cimento que tudo agrega, quase rivalizando com a secção rítmica, em movimentos pendulares entre a recitação compassada e descargas catárticas (“Valid Jagger”). Sobre tudo isto, a voz, ou melhor, as vozes de Joan, em registos de uma elasticidade pouco comum na pop.

Nadia Schilling - Above the Trees ****

Não viria mal ao mundo se este disco fosse promovido à boleia do sucesso de Salvador Sobral. Os fins justificam os meios e é de aproveitar, agora que os portugueses parecem estar disponíveis para ouvir canções, digamos, menos comerciais. A música de Nadia Schilling inscreve-se numa corrente – Márcia, Minta & The Brook Trout... –, em que melodia e melancolia andam a par, em que o intimismo das letras contracena com uma instrumentação muito cuidada e atenta aos pormenores. Ouça-se a subtileza do piano de Filipe Melo em “Gloom Song”, ou as guitarras, por exemplo, em “Bad as Me” ou “Misfire”. Mas ouçam-se especialmente as cordas em quase todo o disco (“Kite” é uma boa amostra), que paradoxalmente funcionam como elemento iluminador num disco que nasce de uma dor, a morte da mãe. Começo muito auspicioso em grande formato – e aqui vai bem um pouco de trivia – para esta arquitecta paisagista nascida há três década e meia nas Caldas da Rainha.

N.E.R.D - No One Really Dies **

Muita coisa aconteceu nos sete anos em que os N.E.R.D estiveram silenciosos. Na verdade, quando os N.E.R.D ainda estavam activos já muito coisa lhes passava ao lado, daí que esse derradeiro esforço, “Nothing” (2010), pouco ou nada conte para a história. Os “side projects” têm, normalmente, razões ou objectivos muito concretos. Este, de Pharrell Williams (Chad Hugo e Shay Haley desempenham um papel relativamente secundário, como fica evidente neste disco), era suposto funcionar como uma montra de algum virtuosismo de composição e produção, com epicentro no hip-hop e na electrónica, mas absorvendo tudo à sua volta. Ora, para projecto-montra, este CD é particularmente decepcionante, porque se trata de uma montra com produtos repetidos, gastos, em saldo. O início, com Rihanna (“Lemon), ainda promete, o funk de Kendrik Lamar (“Don’t Don’t Do It”) cumpre sem surpresa, mas o resto é demasiado “déjà” vu para justificar a quebra do silêncio.