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Márcia - Quarto Crescente ****

"A Insatisfação" é certamente uma das canções mais bonitas dos últimos anos da música portuguesa. Com todo o peso que a palavra "bonita" transporta, ou seja, o lado ligeiro do belo. Na verdade, pop do bom: música alegre, quase dançante, instrumentos cristalinos (belíssimos, os sublinhados de guitarra ou de percussão), um coro sublime. E, no entanto, não deixa de ser uma canção triste, que a letra não a deixa mentir. E todo o disco é um pouco assim, um paradoxo de música luminosa cruzada com reflexões e sentimentos melancólicos, marca de água da autora. A produção de Dadi Carvalho (Marisa Monte, Caetano) será a principal responsável por puxar a música para o lado solar, embora passando sempre ao largo de tentações tropicalistas, nem mesmo no dueto com Criolo, em "Linha de Ferro". Com um extrema, mas certeira, delicadeza, a base hip-hop da generalidade das canções é sublinhada por apontamentos de coros, guitarras, teclas, percussões. Um disco belo e seguro.

Márcia - Dá ****

As frases feitas existem para serem usadas. Eis então: primeiro estranha-se, depois entranha-se. A canção inicial causa uma sensação esquisita: a voz cai para o sopinha de massa, as sílabas, ora se atropelam, ora, comidas, desaparecem. Uma contrariedade.
A cada canção, habituamo-nos à ideia. Percebemos que a voz frágil foi incorporada no estilo e o único (?) lamento é nem sempre percebermos o que canta Márcia. Até porque pressentimos poemas lindos.
O resto é muito bom. Especialmente, o trabalho de ourivesaria com que cada canção é vestida, longe da voz/guitarra do EP de estreia (2009). Ou não estivessem na produção e em colaborações diversas alguns dos nomes de relevo da novíssima música portuguesa (Real Combo, Walter Benjamin, B. Fachada…).
O resultado é um trabalho de grande sensibilidade, do qual, no entanto, é necessário aprender a gostar. Chamar-lhe a Carla Bruni portuguesa é redutor, mas ajuda a situar a ideia.