Thom Yorke - Suspiria ***

Eis um disco que – oh sacrilégio – encaixa na perfeição nas modernas técnicas de audição, que conferem ao ouvinte a liberdade de escolher e misturar temas. Porque, na verdade, estes 80 minutos distribuídos por dois CD comportam dois tipos de objeto bem distintos: canções, boa parte delas encaixáveis na discografia dos Radiohead, e temas instrumentais, de duração e conteúdo muito variáveis, que bebem nos compositores clássicos contemporâneos, mas que são o que são: banda sonora de um filme de terror (“A Choir of One” é uma longa digressão de uma voz, sem palavras, por 14 minutos de efeitos sonoros electrónicos arrepiantes...). Do lado das canções, “Suspirium” é uma bela balada com piano, “Has Ended” anda por território trip-hop e “Unmade” põe Thom Yorke a fazer uma demonstração de voz. Os fãs dos Radiohead podem pegar nelas e ouvir em “repeat”, que não irão arrepender-se. Para o resto, especialmente o segundo CD, será necessário entrar na onda da coisa.

Melhores de 2018 (excertos)

António Zambujo. Um disco de adeus aos fados, que não ao Alentejo (“Retrato de Bolso”). Assumidamente pop de raiz beatleana (“Sem Palavras”). Impregnado de um Brasil contemporâneo nada tropical, de que o eco de Rodrigo Amarante na primeira canção será a prova mais evidente. Sem perder o pé do que lhe trouxe tanto sucesso, Zambujo parece querer abrir, ao oitavo disco, um capítulo que cruza a densidade orquestral com a extrema atenção ao detalhe.
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Dead Combo. O duo é agora banda. E com essa expansão expande-se também este som que, apesar de tão português, ou talvez por isso, não conhece fronteiras. A bateria que a banda trouxe dá músculo rock a quase todo o disco, abrindo ainda mais o leque já enorme de jazz, fado, western, caraíbas, África... A voz de Mark Lanegan encaixa na perfeição, num disco com memórias de Carlos Paredes, poema de Pessoa e traços de Verdi.
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Ry Cooder. Que lição, mr. Cooder! Um disco que, com três originais e uma mão cheia de clássicos, mais parece um catálogo em redor dos formatos clássicos da América: blues, country, bluegrass, gospel. Um manifesto contra as velhas e as novas tiranias.
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Father John Misty. Mais um disco sobre corações partidos por um dos mestres do melodrama indie. Dez canções autobiográficas, encharcadas num arrependimento que se transfigura em redenção por via da ironia. Um autêntico strip tease sentimental para nosso deleite.

Pedro Abrunhosa - Espiritual ***

Há três ou quatro momentos memoráveis neste disco. O dueto com Lucinda Williams, em que uma das vozes mais espantosas da country ensopa de sensualidade o tema mais coheniano do disco. O dueto com Ana Moura, que demonstra onde pode chegar a música de Abrunhosa numa grande voz. O dueto com Elisa Rodrigues, que chama mais uma vez a atenção para uma das vozes mais espantosas que por aqui apareceu nos últimos tempos. O dueto com Lila Downs, porque a world music é obrigatória num disco que fala de refugiados e muros, e também de violência doméstica (“Dizes que Gostas de Mim”). Sim, este disco vale especialmente pelos duetos (há mais dois, com Carla Bruni e Ney Matogrosso, mas ambos menos interessantes), nos quais até a voz frágil e menos maleável do autor consegue equilíbrio suficiente. O resto é Abrunhosa a ser Abrunhosa, baladas-hino, cheias de perdão e salvação. “É o Diabo” faz de testemunha solitária de um passado funk.

Salto - Férias em Família ***

Este é um disco de confirmação, por muito pouco canónico que um terceiro disco o possa ser. Com estúdio próprio, em Marvila, a banda, agora estabilizada a quatro, teve toda a liberdade para finalmente abraçar a produção desta terceira aventura e, dessa forma, fixar a sonoridade que procurara na gravação homónima (2012) e em Passeio das Virtudes (2016). Um som com raízes psicadélicas – o fascínio pelo sintetizadores e toda a sorte de guitarras com e sem efeitos – mas que não abdica dos sonhos pop, entre coros contemplativos e uma alegria eternamente juvenil. “Rio Seco” é um dos temas que melhor representa essa aposta de fazer música de múltiplas camadas, que ora nos transporta para territórios oníricos, ora nos puxa os pés para danças bem terrenas. Talvez que o principal pecadilho seja o excesso de autobiografia, uma banda centrada na ideia de fazer música. Convém não esquecer que há música lá fora.

Carminho - Maria *****

Fado (2009), Alma (2012), Canto (2014), Maria (2018). Faz sentido, faz todo o sentido. Ao quinto disco – as contas não batem certo porque, pelo meio, houve o disco de canções de Tom Jobim (2016) – Carminho canta, como nunca, na primeira pessoa. É um disco de histórias e vivências, reflexões de coisas vividas (“Desengano” sobre o Fado Latino, de Jaime Santos). Mas é também na primeira pessoa porque Carminho produz, toca guitarra elétrica (“Estrela”), assina sete dos 12 temas, seja na totalidade, apenas as letras, ou só a música. Um disco que resulta de dois movimentos distintos, aparentemente opostos: um, a depuração extrema do material genético do fado (o a capella de “A Tecedeira”, ou o quase mero esboço da guitarra de “Sete Saias”, de Ricardo Ribeiro); outro, a procura de novas sonoridades para o fado, de que o exemplo extremo é a pedal steel guitar, tocada com arco de violino (!) de “O Menino e a Cidade”. Um disco de plena maturidade.

António Azambujo - Do Avesso *****

“Até o Fim”. Piano, depois as cordas, a seguir os sopros. Toda uma orquestra, toda ela muito subtil. A voz também. Tudo neste disco é pensado e concretizado com enorme subtileza, uma forma extrema de elegância. A canção é de Arnaldo Antunes, mas a sonoridade que salta ao ouvido é a dos discos mais sofisticados de Caetano. Essa ambiência brasileira, embora nada tropical, é talvez a marca mais distintiva deste disco. Claro que, amiúde, ainda apetece cantar em coro e até dançar, não temam os fãs. Há “Não Interessa Nada”, de Márcia, o “Catavento da Sé”, de Miguel Araújo, esta ideal para bailaricos românticos, e mesmo o beatleano “Sem Palavras”. O que já não há, neste 8.º disco, é traços de fado, apenas de cante, especialmente na belíssima “Retrato de Bolso”, de Aldina Duarte, que acaba praticamente em oração. Sem perder o pé do que lhe trouxe tanto sucesso, Zambujo parece querer abrir aqui um capítulo de simplicidade feita de densidade e detalhe. Paradoxos que funcionam.

Diabo na Cruz - Lebre ****

As referências dos Diabo na Cruz vão da ancestralidade da “procissão [que] ainda vai no adro” (“Procissão”) ao esperanto digital dos tempos modernos condensado no “não há emojis para o que sinto”, em “Roque da Casa”. Uma música ancorada em raízes folclóricas evidentes, que se deixa contaminar pela universalidade das guitarras e esquemas rítmicos de matriz anglo-saxónica (na longa “Montanha Mãe – Contramão” há guitarras portuguesas, mas há também ecos fortes do rock progressivo ou sinfónico de décadas atrás), para acabar novamente com os pés bem assentes na “Terra Natal” e num “Portugal”, meio vira, meio hino. E a meio da aventura, há uma tocante “Balada”, liberta de amarras. O puzzle, a justaposição de linguagens, é agora, ao quarto disco, mais complexa, mas igualmente mais consistente, com as costuras menos evidentes. Resultado de muita estrada, certamente, mas igualmente do tempo de respiração a que a banda se obrigou.

Luísa Sobral - Rosa ****

É o primeiro disco de Luísa Sobral após o megassucesso de “Amar Pelos Dois”, de que foi autora para a Eurovisão, em 2017. E é incontornável dizê-lo, desde logo, porque a canção, ao contrário do que seria expectável, não consta deste disco. Depois porque esse inesperado êxito talvez tenha incentivado Luísa a gravar o seu primeiro disco integralmente em português (exceção óbvia à edição infantil de 2014). Mas se “Amar Pelos Dois” não está fisicamente por aqui, o seu espírito paira por todo o lado. Seja pelo depuramento extremo da linguagem musical - Luísa nunca foi de grandes orquestrações, mas a produção de Raúl Refree eleva a subtileza a outro nível, ao assentar basicamente na guitarra, trio de metais e percussão -, seja pelo mundo encantando dos amores, que até se podem fazer de difíceis, mas acabam sempre felizes, quem sabe se para sempre. “Querida Rosa”, apenas com guitarra, ou “Dois Namorados”, com grande paleta instrumental, mas mesmo assim com a voz sempre em primeiro plano, são apenas dois exemplos extremos de um disco que pede tempo para ser ouvido.

Neko Case - Hell-on ****

“A minha voz é uma fractura (...) que te levanta e te senta / exactamente na linha d'água da tristeza.” Que ninguém venha ao engano, é assim que Neko Case canta logo na primeira canção, a que dá título ao CD. E, no entanto, este é, de longe, o seu mais luminoso disco, muito por culpa das orquestrações. Cada canção tratada como uma unidade, instrumentos e vozes pensados ao pormenor, encenados como se nada mais houvesse a seguir. E depois tudo recomeça. Sempre com a tal voz no centro, seja a da própria, seja em coro de “power ballad” com Eric Bachmann (“Sleep All Summer”, a única canção não original do disco, no caso um êxito dos Crocked Fingers), seja um fabuloso dueto a que Mark Lannegan apenas empresta a base (“Curse of the I-5 Corridor”), ou ainda no clímax/anticlímax de “Winnie”, com Beth Ditto (Gossip). Ao oitavo disco, Neko Case deixa ainda mais para trás o universo country, um berço que nunca lhe serviu.

Dirty Projectors - Lamp Lit Prose ****

Eventualmente, peca por exagero. De estilos musicais, de instrumentos, de colagens, de mudanças de rumo inesperadas. “(I Wanna) Feel It All” começa com música da renascença, evolui para jazz de cave nova-iorquina e espraia-se por um experimentalismo que tudo mistura. Os Dirty Projectors foram sempre assim, expansivos, híper-criativos, e a década e meia de estúdio e palco apenas terá contribuído para afinar esta música que não se deixa conter na classificação de indie cruzada com hip-hop. Acústica com electrónica – é o que fazem melhor. Aqui, “That’s a Lifestyle” dá-nos a ouvir um fabuloso trabalho de cruzamento de guitarras acústicas com eléctricas. Em “I Feel Energy”, os omnipresentes metais surfam caixas de ritmo, para mais à frente se fundirem mesmo com elas, em “Blue Bird”. E há alegria nesta exuberância, após o interlúdio sombrio da edição anterior (2017). Letras de regresso ao amor e aos encontros (“I Found It In U”), a condizer.

Huggs - Did I Cut These Too Short? ****

Não há lugar a contemplações. Mesmo “Troubles”, que chega de mansinho, guitarra dedilhada e voz espessa, o resto dos instrumentos a entrarem no ritmo, com tempo, acaba por explodir, a meio caminho, com a voz a elevar-se e a guitarra (as guitarras...) a soçobrar à batida pesada e suja das peles e do baixo. Sem contemplações. Nos outros cinco temas de que é feia a estreia do Huggs não há sequer a contemplação inicial. “Cocaine”, feito para rodar, é directo desde o primeiro segundo, como o são os grandes temas do punk. Duarte Queiróz (guitarra e voz) e Jantónio (bateria) são o núcleo da banda, a que se juntou, primeiro no estúdio e agora ao vivo, Guilherme Correia (baixo). “Take My Hand”, uma valsa punk algures entre os Walkmen e os Strokes, já andava por aí há uns meses e a rodagem dos festivais terá feito o resto, num disco de estreia invulgarmente consistente para estas paragens. Começo auspicioso.

Stephen Malkmus and The Jicks - Sparkle Hard ****

Uma serena energia. Um suave sarcasmo. É assim a música de Stephen Malkmus. Já era assim à frente dos Pavement, assim se manteve, a seguir a 1999, a solo e com os Jicks. Por comodidade, ou pela atitude, esta é uma música que costuma arrumar-se na prateleira do indie (“Solid Silk”, ou, num registo mais acústico, “Refute”), mas que lhe escapa sonicamente, seja para a psicadelia, graças à queda pelos sintetizadores (“Rattler”), seja para o rock mais clássico, por via dos insistentes solos e riffs de guitarra (“Kite”). Nesta sétima aventura, essa energia primitiva é ainda mais patente, com as guitarras num juvenil jogo de sedução dançante (“Shiggy”). Música nada neutra, quando aborda os temas da violência racial de origem policial (“Bike Lane”), ou do movimento #metoo (“Middle America”) e o sarcasmo fica um pouco menos suave que de costume. Nada é simples nem evidente por aqui, seja nas texturas musicais, ou nas letras alérgicas à banalidade. Disco de audição exigente.

Wild Beasts - Last NIght All My Dreams Came True ***

Há qualquer coisa de anti-climax neste disco. E é pena. Os Wild Beasts decidiram separar-se e deixar-nos em testamento esta colecção, que serviu de base à digressão de despedida. Trata-se de uma gravação ao vivo, mas em estúdio, que revisita uma década e meia de carreira expressa em cinco discos. A ideia, não sendo uma originalidade por aí além, tem tanto de interessante como de perigoso. Interessa sempre perceber como uma banda, um artista, revisita a sua obra, mas, por outro lado, esse regresso ao passado é quase sempre feito à luz do olhar, do modo de fazer as coisas, mais recente. No caso, quase metade (6 em 13) dos temas saem directamente do último disco (“Boy King”, 2026) e mesmo os mais antigos são formatados pela normalização que esse registo assinalava. “Hooting & Howling”, ou, por exemplo, “The Devil’s Palace” renovam a frescura inicial, mas na maioria dos casos estas regravações não adiantam grande coisa.

Camané, CCB, 11 e 12 de outubro


Os fados que o CCB vai ouvir já andaram por salas destas, amplas e improváveis. Pelo São Luiz, por exemplo, onde Alfredo Marceneiro se despediu da vida artística, em 1963. Mas estes são fados que nasceram e retratam uma Lisboa de outras eras, de bêbados pintores, de camareiras e ciganos alquiladores e, claro, de mariquinhas que viviam em ruas bizarras de janelas com tabuinhas. Histórias de poetas populares, a que Marceneiro deu tal corpo musical que muitos desses fados são hoje considerados tradicionais e a base de outros fados. O mais recente disco de Camané recupera esses temas, tal como o autor os idealizou e cantou, assumindo o risco do desencontro histórico-cultural – a visão da mulher em “Ironia” deve tirar do sério qualquer feminista – ou simplesmente o kitsch de quadros bucólicos ou burlescos estranhos às novas gerações. Fá-lo numa altura da sua carreira em que já nada tem que provar e pode, por isso, transportar Marceneiro para o lugar da sua voz em palco. Com Camané estarão José Manuel Neto, na guitarra portuguesa, Carlos Manuel Neto, na viola, e Paulo Paz, no contrabaixo.

Stuart A. Staples - Arrhythmia ***

Não é propriamente um disco sobre o tempo, antes um disco em que o tempo se ouve, literalmente. Tomemos, por exemplo, “Memories of Love”, o tema de mais de 10 minutos que melhor expressa essa condição. Trata-se de uma canção, se isso lhe poderemos chamar, sobre os efeitos do tempo (lá está, mas isso não é o mais relevante...) no amor. A voz de Stuart Staples espraia-se, muuuuuito lentamente, sobre um fundo de piano eléctrico, campainhas (tubular bells) e pratos de bateria. A meio caminho, ou seja, aos 5 minutos, a voz silencia-se e depois são outros tantos minutos em que os instrumentos preenchem o silêncio e o tempo de texturas. Um disco fora da caixa, este, em que a voz e alma dos Tindersticks dá espaço à experimentação e à respiração. A peça central, de 30 minutos, é a banda sonora para mais um filme de Claire Denis, mas é nos outros três temas que vale a pena parar – parar mesmo –, para ouvir.

Courtney Barnett - Tell Me How You Feel ****

Depois de Sometimes I Sit and Think, and Sometimes I Just Sit, de 2015, temos agora Tell Me How You Feel. E sem esquecer a pré-história do EP How to Carve a Carrot into a Rose… Os títulos dos discos de Courtney Barnett são já reveladores do espírito sarcástico e fora da caixa que enforma as suas canções. Como, neste disco: “I’m Not Your Mother, I’m Not Your Bitch”. Um espírito crítico, amiúde desarmante, acerca de tudo o que nos rodeia, como a guerra dos sexos nas redes sociais: os homens que têm medo que as mulheres se riam deles; as mulheres que têm medo que os homens… as matem (“Nameless, Faceless”). Depois da aventura com Kurt Vile, em 2017, este é o regresso àquele registo entre a voz quase balbuciante, a fazer lembrar muito Sheryl Crow, e as guitarras que tudo pontuam, evoluindo frequentemente para um som sujo e catártico. Se o segundo disco funciona como prova de fogo, ei-la superada.

Ry Cooder - The Prodigal Son *****

Jesus, é sabido, gostava mais dos pecadores que dos fascistas. Ah... não sabiam? Pois é essa a história que Jesus, o próprio, conta a Woody Guthrie, no diálogo imaginado em “Jesus and Woody”, um dos três originais que Ry Cooder assina neste seu regresso aos discos. Não se pense que fica pela parábola, não, todo o disco é um apelo à acção, porque eles, os “assassinos” derrotados em 1945 estão de novo a preparar a sua “máquina de ódio” e os “bons” devem juntar-se para se defenderem do mal. Exagero? Há muito que Cooder escolheu o seu lado e isso ficou bem patente nos dois últimos discos de estúdio, especialmente em “Election Special”, de 2012, um autêntico manifesto anti-Romney, mesmo que Obama não precisasse de tal ajuda para a reeleição. Desta vez, não há um alvo imediato a abater – sim, não há aqui referência, mesmo que indirecta, a Trump -, revindicando, antes, Cooder o estatuto tradicional do artista que se coloca do lado dos pobres e desvalidos, contra todo o tipo de opressão. Sendo que o elemento religioso é amiúde chamado ao palco, nem que seja pelo facto de o gospel ser uma das bases musicais que atravessa todo o disco. “You Must Unload”, é disso um exemplo, um tema de 1927, que apela aos cristãos que se aliviem da ostentação terrena, se querem ascender aos Céus. Coros e violinos fazem o resto. Política à parte, o disco acaba por ser quase um catálogo de criatividade em redor dos formatos clássicos da América (blues, country, bluegrass, gospel), criando-se para cada tema uma atmosfera específica. Os saudosistas de “Paris Texas” têm mesmo uma recriação daquele ambiente tenso e lânguido em “Nobody’s Fault But Mine”. Ry Cooder toca quase todos os instrumentos, o filho (Joachim) assume a produção.

Father John Misty - God’s Favorite Customer ****

Josh Tillman, aliás Father John Misty desde 2012, quatro discos contando com este, é um dos maiores compositores – e, porque não? cantores – da actual música pop. Com uma especialização, é certo, em melodrama, mas há lá coisa mais linda e pop que o melodrama, a lágrima que se esconde atrás de cada beijo, a incompreensão global dos dramas juvenis que se estendem por toda a idade adulta? Este disco resulta da assunção plena dessa ambiguidade, ou, mais prosaicamente, de dois meses fechado num hotel, substâncias mais ou menos proibidas, com o propósito de produzir dez canções biográficas, encharcadas num arrependimento que se transfigura em redenção por via da ironia. “E se fosses tu o compositor, despindo-me repetidamente em público, para mostrar quão nobre e nu consegues ser?”, canta ele, à amada e musa, em “The Songwriter”. Toda a intimidade ao serviço da arte, sejamos benévolos. Em sílabas minuciosamente entoadas, já menos a lembrar Elton John, com piano e orquestração tão Lennon anos 70 que até dói.

Dead Combo - Odeon Hotel *****

É quase impossível não pressentirmos “Verde Anos”, de Paredes, ao virar de cada nota suspensa de “Faduncho”, o tema que encerra este disco e que, curiosamente, é o único em que Tó Trips e Pedro Gonçalves são deixados sozinhos, na guitarra e no baixo com que, há década e meia, se lançaram nesta aventura. Essa quase memória de uma guitarra ali fica a fazer o arco com a memória da própria banda. E banda é precisamente uma das novidades deste disco: agora já não são apenas dois, como nos cinco discos anteriores, mas sim um grupo de músicos que se juntam em estúdio para dar início à aventura, que se desdobra já pelos palcos nacionais. Sem a banda, por exemplo, sem a bateria, como seria possível esgalhar o blues-punk “The Egyptian Magician”, de homenagem a Zé Pedro, ou partir para a desbunda da banda sonora de um policial imaginado, que é “Desassossego”? A bateria dá músculo rock a quase todo o disco, abrindo ainda mais o leque já enorme de jazz, fado, western, caraíbas, África, que torna os Dead Combo numa das mais originais sonoridades lusitanas dos últimos tempos. A banda, a bateria e, sim, também o produtor externo, Alain Johannes, outra estreia. E ainda Mark Lanegan, aquela voz pastosa – sim, voz, num disco dos Dead Combo... – às voltas com um dos poemas ingleses de Fernando Pessoa sobre guitarras angulosas e rugosas, a ilustrar a dor e a solidão. Uma outra maneira de abordar “La Forza del Destino”, uma leitura de guitarras lânguidas e sonoridades marítimas (a percussão, lá está) da obra de Verdi. E a morna para Carmen Miranda e os metais de “Interlúdio”. Um universo em expansão, esta música, tão daqui e tão universal.

Toni Braxton - Sex & Cigarettes ****

Em 1993, quando Toni Braxton lançou o seu primeiro e multipremiado disco, Beyoncé tinha 12 anos e Rihanna apenas cinco. Quase nada mudou nestes 25 anos: a mesma base R&B, a mesma garra interpretativa, as letras naquela fronteira estreita da sensualidade com o interdito a menores de 18. Até a mesma abordagem estética nas capas dos discos... Com este lançamento, Toni Braxton põe fim a quase uma década de silêncio, apenas interrompido para um disco de duetos (2014) com Babyface, que de resto volta a colaborar na presente edição. Com uma excepção (“Long As I Live”), faz agora o que sempre fez bem: baladas poderosas, acompanhadas principalmente a piano e cordas. Histórias de amor e desamor (“FOH”, “Sex & Cigarettes”), de arrependimento (“Sorry”) e redenção (“Coping”). A produção mantém aquele tom polido e quiçá demasiado sofisticado, que a coloca num mercado adulto, que talvez não a oiça apenas com puras motivações musicais.

Beach House - 7 ****

Há 12 anos, uma eternidade na pop, que os Beach House estão sozinhos neste som que inventaram. Um duplo feito: ninguém se atreveu a imitá-los; eles próprios conseguiram manter a sonoridade ao longo de sete discos, sem que deles nos cansemos. Pelo contrário, esta sétima aventura chega a ser desarmante. Sabemos, desde o primeiro segundo, que isto só pode ser Beach House, mantemos a vontade de continuar a ouvir, como se da primeira vez se tratasse, e, como recompensa, somos surpreendidos a cada novo capítulo. É verdade que, agora, têm um novo produtor, que valoriza mais a bateria (simbolicamente, é com ela que o disco abre, para nunca mais nos largar), mas não é isso que marca o disco. Antes, a capacidade de reinventar o dueto sintetizador circular / voz planante, em temas que tanto poderiam estar aqui como no primeiro disco (“Lose Your Smile”, “Lemon Glow”), ou outros que talvez só agora sejam possíveis (“Black Car”).

The Arctic Monkeys - Tranquility Base Hotel + Casino **

Os dois primeiros versos do disco definem a coisa: “I just wanted to be one of the Strokes, now look at the mess you made me make”. Poderia ser Alex Turner a descrever o percurso dos Arctic Monkeys, desde a estreia de 2006 (tinha ele 19...) até esta estranha transfiguração pelos terrenos do lounge decadente, que talvez deva mais à sua banda de brincadeira, The Last Shadow Puppets, que à memória de um dos grupos ingleses mais marcantes da última década. Sim, não há aqui punk, derivadas do blues, as guitarras que marcaram a última década da música inglesa. Agora, Alex Turner virou crooner. Ele, que já tinha aquela pose vocal um tanto bowieana, assume-se camaleão, da cabeça aos pés. Reza a lenda que aprendeu a tocar piano, sendo que não se nota muito, funcionando isso mais como metáfora da opção acústica/electrónica da aventura. À primeira audição, estranha-se. Depois, não entranha. Dúvida: a culpa é da opção de fundo, ou da ausência de uma mera uma canção que perdure?

Van Morrison - EDP Cool Jazz 28 julho 2018



O mítico e místico Morrison


Um dos nomes mais importantes do último meio século apresenta-se em Portugal, num momento particularmente fulgurante da sua carreira. Manuel Morgado antecipa a passagem de Van Morrison pelo EDP Cool Jazz

No último ano, em bom rigor, nos últimos nove meses, Van Morrison lançou três discos. Isto, em si, já diria muito sobre o fulgor actual de um músico com mais de cinco décadas de carreia, sete de vida e mais de meia centena de discos gravados. Mas a apreciação quantitativa – três discos em nove meses – diz pouco e poderia até ser depreciativa, quando se nos apresentam três gravações que, como de costume com Van Morrison, estão uns bons furos acima da mediania e são, eles próprios, reveladores do percurso e da marca que este irlandês do mundo deixa na música. Isto porque, desde logo, os três discos organizam-se em torno da matriz de que é composto o seu estilo interpretativo muito peculiar: “Roll With The Punches” vai às raízes blues da América, a que não falta uma mão-cheia de temas assinados pelo próprio; “Versatile” foca-se nos “standards” (Porter, Gershwin), não faltando, mais uma vez, uma boa quantidade de canções assinadas pelo cantor; finalmente, “You’re Driving Me Crazy” é um exercício jazzístico, beneficiando da colaboração com o organista e trompetista Joey DeFrancesco e, adivinharam, mais uma vez com metade das canções assinadas pelo próprio, desta vez canções que já haviam surgido noutros discos. A gravação foi realizada em dois dias e a sonoridade pouco se diferencia de um disco ao vivo. Para que a palete de que se compõe o estilo Morrison ficasse completa ficam a faltar dois discos: um de música celta, outro com canções country.
Essa marca Morrison, por espantoso que hoje nos pareça, surge logo nos primeiros discos a que este natural de Belfast dá voz, com os Them, em 1965, data do seu primeiro e perene sucesso, “Gloria”. E é ainda com os Them que cunha os primeiros sucessos, sejam eles originais (“Mystic Eyes”, “Here Comes The Night”) ou versões (“Baby, Please Don’t Go”). Os seus primeiros discos a solo (“Astral Weeks”, de 1968, e “Moondance”, de 1970) são obrigatórios em qualquer enciclopédia da música pop-rock e consolidam de vez um estilo inconfundível: uma voz bailarina, frequentemente usada como um instrumento em vocalizos improvisados; um acompanhamento instrumental diversificado, quase sempre devedor do blues, e em que pontificam metais, órgão e guitarras e, novamente, o improviso. Essa sonoridade própria, estável mas sempre inquieta em busca de nuances, é a base sobre a qual o músico desenvolve uma postura por vezes acentuadamente mística, conferindo à sua música um carácter espiritual, não confundível com qualquer opção religiosa.
A sua longa carreira acabou se desenvolver nesse registo, sempre com essas constantes estilísticas, mas também sempre em movimento: discos de versões, discos celtas, discos de jazz, discos mais místicos, discos de duetos... E depois os concertos. É ao vivo que a música de Van Morrison encontra o ambiente propício a revelar todas as suas texturas sonoras, na liberdade dos improvisos de palco e da inspiração do momento. “It’s To Late To Stop Now”, de 2016, um CD triplo que junta gravações ao vivo é disso testemunha – ouça-se, por exemplo, “Listen To The Lion”... Não admira que os concertos que têm vindo a realizar nos últimos anos esgotem sempre, um sucesso que contrasta com a modesta performance comercial dos seus discos.

Norah Jones + Benjamim

Há dois anos, com “Day Breaks”, Norah Jones regressou ao princípio: jazz ligeirinho, ou, se quisermos, pop com roupagens de jazz. “Tragedy” é uma espécie de “Sunrise, Sunrise” sem o fulgor da novidade, nem a alegria da juventude. A pianista e cantora decidiu, pois, regressar a paisagens mais seguras e serenas, após uns tempos de aventura pela pop, em “The Fall” (2009) e, especialmente, em “Little Broken Hearts” (2012). É, pois, uma Norah conservadora, esta que agora se nos apresenta, voz em sossego, escondida atrás do piano. O inverso de Benjamim, uma das mais irrequietas vozes da cena portuguesa, tanto que até de nome tem mudado. Nos discos, o mesmo. Após a fase, digamos, parapsicadélica em que se chamava Walter, veio o registo português, em “Autorádio” (2015) e, no ano passado, o registo bilingue e multicultural de “1986”, com Barnaby Keen. Seja o que for que faça em Cascais, será surpreendente.

Jessie Ware + Jordan Rakei

A soul contemporânea é um mundo vibrante e em expansão de nomes e variantes. Jessie Ware, inglesa de Londres, afirmou-se como figura secundária no mundo da electrónica (Sampha, SBTRKT), antes de se lançar numa carreira a solo, que prossegue com segurança, embora sem sucesso comercial muito animador. Dona de uma voz que oscila elegantemente entre o veludo e a projecção firme, tem recorrido a uma vasta panóplia de autores, não tendo ainda acertado no “hit” salvífico. “Glasshouse”, de 2017, é o seu mais recente registo, um conjunto de canções com ADN soul com suaves floreados electrónicos. Jordan Rakei está-lhe nos antípodas, ou não fosse ele neo-zelandês. Multi-instrumentista, compõe, produz e canta, com voz colorida. Nos dois discos que já gravou (“Cloak”, de 2016, e “Wallflower”, de 2017) de revela uma grande amplitude, que vai da abordagem de R&B puro ao reggae ou ao hip-hop, apelando frequentemente à dança.

Belle and Sebastian - How to Solve Our Human Problems ****

Num mundo perfeito, ninguém se atreveria sequer a tentar encontrar defeitos na música dos Belle and Sebastian. Porque, especialmente nos últimos anos, eles fazem um tal esforço para espalhar a alegria que, mesmo que não fique perfeito, o mundo fica sempre um pouco melhor e mais feliz com a sua música. Não há aqui traço de melancolia, daquela doce e encantadora melancolia que tanto nos encantou nas primeiras duas décadas. Nem mesmo em baladas, como “We Were Beautiful”, com o seu fundo de “drum’n’bass”. Não, aqui tudo é positivo, seja quando estilizam o “disco” (“Sweet Dew Lee”), quando se atiram à Motown (“The Same Star” e “Best Friend”), ou quando se ficam pelo simples B&S vintage (“I’ll Be Your Pilot”). Até lhes perdoamos as palermices instrumentais de “Everything Is Now” ou o não menos desconchavada “Cornflakes”. Sim, quando dizem no título que querem resolver todos os nossos problemas, estão a falar a sério e fazem a parte deles. O resto depende de nós.

Janita Salomé - Valsa dos Poetas ***

Canções sobre poetas, canções de poetas, poetas das canções. Janita presta homenagem a alguns dos seus poetas preferidos, com novos e velhos temas, num registo de grande amplitude musical e interpretativa. Se “Bluebird”, poema de Charles Bukovski, surge num blues algures entre, digamos, Nick Cave e Tom Waits, já “Aquela Triste e Leda Madrugada” (Camões) é-nos apresentada num estilo jazzístico. Essa diversidade é assumida e resulta da opção de ter entregue os arranjos dos temas a dois músicos: Mário Delgado (guitarra) e Filipe Raposo (piano). Nos temas revisitados, há uma nova versão de “Não É Fácil o Amor” e outra de José Afonso (“Era um Redondo Vocábulo”). Lugar ainda para olhares mais a sul, com um poema de Ibn Amar. E depois aquela “Vozes do Sul / Carta à Sra. Dª Europa”, em que o próprio Janita se rebela contra os “usurários encartados” que comandam o Velho Continente, e não só. A poesia enquanto arma possível

Mariza - Mariza ****

Um dos segredos do enorme sucesso de Mariza – voz à parte, bem entendido – é o modo com tem sabido utilizar toda a elasticidade do fado, trazendo para o seu território, nem tanto outras sonoridades, mas antes modos de compor e cantar. “Quem Me Dera”, do músico angolano Matias Damásio, é um exemplo extremo desse movimento, ao forçar o convívio do fraseado do fado com as evoluções melódicas típicas das canções românticas. Ou, num plano completamente diferente, “Sou (Rochedo)”, um tema que já não é bem fado, embora tenha sido escrito por um especialista (Jorge Fernando). Neste sétimo disco de originais, Mariza continua, pois, a fazer a ponte entre a tradição revisitada (“Fado Errado”, em dueto com Maria da Fé, numa versão com fundo de flamenco) e a pura novidade (“Por Tanto Te Amar”, de Carolina Deslandes, numa interpretação intimista em que Mariza quase se liberta do fado). O disco marca ainda a estreia da cantora como letrista (“Oração”).

David Fonseca - Radio Gemini ***

David Fonseca assinala 20 anos de carreira – “Silence Becomes It”, o primeiro dos Silence Four, foi lançado em 1998 – com uma homenagem àquela que é (ainda?) a melhor amiga da música: a rádio. Não há sentimentalismos, ou nostalgia, num disco, longo, que se desenvolve em duas frentes: temas curtos, evocativos da rádio, que funcionam como jingles; e canções de formato mais convencional. Os primeiros são pequenos divertimentos, que giram à volta de um ritmo (a dançante “Blah-Blah-Blah”), ou de uma frase (“C’Est Pas Fini”), ou que remetem diretamente para a rádio (leitura de textos e instrumentais, em “A New Wave”). Nas canções propriamente ditas, temos o David Fonseca clássico (a balada “Closer, Stronger”, ou “Oh My Heart”, single evidente), mas atento às tendências dos tops anglo-saxónicos (“Get Up” e “Anyone Can Do It”). Como de costume, David compõe tudo, toca tudo e canta tudo, privilegiando a massa sonora de ritmos e teclas, em detrimento das guitarras e alguma respiração.

Roger Waters, Altice Arena, 20 e 21 de maio


Contra o sistema, cantar cantar Roger Waters passa por Lisboa a meio de uma longa digressão mundial centrada numa leitura fortemente política da obra dos Pink Floyd 

Em “Déjà Vu”, do seu disco mais recente, “Is This the Life We Really Want?” (2017), Roger Waters foi talvez um pouco longe de mais, pelo menos para alguns dos admiradores de sempre dos Pink Floyd (PF): “If I had been God, I believe I could have done a better job” (“Se eu tivesse sido Deus, acredito que teria feito um trabalho melhor”). Especialmente a partir de 1977, com “Animals”, e depois com “The Wall” (1979), os PF transformaram-se numa das mais consistentes vozes críticas daquilo a que poderemos chamar sistema capitalista, numa acepção que extravasa a economia e abarca um vasto conjunto de valores sociais e culturais. Fizeram-no de forma eficaz, não através de cantos revolucionários, mas a partir de dentro, tirando partido de toda a parafernália tecnológica e de marketing proporcionada pela indústria musical, ou seja, pelo capitalismo, ele próprio. Foi também nessa época que consolidaram e deram nova escala a uma forma de espectáculo em que a música surge dramatizada num aparato cénico e audiovisual de grande envergadura e impacto. 
Roger Waters foi o mago por detrás dessa fase, com David Gilmour em claro segundo plano, como tinha sido já ele a pegar no legado psicadélico de Syd Barrett e a dar-lhe um formato de enorme sucesso comercial – “The Dark Side of the Moon” (1973) é ainda hoje um dos discos mais vendidos de sempre. Waters afastou-se dos PF em meados da década de 80, com duas consequências hoje evidentes: sob a batuta de Gilmour, a banda entrou em longa agonia criativa; a sua carreira a solo pouco mais é que uma canibalização dos tempos áureos dos PF. 
Nas últimas três décadas, Waters lançou dois ou três discos com algum interesse e tem embarcado regularmente em digressões em que o prato forte é o acervo dos PF, tendo realizado já diversas encenações de “The Wall”. Agora, aos 75, realiza aquela que será provavelmente a sua derradeira volta ao mundo. Literal, já que a digressão começou há exactamente um ano e promete prolongar-se ainda mais uns meses por todos os continentes. 
São mais de duas horas de espectáculo, passando pelas canções do último disco a solo e por quase todos os grandes sucessos dos PF, numa leitura e alinhamento deliberadamente políticos. O título “Us and Them” remete para a temática da inclusão, tal como foi glosado num discurso de Obama, enquanto que, no polo oposto, Trump sai muito maltratado, especialmente durante o tema “Pigs”. 
Àqueles que – aconteceu... – abandonaram concertos em sinal de protesto com tanta política, responde Waters: “É um tanto surpreendente que alguém ouça as minhas canções dos últimos 50 anos e ainda as não tenha entendido”. É, de facto.

First Aid Kit - Ruins ****

Corações partidos dão belas canções. Eis a enésima constatação dessa maldição da pop, ou de toda a arte, o que certamente nos dará interessantes lições sobre a vida, ela própria. Estas 10 canções são, precisamente, sobre as ruínas de um caso amoroso de uma das irmãs Soderberg e, lá está, terá sido o motivo que as levou a quebrar um silêncio de quatro anos, numa carreira iniciada em 2008. Estamos, claro, perante mais uma banda escandinava, sueca, no caso, que mais parece ter nascido e crescido numa pequena cidade americana. São canções pop de forte raiz folk na composição, a que a instrumentação (pedal steel, etc) conferem uma evidente sonoridade country. “Postcard”, por exemplo, é uma balada simplesmente country, sem rodriguinhos, mas mesmo os dois temas mais comerciais (“Rebel Heart” e “Fireworks”), também devem muito aos esquemas mais tradicionais da música americana. Como as próprias harmonias vocais das irmãs, marca de água da banda.

Frankie Cosmos - Vessel *****

“Duet” é a canção de amor que Scarlett Johansson gostaria de cantar, naquela voz sussurrada horizontal. “The End”, no seu minuto e meio de vozes femininas sobre fundo de dedilhar acústico, poderia integrar uma das melhores colecções dos Magnetic Fields. “Cafeteria” é punk, como punk é também “Being Alive”. Guitarras dos 90, em “Accommodate”, sons etéreos em “My Phone”... E poderíamos continuar, já que, em 33 minutos, Greta Kline consegue mostrar-nos 18 canções, muitas delas quase meros esboços (“Ur Up”, 36 segundos), e apenas 7 delas com mais de dois minutos. Greta Kline, a autora, cantora e intérprete de tudo isto, numa banda de quatro com três convidados, é simplesmente genial. Não apenas porque faz tudo isto aos 24 – terceiro disco, mas o primeiro numa editora a sério, após muitas edições caseiras – mas especialmente pelo modo como o faz: Nova Iorque volta a ser a cidade onde tudo é possível, desde as banais aventuras no metro, às mais surpreendentes descobertas interiores.