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Van Morrison - Three Chords and the Truth ****

Van Morrison é um caso raro. Um caso sério. Desde logo porque, tendo ele inventado um estilo muito próprio – aquela mistura de blues, gospel, country, jazz, música celta – parece ter inventado também o antidoto para a monotonia e o aborrecimento. Ao fim de centenas e centenas de canções, continuamos com a agradável sensação de que é tudo novo, tudo excitante como da primeira vez. Se tivermos em conta que, aos 74, já leva com 41 discos gravados, seis dos quais nos últimos quatro anos (belíssima coleção de standards dos blues, jazz ou soul), a admiração é ainda maior. Este registo é composto por 14 originais em nome próprio e um em coautoria. À habitual mestria vocal e instrumentação exuberante (destaque para o órgão, as guitarras e o baixo), junta-se uma arte de composição de recorte clássico e sofisticado. “Nobody in Charge”ou “Does Love Conquer All?”, por exemplo, demonstram tudo isso. O resto não lhe fica atrás.

Van Morrison - EDP Cool Jazz 28 julho 2018



O mítico e místico Morrison


Um dos nomes mais importantes do último meio século apresenta-se em Portugal, num momento particularmente fulgurante da sua carreira. Manuel Morgado antecipa a passagem de Van Morrison pelo EDP Cool Jazz

No último ano, em bom rigor, nos últimos nove meses, Van Morrison lançou três discos. Isto, em si, já diria muito sobre o fulgor actual de um músico com mais de cinco décadas de carreia, sete de vida e mais de meia centena de discos gravados. Mas a apreciação quantitativa – três discos em nove meses – diz pouco e poderia até ser depreciativa, quando se nos apresentam três gravações que, como de costume com Van Morrison, estão uns bons furos acima da mediania e são, eles próprios, reveladores do percurso e da marca que este irlandês do mundo deixa na música. Isto porque, desde logo, os três discos organizam-se em torno da matriz de que é composto o seu estilo interpretativo muito peculiar: “Roll With The Punches” vai às raízes blues da América, a que não falta uma mão-cheia de temas assinados pelo próprio; “Versatile” foca-se nos “standards” (Porter, Gershwin), não faltando, mais uma vez, uma boa quantidade de canções assinadas pelo cantor; finalmente, “You’re Driving Me Crazy” é um exercício jazzístico, beneficiando da colaboração com o organista e trompetista Joey DeFrancesco e, adivinharam, mais uma vez com metade das canções assinadas pelo próprio, desta vez canções que já haviam surgido noutros discos. A gravação foi realizada em dois dias e a sonoridade pouco se diferencia de um disco ao vivo. Para que a palete de que se compõe o estilo Morrison ficasse completa ficam a faltar dois discos: um de música celta, outro com canções country.
Essa marca Morrison, por espantoso que hoje nos pareça, surge logo nos primeiros discos a que este natural de Belfast dá voz, com os Them, em 1965, data do seu primeiro e perene sucesso, “Gloria”. E é ainda com os Them que cunha os primeiros sucessos, sejam eles originais (“Mystic Eyes”, “Here Comes The Night”) ou versões (“Baby, Please Don’t Go”). Os seus primeiros discos a solo (“Astral Weeks”, de 1968, e “Moondance”, de 1970) são obrigatórios em qualquer enciclopédia da música pop-rock e consolidam de vez um estilo inconfundível: uma voz bailarina, frequentemente usada como um instrumento em vocalizos improvisados; um acompanhamento instrumental diversificado, quase sempre devedor do blues, e em que pontificam metais, órgão e guitarras e, novamente, o improviso. Essa sonoridade própria, estável mas sempre inquieta em busca de nuances, é a base sobre a qual o músico desenvolve uma postura por vezes acentuadamente mística, conferindo à sua música um carácter espiritual, não confundível com qualquer opção religiosa.
A sua longa carreira acabou se desenvolver nesse registo, sempre com essas constantes estilísticas, mas também sempre em movimento: discos de versões, discos celtas, discos de jazz, discos mais místicos, discos de duetos... E depois os concertos. É ao vivo que a música de Van Morrison encontra o ambiente propício a revelar todas as suas texturas sonoras, na liberdade dos improvisos de palco e da inspiração do momento. “It’s To Late To Stop Now”, de 2016, um CD triplo que junta gravações ao vivo é disso testemunha – ouça-se, por exemplo, “Listen To The Lion”... Não admira que os concertos que têm vindo a realizar nos últimos anos esgotem sempre, um sucesso que contrasta com a modesta performance comercial dos seus discos.

Norah Jones + Benjamim

Há dois anos, com “Day Breaks”, Norah Jones regressou ao princípio: jazz ligeirinho, ou, se quisermos, pop com roupagens de jazz. “Tragedy” é uma espécie de “Sunrise, Sunrise” sem o fulgor da novidade, nem a alegria da juventude. A pianista e cantora decidiu, pois, regressar a paisagens mais seguras e serenas, após uns tempos de aventura pela pop, em “The Fall” (2009) e, especialmente, em “Little Broken Hearts” (2012). É, pois, uma Norah conservadora, esta que agora se nos apresenta, voz em sossego, escondida atrás do piano. O inverso de Benjamim, uma das mais irrequietas vozes da cena portuguesa, tanto que até de nome tem mudado. Nos discos, o mesmo. Após a fase, digamos, parapsicadélica em que se chamava Walter, veio o registo português, em “Autorádio” (2015) e, no ano passado, o registo bilingue e multicultural de “1986”, com Barnaby Keen. Seja o que for que faça em Cascais, será surpreendente.

Jessie Ware + Jordan Rakei

A soul contemporânea é um mundo vibrante e em expansão de nomes e variantes. Jessie Ware, inglesa de Londres, afirmou-se como figura secundária no mundo da electrónica (Sampha, SBTRKT), antes de se lançar numa carreira a solo, que prossegue com segurança, embora sem sucesso comercial muito animador. Dona de uma voz que oscila elegantemente entre o veludo e a projecção firme, tem recorrido a uma vasta panóplia de autores, não tendo ainda acertado no “hit” salvífico. “Glasshouse”, de 2017, é o seu mais recente registo, um conjunto de canções com ADN soul com suaves floreados electrónicos. Jordan Rakei está-lhe nos antípodas, ou não fosse ele neo-zelandês. Multi-instrumentista, compõe, produz e canta, com voz colorida. Nos dois discos que já gravou (“Cloak”, de 2016, e “Wallflower”, de 2017) de revela uma grande amplitude, que vai da abordagem de R&B puro ao reggae ou ao hip-hop, apelando frequentemente à dança.

Van Morrison - Versatile ****

Há pessoas, músicos também, que estão sempre lá, dos quais só nos lembramos muito de vez em quando, mas que estão sempre lá. Para o melhor e para o pior. Van Morrison é um desses músicos. Em 53 anos (!) de carreira, não há um disco seu que seja mau, ou até sofrível. E são muitos, quase 40, se não contarmos com os dos Them, no início de carreira. Todos discos acima da média, sempre disponíveis para que os ouçamos, resistentes às modas, perenes que nem rochedos. Van Morrison inventou um estilo, uma vocalização meio declamada meio improvisada, que espraia sobre orquestrações que tanto devem ao jazz, como ao blues e à música celta. Os últimos CD são quase excepção: este é só jazz, o anterior, de finais de 2017, era quase só R&B e blues. Dois terços de standards (Gershwin, Porter) , um terço de originais, sem surpresas, apenas o regular Morrison e um septeto com metais em destaque. Ou seja, a velha rotina, entre o bom e o muito bom.

Van Morrison - Duets ***

Discos de duetos tipo chuva de estrelas raramente resultam. Talvez pelo cerimonial associado, talvez porque todos se sentem na necessidade de demonstrar que estão ali por uma razão, resultando daí uma boa dose de artificialismo. A incursão de Van Morrison por esse território não é a excepção que confirma a regra. O melhor do disco ainda são as canções, todas da zona menos conhecida da obra de Morrison... e a voz do próprio. Aliás, com alguma dose de maldade, poder-se-ia concluir que engendrou este plano apenas para demonstrar a sua superioridade face a muitos dos convidados. Claro que Mavis Staples, Bobby Womack, ou mesmo Michael Bublé, por exemplo, fazem (bem) o que deles se espera. Na verdade, nem são eles, os convidados, o que mais desilude, mas sim o tom demasiado ligeiro das abordagens musicais, bem longe da intensidade blues e folk que associamos a Morrison e que, aqui, quase só a sua voz transmite.