Ah, as agruras e belezas e contradições do amor. Poemas e poemas disto, livros, tratados e discos. Muitos discos. Joan Wasser, aka Police Woman, não faz outra coisa, há 12 anos e cinco discos, seis com este que agora se apresenta. “I’m told that wounds are where the light gets in”, canta Joan em “The Silence”, parafraseado Cohen, e fica feita a declaração de princípios sobre as águas em que se movem estas 12 canções. E se na temática tudo se mantém igual, já na frente estilística esta edição representa um regresso às orquestrações densas, pastosas, indolentes, depois da intensa luminosidade soul de “The Classic”, de 2014. A electrónica é o cimento que tudo agrega, quase rivalizando com a secção rítmica, em movimentos pendulares entre a recitação compassada e descargas catárticas (“Valid Jagger”). Sobre tudo isto, a voz, ou melhor, as vozes de Joan, em registos de uma elasticidade pouco comum na pop.
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Joan As Police Woman - The Classic ****
Deitar fora todos os demónios e dar espaço a um amor monumental, canta Joan Wasser em "The Classic", o tema central deste seu quarto disco. E este é verdadeiramente um tempo de ruptura com a pesada melancolia que assombrava amiúde os registos anteriores - conferir, por exemplo, "Forever And A Year", do CD de 2011 (The Deep Field). Agora, pelo contrário, tudo é luz, vibração, esperança. A memória da Motown serve de veículo perfeito para o transporte de toda esta alegria ao longo de dez temas, alguns deles fazendo perdurar a festa para lá dos seis minutos - "Good Together", excelente na forma como acumula a tensão que acabará por se descontrolar na longa recta final, numa metódica exorcização da "nostalgia daquilo que nunca houve". Soul de excelência, com um swing danado, ouve-se ainda em "Holy City", ou no assumido revivalismo doo-woop de "The Classic" (deliciosa, a citação de "Respect", de Aretha Franklin). E mesmo as baladas, como "Stay" ou "New Year's Day", inclinam-se mais para uma toada zen do que para a fatalidade de outros tempos. Uma mudança de rumo agradavelmente desconcertante, a demonstrar uma enorme segurança na composição, mas especialmente na conceptualização e na interpretação.
Joan As Police Woman
A polícia volta sempre ao local do crime. Joan esteve no Lux em Outubro de 2009, acompanhada do multifacetado Timo Ellis e de um gravador de cassetes, para interpretar basicamente temas de um EP de circulação limitada, Cover, disco de versões, pois claro. E uma das curiosidades deste regresso ao local do crime é saber se agora, completamente a solo (o gravador não avisou se vinha), teremos direito a alguma revisitação de Bowie, Public Enemy, Hendrix ou... Britney Spears. Interessante, na medida em que seria uma espécie de re-revisitação, em registo piano e voz, tal como anunciado. Certo, certo é que esta apresentação a solo basear-se-á essencialmente no último disco, The Deep Field (2011), por sinal aquele em que houve maior preocupação de vestir as canções. É um disco bem mais luminoso que os dois iniciais de Joan As A Police Woman (Real Life, de 2006, e To Survive, de 2008), ambos marcados por sombras de tragédias familiares. Para a luz da obra mais recente muito contribui o trabalho colectivo dos músicos, acompanhando uma radical assunção da veia soul de Joan Wasser (ouça-se, por exemplo, “Chemmie”.) Se é fácil imaginar a encenação a solo de uma balada clássica como “Forever And A Year”, já a passagem a piano e voz do funk de “Run For Love” pode ser uma manobra surpreendente. O mais certo é que, mesmo só com piano, os corpos se deixem electrizar pela descaradamente pop “The Magic”, afinal o lado mais comercial de Joan.
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