Charles Aznavour

O último adeus ao século XX

Aznavour anda a despedir-se do mundo. Um adeus a uma certa forma de viver a música, conta Manuel Morgado

O concerto que Charles Aznavour vai dar esta semana em Lisboa, mais que um adeus ao artista, constitui uma autêntica despedida ao século XX. Não apenas, nem principalmente, à música desse século, mas a um certo modo de viver e fazer a música.
Aznavour é do tempo da rádio, dos discos de vinil e dos espectáculos ao vivo, suados, teatro atrás de teatro. Mas é também de um tempo em que a indústria musical ainda nem sequer existia. Ou, quando passou a existir, se dirigia a um público adulto. Aznavour não é deste tempo do vídeo, dos tops, das superproduções, da juvenilização de toda a cultura de massas.
Já em 1966, estavam os Beatles nos tops abrindo caminho à massificação, Aznavour escrevia, em “La Bohéme”, aquela que se tornaria um dos seus hinos: “falo de um tempo que os menores de vinte anos não podem conhecer…”. E isto foi há 40 anos.
A digressão mundial que iniciou há dois anos, que promete prolongar por mais dois ou três se a saúde permitir, e que a imprensa gosta de apresentar como “de despedida” (ele prefere dizer que se trata, apenas, da última digressão mundial, não de um adeus), é, assim, um exercício de nostalgia para a grande maioria e uma aventura quase arqueológica para os que quiserem arriscar. E olhem que não há por aí mais Sinatras, Bécauds ou Amálias para mostrarem como era…
Numa entrevista que deu há dias a Judite de Sousa (RTP), na qual confessou a sua paixão pelo “tom anilado” que torna único o céu de Lisboa, o cantor francês falou das suas influências: Piaf (e Amália e… Janis Joplin), pela maneira como encarnaram personagens musicais, Charles Trenet, pela música ela própria, e Maurice Chevalier, pela forma como se afirmou internacionalmente.
Na mesma entrevista, distinguiu muito claramente o que é o seu trabalho quotidiano e disciplinado, ou seja, a composição, daquilo que é um verdadeiro prazer, as actuações ao vivo.
Nascido em Paris, há 83 anos, numa família de artistas de origem arménia, Aznavour mergulhou muito cedo no mundo da música e do teatro. Em seis décadas de carreira, escreveu quase mil canções, vendeu mais de 100 milhões de discos, participou em dezenas de filmes (Tirez Sur Le Pianiste, de Truffaut, por exemplo) e fez digressões à volta do mundo que duraram anos. Em Portugal, actuou meia dúzia de vezes, a última das quais, há três décadas, no antigo Cinema Monumental, o que é bem revelador do divórcio do burgo em relação à música de raiz latina. Quantos, mesmo de entre os seus fãs, saberão que tem uma canção chamada “Lisboa” no disco Je Voyage, lançado em 2003?
A sua ligação a Portugal faz-se principalmente através de Amália, que conhece na Bélgica e de quem se tornou amigo. Foi para ela que escreveu “Ay Mourir Pour Toi”, como escrevera tantas canções para Piaf (com quem cultivou uma amizade que alguns garantem ter sido mais que isso), Juliette Greco e tantos outros artistas. Em plenos anos 60, já com a chamada chanson em declínio, esteve nos tops de própria voz, com “Que C’Est Triste Venise”, e através de Sylvie Vartan (“La Plus Belle Pour Aller Danser”) e Johnny Hallyday (“Retiens La Nuit”). Ou seja, não abdicando do seu próprio estilo, adaptou-se com relativa facilidade aos tempos que corriam. Mesmo os menos à música não anglo-saxónica deverão conhecer “She”, celebrizada por Elvis Costello na banda sonora de Notting Hill.
A mesma coisa quanto aos temas das canções. É claro que o amor parece ser dominante, mas a ecologia, os hábitos de vida, ou os direitos humanos estão presentes em muitas das suas composições, principalmente nos tempos mais recentes. E levou essas preocupações para um terreno mais prático, por exemplo, criando um fundo para ajudar a Arménia devastada pelo sismo de 1988.
Há três anos, por alturas do seu 80.º aniversário, multiplicaram-se as reedições e o lançamento de colectâneas, com alinhamentos não muito diversos do espectáculo que traz a Lisboa. Em plena forma artística, garante que não tem medo da morte, apenas não gostaria de morrer, e que se sentirá satisfeito se for recordado por duas canções. A sua preferido é “Sa Jeunesse”, escrita nos tempos de juventude.

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