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Tindersticks - No Treasure But Hope ****

A primeira canção do disco chama-se “For The Beauty”, mas é à quarta que quase apetece chorar de tanta beleza. “Pinky in the Daylight” é talvez a mais luminosa, esperançosa, amorosa, dengosa – sim, maravilhosa! – canção dos Tindersticks. Tem coros lindos, violinos afinados, pandeiretas ritmadas e até umas leves sonoridades gregas, a evocar os dias, certamente alegres, que Stuart Staples preguiçou a compor na ilha de Ítaca. Depois, como que para garantir o tom romântico da aventura, os dez temas foram gravados, de uma assentada, em Paris. Há aqui canções, como a auto-explicativa “The Amputees”, ou a enganadora “See My Girls”, a atestar que estamos em território de dúvida e angústia, mas “Take Care of Your Dreams” funciona como um sincero incentivo para que deixemos as dores para trás e não temamos olhar a beleza de frente. Em suma, um disco em que damos connosco a cantarolar, talvez dançar, com “Tough Love”, mas que ainda é Tindersticks. É estranho, mas é bom.

Tindersticks - The Wainting Room ****

As canções dos Tindersticks dividem-se em duas categorias: as que são bandas sonoras, especialmente dos filmes de Claire Denis, e as que são filmes elas próprias, que contam histórias de forma cinematográfica. Neste disco, as canções ocupam as duas categorias. Ouvimo-las enquanto curtas metragens, mas podemos vê-las nos pequenos filmes, de vários realizadores, inspirados nas canções e publicados numa edição especial do disco. Mas fiquemo-nos pela música. Há uma canção ("We Are Dreamers!"), que sobe directamente ao top das melhores da banda - um dueto, de enorme tensão, com Jehnny Beth (The Savages); outro dueto, este diferido no tempo e em registo contemplativo, com Lhasa de Sela ("Hey Lucinda"); e ainda uma estreia, um tema de grande influência afro ("Help Yourself"). O resto é, ainda e sempre, Stuart Staples em grande forma. Uma bela celebração do 25.º aniversário dos Tindersticks.

Tindersticks no Coliseu


Os Tindersticks estão em fase comemorativa e Portugal não poderia faltar à festa. Esta é mais uma daquelas relações que a razão não consegue explicar. Talvez a melancolia doce que atravessa todas as suas canções. 2013 é o ano do 21.º aniversário da banda (20.º do primeiro disco) e a data, redonda ou nem por isso, está a ser aproveitada para uma revisitação ao passado, traduzida num disco, Across Six Leap Years, com reinterpretações de temas de toda a carreira, mas especialmente dos primeiros anos. O disco, reconheça-se, não é nada de especial. Não se trata de um best of, a selecção de canções é relativamente aleatória e, acima de tudo, as novas interpretações não trazem nada de especialmente novo. É claro que a voz de Stuart Staples está em grande forma (alguma vez não esteve?), e que os arranjos são, como sempre, de uma elegância irrepreensível. Mas isso é o que esperamos dos Tindersticks. Especialmente depois de The Something Rain (2012), um dos seus melhores discos, esperava-se mais garra. Esse disco é o guião central da digressão que agora passa por Lisboa, o que não deixa de ser paradoxal, visto que as reinterpretações se socorrem abundantemente dos naipes de cordas (e amiúde dos metais), que, obviamente, não estarão no Coliseu. Mas a verdade é que tudo isso acaba por ser irrelevante - estamos perante uma banda que nunca desilude em palco. Muito menos os portugueses.

Tindersticks - The Something Rain ****

De certa forma, este é um exercício de virtuosismo. Um disco que começa com uma tema declamado de nove minutos, que encerra com um instrumental e que, pelo meio, tem noturnos lânguidos a sério, música quase de feira, R&B e coros roubados a Leonard Cohen. Uma salgalhada? Nada disso, e aí reside o segredo e outra face do virtuosismo deste exercício – estamos perante a pura elegância de sempre dos Tindersticks e fica claro que a amplitude conceptual do disco radica numa liberdade estética que só a maturidade confere. “Come Inside” espraia-se sem fim à vista, enquanto “Slippin’ Shoes” ataca a noite por outro ângulo, o dos cabarets, e “This Fire Of Autumn” ou “Medicine” quase mereciam os tops.

Tindersticks


Sim, preparem-se para uma declamação de dez minutos, acompanhada por teclas e guitarras, essencialmente. É o tema de abertura do novo disco dos Tindersticks e, apesar de os mais antigos acharem que soa a “Atlantis”, do Donovan, a história contada por David Boutler lembra mais a comédia de equívocos sexuais de “Lola”, dos Kinks. Uma história bem humorada, coisa rara na banda de Nottingham. O resto, já sabem, fica entregue a Stuart Staples e à sua característica voz de barítono com um ligeiro (às vezes, mais que ligeiro...) trémulo. Esta nova passagem dos Tindersticks pelo burgo destina-se, essencialmente, a apresentar “The Something Rain”, uma edição já deste ano, em que a banda se espraia por latitudes musicais muito diversas. Claro que a toada dominante é a nocturna, com temas de uma marcada placidez (“A Night So Still”), mas os corpos talvez não resistam ao apelo R&B de “This Fire Of Autumn” e muito menos à batida mais evidente de “Frozen”. Muito provavelmente, faltarão em Lisboa os deliciosos coros femininos à la Cohen que pontuam o disco, ou mesmo alguns deliciosos apontamentos de cordas e metais. Fica, pois, uma banda de teclas e guitarras, afinal de contas a marca desta segunda encarnação da banda.